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domingo, 13 de agosto de 2017

RESENHA: O Apanhador no Campo de Centeio

“— Claro! Gosto que a pessoa seja objetiva e tudo, mas não gosto que seja objetiva demais. Não sei. Acho que não gosto quando a pessoa é objetiva o tempo todo.” (SALINGER, 2016, p. 218).

***

O Apanhador no Campo de Centeio é um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, aclamado tanto pelo público, quanto pela crítica. Por isso, há anos tinha o desejo de conferir a obra prima de J.D. Salinger. 

Holden Caufield, um adolescente de dezesseis anos, foi expulso de sua escola e, descontente com a situação, resolve retornar para Nova York antes do início do recesso de fim de ano. Assim, acompanhamos suas aventuras na Big Apple às vésperas do Natal, seu descontentamento com a sociedade, seus desgostos, medos e planos para o futuro. 

O Apanhador no Campo de Centeio é narrado por Holden em primeira pessoa e Salinger utiliza da técnica do fluxo da consciência. Ou seja, o protagonista fala tudo sem filtro, conforme as ideias lhe surgem à mente, às vezes interrompendo a si mesmo e fazendo saltos temporais sem seguir uma linha lógica. 

O início do livro estava me agradando, pois estava bastante intrigado com Holden e sua personalidade. Porém, com o avançar da leitura, comecei a sentir o vazio da trama. A estória basicamente acompanha o protagonista indo do ponto A para o ponto B, de lá para o ponto C e assim sucessivamente. O problema é que nenhum destes eventos são relevantes ou significativos, mas isto não impedia Holden de descrevê-los em detalhes. 

Entretanto, é preciso dizer que Holden é um personagem interessante. Logo percebemos que sua constante insatisfação — com a sociedade, a família e a escola — e suas críticas exacerbadas, apontam para um adolescente que está completamente perdido em uma crise de identidade, que vai para um lado e para outro, sem saber o que quer da vida, por que, na verdade, não sabe quem é. 

Mas o problema é que Holden, em vez de olhar para sua vida como uma tela em branco — se me é permitido o clichê — e colocar energia na tarefa de descobrir o que quer ser, ele parece se limitar a ver o lado ruim. Dessa forma, o protagonista é a encarnação do típico adolescente rebelde sem causa, com um senso de superioridade intragável, que parece gostar de ser incompreendido e que prefere criticar a ter uma atitude positiva. 

Entretanto, ao mesmo tempo que o protagonista conta com essa bagagem dramática e promova certas reflexões, a estória em si se limita a uma sucessão das reclamações de um adolescente, possivelmente mimado, de dezesseis anos. Então, por mais interessante que seja o aspecto psicológico, este não consegue compensar a falta de carisma de Holden, muito menos preparar o leitor para mais de duzentas páginas de reclamações. 

A meu ver, um dos trechos mais interessantes do livro é quando Holden vai conversar com um ex-professor no meio da madrugada. Antolini é um dos poucos adultos a aparecer na estória e logo vemos que ele consegue enxergar Holden, muito melhor do que o próprio adolescente enxerga a si mesmo e se preocupa por ver a jornada sem destino do ex-aluno. É justamente do diálogo entre os dois que retirei o quote que abre esta resenha, pois é uma descrição perfeita da forma como Holden conta sua estória (e talvez até mesmo da forma como vê o mundo): sem objetividade, sem foco e com inúmeras divagações.   

Talvez uma das maravilhas do livro seja sua ambiguidade. Emergimos na cabeça de Holden, mas a verdade é que como nem ele mesmo sabe quem é, nós como leitores também temos a sensação de não conhecê-lo direito. Ele pode ser um adolescente problemático, talvez com problemas mentais. Ou ele pode ser um adolescente são que crítica os valores de uma sociedade problemática, na qual não consegue se encaixar. Caberá ao leitor interpretar e as possibilidades são inúmeras. 

De qualquer forma, preciso admitir que O Apanhador no Campo de Centeio foi uma leitura bastante decepcionante e o que me incomodou foi justamente a falta de estória. A meu ver não se poderia dizer nem mesmo que a jornada de Holden é o cerne da estória, pois ele não parece passar por grandes evoluções. Um livro interessante, mas certamente superestimado. 

Título: O Apanhador no Campo de Centeio. 
Autor: J. D. Salinger
N.º de páginas: 250
Editora: Editora do Autor

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

RESENHA: Edgar Allan Poe: Medo Clássico

Uma falha seríssima no meu currículo de leitora era nunca ter lido os contos de Edgar Allan Poe: o mestre. Aquele que deu início a tudo. Afinal, se Sherlock Holmes é o primeiro nome que se pensa quando o assunto é detetives da literatura policial, uma coisa é certa: Sherlock jamais haveria existido se antes não houvesse um Dupin. Por isso, quando a Darkside lançou esse primeiro volume reunindo contos de Poe eu soube que minha falha seria sanada em breve e em grande estilo.

A primeira coisa que chama atenção é a melodia existente no texto de Poe, que parece ter sido escrito para ser lido em voz alta. A segunda é que, mais do que uma sequência de acontecimentos, fica claro que o autor se preocupa em criar uma atmosfera e induzir sensações em seu leitor mais do que em criar uma trama (tanto que alguns contos têm acontecimentos semelhantes).

Os contos foram divididos de acordo com temas: “Espectro da Morte” (com uma temática mais sobrenatural), “Narradores Homicidas” (nos quais homens comuns, por motivos nada cotidianos, foram levados ao homicídio), “Detetive Dupin” (casos do célebre personagem que inaugurou a literatura detetivesca como a conhecemos), “Mulheres Etéreas” (em que homens apaixonados convivem com a morte de suas amadas) e “Ímpeto Aventureiro” (contos mais leves). Essa divisão mostra a abrangência da obra de Poe. De certa forma, podemos dizer que ele colocou a pedra inicial em cima das quais outros autores moldaram gêneros.

“Já não lhe falei que o que você confunde com loucura é tão somente uma exacerbação dos sentidos?” (POE, 2017, p.110)

Destaco aqui “Gato Preto” (um dos contos de “Narradores Homicidas”) no qual um homem começa a se tornar irritadiço e violento, acaba por matar seu gato e, assombrado por tal ato, acaba cometendo um ainda mais grave. Destaco também “Assassinatos na Rua Morgue” que, apesar de ser completamente absurdo - e, na minha opinião, trair a confiança do leitor ao propor o tipo de desfecho que em nenhum momento ele teria condições de desvendar, por mais atento que estivesse - é o pai das histórias policiais que, mais tarde, serão assinadas por Conan Doyle e Agatha Christie: um assassinato aparentemente insolúvel, muitas pistas, um detetive atento a detalhes que ninguém mais consegue captar e um desfecho surpreendente.

O texto mais famoso de Poe, o poema “O Corvo”, ganhou destaque especial com um texto introdutório no qual o próprio autor explica como surgiu a ideia do poema e quais as suas intenções com cada estrofe. Na sequência, o leitor pode conferir o texto original, em inglês, e duas traduções: uma de Machado de Assis e outra de Fernando Pessoa (eu, particularmente, preferi a primeira) que mostram, mais uma vez, a importância do tradutor na percepção que o leitor tem da obra, afinal, as versões de Machado e Pessoa são bem diferentes uma da outra.

Mas eu estaria mentindo se dissesse que Poe correspondeu às minhas expectativas. Confesso, inclusive, que achei alguns contos bastante enfadonhos e até mesmo confusos. Acredito que isso faz parte da intenção do autor, de fazer o leitor sentir mais do que entender. Mas, apesar do caráter sensorial do texto, eu não me senti amedrontada como eu esperava, nem mesmo tão envolvida com o que os personagens sentiam. Reconheço diversas qualidades nos contos, em especial a sonoridade do texto e as imagens que Poe facilmente cria na mente do leitor, mas para mim a leitura valeu mais para entender a importância do autor dentro da literatura de terror, mistério, suspense e policial do que pela experiência de leitura em si.

Além de contar com um prefácio de Márcia Eloísa (responsável pela tradução da obra) essa edição também conta com um prefácio do poeta Charles Baudelaire (que também traduziu textos de Poe) falando um pouco sobre o autor e sua obra. A edição traz ainda imagens da casa onde Poe morou e acompanha cada conto de uma ilustração sombria.

Esse é o primeiro volume da “Coleção Definitiva de Edgar Allan Poe” e integra a coleção “Medo Clássico”, da editora Darkside, que contará ainda com nomes como H.P. Lovecraft, Mary Shelley e Bram Stoker.

Título: Edgar Allan Poe: Medo Clássico
Autor: Edgar Allan Poe
N° de páginas: 384
Editora: Darkside
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 19 de maio de 2017

RESENHA: A Letra Escarlate

“Hester olhou para agradar à criança; e viu que, devido ao efeito peculiar daquele espelho convexo, a letra escarlate era representada em proporções exageradas e gigantescas, de modo a ser a característica mais proeminente de sua aparência. Na verdade, ela parecia estar totalmente oculta pela letra.” (HAWTHORNE, 2017, p.112)

Depois de ouvir milhares de referências a “A Letra Escarlate” - em outros livros, em filmes ou mesmo séries de TV - há anos eu tinha curiosidade de conferir esse clássico. Esse ano ele finalmente retornou ao catálogo da editora Martin Claret. 

Em Boston, século XVII, em meio a uma sociedade puritana na qual o casamento era uma das mais sagradas instituições, Hester Prynne trai seu marido. Mesmo que ausente há anos e dado como morto, isso não justifica o pecado de Hester que, como punição para o seu crime, é condenada a viver com a letra “A”, de adúltera, bordada em suas vestes para o resto da vida.

O episódio central da trama poderia tornar “A Letra Escarlate” um livro ultrapassado, mas ele se torna extremamente atual quando observamos que ainda vivemos em uma sociedade machista, na qual pesos e medidas muitas vezes são diferentes para homens e mulheres.

Apesar de a sociedade transformar Hester em uma pária, podemos considerar a história feminista, já que mostra não apenas a força da personagem, mas também seu renascimento diante do que lhe acontece. 

Nas primeiras páginas, quando Hester é escoltada da prisão e levada a ficar em praça pública, usando a letra “A” para que todos possam testemunhar a sua punição (por muitos considerada leviana, acreditando que seria mais adequado queimar a letra “A” em sua pele ou mesmo condená-la à morte), o que vemos é uma mulher de cabeça erguida, preocupada apenas em proteger sua filha recém nascida - o símbolo em carne e osso do seu pecado. Apesar da humilhação, Hester se mantém firme e em nenhum momento se arrepende de seus atos, tendo inclusive a coragem de guardar em segredo o nome de seu amante, o homem que deveria dividir com ela a punição pelo crime de ambos. Hester ainda se mantém firme diante do retorno do marido, que reaparece adotando um novo nome a fim de se manter na comunidade para descobrir quem fora o amante da esposa.

Apesar de ter a intenção de punir Hester, o que a letra escarlate faz é proporcionar à mulher a chance de se transformar em uma pessoa melhor, o oposto do que acontece com seu ex-marido e seu amante (cuja identidade é revelada para o leitor, porém permanece em segredo para a sociedade até as últimas páginas). Excluída da comunidade, Hester passa a viver praticamente isolada, mas em nenhum momento se torna amarga e rancorosa, pelo contrário. É preciso levar em consideração ainda que Hester só é uma criminosa naquela comunidade, mas que poderia escolher recomeçar em qualquer outro lugar onde ninguém teria conhecimento do seu crime. Porém encarar sua punição com coragem é o que a permite refazer sua vida. Por outro lado, é encarar com covardia que faz com que seu amante definhe aos poucos.

O livro é repleto de simbolismos (como mostra o quote dessa resenha) que podemos ver até mesmo no nome da filha de Hester: Pérola. A menina é a luz da vida da mãe, mesmo que seja o lembrete diário de seu pecado, sua punição capaz de ver e falar. Pérola é banhada pelo sol, enquanto Hester parece sempre condenada a ficar na penumbra. O certo e o errado, o santo e o pecador, a coragem e a covardia, o perdão e o rancor são as dualidades em cima das quais a trama se constrói.

Porém, por mais interessantes que – em tese - sejam os simbolismos e o desenvolvimento psicológico de personagens atormentados pelos erros do passado ou pelo desejo de vingança, nesse caso eles tornaram o livro um tanto enfadonho. Mesmo se tratando de um livro curto, não consegui ler no meu prazo usual, pois em vários momentos interrompi a leitura desanimada já que as divagações e floreios são muitos, principalmente diante de acontecimentos escassos. Talvez isso se deva, em parte, a essa tradução (já comentei como acredito que a tradução influencia e muito a experiência do leitor), pois já li outras resenhas, de outras edições, salientarem que o livro é ágil, mesmo em se tratando de um clássico. Porém, não foi a experiência que eu tive.

“A Letra Escarlate” mostra a jornada de uma personagem forte, quando tudo ao seu redor estava contra ela. É um daqueles livros sobre os quais todos ouvimos falar e que, portanto, merece a leitura, mas não chega a ser uma obra cativante.

O livro já recebeu inúmeras adaptações para teatro e cinema, sendo a mais recente de 1995 com Demi Moore, Gary Oldman e Robert Duvall nos papéis principais.

Título: A Letra Escarlate
Autor: Nathaniel Hawthorne
N° de páginas: 271
Editora: Martin Claret
Exemplar cedido pela editora

quinta-feira, 16 de março de 2017

RESENHA: Os Miseráveis

Os Miseráveis Victor Hugo
Jean Valjean foi condenado a trabalho forçado nas galés e, por causa de inúmeras tentativas de fuga, teve que cumprir uma sentença de dezenove anos. Quando é liberto, percebe que a condição de ex-prisioneiro nunca o abandonará, motivo pelo qual troca de nome e recomeça sua vida.  É então que conhece Fantine, uma mulher que teve uma vida difícil, tendo até mesmo que abandonar sua filha, Cosette. Mas antes que Jean possa ajudá-las, o inspetor Javert se coloca no encalço do antigo forçado, determinado a levá-lo a justiça. Anos depois, a vida destes personagens irá se cruzar com o jovem Marius, um estudante engajado com a Revolução de 1832. 

A primeira observação que faço é que está sinopse é sucinta, pois se trata de uma tarefa hercúlea, senão impossível, resumir em poucas palavras a trama magistral de Os Miseráveis. Entretanto, creio que a tentativa de explicar com mais detalhes a premissa da trama acarretaria em spoilers, motivo pelo qual optei por prezar pela concisão. 

O primeiro fator que chama atenção é como a narrativa de Victor Hugo é fluida e envolvente, não dando a menor impressão de ser um livro publicado há mais de cento e cinquenta anos. Assim, mesmo que o início do livro demore cerca de cem páginas para realmente engrenar, o leitor não sente essas páginas pesarem (ainda mais por que apresentam um personagem coadjuvante interessantíssimo).

“O que é essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava. De quem? Da miséria.Da fome, do frio, do isolamento, do abandono, da privação. Dolorosa negociação. Um alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita. [...]. Dizem que a escravidão desapareceu da civilização europeia: é um erro. Existe ainda, mas não pesa senão sobre a mulher, e chama-se prostituição.” (HUGO, 2014, p. 229)

Mas quando Hugo começa a desenvolver o cerne da estória, prepare-se para embarcar em uma aventura emocionante. O autor faz retratos da miséria sem poupar o leitor, mostrando como os mais diversos personagens perdem, pouco a pouco, sua humanidade. A partir do momento em que se é ignorado socialmente e que as necessidades mais básicas não são saciadas, o ser humano regride aos seus impulsos mais animalescos. E quem pode culpá-lo? É com uma narrativa sutil e tocante que Hugo compõe um quadro doloroso, sendo impossível não sentir um aperto no coração vendo dramas tão intensos e injustos. 

O ponto alto do livro certamente é a crítica social contundente que Victor Hugo desenvolve ao longo da estória, expondo diversas feridas de nossa sociedade como a pobreza, a criminalidade, a injustiça, o abuso infantil, a prostituição e a forma como tratamos pessoas menos favorecidas. Apesar do autor não dar nenhuma lição de moral, a estória é tão forte e impactante que equivale a uma sucessão de “tapas na cara”. Assim, ao mesmo tempo em que emociona, Os Miseráveis também causa desconforto, por revelar uma realidade amarga para a qual fechamos os olhos. 

A construção dos personagens também merece destaque. É impressionante como o autor consegue criar personagens tão reais e vívidos, de modo que o leitor entende suas motivações e ações. É preciso elogiar, principalmente, a composição de dois personagens: Jean Valjean e Javert. A caracterização de protagonista e antagonista é impecável, pois vai muito além de uma visão maniqueísta. Assim, Jean não é um santo, mas Javert também não é um demônio. São homens, com qualidade e defeitos, e que tentam fazer apenas o que julgam ser correto.

“De sofrimento em sofrimento, chegou, pouco a pouco, à convicção de que a vida é uma guerra; guerra em que o vencido era ele. A única arma que possuía era seu ódio. Resolveu afiá-la na prisão e levá-la consigo quando fosse embora.” (HUGO, 2014, p. 129)

Entretanto, preciso apontar dois fatores que me desagradaram na leitura de Os Miseráveis. O primeiro diz respeito às incontáveis e extensas divagações do autor sobre os mais diversos assuntos, como a Batalha de Waterloo, a vida monástica e, pasmem, até mesmo o sistema de esgoto parisiense. Considerando o tamanho do livro, tais divagações, embora até fossem interessantes, me pareceram desnecessárias, sendo que pouco contribuíram para o desenvolvimento da estória. 

Outro fator que não me agradou foram as estórias do núcleo composto por Marius, seus amigos e sua família, bem como o desenvolvimento da Revolução Estudantil de 1832. Curiosamente, este trecho é apontado por muitos leitores como o ápice da estória, mas não posso afirmar o mesmo. A meu ver, é nesta parte da estória que Victor Hugo pesou a mão e não conseguiu dar a mesma densidade aos personagens, tampouco aos seus dramas. Assim, admito que não me importava com este núcleo, tampouco com o pano de fundo histórico, restando-me apenas aguardar o desenvolvimento deste arco narrativo até que os demais personagens retornassem à cena. 

Rompendo as barreiras de diversos gêneros literários, Os Miseráveis certamente foi uma das melhores leituras da minha vida, seja pela força dos personagens e seus dramas, seja pelas reflexões que proporciona, seja pelo impacto que a estória causa. Um clássico que permanece atual e que emociona com suas estórias de dor, amor, amizade e redenção.  

Título: Os Miseráveis 
Autor: Victor Hugo
N.º de páginas: 1509
Editora: Martin Claret
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 19 de fevereiro de 2017

O que faz de um livro um clássico?

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

É comum nos referirmos à literatura clássica como um gênero. Entretanto, nenhum livro nasce clássico, mas é alçado a tal categoria com o passar do tempo. Então a pergunta que fica é: o que faz de um livro um clássico? O passar do tempo? Seu conteúdo? Ou, quem sabe, uma combinação destes dois elementos?

Clássicos x gênero

Creio que a primeira observação a ser feita é que clássicos independem do gênero. Orgulho e Preconceito é um romance, Grandes Esperanças é uma estória de redenção, 1984 e Laranja Mecânica são distopias, Romeu e Julieta e O Morro dos Ventos Uivantes são trágicas estórias de amor, O Senhor dos Anéis é fantasia, Capitães da Areia é um romance de formação, O Sol é Para Todos poderia ser classificado tanto como drama como um livro juvenil. 

Como se vê, para qualquer gênero que se olhe, encontraremos livros clássicos. E o que livros tão diferentes têm em comum? Creio que a resposta é simples: falam de temas universais como o amor, ódio, amizade, inveja, justiça, vingança, perdão, opressão e tantos outros. São sentimentos como esses que nos fazem humanos e livros que abordam tais temas acabam por dialogar diretamente com a nossa humanidade. 

Assim, ao abordar temas universais, o autor universaliza seu público alvo. É por esse motivo que um livro clássico consegue transcender as fronteiras geográficas. Os costumes e a cultura do período que retratam não impedem que leitores de diversos cantos do mundo possam se identificar com a estória e aproveitar suas lições.

Tempo e relevância

Entretanto, há muitas obras que contam com tais elementos, mas nem por isso são consideradas clássicas. Isso por que, a meu ver, um livro clássico não pode contar apenas com temas universais, mas precisa passar pelo teste do tempo. Ou seja, o livro precisa manter-se relevante com o passar dos anos, não perdendo a força de suas reflexões, tampouco o impacto que causará no leitor.

E falando em reflexão

Eis outro aspecto importante para um livro clássico: sua leitura deve ser provocativa e instigante, confrontando nossos preconceitos e paradigmas, levando o leitor a rever sua forma de pensar. Um clássico apenas merece tal título se nos faz repensar sobre nossas vidas, nossos relacionamentos e sobre o mundo em que vivemos. 

Concluindo

Em outras palavras, a literatura clássica é a literatura da “seleção natural”. Apenas resistem os livros que transcendem ao seu tempo, que transpõe barreiras culturais, que atravessam fronteiras, que alcançam os mais diferentes leitores, que se mantêm relevantes apesar das mudanças e que, sobretudo, falam ao nosso coração. 

Quanto mais livros clássicos eu leio, mais me surpreendo com a qualidade que encontro e sempre me pergunto, ao final da leitura, por que demorei tanto tempo para ler a obra. As experiências de leitura são das mais diversas: as vezes doces como um abraço; outras, violentas como um tapa na cara. Mas uma coisa é certa: sempre são experiências memoráveis. Então, quando for escolher sua próxima leitura, fica aqui uma sugestão: por que não escolher um clássico?



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

RESENHA: Villette

“Enquanto eu olhava, meu eu interior se alterou; meu espírito sacudiu suas asas sempre acorrentadas e elas quase se soltaram; tive uma sensação súbita como se eu, que até então jamais vivera de verdade, estivesse finalmente prestes a saborear a vida.” (BRONTË, 2016, p.91)

Quando se gosta muito de um livro é praticamente impossível não querer ler outras obras do mesmo autor. Foi por isso que iniciei a leitura de “Villette” com altas expectativas, afinal, não apenas “Jane Eyre” foi uma das minhas melhores leituras de 2015, como o considero um dos melhores clássicos que já tive o prazer de ler. 

Lucy Snowe não tem família ou qualquer coisa que a prenda. Por isso, a fim de construir sua vida por conta própria, ela se muda para Villette, onde se tornará professora de inglês em um internato para meninas. 

Novamente me surpreende o quanto o texto de Brontë é fluido, mesmo se tratando de um livro clássico. Em nenhum momento a história se torna cansativa pela linguagem ou pelo ritmo, tendo como único ponto negativo as inúmeras expressões em francês que quebram o ritmo da leitura, tanto pela estranheza que causam, quanto por estarem traduzidas apenas no posfácio, obrigando o leitor a interromper a leitura em busca da tradução. Diga-se de passagem que foi uma orientação da autora que a tradução ocorresse dessa forma, algo que a editora Martin Claret optou por obedecer. 

Mais uma vez, Charlotte Brontë cria uma personagem feminina independente que, diferente das mulheres da época, não vê no casamento a chave para a felicidade e subsistência. Assim como Jane Eyre, Lucy toma para si a responsabilidade sobre sua própria vida, tem opiniões fortes (através das quais a autora faz criticas ao catolicismo) e inclusive faz pouco das colegas cuja maior preocupação é encontrar pretendentes. Levando em consideração o que costumamos ver em romances clássicos, o final de “Villette” é bastante inusitado. 

A narrativa é feita em primeira pessoa, por uma Lucy já idosa que relata sua vida para um leitor com o qual, de tempos em tempos, dialoga diretamente. Talvez por contar os acontecimentos tanto tempo depois de terem ocorrido, Lucy opta por deixar de fora alguns detalhes e esclarecimentos, importando apenas que as coisas tenham acontecido e não o que levou elas a acontecerem. Nesse sentido também, personagens secundários vão e voltam sem aparente razão, no que tanto podem ser coincidências forçadas ou situações sobre as quais a narradora não se deu ao trabalho de entrar em detalhes. 

A verdade é que toda a postura de Lucy enquanto narradora é peculiar. Essa é uma personagem que está contando sua história de vida, chegando até a abordar diretamente o leitor, mas que parece não fazer questão de se deixar ser conhecida por ele. Isso até está de acordo com a personalidade da personagem (acostumada a estar por conta própria no mundo, ela prefere se preservar), mas prejudica o envolvimento do leitor com a sua jornada já que tudo que Lucy nos conta soa superficial. Além disso, no momento em que a própria protagonista não se apega aos personagens da trama, o leitor, tampouco. 

Mas o que causa realmente estranheza em “Villette” é que a história de Lucy parece pertencer a todos menos a ela. Por um lado, sentimos que ela é a protagonista e que, portanto, são as coisas que acontecem a ela que importam para a história. O problema é que nada de significativo acontece a ela porque tudo que move a trama diz respeito aos personagens coadjuvantes. Dessa forma, temos uma protagonista que não protagoniza, pois as situações principais não lhe dizem respeito (o que leva o leitor a pouco se importar com a personagem) e temos coadjuvantes vivendo os principais arcos narrativos, sem que sintamos ligação nenhuma com eles. Assim, de qualquer ângulo que se olhe, o que o leitor recebe é insatisfatório. A verdade é que a vida de Lucy parece ser tão sem graça que ela prefere observar os outros (mas se é assim, porque ela decidiu contar essa história tantos anos depois?). Isso a tornaria uma boa narradora testemunha, o problema é que não é essa a sensação que ela transmite. É uma situação muito diferente de, por exemplo, Nick Carraway, de “O Grande Gatsby” que não deixa dúvida nenhuma sobre aquela história não ser sua e sim do misterioso Jay Gasby e sua amada Daisy, embora seja através dos olhos de Nick que a conhecemos. Quanto a Lucy Snowe, ao que tudo indica, era ela quem deveria estar no centro dos acontecimentos e era a sua jornada que deveríamos estar acompanhando (assim como  fomos presenteados por Brontë com a jornada de Jane Eyre), mas tudo o que temos são eventos dispersos, mesmo que amarrados. 

Sendo fruto de uma época em que romances eram sinônimo de textos rebuscados e mulheres eram donzelas indefesas, “Villette” tem seus méritos pela narrativa de Charlotte Brontë e por apresentar uma personagem feminina independente. Mas não é um livro que consegue cativar.  

Título: Villette (exemplar cedido pela editora)
Autora: Charlotte Brontë
N° de páginas: 856
Editora: Martin Claret

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

RESENHA: Suave é a Noite

“Sua ingenuidade se sentia atraída pela custosa simplicidade dos Diver, sem perceber que nela havia complexidade e falta de inocência, sem ver que eles se preocupavam mais com qualidade do que com quantidade. Assim também a naturalidade de comportamento, a paz e a boa vontade, a ênfase dada às virtudes mais singelas, tudo isso fazia parte de um desesperado acordo com os deuses e fora atingido à custa de lutas incalculáveis.” (FITZGERALD, 2010, pag. 43).

Comprei “Suave é a Noite” pouco tempo depois (e sob evidente influência) da minha leitura de “O Grande Gatsby”, livro que elegi como uma das minhas melhores leituras de 2013. Quando o li, mais de um ano depois, não encontrei nele a mesma experiência prazerosa que no meu primeiro contato com a obra de Fitzgerald.

Dick Diver é um brilhante psiquiatra que, ao ser chamado para um caso, apaixona-se pela paciente. Com o casamento, o estilo de vida que os dois adotam passam a ser financiado pelo dinheiro de Nicole e aos poucos Dick abandona a psiquiatria. Apesar do dinheiro, dos belos lugares e das inúmeras festas, o casal não é feliz e sua vida é tediosa.

Ambientado na década de 20 e dividido em três partes, “Suave é a Noite” começa lento, para não dizer entediante. Dick e Nicole vivem uma vida vazia na Riviera Francesa quando em suas vidas surge a jovem atriz Rosemary que se apaixona por Dick e, eventualmente, é correspondida. Esses capítulos, porém, são monótonos e os personagens não cativam (o que talvez mostre como eles se sentem em relação à vida).

Já na segunda parte do livro a mudança é palpável. O autor brinca com a linha temporal e dedica alguns capítulos centrais à época em que Dick e Nicole se conheceram – a época de ouro da carreira dele e o auge da doença dela no hospital psiquiátrico. Nas primeiras linhas já é possível perceber que aquelas pessoas que vínhamos acompanhando eram outras pessoas em outra fase de suas vidas e que o casamento foi um marco da mudança (uma característica que lembra obras do Realismo, por exemplo, “Madame Bovary”). Ali, podemos ver um Dick vibrante, uma pessoa cheia de planos e sonhos - a quem todos gostavam pelo que de fato era e não pelo que tentava ser - e detentora do domínio de sua própria vida.

Voltando ao presente, acompanhamos o desgaste da relação do casal e a decadência de Dick que, aos poucos, se entrega ao alcoolismo. “Suave é a Noite” é considerada a obra mais autobiográfica de Fitzgerald e o alcoolismo de Dick é um reflexo do alcoolismo do autor, enquanto a esquizofrenia de Nicole é um reflexo da de Zelda, sua esposa. Não só esses, mas outros aspectos da trama foram inspirados em acontecimentos da vida do casal.

É interessante a inversão de papeis que ocorre aos poucos. Enquanto Dick vai se reduzindo a um fragmento do homem que era, Nicole, por sua vez, que a principio depende dele para se curar – primeiro como médico, depois como marido - aos poucos se livra dessa dependência e encontra seu próprio rumo.

Com uma recepção morna na época do seu lançamento (já que histórias da Era do Jazz já estavam defasadas nos anos que se seguiram à crise da bolsa de valores) “Suave é a Noite” era considerado por Fitzgerald sua melhor obra e foi o último livro que o autor finalizou (na ocasião de sua morte trabalhava em “O Último Magnata”). Confesso não ter gostado - ou talvez devesse dizer apreciado – a leitura que mesmo em seus melhores momentos me pareceu enfadonha. Reconheço, porém, méritos em especial devido a complexidade dos personagens. Talvez seja o caso de reler em outro momento. Ainda assim, pretendo ler outros livros do autor, em especial “Os Belos e Malditos”, e também seus contos.

Título: Suave é a Noite
Autor: F.Scott Fitzgerald
Nº de páginas: 445
Editora: Best Bolso

sexta-feira, 1 de julho de 2016

RESENHA: A Abadia de Northanger

“— [...]. Diz o Tilney que não há nada sobre o que as pessoas mais se iludam do que os próprios sentimentos, e acho que ele tem toda razão.” (AUSTEN, 2015, p. 701).

***

Li A Abadia de Northanger pela primeira vez no final de 2011, mas em virtude do final do semestre, acabei protelando a leitura por mais de um mês. E além de não ter aproveitado a leitura tanto quanto poderia, confesso que mal me lembrava da estória, de modo que estava decidido a reler o livro assim que possível. 

Catherine, uma jovem de dezessete anos, é convidada a passar algumas semanas na cidade de Bath com amigos de sua família. Ela logo se torna amiga íntima de Isabella, e posteriormente vem a conhecer Eleanor e Henry Tilney, irmãos que a convidam a visitar a Abadia de Northanger. 

Chama atenção logo nos primeiros capítulos que Jane Austen adotou um estilo despretensioso ao escrever A Abadia de Northanger. Além de um texto mais leve e uma heroína improvável, a autora também satiriza e critica diversas situações, mas sempre mantendo o bom-humor e a ironia tipicamente inglesa. 

Este foi o primeiro livro escrito pela autora (e talvez por isso mesmo mais despretensioso), ficando claro que sua habilidade narrativa ainda estava em desenvolvimento. Confesso que senti falta da narrativa poética e musical que sempre me encanta, mas tal ausência em nada desmerece a obra. Entretanto, em virtude dessa linguagem mais simples, creio que este seja o livro ideal para quem nunca leu alguma obra de Austen   por medo de encontrar um texto rebuscado  tenha seu primeiro contato.

Ouso dizer que A Abadia de Northanger poderia muito bem ser o precursor de dois gêneros literários muito em voga atualmente: Romance de Formação e Young Adult. A evolução e o amadurecimento de Catherine são palpáveis ao longo do livro, que deixa de ser uma menina ingênua e crédula. Mas o livro também tem traços de Young Adult ao retratar dramas adolescentes, como amizades, decepções e relacionamentos amorosos. 

Apesar de ser um romance, não espere encontrar em A Abadia de Northanger uma paixão avassaladora, nem obstáculos intransponíveis. O cerne da obra certamente é a jornada de Catherine, seu processo de autoconhecimento e de aprendizagem sobre as diversas facetas da natureza humana. 

Como era de se esperar, Jane Austen mais uma vez brilha na construção dos personagens. Acho incrível como a autora faz descrições concisas a respeito da personalidade de cada um, deixando a cargo do leitor descobrir a essência deles a partir de suas ações e de seus diálogos. 

Leve, divertido e reflexivo, A Abadia de Northanger revela um lado de Jane Austen menos conhecido do público, mas que igualmente transborda talento e sagacidade. 

Esta edição também conta com os livros “Mansfield Park” e “Emma”, sendo impossível não elogiar o capricho da Editora Martin Claret. 


Título: A Abadia Northanger (exemplar cedido pela editora)
Autora: Jane Austen
N.º de páginas: 767
Editora: Martin Claret

terça-feira, 29 de março de 2016

RESENHA: Contos Russos - Tomo II

“Não queria saber se me amavam, nem reconhecer, no íntimo, que não me amavam; andava distante do pai, porém não conseguia distanciar-me de Zinaída. Era como se um fogo me abrasasse em sua presença...mas para que necessitaria saber que fogo seria aquele que me queimava e derretia, se era tão doce ser queimado e derretido?” (TURGUÊNEV, p.103 , 2015)

Eu nunca havia me dado conta, mas contos são uma excelente maneira de se familiarizar com a literatura de um país. Não apenas porque, de modo geral, quase todos os grandes autores arriscaram algumas histórias curtas, mas também porque essas breves leituras permitem fazer um rápido apanhado do que o país produziu em sua literatura, passando por várias épocas e gêneros literários. Por isso achei tão válida a proposta da editora Martin Claret em lançar “Contos Russos”, uma coletânea dividida em dois tomos que apresenta uma seleção de contos clássicos escritos por alguns dos seus maiores autores.

Neste segundo tomo, dois contos são apresentados. Em “O Primeiro Amor”, de Ivan Turguênev, acompanhamos o relato de Vladímir Petróvitch que, aos quarenta anos, é desafiado por um grupo de amigos a contar a história de sua primeira paixão, vivida na adolescência.

Neste conto, a maneira como Vladímir se sente em relação à Zinaída se revela muito mais importante do que o que aconteceu entre eles. Apesar de seus intensos sentimentos e de vê-la, de certa forma, como alguém inalcançável (o que lembra muito características do romantismo, embora o conto pertença ao realismo), Vladímir não é cego para os defeitos de sua amada, salientando várias vezes o seu egoísmo e a maneira como brincava com os sentimentos alheios.

Embora só saibamos ao final qual foi o destino do romance, é possível perceber pelo tom do relato que a história não foi totalmente satisfatória para o jovem Vladímir, mas a maneira e a pureza com que ele fala sobre o tal sentimento transmite tamanha verdade que o que aconteceu perde a importância diante da maneira como ele se sentia.

“Alias, não havia mais para ela nem luz nem treva, nem mal nem bem, nem tristeza nem alegria: ela não entendia coisa alguma, não amava a ninguém, inclusive a si mesma.” (LESKOV, p. 181, 2015)

Em “Lady Macbeth do distrito de Mtsensk”, de Nokolai Leskov, conhecemos Katerina Liámin, a entediada esposa de um comerciante que, ao se envolver com um funcionário, passa a não medir esforços para se livrar das barreiras que dificultam o seu romance.

Katerina Liámin é uma personagem surpreendente. Uma mulher que vive exatamente da maneira como se espera dela, mas que está adormecida, esperando que sua vida comece de verdade. É por isso que, assim que tem uma chance, ela deixa que sua verdadeira personalidade venha à tona. É como se, durante o tempo todo, tudo que ela precisasse fosse de um empurãozinho.

A partir do momento em que percebemos do que Katerina é capaz, os eventos deixam de ser surpreendentes, mas se desenrolam de maneira rápida, mantendo o leitor interessado do início ao fim (tanto que li o conto todo de uma única sentada).

Mesmo se tratando de textos clássicos, ambos apresentam narrativas fluidas e ambos são intensos (um pelo amor de Vladimir, o outro pela maldade e falta de escrúpulos de Katerina). Particularmente gostei mais de “Lady Macbeth do distrito de Mtsensk”, tanto pela velocidade dos acontecimentos quanto pela personagem-título (gosto muito de histórias em que a vilã é a própria protagonista, em especial quando se trata de uma personagem feminina).

Até hoje, foram poucos os meus contatos com a literatura russa. Uma falha da qual os dois contos desse livro me lembraram e que pretendo corrigir aos poucos. Fica aqui a minha torcida para que a editora estenda este projeto a demais países.  

Título: Contos Russos – Tomo II (exemplar cedido pela editora)
Autores: Ivan Turguênev e Nokolai Leskov
N° de páginas: 201
Editora: Martin Claret

sexta-feira, 25 de março de 2016

RESENHA: Laranja Mecânica

Laranja Mecânica é um clássico da literatura inglesa e um dos livros mais importante do gênero distópico, pois passados mais de cinquenta anos de sua publicação, a obra continua mais atual e relevante do que nunca.  

Em uma sociedade futurista, comanda por um governo totalitário, conhecemos Alex, um adolescente de quinze anos, e seus amigos. Mas o que os une não é a amizade e sim o gosto pela violência. Certo dia um assalto não sai como planejado e Alex é deixada para trás por seus amigos, sendo levado à prisão. Lá ele é submetido a uma técnica para torná-lo uma pessoa avessa a maldade. 

A narrativa de Laranja Mecânica é densa em virtude do linguajar próprio utilizado por Alex e sua gangue. Apesar desta edição contar com um glossário ao final, optei por ler o livro sem a ajuda de tal recurso, pois esta era a intenção de Burges: jogar o leitor nesse mundo distópico e fazê-lo sentir na pele o estranhamento de mergulhar em uma cultura desconhecida. Apesar dessa dificuldade inicial, creio que a partir da segunda parte do livro já estava acostumado com esta linguagem. 

Alex é um protagonista e tanto. Narrando em primeira pessoa suas aventuras, temos um olhar honesto, de quem não tem nada a esconder e que revela seus defeitos sem pudor, principalmente sua personalidade perversa, egoísta e aproveitadora. Mas chega um momento que o leitor se apega a ele, e mesmo não concordando com suas ações ou forma de pensar, queremos vê-lo superar a situação em que se encontra. 

Os demais personagens também foram bem desenvolvidos, mesmo que suas aparições na estória sejam mais restritas. O desfecho, mesmo não sendo o ápice da obra, é extremamente interessante em virtude do amadurecimento do protagonista. E foi só ao final da leitura que percebi que a jornada de Alex pode ser interpretada tanto literalmente, quanto metaforicamente. Ou ainda de ambas as formas.

“— [...]. Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor que um homem que teve o bem imposto a si?” (BURGESS, 2012, p. 156)

Laranja Mecânica conta com uma trama simples, mas que impressiona pela quantidade de reflexões que provoca. A mais interessante delas é o tratamento ao qual Alex é submetido, que é baseado na terapia da aversão: Alex passa a sentir um mal-estar físico ao ser exposto ou a imaginar qualquer forma de violência. É daí que surge o cerne do livro: onde fica a liberdade do ser humano e seu poder de escolha? Ser forçado a escolher o bem é ser realmente uma boa pessoa? 

Em um outro nível de análise, podemos ver uma crítica à sociedade e a forma como esta condiciona as pessoas. É impossível não se questionar até que ponto o convívio social não tolhe parte da nossa identidade e livre-arbítrio. Exemplifico: uma criança que sofre bullying por ser diferente. O grupo social em que convive está lhe dizendo que sua forma de ser não é aceitável. Ou seja, não se precisa chegar ao extremo da lavagem cerebral para que tenhamos um cerceamento de escolha. E quem nunca fez ou deixou de fazer algo por considerar, em primeiro lugar, o que os outros iriam pensar, que atire a primeira pedra. 

Para além das reflexões sobre o condicionamento comportamental, Burgess também aborda temas como a eficácia do sistema prisional, a adolescência e o processo de amadurecimento, a vida em sociedade, os jogos de poder e de manipulação. E esta é uma das maiores belezas de Laranja Mecânica: seu infindável potencial para discussões sobre os mais variados assuntos. 

Laranja Mecânica é um livro universal e atemporal pois dialoga diretamente com a essência do que é ser humano. Um livro que impacta tanto por sua estória, quanto por suas reflexões, e que certamente merece ser lido e relido. 

O livro foi adaptado para o cinema em 1971 por Stanley Kubrick. 

Título: Laranja Mecânica 
Autor: Anthony Burgess
N.º de páginas: 352
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

RESENHA: As Intermitências da Morte

“É mais do que compreensível a perplexidade da morte. Tinham-na posto neste mundo há tanto tempo que já não consegue recordar-se de quem foi que recebeu as instruções indispensáveis ao regular desempenho da operação de que a incumbiram. Puseram-lhe o regulamento nas mãos, apontaram-lhe a palavra matarás como único farol das suas atividades futuras e, sem que provavelmente se tivessem apercebido da macabra ironia, disseram-lhe que fosse à sua vida.” (SARAMAGO, p. 160, 2015)

Todo bookaholic sabe que existem autores que você simplesmente não pode passar a vida sem ler pelo menos uma vez. José Saramago é um deles e “As Intermitências da Morte” foi o livro que elegi para conhecer o autor.

A Morte está de férias. Nunca tendo sua importância sido devidamente apreciada pelos seres humanos, ela interrompe suas atividades sem aviso prévio e, como resultado, a partir do dia 1° de janeiro ninguém morre no país. Lá fora, tudo permanece como antes, mas ali, neste país em específico, não importa a gravidade do acidente ou o estágio da doença, morrer é simplesmente impossível, o que gera uma série de complicações sobre as quais os seres humanos nunca pensaram.

“As Intermitências da Morte” não é um livro complexo, mas exige concentração do leitor. Isso porque Saramago usa do Fluxo de Consciência, um estilo narrativo que pode ser confuso caso o leitor não esteja atento. Os parágrafos são longos (muitas vezes se estendendo por inúmeras páginas), a pontuação não segue as regras tradicionais e os diálogos não são marcados com travessões ou aspas (a única indicação de que outro personagem assumiu a fala é a letra maiúscula após a vírgula. Isso mesmo. Vírgula. O autor não usa nem mesmo ponto final para separar a fala de um personagem da fala de outro). Causa muita estranheza nas primeiras páginas e pode até mesmo parecer desesperador, mas não é. Ainda assim, achei que a narrativa se torna sufocante em alguns momentos, pois parece não permitir ao leitor respirar durante páginas e páginas.

Embora não haja uma separação formal, percebe-se que o livro é divido em duas partes. Na primeira, vemos as consequências das férias da Morte. A situação, claro, é absurda, mas as reações e questionamentos que Saramago extrai das pessoas não o são. Qual a função da igreja se ninguém morre (afinal, sem morte não há ressureição, diz um personagem, e assim sendo, por que as pessoas precisariam da religião)? O que acontece com os hospitais que não podem fazer nada por um paciente que não tem salvação, mas que também não morre? Com as famílias diante de seus entes queridos agonizantes que continuarão agonizando? Com as agencias funerárias que se vem sem negócios? Neste inesperado caos, surge a máphia (organização criminosa que se propõe a levar os moribundos para o outro lado da fronteira, onde as pessoas continuam morrendo, e depois traze-los de volta apenas para serem enterrados), a maneira de Saramago mostrar que sempre haverá alguém disposto a tirar proveito de qualquer circunstância. Em meio a tudo isso, o delinear da situação é mais importante do que o desenvolvimento das histórias de alguns personagens. É por isso que não há protagonistas (decisão que, mesmo acertada, dificulta um pouco a conexão com leitor).

Na segunda parte isso se inverte. Nos tornamos mais próximos dos personagens e a história passa a ser sobre eles e não mais sobre a situação. Isso porque a própria Morte assume o lugar de protagonista ao voltar às suas atividades e se deparar com um problema que a fará se colocar no lugar das pessoas e descobrir algumas das coisas que elas sentem.

Particularmente, não gostei do desfecho proposto pelo autor e considero a primeira parte mais interessante que a segunda.

“As Intermitências da Morte” é um livro para se ler sem pressa. Seu texto, repleto de ironia, dialoga diretamente com o leitor em alguns momentos e sua história aborda a visão que as pessoas tem da morte, propondo também uma interpretação da visão da própria morte com relação ao seu emprego. Não foi uma leitura exatamente prazerosa, mas foi interessante.

Título: As Intermitências da Morte (exemplar cedido pela editora)
Autor: José Saramago
N° de páginas: 207
Editora: Companhia das Letras

terça-feira, 7 de julho de 2015

RESENHA: O Sol é Para Todos

“— Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa.” (LEE, 2015, p. 135).

***

O Sol é Para Todos é um dos maiores clássicos da literatura americana e sempre tive muita curiosidade para conferir a obra prima de Harper Lee, mas tinha dificuldades em encontrar a edição brasileira. Quando a autora anunciou que o livro iria ganhar uma continuação, a editora José Olympio relançou o livro para a felicidade dos leitores brasileiros. 

No início de 1930, Atticus é o advogado designado pelo juiz Taylor para defender Tom Robinson, negro acusado de estuprar uma mulher branca. Enquanto todos aguardam o julgamento, vemos os conflitos e tensões oriundos deste caso sobre os moradores da cidade de Maycomb, e especialmente sobre os filhos de Atticus, Jem e Scout. 

O livro é narrado em primeira pessoa, por Scout, uma menina de seis anos de idade. É através de seu olhar inocente que vemos todos os conflitos de Maycomb, e mesmo quando ela não entende as implicações dos acontecimentos, todos os fatos são narrados de forma que o leitor acompanhe o desenvolver da estória. A narrativa de Lee é extremamente fluída e faz com que o leitor seja tragado para dentro da estória logo nos primeiros capítulos. 

Merece destaque que O Sol é Para Todos não é um thriller jurídico. O caso em que Atticus está envolvido não é tão relevante quanto as consequências que o mesmo irá causar na vida daquela família e daquela cidade. Ou seja, o processo serve como pano de fundo, e não como cerne da estória. Ainda assim, impossível não elogiar o trabalho da autora nas cenas que ocorrem no tribunal, pois além de muito bem executadas, são de tirar o fôlego. 

Os personagens são um capítulo à parte, pois extremamente bem construídos, sendo impossível não se apegar a eles. Seu desenvolvimento e evolução ao longo da trama é palpável, especialmente no tocante as crianças. De certa forma, O Sol é Para Todos até poderia ser classificado como um romance de formação, pois a sucessão de eventos irá moldar a vida e o caráter de Jem e Scout de forma indelével. 

A proposta da autora era discutir temas como justiça, preconceito, perda da inocência, amadurecimento, integridade, coragem, violência e tantos outros. Mas seu trabalho é tão impecável que as reflexões surgem na mente do leitor de forma natural, a partir das situações criadas no livro. Ou seja, mesmo abordando assuntos complexos, em nenhum momento Lee dá lições de moral. Além disso, é incrível como tais discussões permanecem atuais e relevantes, mesmo fazendo mais de cinquenta anos da publicação do livro. A verdade é que O Sol é Para Todos é um livro atemporal, e não é por menos que foi laureado com o prêmio Pulitzer da literatura em 1963.

Com personagens profundamente humanos, uma narrativa sensível e temas universais, O Sol é Para Todos se tornou um dos meus livros de cabeceira, e reconheço que minhas singelas palavras nesta resenha não fizeram justiça ao livro. Encerro dizendo que em tempos em que o preconceito, em todas as suas formas, continua arraigado em nossa sociedade e se manifestando em proporções homéricas, creio que esta obra deveria ser considerada leitura obrigatória. 

O livro foi adaptado para o cinema em 1962, sendo indicado ao Oscar em oito categorias, das quais ganhou a estatueta em três.  

Go Set a Watchman, a inesperada continuação de O Sol é Para Todos, será lançado nos Estados Unidos no dia 14 de julho de 2015. Este livro também será publicado no Brasil pela Editora José Olympio. 

Título: O Sol é Para Todos (exemplar cedido pela editora)
Autora: Harper Lee
N.º de páginas: 349
Editora: José Olympio

quinta-feira, 28 de maio de 2015

RESENHA: Jane Eyre

“ – Senhor, eu não acho que tenha o direito de comandar o que eu digo somente por ser mais velho do que eu, ou porque tenha visto mais do mundo do que eu. Sua afirmação de superioridade depende do uso que fez do seu tempo e de sua experiência.” (BRONTË, p.242, 2014)

Minha vontade de ler "Jane Eyre" remontava há tanto tempo que quando o livro chegou às minhas mãos, eu nem lembrava sobre o que se tratava ou o que havia me atraído. Gosto quando isso acontece. Quando mergulho em uma leitura sabendo apenas os contornos que irá assumir, mas sem saber para onde ela pretende me levar. Tudo que eu sabia a respeito de "Jane Eyre" era sua importância para a literatura - em especial por se tratar de um texto tão avançado em termos de feminismo nos idos de 1800 – e quando o li, fui surpreendida por uma narrativa vivaz e cativante e por uma das melhores protagonistas da literatura clássica com as quais já me deparei.

Jane Eyre é uma menina órfã que vive com a viúva de seu tio e três primos. Desprezada e frequentemente humilhada, aos dez anos é enviada para uma escola de caridade, pois os parentes querem estar livres dela. O lugar, apesar de rígido, lhe proporciona anos felizes e é seu lar até os 18 anos quando consegue um emprego como preceptora em Thornfield. E é lá que ela se apaixona por Edward Rochester.

Verdade seja dita: nem todo clássico empolga. Mesmo eu que gosto muito desse tipo de literatura, às vezes não me sinto no clima para suas histórias de poucas reviravoltas, suas narrativas mais lentas e seus textos, geralmente, mais rebuscados. Com "Jane Eyre", todos esses conceitos podem ser deixados de lado, já que há anos eu não lia um clássico tão envolvente. A narrativa em primeira pessoa transborda sentimento e ação mesmo nas cenas mais insignificantes e faz um retrato do pensamento da época, abordando temas como diferença de classes e a submissão da mulher.

E tudo começa com sua protagonista. Com uma única cena já é possível entendermos a vida de Jane e nos afeiçoarmos a ela. Dali para frente, o que acompanhamos é sua jornada. Jane Eyre é uma das melhores personagens femininas da literatura. Cheia de personalidade, determinada, alguém que diz o que pensa e se impõe (mesmo quando todos ao seu redor esperam que não o faça) e que luta para fazer da sua vida o que ela acredita merecer por seus próprios méritos. Com tamanha riqueza, não espanta que a personagem não seja apenas a protagonista e sim toda a história.

Mesmo não havendo uma divisão formal, é possível considerar que "Jane Eyre" é composto por três fases: a infância de Jane, sua temporada como preceptora e o que se segue depois que deixa Thornfield.

Como a história se compõe de fases da vida de Jane, ela é a única personagem que acompanhamos do início ao fim. Todos os outros, eventualmente, ficam para trás. Eles não fazem parte da história, existindo apenas para ajudar a moldar o caráter da protagonista, já que as situações que ela vive e a maneira como age diante delas vão aos poucos definindo quem ela é. Essa é uma estratégia arriscada, já que os personagens secundários poderiam soar desimportantes, dando a impressão de estarem ali apenas para ocupar espaço. Mas não é o que acontece. Charlotte Brontë consegue fazer com que o leitor viva cada momento junto com a sua personagem, de forma que cada fase soa como única. Aquela situação e aquelas pessoas são tudo o que existe até que Jane avance para uma nova etapa.

Não são todos os autores que conseguem transitar por tantas fases da vida de um personagem e manter todas igualmente cativantes. Charlotte Brontë só consegue isso graças à riqueza de material que a protagonista proporciona. Para o leitor, é um prazer acompanha-la e torcer para que encontre uma vida melhor e seja feliz. Embora o romance entre Jane e Rochester seja parte fundamental da trama, eu não considero esse o arco principal do livro. Como mencionei antes, "Jane Eyre" é um livro sobre Jane Eyre, sobre quem ela é e todos os seus sentimentos, não sobre seu romance ou sobre seu trabalho ou sobre sua família.

Uma áurea de mistério ainda ronda momentos da história e, para mim, foi impossível não associar Thornfield ao cenário de um dos meus livros favoritos, “O Morro dos Ventos Uivantes”, da autoria da irmã de Charlotte, Emily Brontë.

Mais que uma personagem, Jane Eyre é um símbolo. É uma ruptura dos romances que contavam com protagonistas indefesas, mulheres que eram criadas para almejar o casamento e ter na união o ponto máximo de felicidade de suas vidas e sua razão de sobrevivência. Talvez por isso ela seja tão cativante. Em um cenário tão distante da nossa realidade, ela consegue soar real. "Jane Eyre" fala sobre independência e sobre fazer o que é certo sob os seus próprios padrões. Sua história é tocante e digna de admiração. Em meio a outros simbolismos, a inversão de papéis proposta pela a autora é o desfecho ideal para a jornada da personagem.

Essa edição conta ainda com um prefácio - que contextualiza a publicação e recepção do livro à sua época, assim como faz um breve relato sobre a vida das três irmãs Brontë e de como suas realidades pessoais influenciaram suas obras – e um posfácio cujo tema é a mulher na época vitoriana e o quanto Jane Eyre era diferente delas. Por se tratar de uma edição especial, a diagramação contribuiu para que o livro crescesse um pouco. Apesar deste volume ter quase 800 páginas, "Jane Eyre" não é um livro tão extenso quanto possa parecer.

Em 2006, a BBC fez uma adaptação do romance de Charlotte Brontë que contou com Ruth Wilson como Jane Eyre e Toby Stephens como Edward Rochester. Em quatro episódios de uma hora, a produção conseguiu manter-se fiel ao livro de maneira que poucas vezes acontece. Assisti a microsérie nos dias que se seguiram a minha leitura e gostei muito.

Título: Jane Eyre (exemplar cedido pela editora)
Autora: Charlote Brontë
Nº de páginas: 779
Editora: Martin Claret

sábado, 25 de abril de 2015

RESENHA: Mansfield Park

“Tudo dependia de uma única pergunta. Ela o amava suficientemente para abrir mão de coisas que até então considerava essenciais? Amava-o suficientemente para deixar de ver essas coisas como essenciais? E a resposta a essa pergunta, que ele repetia para si mesmo sem cessar, geralmente era um ‘sim’, porém às vezes era um ‘não’.” (AUSTEN, 2014, p. 345-6).

***

Quem acompanha o blog sabe que sou fã incondicional de Jane Austen, e sentia uma culpa enorme por não ter terminado de ler toda a sua obra. Por isso mesmo, minha meta de leitura para esse ano incluía pelo menos um livro não lido da autora, e o escolhido da vez foi Mansfield Park. Infelizmente, não foi uma boa opção. 

Filha de pais humildes e com poucas perspectivas, Fanny Price é adotada por seus abastados tios, Lady e Sir Bertram, sendo levada para Mansfield Park, onde é criada com os quatro primos. Anos depois, vemos a tranquila convivência familiar ser abalada com a chegada do sr. Rushworth e dos irmãos Henry e Mary Crawford, ante a expectativa de desejáveis enlaces matrimoniais. 

É impossível começar a resenha de Mansfield Park sem falar de Fanny, uma protagonista que não sabe protagonizar, visto que é a personificação da passividade e, portanto, limita-se a assistir aos acontecimentos que ocorrem a sua volta. Em um primeiro momento, imaginei que tal atitude até seria justificável, visto que Fanny cresceu ao lado dos primos sabendo que não era igual a eles, então, talvez sua passividade fosse oriunda de um complexo de inferioridade. Entretanto, logo constatei que as demais atitudes e pensamentos não se coadunavam com tal complexo, de modo que descartei a teoria. Verdade seja dita: Fanny não parece uma protagonista criada por Jane Austen, a mente por trás de outras tantas heroínas da literatura, que brilham justamente por serem independentes, fortes, dinâmicas e audaciosas, mas também lúcidas e racionais. 

Creio que ler livros clássicos é uma das mais interessantes formas de apreender os hábitos e costumes dos tempos de outrora. Ainda assim, me surpreendi com a aversão desmotivada da protagonista ao cortejos e galanteios de outro personagem. Se compararmos com Orgulho e Preconceito, é fácil perceber que a aversão de Elizabeth por Mr. Darcy se dá por uma série de desentendimentos plausíveis e coerentes. O mesmo não se pode falar de Fanny, que simplesmente coloca uma ideia na cabeça, fazendo o pior juízo do cavalheiro, em virtude de uma atitude que não me parece ter tanta importância, mesmo para os padrões daquela época. 

A percepção que eu tinha dos demais personagens não se assemelhava com a percepção de Fanny. A meu ver, parecia que ela estava em um pedestal de moralismo, de onde julgava os outros, exacerbando os defeitos alheios e deixando de enxergar os seus. Ao final, para justificar esta disparidade de percepções, uma série de eventos ocorrem com o único propósito de confirmar os julgamentos da protagonista, e que não me pareceram condizentes com o restante da estória. A verdade é que as condutas dos personagens não se mostraram compatíveis com suas personalidades, ficando claro que autora forçou elementos dissonantes no desfecho da trama apenas para contar a estória que tinha em mente. Jane Austen, que sempre fez um ótimo trabalho retratando o ser humano, me pareceu vilanizar aqueles que não eram maus em sua essência, mas pessoas normais, com qualidades e defeitos. 

De todos os livros da autora que já li, certamente Mansfield Park é aquele que coloca em ênfase os defeitos dos personagens acima de suas qualidades: mesquinharia, inveja, irresponsabilidade, insegurança, arrogância, desprezo, entre tantos outros. Austen expôs os defeitos de todos e, sendo conhecedora da alma humana, poderia ter criado, mais uma vez, um romance universal, com o qual pessoas de todos os cantos do mundo poderiam se identificar. O problema é que faltou carisma em seu elenco, tanto é que achei difícil me envolver com a estória, pois não simpatizei com nenhum deles.

Mansfield Park é reputado pelos críticos como a obra mais complexa de Jane Austen, e esta avalição é certeira. Por um lado, temos um vasto número de personagens, que no início da estória chegam a ofuscar a própria heroína e sua jornada. Por outro, temos uma narrativa onisciente que se mescla com os pensamentos e sentimentos de Fanny, dando a sensação de que há informações contraditórias. Por fim, Mansfield Park apresenta um viés ideológico e moralista acentuado, que não é facilmente absorvido. 

É claro que o texto de Jane Austen ainda é soberbo, porém, por mais que eu admire a autora, me dói admitir a verdade: não gostei de Mansfield Park. Apesar de sua complexidade, creio que o maior problema da obra é sua protagonista insossa, vulnerável e irritante. Se Fanny Price tivesse uma personalidade mais agradável e menos introspectiva, certamente os rumos da obra seriam outros. Ou, pelo menos é isso que quero acreditar. 

Título: Mansfield Park (exemplar cedido pela editora)
Autora: Jane Austen
N.º de páginas: 606
Editora: Penguin Companhia 

domingo, 15 de março de 2015

RESENHA: O Processo

“Minha inocência não simplifica a questão (...) Há muitas sutilezas em que a justiça se perde! Sempre termina por descobrir um grande delito onde de modo algum o havia.” (KAFKA, p.177, 2000)

Há pouco tempo tive meu primeiro contato com a obra de Franz Kafka e terminei ansiando pelo segundo. Porém, a experiência não se repetiu tão satisfatoriamente.

Na manhã do seu aniversário de 30 anos, Josef K. acorda com dois homens em seu quarto a fim de detê-lo por um crime que nenhum deles sabe qual é. Tendo início o processo que irá defini-lo culpado ou inocente, ele pode continuar levando sua vida normalmente – morando na mesma pensão, trabalhando no mesmo cargo no banco – mas olhos recriminadores o acompanham por onde quer que vá enquanto ele tenta encontrar alguém que possa ajudá-lo a resolver essa situação.

“Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã.” É com essa abertura brilhante que “O Processo” tem início. Kafka entrega toda a essência da história com essas poucas palavras: Josef K. é um homem íntegro que nunca fez nada de errado e portanto uma acusação, qualquer que seja, contra ele só pode ser uma calúnia.

O absurdo é o cerne da obra de Kafka e em “O Processo” podemos acompanhar um absurdo que nada tem de fantástico (diferente de “A Metamorfose”), pelo contrário, trata de um sistema judiciário falho. O tema é muito interessante: como pode um homem defender-se de um crime que ele mesmo não sabe qual é ou mesmo quem o acusa? Como pode ser acusado se ninguém sabe que crime é esse? E, de qualquer forma, qual poderia ser a defesa ou atitude adequada a se ter diante de uma situação que pode se transformar a qualquer momento já que ainda não foi delineada?

Apesar de gostar muito da premissa da obra, não me envolvi com a leitura. Lembro que quando li “A Metamorfose” uma das coisas que apreciei no conto foi a habilidade de Kafka em nos fazer aceitar imediatamente uma coisa completamente absurda e aos poucos fazer com que nos envolvêssemos com a situação e o drama daquele personagem. A situação é sim absurda, mas o sentimento de Gregor Samsa – homem que acorda transformado em um inseto gigante - é real. Em “O Processo”, apesar da evidente angústia do personagem em tentar encontrar alguém que possa ajudar o seu caso e da confusão que sente o tempo todo por se ver preso nesse caso estapafúrdio, não senti a mesma conexão com Josef K., de forma que o absurdo ficou sendo apenas absurdo.

Certa vez, li em algum lugar que os personagens de Kafka são vítimas da própria vida e para a vida nem sempre há explicações. Isso certamente fica claro em “O Processo”, um livro de temática interessante, mas nem por isso uma leitura agradável.

Essa edição da Martin Claret conta com um prefácio do tradutor, Torrieri Guimarães, que expõe brevemente a vida e alguns dos conflitos de Franz Kafka a fim de ajudar o leitor a compreender as nuances de sua obra. A respeito de “O Processo” é interessante destacar que o livro nunca chegou a ser finalizado por Kafka e só veio a público graças a Max Brod, amigo do autor, que, ciente das intenções originais, organizou o manuscrito após a morte de Kafka.

Em 1962, o lendário Orson Welles dirigiu uma adaptação de “O Processo”, com Anthony Perkins no papel de Josef K. Infelizmente, o filme é de difícil localização. Em 1993, Kyle McLachlan deu vida ao protagonista em um filme de David Hugh Jones que contou ainda com as participações de Anthony Hopkins e Alfred Molina.

Título: O Processo (exemplar cedido pela editora)
Autor: Franz Kafka
Nº de páginas: 252
Editora: Martin Claret

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

RESENHA: A Metamorfose/Um Artista da Fome/ Carta ao Pai

“E assaltado por remorsos e inquietude começou a subir por todas as paredes, todos os móveis e pelo teto, e finalmente, quando já a sala começava a dar voltas ao seu redor, deixou-se cair em desespero sobre a mesa.” (KAFKA, 2014 p.35)

E eis que tive meu primeiro contato com a obra de Franz Kafka e já não era se em tempo. Essa edição que reúne três textos do autor foi uma ótima maneira de começar.

“A Metamorfose”, a mais célebre obra de Kafka, é o conto que abre essa edição. A história de Gregor Samsa que em uma manhã como qualquer outra, após uma noite de sono inquieto, acorda transformado em um monstruoso inseto.

“A Metamorfose” é um daqueles textos que dá vontade de ler inúmeras vezes com a certeza de que cada leitura permitirá uma nova interpretação. Kafka inverte todas as convenções e faz com que o absurdo pareça normal e o normal pareça absurdo. De alguma forma o autor faz com que seja muito fácil para o leitor aceitar que Gregor acordou transformado em um inseto. O personagem fica chocado ao se deparar com sua nova situação, mas a aceita imediatamente, sem questionamentos, e o mesmo faz o leitor. O que espanta é a reação da família diante da sua nova condição. O inseto gigante e suas inúmeras patas descontroladas não são estranhos. Estranhos são os outros.

Nesse contexto, o porquê da metamorfose física não importa. O que importa é a metamorfose psíquica pela qual os personagens passam a partir da metamorfose física e as mudanças que suas vidas sofrem, já que fica claro que Gregor não era apreciado por ser filho ou irmão e sim por ser fonte de renda.

“Um Artista da Fome” é ainda mais breve que “A Metamorfose” (conta com meras 10 páginas) e é mais um exemplo do desespero e absurdo amplamente conhecidos como características do universo kafkaniano. A história de um artista que tem como talento jejuar e em seus jejuns de 40 dias encontra a glória, já que as pessoas cercam sua jaula para assistir o espetáculo, ou seja, garantir que não coma nada. Sua arte é tudo o que ele tem, mas perde o apelo para o público que, antes obcecado, perde o interesse com o passar do tempo. Ele sente que seu tempo ainda não acabou (porque jejuar apenas por 40 dias se pode continuar muito mais?), mas o público quer outra atração em seu lugar. Não é difícil fazer paralelos com a cultura de celebridades ou mesmo com o uso das habilidades de alguém para proveito próprio apenas enquanto isso é útil.

Por fim, ‘Carta ao pai” é um texto autobiográfico que relata a relação conturbada do autor com seu pai, um homem severo e crítico que moldou muitas de suas escolhas. Nele, o autor conta ao pai como se sentiu diante de diversas situações, as coisas que quis dizer e nunca disse e a maneira como enxerga o relacionamento que construíram. Das três obras foi a que menos gostei, mas é a mais carregada de sentimentos.

“Carta ao pai” conta com um prefácio escrito pelo tradutor desta edição, Torrieri Guimarães, que comenta sobre o quanto é possível entender de Kafka, sua personalidade e obra, a partir da leitura deste texto.

Eu tinha a equívoca impressão que Kafka devia ser um autor complicado e foi uma surpresa constatar o quão simples e fluido é seu texto. As três obras apresentadas nessa edição abordam temas contundentes e levam à reflexão, mas todas têm textos simples. A complexidade fica a cargo das idéias. Uma ótima introdução ao universo kafkaniano.

Título: A Metamorfose / Um Artista da Fome / Carta ao Pai (exemplar cedido pela editora)
Autor: Franz Kafka
Nº de páginas: 112
Editora: Martin Claret
 

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