quinta-feira, 20 de abril de 2017

RESENHA: O Fantasma

“A prisão é pior que a morte, Harry. A morte é simples, liberta a alma. Mas a prisão corrói a alma até não sobrar mais nada de humano dentro de você. Até você se tornar um fantasma.” (NESBØ, 2017, p. 124)

Acompanho a série Harry Hole há anos e há muito tempo tenho uma curiosidade especial por este nono livro, “O Fantasma”, por acreditar que ele traria o caso mais pessoal da jornada do personagem.

Harry Hole está de volta a Oslo. Após uma temporada de três anos em Hong Kong, longe do vício, afastado da polícia e trabalhando como cobrador de dívidas, o ex-inspetor volta a Noruega para solucionar um caso já fechado pela polícia: o assassinato de um jovem traficante de drogas, Gusto Hanssen. Sem recursos oficiais, Harry parte em sua própria investigação pois se recusa acreditar que a polícia tenha encontrado o verdadeiro culpado pelo crime já que Oleg, o filho de Rakel, a mulher por quem Harry é apaixonado há anos, jamais poderia ser um assassino.

Sempre digo que o grande atrativo da série Harry Hole é o próprio Harry Hole, mais que os casos que investiga. Quem acompanha a série desde o início sabe que o personagem passa por um processo de evolução de livro para livro e que uma grande parte dessa evolução gira em torno de Rakel, a mulher por quem ele se apaixonou no terceiro livro (“Garganta Vermelha”) e com quem teve um romance cheio de idas e vindas e que nunca é deixado totalmente para trás. Nesse processo o leitor conheceu Oleg criança e o viu crescer, assim como testemunhou a evolução do relacionamento deste com Harry, que acabou por se tornar uma figura paterna para o menino. Por isso, é também surpreendente para o leitor encontrar um Oleg aos 18 anos, dentro de uma cela de prisão, acusado de ter assassinado um amigo, viciado e traficante de uma nova droga chamada “violino”. Eu acreditava que esse cenário perturbaria Harry ao extremo, afinal, ele nunca foi um homem de temperamento fácil, então me surpreendeu ver a maneira objetiva com a qual ele lidou com o caso, mesmo sem nunca deixar de lado uma de suas principais características: a incapacidade de não se envolver, de deixar para trás, de não se entregar de corpo e alma ao que faz.

Como sempre nos livros de Nesbø, a história avança sem pressa. Nesse caso em específico, isso se justifica por Harry não ter um compromisso com a polícia. Ninguém está cobrando que o caso seja solucionado, ele está investigando por interesse próprio.

Além da tradicional narrativa em terceira pessoa, acompanhamos a história também pelo ponto de vista de Gusto, o jovem assassinado. Quando a narrativa inicia, Gusto já levou o tiro fatal, mas ainda não morreu e durante esse período repassa a evolução do seu envolvimento com o violino. É através dessa história que podemos entender o que aconteceu com Oleg e como ele mesmo acabou envolvido com drogas, colocando uma nova camada sob um personagem que, até então, era apenas o menino que Harry aprendera a amar como a um filho.

O vício sempre foi uma temática presente nos livros da série, mas “O Fantasma” (curiosamente o livro em que Harry mais tem o alcoolismo sob controle) é aquele em que Nesbø realmente centra a trama no tema. Não apenas acompanhamos a jornada de Gusto e Oleg desde os primeiros passos rumo ao vício e ao tráfico, como também vemos o que o vício movimenta na cidade, como influencia as ambições políticas e como corrompe policiais em busca de lucro e poder.

Também é interessante que Harry, momentaneamente livre do seu vício, se veja na posição de testemunhar o início da queda de uma pessoa amada rumo ao precipício que ele tanto conhece.

“O Fantasma” traz o desfecho mais corajoso da série, deixando em alta as minhas expectativas para o próximo livro “Polícia” (ainda sem previsão de lançamento pela editora Record). Há anos li uma entrevista de Nesbø em que o autor revelava não pretender estender a história de Harry Hole por muitos livros (depois de “O Fantasma” outros dois já foram publicados) e a cada trama fica mais difícil imaginar o que o futuro reserva para o personagem e, mais difícil ainda, vê-lo em uma vida feliz e realizada (o que, diga-se de passagem, é parte do que o torna tão cativante).

Desde que li “Boneco de Neve” espero por histórias eletrizantes quando pego os livros da série, e às vezes bate uma pontinha de decepção por não encontrar isso. Mas essa pontinha logo se dissipa porque mais que uma história que você mal consegue respirar entre uma página e outra, o que Nesbø jamais falha em entregar são histórias bem amarradas, surpreendentes e verossímeis que quando o leitor fecha o livro se sente sempre satisfeito.

Título: O Fantasma
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 461
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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8 comentários:

Nessa disse...

Oi Mari
Eu li um livro do autor, foi Sangue na neve, era curtinho, mas eu gostei bastante e não vejo a hora de ler outro livro do autor. Pelo que vi na sua resenha o autor continua numa escrita afiada e envolvente. Preciso logo ler esta série.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Adriana Holanda Tavares disse...

Nunca li nada dele, portanto fico meio perdida quando se trata de acompanhar o personagem principal e sua evolução diante das outras obras, isso me parece super interessante e bem concreto. Vou começar a série pra poder entender melhor!

Jônatas Amaral disse...

Olá Mari,

Ainda não li nada do autor, mas recentemente tomei contato com ele por meio da noticia de que o livro "O boneco Fantasma" ganharia uma adaptação para o cinema. Não sabia que esse era o primeiro livro de uma série, e ainda mais de um gênero que gosto tanto!

Gostei muito da resenha!

Jônatas Amaral
alma-critica.blogspot.com.br

Marília Leocádio disse...

Já tinha lido a respeito da escrita do autor e conseguiu me conquistar aos poucos agora quero ver se começo a ler a série.
Abraços!!

RUDYNALVA disse...

Mari!
Nãi tive oportunidade nenhuma de ler os livros da série e tenho muita curiosidade, tanto de conhecer a escrita do Nesbo como conhecer toda a trajetória do investigador Harry Hole.
Bom feriado!
“Compreender que há outros pontos de vista é o início da sabedoria.” (Campbell)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Franciele de Santana disse...

Ainda não conhecia a série, interessante como foi abordado a movimentação que vício causa,e que o autor sempre entrega uma história bem amarradinha satisfazendo o leitor.

Gabriela CZ disse...

Já vi algumas resenhas suas dessa série, Mari. Sempre fico com a sensação de que é uma série que eu leria, mas com essa sei que vou ler. Não sei quando, mas vou. Ótima resenha.

Beijos!

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!!

Confesso que ainda não tive a oportunidade de ler Nesbø, mas tenho muita curiosidade em conferir essa série que é sempre muito elogiada.

O único problema agora é conseguir os livros e tempo extra para lê-los! Hahahaha

Bjs!

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

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