Por muito tempo considerei Michael Connelly um dos nomes de destaque da literatura policial, especialmente em virtude de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, minhas últimas experiências com o autor foram um pouco decepcionantes, de modo que estava mantendo uma certa distância de suas obras. Mas, como recebi este livro por engano, decidi dar uma nova chance ao autor.
Em 1992, Harry Bosch investiga de forma superficial o assassinato de Anneke, uma jornalista holandesa, durante uma onda de protestos, caos e violência que tomaram conta de Los Angeles. Vinte anos depois, o caso retorna às mãos de Bosch, que fará de tudo para solucionar o mistério.
O livro é narrado em terceira pessoa, mas acompanhamos o detetive Bosch de perto, de modo que sentimos estar ao seu lado, seguindo pistas, interrogando suspeitos e tentando encaixar as peças. Como sempre, Connelly consegue nos fazer mergulhar de cabeça na estória, nos envolvendo completamente com o caso.
Outro fator que merece destaque é a originalidade e a criatividade do autor. O caso tem início com com poucas pistas e fiquei surpreso com o fato de Harry conseguir aprofundar a investigação partindo de uma base tão superficial. Além disso, a estória por trás da morte de Anneke também me surpreendeu e evidencia o talento do autor em criar boas estórias policiais.
"Ele acreditava que todo caso tinha sua caixa-preta. Alguma evidência, alguém, algum encaixe dos fatos capaz de lançar um pouco de luz e ajudar a explicar o que acontecera e por quê. Com Annake Jespersen, no entanto, não havia caixa-preta. Apenas um par de caixas de papelão emboloradas tiradas dos arquivos, que lhe renderam pouca orientação ou esperança." (CONNELLY, 2017, p. 28)
A investigação segue um ritmo ágil, o que torna a leitura extremamente fluída. Todavia, alguns momentos da estória dedicados a outros aspectos da vida de Bosch me pareceram um pouco maçantes. Já o final conta com um ritmo mais intenso, repleto de adrenalina e tensão. Connelly sabe dosar todos os ingredientes com precisão, de forma a deixar o leitor com o coração na mão e completamente absorto na estória.
No entanto, continuo achando Bosch um personagem desagradável. Creio que desde que li A Queda, a conduta arrogante e de superioridade do detetive em relação às normas me desagradou. Desta vez, tal característica mais uma vez se sobressaí. Minha impressão é de que o autor exagera tentando mostrar um detetive durão, que não liga para as burocracias, pois está ocupando demais combatendo o crime. Porém, em seu afã de combater o crime, pratica diversas irregularidades.
Apesar de ter sido uma boa experiência de leitura, A caixa-preta não é o tipo de livro que impressiona ou empolga. A meu ver, faltou aquele algo a mais, que transforma uma estória mediana em memorável. Assim, A caixa-preta é um bom livro policial, com todos os elementos esperados do gênero, mas não é bom o suficiente a ponto de se destacar.
Título: A Caixa-preta
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 303
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora















































