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terça-feira, 19 de julho de 2016

RESENHA: O Terceiro Homem

“As mãos dos culpados não tremem, necessariamente, só em contos um copo cai da mão, revelando descontrole. A tensão com frequência, revela-se nos atos estudados.” (GREENE, p.42, 2007)

Foi em um dos meus passeios pelo sebo que me deparei pela primeira vez com Graham Greene, um dos maiores nomes do suspense de espionagem. Isso resultou na minha experiência com “O Fator Humano”, uma boa leitura que não chegou a empolgar como eu gostaria, mas manteve o nome do autor na minha mente. Foi novamente no sebo que esbarrei em “O Terceiro Homem” que me atraiu imediatamente por ter sido a base para o filme de mesmo nome.

Rollo Martins vai a Viena a convite de seu amigo de longa data, Harry Lime, mas assim que chega na cidade descobre que ele morreu em circunstâncias misteriosas. Em um lugar onde autoridades russas, britânicas, norte-americanas e francesas se misturam com o fim da Segunda Guerra Mundial, Martins tentará descobrir no que Harry estava metido que pode te-lo levado à morte e quem era o misterioso terceiro homem presente na cena do crime (ou sua morte terá sido mesmo um acidente?).

No prefácio, Graham Greene esclarece que “O Terceiro Homem” não foi escrito para ser lido e sim ser visto. A narrativa curta nada mais é do que o argumento para o roteiro do filme dirigido por Carol Reed na década de cinquenta. Greene diz que nunca conseguiu escrever um roteiro sem antes escrever a história, com ambientação e construção de personagens, coisas que não acreditava ser possível conseguir através da linguagem enxuta dos roteiros. Por isso, pode-se dizer que este livro é um ensaio, um rascunho detalhado do que viria a ser transposto para o filme e que Greene escreveu sem a intenção de que fosse publicado. Isso fica evidente na narrativa que, apesar de contar com bons personagens e conseguir manter o suspense, não se aprofunda (o que não deixa de ser justificável, afinal, a linguagem cinematográfica se vale de outros recursos para contar uma história, não havendo necessidade de o autor se preocupar com isso neste texto).

O que fica claro é o potencial da trama. Não é à toa que “O Terceiro Homem” é um dos mais famosos exemplares do cinema noir e com frequência entra nas listas de melhores filmes ou melhores suspenses de todos os tempos. Com uma bela fotografia e a presença breve mas marcante do lendário Orson Welles, é inegável que o filme consegue construir uma atmosfera que o livro não consegue.

Eu já havia assistido “O Terceiro Homem” antes da leitura, então já conhecia a trama, o que, é claro, influenciou o meu envolvimento com o livro. Mas acredito que se meu primeiro contato tivesse sido através do original de Greene, eu teria tido uma bela surpresa. Ainda assim, ela talvez não tivesse tanto impacto já que não chega a ser desevolvida a fundo (coisa que o filme consegue graças ao seu elenco).

Contando com poucos eventos e personagens, o destaque fica para a misteriosa figura de Harry Lime (Amigo? Trapaceiro? Criminoso?) mas também merece ser dado a Martins (protagonista sobre quem pouco sabemos).

Suponho que deva ser uma tarefa ingrata encontrar uma voz narrativa para uma história que não deverá ser conhecida pela narrativa literária e sim cinematográfica. Mas por se tratar do noir (cuja presença da narrativa em off é frequente) é possível ver no filme o narrador de Greene.

Quanto ao livro, algo que gosto em narrativas em primeira pessoa que relembram um fato já ocorrido é especular sobre o motivo que levou o narrador a decidir contar a sua história agora. No caso de “O Terceiro Homem”, o narrador testemunha intensifica o suspense já que não temos nenhuma segurança quanto ao destino do protagonista por sua história ser contada por um policial envolvido na investigação da morte de Harry, tempos depois que tudo teve fim.

Ao não se ater a muitos detalhes, a narrativa torna-se fluída e permite que o livro seja lido em poucas horas.

“O Terceiro Homem” tem seus méritos, mas está longe de ser imperdível. Se tiver que optar, assista o filme.

Título: O Terceiro Homem
Autor: Graham Greene
N° de páginas: 127
Editora: L&PM

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

RESENHA: O Fator Humano

“Ninguém sabia a que regimento ele pertencera anteriormente, se tal regimento de fato existia. Afinal, naquele prédio, todos os títulos militares eram um pouco suspeitos. Os postos podiam simplesmente ser parte do disfarce universal.” (GREENE, 2006, p.10)

O que eu mais gosto nos meus longos passeios pelo sebo é me deparar com livros e autores dos quais quase não se ouve falar mais ou que eu, pelo menos, desconheço. Foi em uma dessas ocasiões que me deparei com “O Fator Humano” de Graham Greene, um livro de espionagem diferente de qualquer outro que eu já havia lido do gênero.

Maurice Castle é um agente da inteligência inglesa que trabalha em uma pequena divisão do Foreign Office (departamento do governo encarregado das relações exteriores) juntamente com seu amigo Davis, ambos supervisionados por Watson. Eles são os únicos funcionários do departamento que passa por uma investigação, a partir da suspeita de um vazamento de informações. Fora do escritório, Castle vive um feliz casamento com Sarah e seu filho, que ele cria como sendo dele.

Eu digo que “O Fator Humano” é um livro de espionagem diferente dos outros, como por exemplo “O Buraco da Agulha” de Ken Follet - cuja resenha publiquei há algum tempo – porque é um livro desprovido da ação característica do gênero. Mas isso não quer dizer que o livro é ruim, e sim que é apenas mais lento do que eu esperava. Diferente dos outros, esse é um livro de espionagem que foca mais no lado psicológico dos personagens - aliás, um aspecto bem desenvolvido pelo autor – do que em suas ações. Reações inesperadas, decisões moralmente condenáveis, dúvidas e arrependimentos recheiam as páginas do livro que não se faz só do mundo da espionagem. O amor entre Castle e Sarah recebe um grande destaque e vem a ser uma parte importantíssima da trama. Eu diria que esse é um romance quase tanto quanto é um livro de espionagem. É uma história de amor inserida em um mundo repleto de segredos e desconfianças. Um mundo onde todas as palavras e atitudes devem ser medidas, pois estão passiveis de análise e investigação. Um mundo que torna difícil a sobrevivência de relações afetivas verdadeiras, como a de Castle e Sarah e que exige dos que tentam viver esse sentimento decisões difíceis, quase impossíveis, e para as quais muitas vezes não há volta ou rota de fuga.

“O Fator Humano” é um bom livro, mas não espere dele muitas emoções. A história é interessante e os personagens são – se me permitem o trocadilho – bastante humanos, repletos de novas facetas que surgem ao folhear de cada página, mas não é um livro para ser devorado ou que mexe profundamente com o leitor, pelo menos não comigo. É a história de personagens verdadeiros, que tentam ser felizes e fazer o certo em um mundo em que tudo é relativo e por vezes até irrelevante.

Título: O Fator Humano
Autor: Graham Greene
Nº de páginas: 314
Editora: L&PM
 

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