Na vasta obra de Philip Roth, considerado um dos maiores escritores americanos da atualidade, são várias as premissas que me atraem. Dessa vez, escolhi “Indignação”, mas novamente não fiquei totalmente satisfeita com a leitura.
O ano é 1951. A Guerra da Coreia está em seu segundo ano e Marcus Messner, assim como todos os jovens da sua idade, convive com o fantasma da convocação. Seus medos, porém, não são maiores que os de seu pai que, de uma hora para outra, passou a se preocupar exageradamente que qualquer coisa possa acontecer a seu único filho. Sem conseguir suportar a superproteção, Marcus decide sair de casa para continuar a faculdade em uma universidade a quilômetros de distância e acaba indo parar em uma instituição extremamente conservadora.
É incrível a força da narrativa de Roth. Com apenas duas ou três páginas já conseguimos sentir que conhecemos a fundo tanto Marcus como seu pai. A narrativa em primeira pessoa, na voz do próprio Marcus, é direta e precisa, tanto que o livro nem chega às duzentas páginas e mesmo assim conta a sua história.
Marcus é um adolescente que, como qualquer um na sua idade, quer descobrir o mundo e a si mesmo. Mas “Indignação” não é tanto uma história de autodescoberta como é sobre aprender a lidar com a liberdade, sobre ter maturidade para aceitar que uma escolha ou um momento são capazes de mudar tudo. Nesse processo, o personagem se descobre e se questiona.
Marcus não pensa. Ele sente e age. É impulsivo, se acha cheio de razão e é preciso que outros apontem padrões no seu comportamento para que ele analise algumas de suas atitudes. Esse é um aspecto enriquecido graças à narrativa em primeira pessoa: como vemos os acontecimentos pelos olhos de Marcus, é fácil nos deixarmos levar por suas impressões e sentimentos, sem que sejamos capazes de avaliá-lo com olhos inocentes.
“Você tem que ser maior que os seus sentimentos. Não sou eu que exijo isso de você; é a vida que exige. Se não, você vai ser levado de roldão pelos seus sentimentos. Eles te levarão até o mar e você não será mais visto. Os sentimentos podem ser o maior problema na vida. Os sentimentos podem nos pregar peças terríveis.” (ROTH, 2016, p.130)
Ainda sobre a temática, o autor aborda outros dois assuntos típicos da adolescência: as primeiras experiências sexuais e a ânsia de desafiar as figuras de autoridade. Dentro da primeira, aparece aquela que é, talvez, a personagem mais enigmática da história: Olivia. A menina com quem Marcus tem um breve envolvimento e que, longe de conseguir compreender, o leva a perceber que existem outras realidades muito diferentes da dele. Filha de pais divorciados (em 1951), tendo uma tentativa de suicídio em seu histórico e sendo sexualmente mais desenvolvida do que as meninas que ele conhece (e até que ele próprio), Olivia é, do início ao fim, um mistério.
Tudo que Marcus quer é se dedicar aos estudos, tirar o seu diploma e sair com alguma menina, de vez em quando. Ainda assim, é seu pai achar que ele possa estar fazendo algo errado, algo que poderá lhe colocar em confusão, que acaba por justamente colocá-lo nesse tipo de situação. É o diretor chamar sua atenção que lhe causa revolta e o leva a fazer justamente as coisas que não deveria fazer e que jamais faria.
Além disso, Marcus lida com duas doutrinas religiosas em sua vida (tendo ido estudar em uma universidade na qual a religião está fortemente presente na vida dos alunos, mas sendo filhos de judeus), mas se considera ateu. Em tese, Marcus é um bom moço, mas a arrogância típica da adolescência o faz trilhar um caminho que não é o caminho que ele mesmo quer. É essa contradição que torna a jornada do personagem interessante.
Também é interessante o comportamento do pai de Marcus. Sem razão nenhuma, o homem de repente passa a ver um perigo em cada esquina. Mas será que estar tão alerta a cada pequena coisa que possa vir a se transformar em uma ameaça não é justamente o que as transforma em uma?
Desde o início o autor dá pistas do desfecho que nos aguarda, mas nos deixamos levar pela história, pelos pequenos problemas com que Marcus lida (e que parecem tão grandes naquele momento) e não prestamos atenção no que está nas entrelinhas. Uma reviravolta que, pensando bem, era totalmente esperada.
Eu disse no primeiro parágrafo desta resenha que, mais uma vez, não me senti totalmente satisfeita com um livro de Roth. Não é que “Indignação” seja ruim. É só que eu esperava ser arrebatada por uma grande história, um grande personagem, e não foi isso que aconteceu. Marcus é sim um ótimo personagem e é interessante ver como, apesar de sua história acontecer há décadas, seus dilemas e seu comportamento são atemporais. Talvez eu esteja tão insatisfeita quanto o personagem, querendo da leitura algo que nem eu mesma sei o que é.
Autor: Philip Roth
N° de páginas: 176
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora
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