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quinta-feira, 11 de julho de 2019

RESENHA: A caixa-preta

Por muito tempo considerei Michael Connelly um dos nomes de destaque da literatura policial, especialmente em virtude de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, minhas últimas experiências com o autor foram um pouco decepcionantes, de modo que estava mantendo uma certa distância de suas obras. Mas, como recebi este livro por engano, decidi dar uma nova chance ao autor. 

Em 1992, Harry Bosch investiga de forma superficial o assassinato de Anneke, uma jornalista holandesa, durante uma onda de protestos, caos e violência que tomaram conta de Los Angeles. Vinte anos depois, o caso retorna às mãos de Bosch, que fará de tudo para solucionar o mistério. 

O livro é narrado em terceira pessoa, mas acompanhamos o detetive Bosch de perto, de modo que sentimos estar ao seu lado, seguindo pistas, interrogando suspeitos e tentando encaixar as peças. Como sempre, Connelly consegue nos fazer mergulhar de cabeça na estória, nos envolvendo completamente com o caso. 

Outro fator que merece destaque é a originalidade e a criatividade do autor. O caso tem início com com poucas pistas e fiquei surpreso com o fato de Harry conseguir aprofundar a investigação partindo de uma base tão superficial. Além disso, a estória por trás da morte de Anneke também me surpreendeu e evidencia o talento do autor em criar boas estórias policiais. 

"Ele acreditava que todo caso tinha sua caixa-preta. Alguma evidência, alguém, algum encaixe dos fatos capaz de lançar um pouco de luz e ajudar a explicar o que acontecera e por quê. Com Annake Jespersen, no entanto, não havia caixa-preta. Apenas um par de caixas de papelão emboloradas tiradas dos arquivos, que lhe renderam pouca orientação ou esperança." (CONNELLY, 2017, p. 28)

A investigação segue um ritmo ágil, o que torna a leitura extremamente fluída. Todavia, alguns momentos da estória dedicados a outros aspectos da vida de Bosch me pareceram um pouco maçantes. Já o final conta com um ritmo mais intenso, repleto de adrenalina e tensão. Connelly sabe dosar todos os ingredientes com precisão, de forma a deixar o leitor com o coração na mão e completamente absorto na estória.  

No entanto, continuo achando Bosch um personagem desagradável. Creio que desde que li A Queda, a conduta arrogante e de superioridade do detetive em relação às normas me desagradou. Desta vez, tal característica mais uma vez se sobressaí. Minha impressão é de que o autor exagera tentando mostrar um detetive durão, que não liga para as burocracias, pois está ocupando demais combatendo o crime. Porém, em seu afã de combater o crime, pratica diversas irregularidades.  

Apesar de ter sido uma boa experiência de leitura, A caixa-preta não é o tipo de livro que impressiona ou empolga. A meu ver, faltou aquele algo a mais, que transforma uma estória mediana em memorável. Assim, A caixa-preta é um bom livro policial, com todos os elementos esperados do gênero, mas não é bom o suficiente a ponto de se destacar. 

Título: A Caixa-preta
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 303
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

sexta-feira, 5 de junho de 2015

RESENHA: A Queda

“Bosh balançou a cabeça, mas franziu o rosto ao mesmo tempo. Não estava gostando. Para ele, soava exatamente como o que era. Uma história inventada para fazê-los passar por aquela porta. Um juiz talvez autorizasse o mandado de busca, mas teriam de encontrar um que fosse amigável. Ele queria algo à prova de balas. Algo que qualquer juiz assinaria e que se sustentaria contra subsequentes objeções legais.” (CONELLY, 2014, p. 263)

***

Quem acompanha o blog há algum tempo sabe o quanto gostamos dos livros de Michael Connelly. Personagens bem construídos, tramas intrincadas, reviravoltas de tirar o fôlego e, sobretudo, verossimilhança em todos os aspectos que se analise. Assim, quando comecei a leitura de A Queda, sequer passou pela minha mente que poderia me decepcionar.

O detetive Bosh, que trabalha na Unidade de Abertos/Não Resolvidos, recebe um exame de DNA que reabre a investigação de um brutal assassinato que ocorreu em 1989. Porém, a evidência encontrada imputa um homem que hoje tem 29 anos, de modo que seria apenas uma criança quando do homicídio. Além disso, Bosh é requisitado para investigar a morte do filho do vereador Irvin Irving, com quem teve problemas no passado. 

O que na teoria parece interessante, na prática não funcionou. É evidente que qualquer policial da vida real não se dedica exclusivamente a uma investigação, de modo que deveria ser natural ver Bosh trabalhando em casos distintos. O problema é que os casos pouco se relacionam, então, é como se o livro tivesse dois começos, com duas investigações paralelas e em fase inicial, de modo que a estória demora mais do que o comum até engrenar. 

Mas o maior problema do livro atende pelo nome de Bosh. O detetive durão — que já encontrei em outros livros como Echo Park e O Mirante, e nunca me incomodou —, se tornou a pedra no meu sapato durante toda a leitura. Não sei se nos outros livros não reparei no fato ou se neste livro Connelly pesou a mão, mas a verdade é que em A Queda Bosh se mostrou como um indivíduo com um complexo de superioridade severo.

O desprezo de Bosh por seus chefes, colegas, parceiro, testemunhas e suspeitos não tem limites. Ele simplesmente presume que sempre está certo, que tudo o que pensa vale ouro e que as demais pessoas sempre estão erradas. Mas o que realmente me incomodou foi o desprezo de Bosh pela lei. Para que respeitar as garantias constitucionais de qualquer país que se denomine democrático, se jogando as regras pela janela o trabalho é feito mais rápido? E mais: Bosh não segue as leis, mas, depois de quebrá-las, quer evitar a qualquer custo que o ato que ele praticou, à revelia da lei, seja invalidado, forjando o que for necessário para isso. 

As estórias, embora interessantes, não empolgam. Uma delas, que se mostrou com maior potencial para isto, é claramente subaproveitada, e os elementos explorados são fracos. Por sua vez, a outra trama dá voltas e mais voltas para terminar em uma solução simplista. Ao fim da leitura ficou claro que Connelly não tinha estória suficiente para um livro, e ao invés de encontrar um caso digno de Harry Bosh, limitou-se a juntar duas ideias fracas e insossas, que talvez servissem para um bom conto, mas não para um bom livro. 

Embora a narrativa de Connelly seja dinâmica, preciso ressaltar que em alguns momentos os diálogos não funcionaram, parecendo artificiais. Talvez o problema dos diálogos resida na tradução, visto que a língua inglesa consegue reproduzir de forma mais natural a informalidade e a fluidez de uma conversa, A tradução, ao tentar imitar tais características, se torna um português "descolado" demais, que não estamos acostumados a encontrar na literatura. 

No fim das contas, apenas posso dizer que o saldo final de A Queda é positivo por que me lembrou da razão pela qual tenho orgulho de ser advogado criminalista. O título do livro em inglês, The Drop, se refere a um programa de aposentadoria tardia e, depois de dezessete livros, creio que já passou da hora de aposentar o detetive Bosh. 

Título: A Queda
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 311
Editora: Suma de Letras

sábado, 13 de setembro de 2014

Quem vem para o jantar? # 22

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Há meses planejávamos a festa do nosso aniversario de três anos. As histórias sobre os encontros históricos dos aniversários anteriores já circulavam no universo literário e muitos dos nossos convidados em potencial manifestavam interesse em comparecer. 

Um deles foi George R.R. Martin. Nos sentimos honrados com o interesse do escritor, porém, usando de muita diplomacia, encontramos um jeito de não convidá-lo. Entre nós, decidimos: É melhor deixá-lo em casa trabalhando no sexto livro. Se ele ficar indo em festas desse jeito, já pensou quando vai terminar a série? Além disso, todos sabemos o que Martin gosta de fazer com festas. Ainda assim, lhe mandamos uma mensagem carinhosa (e levemente chantagista):

Quando você terminar o último livro, sediaremos a festa em Westeros e você será o convidado de honra. 

Há algumas semanas, começamos a enviar os convites e foi com estranheza que recebemos inúmeras respostas de recusas. Eram as desculpas mais estapafúrdias vindas de pessoas que tinham tudo para inventar ótimos pretextos (afinal, é de inventar histórias que nossos convidados vivem). J.K. Rowling nos disse que fora informada que uma violenta espécie de gripe draconiana estava assolando a américa, enquanto Isaac Azimov alegou estar fazendo pesquisa de campo para seu próximo livro. E então uma das mensagens nos fez entender o porquê de tantas recusas (não revelaremos aqui o conteúdo para não entregar quem foi o autor), basta dizer que o local que escolhemos para sediar nosso tão aguardado evento estava assustando os nossos convidados (e eles ainda nem haviam chegado aqui!). Ora... e nós que pensamos que o Hotel Overlook seria, além de tudo, prático, já que os convidados poderiam se hospedar para passar a noite depois da festa e seguir para casa no dia seguinte. 

Mas já era tarde demais para mudar e muita gente interessante havia confirmado presença. 

Nossas primeiras convidadas chegaram juntas. Elas que nunca faltaram às nossas festas e nunca nos decepcionaram quando recorremos a elas como leitores: Agatha Christie e Jane Austen. Sabendo já serem “da casa”, ambas se ofereceram a ajudar nos bastidores do evento, mas recusamos a gentileza, pois queríamos que elas aproveitassem essa noite tanto quanto as outras.

E por falar nas outras noites, quem também faltou a nossa comemoração foi Michael Connelly, alegando que havíamos lido poucos livros dele nos últimos tempos. Uma pena, mas compreendemos já que realmente temos negligenciado o autor. Esperamos encontrar você ano que vem, Connelly. Entre nós, comentamos que Agatha e Jane poderiam ter usado o mesmo argumento e nos encheu de orgulho elas deixarem isso de lado e estarem conosco da mesma forma. Ambas sabem que não as esquecemos. É apenas a falta de tempo (não que isso aplaque nosso remorso).

Quem também chegou cedo foi Ernest Hemingway e foi logo pedindo pela localização do bar. Ele também nos disse que logo antes de sair de casa havia conversado com seu amigo de longa data F.Scott Fitzgerald que lhe dissera o quanto lamentava não vir a festa desse ano, pois a do ano passado havia sido “digna de Jay Gatsby”. 

Distraídos pelas poucas, porém precisas, palavras de Hemingway, não percebemos a presença de Guilhermo Del Toro e Chuck Hogan, que não apenas foram os primeiros a responder nosso convite, mas assim que chegaram começaram a explorar o hotel. Pelo que entendemos, os autores da Trilogia da Escuridão estavam empolgados com oportunidade de encontrar as meninas gêmeas que supostamente assombravam o local. Quando deram sua aventura por encerrada e retornaram à festa, narraram a empreitada:

— Estávamos no corredor do terceiro andar quando as luzes começaram a piscar, até apagarem por completo. — disse Del Toro, enquanto Hogan virava uma dose de tequila. — Ouvíamos murmúrios incompreensíveis e o ar parecia ficar mais frio a cada passo. 

Os convidados que ouviam a estória seguraram a respiração involuntariamente, enquanto Hogan continuava:

— De repente, um grito horripilante começou a ecoar. Vocês não ouviram daqui?

Todos menearam a cabeça, negativamente. O autor estava prestes a continuar sua narrativa, mas então Guilhermo não conseguiu mais segurar sua gargalhada:

— Não acredito que vocês caíram nessa. 

Todos pareciam estar se divertindo, mas estávamos preocupados. Nosso convidado de honra estava atrasado, o que era muito estranho sendo ele um suíço. Mas a partir do momento em que ele chegou, foi difícil distribuirmos a nossa atenção igualmente a todos os nossos maravilhosos convidados. Joel Dicker, como já fizera antes durante seu “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” soube nos envolver com suas palavras de maneira que esquecemos todo o resto. Eventualmente nos afastamos movidos por uma especial curiosidade em ver com quais autores Dicker interagiria já que seu livro mistura tantos gêneros tão habilmente.  

Não foi uma surpresa ver que o jovem autor buscou a companhia de Charles Dickens, dizendo ter adorado a jornada de Pip e que “Grandes Esperanças” era um de seus livros de cabeceira. Joel também confidenciou sua preocupação acerca da adaptação cinematográfica de seu livro, ao que Dickens retrucou:

— Nenhuma adaptação consegue suprir nossas expectativas. Se quer meu conselho, não assista e poupe-se do sofrimento. 

Não pudemos deixar de rir do comentário amargurado do escritor, visto que conferimos a malfadada série da BBC inspirada na obra. 

Deixamos Dicker se aconselhando sobre sua promissora carreira com o grande Dickens e fomos para outro canto do salão, onde encontramos o ancião Pittacus Lore falando com nostalgia sobre o planeta de Lorien para Richelle Mead e Suzanne Collins (que, por sua vez, não sentia falta alguma de Panem e estava muito bonita em um vestido desenhado por Cinna). Enquanto os autores se dedicaram a discutir os rumos da literatura fantástica, tivemos a impressão de ver um lírio discretamente tatuado no pescoço de Richelle. Curiosos e intrigados, tentamos averiguar se aquela seria a tatuagem que imaginávamos, mas a autora, ao perceber nosso interesse, jogou seu cabelo sobre o pescoço e piscou pra nós.

A noite estava querendo virar madrugada quando recebemos uma mensagem de um convidado que fez muita falta, mas não pode comparecer visto que na véspera fora sua própria festa de aniversário. Suas palavras eram inconfundíveis: 

“Lembrem-se de verificar a caldeira e aproveitem a festa. Nos vemos, qualquer dia desses, no escuro. Steve.”

Trocamos um olhar misto de divertimento e preocupação. Não custava nada verificar a caldeira...de novo. 

Agatha e Jane foram as primeiras a ir embora e Dickens fez questão de acompanhar as damas em segurança. Aos poucos, os outros convidados os seguiram, com exceção de Guilhermo e Chuck, que foram os únicos que aceitaram dormir no hotel. Esperamos que tenham sido deles os barulhos estranhos que ouvimos durante a noite.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

RESENHA: Reviravolta

“Já passei por vários bons momentos no tribunal. Estive ao lado de homens no momento em que souberam que iam ficar livres graças ao meu bom trabalho. Já estive de pé diante de um júri e senti o estremecimento da verdade e da justiça percorrendo minha espinha. E já destruí mentirosos no banco das testemunhas, sem misericórdia. É por momentos como esse que vivo minha vida profissional.” (CONNELLY, 2012, p. 335)

***

Todo mundo já sabe que Michael Connelly é um dos meus escritores favoritos, e entre os personagens por ele criados, meu queridinho é o advogado criminalista Michael Haller. Reviravolta é o terceiro livro protagonizado por Haller, porém, não alcançou o nível de qualidade do primeiro.

Jason Jessup foi condenado pelo estupro e assassinato de uma criança, porém, vinte e quatro anos depois, surge uma nova prova que pode inocentá-lo. Com toda a atenção da mídia no caso, o advogado Michael Haller é convidado a assumir uma nova missão: atuar na posição de Promotor de Justiça a fim de manter Jessup atrás das grades.

Uma das características mais marcantes das obras de Connelly é sua narrativa envolvente e que prende a atenção do leitor logo no primeiro capítulo. Assim, mesmo que o caso em si demore um pouco para empolgar o leitor, é impossível não se envolver. Apesar de o caso criminal ser interessante, imagino que este poderia ter sido melhor explorado, pois os ganchos que pareciam ser os mais promissores não foram usados.

A narrativa alternada entre primeira e terceira pessoa, dos pontos de vista de Haller e Bosh, respectivamente, não funcionou. Particularmente, não gosto de narrativa alternada, todavia, a intenção do autor em utilizar tal artifício era clara: poder mostrar tanto o seguimento do processo criminal assim como o avanço das investigações.  

Após o excelente O Poder e a Lei e o mediano O Veredicto de Chumbo, começo a pensar se Connelly não teria feito melhor se tivesse “aposentado” Haller. Não me entenda mal, o advogado criminalista continua sendo um grande protagonista, mas suas estórias não estão chegando aos pés do potencial do autor.

Na posição de apaixonado por direito penal, o livro foi um ótimo entretenimento para mim. Entretanto, para aqueles que não gostam tanto assim de thrillers jurídicos, fiquei com a impressão de que Connelly pode ter apresentado mais do mesmo.

Encerro salientando que Reviravolta não faz jus a habilidade de Michael Connelly, que escreveu os memoráveis O Poeta e Echo Park. Agora, talvez você esteja a se perguntar se lerei A Quinta Testemunha, o quarto livro da série. E a resposta é afirmativa. Mas creio ter chegado a hora do ou vai ou racha.

Título: Reviravolta
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 379
Editora: Suma de Letras

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quem vem para o jantar? # 21

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

No ano passado, a festa do nosso primeiro aniversário surpreendeu a todos os convidados. Então, esse ano, com a intenção de fazer algo ainda melhor, decidimos fazer um evento mais elegante. Tendo isso em mente, entramos em contato com Mr. Darcy e Elizabeth, os quais, de bom grado, cederam o espaço para a nossa comemoração: a casa de Pemberley.

Estando em um local tão requintado e suntuoso, é claro que o nosso jantar subiu para o nível de banquete. O único problema é que precisaríamos limitar o número de convidados. Assim sendo, optamos por reduzir a lista apenas a autores que conhecemos desde a última festa, mas sem esquecer, é claro, de três convidados que terão sempre lugar de honra nos nossos eventos. Tendo a decoração e o cardápio definidos, mal podíamos esperar a chegada de nossos queridos convidados.
  

O primeiro a chegar foi F.Scott Fitzgerald e ele vinha sozinho. Sua esposa  a também escritora Zelda Fitzgerald  ficara em casa, pois um pouco antes de sair o casal tivera uma de suas brigas. Aceitando a primeira de muitas taças de champagne, Scott nos deu o maior elogio da noite:

— Essa é uma festa digna de Jay Gatsby!

Pouco depois de Fitzgerald chegavam Agatha Christie e Jane Austen, mantendo a tradição da pontualidade britânica. Nem é preciso dizer que estávamos extasiados em ter novamente a presença  dessas grandes damas. Jane, porém, logo se dispersou, mas Agatha se manteve conosco e, a pedidos, contava a respeito de sua última expedição na companhia do marido.

— A Mesopotâmia é fascinante!

Mesmo sem envolver em seus relatos os crimes pelos quais é tão conhecida, a Dama do Crime fascinou a todos com o seu relato e aos poucos os convidados a cercavam para ouvir mais.
Percebemos que, enquanto falava, Agatha se mantinha atenta ao que acontecia ao nosso redor e acompanhava o movimento dos garçons, recusando sempre que lhe era oferecida uma bebida. Curiosos, ficamos a observar a escritora e entendemos o seu comportamento apenas ao constatar que ela só aceitou sua primeira taça de champagne quando conseguiu manter sob vigília todos os passos do garçom, desde a cozinha até que ele chegasse ao seu lado. Trocamos um olhar de compreensão e contivemos um sorriso: nossa convidada era extremamente cuidadosa com o que ingeria, afinal, ela sabia melhor do que ninguém o tipo de coisas que podem ser colocadas acidentalmente nas bebidas.

Quando a sobremesa chegou, nossos convidados já estavam mais a vontade, o que era ótimo pois nos liberava parcialmente do trabalho de anfitriões e nos permitia observar os encontros inusitados que se formavam. Foi assim que testemunhamos a aproximação de Jane Austen e seu conterrâneo Ben Aaronovitch, autor da série “Enigmas de Londres”. Após conhecer J.K. Rowling no jantar que oferecemos no ano passado, Jane ficou curiosa para ler a saga Harry Potter e, ao terminar a leitura do último livro, percebeu que se tornara fã do gênero fantástico. Assim, ela logo aproveitou a oportunidade de embarcar nas aventuras de Peter Grant, guarda da polícia metropolitana e aprendiz de mago, pelo submundo londrino.

— Como você teve a ideia de unir fantasia e suspense? — indagou Jane.
— São os meus gêneros favoritos. — respondeu o outro e, após terminar de comer uma fatia de generosa de torta, acrescentou: — Sempre tive vontade de mesclá-los.

Do outro lado da mesa, percebemos que Michael Connelly se aproximava de Elizabeth Haynes e Gillian Flynn. Ele parecia ter certo receio principalmente em relação a essa última, talvez por medo que a protagonista de “Garota Exemplar” fosse um reflexo de sua autora. De qualquer forma, era difícil acreditar que um rosto tão meigo pudesse criar uma trama tão impactante e foi isso que Connelly disse a Flynn. Ela enrubesceu, pois se disse fã das séries Harry Bosch e Michael Haller e ao perguntar sobre futuras aventuras de Jack McEvoy disse ter um carinho especial pelo protagonista de “O Poeta”.

Connelly, que começava a ficar encabulado com tanta atenção, direcionou o assunto para Elizabeth Heynes, autora de "No Escuro", sem saber que com isso as duas autoras começariam a trocar figurinhas sobre como fazer thrillers psicológicos viciantes e com isso, o deixariam de lado. 

Mas a essa hora a noite já se encaminhava para o final. Connelly se despediu das autoras e do restante dos convidados, passando na saída por Ben Aaronovitch que nesse momento conversava com Alessandro D’avenia sobre a maravilhosa experiência que tivera durante a leitura do belo “Branca Como o Leite, Vermelha Como o Sangue”.

— Certamente, foi um dos livros mais emocionantes que já li. E sua narrativa é tão impactante que me fazia parar a todo instante para refletir.

Alessandro recebeu o elogio com um sorriso no rosto e, embora tenha admitido não ter lido nenhum livro da série “Enigmas de Londres” por falta de tempo, disse que era fã da série britânica "Doctor Who", da qual Ben foi roteirista.

Agatha Christie e Jane Austen também decidiram partir aproveitando a companhia uma da outra. Podemos perceber que para Jane era difícil deixar Pemberley, afinal o lugar saíra de sua própria imaginação, mas ela já estava cansada, visto que nunca fora muito chegada a festas.

F. Scott Fitzgerald, ao contrário, ficou nos fazendo companhia até o nascer do sol.


Nosso segundo aniversário foi uma noite e tanto. 


sexta-feira, 22 de março de 2013

RESENHA: O Espantalho

“Eu escrevera pelo menos mil histórias de assassinato no meu tempo. Agora escreveria mais uma. Uma história que ficaria como a lápide da minha carreira. Uma história que faria com que não se esquecessem de mim depois da minha saída.” (CONNELLY, p. 30, 2011)

Depois de protagonizar “O Poeta” e fazer uma participação em “O Veredicto de Chumbo”, Jack McEvoy está de volta em “O Espantalho” e em seu caminho está um assassino tão terrível quanto ao que ele conheceu há 12 anos.

Os tempos mudaram. Os jornais já não são o que eram e as equipes precisam ser reduzidas. É por isso que o jornalista Jack McEvoy e seu alto salário são mandados embora do LA Times, mas não sem antes cumprir a incumbência de treinar sua substituta. Mas Jack não quer fazer só isso. Ele quer se despedir do Times com uma grande reportagem e a chance surge com a história de Alonzo Winslow, um menino de dezesseis anos que foi preso pelo assassinato de uma stripper. Mas ao dar início às investigações, Jack percebe não apenas que a suposta confissão responsável pela prisão de Alonzo é falsa, como também que há um terrível assassino a solta. E se Jack está no seu rastro, o assassino também está no dele.

Jack McEvoy não é um personagem significativo na obra de Michael Connelly como o detetive Harry Bosch ou o advogado Mick Haller, protagonistas de duas séries, mas é de longe o meu favorito. As histórias de McEvoy são sempre narradas em primeira pessoa, por ele, e sempre tem algo de pessoal para o jornalista. Em “O Espantalho”, sua demissão é o pontapé inicial para uma reportagem que vai trazer de volta fantasmas do seu passado que vão desde recordações desagradáveis do caso O Poeta até o reencontro de um antigo amor, a agente do FBI Rachel Welling. Entre descobrir a verdade, proteger a sua vida, retomar um relacionamento amoroso e descobrir o que o futuro reserva para ele, Jack McEvoy nos leva a uma jornada cheia de ação no encalço de um assassino inteligente e cruel.

Uma abordagem interessante de “O Espantalho” é permitir que o leitor saiba mais sobre o que está acontecendo do que os protagonistas. Não se engane, nem espere grandes surpresas: você saberá desde o início quem é o assassino, mas nem por isso perderá o interesse, pelo contrario. Ao conhecer a mente perversa do assassino você só torcerá mais por Jack e devorará as páginas ferozmente, porque este não é um daqueles livros policiais tradicionais em que a grande revelação é guardada para o final. O final é apenas o desfecho. As revelações vem aos poucos em cada página. Um grande mérito do autor.

E por falar em mérito e nas táticas do autor, me chama atenção como Connelly sempre demonstra domínio sobre as situações que escreve, sejam elas quais forem. Se em “O Poder e a Lei”, fica claro a pesquisa realizada e o aconselhamento recebido sobre o mundo jurídico, em “O Espantalho” o autor se vale de sua própria experiência como repórter policial e a empresta para o repórter Jack McEvoy dando vida ao dia a dia do personagem.

O “Espantalho” é mais que um ótimo livro policial. É um dos melhores livros que li de Michael Connelly. Uma história que apresenta as melhores características do autor: é ágil, verossímil e mesmo sem apresentar reviravoltas mirabolantes, prende o leitor do inicio ao fim.


Título: O Espantalho
Autor: Michael Connelly
Nº de páginas: 379
Editora: Suma de Letras

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

RESENHA: O Veredicto de Chumbo

“Meu sangue gelou nas veias. O instinto de lutar ou fugir invadiu meu cérebro. O resto do mundo deixou de importar. Havia apenas o momento e eu tinha de fazer uma escolha. Meu cérebro avaliou a situação mais rapidamente que qualquer computador IBM teria feito. E o resultado dos cálculos foi que eu sabia que o homem vindo em minha direção era o assassino e que estava armado.” (CONNELLY, 2009, p. 230).

***

Depois de ler O Poder e a Lei, mal podia esperar para ler a continuação da saga do advogado criminalista Michael Haller (especialmente após ter lido um spoiler sobre este livro em Nove Dragões). Embora não tenha sido tão bom quanto seu antecessor, O Veredicto de Chumbo é a prova derradeira de que Michael Connelly é um excelente escritor de thrillers jurídicos.

Após dois anos longe da advocacia, Michael Haller retorna aos tribunais após assumir os casos do advogado Jerry Vincent, incluindo o processo de Walter Eliot, magnata da indústria do cinema, acusado de assassinar a esposa e o amante. Por sua vez, o detetive Harry Bosch é encarregado de investigar a misteriosa morte de Jerry. 

Connelly novamente me impressionou por seu domínio sobre advocacia criminal, retratando de maneira fidedigna o trabalho deste profissional. O caso de Walter Eliot, aparentemente simples, se desdobra nas mais inimagináveis ramificações. Aliás, este é um dos méritos do autor: conseguir prever o que o leitor espera que irá acontecer, de modo que faz o oposto, levando a estória para um rumo inesperado.

Paralelamente ao caso de Eliot, o detetive Bosch está disposto a investigar o quanto for necessário para descobrir quem foi o responsável pela morte do advogado, o que implica em obter a cooperação de Haller, para descobrir se o assassinato pode estar relacionado com os casos que Jerry trabalhava.

A relação entre os dois personagens foi muito bem explorada por Connelly. Embora o livro seja narrado em primeira pessoa, do ponto de vista de Haller, o leitor se identifica e gosta de ambos os personagens, de modo que fica difícil tomar o lado de um deles quando há interesses conflitantes.

Como era de se esperar do autor, o livro é repleto de muita ação, com uma trama sem pontas soltas, reviravoltas inimagináveis, final surpreendente e uma narrativa perfeita. Minha única crítica ao autor é a sua desagradável mania de dar spoiler de suas obras anteriores, então sugiro que você não leia este livro antes de O Poder e a Lei.

De todo modo, Connelly é um autor que sabe o que está fazendo e que sabe para que lado quer conduzir sua estória. Ou seja, estou ansioso para ler o próximo volume da série, Reviravolta, recentemente publicado pela Editora Suma de Letras.

Título: O Veredicto de Chumbo
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 420
Editora: Suma de Letras

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Retrospectiva Literária 2012: Lista da Mari

Depois de superar alguns problemas técnicos, finalmente posso compartilhar com vocês as minhas melhores leituras de 2012. E que bom rever a minha lista de leituras do ano e constatar que o saldo dela é positivo. No geral, esse foi um ano de boas leituras e de descoberta de ótimos autores dos quais lerei sem medo todos os títulos que passarem pela minha frente (como exemplo cito Lawrence Block e Tom Rob Smith). Esse também foi um ano de muitas (boas) surpresas literárias e é uma grande surpresa para mim constatar o quanto isso se refletiu nesta seleção. Então, sem mais delongas a lista das minhas 5 melhores leituras do ano.

Em quinto lugar: Belo Desastre - Jamie McGuire

Inicio a minha lista com o livro ame-ou-odeie (impossível ficar indiferente a ele) de Jamie McGuire. A princípio eu não pretendia incluir “Belo Desastre” nessa lista (e sim "Criança 44"), mas a verdade é que poucos livros já ficaram tão grudados na minha cabeça (mesmo nos momentos em que eu não estava lendo e até depois de ter passado da última página), como “Belo Desastre”. A história de Abby e Travis é intensa e explosiva.



Em quarto lugar: A Casa das Sete Mulheres – Letícia Wierzchowski

Apesar de todos os elogios recebidos e de achar a premissa do livro interessante, eu nunca havia sentido vontade (vontade mesmo) de ler “A Casa das Sete Mulheres”. Era mais um daqueles livros que se um dia eu lesse, eu teria lido, mas se não lesse, não teria feito falta. Como ele foi entregue nas minhas mãos (literalmente) resolvi dar uma chance e adorei cada minuto. Letícia é uma autora habilidosíssima e nos conta uma história que poderia ser enfadonha e confusa, devido aos muitos personagens, com maestria e na dosagem certa para nos fazer quase sentir parte daquela família. Maravilhoso.

Em terceiro lugar: O Poeta – Michael Connelly

Curiosamente, há apenas um livro policial nesta lista e não é qualquer policial: é um dos melhores livros que já li do gênero na vida! “O Poeta” só não é perfeito porque seu final deixa muito a desejar, mas a jornada pela qual ele nos leva é tão impecável para os padrões de um livro policial, que isso é facilmente perdoado. Eu já havia lido alguns livros de Michael Connelly antes e já gostava muito do autor, mas foi com “O Poeta” que ele me ganhou de vez.

 
Em segundo lugar: A Culpa é das Estrelas – John Green

Você quer saber o que me despertou vontade de ler “A Culpa é das Estrelas”? Pensa que foi o título? Não foi. A sinopse? Também não. O nome do autor? Não. Os (muitos, muitos) elogios da blogosfera? Não. Então o quê? Nada! Absolutamente nada. E de alguma forma “A Culpa é das Estrelas” conseguiu sair do patamar “eu não tenho a menor vontade de ler esse livro” e chegar ao “impossível deixar de incluir esse livro na minha lista de melhores do ano” Como John Green conseguiu uma coisa dessas? Eu não sei. O que sei é que me dispus a ler o livro e adorei! Uma história linda e tocante, triste sim, mas contada de forma doce e até mesmo alegre. Impossível não se apaixonar. Recomendado para todos os leitores, fãs de todos os gêneros.
Em primeiro lugar: A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón

Vou resumir o máximo possível, antes que eu comece a suspirar e me derreter em elogios para Zafón, e dizer simplesmente o seguinte: “A Sombra do Vento” é inesquecível. Eu desafio qualquer pessoa a ler esse livro e não se apaixonar pelo autor e não querer ler qualquer coisa assinada por ele. Amor, amizade, mistério...você encontra um pouco de tudo nessa história envolvente e belissimamente escrita. Com um livro assim tão perfeito, pequenas decepções vindas do autor (por decepções entenda “O Jogo do Anjo”, também lido esse ano – resenha em breve) são perdoáveis.

Menção honrosa: Noite Sem Fim – Agatha Christie

Não dava para encerrar a minha lista de melhores do ano sem incluir minha autora preferida. Como também era sacanagem compara-la aos demais, decidi fazer uma espécie de categoria especial “Melhor livro da Agatha Christie do ano”. Foram quatro lidos no total (Puxa! Foram poucos. Agora fiquei triste. Para 2013, serão mais. Me cobrem) e “Noite Sem Fim” merece o destaque. Estava ali - na minha cara - o tempo todo e eu, com os meus tolos palpites, não vi. Claro que eu não vi. Agatha sua malandra!







quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Expectativa Literária 2013: Lista do Alê

A princípio, a Mari iria postar hoje sua lista dos melhores livros lidos em 2012. Infelizmente, o computador dela apresentou alguns problemas técnicos, de modo que fomos obrigados a antecipar minha lista de livros mais desejados. Se tudo der certo, a Mari postará suas listas quinta e sexta. 
No que tange as minhas expectativas literárias, esclareço que tendo a desejar as obras do autor como um todo, e não apenas um título em específico. 


Em quinto lugar: Jane Austen.

Sendo fã confesso e incondicional de Jane Austen, além de profundo admirador de sua escrita absolutamente perfeita, o restante de sua obra não poderia faltar na lista de mais desejados para 2013. Dos seis livros publicados pela autora, ainda não li dois, a saber, Emma e Mansfield Park, e espero conseguir ler ambos neste ano.



Em quarto lugar: Stephen King.

Após ter me surpreendido tanto com Sob a Redoma (resenha em breve) — primeiro livro que li do autor —, certamente pretendo ler outros títulos do Mestre do Terror, mesmo não sendo um entusiasta deste gênero. Entre os seus livros, os que me chamaram a atenção foram: Celular e 11/22/63 (título em inglês), este com previsão de lançamento para novembro deste ano, pela Editora Suma de Letras.


Em terceiro lugar: John Green.

Quando terminei de ler A Culpa é das Estrelas, John Green ganhou um novo fã. O autor tem uma habilidade impressionante em transformar estórias aparentemente simples e sem grandes atrativos em uma verdadeira montanha russa de emoções. Mal posso esperar pelo lançamento de An abundance of Katherines, pela Editora Intrínseca, ainda neste semestre.



Em segundo lugar: Bernard Cornwell.

Outra agradável surpresa no ano que se encerrou foi o primeiro volume d’As Aventuras de Sharpe, assim, estou extremamente ansioso para dar continuidade a leitura da saga. Vale salientar que esta série não é considerada a melhor obra do autor, título atribuído As Crônicas de Arthur, que também estão entre os desejados para este ano. 


Em primeiro lugar: Michael Connelly.

Para mim, Connelly é sinônimo de romance policial de qualidade. Vou me permitir afirmar o óbvio: o autor sabe escrever como poucos do gênero. Narrativa envolvente, personagens cativantes, trama bem concatenada, e muita, mas muita adrenalina. Eis uma fórmula perfeita. Após ter lido O Poder e a Lei e O Veredicto de Chumbo (resenha em breve), conto os dias para ler o terceiro volume da série com o advogado Michael Haller: Reviravolta





E como todo bom bookaholic, não poderia faltar uma “faixa bônus”, certo? Entre os também desejados para 2013 estão os livros dos autores: Jo Nesbo, Jeffery Deaver, Lee Child e Pittacus Lore. 

E quais são as suas expectativas literárias para este ano? 


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Retrospectiva Literária 2012: Lista do Alê

Antes que se encerrasse o ano, pretendíamos ter feito uma semana com posts especiais, elegendo as nossas melhores leituras, assim como os livros mais desejados para este novo ano. Em virtude de alguns imprevistos, isto não foi possível, de modo que dedicaremos esta semana a Retrospectiva Literária 2012 e a Expectativa Literária 2013


Em quinto lugar: Razão e Sensibilidade, de Jane Austen.

O que sempre me impressiona nos livros de Austen é a profundidade de sua narrativa. Está narrativa, quando associada ao uso de palavras consideradas rebuscadas, dão um tom poético a obra que acho fascinante. Razão e Sensibilidade, sem dúvida, reúne o melhor de Austen: além da narrativa deliciosa, somos apresentados a personagens cativantes e a estórias de amor críveis.




Em quarto lugar: O Tigre de Sharpe, de Bernard Cornwell.

O autor tem um talento nato para mesclar ficção e realidade, e criou um dos melhores romances históricos que já li. Richard Sharpe, soldado com personalidade e carisma de sobra, é um personagem que sabe protagonizar. Esteja preparado para uma estória de tirar o fôlego e uma narrativa envolvente, que fazem com que o livro seja “devorado”. 



Em terceiro lugar: O Poder e a Lei, de Michael Connelly.

Evidentemente, meu autor preferido não poderia faltar na lista de melhores do ano. Em O Poder e a Lei, Connelly mostra toda a sua genialidade, construindo um thriller jurídico viciante e repleto de adrenalina. O livro é tudo o que um fã do gênero policial pode esperar: estória verossímil, reviravoltas imprevisíveis, trama sem pontas soltas e final satisfatório. 



Em segundo lugar: A Culpa é das Estrelas, de John Green.

Um livro que tinha tudo para ser melodramático, sentimentalista e repleto de clichês, mas que, surpreendentemente, não foi. A estória de Hazel  uma adolescente com câncer terminal — é doce, engraçada, filosófica, romântica e simplesmente inesquecível. Faço minhas, as palavras de Markus Zusak: “Você vai rir, vai chorar e ainda vai querer mais”


Em primeiro lugar: Sob a Redoma, de Stephen King (resenha em breve).

Primeiramente, sinto-me obrigado a reconhecer que é impossível resumir uma obra tão complexa em poucas linhas. Uma premissa simples, mas que suscita uma questão de profundidade espantosa: em uma sociedade em que os limites são paulatinamente quebrados, o que pode acontecer? King responde a questão narrando sobre como a vida de pessoas comuns que vivem em uma cidade comum, é impactada quando o inimaginável ocorre. Personagens críveis, trama magistral e narrativa envolvente fazem de Sob a Redoma não apenas o melhor livro de 2012, mas um dos melhores livros que já li.  





E quanto a você, caro leitor, quais foram os melhores livros lidos no ano de 2012? Não deixe de nos contar.


domingo, 16 de dezembro de 2012

Quem vem para o jantar? # 16

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Modéstia a parte, tive a ideia brilhante de reunir alguns mestres da literatura policial em um encontro bem informal. Na verdade, minha intenção era de que aquele jantar fosse muito mais uma aula do que um jantar (afinal, qual é leitor que não tem uma veia de escritor?). Ou seja, nada de cozinhar. Limitei-me a encomendar pizzas e comprar vinho.

Mestre # 01: Michael Connelly. O primeiro convidado é o meu autor favorito. Estórias plausíveis e críveis, reviravoltas inacreditáveis e personagens profundos são apenas alguns dos elementos que fazem de seus livros leitura obrigatória para qualquer fã de literatura policial.

Mestre # 02: Jo Nesbo. O segundo convidado é um dos autores favoritos de Connelly. Quando li O Redentor (resenha em breve) entendi exatamente por que Conelly gosta dos thrillers de Nesbo. Uma trama aparentemente simples, mas que ganha complexidade a cada capítulo lido. Um livro imprevisível e impossível de ser largado.

Mestre # 03: Jeffery Deaver. O terceiro convidado é o criador da dupla/casal de detetives mais interessante da literatura policial: Lincoln Rhyme e Amelia Sachs. Além de ótimos protagonistas, o que diferencia Deaver de outros autores é a análise científica das evidências da cena do crime 

Quando a aula o jantar teve início e meus estimados convidados começaram a fornecer suas preciosas dicas, deixei de lado a fatia de pizza que comia e me agarrei a uma caneta e caderno, anotando absolutamente tudo o que aqueles autores falavam.

— A primeira regra é ... — iniciou Deaver, enquanto mastigava um pedaço extremamente grande de pizza. Quando terminou de engolir, finalizou — Somente escreva sobre aquilo que você tem familiaridade.

— É verdade. — concordou Connelly. — Antes de escrever O Poder e a Lei, passei horas conversando com advogados. E até mesmo enquanto escrevia o livro senti a necessidade de tirar algumas dúvidas com eles.

Enquanto eu anotava, meneando a cabeça em sinal de concordância, Nesbo disse:

— E lembre-se de que o criminoso/vilão sempre deve ser mencionado no início da estória. Mas também cuide para não chamar muita atenção sobre este personagem.

— E nada de irmãos gêmeos ou sósias. — acrescentou Deaver.

— Já que começamos com a “lista dos nadas”. — disse Nesbo, com um sorriso. — Nada de venenos desconhecidos ou qualquer outra coisa que exija longas explicações científicas.

— E nada de acaso ou de intuições inexplicáveis vindas do protagonista. — asseverou Connelly.

Nosso jantar foi longe. Encerrada a “lista dos nadas”, discutimos sobre como construir personagens, como criar tramas sem pontas soltas, como escrever diálogos, além de inúmeros outros tópicos pertinentes. Como você pode imaginar, aquele jantar foi um verdadeiro sonho para qualquer aspirante a escritor.


PS: algumas das dicas apresentadas foram retiradas do livro Segredos do Romance Policial de P.D. James, publicado pela Editora Três Estrelas. 

sábado, 6 de outubro de 2012

RESENHA: Nove Dragões

"Durante toda a sua vida Harry Bosch acreditara que tinha uma missão. E para cumprir essa missão ele precisava ser à prova de balas. Precisava que ele próprio e sua vida fossem invulneráveis, de modo que ninguém jamais o atingisse. Tudo isso mudou no dia em que foi apresentado à filha que não sabia que tinha. Nesse momento percebeu que fora salvo e que estava perdido." (CONNELLY, 2011, p. 175).

***

Depois de ter lido O Poder e a Lei, Michael Connelly se tornou o meu autor favorito. Ou seja, nem preciso mais ler a sinopse. Basta ver seu nome na capa, e sei que o livro estará repleto de adrenalina, perseguições e mistério, somado a uma narrativa bem escrita e uma trama crível. Ou seja, tudo o que é necessário para um bom livro policial. 

Em Nove Dragões, Bosch e seu parceiro, Ignácio Ferras, investigam a morte de John Li, proprietário de uma loja de bebidas. Quando os detetives descobrem que a vítima era extorquida por uma tríade chinesa — organização criminosa semelhante a máfia —, a investigação toma um novo rumo. No meio do caso, Bosch descobre que sua filha, que reside em Hong Kong (leia-se: lar de tríades), foi seqüestrada. 

Já perdi as contas de quantas vezes comparei os livros de Connelly e a finada série 24 Horas. Desta vez não farei uma comparação propriamente dita. Porém, recuso-me a não mencionar esta gritante coincidência: a filha se mete em encrencas e o pai, no meio de um caso, sai “a la loca” para salvá-la. Para deixar claro, refiro-me tanto a Jack Bauer e Kim (1ª temporada), quanto a Harry Bosch e Madeline. Acho que Connelly quer nos dizer algo: ou ele também era fã de 24 Horas e fez sua justa homenagem, ou ele ficou sem idéias. Prefiro acreditar na primeira opção. 

De qualquer forma, agora faço a comparação de sempre. Quem assistiu a série sabe como uma pista leva a outra na caçada pelos terroristas, e assim até o fim da temporada. Prepara-se para algo muito semelhante em Nove Dragões: Bosch cruza o pacífico para iniciar uma caçada humana em Hong Kong, e cada movimento que ele faz fornece uma nova pista. 

Boa parte do livro se resume a busca pela filha do Bosch, o que significa doses altas de ação e suspense, porém, não há muito desenvolvimento da trama em si, o que me incomodou um pouco. De toda a forma, o final é realmente surpreendente e o autor fez jus ao título que atribui a ele no inicio da resenha. 

Destaque para o crescimento do protagonista, mais humano e vulnerável, guiado muito mais pelo instinto paterno do que pelo instinto policial. Como já referi em outras resenhas, Connelly sabe construir e dar vida ao protagonista como pouquíssimos escritores conseguem.

É o melhor livro de Connelly? Não. Definitivamente não. 
É um livro ruim? Longe disso.
Qual o meu problema então? Como já disse, o livro ficou muito mais ao redor do resgate de Madeline do que do caso em si. Por isso, creio que embora Connelly tenha usado todos os elementos para escrever um bom livro policial, Nove Dragões não será um livro memorável. 

Quanto ao saldo do livro? Bem escrito, eletrizante e trama concatenada perfeitamente. Se você gosta de uma perseguição repleta de ação, o livro foi escrito para você. Pode não ser o melhor de Michael Connelly, mas garanto que é melhor que boa parte dos livros do gênero. 

Título: Nove Dragões
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 365
Editora: Suma de Letras

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Conexões Além da Contracapa # 06

Michael Connely — autor de um dos melhores detetives da atualidade, o impulsivo Harry Bosch — decidiu ser escritor por influência da obra de ...

... Raymond Chandler, que além de escritor foi roteirista de Hollywood. Entre os filmes cujos roteiros são assinados por Chandler está Pacto Sinistro (no original “Strangers on a train”), dirigido por Alfred Hitchcock e baseado no livro (homônimo, no original) de ....

... Patricia Highsmith. A escritora, conhecida por criar personagens de personalidades complexas e dúbias, ganhou o “Edgar Allan Poe Award” de Melhor Livro em 1956 pela obra “O Talentoso Ripley”, primeiro livro da série protagonizada por Tom Ripley. Quem também foi indicado a essa categoria do “Edgar Allan Poe Award” foi ... 

... Jo Nesbo pela obra “A Casa da Dor”, o quarto livro da série do detetive Harry Hole. Além de ganhar diversos prêmios, Jo Nesbo tem entre seus fãs escritores conceituados do gênero policial como Michael Connelly, que declarou que o autor é seu escritor de thrillers favorito. 

domingo, 12 de agosto de 2012

RESENHA: O Poder e a Lei

“As noções da faculdade de direito acerca da virtude do sistema adversário, dos controles e equilíbrios do sistema, da busca pela verdade, tinham há longo tempo erodido como os rostos das estátuas de outras civilizações. A lei não tratava da verdade. Tratava de negociação, aperfeiçoamento, manipulação. Eu não tratava com culpa e inocência, porque todo mundo era culpado. De alguma coisa.” (CONNELLY, 2011, p. 33).

***

Não é segredo para ninguém que Michael Connelly é um dos autores preferidos deste que vos fala. Confio tanto em seu potencial como escritor que para comprar o livro basta ver seu nome impresso na capa. Mas com a recente adaptação de O Poder e a Lei para o cinema, admito que minha curiosidade estava um pouco mais acentuada para ler este livro.

Michael Haller, advogado criminalista, é contratado para defender Louis Roulet, acusado de tentativa de estupro e agressão de Regina Campo. Após conseguir libertar seu cliente mediante o pagamento de fiança, Haller começa a investigar o caso, dando início a um thriller jurídico eletrizante.

Após ter chegado ao fim da leitura, conclui que Connelly é mestre em criar protagonistas. Assim como Harry Bosh e Jack McEvoy (dos livros Echo Park e O Poeta, respecitvamente), Michael Haller consegue cativar o leitor e conduzir a estória de forma hábil.

A narrativa, em primeira pessoa, flui com naturalidade, sendo que nem mesmo as cenas que ocorrem no tribunal são cansativas. Além disso, o autor criou uma trama crível (leia-se: sem reviravoltas mirabolantes), mas que não deixa de ser instigante e empolgante. Assim, a narrativa impecável somada a uma trama bem concatenada criaram um livro impossível de ser largado.

Outro fator que merece destaque é a verossimilhança da estória criada por Connelly que, mesmo sendo jornalista, conseguiu descrever de forma precisa os nuances do sistema criminal e do trabalho de um advogado criminalista. Ou seja, não espere encontrar aquelas tramas “jurídicas” (leia-se: fajutas) que inspiram inúmeros filmes de Hollywood. Connelly foi incisivo ao retratar a vida real. E talvez, por isso, não agrade a todos.

De minha parte digo — na condição de fã do gênero policial, de graduando em Direito e de apaixonado pelo Direito Penal — que este livro foi um dos melhores que já li, e que não me desapontou na parte literária, nem na parte técnica.

E se você está a se perguntar a respeito do filme, lhe aconselho: não veja! Não sei explicar exatamente o porquê, mas a estória criada por Connelly não funcionou na telona.

Como já disse em outras resenhas dos livros de Michael Connelly, sinto-me obrigado a dizer novamente: leitura obrigatória para fãs do gênero policial.

Título: O Poder e a Lei
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 404
Editora: Record
 

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