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sábado, 5 de abril de 2014

RESENHA: O Homem Magro


“Um monte de lorotas saem da boca de gente que está tentando contar a verdade. Não é fácil, quando a pessoa está sem prática.” (HAMMETT, 2002, pag. 58)

Dashiell Hammett é um dos grandes autores da literatura americana. Seu nome, ao lado do de Raymond Chandler (a quem frequentemente é associado e por quem era considerado um mestre) é sinônimo de literatura policial de alta qualidade e assina alguns dos maiores clássicos da vertente noir.

Sendo fã confessa de literatura policial e tendo Raymond Chandler como um dos meus autores favoritos, meu interesse pela obra de Hammett é evidente. “O Homem Magro” é a primeira narrativa longa que leio do autor.

O ex-detetive Nick Charles vive com sua esposa Nora dias regados a bebida antes mesmo do café da manhã, quando estão hospedados em Nova York em plena época da lei seca. Mas ao contrário do que todos pensam, a estadia do casal na cidade nada tem a ver com a morte da jovem Julia Wolf, secretária do inventor Clyde Wynant - agora desaparecido - que anos antes foi cliente de Nick. O ex-detetive não tem interesse algum em se envolver com o caso, mas entre o fascínio amador de sua adorável esposa e as suspeitas que batem à sua porta, ele é obrigado a usar seus talentos, em especial quando outro cadáver surge em seu caminho e a jovem filha do inventor insiste em trazer seus problemas familiares também para a porta de Nick.

Narrado em primeira pessoa, mas composto mais por diálogos que por narração, “O Homem Magro” apresenta um texto direto (assim como seu protagonista) e capítulos curtos que só não são devorados porque os personagens que os habitam não conseguem gerar no leitor a empatia necessária. O casal de protagonistas é carismático, mas não consegue compensar pelos outros personagens. É claro que estamos inseridos no universo noir e o que o faz tão bom é justamente os defeitos dos personagens e suas atitudes – na maioria das vezes - condenáveis, mas alguém acostumado a transitar por este mundo na companhia dos personagens de Raymond Chandler (em especial do detetive Phillip Marlowe) sabe que defeitos podem ser sim sinônimos de carisma (e, muitas vezes, são os principais responsáveis por ele) e isso faz falta nas páginas de “O Homem Magro.”

Mas se Chandler ganha pontos pelo carisma de seus personagens, Hammett conquista os seus por criar tramas igualmente elaboradas, porém mais diretas e, consequentemente, simples, o que possibilita que um livro como “O Homem Magro”, apesar de todas as pontas de sua trama, seja lido rapidamente, sem a confusão que os livros de Chandler acarretam algumas vezes.

É por isso que eu acho possível dizer que Hammett é a consolidação do melhor de dois mundos. Enquanto alguns autores criam tramas simples (os populares “whodunnits”), e outros criam tramas absolutamente complexas, “O Homem Magro” consegue ser um whodunnit sofisticado - não que sofisticação tenha alguma coisa a ver com os bares clandestinos e as ruas por onde se passa -, pois transforma o que com outros autores seria uma trama de uma única pergunta em um crime cheio de pontas, onde cada ponta leva a um personagem cheio de defeitos envolvido em um relacionamento problemático com outro personagem igualmente defeituoso que ocupa outra ponta da trama, mas que ainda girando em torno de um único crime central. Elaborado, mas sem perder a simplicidade. O que o leitor quer é a resolução do crime e em nenhum momento perde este foco, mas também quer mais e o autor é hábil em atende-lo.

Essa é uma daquelas histórias em que descobrir a identidade do assassino é tão interessante quanto descobrir o que está por trás das mentiras que cada personagem conta e qual o verdadeiro interesse que move suas ações. “O Homem Magro” é um desfile de mentiras elaboradas por personagens cheios de segundas intenções que só ficam claras na última página, e mesmo depois dela deixam a certeza de que aqueles mesmos personagens continuarão a inventar outras mentiras para suprir outras intenções. Como não se fascinar por histórias como essas?

“O Homem Magro” pode não ter sido tudo o que eu esperava, mas jamais poderia ser considerado pouco digno de expectativa. Tendo reajustado as minhas, pretendo ler em breve outros livros do autor. Afinal, não se pode passar a vida se auto-intitulando um fã de literatura policial sem nunca conhecer “O Falcão Maltês”, o mais célebre dentre os célebres.

Título: O Homem Magro
Autor: Dashiell Hammett
Nº de páginas: 260
Editora: Companhia das Letras

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quem vem para o jantar? #7

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Você, caro leitor, que é sempre nosso convidado de honra, deve ter estranhado a falta de convite para o nosso já tradicional jantar. O que acontece é que, este mês, o jantar teve sua configuração um pouco modificada. Não foi exatamente um jantar e sim um mero encontro casual. Venha comigo e eu lhe guiarei por esta noite inesquecível na qual tive tão inesperada surpresa.

Por distração eu havia me desviado do meu trajeto convencional e andava por uma rua mal iluminada pela qual eu jamais transitara antes. Já era tarde e eu estava sozinha, quando um homem fumando um cachimbo veio em minha direção. Eu pude vê-lo apenas de relance, mas era capaz de jurar já tê-lo visto em algum outro lugar.

O homem entrou em um bar de quinta categoria e eu o segui. Não, caro leitor. Eu não costumo frequentar esse tipo de lugar, mas minha curiosidade era grande. Foi então que à parca luz do recinto reconheci o homem que há pouco passara por mim: era ele, o grande Raymond Chandler, criador do inesquecível personagem Philip Marlowe.

Eu sabia algumas coisas sobre Raymond Chandler. Sabia que ele tivera inúmeras profissões antes de se tornar um dos maiores escritores norte-americanos. Fora militar e contador entre outras coisas. Como escritor, criou tramas fascinante, escritas com a maestria dos grandes escritores clássicos, mas com a realidade estampada em cada linha, cada palavra, e principalmente, cada diálogo. Sua obra foi escrita em, aproximadamente, vinte anos, mas sem dúvida ficará para sempre na mente dos fãs da boa literatura policial.

Eu percebi que Raymond Chandler conversava com um homem de bigode, ambos sentados no balcão do bar. De onde eu estava não era capaz de reconhecer o outro homem, portanto, me aproximei de onde eles se encontravam. Pedi uma bebida e fiquei observando. Qual não foi a minha surpresa ao reconhecer que o interlocutor de Chandler também era um escritor e tão ilustre quando o próprio Chandler: Dashiell Hammett.

O criador do detetive Sam Spade, escreveu poucos romances. Sua obra consiste, na maior parte, em contos. Mesmo sendo seu personagem mais ilustre, Spade aparece em apenas um romance e três contos (que foram publicados na coletânea “Tiros na Noite: Medo de Tiro – 2”, cuja resenha você pode conferir AQUI). Hammett fez de Spade mais do que um personagem, elevando-o ao patamar de figura icônica dos detetives durões (“Hard Boiled”). Essa é apenas umas das razões pelas quais o nome do autor foi marcado com destaque nos anais da literatura policial.

Não era difícil para mim imaginar a conversa dessas duas figuras lendárias. Ambos se destacaram no mesmo gênero literário, o policial noir, e costumavam trabalhar como detetives, o que sem dúvida contribuiu para o aspecto realista de seus livros. Os dois autores tem ainda mais uma coisa em comum. Seus personagens mais famosos (Spade, no caso de Hammett, e Marlowe, no caso de Chandler) foram interpretados no cinema pelo mesmo ator: o lendário Humphrey Bogart (sim, amantes de filmes clássicos, é aquele de “Casablanca”). “À beira do abismo” é a adaptação cinematográfica de “O Sono Eterno” – livro de estreia de Chandler (cuja resenha você pode conferir AQUI) enquanto “Relíquia Macabra” é a adaptação de “O Falcão Maltes” - provavelmente o livro mais famoso de Hammett.

Eu ainda estava embasbacada por estar presenciando tal encontro, quando um sujeito de aspecto sombrio adentrou o bar. Imediatamente, tive um mau pressentimento. Decidi que era hora de ir embora. Minha fascinação literária me pedia para ficar, mas achei que aquele era um risco grande demais. Antes de ir, virei e olhei uma ultima vez para os dois mestres da literatura policial que ainda conversam entre um gole e outro de bebida. Paguei minha conta, dei boa noite ao garçom e parti.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

RESENHA: Tiros na noite - Medo de Tiro

“Estava imóvel – os olhos amarelo-acinzentados sonhadores – quando ouviu o grito. Era um grito de mulher, agudo e estridente de terror. Spade estava atravessando a porta quando ouviu o tiro. Era um tiro de revólver, amplificado, reverberando pelas paredes e pelos tetos” (HAMMETT, 2007, p.200)




Dashiell Hammett é um daqueles autores que, se você é fã do gênero policial, você precisa ler. Mesmo tendo escrito sua obra em apenas doze anos, seu legado dura até hoje e foi reconhecido por escritores do gabarito de Raymond Chandler. Mas afinal o que mais, além de estórias extraordinárias, poderia se esperar quando um detetive se torta autor de estórias de detetives?

“Tiros na Noite” é uma compilação de 20 contos de Hammett publicados em dois volumes: “A Mulher do Bandido” e “Medo de Tiro”, sendo este segundo o livro que comento nesta resenha.

Em “Medo de Tiro”, Hammett nos apresenta de tudo um pouco: assassinatos, roubos, acidentes, vivenciados pelas mais diversas personalidades (desde o velho rabugento, passando pela esposa ciumenta, a amante o vigarista e até mesmo o clássico mordomo enxerido). Dentre os onze contos que compõe esse volume, três são protagonizados pela principal criação do autor, e um dos detetives mais importantes da literatura, Sam Spade. Esses contos são “Um homem chamado Spade”, “Foram tantos a viver” e “Só podem enforcá-lo uma vez”.

Vale ressaltar ainda que as tramas apresentadas nesse livro são extremamente verossímeis. São pessoas comuns cometendo crimes comuns movidas por motivos comuns. Possivelmente esse aspecto realístico se deva a experiência profissional de Dashiell Hammett e, de fato, esse é um dos elementos que faz sua obra tão atraente.

Em um desfile de tramas com desfechos sempre interessantes, “Medo de Tiro” é um ótimo livro para o leitor que ainda não conhece a obra de Hammett. Uma ótima forma de ser introduzido em seu mundo e se render (sem medo)

Título: Tiros na Noite: Medo de Tiro – 2
Autor: Dashiell Hammett
Nº de páginas: 304
Editora: L&PM
 

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