“Um monte de lorotas saem da boca de gente que está tentando contar a verdade. Não é fácil, quando a pessoa está sem prática.” (HAMMETT, 2002, pag. 58)
Dashiell Hammett é um dos grandes autores da literatura americana. Seu nome, ao lado do de Raymond Chandler (a quem frequentemente é associado e por quem era considerado um mestre) é sinônimo de literatura policial de alta qualidade e assina alguns dos maiores clássicos da vertente noir.
Sendo fã confessa de literatura policial e tendo Raymond Chandler como um dos meus autores favoritos, meu interesse pela obra de Hammett é evidente. “O Homem Magro” é a primeira narrativa longa que leio do autor.
O ex-detetive Nick Charles vive com sua esposa Nora dias regados a bebida antes mesmo do café da manhã, quando estão hospedados em Nova York em plena época da lei seca. Mas ao contrário do que todos pensam, a estadia do casal na cidade nada tem a ver com a morte da jovem Julia Wolf, secretária do inventor Clyde Wynant - agora desaparecido - que anos antes foi cliente de Nick. O ex-detetive não tem interesse algum em se envolver com o caso, mas entre o fascínio amador de sua adorável esposa e as suspeitas que batem à sua porta, ele é obrigado a usar seus talentos, em especial quando outro cadáver surge em seu caminho e a jovem filha do inventor insiste em trazer seus problemas familiares também para a porta de Nick.
Narrado em primeira pessoa, mas composto mais por diálogos que por narração, “O Homem Magro” apresenta um texto direto (assim como seu protagonista) e capítulos curtos que só não são devorados porque os personagens que os habitam não conseguem gerar no leitor a empatia necessária. O casal de protagonistas é carismático, mas não consegue compensar pelos outros personagens. É claro que estamos inseridos no universo noir e o que o faz tão bom é justamente os defeitos dos personagens e suas atitudes – na maioria das vezes - condenáveis, mas alguém acostumado a transitar por este mundo na companhia dos personagens de Raymond Chandler (em especial do detetive Phillip Marlowe) sabe que defeitos podem ser sim sinônimos de carisma (e, muitas vezes, são os principais responsáveis por ele) e isso faz falta nas páginas de “O Homem Magro.”
Mas se Chandler ganha pontos pelo carisma de seus personagens, Hammett conquista os seus por criar tramas igualmente elaboradas, porém mais diretas e, consequentemente, simples, o que possibilita que um livro como “O Homem Magro”, apesar de todas as pontas de sua trama, seja lido rapidamente, sem a confusão que os livros de Chandler acarretam algumas vezes.
É por isso que eu acho possível dizer que Hammett é a consolidação do melhor de dois mundos. Enquanto alguns autores criam tramas simples (os populares “whodunnits”), e outros criam tramas absolutamente complexas, “O Homem Magro” consegue ser um whodunnit sofisticado - não que sofisticação tenha alguma coisa a ver com os bares clandestinos e as ruas por onde se passa -, pois transforma o que com outros autores seria uma trama de uma única pergunta em um crime cheio de pontas, onde cada ponta leva a um personagem cheio de defeitos envolvido em um relacionamento problemático com outro personagem igualmente defeituoso que ocupa outra ponta da trama, mas que ainda girando em torno de um único crime central. Elaborado, mas sem perder a simplicidade. O que o leitor quer é a resolução do crime e em nenhum momento perde este foco, mas também quer mais e o autor é hábil em atende-lo.
Essa é uma daquelas histórias em que descobrir a identidade do assassino é tão interessante quanto descobrir o que está por trás das mentiras que cada personagem conta e qual o verdadeiro interesse que move suas ações. “O Homem Magro” é um desfile de mentiras elaboradas por personagens cheios de segundas intenções que só ficam claras na última página, e mesmo depois dela deixam a certeza de que aqueles mesmos personagens continuarão a inventar outras mentiras para suprir outras intenções. Como não se fascinar por histórias como essas?
“O Homem Magro” pode não ter sido tudo o que eu esperava, mas jamais poderia ser considerado pouco digno de expectativa. Tendo reajustado as minhas, pretendo ler em breve outros livros do autor. Afinal, não se pode passar a vida se auto-intitulando um fã de literatura policial sem nunca conhecer “O Falcão Maltês”, o mais célebre dentre os célebres.
Título: O Homem Magro
Autor: Dashiell Hammett
Nº de páginas: 260
Editora: Companhia das Letras
Sendo fã confessa de literatura policial e tendo Raymond Chandler como um dos meus autores favoritos, meu interesse pela obra de Hammett é evidente. “O Homem Magro” é a primeira narrativa longa que leio do autor.
O ex-detetive Nick Charles vive com sua esposa Nora dias regados a bebida antes mesmo do café da manhã, quando estão hospedados em Nova York em plena época da lei seca. Mas ao contrário do que todos pensam, a estadia do casal na cidade nada tem a ver com a morte da jovem Julia Wolf, secretária do inventor Clyde Wynant - agora desaparecido - que anos antes foi cliente de Nick. O ex-detetive não tem interesse algum em se envolver com o caso, mas entre o fascínio amador de sua adorável esposa e as suspeitas que batem à sua porta, ele é obrigado a usar seus talentos, em especial quando outro cadáver surge em seu caminho e a jovem filha do inventor insiste em trazer seus problemas familiares também para a porta de Nick.
Narrado em primeira pessoa, mas composto mais por diálogos que por narração, “O Homem Magro” apresenta um texto direto (assim como seu protagonista) e capítulos curtos que só não são devorados porque os personagens que os habitam não conseguem gerar no leitor a empatia necessária. O casal de protagonistas é carismático, mas não consegue compensar pelos outros personagens. É claro que estamos inseridos no universo noir e o que o faz tão bom é justamente os defeitos dos personagens e suas atitudes – na maioria das vezes - condenáveis, mas alguém acostumado a transitar por este mundo na companhia dos personagens de Raymond Chandler (em especial do detetive Phillip Marlowe) sabe que defeitos podem ser sim sinônimos de carisma (e, muitas vezes, são os principais responsáveis por ele) e isso faz falta nas páginas de “O Homem Magro.”
Mas se Chandler ganha pontos pelo carisma de seus personagens, Hammett conquista os seus por criar tramas igualmente elaboradas, porém mais diretas e, consequentemente, simples, o que possibilita que um livro como “O Homem Magro”, apesar de todas as pontas de sua trama, seja lido rapidamente, sem a confusão que os livros de Chandler acarretam algumas vezes.
É por isso que eu acho possível dizer que Hammett é a consolidação do melhor de dois mundos. Enquanto alguns autores criam tramas simples (os populares “whodunnits”), e outros criam tramas absolutamente complexas, “O Homem Magro” consegue ser um whodunnit sofisticado - não que sofisticação tenha alguma coisa a ver com os bares clandestinos e as ruas por onde se passa -, pois transforma o que com outros autores seria uma trama de uma única pergunta em um crime cheio de pontas, onde cada ponta leva a um personagem cheio de defeitos envolvido em um relacionamento problemático com outro personagem igualmente defeituoso que ocupa outra ponta da trama, mas que ainda girando em torno de um único crime central. Elaborado, mas sem perder a simplicidade. O que o leitor quer é a resolução do crime e em nenhum momento perde este foco, mas também quer mais e o autor é hábil em atende-lo.
Essa é uma daquelas histórias em que descobrir a identidade do assassino é tão interessante quanto descobrir o que está por trás das mentiras que cada personagem conta e qual o verdadeiro interesse que move suas ações. “O Homem Magro” é um desfile de mentiras elaboradas por personagens cheios de segundas intenções que só ficam claras na última página, e mesmo depois dela deixam a certeza de que aqueles mesmos personagens continuarão a inventar outras mentiras para suprir outras intenções. Como não se fascinar por histórias como essas?
“O Homem Magro” pode não ter sido tudo o que eu esperava, mas jamais poderia ser considerado pouco digno de expectativa. Tendo reajustado as minhas, pretendo ler em breve outros livros do autor. Afinal, não se pode passar a vida se auto-intitulando um fã de literatura policial sem nunca conhecer “O Falcão Maltês”, o mais célebre dentre os célebres.
Título: O Homem MagroAutor: Dashiell Hammett
Nº de páginas: 260
Editora: Companhia das Letras





