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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Conexões Além da Contracapa #32

Arthur C. Clark, um dos principais autores da ficcão científica, recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico, honraria também concedida a...






... Agatha Christie (Dama do Império Britânico), cujo primeiro marido, Archibald Christie, foi piloto da força área britânica, função que...


... Antoine de Saint-Exupéry também exerceu pela Força Aérea Francesa. Exupery é o autor de "O Pequeno Príncipe", famoso livro infantil cuja inspiração surgiu de um acidente aéreo que o autor sofreu e que o deixou preso no deserto do Saara. Acidente de avião é também o tema do livro...



..."Depois daquela montanha", adaptado para o cinema com Kate Winslet e Idris Elba nos papéis principais....





...Elba tem sido cotado como um dos principais nomes para viver no cinema o imortal agente James Bond, personagem criado pelo autor...



...Ian Fleming e protagonista de uma série de livros como “O Foguete da Morte” para o qual o autor fez uma extensa pesquisa de embasamento científico, contando inclusive com a ajuda do escritor Arthur C. Clarke.


domingo, 19 de agosto de 2018

RESENHA: Ausência na Primavera

Ausência na Primavera Agatha Christie
Todo mundo conhece, pelo menos de nome, a grande Dama do Crime: Agatha Christie. Em número de vendas, a autora é superada apenas pela Bíblia e por Shakespeare, tendo vendido mais de quatro bilhões de exemplares ao redor do mundo. Christie escreveu obras-primas do gênero policial, como “E não sobrou nenhum” e “O Assassinato de Roger Ackroyd”, porém, o que nem todo mundo sabe é que a autora explorou outros gêneros escrevendo sob o pseudônimo de Mary Westmacott

Joan Scudamore sempre se considerou uma pessoa bem sucedida, com uma família exemplar e um casamento feliz. Após visitar a filha em Bágda, Joan fica presa em uma pousada no meio do deserto em virtude de um atraso do trem que a levaria de volta para casa. Sozinha e sem atividades com as quais se ocupar, Joan começa a refletir sobre a própria vida e sobre os relacionamentos com seus filhos e marido. 

Ausência na Primavera parte de uma premissa simples: uma mulher orgulhosa, que vive de aparências, que vê a sua família sob uma luz romantizada sendo confrontada por suas lembranças. Porém, não se engane: apesar desta trama simples, Agatha Christie vai a fundo na psique da protagonista, mostrando ser uma profunda conhecedora das complexidades da alma humana. 

O mais interessante é que, de certo modo, a protagonista sempre soube os problemas e desafios que sua família enfrentou e ainda enfrenta. Entretanto, é somente quando se vê neste ambiente desolador, sendo assombrada por pensamentos que não consegue evitar, é que a personagem começa a aceitar que sua vida não passava de uma fachada. 

“Pensamentos aparecendo na mente... pensamentos aterrorizantes, pensamentos perturbadores. Pensamentos que não se queria ter. Mas, se era assim, por que tê-los? Afinal de contas, podem-se controlar os próprios pensamentos, ou não? Seria possível que, em algumas circunstâncias, os pensamentos de alguém o controlassem?” (CHRISTIE, 2017, p. 93). 

A narrativa é fluida e mesmo que não haja muitos eventos e que boa parte do livro se resuma a flashbacks, fiquei impressionado como Christie consegue envolver o leitor com a estória. Outro fator que deve ser destacado é o clima de tensão crescente, que fica mais palpável a cada capítulo. De certa forma, sentimos a mesma sensação de sufocamento da protagonista, que não consegue lidar com a verdade expressa nas lembranças que lhe assombram.  

E falando na protagonista, é impressionante como Ausência na Primavera prende o leitor mesmo contando com uma personagem que não é carismática. De alguma forma, Christie consegue atiçar e manter o interesse na estória, mesmo que não haja um personagem com quem o leitor desenvolva uma conexão maior. 

A única palavra que tenho para descrever Ausência na Primavera é brilhante. Há muito tempo não lia um livro com personagens tão bem construídos, que explorasse de forma tão sutil e precisa as emoções e contradições humanas. Ausência na Primavera é um dos livros preferidos da autora e confesso que se tornou um dos meus preferidos também. 

Para conhecer mais sobre a autora, não deixe de conferir o especial A Essência de Agatha Christie, uma série de pequenos vídeos com Mathew Prichard, neto da autora. E se você se interessou por Ausência na Primavera, aconselho assistir ao episódio dedicado a Mary Westmacott

Título: Ausência na Primavera
Autora: Agatha Christie
N.º de páginas: 213
Editora: L&PM

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quarta-feira, 28 de março de 2018

RESENHA: O Detetive Parker Pyne

O Detetive Parker Pyne - Agatha Christie“Você é feliz? Se não for, consulte o Sr. Parker Pyne”. Esse é o anúncio que atrai clientes para o escritório deste aposentado que após anos compilando estatísticas em uma repartição pública decidiu usar os seus conhecimentos para devolver a satisfação à vida de pessoas infelizes. Parker Pyne salva casamentos, proporciona aventuras, resolve problemas e, até mesmo, desvenda alguns crimes quando está de férias.

Uma coleção de pequenas histórias, todas protagonizadas por Parker Pyne, o revelam como um misto de Hercule Poirot e Miss Marple. De Poirot, Pyne herda a experiência profissional, o conhecimento técnico, a atenção aos detalhes e as estratégias para comprovar suas teorias. De Miss Marple, o conhecimento da alma humana. Mas nem por isso Parker Pyne soa reaproveitado e sim uma ferramenta para que a Dama do Crime possa criar casos que não giram em torno de crimes. Aliás, ao contrário do que o título sugere, Parker Pyne não é um detetive e sim alguém que resolve casos, mas não necessariamente os investiga.

Pode-se dividir o livro em duas etapas: na primeira, Pyne está em seu escritório e é abordado por clientes. Uma moça que precisa devolver algo que roubou, um homem simplesmente entediado, um homem que está prestes a ser abandonado pela esposa que tanto ama, entre outros. Nesses casos, Pyne encontra soluções criativas para resolver os problemas dos clientes e Agatha sempre consegue uma forma de surpreender o leitor, seja com uma reviravolta inesperada ou com uma informação que muda tudo. O interessante nesses casos é que sabemos que o que está acontecendo não é 100% real e sim tramado por Pyne para que o cliente atinja seu objetivo. Isso dá uma sensação de cumplicidade para o leitor. Os contos neste estilo foram os que mais me agradaram pois me pareceram bastante diferentes das histórias tradicionais de Agatha. Cito como favoritos “O Caso do Marido Descontente” e “O Caso do Soldado Descontente” (sim, há muita gente descontente na vida de Parker Pyne).

“Às vezes as palavras não surtem efeito no momento em que são ouvidas – apenas mais tarde, quando tornamos a nos lembrar delas.” (CHRISTIE, 2012, p.20)

No que eu considero a segunda parte do livro, Pyne está em viagem de férias, mas, assim como acontece com o nosso detetive Belga favorito, seus planos são constantemente frustrados já que a todo momento um caso o encontra. Esses casos têm um caráter diferente dos primeiros, pois Pyne não está sendo procurado para resolver um problema específico e sim ajudando a dar um jeito nos problemas que surgem no caminho. Casos como uma mulher que desconfia que seu marido a está envenenando e morre envenenada durante a viagem. Confesso que esses não me agradaram tanto, pois me pareceu que neles Agatha desperdiçou a oportunidade de aproveitar o que Pyne oferecia de único, dando a ele histórias que outros personagens poderiam ter vivido (a própria Miss Marple, por exemplo) e não é à toa que a autora escolha dois contos da primeira etapa como os seus favoritos do livro.

“O Detetive Parker Pyne” é um livro diferente de Agatha Christie por não girar em torno de resolver um mistério ou desvendar um crime. Com 14 histórias curtas (em média de 20 páginas cada), a Dama do Crime consegue entreter o seu leitor mais uma vez.

Título: O Detetive Parker Pyne
Autora: Agatha Christie
N° de páginas: 272
Editora: L&PM

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

RESENHA: Assassinato no Expresso Oriente

Assassinato no Expresso Oriente / Agatha Christie / Hercule Poirot
Hercule Poirot planejava tirar uns dias de férias quando recebe um chamado para voltar com urgência a Londres. O detetive embarca às pressas no Expresso Oriente, mas sua viagem é interrompida devido a uma nevasca que impede a passagem do trem. No dia seguinte, um dos seus colegas de viagem é encontrado morto, apunhalado 12 vezes.

Um caso do sempre ótimo Hercule Poirot, “Assassinato no Expresso Oriente” é um dos livros mais famosos da extensa (e recheada de grandes sucessos) obra de Agatha Christie. Isso se deve ao desfecho, absolutamente inusitado, considerado um dos mais surpreendentes propostos pela autora. E não é para menos. Ao criar a trama desse livro, Agatha deve ter pensado: “O que eu ainda não fiz? Já sei! Um caso em que o assassino…..”. Até Raymond Chandler disse (embora seu comentário passe bem longe de parecer um elogio) que nenhum leitor em sã consciência desvendaria o mistério porque a resposta não passaria pela cabeça de ninguém.

A trama se divide em três partes: na primeira, conhecemos rapidamente os personagens e os vemos em situações que antecedem o crime; na segunda, Poirot conduz os interrogatórios; e na terceira, é chegado o momento em que o detetive, tendo em mãos todas as informações, coloca suas células cinzentas para trabalhar e encontrar a resposta.

Ninguém desenvolve a premissa “um grupo de pessoas confinadas em um mesmo lugar, todas sendo suspeitas de um crime” melhor do que Agatha Christie. Nesse caso, todos estão presos no trem e Poirot não pode ao menos confirmar as informações que recebe, tendo que confiar estritamente no seu discernimento e na palavra daqueles desconhecidos.

“O impossível não pode ter acontecido, assim sendo o impossível deve ser possível apesar das aparências." (CHRISTIE, p. 213 – edição britânica) Tradução livre

Por contar com um elenco grande de personagens, o ritmo acaba se tornando um pouco mais lento já que boa parte do desenvolvimento da história consiste nas entrevistas que o detetive faz (o passageiro chega, é entrevistado, o passageiro sai, entra outro e assim por diante), mas Agatha consegue manter o interesse do leitor.

Além do desfecho, outra coisa inusitada em “O Assassinato no Expresso Oriente” é a posição que Poirot se encontra ao desvendar o crime. Pela primeira vez o detetive se pergunta o que fazer diante da verdade e se deve, ou não, deixar que o criminoso fique impune. A decisão, de um jeito ou de outro, lhe parecerá errada.

Eu já havia lido “O Assassinato no Expresso Oriente” há muitos anos e dessa vez aproveitei a oportunidade para reler em inglês. Foi a primeira vez que li um texto de Agatha Christie no original e embora ler em outro idioma seja sempre um processo mais lento, ainda é possível encontrar nele a fluidez que costumamos encontrar no texto traduzido.

Além de ser um ótimo entretenimento, fica de “O Assassinato no Expresso Oriente” a satisfação de constatar, mais uma vez, que uma autora que conta com uma obra que ultrapassa os 80 livros, consegue sim ser muito original.

“Quanto a mim, eu suspeito de todo mundo até o último minuto.” (CHRISTIE, p. 78 – edição britânica) Tradução livre

Em 1974, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica considerada a mais bem sucedida adaptação de uma obra de Agatha Christie. No elenco, nomes como Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman e Albert Finney (os dois últimos vencedores do Oscar na categoria melhor atriz coadjuvante e melhor ator, respectivamente, por suas atuações no longa). Assisti o filme há alguns anos, mas não tenho condiçõess de comentar sua fidelidade à obra original já que assisti muito após minha primeira leitura e muito antes da segunda.

Na TV, a série "Agatha Christie's Poirot" (que traz o nada menos que perfeito David Suchet no papel do detetive Belga) também apresentou sua versão do livro. E se nunca comentei aqui antes, comento agora: o adjetivo perfeito não é um exagero para Suchet. Não só o ator adota os trajeitos, a maneira afetada falar, de andar, as obsessões de Poirot em cada gesto, como parece ter saído fisicamente da mente da Dama do Crime. Com exceção dos olhos verdes, é incrível que até a cabeça em formato de ovo Suchet tenha. Aliás, fica a dica: “Agatha Christie’s Poirot” é um pouco difícil de encontrar, mas vale a pena conferir (em especial a partir da quarta temporada quando os episódios passam a ser como filmes de 90 minutos de duração, cada um apresentando um livro). Todos os casos de Poirot foram contemplados pela série.

Em 2017, Kenneth Branagh assume a direção e o papel de Hercule Poirot, com direito a um bigode indescritível e a companhia de um elenco de peso que conta com Johnny Depp, Judi Dench, Michele Pfeiffer, Penélope Cruz e Williem Dafoe. O filme chega aos cinemas no final de novembro.

Título: Assassinato no Expresso Oriente
Autora: Agatha Christie
N de páginas: 248
Editora: L&PM

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Além do Além da Contracapa - Parte 2


E dando sequência às comemorações de seis anos do blog, hoje vocês podem conferir a segunda parte do  vídeo Além do Além da Contracapa, no qual compartilhamos algumas histórias de bastidores e falamos sobre como foi a produção de alguns conteúdos marcantes que vocês acompanharam por aqui. 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Quem vem para o jantar? #29

Ninguém mais ouviu falar neles depois daquilo. Ninguém soube como tudo havia começado. Bom, ninguém a não ser eu. E Tabitha. Mas talvez eu devesse começar pelo começo. Pelo jantar daquela noite. Se eu soubesse o que iria acontecer, nunca teria dado início àquela jornada maluca. Parecia tão emocionante e tão simples ao mesmo tempo. Se ao menos eu soubesse...

Ali estávamos nós. Depois do jantar, apenas rindo e estendendo um pouco mais a conversa. Isaac Asimov, Agatha Christie, Georges Simenon, David Lynch, Thomas Harris, Suzane Collins, Emily Brontë, Pierre Boileau e eu. Tabitha àquela hora já havia se retirado, dizendo que não queria testemunhar a loucura que eu estava prestes a propor aos nossos convidados. Eis que esse infeliz episódio serviu para provar, mais uma vez, que eu devo escutar a minha mulher. Sempre!

Mas em minha defesa, todos pareceram achar a ideia estimulante. Bom, todos menos Simenon. “Com certas coisas não se brinca”, disse ele. “Não existia disso no meu tempo.” Houve também o bizarro comportamento de Lynch, que eu tinha certeza que seria o primeiro a embarcar na aventura, mas que saltou fora alegando estar com muitos compromissos graças ao retorno de Twin Peaks. Aliás, estou devendo a ele a minha opinião sobre os novos episódios, mas quem tem cabeça para assistir séries quando se está vivendo sob a sombra de ter feito o que eu fiz? Voltando ao assunto, foi assim que nosso grupo se formou: Asimov, Agatha, Tom, Pierre, Suzane, Emily e eu.

Mas me desculpe, Leitor Fiel. Eu ainda não lhe contei o que deu início a essa confusão toda. Talvez eu esteja apenas envergonhado. Ou talvez você deva estar, afinal, você pode ter sido um dos que me alfinetaram a buscar isso, então talvez possamos dividir a culpa. O que você acha? Porque tudo começou quando muitos de vocês criticaram o final de “Sob a Redoma”. Tantos foram os argumentos de vocês que até eu mesmo passei a acreditar que era melhor se eu não tivesse explicado as origens da redoma, afinal, vocês tem razão: ninguém se importa com a tal redoma. O que importa são os personagens. São sempre os personagens. Então é por isso que a minha intenção naquela noite era a seguinte: entrar em uma realidade paralela que me permitisse alterar o final da história. Tabitha disse que era perigoso e que não daria certo, mas para mim aquela era uma chance única de fazer algo que poucos fizeram antes. A turma concordou e por isso aceitaram vir junto. Pierre, inclusive, disse que aproveitaria para tentar fazer alterações em “Vertigo – Um Corpo que Cai” porque acabou gostando mais da abordagem de Hitchcock do que daquela que ele e Narcejac propuseram originalmente.

Foi no dia seguinte que partimos. Não darei detalhes sobre a caixa, sua localização ou sobre como tivemos acesso a ela porque não me foi permitido revelar essas informações. Tudo o que posso dizer é que, quando entramos naquele corredor imenso, para onde olhávamos, o que víamos era o nada. Um longo corredor, tão iluminado que ofuscava a visão, cercado de portas e paredes envidraças, porém opacas, de forma que tudo o que tínhamos eram vislumbres incompreensíveis do que estava do outro lado.

Como a coisa toda havia sido minha ideia, eles deixaram que eu escolhesse a porta que cruzaríamos. E eu escolhi. Eu devia ter previsto. Devia saber que aquele era o melhor momento para voltar para casa.

Assim que a porta se fechou atrás de nós, a confusão começou. A primeira a constatar isso foi Agatha, por puro acidente. Sempre agarrada em um livro, a dama do crime estava relendo “O Morro dos Ventos Uivantes” e com espanto perguntou para Emily se havia mais de uma versão da história. Surpresa, a senhorita Brontë deu a resposta óbvia: “Não”.
– Mas então como Catherine e Heathcliff estão se casando? - perguntou Agatha realmente confusa - Eu já li a história antes e não é isso que acontece.
– É claro que não é isso que acontece. Do que você está falando?
– Está aqui, na página 122. Cathy e Heathcliff estão se casando.
– Mas eu não entendo – disse Emily mais para si mesma do que para o grupo.
Atento, Asimov se aproximou de mim, mas ele nem precisou dizer nada para que eu entendesse o que se passava naquela mente que tantas vezes imaginou realidades alternativas. Tudo o que eu queria era alterar o final de “Sob a Redoma”, mas jamais havia me ocorrido que, ao cruzarmos aquela porta, os romances dos que estavam comigo poderiam sofrer mudanças consideráveis.

Espantada, Agatha fez uma leitura dinâmica e logo compartilhou conosco que o destino do casal criado por Emily continuava trágico: Heathcliff morreria de uma queda de cavalo e Cathy se tornaria tão amarga quanto seu amado fora na versão original da história.

Foi Pierre quem sugeriu que fossemos embora e eu concordei. Então voltamos para o corredor e eu escolhi uma nova porta. A nova realidade que se abriu diante de nós não era nada melhor do que a anterior. Nela, Will Graham se tornava aprendiz de Hannibal Lecter e dava continuidade ao seu legado sanguinário quando o doutor estava atrás das grades. Clarice, aliás, nem chegava a ter acesso a Lecter, já que Graham, obsessivo em continuar sendo o preferido de seu mentor, impedia que qualquer mente promissora chegasse perto de Hannibal.

A essas alturas, Leitor Fiel, você já entendeu o cenário de horror que se formou diante de nós? Não importa quantas vezes voltássemos, quais portas eu escolhia, sempre nos deparávamos com as nossas melhores obras totalmente distorcidas. Agatha viu seu lendário Hercule Poirot não embarcar para uma de suas viagens de férias e, consequentemente, ninguém foi assassinado na história, pois todos os leitores sabem que é a presença do pequeno Belga que atrai os crimes. O livro foi um fracasso! Quase arruinou a carreira da grande Dama do Crime. Asimov viu sua fantástica série dos robôs se tornar uma história de horror de quinta categoria em que os robôs escravizavam os humanos e os colocavam uns contra os outros, descartando-os sempre que não serviam ao seu propósito, ou seja, eliminar outros seres humanos a serviço da supremacia dos robôs.
- Isso é terrível – disse Asimov – É contra tudo o que eu quis propor com as 3 Leis Fundamentais da Robótica.

Suzane Collins viu Prim servir como tributo nos Jogos Vorazes, o que deixou Katniss desolada, principalmente depois que a irmã foi morta ainda no segundo desafio dos jogos. Sem uma personagem forte à frente da série, a trilogia foi reduzida a um único livro, sem espaço nem mesmo para desenvolver o triângulo amoroso que Suzane tanto havia preservado até as últimas páginas.

Quando achamos que não haviam mais livros para sofrerem da maldição da realidade paralela, foi a minha vez de vivenciar o horror que meus amigos vinham experimentando. No meu caso, a nova realidade foi buscar minha primeira história e transformou “Carrie” em um dramalhão no qual a mãe era quem descobria ter poderes telecinéticos, matava todos os adolescentes da cidade que ela considerava serem más influências para a sua filha que, por sua vez, acaba sendo injustamente culpada pelos assassinatos que todos acreditavam serem cometidos por ela em vingança ao bulliyng de anos. Da prisão ela escrevia a sua história em um diário e jurava guardar para sempre o segredo da mãe.

Se antes eu já estava apavorado, ver minha Carrie ser reduzida a uma mártir novelesca fez com que eu me arrependesse amargamente de ter dado início àquilo tudo. Mas agora não tinha mais volta. Tudo ficaria bem se eu conseguisse cumprir o meu propósito. Eu mudaria o final, todos voltaríamos para casa e nossas histórias ficariam bem.

Foi por isso que, pela última vez, eu levei todos para o corredor, mas dessa vez o que encontramos não foram as paredes envidraçadas e sim cortinas vermelhas por todos os lados. Um longo corredor vermelho, uma torta de cereja e o número exato de xícaras de café, uma para cada um de nós. Emily, que estava precisando de uma bebida forte, se contentou com o café e correu para a xícara mais próxima. Eu tentei impedi-la, mas ela foi mais rápida do que eu e, quando a alcancei, ela já havia bebido. Parecia apenas um inocente café, mas eu tinha minhas dúvidas. Aquilo só podia ser coisa do David. Estaria ele ali em algum lugar? Teria entrado conosco sem que percebêssemos? Eu sabia que ele não ficaria de fora de uma experiência como essa, mas o que ele estaria tramando?

Enquanto todos discutiam a respeito do que havia levado o nosso corredor a se transformar em um cenário de Twin Peaks, fiz o que acreditava ser o melhor para todos: deixei meus amigos onde estavam, escolhi uma nova porta e a cruzei sozinho. Assim, pelo menos, o meu seria o único trabalho em risco.

Sentei para trabalhar e meu desespero só aumentou. Eu já não sabia para qual história eu deveria reescrever um final! Era como se ela nunca tivesse existido na minha mente. Entrei em uma livraria e perguntei pelo meu próprio livro, mas ele nunca havia sido lançado. E eu não tinha a menor ideia de como escrevê-lo. Tudo que eu tinha era um título. Nada mais.

Decidi que o melhor a fazer era deixar essa ideia absurda de lado, mas quando voltei para o corredor, qual não foi o meu espanto ao ver que nenhum dos meus amigos se encontrava ali, que a torta de cereja estava espatifada no chão e todas as xícaras haviam desaparecido? Apavorado, entrei nas portas mais próximas, mas não consegui encontrá-los. Entrei em todas as livrarias e perguntei se haviam visto algum deles, mas em algumas situações nem mesmo seus nomes eram conhecidos. Eu estava sozinho e sem ideias.

E é assim que continuo agora. De alguma forma consegui voltar para casa. Tabitha está aqui do meu lado, dizendo coisas em sua cabeça que eu sei que ela não irá verbalizar. Não há necessidade. Sei exatamente o que ela quer me dizer. Se ao menos eu a tivesse ouvido quando ela tentou me alertar.

David também está aqui tentando me ajudar a encontrar uma solução. Ele jura que não teve nada a ver com o que aconteceu e eu acredito nele. Mas às vezes, quando o olho com atenção, posso jurar que seu cabelo está ficando mais branco e que sua risada não está soando como sempre. “Onde eles estão?”, ele repete histérico. “Onde eles estão? Onde eles estão? Onde eles estão?”


sexta-feira, 27 de maio de 2016

RESENHA: Cipreste Triste

“ – Mas não seria um pouco antiético o que está propondo? Chegar à verdade, sim, isso sempre me interessa. Mas a verdade é uma faca de dois gumes. Suponhamos que eu descubra fatos contra essa senhora?” (CHRISTIE, p. 121, 2014)

Após uma longa doença, a velha Sra. Welman morre durante o sono. Para a surpresa de todos, ela nunca havia elaborado um testamento e assim toda a sua fortuna vai para a sobrinha, a bela Elinor Carlisle. Atendendo os desejos da tia, Elinor distribui uma generosa quantia para os empregados, as enfermeiras e principalmente para a jovem Mary Gerrard, filha de um dos empregados a quem sua tia era muito apegada. Mas quando Mary é assassinada, Elinor é acusada pelo crime. As provas contra ela são bastante incriminadoras: ninguém tinha motivo para querer Mary morta e nenhuma outra pessoa tivera oportunidade de matá-la. Além disso, todos sabem que o noivado de Elinor e seu primo Roddy terminou depois que ele se apaixonou por Mary. Agora cabe a Hercule Poirot descobrir a verdade e livrar Elinor de um crime que talvez ela não tenha cometido.

Mais uma ótima trama da Dama do Crime, “Cipreste Triste” inicia com um breve prólogo em que temos um vislumbre do julgamento de Elinor. Depois disso, a trama se divide em três partes: na primeira, somos apresentados aos personagens e a dinâmica da família enquanto a Sra.Weldon ainda é viva, acompanhamos como lidam com a sua morte e chegamos à morte de Mary. Na segunda parte entra em cena Hercule Poirot e a investigação do detetive tem início. Por fim, na terceira parte acompanhamos o julgamento de Elinor.

Nessa história Agatha usa de três ótimos personagens: Mary, Elinor e Roddy. Mary é a moça que veio de uma classe inferior e é grata por alguém ter lhe proporcionado uma educação que não estava dentro das suas condições. Mary parece ter um carinho genuíno pela velha Sra.Weldon e querer retribuir o que a senhora fez por ela da maneira que lhe for possível, mas será isso mesmo ou será ela uma interesseira?

Temos também os primos Elinor e Roddy que sempre tiveram carinho pela tia e mesmo cientes de que sua morte lhes traria uma generosa quantia em dinheiro, nunca quiseram pensar em um cenário em que a velha já não vivesse, até porque o dinheiro para eles pouco significa e pouco importa se os dois ou apenas um serão herdeiros visto que em breve pretendem se casar. Mas serão eles mesmo tão desapegados à fortuna? Será que Roddy realmente quer se casar com Elinor? Será que Elinor é tão gentil e generosa quanto parece ou está armando alguma coisa por trás? As dúvidas pairam especialmente porque sabemos que tanto Elinor quanto Roddy sempre foram hábeis em esconder seus sentimentos e se estendem a Mary que é, em muitos aspectos, uma desconhecida.

Usando do núcleo familiar como origem do crime e de seu detetive mais célebre para conduzir essa investigação, Agatha acrescenta um elemento poucas vezes visto em seus livros: o tribunal. Embora já tivesse escrito a peça de teatro “Testemunha de Acusação” (que anos depois ganhou as telas de cinema sob a direção de Billy Wilder) esse é o primeiro romance que Agatha reveste de thriller jurídico, contando com a participação de Poirot (com direito ao detetive belga no banco de testemunhas e tudo).

Mas não pense que por causa disso você irá encontrar um romance que foge do que conhecemos (e amamos) em Agatha Christie. Com uma narrativa fluida e envolvente que é característica dos seus livros, a trama de “Cipreste Triste” se desenvolve como um típico mistério da autora e, justamente por isso, agrada.

Título: Cipreste Triste
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 271
Editora: L&PM

sábado, 26 de setembro de 2015

ESPECIAL: A Essência de Agatha Christie # 02

Na segunda parte do especial "A Essência de Agatha Christie" ganham destaque os dois personagens mais memoráveis criados pela autora - Hercule Poirot e Miss Marple - além de seu processo de escrita e o surgimento do pseudônimo Mary Westmacott, sob o qual Agatha escreveu seis romances.






terça-feira, 26 de maio de 2015

Quem vem para o jantar? #23

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Eles haviam sido convidados para um jantar, mas não sabiam quem era o seu anfitrião. Ela estava muito familiarizada com esse tipo de artimanhas, afinal, fora sua criadora que as inventara e depois assistira enquanto muitos tentaram copiá-la. “Genialidade desperta isso em algumas pessoas, Agatha”, ela costumava dizer para a “mãe”, com a voz suave enquanto tricotava alguma nova peça, atenta ao que acontecia ao seu redor e principalmente a quem fazia acontecer.

Miss Marple sempre fora assim. Uma velhinha calma e simpática, que gostava da sua rotina (mesmo que sempre acabasse interrompida por algum incidente que nada tinha a ver com ela, mas a puxava para dentro). É que Miss Marple nunca fora uma velhinha como as outras. Ela sempre tivera um talento para entender as pessoas, para saber o que se passava na cabeça delas e compreender as origens de suas ações, por mais obscuras que fossem. Era por isso que ela não sentia medo em aceitar um convite misterioso feito por um estranho. É claro que se me conhecesse Miss Marple saberia que estava segura, afinal, além de ser uma grande admiradora dela e de meu outro convidado, eu jamais faria mal a alguém. Assim acredito. Não sei se ela, com tanto conhecimento da alma humana teria a mesma certeza.

Meu segundo convidado estranhou que o convite não se estendeu a sua esposa e pensou até em recusá-lo, mas a curiosidade (e sua mente que já imaginava milhares de possibilidades a respeito do tal jantar) falou mais alto. Naquela mesma noite recebi um email confirmando sua presença, porém com uma condição: que ele não precisasse viajar de avião. Ora, é claro que ele não precisaria, pois eu havia tomado o cuidado de não fazê-lo enfrentar esse que era um dentre seus tantos medos. Logo ele! Eu simplesmente não conseguia acreditar que ele, Stephen King, sentisse medo de tantas coisas.

Sabendo que ambos meus convidados apreciam – e muito! – um bom mistério, mantive minha identidade em segredo. Estava prestes a dizer que eles só precisavam saber que eu era uma fã de longa data e me certificaria de dar a eles uma noite memorável, mas então lembrei que eles poderiam ter medo de fãs, afinal, fora meu próprio convidado que nos mostrara o que fãs número 1 são capazes de fazer.

Continuei meus planejamentos tendo em mente surpreendê-los, mas a tarefa foi mais difícil do que eu previra. Como eu poderia planejar algo que chegasse aos pés do que a imaginação de Stephen era capaz de criar? Para não me frustrar, deixei de lado as surpresas e passei a tomar decisões pensando o que Stephen extrairia da decoração, do cardápio e do local. Ora, não me espantaria se ele saísse do meu singelo jantar com a ideia para um novo romance, afinal, suas ideias pareciam surgir do nada (até da visão de um carro parado em um posto de gasolina, ou de um policial sozinho em uma cidade pacata), tudo porque ele sabe que as melhores histórias não provém de ideias mirabolantes, mas sim de como os personagens se comportam diante das situações.

E é por isso que eu queria reunir meus convidados. Porque ambos são profundos conhecedores da natureza humana. Miss Marple - com seu jeito calmo que alguns talvez nem levem a sério - e Stephen King - de quem tantos têm medo, pois sua reputação o antecede - teriam muitas conversas interessantes assim que tivessem a oportunidade de estar cara a cara, saboreando uma deliciosa refeição.

Eu estava curiosíssima para saber o que sairia da dupla, mas qual não foi a minha surpresa quando eu me tornei o assunto da conversa! Aparentemente, era fascinante para os dois tentar descobrir quem estaria por trás do misterioso jantar.

- Exatamente como nas histórias que minha mãe criava – disse Miss Marple.
- Sua mãe sabia das coisas – disse Stephen.

Me orgulho em dizer que nenhum dos dois chegou perto de me descobrir. Um ponto para mim! Mas se a dupla quiser fazer uma nova tentativa, sinta-se convidada desde já para um segundo jantar.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

RESENHA: O Cavalo Amarelo

“Só existem duas coisas que as pessoas querem desesperadamente, a ponto de correrem o risco de serem condenadas. A poção do amor e o cálice de veneno.” (CHRISTIE, 2013, p.79)

Uma mulher doente chama um padre para se confessar dizendo que precisa revelar algo terrível antes de morrer. Da confissão, o padre sai com uma lista de nomes, mas antes que possa fazer qualquer coisa com ela é assassinado. Tão misteriosa quanto a morte de um padre bem quisto por todos na comunidade, são as inúmeras pessoas que têm adoecido sem explicação e morrido de uma hora para a outra. Todos esses eventos podem estar relacionados às três mulheres que vivem na antiga hospedaria Cavalo Amarelo e que dizem ter poderes paranormais.

“O Cavalo Amarelo” é um livro que não conta com a participação de nenhum dos personagens mais conhecidos dos leitores de Agatha Christie (apenas rápidas aparições da escritora Ariadne Oliver). Ao invés de Hercule Poirot, Miss Marple ou Tommy e Tupance, quem protagoniza e narra a maior parte desta história é Mark Easterbrook, um escritor que não tem se sentido muito inspirado a trabalhar em seu livro e se envolve na investigação das mortes da lista.

Algo que diferencia este da maioria dos livros de Agatha Christie é a tentativa da autora de flertar com o sobrenatural. Tendo sido escrito em 1961, quando Agatha já tinha 71 anos e mais de 60 livros no currículo, é de se compreender que a autora quisesse tentar algo novo (tendo a certeza de que, mesmo se desse errado, não seria isso que mancharia seu legado). Assim, Agatha pega elementos como feitiçaria e credulidade e usa à la Agatha Christie. Com isso, não entrega para o leitor o seu melhor livro, mas ainda assim uma aventura divertida.

Essa não é a história de um assassinato intricado, com vários suspeitos e pistas camufladas, perfeita para que o leitor brinque de detetive e tente desvendar o mistério antes que a Dama do Crime o revele para ele. Talvez seja justamente por não ser um tradicional romance de Agatha Christie que esse livro não tenha me empolgado como os livros da autora costumam empolgar. Mas, de qualquer forma, é um livro que mostra que se tem alguém que sabe adaptar qualquer pano de fundo para se adequar às suas características, esse alguém é Agatha Christie. Eventualmente, a autora deixa claro que o sobrenatural nada mais é do que um disfarce das ações humanas, um desvio de atenção. Pensando bem, talvez todo livro da autora tenha um quê sobrenatural. Afinal, não é exatamente isso que ela faz com os seus leitores? Manipular os elementos a fim de desviar a atenção de suas ações como contadora de histórias?

Título: O Cavalo Amarelo
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 250
Editora: L&PM

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

RESENHA: Três Ratos Cegos e Outros Contos

Três Ratos Cegos é o conto que deu origem a peça The Mousetrap, que está em cartaz há mais de sessenta anos, sendo a peça encenada a mais tempo na história do teatro. Quando estive em Londres, não perdi a oportunidade de conferir a atração e desde então estava com vontade de ler o conto. 

Os recém casados Molly e Giles resolveram transformar uma casa que fora herdada em hospedaria, sendo que logo que recebem os primeiros hóspedes, ficam ilhados por conta de uma forte nevasca. O problema é que um assassino está a solta e a pista encontrada pela polícia é que ele se dirigia para lá. 

Creio que este conto é uma amostra do que Agatha Christie faz de melhor: confinar desconhecidos em um ambiente isolado e restrito onde um crime irá acontecer, sendo que todos os personagens têm algo a esconder. Além de conseguir fazer o leitor suspeitar de tudo e de todos, a autora sabe como ocultar a verdadeira motivação para o crime de forma maestral. E mesmo sabendo o desfecho, a leitura não perdeu a graça.

“Houve um silêncio. Foi, de certo modo, um silêncio incomodo. ‘É uma armadilha’ pensou Molly. ‘É uma armadilha, mas não vejo como...’Parecia haver cinco pessoas culpadas na sala, em vez de uma culpada e quatro inocentes.” (CHRISTIE, 2014, p. 89). 

A peça é a reprodução exata do conto, tanto é que em diversas cenas que li me senti transportado para o teatro St. Martin, e conseguia até mesmo visualizar os atores no palco. E quanto a pergunta que não quer calar: qual é melhor? Para ser honesto, peça e conto são igualmente bons, mas, se você planeja ir para Londres algum dia, eu o aconselharia assistir a peça primeiro. Ver uma obra de Agatha Christie ganhar vida no palco é simplesmente emocionante. Tão emocionante que sonho em assistir mais uma vez. 

Quanto aos demais contos que compõe o livro, confesso que não me empolguei. É claro que vindo da Dama do Crime, nenhum deles é ruim, mas tampouco tive aquela sensação inerente aos livros da autora, aquela excitação por ver a investigação se desenrolar a sua frente e ter a oportunidade de desvendar o crime antes de Poirot ou Miss Marple. A verdade é que este é o segundo livro de contos que leio da autora, e a leitura de nenhum deles foi tão satisfatória quanto seus romances

Assim, apesar de ter adorado ler Três Ratos Cegos, chego a conclusão que os contos de Agatha Christie não são para mim. Mas não tem problema. Com mais de oitenta livros escritos, tenho certeza que não me faltarão romances para ler. 

Não deixe de conferir a coluna Viagem de Contracapa sobre a peça The Mousetrap

Título: Três Ratos Cegos e Outros Contos
Autora: Agatha Christie
N.º de páginas: 267
Editora: Globo

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

sábado, 11 de outubro de 2014

RESENHA: A Terceira Moça

“Também achava, cada vez mais, que havia maldade verdadeira em algum lugar. Ele conhecia a crueldade. Já deparara com ela antes. Conhecia seu lado picante, seu gosto, os trejeitos que tinha. O problema era que não sabia ainda exatamente onde estava localizada. (...) Algo estava acontecendo, algo estava em andamento, algo que ainda não estava concluído. Alguém, em algum lugar, estava em perigo." (CHRISTIE, 2012, p.227).

Hercule Poirot, “o mais verdadeiro dos detetives de verdade” (pag.41), está tomando seu café da manhã tranquilamente quando uma moça pouco bonita e muito desesperada requisita alguns minutos da sua atenção e faz a mais estranha das confissões: ela acredita que talvez tenha assassinado alguém. Depois disso, foge e desaparece. Intrigado, e percebendo que a moça realmente precisa de ajuda, Poirot tenta encontrá-la e descobrir o que está acontecendo, afinal, ter assassinado alguém é algo que sabe. Ou se fez ou não se fez. Nessa aventura, ele conta com a ajuda de sua amiga de longa data, a escritora de romances policiais Ariadne Oliver.

A alegria e o bem-estar de voltar para casa. É assim que me sinto cada vez que leio um livro de Agatha Christie. Talvez com “A Terceira Moça” isso tenha se intensificado já que há muitos meses eu não tinha a oportunidade de ler nada dessa que é uma das minhas autoras favoritas desde que eu tinha 12 anos. E estamos falando de Agatha Christie, portanto, é claro que eu encontrei nessa aventura tudo que eu esperava.

Se eu adoro incondicionalmente a autora, isso se duplica quando se trata de um caso do Poirot que, além de genial, excêntrico e incomparável, é absolutamente hilário. Se ler Agatha é voltar para casa, ter Poirot na aventura é ser recepcionada por um dos meus melhores (e mais antigos) amigos. Em “A Terceira Moça”, o detetive e Ariadne Oliver (provável alter-ego de Agatha) precisam encarar as mudanças advindas da década de 60, em especial o comportamento (e as roupas!) da juventude da época, a independência das moças e os relacionamentos. Inclusive nesse livro são abordados temas que não recordo ter visto com frequência nos livros de Agatha, como uso de drogas.

O mistério é magistralmente arquitetado. O inusitado é que, ao contrário dos casos que têm mortes e suspeitos, esse não tem uma morte. Não tem o crime. Apenas um possível crime que o detetive nem mesmo sabe qual é, onde ou quando ocorreu. De certa forma, esse é um caso que não é um caso. Então do que se suspeita?

A mocinha que pode, ou não, ser louca; o namorado que pode, ou não, ser um interesseiro; as colegas de quarto independentes; o pai ausente que há pouco voltou para casa trazendo consigo uma madrasta indesejável; o tio rico, desmemoriado e cego e sua jovem e bela secretária que pode, ou não, ser uma espécie de espiã ou simplesmente uma interesseira; são os personagens que desfilam por essas páginas.

Agatha manipula seus leitores como ninguém e é a rainha da pista-recompensa. Por isso sempre encerro uma leitura com orgulho de mim mesma quando consigo desvendar suas artimanhas (quem já leu os livros da autora divide o sentimento comigo, tenho certeza). Nesse caso, descobri o quem, o como e o porquê, mas ainda assim a autora aprontou algumas que eu não captei.

Leitura deliciosamente fluida, intrigante e bem amarrada. “A Terceira Moça” poderia ganhar muitos elogios, mas para mim basta um: é um Agatha Christie.

Título: A Terceira Moça
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 287
Editora: L&PM

sábado, 13 de setembro de 2014

Quem vem para o jantar? # 22

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Há meses planejávamos a festa do nosso aniversario de três anos. As histórias sobre os encontros históricos dos aniversários anteriores já circulavam no universo literário e muitos dos nossos convidados em potencial manifestavam interesse em comparecer. 

Um deles foi George R.R. Martin. Nos sentimos honrados com o interesse do escritor, porém, usando de muita diplomacia, encontramos um jeito de não convidá-lo. Entre nós, decidimos: É melhor deixá-lo em casa trabalhando no sexto livro. Se ele ficar indo em festas desse jeito, já pensou quando vai terminar a série? Além disso, todos sabemos o que Martin gosta de fazer com festas. Ainda assim, lhe mandamos uma mensagem carinhosa (e levemente chantagista):

Quando você terminar o último livro, sediaremos a festa em Westeros e você será o convidado de honra. 

Há algumas semanas, começamos a enviar os convites e foi com estranheza que recebemos inúmeras respostas de recusas. Eram as desculpas mais estapafúrdias vindas de pessoas que tinham tudo para inventar ótimos pretextos (afinal, é de inventar histórias que nossos convidados vivem). J.K. Rowling nos disse que fora informada que uma violenta espécie de gripe draconiana estava assolando a américa, enquanto Isaac Azimov alegou estar fazendo pesquisa de campo para seu próximo livro. E então uma das mensagens nos fez entender o porquê de tantas recusas (não revelaremos aqui o conteúdo para não entregar quem foi o autor), basta dizer que o local que escolhemos para sediar nosso tão aguardado evento estava assustando os nossos convidados (e eles ainda nem haviam chegado aqui!). Ora... e nós que pensamos que o Hotel Overlook seria, além de tudo, prático, já que os convidados poderiam se hospedar para passar a noite depois da festa e seguir para casa no dia seguinte. 

Mas já era tarde demais para mudar e muita gente interessante havia confirmado presença. 

Nossas primeiras convidadas chegaram juntas. Elas que nunca faltaram às nossas festas e nunca nos decepcionaram quando recorremos a elas como leitores: Agatha Christie e Jane Austen. Sabendo já serem “da casa”, ambas se ofereceram a ajudar nos bastidores do evento, mas recusamos a gentileza, pois queríamos que elas aproveitassem essa noite tanto quanto as outras.

E por falar nas outras noites, quem também faltou a nossa comemoração foi Michael Connelly, alegando que havíamos lido poucos livros dele nos últimos tempos. Uma pena, mas compreendemos já que realmente temos negligenciado o autor. Esperamos encontrar você ano que vem, Connelly. Entre nós, comentamos que Agatha e Jane poderiam ter usado o mesmo argumento e nos encheu de orgulho elas deixarem isso de lado e estarem conosco da mesma forma. Ambas sabem que não as esquecemos. É apenas a falta de tempo (não que isso aplaque nosso remorso).

Quem também chegou cedo foi Ernest Hemingway e foi logo pedindo pela localização do bar. Ele também nos disse que logo antes de sair de casa havia conversado com seu amigo de longa data F.Scott Fitzgerald que lhe dissera o quanto lamentava não vir a festa desse ano, pois a do ano passado havia sido “digna de Jay Gatsby”. 

Distraídos pelas poucas, porém precisas, palavras de Hemingway, não percebemos a presença de Guilhermo Del Toro e Chuck Hogan, que não apenas foram os primeiros a responder nosso convite, mas assim que chegaram começaram a explorar o hotel. Pelo que entendemos, os autores da Trilogia da Escuridão estavam empolgados com oportunidade de encontrar as meninas gêmeas que supostamente assombravam o local. Quando deram sua aventura por encerrada e retornaram à festa, narraram a empreitada:

— Estávamos no corredor do terceiro andar quando as luzes começaram a piscar, até apagarem por completo. — disse Del Toro, enquanto Hogan virava uma dose de tequila. — Ouvíamos murmúrios incompreensíveis e o ar parecia ficar mais frio a cada passo. 

Os convidados que ouviam a estória seguraram a respiração involuntariamente, enquanto Hogan continuava:

— De repente, um grito horripilante começou a ecoar. Vocês não ouviram daqui?

Todos menearam a cabeça, negativamente. O autor estava prestes a continuar sua narrativa, mas então Guilhermo não conseguiu mais segurar sua gargalhada:

— Não acredito que vocês caíram nessa. 

Todos pareciam estar se divertindo, mas estávamos preocupados. Nosso convidado de honra estava atrasado, o que era muito estranho sendo ele um suíço. Mas a partir do momento em que ele chegou, foi difícil distribuirmos a nossa atenção igualmente a todos os nossos maravilhosos convidados. Joel Dicker, como já fizera antes durante seu “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” soube nos envolver com suas palavras de maneira que esquecemos todo o resto. Eventualmente nos afastamos movidos por uma especial curiosidade em ver com quais autores Dicker interagiria já que seu livro mistura tantos gêneros tão habilmente.  

Não foi uma surpresa ver que o jovem autor buscou a companhia de Charles Dickens, dizendo ter adorado a jornada de Pip e que “Grandes Esperanças” era um de seus livros de cabeceira. Joel também confidenciou sua preocupação acerca da adaptação cinematográfica de seu livro, ao que Dickens retrucou:

— Nenhuma adaptação consegue suprir nossas expectativas. Se quer meu conselho, não assista e poupe-se do sofrimento. 

Não pudemos deixar de rir do comentário amargurado do escritor, visto que conferimos a malfadada série da BBC inspirada na obra. 

Deixamos Dicker se aconselhando sobre sua promissora carreira com o grande Dickens e fomos para outro canto do salão, onde encontramos o ancião Pittacus Lore falando com nostalgia sobre o planeta de Lorien para Richelle Mead e Suzanne Collins (que, por sua vez, não sentia falta alguma de Panem e estava muito bonita em um vestido desenhado por Cinna). Enquanto os autores se dedicaram a discutir os rumos da literatura fantástica, tivemos a impressão de ver um lírio discretamente tatuado no pescoço de Richelle. Curiosos e intrigados, tentamos averiguar se aquela seria a tatuagem que imaginávamos, mas a autora, ao perceber nosso interesse, jogou seu cabelo sobre o pescoço e piscou pra nós.

A noite estava querendo virar madrugada quando recebemos uma mensagem de um convidado que fez muita falta, mas não pode comparecer visto que na véspera fora sua própria festa de aniversário. Suas palavras eram inconfundíveis: 

“Lembrem-se de verificar a caldeira e aproveitem a festa. Nos vemos, qualquer dia desses, no escuro. Steve.”

Trocamos um olhar misto de divertimento e preocupação. Não custava nada verificar a caldeira...de novo. 

Agatha e Jane foram as primeiras a ir embora e Dickens fez questão de acompanhar as damas em segurança. Aos poucos, os outros convidados os seguiram, com exceção de Guilhermo e Chuck, que foram os únicos que aceitaram dormir no hotel. Esperamos que tenham sido deles os barulhos estranhos que ouvimos durante a noite.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Conexões Além da Contracapa #15

Georges Simenon é um dos mais importantes autores da literatura policial em especial por ter apresentado - em 75 romances e 28 contos – o comissário Jules Maigret que mudou a imagem que os detetives da literatura tinham até aquele momento. O autor nasceu na Bélgica assim como...

...o famoso detetive Hercule Poirot, personagem excêntrico criado Agatha Chistie que também possui uma obra extensa composta por contos, peças de teatro e romances, alguns deles escritos sob o pseudônimo de Mary Westmacott que permitiu à Dama do Crime experimentar outro gênero que não o policial. Quem também usa de pseudônimos para experimentar outro gênero que não o que a consagrou é...


...Nora Roberts que assina como J.D. Robb a Série Mortal, protagonizada pela tenente Eve Dallas, que se passa em uma Nova York futurista na década de 2050. A cidade também é o palco das investigações...


...do detetive particular Nero Wolf, criado pelo escritor Rex Stout que em 1959 recebeu o prestigioso Grand Master Award dado anualmente pela Mystery Writers of America (organização da qual também foi presidente). Em 1966 quem recebeu essa honra foi Georges Simenon.

domingo, 16 de março de 2014

Lista de Releituras # 06

Lista de Releituras é a nova coluna mensal do Além da Contracapa. Como o nome sugere, são livros que já lemos e temos muita vontade de ler novamente, mas que, por diversas razões, não chegaram a ser resenhados no blog

Título: O Caso dos Dez Negrinhos
Autora: Agatha Christie
Sinopse: “Dez pessoas são convidadas pelo misterioso U.N. Owen para passar alguns dias numa ilha perto de uma aldeia pouco movimentada. Os convidados aceitam o convite e de igual maneira embarcam num barco local para a ilha. Na primeira noite, quando todos já se conheciam razoavelmente bem e conviviam animadamente na sala, ouve-se uma voz vinda das paredes da sala, acusando cada um dos dez presentes de ter cometido um crime, crime esse que apesar de ser despropositado ou inevitável, levou à morte de outras pessoas. O pânico instala-se e mortes inexplicáveis se sucedem, tendo por única pista uma trova infantil.” (Sinopse do Skoob)

Ocasião da primeira leitura: 1999
Ocasião da segunda leitura: 2007

Porque está na lista de releituras (mesmo depois de duas leituras)? Porque é o meu livro favorito desta que é uma das minhas autoras mais queridas.

Comentários: “O Caso dos Dez Negrinhos” é um dos livros mais famosos da Dama do Crime e considerado por muitos o melhor escrito por ela. Eu o li pela primeira vez há 15 anos e ainda consigo me lembrar claramente do desfecho (e imaginem vocês que eu esqueço os detalhes das tramas dos livros que leio em questão de semanas). A verdade é que “O Caso dos Dez Negrinhos” é um livro policial impecável e que conta com todos os elementos que os fãs do gênero gostam: crimes (aparentemente) inexplicáveis, muitos suspeitos e um desfecho surpreendente que consegue amarrar todas as pontas brilhantemente, deixando o leitor com vontade de reler o livro no instante em que finaliza a última página. Eu arriscaria dizer que ele é o modelo do que um livro do gênero deve ser.

Anos depois, reli a história dos dez convidados da misteriosa ilha a pedido do Alê que - por indicação minha, diga-se de passagem - havia lido o livro há poucos dias e precisava conversar com alguém sobre ele. Assim, fiz o que vocês podem imaginar ter sido um enorme sacrifício e o li novamente.

E por falar no Alê, quem leu a última edição da coluna Lista de Releituras - cujo tema foi o livro considerado a obra-prima de Agatha Christie, “O Assassinato de Roger Ackroyd” – viu meu caro colega comentar sobre o meu acidental spoiler que revelou a ele o assassino. Mas a questão é que Agatha conduz a trama de forma tão brilhante que nem isso foi capaz de estragar a experiência dele com o livro. E eis que o mesmo aconteceu comigo a respeito de “O Caso dos Dez Negrinhos”. Lembro, perfeitamente, de estar em uma aula de educação física quando uma das minhas colegas diz a seguinte frase: “Eu não quero ler o livro. Já sei que o assassino é......”. Imagine a reação desta que vos relata a experiência e que, naquele momento, estava a dias de começar a leitura e já tinha até o livro em casa. Graças a minha colega, li o livro todo tendo em mente a identidade do assassino e avaliei toda a história sob este ponto de vista nada inocente e, levando em consideração que este se tornou meu livro favorito da Agatha, nem é preciso dizer que, mesmo conhecendo de antemão o que deveria ser a grande surpresa (o ponto alto) do livro, minha experiência não foi prejudicada.

Atualmente, “O Caso dos Dez Negrinhos” está sendo publicado com o título de “E Não Sobrou Nenhum”. Isso não ocorre apenas no Brasil e a alteração se deve por a referência a “negrinhos” ser considerada de caráter racista. Além de achar isso uma bobagem sem tamanho e de não gostar do título atual (embora, devo acrescentar, “And then there were none” seja o título que o livro sempre recebeu nos Estados Unidos, embora no Reino Unido o original seja “Ten Little Niggers”), me nego a chamá-lo pelo novo título por acreditar que descaracteriza a obra (nesta nova versão os Negrinhos da mesa de centro e da cantiga infantil viram Soldadinhos, a Ilha do Negro onda a trama se passa vira Ilha do Soldado, e assim por diante) e arrisca spoilers. Outra razão que me leva a achar a ação infundada é o fato de que a atual capa é obrigada a conter a frase “anteriormente publicado como ‘O Caso dos Dez Negrinhos’ ” por esse se tratar de um dos livros mais famosos de Agatha Christie, de forma que o título continua ali de qualquer forma, apenas em letras menores.

Mesmo que a capa que ilustra este post seja pouco bonita, fiz questão de escolhe-la pois esta foi a edição que li. Independente de capa, ou título, é um livro obrigatório para quem gosta do gênero policial ou mesmo para os que se sentem ligeiramente atraídos pelo gênero. Sem dúvida as artimanhas que a Dama do Crime usa nesta trama são capazes de conquistar mesmo os mais incrédulos e converte-los a amantes das histórias policiais.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Lista de Releituras # 05

Lista de Releituras é a nova coluna mensal do Além da Contracapa. Como o nome sugere, são livros que já lemos e temos muita vontade de ler novamente, mas que, por diversas razões, não chegaram a ser resenhados no blog

Título: O Assassinato de Roger Ackroyd
Autora: Agatha Christie
Sinopse: "O assassinato do rico Roger Ackroyd, morto a punhaladas com uma adaga tunisiana, é a terceira de uma série de estranhas mortes, que despertam a atenção da solteirona e sagaz Caroline Sheppard, irmã do médico da cidade e narrador deste romance. Intrigada, Caroline resolve investigar o caso e descobrir se as três mortes têm alguma ligação. Para isso, ela conta com a ajuda de seu novo e excêntrico vizinho: o detetive belga Hercule Poirot. Escrita em 1926, O Assassinato de Roger Ackroyd é uma das mais famosas histórias da rainha do mistério." (sinopse retirada do Skoob)

Ocasião da primeira leitura: Provavelmente em 2010

Por que está na lista de releituras: Além de ser um dos maiores clássicos do gênero policial, é um dos meus livros favoritos entre os escritos pela Dama do Crime.

Comentários: Como a Mari e eu já mencionamos, o blog surgiu de nossas constantes divagações literárias e certo dia, após ter encerrado a leitura do livro e sem conseguir conter a empolgação, minha cara colega deixou escapar um spoiler, dando origem ao diálogo abaixo:

Alê: Hey!! Spoiler alert!
Mari: Você queria ler?
Alê: Sim. Estava achando bem interessante.
Mari: Mas quem quer ler tem que se manifestar.

Em sua defesa, a Mari sustentou que minhas reações não eram condizentes com as de uma pessoa que estava interessada em ler o livro. Todavia, a controvérsia ainda não foi resolvida. 

Tempos depois, mencionei que estava com vontade de ler algo da Agatha, e ela prontamente me emprestou O Assassinato de Roger AckroydA minha sorte foi que a Mari não mencionou o título do livro quando comentava sobre ele, assim como conseguiu fazer uma convincente “poker face” no momento em que me emprestava. Assim, comecei a ler sem associar título e spoiler.

Tudo corria bem e eu não poderia estar mais intrigado com o caso investigado por Poirot, até que, quando faltava cerca de quarenta por cento para encerrar a leitura, meu inconsciente me prega uma peça — me fazendo ouvir a voz da Mari contando o spoiler — e me faz saltar da cadeira. 

Fiquei empolgado, surpreso e indignado. Indignado com a Mari, pelo spoiler; comigo mesmo, pela minha memória que geralmente não é grande coisa, mas lembrou isso; e, principalmente, com a Dama do Crime, por me enganar direitinho.

Sim, por que eu tive que terminar a leitura naquela noite, e mesmo suspeitando o que me aguardava (afinal, não tinha certeza se o spoiler era desse livro), não pude deixar me surpreender com a genialidade da autora e com sua trama sem pontas soltas. Acho que foi nesse dia que entendi porquê Agatha tem o título de Dama do Crime, que, sinceramente, é mais do que merecido.

E sabe de uma coisa? Sei que a releitura será tão boa quanto foi a primeira. Por que um bom autor não precisa do elemento surpresa para surpreender o leitor.  

UPDATE: Se você já leu a obra ou se sabe qual é o final da estória, pedimos o favor de não comentar sobre os spoilers em respeito aos demais leitores do blog. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quem vem para o jantar? # 21

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

No ano passado, a festa do nosso primeiro aniversário surpreendeu a todos os convidados. Então, esse ano, com a intenção de fazer algo ainda melhor, decidimos fazer um evento mais elegante. Tendo isso em mente, entramos em contato com Mr. Darcy e Elizabeth, os quais, de bom grado, cederam o espaço para a nossa comemoração: a casa de Pemberley.

Estando em um local tão requintado e suntuoso, é claro que o nosso jantar subiu para o nível de banquete. O único problema é que precisaríamos limitar o número de convidados. Assim sendo, optamos por reduzir a lista apenas a autores que conhecemos desde a última festa, mas sem esquecer, é claro, de três convidados que terão sempre lugar de honra nos nossos eventos. Tendo a decoração e o cardápio definidos, mal podíamos esperar a chegada de nossos queridos convidados.
  

O primeiro a chegar foi F.Scott Fitzgerald e ele vinha sozinho. Sua esposa  a também escritora Zelda Fitzgerald  ficara em casa, pois um pouco antes de sair o casal tivera uma de suas brigas. Aceitando a primeira de muitas taças de champagne, Scott nos deu o maior elogio da noite:

— Essa é uma festa digna de Jay Gatsby!

Pouco depois de Fitzgerald chegavam Agatha Christie e Jane Austen, mantendo a tradição da pontualidade britânica. Nem é preciso dizer que estávamos extasiados em ter novamente a presença  dessas grandes damas. Jane, porém, logo se dispersou, mas Agatha se manteve conosco e, a pedidos, contava a respeito de sua última expedição na companhia do marido.

— A Mesopotâmia é fascinante!

Mesmo sem envolver em seus relatos os crimes pelos quais é tão conhecida, a Dama do Crime fascinou a todos com o seu relato e aos poucos os convidados a cercavam para ouvir mais.
Percebemos que, enquanto falava, Agatha se mantinha atenta ao que acontecia ao nosso redor e acompanhava o movimento dos garçons, recusando sempre que lhe era oferecida uma bebida. Curiosos, ficamos a observar a escritora e entendemos o seu comportamento apenas ao constatar que ela só aceitou sua primeira taça de champagne quando conseguiu manter sob vigília todos os passos do garçom, desde a cozinha até que ele chegasse ao seu lado. Trocamos um olhar de compreensão e contivemos um sorriso: nossa convidada era extremamente cuidadosa com o que ingeria, afinal, ela sabia melhor do que ninguém o tipo de coisas que podem ser colocadas acidentalmente nas bebidas.

Quando a sobremesa chegou, nossos convidados já estavam mais a vontade, o que era ótimo pois nos liberava parcialmente do trabalho de anfitriões e nos permitia observar os encontros inusitados que se formavam. Foi assim que testemunhamos a aproximação de Jane Austen e seu conterrâneo Ben Aaronovitch, autor da série “Enigmas de Londres”. Após conhecer J.K. Rowling no jantar que oferecemos no ano passado, Jane ficou curiosa para ler a saga Harry Potter e, ao terminar a leitura do último livro, percebeu que se tornara fã do gênero fantástico. Assim, ela logo aproveitou a oportunidade de embarcar nas aventuras de Peter Grant, guarda da polícia metropolitana e aprendiz de mago, pelo submundo londrino.

— Como você teve a ideia de unir fantasia e suspense? — indagou Jane.
— São os meus gêneros favoritos. — respondeu o outro e, após terminar de comer uma fatia de generosa de torta, acrescentou: — Sempre tive vontade de mesclá-los.

Do outro lado da mesa, percebemos que Michael Connelly se aproximava de Elizabeth Haynes e Gillian Flynn. Ele parecia ter certo receio principalmente em relação a essa última, talvez por medo que a protagonista de “Garota Exemplar” fosse um reflexo de sua autora. De qualquer forma, era difícil acreditar que um rosto tão meigo pudesse criar uma trama tão impactante e foi isso que Connelly disse a Flynn. Ela enrubesceu, pois se disse fã das séries Harry Bosch e Michael Haller e ao perguntar sobre futuras aventuras de Jack McEvoy disse ter um carinho especial pelo protagonista de “O Poeta”.

Connelly, que começava a ficar encabulado com tanta atenção, direcionou o assunto para Elizabeth Heynes, autora de "No Escuro", sem saber que com isso as duas autoras começariam a trocar figurinhas sobre como fazer thrillers psicológicos viciantes e com isso, o deixariam de lado. 

Mas a essa hora a noite já se encaminhava para o final. Connelly se despediu das autoras e do restante dos convidados, passando na saída por Ben Aaronovitch que nesse momento conversava com Alessandro D’avenia sobre a maravilhosa experiência que tivera durante a leitura do belo “Branca Como o Leite, Vermelha Como o Sangue”.

— Certamente, foi um dos livros mais emocionantes que já li. E sua narrativa é tão impactante que me fazia parar a todo instante para refletir.

Alessandro recebeu o elogio com um sorriso no rosto e, embora tenha admitido não ter lido nenhum livro da série “Enigmas de Londres” por falta de tempo, disse que era fã da série britânica "Doctor Who", da qual Ben foi roteirista.

Agatha Christie e Jane Austen também decidiram partir aproveitando a companhia uma da outra. Podemos perceber que para Jane era difícil deixar Pemberley, afinal o lugar saíra de sua própria imaginação, mas ela já estava cansada, visto que nunca fora muito chegada a festas.

F. Scott Fitzgerald, ao contrário, ficou nos fazendo companhia até o nascer do sol.


Nosso segundo aniversário foi uma noite e tanto. 


 

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