“Muitas vezes na vida somos obrigados a fazer julgamentos que não gostaríamos de fazer. E queremos que eles sejam fáceis. Queremos confinar as pessoas em categorias bem definidas, anjos ou monstros, mas quase sempre o buraco é mais embaixo: a verdade está em algum lugar entre os dois extremos. E esse é o problema. Os extremos são bem mais fáceis.” (COBEN, 2010, p. 86).
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Minha primeira experiência com a obra de Harlan Coben se deu com o livro Desaparecido Para Sempre, e embora não tenha sido um livro memorável, estava disposto a dar uma segunda chance ao autor. Quatros anos depois resolvi que era chegada a hora dessa segunda chance e não tenho dúvidas de que também foi a última.
Haley é uma estudante exemplar e filha perfeita, que desaparece sem deixar vestígios e passados três meses, todos já imaginam que o pior tenha acontecido. Por sua vez, Dan Mercer é um assistente social que recebe um telefonema de uma adolescente e quando se desloca até sua residência para ajudá-la, é surpreendido por uma equipe televisa que o desmascara como pedófilo em rede nacional. Levado a julgamento, Dan é inocentado por falta de provas, sendo assassinado dias depois. Wendy é a repórter que arquitetou a cilada para Dan e, posteriormente, se tornou testemunha de sua morte. E agora, não consegue deixar de se perguntar se desmascarou um pedófilo ou se causou a morte de um inocente.
Um dos meus maiores incômodos com Cilada foi a inconstância da protagonista em relação a inocência ou culpa de Dan. Em um momento ela estava convicta que ele era um pedófilo, para logo em seguida ter dúvidas sobre suas conclusões. Minha sensação era de que Coben fazia um sorteio no início de cada capítulo para definir se Dan seria culpado ou inocente. E o problema é que ficar fazendo esse tipo de joguinho apenas funciona se o leitor está em profunda dúvida sobre a inocência ou culpa do personagem, o que não era o caso.
E já que estamos falando dos joguinhos que o autor utiliza, mais uma vez cheguei à conclusão que Coben usa e abusa de reviravoltas por que suas estórias são rasas. Não me entenda mal: creio que reviravoltas são necessárias para criar ou aumentar a tensão no enredo. Entretanto, seu uso deve ser moderado. E no afã de surpreender o leitor a todo instante, Coben criou uma trama mirabolante ao extremo e difícil de acreditar.
Os personagens tampouco convencem. Os delegados que investigavam o caso e a advogada de um dos suspeitos, além de serem construídos sobre uma pilha de clichês, eram pessoas desagradáveis, o que comprometeu meu envolvimento com um dos núcleos da estória. Já a protagonista, embora tenha sido construída com mais cuidado que os demais personagens, me incomodou com sua fraca motivação. Ela tinha provas robustas da culpa de Dan e nenhum motivo para se sentir culpada pelo desenrolar dos fatos. E mais: nenhum motivo que fosse minimamente suficiente para que ela se colocasse a investigar o caso após a morte dele.
O desfecho ligou as pontas soltas de forma coerente, embora, como já dito, faltou verossimilhança em alguns aspectos. As cenas finais foram escritas com o claro intuito de fazer o leitor prender a respiração, mas não funcionaram, dada sua previsibilidade.
Igualmente me desagradou a tentativa do autor em tentar fazer uma reflexão sobre assuntos como culpa e perdão. O problema é que Coben não sabe provocar o leitor, de modo que a reflexão é feita pelos personagens. Ou seja, não é a situação vivida pelos personagens que leva o leitor a refletir. Esta reflexão “mastigada” soa muito mais como lição de moral do que como reflexão.
Embora Coben tivesse em mãos uma premissa interessante, faltou habilidade para construir uma estória crível. E creio que o seu maior problema foi a falta de motivação dos personagens, que muitas vezes agiam de forma automática e gratuita, como se estivessem programados para praticar determinada conduta. Se Coben tivesse se esforçado em desenvolver os personagens, talvez tivesse percebido que suas motivações não eram convincentes, e então a estória poderia ter tomado outro rumo. Talvez.
Título: Cilada
Autor: Harlan Coben
N.º de páginas: 271
Editora: Arqueiro












