“— Claro! Gosto que a pessoa seja objetiva e tudo, mas não gosto que seja objetiva demais. Não sei. Acho que não gosto quando a pessoa é objetiva o tempo todo.” (SALINGER, 2016, p. 218).
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O Apanhador no Campo de Centeio é um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, aclamado tanto pelo público, quanto pela crítica. Por isso, há anos tinha o desejo de conferir a obra prima de J.D. Salinger.
Holden Caufield, um adolescente de dezesseis anos, foi expulso de sua escola e, descontente com a situação, resolve retornar para Nova York antes do início do recesso de fim de ano. Assim, acompanhamos suas aventuras na Big Apple às vésperas do Natal, seu descontentamento com a sociedade, seus desgostos, medos e planos para o futuro.
O Apanhador no Campo de Centeio é narrado por Holden em primeira pessoa e Salinger utiliza da técnica do fluxo da consciência. Ou seja, o protagonista fala tudo sem filtro, conforme as ideias lhe surgem à mente, às vezes interrompendo a si mesmo e fazendo saltos temporais sem seguir uma linha lógica.
O início do livro estava me agradando, pois estava bastante intrigado com Holden e sua personalidade. Porém, com o avançar da leitura, comecei a sentir o vazio da trama. A estória basicamente acompanha o protagonista indo do ponto A para o ponto B, de lá para o ponto C e assim sucessivamente. O problema é que nenhum destes eventos são relevantes ou significativos, mas isto não impedia Holden de descrevê-los em detalhes.
Entretanto, é preciso dizer que Holden é um personagem interessante. Logo percebemos que sua constante insatisfação — com a sociedade, a família e a escola — e suas críticas exacerbadas, apontam para um adolescente que está completamente perdido em uma crise de identidade, que vai para um lado e para outro, sem saber o que quer da vida, por que, na verdade, não sabe quem é.
Mas o problema é que Holden, em vez de olhar para sua vida como uma tela em branco — se me é permitido o clichê — e colocar energia na tarefa de descobrir o que quer ser, ele parece se limitar a ver o lado ruim. Dessa forma, o protagonista é a encarnação do típico adolescente rebelde sem causa, com um senso de superioridade intragável, que parece gostar de ser incompreendido e que prefere criticar a ter uma atitude positiva.
Entretanto, ao mesmo tempo que o protagonista conta com essa bagagem dramática e promova certas reflexões, a estória em si se limita a uma sucessão das reclamações de um adolescente, possivelmente mimado, de dezesseis anos. Então, por mais interessante que seja o aspecto psicológico, este não consegue compensar a falta de carisma de Holden, muito menos preparar o leitor para mais de duzentas páginas de reclamações.
A meu ver, um dos trechos mais interessantes do livro é quando Holden vai conversar com um ex-professor no meio da madrugada. Antolini é um dos poucos adultos a aparecer na estória e logo vemos que ele consegue enxergar Holden, muito melhor do que o próprio adolescente enxerga a si mesmo e se preocupa por ver a jornada sem destino do ex-aluno. É justamente do diálogo entre os dois que retirei o quote que abre esta resenha, pois é uma descrição perfeita da forma como Holden conta sua estória (e talvez até mesmo da forma como vê o mundo): sem objetividade, sem foco e com inúmeras divagações.
Talvez uma das maravilhas do livro seja sua ambiguidade. Emergimos na cabeça de Holden, mas a verdade é que como nem ele mesmo sabe quem é, nós como leitores também temos a sensação de não conhecê-lo direito. Ele pode ser um adolescente problemático, talvez com problemas mentais. Ou ele pode ser um adolescente são que crítica os valores de uma sociedade problemática, na qual não consegue se encaixar. Caberá ao leitor interpretar e as possibilidades são inúmeras.
De qualquer forma, preciso admitir que O Apanhador no Campo de Centeio foi uma leitura bastante decepcionante e o que me incomodou foi justamente a falta de estória. A meu ver não se poderia dizer nem mesmo que a jornada de Holden é o cerne da estória, pois ele não parece passar por grandes evoluções. Um livro interessante, mas certamente superestimado.
Autor: J. D. Salinger
N.º de páginas: 250
Editora: Editora do Autor
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