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segunda-feira, 18 de maio de 2015

RESENHA: O Colecionador de Ossos

“O ser humano é imprevisível, mas devemos pensar, antes de qualquer outra coisa, que ele é apenas isso — um ser. Um animar que ri, um animal perigoso, inteligente, assustado, mas que sempre age por uma razão — um motivo que fará com que a criatura se mova na direção de seus desejos.” (DEAVER, 2012, p. 146).

***

Se não me engano, foi nos idos de 2008 que minha cara parceira de blog me indicou o fantástico filme O Colecionador de Ossos, estrelado por Denzel Washington e Angelina Jolie. Quando descobri que o filme havia sido baseado na obra de Jeffery Deaver, sabia que precisava ler o livro o quanto antes, e me surpreendi ainda mais. Desde então, tinha vontade de relê-lo, tanto é que este foi o primeiro livro que fiz questão de escrever na coluna Lista de Releituras

Desde o acidente que o deixou tetraplégico, o brilhante criminalista Lincoln Rhyme vive isolado do resto do mundo. Tudo muda quando a polícia insiste que Rhyme os ajude a capturar um serial killer que sempre deixa na cena do crime pistas sobre seu próximo alvo. Nesse jogo de gato e rato, o criminalista irá contar com a ajuda da patrulheira Amelia Sachs, que será as pernas e olhos de Rhyme. 

Desconheço qualquer outro autor que tenha um domínio tão grande sobre evidências físicas e o processamento de uma cena do crime. Jeffery Deaver sabe sobre o que está falando, de modo que o livro transborda a verossimilhança, dando a impressão de que o leitor está realmente acompanhando uma investigação policial. Mas, ao mesmo tempo em que o amplo conhecimento do autor fica claro, em nenhum momento a narrativa assume o tom de aula ou palestra. 

Outro fator que merece destaque é o ritmo acelerando de O Colecionador de Ossos. Uma vez que você começa a leitura e se vê envolvido no meio de tantas pistas, o desejo do leitor em resolver o mistério é tão grande quanto o dos protagonistas. A meu ver, o livro é um verdadeiro exemplar do gênero policial, pois temos detetives empenhados em um empolgante caçada pelo serial killer, sendo que a tensão protagonista-antagonista é sentida durante toda a leitura. 

E falando em protagonistas, Deaver fez um trabalho simplesmente fantástico com Lincoln Rhyme e Amelia Sachs. Eles não são apenas competentes e dedicados ao trabalho, mas também apresentam uma profunda humanidade, pois enfrentam fantasmas do passado. Ou seja, vemos não apenas a genialidade dos personagens em ação, mas também suas fraquezas. 

Apesar de já ter lido o livro e assistido ao filme inúmero vezes, me surpreendi com o final, mesmo lembrando de quais eram os detalhes fundamentais para o desfecho. E, convenhamos, são poucos os autores que conseguem empolgar o leitor que já sabe qual é a resolução do mistério. 

Para quem assistiu ao filme, asseguro que vale a pena conferir o livro também. Ainda que a adaptação cinematográfica tenha mantido a essência do livro, foram feitas alterações significativas no roteiro, mas que se mostraram completamente justificáveis. Ainda assim, creio que o livro é mais completo e até mesmo mais empolgante. 

Contando com uma jornada eletrizante, altas doses de adrenalina e um final impactante, O Colecionador de Ossos certamente é um dos melhores livros policiais que já li.

Título: O Colecionador de Ossos
Autor: Jeffery Deaver
N.º de páginas: 457
Editora: Best Bolso

sábado, 16 de maio de 2015

RESENHA: Raylan

“Você está me dizendo que é um bosta de um filho da puta (...) Sabe quantos bandidos procurados me olharam desse jeito? Se eu disser uns mil, vou estar dizendo pouco. Alguns fazem uma cara muito feia quando eu ponho as algemas; aí é tarde demais.” (LEONARD, p.37, 2013)

Elmore Leonard é um dos nomes mais importantes da literatura policial norte-americana, tendo recebido diversos prêmios e inúmeras adaptações de suas histórias para o cinema por nomes como Quentin Tarantino e Steven Soderbergh. Como não podia deixar de ser, o autor estava na minha lista há muito tempo e foi ao descobrir que já estava familiarizada com o seu universo graças à serie “Justified” que decidi ler “Raylan”, cujo personagem-título é o protagonista da produção do canal FX.

Raylan Givens é um agente federal que volta a trabalhar em sua cidade natal no estado do Kentucky. Lá ele se depara com os mais diversos tipos de criminosos, como os irmãos Crowe (conhecidos traficantes de drogas que agora traficam também órgãos humanos) e três jovens assaltantes de bancos.

“Raylan” apresenta uma estrutura interessante. É um romance narrado em terceira pessoa, mas que conta com três histórias independentes que se unem umas às outras, dando início a uma nova quando a anterior está prestes a terminar. Isso porque o livro gira em torno de três casos distintos: o do trafico de órgãos, o da mineradora e o das assaltantes de banco (que, por sua vez, se entrelaça com a história de uma moça envolvida com apostas), todos com início, meio e fim, o que faz com que o livro soe, de certa forma, como um livro de contos, cujo tema em comum é o lugar onde ocorrem e o envolvimento de Raylan Givens.

Devido a isso, é difícil analisar a trama como um todo. Se por um lado essa transição dá verossimilhança ao livro, visto que ocorre com muita naturalidade e é de se esperar que um agente como Raylan tenha um caso após o outro, ela também torna difícil o envolvimento com os casos porque quando um começa a ficar interessante, ele logo se torna outro. Embora seja realista, acaba não empolgando. A história do tráfico de órgãos tem a melhor das premissas, mas é pouco explorada, visto que sabemos tudo sobre os crimes e apenas esperamos Raylan resolver o caso. A da mineradora, por sua vez, é a mais sem atrativos, tendo como mérito a participação de Boyd Crowder e a ambientação do lugar onde Raylan vive, sendo a história que melhor apresenta essa realidade, já que os outros casos poderiam acontecer praticamente em qualquer lugar. Por fim, a história dos assaltos e da apostadora é a mais interessante por ser a mais imprevisível, mas ainda assim não traz grandes surpresas. Assim, o atrativo do livro não são os casos propriamente ditos, mas a oportunidade de se passar um tempo na companhia de Raylan Givens.

E existem razões para se querer isso, já que Raylan é um ótimo personagem. Durão, irônico, correto e (muito) rápido no gatilho, Raylan é uma espécie de cowboy moderno (o que, provavelmente, seja uma influência dos primeiros trabalhos de Leonard, que estreou na literatura escrevendo westerns), não é à toa que o autor dedicou a ele diversas histórias. Sua primeira aparição foi no conto “Fire in the Hole” que foi a base para “Justified” e foi devido à receptividade da série que Leonard deu ao personagem o romance “Raylan”. Lendo, lembrei da primeira cena em que vemos o personagem na série e como com simplicidade ela nos mostra toda a sua essência. Em uma conversa com um criminoso, ele não pensa duas vezes e atira, matando, antes que o criminoso atire nele. Quando lhe perguntam sobre o tiro, ele diz: “Foi justificado”. Esse é Raylan Givens: alguém que não pensa duas vezes antes de fazer o que é certo, seja o que for.

Outro aspecto que merece destaque é o fato de todas as histórias contarem com algum tipo de mulher fatal. Mas, como sempre, o melhor vem de Raylan e da maneira como lida com cada uma delas.

Elmore Leonard usa de diálogos rápidos e afiados e uma narrativa que parece dizer “não tenho tempo a perder com bobagens” contando os eventos rapidamente. Não sei se essa é uma característica constante na obra do autor, mas funciona bem em “Raylan” sendo até um reflexo da personalidade do protagonista.

Quanto à “Justified”, minha experiência com a série nunca foi completamente satisfatória. Assisti as três primeiras temporadas pelos personagens e pelo pano de fundo que sempre foi interessante, mas eventualmente deixei de acompanhar porque sentia falta de algo que me empolgasse e me fizesse ansiar por um novo episódio (embora parecesse estar sempre prestes a isso). Curiosamente, minha experiência com o livro foi parecida. Vejo em “Raylan” uma essência rica (tanto pela atmosfera, quanto pelas pequenas tramas e personagens) e um desenvolvimento que não deixa a desejar, mas falta algo para empolgar de verdade. Por enquanto Elmore Leonard continua na minha lista. Na próxima vez, pretendo conferir um dos seus contos.

Título: Raylan (exemplar cedido pela editora)
Autor: Elmore Leonard
Nº de páginas: 256
Editora: Companhia das Letras

sábado, 11 de abril de 2015

RESENHA: A Noiva Estava de Preto

“Você já se deu conta de que, mesmo que esses homens ainda estivessem vivos, eles próprios não conseguiriam nos ajudar a descobrir quem ela é ou a esclarecer seu motivo, pois eles próprios não a conheciam?” (WOOLRICH, p.68, 2007)

Desde que li “Janela Indiscreta e outras histórias” quis conferir um romance de Cornell Woolrich. Na verdade, gostei tanto dos contos do autor (em quem, até aquele momento, eu nunca havia ouvido falar) que aceitaria ler qualquer coisa sob a sua assinatura.

Quatro homens são assassinados. Não só as armas e os lugares são diferentes como as vítimas não parecem ter nada em comum, a não ser o fato de que, na ocasião das quatro mortes, uma bela mulher – que parece ter surgido do nada e que ninguém nunca viu antes – desapareceu sem deixar vestígios.

O livro é narrado em terceira pessoa e dividido em cinco partes, sendo cada uma delas divididas em outras três: a mulher, a vítima, e o post mortem da vítima. Mesmo ficando claro desde o começo que a história segue um molde, em nenhum momento ela se torna monótona por termos uma noção do que vem pela frente. Pelo contrário. É admirável como Woolrich consegue fazer suspense escancarando nas primeiras páginas quase todas as verdades que outros autores tendem a guardar para seus desfechos. Já sabemos quem é a assassina, como ela mata e quem serão as suas vítimas (já que cada capítulo é dedicado a uma delas). Sabemos que a cada capítulo seremos apresentados primeiro a ela e a como ela adentrará na vida do sujeito, depois ao homem e ao encontro fatal (inclusive assistindo o crime ser cometido) e, por fim, veremos a morte ser investigada, para no capítulo seguinte vermos tudo de novo com outro homem. Assim, Woolrich deixa claro que optou por eliminar as surpresas, mas manter o leitor na expectativa de descobrir uma resposta: qual a motivação desta mulher? A cada nova vítima, vemos os casos ficarem mais detalhados, mas é só nas últimas páginas que o autor entrega a resposta e mesmo parecendo que não há espaço para reviravoltas, consegue surpreender.

Eu sempre tive uma queda por bons vilões e acho boas vilãs ainda mais fascinantes (talvez por serem tão raras) e não demorou muito para que eu passasse a admirar a capacidade dessa mulher de se transformar e escapar impune de seus crimes sem deixar vestígios (confesso até que suas vitórias me faziam sorrir). Todo romance policial noir que se preze tem uma femme fatale marcante, mas a de Woolrich (que atende por tantos nomes e características físicas diferentes neste livro) é uma das melhores com que já me deparei e já cativa o leitor nas primeiras páginas quando o deixa intrigado sobre quem ela é, o que deixou para trás, e o que a move.

Não resta dúvida que a vilã é o destaque da trama, mas as vítimas também se revelam escolhas interessantes já que parecem ser homens comuns que não teriam porque serem alvo de assassinato.

Embora “A Noiva Estava de Preto” não tenha o ritmo intenso nem as reviravoltas que tanto me cativaram em “Janela Indiscreta e outras histórias”, fiquei satisfeita com o livro. Em tempos em que a literatura policial contemporânea tem me decepcionado tanto, fico cada vez mais satisfeita em beber das fontes e conhecer os autores que marcaram seus nomes no gênero.

O mesmo se aplica aos filmes, por isso fiquei empolgada ao saber que, em 1968, “A Noiva Estava de Preto” ganhou as telas de cinema sob a direção de François Truffaut, com Jeanne Moreau no papel principal. O filme não é uma adaptação totalmente fiel, já que altera detalhes da motivação da mulher e da condução da investigação (que quase não ganha espaço nas telas). Mais de uma vez durante a leitura pensei o quanto esse suspense escancarado, mas ainda assim misterioso, teria dado um ótimo filme nas mãos de Alfred Hitchcock (que comandou outra adaptação de Woolrich ,“Janela Indiscreta” – um dos seus melhores filmes, na minha opinião). Após assistir a adaptação de Truffaut, continuei imaginando como seria uma versão de Hitchcock, já que a do diretor francês não me agradou tanto. Curiosamente, o filme foi uma espécie de homenagem de Truffaut a Hitchcock já que um ano antes Truffaut havia lançado um livro baseado em uma extensa entrevista (composta de 500 perguntas) que fizera com o eterno Mestre do Suspense. Não foi à toa que o diretor francês escolheu um livro cujo autor já havia sido adaptado por Hitchcock. “Hitchcock/ Truffaut: entrevistas” também foi publicado pela Editora Companhia das Letras.

Sempre gostei da vertente noir da literatura policial e estou inclinada a acreditar que Cornell Woolrich seja um de seus melhores autores. “A Noiva Estava de Preto” foi a minha segunda experiência com o autor e não superou a primeira, mas depois dela, continuo querendo conferir qualquer coisa que ele tenha escrito.

Título: A Noiva Estava de Preto (exemplar cedido pela editora)
Autor: Cornell Woolrich
Nº de páginas: 213
Editora: Companhia das Letras

domingo, 22 de fevereiro de 2015

RESENHA: A Cabeça de Um Homem

“Ia até lá sem objetivo preciso, ou antes, com a esperança de que o acaso o fizesse descobrir um detalhe que lhe houvesse escapado, ou que a atmosfera provocasse uma inspiração.” (SIMENON, 2014, p. 89). 

***

Depois de ouvir minha cara colega de blog tanto elogiar Georges Simenon — por ela considerado um dos autores que compõe a trinca de ouro da literatura policial, ao lado de Agatha Christie e Raymond Chandler —, percebi que estava na hora de criar vergonha na cara e conhecer o Comissário Maigret. 

Joseph Heurtin foi condenado a morte pelo brutal assassinato da Sra. Henderson e de sua criada. Mas antes de sua execução, Maigret percebe que aquele homem talvez não seja o culpado. Com esta ideia fixa em sua mente, o comissário fará tudo o que estiver a seu alcance para descobrir a verdade e impedir uma injustiça. 

A narrativa de Simenon é fluída e o leitor rapidamente emerge na trama para investigar o crime ao lado de Maigret. Entretanto, me chamou a atenção que o livro possui uma estrutura bastante linear e não conta com as reviravoltas e o suspense que o leitor está acostumado a encontrar em livros policiais. 

Se julgasse Maigret com base apenas neste livro, diria que ele é um tanto presunçoso, que acha que o distintivo lhe dá direito de fazer o que bem entender, que se vê melhor que seus parceiros e outros funcionários do sistema judiciário. Porém, me dei conta que afirmações semelhantes poderiam ser feitas sobre Hercule Poirot, detetive de Agatha Christie, que a primeira vista parece ser a personificação da arrogância. Poirot é tão seguro de si que já largou pérolas como “sou o mais verdadeiro dos detetives de verdade” e “Eu sou melhor do que a polícia”, que poderiam facilmente ser má interpretadas pelo leitor que não conhece o personagem a fundo. Para aqueles que já estão mais familiarizados com o detetive belga, tais frases arrancam gargalhadas, pois entendem a excentricidade do personagem e sabem que isso não é arrogância. 

Da mesma forma, fica claro que o primeiro contato não é o suficiente para conhecer devidamente o protagonista e entender sua personalidade, manias e métodos de investigação. Ao findar da leitura, me pareceu que todas as suas ações, na verdade, buscavam assegurar o cumprimento da justiça, e se agia de uma forma que me desagradava, era por que a cabeça de um homem estava em jogo. 

Mas o que realmente brilhou foi o antagonista da estória, tão genial, manipulador e maquiavélico, que trouxe um novo fôlego para o desfecho da trama, que traz o embate entre ele e Maigret, em um interessante jogo de gato e rato. 

Embora não tenha me empolgado tanto quanto gostaria, o final impecável certamente me fez desejar ler outros livros de Simenon para descobrir o que mais o autor é capaz de fazer. 

Título: A Cabeça de Um Homem (exemplar cedido pela editora)
Autor: Geroges Simenon
N.º de páginas: 145
Editora: Companhia das Letras

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

RESENHA: O Sol Desvelado

“Estava preso em Solaria pelas necessidades de sua missão. Estava preso pelo perigo que espreitava a Terra, preso em um ambiente que mal podia suportar, preso por uma responsabilidade da qual não podia fugir. E, além de tudo isso, estava preso, de certo modo, no meio de um conflito Sideral cuja natureza não entendia.” (ASIMOV, 2014, p. 67)

Isaac Asmiv foi meu primeiro contato com a ficção cientifica. Quando descobri “O Sol Desvelado”, a ideia de ficção científica unida a uma trama policial me deixou ansiosa para conferir outro livro assinado pelo autor.

Elijah Baley é um detetive terráqueo enviado para Solária – um planeta Sideral de 20 mil habitantes e 10 mil robôs por habitante – para solucionar um assassinato, o primeiro do planeta em dois séculos. Sua primeira dificuldade é enfrentar o medo de espaços abertos. A segunda, o crime em si. Se a vítima vivia isolada e acesso a ela só era concedido a sua esposa, então seria ela a responsável pelo golpe fatal como todos insistem em acreditar mesmo sem provas? Ou teria o robô encontrado na cena transgredido a primeira lei da robótica e ferido um ser humano? Para solucionar o mistério, Baley conta com a ajuda de seu parceiro, o robô R. Daneel Olivaw.

Asimov acerta em apresentar o ambiente de ficção cientifica e dar tempo para que o leitor se habitue a ele antes de iniciar a trama policial. Ainda assim, durante as cem primeiras páginas, receei que “O Sol Desvelado” se tornasse uma decepção já que experimentei certa dificuldade em me conectar com a narrativa. Aos poucos isso se perdeu e quando percebi estava completamente envolvida com a leitura.

Entre Solaria e a Terra, o autor mostra duas realidades opostas. Na primeira (onde se passa a história), as pessoas vivem isoladas, cada uma em sua mansão, com um exército de robôs particulares. Na segunda (de onde parte o protagonista), se vive “no lugar menos formidável da galáxia” dividindo as ruas com multidões, beirando a superpopulação. Em Solaria, o contato entre humanos é quase todo virtual já que contatos presenciais são uma espécie de tabu, algo típico de animais (afinal, quem precisa de pessoas quando os robôs dão conta de tudo?). Na Terra, o que não existe é contato com o ar livre, assim, sol, dia e noite, não têm interferência na vida dos habitantes. Esse choque de realidades é uma das coisas interessantes do livro.

Algo que me encanta são os desdobramentos das Três Leis da Robótica, com as quais já havia tido contato em “Eu, Robô”. Aparentemente as leis são simples, mas Asimov consegue esmiuçá-las de maneiras que sempre me surpreendem, recheando a trama de detalhes. Robôs jamais poderiam fazer cirurgias, já que cortar um ser humano, mesmo para salvá-lo, é feri-lo. Robôs não são capazes de disciplinar crianças, afinal, elas podem dar ordens que eles serão obrigados a cumprir devido à segunda lei. As Três Leis são a base sobre a qual essa história – e outras de Asimov – se constrói já que a sociedade organizou sua vida com base nas habilidades dos robôs e em sua confiança neles, até que é chegado um ponto que se torna impossível viver sem eles. É a partir das Três Leis que se estabelece a função e a importância dos robôs e delas que se estabelece o modo de vida.

Em “O Sol Desvelado” temos uma trama essencialmente policial cercada por contornos de ficção cientifica. Assim, o livro é sobre a investigação de um assassinato que se torna misterioso devido ao isolamento em que a vítima vivia. Asimov não é o primeiro a usar o tema. Phillip K.Dick e Ray Bradbury são alguns dos que também já desenharam cenários em que o mundo virtual substitui as relações de carne e osso, fazendo do isolamento do homem e da substituição do contato humano por máquinas um dos temas mais frequentes da ficção científica. Esses autores escreveram suas obras há 50, 60 anos. Hoje, vivemos em mundo em que um prato apetitoso é servido em um restaurante e a primeira coisa que se faz é tirar uma foto e postar no Instagram, porque, por vezes, nossas vidas parecem acontecer mais nas telas do que ao nosso redor. Além da perda de contato, o autor questiona também o ócio a que os humanos se dispõem a partir do momento em que há uma máquina para fazer tudo que precisam.

Os personagens são desenvolvidos para cumprir sua função dentro da trama e exemplificar comportamentos. O protagonista representa o terráqueo que parte rumo ao desconhecido com uma missão. Seu parceiro, um robô que engana como humano, é um elo entre ele e os seres mais desenvolvidos. A vítima, um homem rígido da ciência, um “bom solariano”; e sua esposa, a mulher que não se encaixa a sociedade. Não considero nenhum deles cativantes por suas personalidades, mas em um livro como esse a simpatia fica mesmo em segundo plano. Acredito que o mais importante seja o conjunto que se forma a partir do que cada personagem representa. É através deles e plantando pequenas pistas e conceitos ao longo do livro, que Asimov encerra juntando todos os elementos em um desfecho nada menos que genial que satisfaz tanto no quesito história policial, como no história de ficção científica e ainda leva o leitor à refletir.

“O Sol Desvelado” é o segundo livro da “Série dos Robôs”, precedido por “Cavernas de Aço”. Apesar de fazerem parte de uma série, as histórias não parecem ser interdependentes. Sua relação está no mundo em que se situam e na dupla protagonista, Baley e Daneel.

Título: O Sol Desvelado (exemplar cedido pela editora)
Autor: Isaac Asimov
Nº de páginas: 286
Editora: Aleph

domingo, 8 de fevereiro de 2015

RESENHA: O Cavalo Amarelo

“Só existem duas coisas que as pessoas querem desesperadamente, a ponto de correrem o risco de serem condenadas. A poção do amor e o cálice de veneno.” (CHRISTIE, 2013, p.79)

Uma mulher doente chama um padre para se confessar dizendo que precisa revelar algo terrível antes de morrer. Da confissão, o padre sai com uma lista de nomes, mas antes que possa fazer qualquer coisa com ela é assassinado. Tão misteriosa quanto a morte de um padre bem quisto por todos na comunidade, são as inúmeras pessoas que têm adoecido sem explicação e morrido de uma hora para a outra. Todos esses eventos podem estar relacionados às três mulheres que vivem na antiga hospedaria Cavalo Amarelo e que dizem ter poderes paranormais.

“O Cavalo Amarelo” é um livro que não conta com a participação de nenhum dos personagens mais conhecidos dos leitores de Agatha Christie (apenas rápidas aparições da escritora Ariadne Oliver). Ao invés de Hercule Poirot, Miss Marple ou Tommy e Tupance, quem protagoniza e narra a maior parte desta história é Mark Easterbrook, um escritor que não tem se sentido muito inspirado a trabalhar em seu livro e se envolve na investigação das mortes da lista.

Algo que diferencia este da maioria dos livros de Agatha Christie é a tentativa da autora de flertar com o sobrenatural. Tendo sido escrito em 1961, quando Agatha já tinha 71 anos e mais de 60 livros no currículo, é de se compreender que a autora quisesse tentar algo novo (tendo a certeza de que, mesmo se desse errado, não seria isso que mancharia seu legado). Assim, Agatha pega elementos como feitiçaria e credulidade e usa à la Agatha Christie. Com isso, não entrega para o leitor o seu melhor livro, mas ainda assim uma aventura divertida.

Essa não é a história de um assassinato intricado, com vários suspeitos e pistas camufladas, perfeita para que o leitor brinque de detetive e tente desvendar o mistério antes que a Dama do Crime o revele para ele. Talvez seja justamente por não ser um tradicional romance de Agatha Christie que esse livro não tenha me empolgado como os livros da autora costumam empolgar. Mas, de qualquer forma, é um livro que mostra que se tem alguém que sabe adaptar qualquer pano de fundo para se adequar às suas características, esse alguém é Agatha Christie. Eventualmente, a autora deixa claro que o sobrenatural nada mais é do que um disfarce das ações humanas, um desvio de atenção. Pensando bem, talvez todo livro da autora tenha um quê sobrenatural. Afinal, não é exatamente isso que ela faz com os seus leitores? Manipular os elementos a fim de desviar a atenção de suas ações como contadora de histórias?

Título: O Cavalo Amarelo
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 250
Editora: L&PM

sábado, 17 de janeiro de 2015

RESENHA: O Enforcado de Saint-Pholien

“Nas cenas que seguiram, tudo se revestiu de importância, as palavras, os silêncios, os olhares e até os espasmos involuntários dos músculos. Tudo ganhou sentido e, por trás dos personagens, pressentia-se alguma coisa lívida, o vulto imaterial do medo.” (SIMENON, 2014, p.105).

Não são as sinopses que me fazem ler os livros de Simenon, mas sim seu nome – e o do comissário Maigret – na capa. Porém, estando familiarizada com o personagem mais famoso do autor, fui fisgada pela sinopse de “O Enforcado de Saint-Pholien” por acreditar que a premissa era das mais interessantes para ser vivida por Maigret.

Durante uma viagem fora de suas obrigações oficiais como comissário de polícia, Jules Maigret acidentalmente contribuiu para o suicídio de um homem. O desespero que levou o homem ao ato extremo de tirar a própria vida está relacionado ao conteúdo de uma maleta: um terno velho, esfarrapado e com vestígios de sangue. Movido pelo remorso, Maigret inicia uma investigação extraoficial para saber quais as circunstâncias que levaram o homem ao suicídio.

Já disse em outras resenhas que considero Maigret o detetive mais humano da literatura policial clássica. Isso porque, diferente de personagens como Hercule Poirot, Sherlock Holmes, ou mesmo Phillip Marlowe, o comissário se importa com as pessoas que surgem em meio a sua investigação, mesmo que elas sejam criminosas. Para Maigret, mais importante que quem cometeu o crime é porquê essa pessoa sentiu a necessidade de cometer tal crime (não é por acaso que na maioria das histórias de Simenon a identidade do criminoso não é um mistério para o leitor). É por conhecer a capacidade de empatia do personagem e por imaginar sua reação ao perceber que teve influencia na morte de outra pessoa que apostei nessa leitura.

Como todas as obras de Simenon, “O Enforcado de Saint-Pholien” é um livro curto que capta a atenção do leitor já nas primeiras páginas. O ritmo da narrativa é ágil, porém nada apressado.

Nesse livro, Maigret não investiga por obrigação e sim por remorso e curiosidade. Assim, todos os caminhos são trilhados por ele, quase sem ajuda de seus colegas e subordinados da Polícia Judiciária.

O comissário viu o suicídio com seus próprios olhos e, pela maneira como ocorreu, sabe que não foi uma decisão planejada. Mas ele não sabe quem era aquele homem, o que fazia e, principalmente, porque usava um nome falso. Ao melhor estilo Simenon, toda a trama se constrói ao redor do mistério de porque as pessoas fazem o que fazem e o que em suas vidas as levaram a chegar ali. Um estranho que surge no caminho do comissário no necrotério, e que parece estar sempre um passo à sua frente em qualquer direção que tome, acaba por conduzi-lo ao passado do suicida onde estão as respostas.

Tendo criado um detetive tão singular na literatura policial, Simenon acabou por escrever livros que, muitas vezes, fogem das regras do gênero. Nas aventuras de Maigret, suspeitos podem sim ser inseridos nas últimas páginas e o leitor não precisa ter todos os elementos disponíveis para chegar à mesma conclusão que o detetive. Isso porque o leitor não quer brincar de detetive e sim compreender a história daqueles personagens (à semelhança do que ocorre com o próprio Maigret). Seria até fácil esquecer que você está lendo uma trama policial se não fosse o fato de que ela gira em torno de uma morte. É isso que acontece com “O Enforcado de Saint-Pholien”, uma trama tão boa como qualquer outra desse autor que continua a nunca me decepcionar.

Título: O Enforcado de Saint-Pholien (exemplar cedido pela editora)
Autor: Georges Simenon
Nº de páginas: 135
Editora: Companhia das Letras

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

RESENHA: O Bicho-da-Seda

“Não se pode tramar um homicídio como um romance. Sempre ficam pontas soltas na vida real.” (GALBRAITH, p. 385, 2014)

Se você nunca leu determinado autor, você não tem como prever o que lhe espera. Quando li “O Chamado do Cuco”, ciente de quem estava por trás das palavras de Robert Galbraith, eu esperava um livro ágil e impossível de largar e demorei a perceber que não era isso que eu tinha em mãos (e só depois disso é que fui capaz de apreciá-lo). Para “O Bicho-da-Seda”, minha segunda experiência com o detetive Cormoran Strike, minha expectativas foram ajustadas.

O escritor Owen Quine já desapareceu muitas vezes. Na maioria delas foi encontrado em hotéis, com outras mulheres, ou simplesmente voltou para casa da mesma maneira que saiu. Mas dessa vez sua esposa sente que a situação é diferente e procura o detetive Cormoran Strike, evitando chamar a polícia devido ao histórico do marido. Quando Strike começa a investigação, ele percebe que o desaparecimento está ligado ao polêmico “Bombyx Mori”, manuscrito recém terminado de Quine que humilhava praticamente todos os seus conhecidos, inclusive sua esposa, seus amigos, sua agente e seus editores. Quando Quine é encontrado assassinado em uma cena que recria uma das muitas passagens repugnantes de seu livro, Strike vê o rumo da investigação mudar e o colocar no encalço de um assassino capaz de atos inimagináveis de violência.

Tendo lido os dois livros protagonizados por Cormoran Strike, acredito que o maior mérito da série seja a naturalidade das investigações. Priorizando a veracidade da jornada do detetive, Galbraith apresenta uma história que caminha lenta e que pede de seu leitor paciência para encontrar as respostas e ânimo para apreciar a caminhada. Algo como: “Fique confortável e venha comigo”, mas com a promessa de “Eu não vou decepcioná-lo”. A evolução é lenta e não são poucos os momentos em que o livro não empolga, mas qualquer ressalva que pode ter havido durante a leitura se dissipa no final, momento em que as peças se encaixam, com uma revelação ao melhor estilo Agatha Christie, do tipo que faz o leitor exclamar “como eu não percebi isso antes?” e terminar a leitura com um sorriso no rosto. A promessa, então, se cumpre.

Inteligente e articulada, a trama gira em torno não apenas do que aconteceu com Owen Quine, mas (arrisco dizer até principalmente) de quem ele era, como as pessoas o viam e porquê escreveu tal livro, algo que acho muito mais interessante. Quem cometeu o crime e porquê é a essência da maioria dos livros policiais, mas nem sempre podemos acompanhar uma jornada em que a vítima é desvendada aos poucos, parecendo cada vez mais detestável, ao mesmo tempo em que se torna muito difícil dizer que ela teve o que merecia.

Ainda prezando a naturalidade, “O Bicho-da-Seda” não apresenta suspeitos óbvios, já que ninguém pode ser associado àquele crime de maneira simples. O caso que aos poucos se revela para Strike é bizarro, mas sua investigação e os suspeitos não são. Além disso, existem milhares de variáveis a serem consideradas. Uma descoberta não elimina a seguinte, mas não parece se somar a ela. A questão é: todos teriam motivos para querer matar Quine, mas ninguém parece ser capaz de fazê-lo.

A história se desenrola em três núcleos: a investigação, a vida de Strike e a vida de Robin (a assistente do detetive). Todos bem dosados, em especial quando se aprecia o fato de que Strike e Robin são os protagonistas de uma série e que ambos estão em evolução. É fácil ver que Gailbraith já conhece esses personagens muito além do que permite ao leitor conhecer e que guarda triunfos que serão usados posteriormente, quando tiver o caso certo para apresentar esses elementos sobre suas vidas pessoais. Entre eles, o passado no exército de Strike e seu pai roqueiro. Robin ainda luta para conquistar seu espaço no escritório do detetive e, consequentemente, nas páginas, mas continua se mostrando uma personagem cativante e cheia de qualidades a serem exploradas. É essa expectativa que me impele a continuar lendo a série. Eu quero saber mais sobre Strike, quero saber mais sobre Robin. Sobre o passado e o futuro de ambos e, no meio tempo, acredito que vou gostar de acompanhar suas investigações.

“O Bicho-da-Seda” também traz as consequências de “O Chamado do Cuco”. Depois do caso Lula Landry, Strike ganhou certa fama e tem um volume maior de trabalho (mesmo que a maioria de seus clientes apenas desconfie de infidelidade). Uma coisa que pode desanimar alguns leitores é o fato de que esses casos de menor (ou nenhuma) importância também ganham espaço, mas a escolha de Galbraith é compreensível, afinal um detetive não abandona todos os seus clientes no momento em que aceita um novo. Gradativamente, conforme o caso Quine se torna mais complexo, ele passa a merecer uma atenção mais exclusiva de Strike.

Acredito que “O Bicho-da-Seda” seja um livro bem planejado e bem executado. Pode não ser eletrizante, mas é impossível não reconhecer suas qualidades, em especial seus protagonistas e a resposta do mistério. A meu ver, é um livro capaz conquistar o mesmo número de leitores que pode ser capaz de decepcionar. Não posso dizer que fui completamente conquistada, mas acredito que a série ainda me reserva isso.

Título: O Bicho-da-Seda (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Robert Galbraith
Tradutora: Ryta Vinagre
Nº de páginas: 463
Editora: Rocco

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

RESENHA: Caçada Mortal

“Ele a havia matado por dinheiro. Sempre vi esse como um motivo fútil para assassinar, porém, talvez desse pouca importância ao dinheiro e importância demais à vida. Mas é, devo dizer, um motivo melhor para matar do que diversão.” (BLOCK, 2014, p. 227)

Há alguns anos descobri Lawrence Block por acaso e desde lá leio qualquer um dos seus livros sem me preocupar com sinopses. Até hoje não me decepcionei.

Matt Scudder está entediado, há tempos sem um caso para se ocupar, quando um conhecido das reuniões dos Alcoólicos Anônimos pede a sua ajuda. A cunhada, esposa do traficante de drogas Kenan Khoury, foi sequestrada e mesmo com o resgate pago, ela não votou com vida e sim esquartejada. Khoury quer localizar os responsáveis e ao menos descobrir o motivo que levou à morte de sua esposa, mas o que Scudder descobre é que ela não foi a primeira vítima desses criminosos que não apenas estupram e matam suas vítimas como as mutilam ainda em vida.

Para muitas pessoas existe a equívoca impressão de que um livro policial para ser bom precisa ser repleto de reviravoltas. Em geral, eu concordaria, afinal, que graça tem ler um livro que você sabe exatamente como vai terminar? Mas Lawrence Block existe para provar que é possível escrever boas tramas policiais sem depender demais de reviravoltas e dando um rumo mais orgânico à investigação.

Em “Caçada Mortal” o autor apresenta, mais uma vez, uma premissa simples, mas entretém o leitor porque ele sabe muito bem como contá-la. Você não fica desesperado para saber o que está acontecendo, mas não sente vontade de largar o livro. A leitura flui com a mesma naturalidade com que Scudder investiga o caso.

Personagem mais famoso de Block, Matt Scudder é um ex-policial que trabalha como detetive particular não licenciado. Scudder trabalha eventualmente - mais porque gosta de ter o que fazer do que porque precisa -, mas quando pega um caso, mergulha nele completamente e usa todos os seus recursos em favor do cliente Embora não eu ache Scudder um personagem necessariamente carismático, gosto do ex-policial e até reconheço nele uma espécie de cruzamento entre Phillip Marlowe e Harry Hole (dois detetives que adoro). Algo que me agrada bastante, é que Scudder nunca é o mesmo em todos os livros. Diferente dos detetives clássicos, como Sherlock Holmes ou Hercule Poirot, que estão nas tramas para investigar os crimes e que reprisam seus papéis mais ou menos da mesma forma em todos os casos, Scudder tem uma vida fora da trama policial e essa vida tem fases diferentes. Justamente por isso, personagens que ele conhece em casos passados tendem a reaparecer em casos posteriores já que não saíram de sua vida. Um desses é Mick Ballou, que conheceu em “Na Linha de Frente” e que volta e meia ressurge ou é mencionado; Elaine, sua namorada, com quem mantém um relacionamento que já teve vários estágios. Desconfio que TJ (o adolescente “criativo” que mora nas ruas e que o auxilia nesta investigação) também seja alguém que surgiu no caminho de Scudder em algum dos livros anteriores.

É interessante ver como as tramas de Block colocam certas coisas em perspectiva. Em “Caçada Mortal” os traficantes são as vítimas de criminosos sádicos, as atitudes de um viciado são vistas pelos olhos de outro viciado que não as justifica, mas as compreende; os relacionamentos são valorizados pelo que uma pessoa significa para outra e o que as duas mantém juntas independente das circunstâncias (Elaine, a namorada que se tornará esposa de Scudder em livros posteriores, é uma garota de programa e Mike Ballou, seu amigo, já foi um criminoso lendário).

No geral a trama funciona. Scudder inicia uma investigação que não tem nenhuma urgência (afinal, não se trata de salvar ninguém nem necessariamente de levar os criminosos à justiça, já que o cliente não costuma envolver a polícia em seus assuntos) que aos poucos se revela mais ampla conforme ele descobre que a esposa do traficante não foi uma vítima isolada e que os criminosos fazem atrocidades com todas. Ainda assim, o final me desapontou um pouco. Elaborei várias teorias durante a leitura, mas não só nenhuma delas estava certa como o autor escolheu uma resolução que achei muito simples. Não é ruim, mas eu esperava mais. De qualquer forma, Lawrence Block nunca foi um autor que se lê pela resposta na última página e sim pela jornada e essa não desaponta.

Lançado há mais de 20 anos, “Caçada Mortal” é o segundo caso de Scudder a ser levado para as telas. Uma pena é que com isso esta edição perdeu o ótimo título original “A walk among the thumbstones” (algo como “Uma caminhada entre lápides”) para o título clichê que a adaptação cinematográfica recebeu ao ser traduzido para o português. Nas telas, é o sempre competente Liam Neeson que dá vida a Mathew Scudder. Uma escolha que nunca havia me ocorrido, mas que aprovei. Eliminando algumas coisas, o filme conseguiu manter-se bastante fiel ao livro e ainda mostrar a razão que levou Scudder a sair da polícia e a querer parar de beber há anos.

Distanciando-se de tramas mirabolantes, Lawrence Block faz apostas seguras, não porque fiquem no lugar comum, mas porque o autor confia em sua habilidade de contar a história de forma que impulsione seu leitor. Simples, e eficiente, assim.

Título: Caçada Mortal (exemplar cedido pela editora)
Autor: Lawrence Block
Nº de páginas: 367
Editora: Record

sábado, 13 de dezembro de 2014

RESENHA: Por Onde Você Anda?

“O que aconteceu com ele? Por que desapareceu? Não houve nenhum sinal de violência. Seus cartões de crédito não foram utilizados. Seu carro estava na garagem perto do apartamento. Ninguém com sua descrição física apareceu no necrotério, embora, no começo, minha mãe e meu pai tenham sido chamados algumas vezes para olhar o corpo de um ou outro jovem sem documentos que fora retirado do rio ou morto em algum acidente.” (CLARK, 2014, p. 12).

***

Mack desapareceu há dez anos e ninguém sabe o que aconteceu com ele. Diversas possibilidades foram cogitadas pela família, desde sequestro a perda de memória. Para a polícia, o desaparecimento de Mack é voluntário, visto que este liga todos os anos durante o dia das mães, de modo que não há razão para investigar. Carolyn, irmã de Mack, já não aguenta mais viver neste mundo de incerteza, e decide que chegou a hora de encontrá-lo. Entretanto, suas investigações acabam fazendo com o que o irmão se torne o principal suspeito do sequestro de uma jovem.

Embora a premissa seja interessante e o desfecho tenha mostrado toda a criatividade da autora, creio que faltou habilidade na hora de executar uma ideia que tinha tudo para dar certo, mas que não deu. 

O primeiro problema é a constante alteração de pontos de vista, recurso este que, quando usado corretamente, mantém o leitor preso a leitura. Entretanto, ao picotar a narrativa entre mais de dez pontos de vistas, alguns narrados em primeira pessoa outros em terceira, o leitor não consegue se conectar com nenhum personagem. Além disso, o ritmo da estória também é afetado, afinal, mostrar o que acontecia com todos os núcleos da estória em todos os momentos, a tornou, inevitavelmente, mais lenta. 

Além disso, os diálogos da autora não me agradaram, pois pareceram extremamente artificiais e até mesmo mecânicos. Independentemente de quem era o personagem, de sua personalidade ou do contexto da cena, o diálogo tinha sempre o mesmo tom, não conseguindo refletir a identidade de seu interlocutor. 

O núcleo policial da estória tampouco me convenceu. Os detetives encarregados, além de não possuírem carisma, simplesmente não convencem no papel, nem na condução da investigação. Mesmo que nos agradecimentos do livro a autora mencione a consultoria prestada por policiais aposentados, minha impressão era de que Clark não tinha o necessário conhecimento sobre o procedimento investigativo, tampouco de seu aspecto legal. 

Catheryn é uma das personagens mais incoerentes que encontrei na ficção policial. Após dez anos do sumiço do irmão, ela simplesmente decide que aquela era hora de encontrá-lo, custasse o que custasse, sem apresentar uma motivação convincente para isso. Minha indignação atingiu o ápice quando ela, ao ser intimada para fornecer determinado documento à polícia, liga para o advogado para confirmar se está é a melhor opção, sendo que ela mesma é formada em direito, trabalhou com assessora de juiz e inclusive chegou a se apresentar como uma “advogada das boas”. Convenhamos que não é preciso ser um "advogado dos bons" para saber que, ao ser intimado, a única opção é obedecer a ordem judicial.  

Apesar dos pesares, os capítulos curtos tornam a leitura dinâmica e a ideia central do livro é realmente interessante, sendo que o final é surpreendente. Então, se você deseja uma leitura descompromissada, Por onde você anda? talvez seja uma boa opção. 

Título: Por Onde Você Anda? (exemplar cedido pela editora)
Autora: Mary Higgins Clark
N.º de páginas: 351
Editora: Record 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

RESENHA: O Leopardo

“Prisioneiro do próprio padrão comportamental, cada movimento uma ação compulsiva. Nesse aspecto, ele não era melhor nem pior do que aqueles que perseguia.” (NESBO, 2014, p.233)

Já comentei que, de uns tempos para cá, livros policiais têm me deixado com a incômoda sensação de que poderiam ser mais. Dito isso, como é bom ter em mãos um Jo Nesbo.

Depois do caso Boneco de Neve que quase lhe tirou a vida, Harry Hole tentou se esconder de si mesmo em Hong Kong, mergulhando em álcool, ópio e apostas. Quando duas mulheres são encontradas mortas da mesma maneira, o departamento de homicídios de Oslo encarrega uma jovem policial de trazê-lo de volta, afinal, ele é um dos únicos que tem experiência com serial killers. Quando um terceiro corpo surge, uma conexão entre as vítimas fica clara: todas passaram uma noite em uma mesma cabana. Mas ainda será muito difícil para Harry descobrir os motivos que levam tão cruel assassino a agir e o que o fará parar.

Nesbo é um autor que não erra a mão nunca. Suas histórias são cruas e secas, seus crimes são violentos, seu detetive é atormentando e seu ritmo de narrativa é preciso. O autor leva o seu tempo para contar a história, conduzindo o leitor sem pressa por uma investigação que, quando ele percebe, já lhe puxou para dentro. Assim como outros livros do autor, “O Leopardo” tem um início lento, mas é curioso que isso não apenas não parece arrastado como não é ao menos sentido. O autor tem tamanho controle da narrativa, que mesmo sem eventos fundamentais, descobertas e reviravoltas, prende o seu leitor de forma que ele nem sente que já se passaram 50-60 páginas. E por falar em páginas, para uma história detetivesca, o livro é bastante longo (quase 600 páginas), mas em nenhum momento se torna tedioso ou faz o leitor pensar que certas coisas seriam desnecessárias.

Como sempre Harry Hole brilha. Nesbo criou em Hole um personagem tão rico que mesmo que suas tramas sejam essencialmente detetivescas, elas não se limitam a isso, pois a personalidade do personagem rende conflitos internos que se entrelaçam com a investigação, mesmo que nada tenham a ver com ela. Além disso, por mais que as tramas sejam independentes, a história pessoal de Harry tem uma continuidade, o que ressalta a humanidade do personagem. Isso me leva a crer que Nesbo talvez seja o autor que mais valoriza o seu detetive protagonista, pois seus livros são tanto sobre os crimes quanto sobre ele (o livro que mais deixa isso em voga, a meu ver, é “A Estrela do Diabo”). Em “O Leopardo” o homem que nem quer voltar para a sua vida, de repente se vê em uma corrida contra o tempo para concluir uma investigação. Isso me faz lembrar de Jack Bauer (o que é munição extra para me fazer gostar de Harry Hole).

Outra coisa que eu gosto é que Nesbo não se vale apenas do vilão/assassino para criar antagonistas. O próprio departamento de polícia tem seus conflitos, o que acaba por respingar nas investigações e deixá-las ainda mais realistas. Em “O Leopardo” isso fica a cargo da Kripos e de Makael Bellman.

A trama é surpreendente e genial. Talvez a mais ardilosa do autor (embora não a minha favorita). Quando tudo parece estar resolvido, Nesbo mostra que é só o começo, encaixando pequenos detalhes que pareciam ser insignificantes e presenteando o leitor com inúmeras reviravoltas. Ao melhor estilo Agatha Christie, você pode até desvendar algumas coisas, mas é muito difícil que encontre todas as respostas antes da hora.

“O Leopardo” deixa claro que Jo Nesbo é um dos melhores autores (se não o melhor) da literatura policial contemporânea.

Título: O Leopardo (exemplar cedido pela editora)
Autor: Jo Nesbo
Nº de páginas: 598
Editora: Record

sábado, 11 de outubro de 2014

RESENHA: A Terceira Moça

“Também achava, cada vez mais, que havia maldade verdadeira em algum lugar. Ele conhecia a crueldade. Já deparara com ela antes. Conhecia seu lado picante, seu gosto, os trejeitos que tinha. O problema era que não sabia ainda exatamente onde estava localizada. (...) Algo estava acontecendo, algo estava em andamento, algo que ainda não estava concluído. Alguém, em algum lugar, estava em perigo." (CHRISTIE, 2012, p.227).

Hercule Poirot, “o mais verdadeiro dos detetives de verdade” (pag.41), está tomando seu café da manhã tranquilamente quando uma moça pouco bonita e muito desesperada requisita alguns minutos da sua atenção e faz a mais estranha das confissões: ela acredita que talvez tenha assassinado alguém. Depois disso, foge e desaparece. Intrigado, e percebendo que a moça realmente precisa de ajuda, Poirot tenta encontrá-la e descobrir o que está acontecendo, afinal, ter assassinado alguém é algo que sabe. Ou se fez ou não se fez. Nessa aventura, ele conta com a ajuda de sua amiga de longa data, a escritora de romances policiais Ariadne Oliver.

A alegria e o bem-estar de voltar para casa. É assim que me sinto cada vez que leio um livro de Agatha Christie. Talvez com “A Terceira Moça” isso tenha se intensificado já que há muitos meses eu não tinha a oportunidade de ler nada dessa que é uma das minhas autoras favoritas desde que eu tinha 12 anos. E estamos falando de Agatha Christie, portanto, é claro que eu encontrei nessa aventura tudo que eu esperava.

Se eu adoro incondicionalmente a autora, isso se duplica quando se trata de um caso do Poirot que, além de genial, excêntrico e incomparável, é absolutamente hilário. Se ler Agatha é voltar para casa, ter Poirot na aventura é ser recepcionada por um dos meus melhores (e mais antigos) amigos. Em “A Terceira Moça”, o detetive e Ariadne Oliver (provável alter-ego de Agatha) precisam encarar as mudanças advindas da década de 60, em especial o comportamento (e as roupas!) da juventude da época, a independência das moças e os relacionamentos. Inclusive nesse livro são abordados temas que não recordo ter visto com frequência nos livros de Agatha, como uso de drogas.

O mistério é magistralmente arquitetado. O inusitado é que, ao contrário dos casos que têm mortes e suspeitos, esse não tem uma morte. Não tem o crime. Apenas um possível crime que o detetive nem mesmo sabe qual é, onde ou quando ocorreu. De certa forma, esse é um caso que não é um caso. Então do que se suspeita?

A mocinha que pode, ou não, ser louca; o namorado que pode, ou não, ser um interesseiro; as colegas de quarto independentes; o pai ausente que há pouco voltou para casa trazendo consigo uma madrasta indesejável; o tio rico, desmemoriado e cego e sua jovem e bela secretária que pode, ou não, ser uma espécie de espiã ou simplesmente uma interesseira; são os personagens que desfilam por essas páginas.

Agatha manipula seus leitores como ninguém e é a rainha da pista-recompensa. Por isso sempre encerro uma leitura com orgulho de mim mesma quando consigo desvendar suas artimanhas (quem já leu os livros da autora divide o sentimento comigo, tenho certeza). Nesse caso, descobri o quem, o como e o porquê, mas ainda assim a autora aprontou algumas que eu não captei.

Leitura deliciosamente fluida, intrigante e bem amarrada. “A Terceira Moça” poderia ganhar muitos elogios, mas para mim basta um: é um Agatha Christie.

Título: A Terceira Moça
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 287
Editora: L&PM

sábado, 20 de setembro de 2014

RESENHA: O Último Filho

“Johnny aprendeu cedo. Se alguém lhe perguntasse por que era tão diferente, por que ficava sempre tão calado e por que seus olhos pareciam absorver a luz, era essa sua resposta. Ele aprendeu cedo que não havia lugar seguro, nem no quintal ou no playground, nem na varanda da frente ou na estrada tranquila que roçava a periferia da cidade. Não havia lugar seguro nem ninguém para protege-lo. 
A infância era uma ilusão.” (HART, 2014, p. 15).

***

Quem acompanha o blog sabe o quanto tenho sido crítico com livros policiais. Isso por que a maioria dos livros desse gênero tem me parecido extremamente superficiais e previsíveis. Assim, tenho um cuidado extra na hora de escolher tais livros, porém, qualquer hesitação quanto a O Último Filho se dissipou quando constatei que livro recebera o aval de Jeffery Deaver, autor de O Colecionador de Ossos

Há um ano, Alyssa desaparecia e seu irmão, Johnny, nunca deixou de acreditar que ela estava viva e tampouco desistiu de encontrá-la. No dia em que completava um ano do sequestro, Johnny testemunha um homem moribundo afirmar ter encontrado a menina raptada. Mas quando retorna para casa, descobre que outra garota havia desaparecido. Agora, o detetive Hunt, responsável por ambos os casos, fará de tudo para descobrir a verdade. 

O primeiro fator que merece destaque é o quanto a narrativa do autor é envolvente. Mesmo no início da trama, quando tudo caminha a passos lentos, Hart sabe como manter a atenção do leitor presa e é fácil emergir na obra e virar páginas e mais páginas sem nem perceber. Minha única crítica é que, em alguns momentos, o autor abusava de descrições, que nem sempre me pareciam necessárias. 

Apesar do início um pouco vagaroso, a estória logo engrena em um ritmo acelerado e quanto mais as investigações seguiam, mais se percebia que puxar o fio do novelo trazia mais dúvidas do que respostas. Mesmo com tantas informações ocorrendo e com eventos que pareciam não estar conectados, em nenhum momento a leitura se torna confusa, tampouco monótona. 

Ambos os protagonistas foram bem construídos. O detetive Hunt era o responsável pelo caso de Alyssa e completado um ano da data do desaparecimento da menina, ainda não conseguiu esquecê-lo. Seu envolvimento com o caso é pessoal, o que justifica muitas das suas ações impensadas e até mesmo impulsivas. Por sua vez, Johnny é um menino traumatizado, que viu sua família se despedaçar, e quer fazer todo o possível para encontrar sua irmã gêmea. 

A meu ver o autor utilizou com certo excesso da ferramenta “pista e recompensa” (ou seja, o autor tem que deixar pistas no texto de modo a possibilitar que o leitor consiga descobrir o mistério), pois, a teoria que criei para explicar o caso se mostrou bem próxima da verdade. Ainda assim, o desfecho é eletrizante e não foram poucos os momentos que me vi segurando a respiração enquanto a ação acontecia.

Em tempos que posso contar nos dedos da mão quantos livros policias me agradam, O Último Filho foi uma grata surpresa. Ainda não chegou ao posto de melhor obra do gênero, mas creio que o autor tem potencial de sobra para alcançar tal posição.  

O Último Filho ganhou o prêmio Edgar Allan Poe na categoria de melhor romance em 2010. Tal premiação é concedida aos melhores autores de mistério pela Mistery Writters of America. 

Título: O Último Filho (exemplar cedido pela editora)
Autor: John Hart
N.º de páginas: 474
Editora: Record

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

RESENHA: A Simples Arte de Matar - Vol. 1

“Sangue começou a fluir, com todo o vagar, de sua bochecha, saído de um buraco acima de seu olho esquerdo. Depois fluiu mais rápido. O buraco ficou maior, e vermelho. Os olhos de Joey Chill fixavam o teto estupidamente, como se aquelas coisas não tivessem mais nada a ver com ele.” (CHANDLER, 2009, p.63)

Raymond Chandler é sinônimo de literatura policial de qualidade. Seu nome não apenas é associado aos grandes, mas também aqueles que foram o marco de uma nova vertente: o noir.

Composto por quatro contos e um ensaio “A Simples Arte de Matar – Volume 1” é a primeira parte de uma antologia de textos capazes de mostrar que todas as marcas que o autor empregaria em seus futuros romances já estavam presentes em seus primeiros escritos: a ironia, os personagens que transitam entre o certo e o errado, as tramas imprevisíveis e as descrições brilhantes.

Se nos romances de Raymond Chandler as histórias se ramificam, vão e voltam, nos contos elas apenas vão – para um lugar inesperado. Em “Sangue Espanhol” fotos comprometedoras, política e chantagens estão no caminho da investigação do detetive Sam Delaguerra. Em “Vou Estar Esperando” uma mulher à espera do ex-marido que acabou de sair da prisão capta o olhar do detetive do hotel Tony Reseck. Os corredores de hotéis também são o cenário inicial de “O Rei de Amarelo” onde um músico de passagem pela cidade é pego em uma trama de vingança que será desvendada pelo detetive Steve Grayce. “Pérolas são um incômodo” coloca o apaixonado Walter em busca de um colar de pérolas roubado da chefe de sua noiva.

É visível, para quem já conhece a obra do autor, que os protagonistas destes contos apresentam, cada um a seu modo, características daquele que seria o seu personagem mais notável: Philip Marlowe. Poder observar isso é uma das razões que me levam a recomendar esse livro apenas para quem já está familiarizado com os romances de Chandler, mesmo que alguns destes contos tenham sido escritos antes do início de suas excursões como romancista. Outra razão é que, por mais que essas histórias curtas tenham a essência do autor e mantenham até mesmo a narrativa em primeira pessoa, nenhuma delas é capaz de cativar da mesma maneira e eu atribuo isso à falta que Marlowe faz.

Por outro lado, as histórias podem ser lidas fora de ordem e mesmo com longos intervalos entre si, já que se trata de histórias independentes. Isso talvez seja interessante para quem quer começar a conhecer esse autor - que não escreve tramas para serem devoradas nas madrugadas - aos poucos, embora, ressalto, isso seja apenas uma pequena prova do que ele é capaz de fazer.

Quando leio Raymond Chandler sempre sou presenteada com trechos e frases que me fazem interromper a leitura para dizer em voz alta “Ah.. Mr. Chandler.. Você é mesmo um gênio”. O mais fascinante é observar como seus textos exprimem uma identidade que jamais poderia ser tomada como sendo de outro autor. Muitos que vieram depois – Dennis Lehanne, por exemplo – são comparados a ele, mas a verdade é que um texto assinado por Chandler pode ser reconhecido à distância, já que o autor emprega sua identidade e sua visão em cada frase.

Essa visão é a essência do ensaio que dá título à coletânea “A Simples Arte de Matar” na qual o autor reflete a respeito da literatura policial já sendo um autor consagrado do gênero (apenas 5 anos após a publicação de “O Sono Eterno”, seu primeiro romance). Entre os assuntos que aborda estão o que é apresentado como textos do gênero e as recepções que têm (tanto de público como de crítica), o ofício de escrever e a contribuição de sua experiência como detetive particular para com caráter realista de suas tramas. Não existem pessoas boas e inocentes envolvidas no mundo dos crimes cujos cenários não são casas de campo e sim ruas, becos e hotéis duvidosos. Por isso não é à toa, ou com pouco conhecimento de causa, que o autor critica alguns de seus colegas (não poupando nem mesmo a fabulosa Agatha Christie, embora suas críticas à Dama do Crime sejam bem menos severas que a outros autores). O autor também reflete sobre como deveria ser um detetive particular, o que, é claro, é um perfeito reflexo do seu magnífico Philip Marlowe.

“Nas ruas sórdidas da cidade grande precisa andar um homem que não é sórdido, que não se deixa abater e que não tem medo. Neste tipo de história o detetive deve ser este homem. Ele é o herói; ele é tudo. Ele deve ser um homem completo e um homem comum e, contudo, um homem fora do comum. (...) Se houvesse outros como ele, o mundo seria um lugar mais seguro para se viver, sem que com isso se tornasse desinteressante a ponto de não valer a pena viver nele.” (p.26-27)

“A Simples Arte de Matar” não é o que eu considero um início ideal para quem nunca leu Raymond Chandler. Mas se você gosta de literatura policial e se enquadra nessa categoria, comece em algum lugar. O que importa é conhecer esse autor.

Título: A Simples Arte de Matar – Volume 1
Autor: Raymond Chandler
Nº de páginas: 772
Editora: L&PM

quinta-feira, 31 de julho de 2014

RESENHA: Iluminadas

“O futuro não é tão ruidoso quanto a guerra, mas é implacável com sua própria e terrível manifestação de fúria.” (BEUKES, 2014, p. 52).

***

Quando li a sinopse de Iluminadas, fiquei bastante intrigado com a mescla de policial com ficção científica. Por isso, fui pesquisar mais sobre o livro na Amazon americana, ocasião em que encontrei o aval de Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar (leia-se: um dos melhores livros policiais de todos os tempos).

Harper é um sem-teto que encontra abrigo em uma casa abandonada, que é capaz de transportar pessoas no tempo. Assim, ele começa a matar mulheres em diferentes décadas, sempre retornando ao passado e escapando de qualquer investigação policial. Kirby foi a única vítima que sobreviveu a um dos ataques de Harper, e agora está decidida a encontrá-lo.

A narrativa de Iluminadas é extremamente confusa. Além do livro não seguir uma ordem cronológica, saltando entre passado e presente, não consegui identificar sequer uma sequência lógica para a estrutura da obra. Acrescente-se, ainda, que o próprio texto de Beukes é confuso, sendo que foram inúmeras as vezes que tive de reler um parágrafo para compreender o que estava acontecendo.

Já salientei em inúmeras resenhas de livros policiais que tal gênero demanda certo ritmo. Entretanto, Iluminadas se desenvolve de maneira lenta e monótona, fornecendo descrições exacerbadas ao invés de focar na ação. Outra falha da autora foi não conseguir compor reviravoltas, não conseguindo surpreender o leitor em momento algum.

Protagonista e antagonista se mostraram igualmente insossos, e não conseguem despertar no leitor nenhum tipo de reação, de modo que é difícil se envolver e até mesmo se importar com a estória. Infelizmente, nem mesmo os personagens secundários se destacaram.

O final até consegue empolgar, visto que ganha as doses de ação e adrenalina que se mostraram ausentes durante todo o decorrer da leitura. Porém, falhou ao não esclarecer por que as vítimas eram consideradas “meninas iluminadas” e por que deveriam morrer.

Provando que uma boa premissa não é suficiente para a criação de um bom livro, Iluminadas decepciona do início ao fim. Apesar da ousadia em misturar gêneros tão distintos, me pareceu que Lauren Beukes tem muito a evoluir como escritora antes que possa se aventurar em um projeto mais audacioso.

Título: Iluminadas (exemplar cedido pela editora)
Autora: Lauren Beukes
N.º de páginas: 318
Editora: Intrínseca

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Conexões Além da Contracapa #15

Georges Simenon é um dos mais importantes autores da literatura policial em especial por ter apresentado - em 75 romances e 28 contos – o comissário Jules Maigret que mudou a imagem que os detetives da literatura tinham até aquele momento. O autor nasceu na Bélgica assim como...

...o famoso detetive Hercule Poirot, personagem excêntrico criado Agatha Chistie que também possui uma obra extensa composta por contos, peças de teatro e romances, alguns deles escritos sob o pseudônimo de Mary Westmacott que permitiu à Dama do Crime experimentar outro gênero que não o policial. Quem também usa de pseudônimos para experimentar outro gênero que não o que a consagrou é...


...Nora Roberts que assina como J.D. Robb a Série Mortal, protagonizada pela tenente Eve Dallas, que se passa em uma Nova York futurista na década de 2050. A cidade também é o palco das investigações...


...do detetive particular Nero Wolf, criado pelo escritor Rex Stout que em 1959 recebeu o prestigioso Grand Master Award dado anualmente pela Mystery Writers of America (organização da qual também foi presidente). Em 1966 quem recebeu essa honra foi Georges Simenon.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

RESENHA: A Mulher Enjaulada

“Ela sabia que um dia acabaria enlouquecendo. E essa seria a maneira de se libertar dos pensamentos sombrios que povoavam a sua cabeça (...)” (ADLER-OLSEN, 2014, p.121)

Merete Lynggaard faz o possível para resguardar a sua vida privada, mesmo que isso gere rumores e a force a se afastar de pessoas que poderiam se tornar importantes para ela. Bonita e no auge de sua carreira política, ela desaparece em meio a uma viagem com seu irmão mais novo. Quando as investigações se esgotam, ela é dada como morta e seu caso, arquivado. Anos mais tarde, o desaparecimento de Merete é escolhido pelo detetive Carl Mørck para ser o primeiro caso a ser investigado pelo Departamento Q, uma nova seção da polícia responsável pela investigação de casos antigos que permanecem sem respostas.

“A Mulher Enjaulada” é uma mistura de romance policial com thriller psicológico. De um lado temos o detetive Carl Mørck – ainda assombrado por ser o único sobrevivente ileso do incidente que matou um membro da sua equipe e deixou o outro no hospital à beira da morte – encabeçando uma investigação que segue rumos tradicionais, e do outro, temos Merete em seu cativeiro. Os momentos de tensão e agonia se dão pelo último, os ágeis e repletos de informação, pelo primeiro.

Narrado em terceira pessoa, a mistura funciona muito bem ao intercalar pontos de vista e momentos temporais – já que acompanhamos o cativeiro de Merete desde os primeiros dias e a investigação se encontra no presente, cinco anos depois. Com isso, sabemos mais que o investigador, mas também não sabemos tudo, pois não sabemos o que aconteceu com Merete. Só sabemos que ela não morreu como todos previam, mas o que lhe aconteceu, pelo menos até certa época, foi muito pior do que a morte.

O livro é interessante desde o começo, mas precisa das 100 primeiras páginas para engrenar de fato. Isso ocorre porque o Departamento Q - que dá título à série - ainda não está formado, então é preciso conduzir o leitor aos motivos de sua instituição, da escolha de Carl para chefiá-lo, da adequação da polícia a essa nova estrutura e outros aspectos. Além disso, nas primeiras vezes que nos deparamos com Merete, acompanhamos a personagem nas semanas que antecederam o seu sequestro, o que também é importante para fazer o leitor entender quem a personagem é, antes de vê-la jogada em uma situação que vai reduzindo-a aos poucos a um mero ser em busca de sobrevivência.

Com o início da investigação, surge também aquele que, para mim, é o melhor personagem do livro: Assad, o assistente de Carl. Assad é carismático, divertido – graças a sua inexperiência e pouco entendimento da língua de seu novo país -, eficiente e ainda consegue ser misterioso, pois pouco se sabe sobre o seu passado e sobre como adquiriu certas habilidades que seriam dignas de um verdadeiro detetive. Carl pode ser o protagonista, mas Assad é quem brilha.

Outro personagem que atraiu a minha atenção foi Hardy, ex-membro da equipe de Carl que está no hospital e é conhecido por pensar de maneira diferente. Embora pouco explorado neste livro, algo me diz que veremos mais de Hardy no decorrer da série (assim espero, pois ele me parece promissor).

As histórias desses personagens que cercam Carl e ainda de outros que surgem em seu caminho - como a bela terapeuta - deixam ganchos para os livros seguintes. Além disso, outros coadjuvantes como a ex-mulher, o enteado e o inquilino ajudam a dar forma ao protagonista, revelando que a intenção do autor é torna-lo humano e não só um personagem com uma investigação pela frente. A própria investigação do desaparecimento de Merete pode ser o cerne do livro, mas o acidente que matou seus pais é outro caso presente na história, assim como o incidente envolvendo a equipe de Carl e um assassinato atual que a polícia precisa investigar e que nada tem a ver com o Departamento Q. São eventos que compõe o universo dos personagens e o tornam verossímil. É por saber fazer cortes e mesclar plots de forma a deixar o leitor curioso que o autor não tem medo de dar as respostas quando ainda faltam 100 páginas para o final do livro.

Fica claro que nesse primeiro livro Adler-Olsen se preocupou em criar o universo dos seus personagens e acertar o tom de suas tramas. Bons personagens e uma boa história. “A Mulher Enjaulada” faz de “Departamento Q” uma série promissora.

Título: A Mulher Enjaulada (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Jussi Adler-Olsen
Nº de páginas: 389
Editora: Record

segunda-feira, 23 de junho de 2014

RESENHA: Pietr, o letão

“O olhar que se abateu sobre ela era puro Maigret! Que calma! Que indiferença! Como se não escutasse nada além do zumbido de uma mosca! Como se tivesse à sua frente um simples a banal objeto.” (SIMENON, 2014, p.24)

Poucos autores se tornam tão relevantes e suas obras tão garantidas de agradar seu público que as editoras podem se dar ao luxo de não acompanhar as edições com sinopses. Poucos personagens são tão memoráveis que se tornam o segundo nome de seu autor e merecem na capa um destaque tão grande quanto o título da aventura que protagonizam. Tão poucos que só me ocorre um que se encaixa em ambas situações: Georges Simenon e seu comissário Maigret.

Maigret está à caça de Pietr, o letão: um homem de mil identidades e hábil na arte do disfarce. Pistas indicam que o criminoso internacional está prestes a chegar a Paris, mas ao tentar surpreende-lo no trem, quem se surpreende é Maigret ao encontrar um corpo que corresponde às características do criminoso. Mas como ter certeza que se trata dele em especial quando alguém continua a agir exatamente como o letão? Entre hotéis de luxo, bares e hospedarias de segunda categoria, o comissário  entende que não será fácil capturar esse homem e irá persegui-lo para descobrir não só quem ele é e impedir que continue com suas chantagens, mas também porque faz o que faz.

“Pietr, o letão” é o primeiro de 75 romances protagonizados pelo comissário Jules Maigret e é o livro perfeito para introduzir um personagem como ele. Isso porque “Pietr, o letão” é Maigret acima de tudo. 

Diferente da maioria dos policiais, a trama não gira em torno de um crime. Ela consiste em uma perseguição da primeira à última página e se revela um duelo mental – como toda boa perseguição é - de forma que o livro poderia muito bem se chamar Maigret x Pietr, o letão porque é isso que temos: uma mente contra a outra. Ao mesmo tempo em que nos perguntamos quem é esse Pietr e o que ele está tramando, conhecemos o policial em seu encalço. Com cautela, Simenon nos apresenta seu personagem mais memorável, nos mostrando em pequenas atitudes que tipo de homem Maigret é. Não é um livro sobre crimes e sim sobre pessoas, característica essencial da obra de Simenon.

O autor tem um jeito tão próprio de fazer mistério que por vezes eu esqueço que estou lendo um livro do gênero e apenas me deixo levar. E foi exatamente isso que aconteceu com “Pietr, o letão”, uma das aventuras de Maigret mais enigmáticas que já li, já que com frequência eu me perguntava “Quem é esse cara?”, “O que ele está fazendo?” e “Como essa gente toda se encaixa nisso?”

Outros personagens enigmáticos transitam pelas páginas, como o casal de bilionários Mortimer - com quem o letão se encontra em suas primeiras horas em Paris -, a irritada e vulgar Anna Górskina, e a Sra. Swaan - que parece trazer à tona um outro lado da personalidade do chantagista. No mundo de Simenon, ninguém é apenas bom ou apenas mau e atitudes são sempre movidas por motivações e, portanto, podem ser compreendidas. 

Mesmo espalhando perguntas e com um protagonista que não pára um segundo sequer, o livro apresenta a falta de urgência característica das tramas de Simenon. Embora leia seus livros de um dia para o outro, nunca senti aquele desespero de encontrar as respostas que vem nas últimas páginas. A leitura se dá rápida porque não se sente passar. É como uma viagem na qual nos distraímos com as paisagens bonitas e quando vemos, já chegamos ao nosso destino. Maigret, por sua vez, é um ótimo companheiro.

Nunca li um livro de Simenon que não me agradasse e ao ser questionada sobre uma indicação de título para alguém começar a conhecer a obra do autor, nunca sei o que responder. Meu primeiro contato foi com “A Noite da Encruzilhada” - que esse mês ganhou uma bela reedição pela Editora Companhia das Letras – e me parece um começo tão bom quanto qualquer outro. Mas “Pietr, o letão” possibilita ao leitor ser apresentado ao comissário Maigret como seu autor quis que fosse apresentado, deixando clara, já nessa primeira aventura, a qualidade que será sinônimo de autor e personagem em mais de uma centena delas (entre romances e contos) que se seguiriam.

Título: Pietr, o letão (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Georges Simenon
Nº de páginas: 164
Editora: Companhia das Letras
 

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