segunda-feira, 24 de julho de 2017

Conversa de Contracapa # 36

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Recentemente li uma reportagem da Revista Época intitulada “Com o tempo que você gasta em redes sociais, poderia ler 200 livros por ano”. O enfoque da matéria não era exatamente o que eu esperava, pois, na verdade, ela discorre sobre a experiência de Charles Chu em sua busca por ler mais livros e como se planejar para alcançar metas audaciosas.

Charles se dispôs a ler mais livros por causa da frase do investidor Warren Bufet que, ao ser indagado sobre a chave do sucesso, respondeu: “Leia 500 páginas por dia. É assim que o conhecimento funciona. Ele se acumula, como juros compostos. Todos vocês podem fazer isso, mas garanto que não são muitos que farão”. Motivado pela lição de Buffet, Charles leu quatrocentos livros em dois anos.

Apesar de ser louvável a iniciativa de Buffet em incentivar as pessoas a desenvolverem o hábito da leitura, me parece que a meta de 500 páginas por dia é contraproducente. Não estou aqui questionando a premissa de que o conhecimento se acumula, mas será que toda essa informação é efetivamente assimilada?

A partir da minha experiência como estudante e concurseiro, creio que até seja possível ler 500 páginas de um livro em um dia, porém, me parece extremamente improvável que todo o conteúdo lido será apreendido. Isso por que o processo de compreensão é muito mais lento e custoso que o processo de leitura. E mais: de que adianta seguir a leitura apenas para bater a meta, se o conteúdo anterior não foi plenamente compreendido, o que tornará ainda mais difícil o entendimento da matéria seguinte? Afinal, se conhecimento se acumula, é preciso construí-lo com esmero, caso contrário, a construção não irá se sustentar.

E quanto a livros de ficção? Será que a leitura de 500 páginas por dia se mostra viável? Mais uma vez, me parece que a façanha até seja possível, mas ela virá com um preço. A meu ver, literatura é arte que deve ser sentida e seu objetivo é entreter, emocionar, impactar, alegrar, provocar, ensinar, questionar, entre tantos outros. Assim, se leio com os olhos no número de páginas lidas, acabo por não dar espaço para que o livro ganhe vida e significado. O ato de ler se tornou mecânico. Apenas mais uma tarefa completada em uma longa lista de afazeres.

Entretanto, apesar de discordar severamente da meta sugerida na reportagem, é preciso concordar com o fato de que desperdiçamos tempo em atividades desnecessárias. Um dado assombroso citado é que o americano gasta em média 608 horas em redes sociais e 1642 horas em frente à televisão por ano, sendo que com este tempo seria possível ler mais de mil livros.

A meu ver, Charles Chu é muito enfático ao afirmar que estas 2250 horas são “gastas com lixo”. É preciso observar que filmes, documentários e séries também são uma forma de arte, tendo os mesmos objetivos que a literatura. Além disso, tais mídias igualmente são uma fonte de conhecimento, de modo que não devem ser desprezadas somente por seu formato. As redes sociais também têm seu aspecto positivo, pois podem nos aproximar de familiares e amigos.

Mas a verdade inegável é que todos nós já desperdiçamos tempo que poderia ter sido melhor utilizado. Que atire a primeira pedra quem nunca ficou de bobeira no Facebook, vendo vídeos aleatórios no YouTube ou assistindo um filme qualquer por que não tinha nada melhor para fazer. Então, realmente podemos otimizar nosso tempo e investi-lo em atividades mais produtivas e significativas, como a leitura.

Creio que seja preciso aprender a gerir melhor o tempo, mas o meio para se fazer isso não são metas exageradas, que apenas desvirtuam a finalidade da literatura. Desse modo, cabe a cada leitor averiguar seus hábitos e tentar identificar o que poderia ser mudado em sua rotina. Mas tendo em mente que não somos máquinas e que a arte, em todas as suas formas, existe para ser apreciada.

Se você gostou do assunto e quer continuar a reflexão, permita-me sugerir a Conversa de Contracapa em que falo sobre "Slow Reading".


11 comentários:

Lana Silva disse...

De forma geral, odeio quando um tema ou assunto seja generalizado, onde todos somos julgados da mesma forma, dizer que todos somos capazes de ler 500 páginas por dia e algo bastante audacioso não acha? Já que cada um possui um processo, uma forma de ler e aprender, e conseguir assimilar o que e descrito, e vai depender de pessoa para pessoa, e pela sua experiencia de vida. Eu por exemplo odeio ler um livro em apenas um dia, gosto de ir assimilando aos poucos dependendo da estória e conteúdo, mas se for algo didático prefiro ler e reler várias vezes. Outro ponto e que temos que abrir mão de horas onde não temos nada para fazer para conseguir ler muitos livros, deixar de entrar na rede social, ou até mesmo assistir ao filme.

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Carolina Garcia disse...

Olá, Alê!!
Tudo bem?

Achei super interessante você trazer essa discussão. Até porque eu odeio metas nesse sentido. Concordo totalmente com você que se deve aproveitar o livro e ler no seu ritmo - às vezes você naturalmente lê mais rápido dependendo do título.

A gente já tem meta para alcançar no trabalho e nos estudos. Então, para que tornar a leitura uma obrigação também, né? Temos que ter algum momento de lazer pelo menos.

Bjs!!

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Marta Izabel disse...

Oi, Alê!
Gostei bastante da postagem e acho bem interessante essa discussão quanto tempo passamos na rede sociais, realmente acho que gasto muito tempo nas redes e as vezes esse tempo pode ser convertido para fazer outras coisas como por exemplo ler, mas não acho que eu necessariamente precise ler 500 páginas!!
Beijoss

Gabriela CZ disse...

Concordo muito com o que disse, Alê. Não é raro eu ouvir as pessoas comentarem (geralmente ao verem meus livros) que gostariam de ter mais tempo pra ler, e geralmente fico com vontade de questionar as horas e mais horas que passam compartilhando memes nas redes sociais. Todavia, essa meta de 500 páginas por dia realmente me soa bastante exagerada. Ainda mais a longo prazo. Pois a não ser que se tenha memória fotográfica, provavelmente é impossível assimilar tanta informação e conhecimento. Sou um tanto adepta do conceito de "sótão mental" do Sherlock Holmes: nossa mente tem espaço limitado, e é bom escolher bem o que será guardado nela. E também considero séries e filmes como arte e forma válida de informação/conhecimento. Logo, não são perda de tempo. Mas claro que cada um tem suas preferências, e investe o tempo da forma que achar melhor. Enfim, ótimo post.

Beijos!

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Alê! Tudo bem? Eu acho que é importante respeitar o tempo de leitura pra cada um, ler apara atingir apenas metas me parece não ter muito sentido, eu gosto de ter prazer e ler! E tb acho que ficar de bobeira ás vezes é bom pra saudade mental tb kkkkkkkkk Tudo em seu equilíbrio!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Caverna Literária disse...

Concordo sobre desperdiçarmos tempo com atividades desnecessárias, mas e se essas atividades nos fizerem bem? Já é cansativo ler 500 páginas num dia só para alguém acostumado com leituras extensas, imagina para quem não. Além disso, as pessoas precisam viver. Precisam trabalhar, conhecer novas pessoas, se divertir. O equilíbrio é essencial mesmo!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br

Márcia Saltão disse...

Oi, Alê!
Nossa, esse post está perfeito. Concordo com suas palavras.
Também acho que desperdiçamos muito tempo em coisas que não nos acrescentam nada, mas criar metas de leitura e ler apenas por obrigação, na correria mesmo, não dá!
Mas, cada pessoa sabe o que é melhor para si e como organizar seu tempo de leitura e afazeres.
Beijinhos.

Nessa disse...

Oi Alê
Ameii o post e a reflexão.
Eu mesma já perdi muito tempo na internet, mas ultimamente tenho cuidado isso, e tenho priorizado mais a leitura, aproveitado mais o tempo.
O importante é ler por prazer.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Naiara Fidelis Da Silva disse...

Amei o post.

Recentemente li o Teorema de Katherine e o protagonista lê em média 400 páginas por dia, no decorrer da leitura eu ficava me perguntando se na vida real eu conseguiria, pois meu ritmo é mais lento e tenho outros afazeres no meu dia, além de ler.

Enfim, de certa forma eu concordo com a sua opinião, gastamos muito do nosso tempo em redes sociais, mas ás vezes é bom dar um tempo para a leitura para não ficar sobrecarregado.

RUDYNALVA disse...

Alê!
Que ler é importante, não há o que se contestar.
Que precisamos administrar nosso tempo de forma mais producente, também.
Agora ler a meu ver, é mais um prazer. Tem livros que fluem que podemos até chegar a ler 500 páginas em um dia, porém outros, empacam que é uma beleza e aí temos de usar artifícios para driblar a falta de produtividade literária.
Concordo que a leitura nos traz grande aprendizado, porém se conseguirmos assimilarmos o conteúdo e o sentido dado, se for ler por apenas ler, na minha concepção, não vale a pena.
E até ficar de bobeira vez por outra é válido também, afinal, precisamos relaxar a mente vez por outra, o que não quer dizer que não temos uma meta de leitura e um aprendizado através dela, concorda?
Bom final de semana!
“Ciência é conhecimento organizado. Sabedoria é vida organizada.” (Immanuel Kant)
Cheirinhos
Rudy
TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Ana I. J. Mercury disse...

Que texto maravilhoso, Alê!
Parabéns!
Eu li essa reportagem também, e concordo com você!
Ler rápido demais, e muitas e muitas páginas por dia, não significa adquirir conhecimento de fato.
Eu mesma, falo por mim, que já li muito, correndo contra o tempo pra cumprir metas. Mas não aproveitei a leitura. Acabou ficando algo mecânico. Sem o prazer de ler e refletir sobre a trama.
Mas é claro que também tento diminuir meu tempo nas redes sociais e ao meu hábito horrível de ficar horas sentada pensando na vida kkkkk e aproveitar para ler mais!
bjsss

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