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quinta-feira, 28 de junho de 2018

RESENHA: A Sede

A Sede / Jo Nesbø / Harry Hole
No décimo primeiro livro da série Harry Hole, o lendário detetive está de volta em mais um acerto de Jo Nesbø.

Um assassino que mata suas vítimas com mordidas de uma dentadura de ferro e bebe seu sangue, dando um novo sentido a expressão "sede de sangue". Um criminoso tão sem precedentes que obriga a polícia de Oslo a chamar Harry Hole para ajudar nas investigações, colocando de novo em seu caminho o único criminoso que escapou de suas mãos há anos.

Já falei muito aqui sobre como gosto de Harry Hole. Tendo lido todos os livros da série, com exceção do segundo, acompanhei a jornada do inspetor em seus tempos mais sombrios e também mais leves (aspas generosas em “leves”) e há alguns livros acredito que esta jornada esteja se aproximando do fim. Isso não tem a ver com a qualidade das tramas e sim com a história do próprio personagem que sempre foi um protagonista para a série mais do que apenas um investigador de casos policiais.

Neste livro vemos um Harry casado com a mulher que ama, sendo um pai para o menino que ele viu crescer e que hoje, homem adulto, escolhe seguir seus passos na polícia. Vemos Harry direcionar seus talentos para o ensino, se tornando professor da academia de polícia, ao invés de portar seu distintivo. Mas também vemos Harry continuar sendo Harry, atormentado por seus demônios que sempre estarão ali, não importa o que aconteça. Ainda assim, como é bom vê-lo tendo um porto seguro para voltar ao final do dia. Como é bom poder ve-lo encontrar com Rakel uma forma de serem felizes, nem que seja entre brechas de escuridão.

“É claro que perdemos todas as pessoas a quem tentamos nos agarrar, o destino faz pouco-caso de nós, nos torna pequenos, patéticos. Quando choramos pelas pessoas que perdemos não é por compaixão, porque é claro que sabemos que elas finalmente estão livres da dor. Mas ainda assim choramos. Choramos porque estamos sozinhos outra vez. Choramos por sentirmos pena de nós mesmos.” (NESBØ, 2018, p. 370)

Outra coisa que gosto na série é que, aos poucos, alguns personagens se despedem e outros surgem para ocupar lugares de destaque. É o caso, por exemplo de Trulls Berntsen (e seu eterno complexo de inferioridade e paixão impossível por Ulla Bellman), da inspetora Katrine (que agora lidera a equipe de investigação) e de Michael Bellman (o ambicioso e desprezível chefe de polícia contra quem qualquer leitor vai gostar de torcer). Todos rendem subtramas envolventes e isso acorre porque, ao criar um personagem consistente como Harry Hole, Nesbø fez dele um terreno fértil para que outros pudessem se desenvolver ao seu redor.

Quanto ao caso em si, confesso que o autor soube me conduzir direitinho, de forma que não previ a surpresa que ele guardava para o final. Os crimes, como sempre, são grotescos e Nesbø não tem medo de criar imagens fortes na mente do leitor. A condução da trama acelera o ritmo com o avançar dos capítulos, enredando cada vez mais os personagens, até colocá-los todos em um mesmo lugar para um desfecho doentio.

Três anos após os eventos de “Polícia, a trama de “A Sede” usa o cliffhager deixado pelo livro anterior para trazer de volta o vilão Valentin Gjertsen, algo que Nesbø parece planejar fazer novamente com Svein Finne, “o noivo”. Apesar disso, as tramas dos livros são independentes e podem ser lidas fora de ordem.

“A Sede” é a décima primeira trama de uma série que não mostra sinais de cansaço. Mais uma vez, Jo Nesbø entrega uma trama bem amarrada, inteligente e capaz de surpreender o leitor.

Título: A Sede
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 531
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 5 de junho de 2018

RESENHA: O Morcego

O Morcego / Jo Nesbø / Harry HoleQuando a Editora Record deu início à publicação da série Harry Hole no Brasil, o primeiro livro lançado foi “Garganta Vermelha”, o terceiro da série. Depois, a publicação seguiu a ordem dos lançamentos, até o oitavo livro, “O Leopardo”. Foi apenas em 2016 que os leitores tiveram a oportunidade que conhecer “O Morcego” e “Baratas” as duas primeiras histórias desse personagem fascinante.

Inger Holter, uma jovem norueguesa, foi encontrada estuprada e assassinada no fundo de um penhasco em Sydney. Harry Hole foi o escolhido para representar a polícia de Oslo e ajudar nas investigações na Austrália. Logo ele descobre que a morte de Inger pode não ser um crime isolado e que um assassino pode estar à solta, atacando mulheres loiras em todo o país.

Fã confessa que sou de Nesbø e de seu investigador, e tendo lido todos os livros da série, fiquei empolgadíssima para saber como a história de Hole teve início, em especial porque o personagem passa por uma palpável evolução de uma trama para a outra, não estando ali apenas para encabeçar as investigações. Além disso, o caso de “O Morcego” é frequentemente mencionado no decorrer da série já que atuar na busca de um serial killer dá uma espécie de status a Hole dentro da polícia norueguesa que tem pouca experiência no assunto devido à pouca ação de serial killers no país.

Com tanta expectativa, e já familiarizada com o que o futuro reserva para o personagem, tive uma boa experiência com “O Morcego”. O tom das histórias, os crimes violentos, o ritmo (sempre lento no começo) característicos das histórias de Nesbø já estão presentes nesse primeiro livro, assim como a essência da personalidade de Hole. Essa, talvez, fosse a minha principal curiosidade: teria Harry Hole já nascido um personagem problemático e angustiado ou teriam sido os casos que o deixaram assim? E a resposta é: Harry Hole já é Harry Hole desde o primeiro livro. É claro que há muito caminho a percorrer e o personagem se tornará cada vez mais sombrio e seu fardo cada vez mais pesado. O fascínio que provoca irá crescer, mas sua personalidade já estava desenhada em “O Morcego”. Harry já é assombrado pelo fantasma de um amor que ficou para trás (mesmo que nos livros seguintes ele venha a perder a importância), já carrega o peso da morte de um colega nas costas, já enfrenta problemas com alcoolismo (sob controle neste momento) e já dá indícios de que está disposto a burlar as regras sempre que achar que isso é o certo a fazer. Nesbø também já apresenta, através de breves comentários, um pouco da história familiar de Harry (o pai, a morte da mãe, a irmã com Síndrome de Down) algo em que irá se aprofundar nos livros seguintes.

“A alma humana é uma grande floresta escura, e todas as decisões são tomadas na solidão.” (NESBØ, 2016, p. 346)

Quanto à trama, o caso de Inger e das loiras é interessante e bem amarrado, mas não me envolveu tanto quanto poderia. Antes que a investigação se aprofunde na morte da norueguesa, descobrimos os outros casos. A partir desse momento, não se trata de uma vítima e sim de várias vitimas, de forma que a individualidade delas perde a importância porque o relevante passa a ser o conjunto e a pergunta “quem é o homem que tem esse tipo de mulher como alvo?” passa a ser o cerne da trama. Assim, a investigação se torna um pouco genérica, o que impede o leitor se de envolver profundamente.

Outro fator que contribui para isso é que essa não é uma típica caçada a um serial killer na qual uma nova vítima pode surgir a qualquer momento e a investigação é uma luta contra o tempo. Aqui não se tem a menor ideia de onde e quando um novo ataque poderá ocorrer e a maioria dos casos já é antiga. Assim, por mais que a investigação flua bem e que o desfecho seja satisfatório, confesso que não senti urgência em descobrir as respostas. Por outro lado, não posso dizer que fiquei decepcionada porque vejo a trama de “O Morcego” como uma introdução, uma apresentação do estilo de casos da série, e isso ela consegue fazer muito bem. Nesbø mostra cenas violentas, deixa claro que nenhum personagem está a salvo, que qualquer um pode ter motivações ocultas e que sempre há um preço a se pagar.

“O Morcego” apresenta com competência um autor promissor, que não tem medo de criar tramas violentas e intrincadas, e um personagem que, nos livros seguintes, se revelará um dos melhores detetives da literatura policial contemporânea. Como quase toda estreia, ainda não é o melhor do seu autor, mas me deixa cada vez mais segura em dizer que Jo Nesbø não erra nunca.

Título: O Morcego
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 346
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 17 de abril de 2018

RESENHA: Encarcerados

Encarcerados John Scalzi
Desde que li Guerra do Velho, me tornei fã incondicional de John Scalzi e estava extremamente curioso para conferir Encarcerados, uma promissora mescla de ficção científica e policial. 

A Síndrome de Haden matou mais de 400 milhões de pessoas e os sobreviventes precisaram lidar com uma terrível sequela: o encarceramento, ou seja, suas mentes saudáveis ficaram presas em corpos incapazes de se movimentar. A situação é contornada pela tecnologia, que permite que os hadens transfiram suas consciências para corpos robóticos e assim possam viver em sociedade. É neste contexto que conhecemos o haden Cris Shane que, em seu primeiro dia de trabalho no FBI, começa a investigar o assassinato de um homem em um quarto de hotel em Washington.

Como esperado de Scalzi, a narrativa é extremamente fluída e envolvente. Em poucas páginas o leitor já está completamente fascinado por este novo mundo e suas infinitas possibilidades. Aliás, é impossível não se impressionar com a originalidade do pano de fundo criado pelo autor. 

Outros dois aspectos também se destacaram. O primeiro deles é o bom humor presente na narrativa, que em diversos momentos me fez rir alto. O segundo é a quantidade de reflexões que a estória provoca, tais como identidade, evolução e os limites entre a moral e a tecnologia.

"— Estamos trabalhando em pesquisas para desencarcerar os acometidos pela Haden. [...]. Para libertar os corpos e trazê-los de volta ...
— Trazer-nos de volta de quê, exatamente? — questionou Hubbard. — De uma comunidade de 5 milhões de pessoas nos Estados Unidos e 40 milhões em todo o mundo? De uma cultura emergente que interage com o mundo físico, mas é independente dele, com preocupações, interesses e economia próprios? Você tem ciência de que um grande número de haddens não tem lembrança nenhuma do mundo físico?"(SCALZI, 2018, p. 96)

O protagonista é extremamente cativante, sendo um excelente condutor da estória. É através de seu olhar que entendemos o funcionamento deste universo, bem como acompanhamos a evolução da investigação policial e seus desdobramentos. 

A estória de Scalzi é um típico “whodunit”, ou seja, o livro gira em torno de descobrir quem é o responsável pelo assassinato. Apesar da identidade do assassino não ter me surpreendido, fiquei impressionado com a forma como a trama foi construída e amarrada. Além disso, saliento que o autor preferiu manter a verossimilhança do que forçar reviravoltas na estória apenas para surpreender o leitor. 

Encerro afirmando que John Scalzi partiu de um conceito interessantíssimo, mas também acertou em cheio no desenvolvimento da estória. Encarcerados é uma mistura bem sucedida de ficção científica e policial, que me prendeu do início ao fim e que provou que Scalzi é um dos autores mais criativos e originais da atualidade.  

Após encerrada a leitura, obviamente fiquei com um gostinho de quero mais e para minha alegria descobri que há uma continuação (Head On, lançado este mês nos Estados Unidos). Mas fique tranquilo, pois a estória de Encarcerados tem início, meio e fim, não ficando ganchos para o segundo livro. Na verdade, creio que as estórias dos livros serão independentes entre si, apenas dividindo o mesmo contexto e protagonista. 

Título: Encarcerados
Autor: John Scalzi
N.º de páginas: 326
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 13 de março de 2018

RESENHA: A Quinta Testemunha

A Quinta Testemunha Michael Haller
Já considerei Michael Connelly um dos melhores autores policiais da atualidade, principalmente depois da leitura de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, de uns tempos para cá, seus livros têm sido decepcionantes ou até mesmo ruins, como foi o caso de A Queda. Assim, determinado a dar uma última chance ao autor, decide ler A Quinta Testemunha, o quarto livro da série com Mickey Haller. 

Com a crise mobiliaria que assola o país, Haller teve que tomar uma medida drástica: abandonar a advocacia criminal e tentar aproveitar a enxurrada de processos de despejo. Quando uma cliente entra em contato, ele sequer imagina que Lisa está sendo acusada de ter matado um funcionário do alto escalão do banco, o qual está cobrando a hipoteca de sua casa. 

Como sempre, a narrativa de Connelly é bastante fluida e instigante, sendo que em poucas páginas já estamos envolvidos com a estória. O autor também soube estruturar bem a trama, adicionando novos elementos e plot twists na medida certa, de modo a manter o interesse do leitor. 

Outro fator que me impressionou é a facilidade que o autor tem em pensar como um verdadeiro advogado criminalista, o que torna a estória extremamente verossímil. O protagonista criado por Connelly é baseado na vida real, e não nos clichês de filmes e séries jurídicas.

“— Não, quem não está entendendo é você. Se você é inocente ou não, não tem nada a ver com o que está em jogo aqui. O importante é o que podemos provar ou contestar no tribunal.” (CONNELLY, 2013, p. 53)

O caso em si é muito interessante e rende diversas reflexões. Por um lado, uma mulher abandonada pelo marido, com um filho para cuidar e que não consegue pagar a hipoteca da casa. Por outro, uma grande corporação que está executando todos os seus devedores. Mais do que falar em certo ou errado, o autor embarca na nebulosa área da moral, mas de forma sútil e sem a pretensão de dar lições de vida. 

Entretanto, creio que o autor estendeu demais a estória. Sinceramente, não me pareceu que as mais de quatrocentas páginas fossem realmente necessárias para o desenvolvimento do livro. Está impressão ficou ainda mais nítida na reta final do livro, quando o julgamento de Liza parecia não acabar e nada de novo acontecia. 

O desfecho foi bom, sendo que todas as pontas da trama foram devidamente amarradas. Entretanto, saliento que o final não foi exatamente uma surpresa. Além disso, outro detalhe da estória revelado no final me pareceu um pouco forçado. 

Encerro admitindo que entre minhas últimas experiências com os livros do autor, A Quinta Testemunha foi a melhor. Porém, ainda não alcançou o mesmo nível dos livros que citei no início desta resenha. 

Título: A Quinta Testemunha
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 419
Editora: Suma

sábado, 9 de dezembro de 2017

RESENHA: Polícia

Quando o assunto é Jo Nesbø eu não penso duas vezes: qualquer livro do autor é bem vindo. Ainda mais se tratando de uma historia de Harry Hole: meu detetive favorito da literatura policial contemporânea.

Alguém está matando policiais, atraindo-os para cenas de crimes que eles mesmos investigaram, mas que ficaram sem solução. Agora, a polícia de Oslo tenta encontrar o assassino antes que ele faça novas vítimas entre seus colegas. Eles gostariam de poder contar com a ajuda de Harry Hole. Mas não podem.

Hello Harry Hole! Enfim nos encontramos novamente. E é sempre um prazer revê-lo Mas....cadê você? Algo inusitado nesse livro é que Hole demora 175 páginas até aparecer. Isso, claro, é extremamente angustiante levando em consideração que o livro anterior ("O Fantasma") terminou em um cliffhanger, deixando o detetive mais perto da morte do que da vida. É claro que sabemos que, dificilmente, Hole nos deixaria - afinal é em torno dele que a série gira -, mas algo que os leitores de Nesbø sabem é que o autor não teve medo de matar personagens importantes ao longo da jornada (algo que, inclusive, volta a fazer nesse livro), então como ter certeza de que se está pisando em território seguro? Mas o que mais impressiona é como o autor consegue levar esses 15 primeiros capítulos, deixando o leitor cada vez mais interessado e avançando com segurança e ritmo pela trama. Mesmo sem a presença de seu protagonista, isso é uma coisa que apenas autores que sabem mesmo o que fazem são capazes de conseguir.

Eu sempre digo que as histórias da série são para mais para contar a vida do próprio Harry do que para desvendar o caso, por isso também me surpreendeu que o detetive mantenha-se fora de tantas páginas.

Sou uma leitora que perde a conexão com a história quando demoro muito a ler um livro. Essa foi outra coisa que me surpreendeu em "Polícia" já que levei três vezes o tempo que deveria para um livro desse tamanho, mas me mantive interessada até o último momento, mesmo que em alguns dias eu lesse apenas 5 páginas, o que dificultava avançar na trama.

Quanto à investigação, Nesbø acerta mais uma vez, construindo a trama de forma que coisas aparentemente sem conexão acabam se cruzando e espalhando suspeitas. Havia um momento em que eu suspeitava de três personagens ao mesmo tempo, apenas para descobrir mais tarde que isso se devia apenas a habilidade do autor (e que eu estava errada em todas elas).

Se ela pudesse passar cinco segundos em sua mente, se visse quem ele era de verdade, será que ela teria saído correndo dali horrorizada? Ou seria que todos somos igualmente doentes dentro de nossas cabeças? Será que a diferença reside apenas em quem solta o monstro que existe dentro de si e quem não faz isso? (NESBO, 2017, p.226)

Para aqueles que leem fora de ordem (coisa que eu mesma fiz com vários livros da série), essa é a primeira vez que vejo um empecilho, já que "Polícia" traz um spoiler de "O Fantasma".

A bagagem de "O Fantasma" também aparece em personagens secundários como Michael Bellman e Trulls Berntsen que continuam a desempenhar os papéis do livro anterior, desenvolvendo mais a sua complexa relação de obsessão, rancor, cumplicidade, autoridade e submissão. Aliás, isso também é outra coisa que gosto muito nos livros de Nesbø: os personagens não surgem e saem dos livros apenas porque o caso acabou. Eles chegam para ficar, para desempenhar um papel.

Assim como "O Fantasma", a trama de "Polícia" termina em um cliffhanger que, mesmo sem envolver o detetive, deixa o leitor curioso para o próximo livro. Uma sacada inteligente de Nesbø que mostra que esteve alinhavando a trama do próximo livro enquanto contava a deste. Com que frequência vemos isso em uma série policial?

Para os que acompanham o personagem há vários livros, um momento sensacional (e que eu nunca imaginei que veria) os aguarda nos últimos capítulos. O que o torna sensacional não é apenas o que acontece, mas a maneira como acontece. Pontos para Nesbø mais uma vez.

Já vi Jo Nesbø declarar em uma entrevista que o futuro de Harry Hole não seria muito longo. Depois de "Polícia" o autor já publicou mais um livro (The Thirst - ainda sem previsão no Brasil). Quando conclui a leitura de "Polícia", percebi que o fim, provavelmente, está se aproximando. Até porque, Harry é uma espécie de Jack Bauer norueguês: há coisas que ninguém vai fazer melhor do que ele, mas ele já está cansado de ser quem é, de ter que fazer o que faz. Ele já perdeu coisas demais, correu riscos demais por estar sempre disposto a fazer o precisava ser feito. Agora ele quer paz, mas algo sempre o puxa de volta. E é esse "trazer o detetive à ação quando tudo que ele quer é se afastar" que tem se tornado cada vez mais complicado desde o final do excelente "Boneco de Neve". Sejam quantos livros ainda nos restem na companhia desse personagem complexo e apaixonante, que venham mantendo a qualidade que os 10 livros da série apresentaram até o momento.

Título: Polícia
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 546
Editora: Record 
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

RESENHA: Assassinato no Expresso Oriente

Assassinato no Expresso Oriente / Agatha Christie / Hercule Poirot
Hercule Poirot planejava tirar uns dias de férias quando recebe um chamado para voltar com urgência a Londres. O detetive embarca às pressas no Expresso Oriente, mas sua viagem é interrompida devido a uma nevasca que impede a passagem do trem. No dia seguinte, um dos seus colegas de viagem é encontrado morto, apunhalado 12 vezes.

Um caso do sempre ótimo Hercule Poirot, “Assassinato no Expresso Oriente” é um dos livros mais famosos da extensa (e recheada de grandes sucessos) obra de Agatha Christie. Isso se deve ao desfecho, absolutamente inusitado, considerado um dos mais surpreendentes propostos pela autora. E não é para menos. Ao criar a trama desse livro, Agatha deve ter pensado: “O que eu ainda não fiz? Já sei! Um caso em que o assassino…..”. Até Raymond Chandler disse (embora seu comentário passe bem longe de parecer um elogio) que nenhum leitor em sã consciência desvendaria o mistério porque a resposta não passaria pela cabeça de ninguém.

A trama se divide em três partes: na primeira, conhecemos rapidamente os personagens e os vemos em situações que antecedem o crime; na segunda, Poirot conduz os interrogatórios; e na terceira, é chegado o momento em que o detetive, tendo em mãos todas as informações, coloca suas células cinzentas para trabalhar e encontrar a resposta.

Ninguém desenvolve a premissa “um grupo de pessoas confinadas em um mesmo lugar, todas sendo suspeitas de um crime” melhor do que Agatha Christie. Nesse caso, todos estão presos no trem e Poirot não pode ao menos confirmar as informações que recebe, tendo que confiar estritamente no seu discernimento e na palavra daqueles desconhecidos.

“O impossível não pode ter acontecido, assim sendo o impossível deve ser possível apesar das aparências." (CHRISTIE, p. 213 – edição britânica) Tradução livre

Por contar com um elenco grande de personagens, o ritmo acaba se tornando um pouco mais lento já que boa parte do desenvolvimento da história consiste nas entrevistas que o detetive faz (o passageiro chega, é entrevistado, o passageiro sai, entra outro e assim por diante), mas Agatha consegue manter o interesse do leitor.

Além do desfecho, outra coisa inusitada em “O Assassinato no Expresso Oriente” é a posição que Poirot se encontra ao desvendar o crime. Pela primeira vez o detetive se pergunta o que fazer diante da verdade e se deve, ou não, deixar que o criminoso fique impune. A decisão, de um jeito ou de outro, lhe parecerá errada.

Eu já havia lido “O Assassinato no Expresso Oriente” há muitos anos e dessa vez aproveitei a oportunidade para reler em inglês. Foi a primeira vez que li um texto de Agatha Christie no original e embora ler em outro idioma seja sempre um processo mais lento, ainda é possível encontrar nele a fluidez que costumamos encontrar no texto traduzido.

Além de ser um ótimo entretenimento, fica de “O Assassinato no Expresso Oriente” a satisfação de constatar, mais uma vez, que uma autora que conta com uma obra que ultrapassa os 80 livros, consegue sim ser muito original.

“Quanto a mim, eu suspeito de todo mundo até o último minuto.” (CHRISTIE, p. 78 – edição britânica) Tradução livre

Em 1974, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica considerada a mais bem sucedida adaptação de uma obra de Agatha Christie. No elenco, nomes como Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman e Albert Finney (os dois últimos vencedores do Oscar na categoria melhor atriz coadjuvante e melhor ator, respectivamente, por suas atuações no longa). Assisti o filme há alguns anos, mas não tenho condiçõess de comentar sua fidelidade à obra original já que assisti muito após minha primeira leitura e muito antes da segunda.

Na TV, a série "Agatha Christie's Poirot" (que traz o nada menos que perfeito David Suchet no papel do detetive Belga) também apresentou sua versão do livro. E se nunca comentei aqui antes, comento agora: o adjetivo perfeito não é um exagero para Suchet. Não só o ator adota os trajeitos, a maneira afetada falar, de andar, as obsessões de Poirot em cada gesto, como parece ter saído fisicamente da mente da Dama do Crime. Com exceção dos olhos verdes, é incrível que até a cabeça em formato de ovo Suchet tenha. Aliás, fica a dica: “Agatha Christie’s Poirot” é um pouco difícil de encontrar, mas vale a pena conferir (em especial a partir da quarta temporada quando os episódios passam a ser como filmes de 90 minutos de duração, cada um apresentando um livro). Todos os casos de Poirot foram contemplados pela série.

Em 2017, Kenneth Branagh assume a direção e o papel de Hercule Poirot, com direito a um bigode indescritível e a companhia de um elenco de peso que conta com Johnny Depp, Judi Dench, Michele Pfeiffer, Penélope Cruz e Williem Dafoe. O filme chega aos cinemas no final de novembro.

Título: Assassinato no Expresso Oriente
Autora: Agatha Christie
N de páginas: 248
Editora: L&PM

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

13 companhias caveirosas para a sua sexta-feira 13

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Quem gosta de suspense sabe o valor de uma sexta-feira 13. Quando a data chega, é impossível não ficar com vontade de conferir um filme de terror ou ler um livro que o fará querer dormir com as luzes acesas.

A convite da Editora Darkside, preparamos um post para celebrar a data e sugerir para vocês 13 companhias para uma sexta-feira 13 bem caveirosa. 

1. Norman Bates - Psicose

Norman Bates é o tímido gerente do Motel Bates, um estabelecimento à beira de estrada. Mas caso você cogite se hospedar lá nesta sexta-feira 13, saiba que os Bates guardam alguns esqueletos no armário.


2. A Família Lutz - Amtyville

George e Kathleen Lutz são um tipo azarado para você convidar para a sua casa, já que eles não tiveram experiências muito boas com o que parecia a casa dos sonhos de qualquer família e fugiram 28 dias depois da mudança. Mas quem pode culpá-los? Caso você queira ouvir algumas histórias realmente assustadoras nessa sexta-feira 13, acenda uma fogueira e chame os Lutz para sentar com você.

3. Victor Frankenstein - Frankenstein

Todo mundo já ouviu falar do "Monstro" de Frankenstein, mas você já conheceu Victor Frankenstein? Ele é um jovem talentoso, cheio de ambição e obcecado por descobrir a centelha da vida. E quando a descobre, ele não percebe que a criatura que trouxe a existência é essencialmente humana, apesar da aparência grotesca. Essa sexta-feira 13 também pode ser uma oportunidade para você descobrir quem é o verdadeiro monstro desta clássica estória: a criatura ou o criador?

4. Rhoda Penmark - Menina Má

Rhoda Penmark parece uma adorável menina de oito anos, mas apenas parece. Por trás do rosto angelical se esconde uma mente fria e manipuladora, capaz de atos perversos. Se você quiser ficar de babá de Rhoda nesta sexta-feira 13, é bom ficar atento.

5. Dr. Vincent Di Maio - O Segredo dos Corpos

Se você prefere o terror do mundo real, sugerimos que você aproveite a sexta-feira 13 para fazer uma visita ao necrotério. Seu guia será o Dr. Vincent Di Maio, um conceituado médico legista que irá lhe mostrar de perto como acontece uma necropsia e qual a sua importância para a investigação e o julgamento.

6. "Ogro" - Diário de uma Escrava

"Ogro" é o pior tipo de monstro com o qual você pode se deparar. Um pedófilo. Um homem que caça meninas e as mantém em cativeiro como escravas sexuais. Se você for dar um passeio nesta sexta-feira 13, fique atento a tipos suspeitos.


7. Verônica - Bom dia, Verônica

Você pode aproveitar a sexta-feira 13 para acompanhar a policial Verônica Torres pelas ruas de São Paulo. Mas não se engane: os crimes que ela investiga são brutais e mostram o que há de pior na humanidade. Se você acha que aguenta, esteja preparado para testemunhar torturas, violência e diversas formas de abuso.

8. Bryan Clauser - Noturno

Sexta-feira 13 não é um bom dia para descobrir que existe um culto em São Francisco. Muito menos que suas vítimas são barbaramente assassinadas. Mas se você não tem medo do que se esconde nas sombras, talvez queira acompanhar o detetive Bryan Clauser nesta aventura sobrenatural.

9. Corvo - conto O Corvo

Poderia haver algo mais sinistro que um corvo do lado de fora da sua janela no meio da noite enquanto você lamenta a perda da sua amada? Caso você decida ficar em casa nesta sexta-feira 13, é melhor fechar bem as portas e as janelas para não atrair companhias indesejadas.

10. Louis Cypher - Coração Satânico

Louis Cypher é um tipo misterioso. Ele quer que o detetive Harry Angel localize o famoso cantor Jhonny Favorite, desaparecido há anos. Mas quais os verdadeiros motivos que movem Cypher? Se você estiver pensando em aceitar um servicinho extra nesta sexta-feira 13, pense bem antes de assinar o contrato.

11. Arcebispo da Cantuária - Abominação

O arcebispo da Cantuária descobriu feitiços que poderiam impedir a invasão dos vikings. Os velhos pergaminhos detalham uma poderosa magia que seria capaz de criar um exército invencível. Mas há um preço a ser pago. E garanto que você não quer ficar no caminho do arcebispo para descobrir que preço é esse, especialmente numa sexta-feira 13.

12. Frank Cauldhame - Fábrica de Vespas

Um menino de 16 anos que já matou três pessoas (incluindo seu irmão mais novo e sua prima) e que gosta de fazer pequenos experimentos violentos com animais e registrá-los em um diário, a fim de aplacar o tédio do seu dia a dia em vilarejo afastado em uma ilha escocesa. Se você não tiver medo de brincar com fogo, um passeio com Frank é uma boa pedida para a sua sexta-feira 13.

13. Stephen King 

Para encerrar, quem poderia ser uma companhia mais caveirosa que o homem que criou mundos, medos e monstros e nos mostrou que os piores costumam viver dentro de nós? Uma receita infalível para a sua sexta-feira 13, sem dúvida, é a companhia do mestre Stephen King.

sábado, 7 de outubro de 2017

RESENHA: A Vida Que Enterramos

A Vida que Enterramos // Allen Eskens
Para quem não sabe, atuei por alguns anos na área da advocacia criminal e posso até mesmo dizer que fui parar nesse ramo, em parte, por causa dos livros policiais que eu lia. Porém, nos últimos anos comecei a evitar o gênero, pois já estava cansado de encontrar estórias rasas e que beiravam ao absurdo. Mas quando li a sinopse de A Vida Que Enterramos, logo percebi o potencial da estória e decidi que o livro merecia uma chance. 

Joe é um estudante universitário que precisa escrever uma biografia sobre uma pessoa de idade para a disciplina de inglês. Sem nenhum familiar a quem recorrer, Joe procura ajuda em um asilo, porém, não esperava que o único paciente que ainda estivesse em posse de suas faculdades mentais fosse um criminoso. Carl Iverson foi condenado pelo estupro e assassinato de uma jovem há trinta anos e conseguiu liberdade condicional apenas por ter sido diagnosticado com câncer. Com pouco tempo de vida, ele aceita participar do projeto, tornando Joe seu confessor. 

O primeiro aspecto que merece destaque é a fluidez da narrativa. Eskens apresenta um texto ágil, direto e envolvente, de modo que o leitor começa a devorar os capítulos e sequer cogita interromper a leitura. Para se ter uma ideia, a habilidade do autor é tanta que li cerca de duzentas páginas em apenas um dia e admito que sequer senti as páginas serem viradas. 

Eskens também soube desenvolver muito bem os personagens e trabalhar os diversos arcos da estória, que não se centrou apenas na estória que Carl tinha para contar, mas também na investigação que Joe empreendeu a fim de descobrir a verdade, nas conturbadas relações familiares do protagonista e em seu envolvimento com Lila, sua vizinha. Cada arco tem sua relevância para o desenvolvimento da estória e o mais interessante é reparar no impacto que causam umas às outras.

“Dos três homens na foto, somente Carl olhava para a câmera. Eu não sabia o que esperava ver em seu rosto. Como alguém mantém a calma e a sanidade depois de cometer um assassinato? A pessoa estufa o peito e anda de forma pomposa pelos destroços pretos como carvão do galpão onde carbonizou um cadáver?  Usa uma máscara de indiferença e passa pelas ruínas com o mesmo desinteresse de alguém que caminha até a loja da esquina para comprar um litro de leite? Ou surta de medo ao saber que foi pego, que deu seu último suspiro de liberdade e que vai passar o resto da vida em uma cela?” (ESKENS, 2017, p. 33).

A investigação que Joe e Lila fazem segue uma linha de raciocínio lógica e clara, sem contar com deduções improváveis. Aliás, registro aqui que o autor é advogado criminalista e seu conhecimento sobre como ocorrem os crimes no mundo real fica claro, pois a estória se mantém verossímil do início ao fim, sem contar com reviravoltas surreais. 

Outro ponto alto do livro é a estruturação da trama, que demonstrou o completo domínio do autor sobre a estória e os personagens. Além de amarrar com maestria todas as pontas da trama, o que mais me impressionou foi como o autor conseguiu transmitir a motivação de todos os personagens, mesmo para ações pequenas. 

O desfecho, apesar de não ter sido tão surpreendente quanto eu esperava, é repleto de ação e adrenalina. Nas últimas páginas, quando o mistério em si já está praticamente solucionado, o livro toma ares de thriller, de modo que ficamos completamente sem fôlego e tudo o que queremos é saber qual será o fim da estória. 

Com um mistério intrigante, uma narrativa envolvente e uma trama perfeitamente concatenada, A Vida Que Enterramos foi uma das melhores leituras policiais que fiz nos últimos tempos. Assim, mal posso esperar para conferir os próximos livros de Allen Eskens. 

Título: A Vida Que Enterramos
Autor: Allen Eskens
N.º de páginas: 270
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 9 de setembro de 2017

RESENHA: Noturno

Noturno Scott Sigler DarkSide Books
O detetive Bryan Clauser começa a ter pesadelos vividos sobre assassinatos brutais. Porém, para sua surpresa, os pesadelos são reais e as pessoas foram mortas exatamente da mesma forma que em seus sonhos. Assim, Bryan e Pookie, seu parceiro, começam a investigar as mortes e descobrem segredos sombrios da cidade de São Francisco. Porém, quanto mais tentam desencavar a verdade, mais resistência encontram. 

Noturno começa como um típico livro policial, com cena do crime, autopsias e investigações. Mas quando a trama começa a se desenvolver, elementos fantásticos vão sendo adicionados. E quando a investigação de Bryan e Pookie os leva a acreditar em uma conspiração, o livro ganha contornos de thriller em virtude da busca alucinada dos detetives pela verdade. A mistura de policial, fantasia e thriller foi inédita para mim e Sigler soube mesclar todos os gêneros com maestria. 

Um aspecto interessante da obra — mas que talvez frustre alguns leitores — é que não temos respostas completas sobre o mundo sobrenatural de Noturno. Isso por que enquanto a investigação se desenrola, vamos formando um grande quebra-cabeça, porém, nem mesmo os detetives encontram respostas para todas as questões. Entretanto, cabe salientar que tais aspectos são meros detalhes, pois a essência deste mundo é bastante complexa e foi habilmente desenvolvida

Admito que, durante o início da leitura, demorei para me envolver com a estória. E mesmo que os acontecimentos fossem interessantes, parecia que pouca coisa estava efetivamente acontecendo. Mas em determinado ponto, quando as primeiras peças começam a se encaixar, Sigler consegue atiçar a curiosidade do leitor e, como se não bastasse, o ritmo da estória se torna mais intenso, prendendo a atenção. 

Quanto aos personagens, confesso que não simpatizei muito com Bryan, especialmente quando demonstrou reações exageradas para um evento que não me pareceu tão relevante assim. Já Pookie compensou no carisma, além de ser o alívio cômico da estória, me levando a gargalhar por diversas vezes. O antagonista da estória foi muito bem construído e entendemos exatamente o que motiva suas ações.

“‘Não sou’, disse Bryan. ‘Não sou um assassino.’
Pookie ergueu as sombrancelhas.
‘É? Tem certeza disso?’
Bryan abriu a boca para responder, mas não saiu som nenhum.
Porque quando parou para pensar, não tinha certeza alguma.” (SIGLER, 2017, p. 78)

O texto do autor é bastante fluído, entretanto, preciso registrar que houve uma certa repetição de ideias que poderia ter sido evitada. Por exemplo, se um personagem estava com raiva ou arrependido, o autor insistia neste ponto, afirmando e reafirmando tais sentimentos em diversos capítulos. Creio que se não fossem essas repetições, o texto teria ficado ainda mais dinâmico e envolvente. 

O final, apesar de um ou outro clichê, conta com uma dose extra de ação e adrenalina, fazendo com que o leitor fique sem fôlego. Além disso, o autor consegue amarrar todas as pontas da trama, criando um desfecho plausível e coerente com o desenvolvimento da estória e com a evolução dos personagens. 

Noturno foi uma leitura que demorou a engrenar, mas, depois que engrenou, me envolveu completamente e não consegui mais largar o livro. Com uma trama complexa, bons personagens e texto envolvente, Noturno se mostrou uma ótima forma de ser introduzido a obra de Scott Sigler. 

Título: Noturno
Autor: Scott Sigler
N.º de páginas: 499
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 29 de julho de 2017

RESENHA: Leviatã Desperta

“— As pessoas falam sobre a guerra? — Miller perguntou.
— Com frequência — o missionário respondeu.
— Alguém vê sentido nela?
— Não. Não acredito que a guerra faça sentido. É uma loucura que está na nossa natureza. Às vezes ela persiste; outras, desaparece.” (COREY, 2017, p. 268)

Duzentos anos depois de sua expansão para o universo, a humanidade não habita apenas a Terra, mas colonizou a Lua, Marte e o Cinturão de Asteróides. Porém, as desavenças políticas e culturais criam atritos constantes entre os três centros de poder. Os ânimos se acirram quando a nave Canterburry, uma transportadora de gelo, é violentamente atacada a caminho do Cinturão. Caberá ao capitão Jim Holden e ao detetive Miller descobrir a verdade e tentar impedir uma catastrófica guerra interplanetária. 

Leviatã Desperta é o primeiro volume da série The Expanse e, como esperado, conta com um teor introdutório, apresentando ao leitor as informações deste novo e complexo mundo. Apesar deste cenário altamente tecnológico e avançado, todos os aspectos da vida no espaço são verossímeis e convincentes. 

A narrativa é extremamente fluida, o que é um aspecto vital para livros extensos. Uma de minhas preocupações era o fato de o livro ter sido escrito por dois autores — James S. A. Corey é o pseudônimo de Daniel Abraham e Ty Franck —, porém, o texto é uniforme e mantém um mesmo estilo do início ao fim. 

Outro acerto dos autores foi escolher uma dupla de protagonistas tão diferente. Holden é impulsivo, emotivo e, em certo ponto, ingênuo, enquanto Miller é racional e cético. Os choques entre estes diferentes pontos de vista são vistos durante todo o desenvolver da estória, sendo que o leitor consegue entender ambos os lados. 

Um dos fatores que mais me chamou atenção foi a complexidade da trama. O que os autores criaram, a meu ver, foi uma espécie de xadrez espacial e vemos a cada capítulo as peças se moverem e, eventualmente, caírem no gigantesco tabuleiro. Apesar dessa complexidade, em nenhum momento a leitura se tornou monótona ou cansativa. 

Também merece destaque é a mistura de diversos elementos, alguns até mesmo inusitados, mas que compõe uma estória harmônica. Quanto ao gênero, diria que a estória é uma mistura de ficção-científica e investigação policial. Apesar do texto fluído, não achei que o ritmo da estória fosse intenso o suficiente para considera-lo um thriller. 

Preciso admitir que Leviatã Desperta não me deixou com aquela empolgação que sempre espero do primeiro livro de uma série. Não me entenda mal, pois eu me envolvi com a estória e com seus personagens, sendo que a leitura foi bastante agradável. Mas fiquei com a sensação de que, ao encerrar a leitura, não senti aquele “desespero” por continuar a leitura da saga. 

Além disso, também me pareceu que o livro foi extenso demais. Ao contrário de muitos livros que já li, Leviatã Desperta não deixa o leitor com a impressão de que está sendo enrolado. Entretanto, quando encerrei a leitura, senti que a estória não era tão densa a ponto de necessitar quase setecentas páginas para ser desenvolvida. 

Somente depois que termine de ler fui pesquisar quantos livros compõe a série e me surpreendi ao descobrir que já foram lançados seis livros no exterior, sendo que o sétimo será publicado no final do ano e mais dois volumes já foram comprados. Assim, confesso que tenho dúvidas se continuarei a ler a série, pois não sei se tenho fôlego para ler mais oito livros extensos, ainda mais quando o primeiro não empolgou tanto quanto poderia. 

Título: Leviatã Desperta
Autor: James S. A. Corey
N.º de páginas: 671
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora.

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

RESENHA: Rastros de Sangue

“ - Que estejamos há muito tempo no céu antes que o diabo perceba que a gente já foi embora.” (McDERMID, 2017, p.140)

Há anos, em uma época em que eu devorava quase todas as tramas policiais que surgiam na minha frente, li um livro de Val McDermid e gostei, embora não tenha sido marcante a ponto de eu me tornar fã. Tanto que apenas agora tive minha segunda aventura com a autora.

O psicólogo forense Tony Hill está criando uma nova força tarefa especializada em traçar perfis psicológicos dos criminosos, mas terá um grande desafio pela frente já que muitos policiais não levam a sério o seu trabalho. Em meio aos exercícios de treinamento, uma jovem policial encontra um elemento comum entre desaparecimentos de adolescentes nunca relacionados antes: todas as meninas estiveram próximas a Jacko Vance, um famoso apresentador de televisão, dedicado a causas sociais. Quando essa policial aparece morta, a equipe percebe que a teoria absurda que ela havia elaborado talvez não fosse tão absurda assim. Para resolver o caso, Tony irá contar com a ajuda de Carol, a detetive com quem trabalhou em um caso anterior e de quem tem tentado se manter afastado.  

“Rastros de Sangue” é o segundo livro da série protagonizada pelo psicólogo forense Tony Hill e a detetive Carol Jordan. Há algumas menções ao caso anterior, em especial ao trauma sofrido por Tony, mas nada que interfira nesta trama ou mesmo dê spoilers da que a antecede. Outra coisa que podemos perceber é que paira um romance entre os dois protagonistas.

A trama se constrói em duas linhas de investigação, a principal sendo a formação da equipe especializada em perfis psicológicos, que levará à descoberta do caso das meninas desaparecidas que, por sua vez, levará à caçada de Jacko Vance. A secundária, encabeçada por Carol, é a investigação de uma série de incêndios criminosos. Devo dizer que essa segunda trama me pareceu desnecessária, apenas para justificar que Carol e Tony não estivessem trabalhando juntos no começo.

McDermid adota uma opção arriscada: sabemos desde o primeiro capítulo que Vance é o assassino das meninas (na verdade, estamos na frente da polícia que, até então, nem sabe que tal assassino existe). Dessa forma, a expectativa do leitor não é descobrir respostas e sim ver se a polícia vai conseguir encontrar as respostas que ele mesmo já tem e se conseguirá pegar o criminoso. É um livro que se faz totalmente pela jornada. Ao mesmo tempo em que acompanhamos a polícia, acompanhamos também Vance e, aos poucos, temos vislumbres de seu passado e de sua mente doentia (sempre através da narrativa em terceira pessoa).

Mas, apesar de perverso, Jacko Vance está longe de ser um vilão memorável, assim como Tony e Carol estão ali para conduzir a trama policial, não para serem as estrelas dela. É o tipo de história em que os personagens servem à trama, não o contrário (como acontece com os livros da série Harry Hole, por exemplo), o que não é uma falha, mas faz com que, com base em apenas um livro, o leitor não se sinta cativado pelos personagens, embora simpatize com eles.

“Rastros de Sangue” é um livro correto. Não cria expectativas exageradas, nem reviravoltas de tirar o folego. Não decepciona, mas também não entrega mais do que promete. Conta com personagens construídos na medida que a trama necessita deles, se mantém com um bom ritmo do início ao fim e mantém o interesse do leitor durante a jornada. O desfecho deixa um gostinho agridoce, de certa forma ousado por parte da autora ou talvez até promissor para livros futuros. Não é uma obra extraordinária, mas se você gosta do gênero não tem porque não gostar da leitura.

É uma pena que a edição conte com vários erros de revisão.

O livro, lançado em 1997, originou uma série de TV britânica ("Wire in the Blood") que teve 6 temporadas exibidas entre 2002 e 2008.

Título: Rastros de Sangue
Autora: Val McDermid
N° de páginas: 433
Editora: Bertrand
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 23 de abril de 2017

RESENHA: O Livro dos Espelhos

“Tentei dar consistência a todos os personagens que minha investigação trouxe direto do passado, mas eles eram apenas sombras sem um delineamento concreto, passando rapidamente por uma estória cujo início, fim e significado eu era incapaz de descobrir. Tinha à minha frente um quebra-cabeça, mas nenhuma das peças se encaixava.” (CHIROVICI, 2017, p. 193). 

***

O agente literário Peter Katz recebe por email o manuscrito parcial de “O Livro dos Espelhos”. O autor da obra, Richard Flynn, narra seu envolvimento com a jovem Laura Bines e com o renomado psicólogo Joseph Wieder, que foi morto em 1987. Crendo que o livro irá desvendar a identidade do assassino, Peter procura Richard afim de fechar o negócio, porém, descobre que o autor está à beira da morte e ninguém sabe onde está o restante do original. Assim, Peter contrata um jornalista investigativo para seguir as pistas de Flynn e descobrir a verdade. Além disso, a nova investigação também atiça a curiosidade do detetive aposentado Roy, que havia sido responsável pelo caso.

Ao longo do livro nos deparamos com quatro narradores: primeiramente conhecemos Peter e vemos sua reação diante do enigmático manuscrito; em seguida lemos um trecho do livro escrito por Flynn; posteriormente acompanhamos as investigações feitas por John Keller, o repórter investigativo; e por fim o caso retorna ao detetive Roy. Assim, temos contato com quatro narradores em primeira pessoa e o problema é que a voz de todos eles é idêntica. Ou seja, mesmo que se tratasse de personagens diferentes, a narrativa não mudava de acordo com a personalidade de cada um deles, o que evidenciou a limitação do autor. Apesar disso, reconheço que o texto de Chirovici é fluído, de modo que a leitura avança rapidamente. 

Mas este não é o principal problema de O Livro dos Espelhos. Ao optar por dividir o livro em partes, contando com múltiplos narradores, o autor não conseguiu fazer com que os personagens desenvolvessem um laço com o leitor. Creio que a intenção de Chirovici era fazer com que os narradores fossem apenas os olhos do leitor, mas que não roubassem a cena dos acontecimentos ocorridos em 1987. O problema é que o leitor não mantém um contato direto com os personagens daquela época, de forma que há um vácuo de protagonismo. 

A trama tem seus méritos, mas também possui seus defeitos. Quando o leitor consegue finalmente desenterra toda a verdade, percebe-se que a trama realmente é intrincada e complexa, como se fosse um jogo de espelhos. Entretanto, é preciso salientar que alguns aspectos pareceram um pouco distantes da realidade, o que afetou a verossimilhança da estória. 

O final é relativamente surpreendente e inesperado, apesar de que me pareceu que o autor ocultou algumas peças da estória para manter o mistério, entregando-as apenas ao final. Creio que quando se trata da literatura policial, o leitor precisa ter acesso a todas as pistas que lhe permitam desvendar o mistério, ou seja, o autor não pode deliberadamente esconder uma informação que o protagonista tem conhecimento e trazê-la à tona ao final para conseguir encaixar todas as peças da trama. 

O Livro dos Espelhos é o tipo de leitura fácil e despretensiosa, que entrega uma estória bem amarrada e envolvente, embora deslize em alguns aspectos.  

Título: O Livro dos Espelhos
Autor: E. O. Chirovici
N.º de páginas: 320
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

RESENHA: O Fantasma

“A prisão é pior que a morte, Harry. A morte é simples, liberta a alma. Mas a prisão corrói a alma até não sobrar mais nada de humano dentro de você. Até você se tornar um fantasma.” (NESBØ, 2017, p. 124)

Acompanho a série Harry Hole há anos e há muito tempo tenho uma curiosidade especial por este nono livro, “O Fantasma”, por acreditar que ele traria o caso mais pessoal da jornada do personagem.

Harry Hole está de volta a Oslo. Após uma temporada de três anos em Hong Kong, longe do vício, afastado da polícia e trabalhando como cobrador de dívidas, o ex-inspetor volta a Noruega para solucionar um caso já fechado pela polícia: o assassinato de um jovem traficante de drogas, Gusto Hanssen. Sem recursos oficiais, Harry parte em sua própria investigação pois se recusa acreditar que a polícia tenha encontrado o verdadeiro culpado pelo crime já que Oleg, o filho de Rakel, a mulher por quem Harry é apaixonado há anos, jamais poderia ser um assassino.

Sempre digo que o grande atrativo da série Harry Hole é o próprio Harry Hole, mais que os casos que investiga. Quem acompanha a série desde o início sabe que o personagem passa por um processo de evolução de livro para livro e que uma grande parte dessa evolução gira em torno de Rakel, a mulher por quem ele se apaixonou no terceiro livro (“Garganta Vermelha”) e com quem teve um romance cheio de idas e vindas e que nunca é deixado totalmente para trás. Nesse processo o leitor conheceu Oleg criança e o viu crescer, assim como testemunhou a evolução do relacionamento deste com Harry, que acabou por se tornar uma figura paterna para o menino. Por isso, é também surpreendente para o leitor encontrar um Oleg aos 18 anos, dentro de uma cela de prisão, acusado de ter assassinado um amigo, viciado e traficante de uma nova droga chamada “violino”. Eu acreditava que esse cenário perturbaria Harry ao extremo, afinal, ele nunca foi um homem de temperamento fácil, então me surpreendeu ver a maneira objetiva com a qual ele lidou com o caso, mesmo sem nunca deixar de lado uma de suas principais características: a incapacidade de não se envolver, de deixar para trás, de não se entregar de corpo e alma ao que faz.

Como sempre nos livros de Nesbø, a história avança sem pressa. Nesse caso em específico, isso se justifica por Harry não ter um compromisso com a polícia. Ninguém está cobrando que o caso seja solucionado, ele está investigando por interesse próprio.

Além da tradicional narrativa em terceira pessoa, acompanhamos a história também pelo ponto de vista de Gusto, o jovem assassinado. Quando a narrativa inicia, Gusto já levou o tiro fatal, mas ainda não morreu e durante esse período repassa a evolução do seu envolvimento com o violino. É através dessa história que podemos entender o que aconteceu com Oleg e como ele mesmo acabou envolvido com drogas, colocando uma nova camada sob um personagem que, até então, era apenas o menino que Harry aprendera a amar como a um filho.

O vício sempre foi uma temática presente nos livros da série, mas “O Fantasma” (curiosamente o livro em que Harry mais tem o alcoolismo sob controle) é aquele em que Nesbø realmente centra a trama no tema. Não apenas acompanhamos a jornada de Gusto e Oleg desde os primeiros passos rumo ao vício e ao tráfico, como também vemos o que o vício movimenta na cidade, como influencia as ambições políticas e como corrompe policiais em busca de lucro e poder.

Também é interessante que Harry, momentaneamente livre do seu vício, se veja na posição de testemunhar o início da queda de uma pessoa amada rumo ao precipício que ele tanto conhece.

“O Fantasma” traz o desfecho mais corajoso da série, deixando em alta as minhas expectativas para o próximo livro “Polícia” (ainda sem previsão de lançamento pela editora Record). Há anos li uma entrevista de Nesbø em que o autor revelava não pretender estender a história de Harry Hole por muitos livros (depois de “O Fantasma” outros dois já foram publicados) e a cada trama fica mais difícil imaginar o que o futuro reserva para o personagem e, mais difícil ainda, vê-lo em uma vida feliz e realizada (o que, diga-se de passagem, é parte do que o torna tão cativante).

Desde que li “Boneco de Neve” espero por histórias eletrizantes quando pego os livros da série, e às vezes bate uma pontinha de decepção por não encontrar isso. Mas essa pontinha logo se dissipa porque mais que uma história que você mal consegue respirar entre uma página e outra, o que Nesbø jamais falha em entregar são histórias bem amarradas, surpreendentes e verossímeis que quando o leitor fecha o livro se sente sempre satisfeito.

Título: O Fantasma
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 461
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

RESENHA: Último Turno

“Assassinato não é controle; assassinato é só assassinato. 
Suicídio é controle.” (KING, 2016, p. 229). 

***

Último Turno é o livro de encerramento da Trilogia Bill Hodges e minhas expectativas para conferir o final da saga não poderiam ser maiores. 

ATENÇÃOa resenha CONTÉM SPOILERS dos livros anteriores da Trilogia Bill Hodges

Faz cinco anos que Brady Hartsfield — o Assassino da Mercedes — está na ala de traumatismo cerebral em estado vegetativo. Entretanto, os rumores no hospital são de que Brady desenvolveu poderes telecinéticos e que seu estado catatônico não passa de fingimento. Enquanto isso, Bill e Holly são convidados a participar da investigação de um suposto caso de assassinato seguido de suicídio e as pistas começam a apontar para um conhecido criminoso, apesar de toda a improbabilidade. 

Preciso confessar que, ao final do segundo livro, quando temos a confirmação de que Brady de fato desenvolveu poderes sobrenaturais, achei que o último livro da saga tinha todos os elementos para ser épico. Afinal, King acrescentaria elementos sobrenaturais neste mundo de investigação policial, unindo o melhor de dois mundos. 

Entretanto, meu problema continuou sendo Brady. Comentei na resenha de Mr. Mercedes e repito agora: a violência perpetrada pelo vilão parece se originar muito mais de sua loucura do que de uma personalidade essencialmente má. E mesmo que agora conte com poderes sobrenaturais e pretenda usá-los para fazer o maior número possível de vítimas, Brady não inspira o mesmo terror que outros antagonistas criados por King. 

Mas o grande acerto de Último Turno é o desenvolvimento das relações do protagonista e seus ajudantes. Ver a forma como as vidas de Bill, Holly e Jerome se entrelaçou e como eles impactaram a vida uns dos outros é um dos pontos altos. Ao investir no desenvolvimento deste arco ao longo da trilogia, King mostrou que apesar de toda a maldade e loucura que há no mundo, são sentimentos como o amor e a amizade que trazem valor e sentido para a vida. 

Como era de se esperar, a narrativa de King é fantástica, rapidamente emergindo o leitor no contexto da estória. A investigação policial é orgânica e convincente, conduzindo o livro em um ritmo constante. As últimas cinquenta páginas que são responsáveis por trazerem uma dose extra de ação e adrenalina, contando com o esperado confronto entre Bill e Brady. 

Ao findar a leitura da série, fiquei me perguntando sobre a necessidade do segundo livro. Isso por que Último Turno se conecta, principalmente, com Mr. Mercedes. Por sua vez, Achados e Perdidos apresenta uma estória própria e independente, contando com a presença quase que acidental de Bill (que, diga-se de passagem, não protagoniza a estória). Assim, cheguei a conclusão que o segundo livro fez o famoso papel de ponte, sendo “necessário” apenas para mostrar o decurso do tempo e o rumo que a vida dos personagens tomou. Apesar de me parecer que a estória de Bill e Brady não dependia do segundo livro para ser contada, registro que Achados e Perdidos foi o meu livro preferido da saga. 

Apesar de não ter sido a combinação explosiva que eu aguardava, Último Turno mantém o padrão dos livros anteriores. Infelizmente, não foi tão memorável quanto poderia ter sido, mas também está longe de ser um livro ruim. 

Título: Último Turno
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 338
Editora: Suma de Letras


 

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