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segunda-feira, 9 de maio de 2016

RESENHA: Vocação para o Mal

“O mal despertava um fascínio eterno.” (GALBRAITH, p. 65, 2016)

Aprendi a não esperar da série Cormoran Strike livros ágeis que me impelem a devorar suas páginas até encontrar a resposta para o mistério da trama. Aprendi também que qualquer lentidão vale a pena porque os desfechos são sempre interessantes e surpreendentes. Mas aprendi, acima de tudo, a gostar de seus protagonistas, Strike e Robin, e querer saber mais sobre eles. Por isso, quando “Vocação para o Mal” chegou às minhas mãos, eu achei que sabia o que esperar, mas fui surpreendida.

Robin Ellacott está no escritório para mais um dia de trabalho quando um pacote chega endereçado a ela. Para o seu horror, dentro há uma perna decepada. Quando seu chefe e parceiro, o detetive Cormoran Strike, fica sabendo do ocorrido, ele imediatamente pensa em quatro pessoas de seu passado que poderiam ser responsáveis por tal ato e todas elas são extremamente violentas e perigosas.

Robert Galbraith sempre presenteou seus leitores com intrigantes histórias policiais, mas o que faz de “Vocação para o Mal” um livro diferente dos outros é termos Strike e Robin no centro do caso, não apenas como investigadores. Eles são os alvos e a resposta está em algum lugar do misterioso passado de Strike. Eu diria até que mais interessante do que descobrir quem é o vilão é conhecer essas histórias sobre o detetive que é, desde o começo da série, um mistério por si só. Strike é um homem fechado e pouco sabemos sobre ele, mas não há dúvidas de que há muito para ser explorado.

Robin, por sua vez, ganha mais destaque do que nunca, estando às vésperas de casar com um homem com quem vive um relacionamento que não está em seu momento mais feliz (e muito disso devido ao trabalho dela com Strike). A personagem foi aos poucos merecendo o seu espaço dentro da série, se tornando cada vez mais uma detetive e menos uma assistente que está ali apenas para fazer uma pesquisa e vez ou outra ter um golpe de sorte.

Como Strike desconfia imediatamente de quatro pessoas e suas razões para eleger esses suspeitos são claras, não há urgência (ou surpresa) na descoberta do motivo. O que queremos é apenas desvendar a identidade do criminoso. Para mim, particularmente, o mais interessante era descobrir as circunstâncias envolvendo os casos que fizeram Strike desconfiar dessas pessoas.

Assim, “Vocação para o Mal” é o livro em que a trama policial abre espaço para que o leitor conheça um pouco mais sobre os seus protagonistas, acompanhando o desenvolvimento deles e a evolução do seu relacionamento. Aliás, eu preciso reconhecer que adoro a dinâmica dos dois. Robin e Strike são personagens ricos individualmente (um pelo passado que guarda, outro pelo futuro que promete), mas sua relação sempre foi um dos pontos altos da série. Eles não são exatamente chefe e funcionária, nem exatamente parceiros, nem exatamente amigos, nem exatamente mais do que amigos. Nesse ponto da série, eu não colocaria minha mão no fogo para afirmar nada sobre esses dois. Haverá um relacionamento romântico entre eles? Parece haver uma semente plantada nesse sentido, porém mais para o leitor captar do que pelos personagens, já que eles não parecem saber exatamente como veem um ao outro.

A narrativa se dá toda em terceira pessoa, o que não impede o leitor de conhecer a fundo os personagens. Em alguns momentos, parecemos conhecer Robin e Strike melhor do que eles conhecem a si mesmos (o que é um ótimo contraponto com o fato de que muito pouco sabemos sobre a bagagem que ambos carregam). O mesmo vale para o vilão, cujos sinistros pensamentos acompanhamos mesmo que não estejamos vendo o mundo pelos seus olhos.

Estupro, pedofilia, relações abusivas e um perturbador distúrbio psicológico (sobre o qual eu nada conhecia) chamado “Transtorno de Identidade da Integridade Corporal” no qual as pessoas sentem necessidade de amputar membros do próprio corpo e acreditam estarem no corpo errado são alguns dos temas abordados na trama.

Com “Vocação para o Mal” a série Cormoran Strike mostra pela terceira vez o quanto é promissora. Quanto mais sabemos sobre seus personagens, mais interessante suas histórias se tornam. Foi o primeiro dos três livros em que não senti as páginas passarem e não queria parar de ler. Também foi o primeiro livro em que não achei a história policial tão interessante, mas isso não incomoda porque fica claro que seu intuito era outro.

O que diferencia a série de outras tantas do gênero policial é seu notável planejamento. Enquanto outras tem início com uma história centrada em um detetive ou policial e depois que o livro faz sucesso ganham sequência em histórias em que o personagem está ali apenas para investigar um caso corriqueiro (é o caso, por exemplo, da série Lyncon Rhyme, de Jeffrey Deaver), a série Cormoran Strike apresentou seu personagem em dois livros policiais tradicionais (mas que mostravam seu potencial e o fato de ele não estar ali apenas para investigar um crime), mas só no terceiro livro foi explorá-lo. Resultado: a curiosidade é enorme para saber um pouquinho mais sobre ele. O terreno foi preparado para chegarmos aqui e essa abordagem me parece perfeita, afinal, é preciso tempo para desenvolver uma certa familiaridade com uma pessoa antes de conhecermos ela a fundo. Isso me remete a um dos meus detetives favoritos, Harry Hole, cujas histórias são claramente para o seu desenvolvimento, mas são casos policiais porque o personagem calha de ser um detetive. Em meio a cada vez mais tramas supérfluas e repetitivas, são livros como “Vocação para o Mal” que restauram a minha esperança no gênero policial. Não é uma trama espetacular (eu diria até que o caso é o mais fraco da série), mas deixa claro que está trilhando um caminho que pode sim vir a ganhar este adjetivo (ainda mais que todos sabemos quem está por trás do pseudônimo Robert Galbraith).

Título: Vocação para o mal (exemplar cedido pela editora)
Autor: Robert Galbraith
N° de páginas: 496
Editora: Rocco

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

RESENHA: O Bicho-da-Seda

“Não se pode tramar um homicídio como um romance. Sempre ficam pontas soltas na vida real.” (GALBRAITH, p. 385, 2014)

Se você nunca leu determinado autor, você não tem como prever o que lhe espera. Quando li “O Chamado do Cuco”, ciente de quem estava por trás das palavras de Robert Galbraith, eu esperava um livro ágil e impossível de largar e demorei a perceber que não era isso que eu tinha em mãos (e só depois disso é que fui capaz de apreciá-lo). Para “O Bicho-da-Seda”, minha segunda experiência com o detetive Cormoran Strike, minha expectativas foram ajustadas.

O escritor Owen Quine já desapareceu muitas vezes. Na maioria delas foi encontrado em hotéis, com outras mulheres, ou simplesmente voltou para casa da mesma maneira que saiu. Mas dessa vez sua esposa sente que a situação é diferente e procura o detetive Cormoran Strike, evitando chamar a polícia devido ao histórico do marido. Quando Strike começa a investigação, ele percebe que o desaparecimento está ligado ao polêmico “Bombyx Mori”, manuscrito recém terminado de Quine que humilhava praticamente todos os seus conhecidos, inclusive sua esposa, seus amigos, sua agente e seus editores. Quando Quine é encontrado assassinado em uma cena que recria uma das muitas passagens repugnantes de seu livro, Strike vê o rumo da investigação mudar e o colocar no encalço de um assassino capaz de atos inimagináveis de violência.

Tendo lido os dois livros protagonizados por Cormoran Strike, acredito que o maior mérito da série seja a naturalidade das investigações. Priorizando a veracidade da jornada do detetive, Galbraith apresenta uma história que caminha lenta e que pede de seu leitor paciência para encontrar as respostas e ânimo para apreciar a caminhada. Algo como: “Fique confortável e venha comigo”, mas com a promessa de “Eu não vou decepcioná-lo”. A evolução é lenta e não são poucos os momentos em que o livro não empolga, mas qualquer ressalva que pode ter havido durante a leitura se dissipa no final, momento em que as peças se encaixam, com uma revelação ao melhor estilo Agatha Christie, do tipo que faz o leitor exclamar “como eu não percebi isso antes?” e terminar a leitura com um sorriso no rosto. A promessa, então, se cumpre.

Inteligente e articulada, a trama gira em torno não apenas do que aconteceu com Owen Quine, mas (arrisco dizer até principalmente) de quem ele era, como as pessoas o viam e porquê escreveu tal livro, algo que acho muito mais interessante. Quem cometeu o crime e porquê é a essência da maioria dos livros policiais, mas nem sempre podemos acompanhar uma jornada em que a vítima é desvendada aos poucos, parecendo cada vez mais detestável, ao mesmo tempo em que se torna muito difícil dizer que ela teve o que merecia.

Ainda prezando a naturalidade, “O Bicho-da-Seda” não apresenta suspeitos óbvios, já que ninguém pode ser associado àquele crime de maneira simples. O caso que aos poucos se revela para Strike é bizarro, mas sua investigação e os suspeitos não são. Além disso, existem milhares de variáveis a serem consideradas. Uma descoberta não elimina a seguinte, mas não parece se somar a ela. A questão é: todos teriam motivos para querer matar Quine, mas ninguém parece ser capaz de fazê-lo.

A história se desenrola em três núcleos: a investigação, a vida de Strike e a vida de Robin (a assistente do detetive). Todos bem dosados, em especial quando se aprecia o fato de que Strike e Robin são os protagonistas de uma série e que ambos estão em evolução. É fácil ver que Gailbraith já conhece esses personagens muito além do que permite ao leitor conhecer e que guarda triunfos que serão usados posteriormente, quando tiver o caso certo para apresentar esses elementos sobre suas vidas pessoais. Entre eles, o passado no exército de Strike e seu pai roqueiro. Robin ainda luta para conquistar seu espaço no escritório do detetive e, consequentemente, nas páginas, mas continua se mostrando uma personagem cativante e cheia de qualidades a serem exploradas. É essa expectativa que me impele a continuar lendo a série. Eu quero saber mais sobre Strike, quero saber mais sobre Robin. Sobre o passado e o futuro de ambos e, no meio tempo, acredito que vou gostar de acompanhar suas investigações.

“O Bicho-da-Seda” também traz as consequências de “O Chamado do Cuco”. Depois do caso Lula Landry, Strike ganhou certa fama e tem um volume maior de trabalho (mesmo que a maioria de seus clientes apenas desconfie de infidelidade). Uma coisa que pode desanimar alguns leitores é o fato de que esses casos de menor (ou nenhuma) importância também ganham espaço, mas a escolha de Galbraith é compreensível, afinal um detetive não abandona todos os seus clientes no momento em que aceita um novo. Gradativamente, conforme o caso Quine se torna mais complexo, ele passa a merecer uma atenção mais exclusiva de Strike.

Acredito que “O Bicho-da-Seda” seja um livro bem planejado e bem executado. Pode não ser eletrizante, mas é impossível não reconhecer suas qualidades, em especial seus protagonistas e a resposta do mistério. A meu ver, é um livro capaz conquistar o mesmo número de leitores que pode ser capaz de decepcionar. Não posso dizer que fui completamente conquistada, mas acredito que a série ainda me reserva isso.

Título: O Bicho-da-Seda (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Robert Galbraith
Tradutora: Ryta Vinagre
Nº de páginas: 463
Editora: Rocco

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

RESENHA: O Chamado do Cuco

“Ele tinha esperanças de localizar a sombra vacilante de um assassino ao virar as páginas do arquivo, mas, em vez disso, era o fantasma da própria Lula que surgia, olhava-o, como vítimas de crimes violentos às vezes faziam, do que restava de sua interrompida.” (GALBRAITH, pag. 174, 2013)

Quando a modelo Lula Landry cai da sacada do seu apartamento, sua trágica morte é considerada suicídio. Três meses depois, o detetive Cormoran Strike é contratado pelo irmão de Lula para investigar a morte que ele acredita ter sido assassinato. Aos poucos o detetive se afasta da teoria do suicídio e se envolve em um mundo de luxo, muito diferente do que ele – um veterano de guerra - conhece. Nos mesmos dias, o escritório de Strike é agraciado com uma secretária temporária, Robin, que se revelará uma assistente tão valiosa quanto inusitada.

Um dos livros mais aguardados do ano, “O Chamado do Cuco” apresenta uma trama policial que foca nas relações conturbadas e duvidosas de seus personagens. Para mim, o mais interessante foi observar o quanto as pessoas do círculo familiar e social de Lula têm idéias contraditórias umas sobre as outras.

Personagens desagradáveis e interesseiros desfilam pelas páginas, fazendo com que a construção de suas personalidades e suas falhas de caráter sejam pontos de destaque. Além disso, o autor trabalha muito bem a unicidade da voz de cada um - o que os torna reais aos olhos do leitor - como se não fossem personagens construídos para uma história e sim pessoas reais que caíram nela. Dar um desfecho para cada um desses personagens não é uma preocupação do autor. Eles servem ao caso e não o caso e eles e quando sua serventia tem fim, também o tem a sua participação na história.

A narrativa não tem pressa e insere o leitor na atmosfera de Londres sempre que possível. Esse não é um livro policial que você vai ler madrugada adentro sem conseguir parar. Robert Galbraith toma seu tempo para contar a história e se a princípio parece que ela demora a engrenar – o que é perfeitamente aceitável, visto que a morte de Lula, após ser investigada à exaustão, foi considerada suicídio e então não faria sentido Strike encontrar furos ou provas de seu assassinato imediatamente - chega um momento em que ter respostas passa a ser uma necessidade para o leitor, pois há muitas informações o cercando. É curioso que seja justamente essa lentidão e essas incertezas as responsáveis pelo melhor de “O Chamado do Cuco”. Podemos não estar desesperados para saber o que aconteceu com Lula e não estarmos devorando as páginas, mas nossa sensação de incerteza é tão real quanto seria se fossemos um dos personagens que vivem a história.

Enquanto a investigação dá seus primeiros passos, nos familiarizamos com Strike e Robin e os vemos construírem sua relação aos poucos. Detetives particulares tendem a ser personagens fortes e solitários e não é sempre que um autor consegue inserir satisfatoriamente um assistente nessa equação de forma que esse coadjuvante seja alguém que realmente contribua para o desenvolvimento do caso, trazendo para a investigação algo que o protagonista não poderia oferecer, e ainda consiga desenvolver uma boa dinâmica entre os dois personagens. É por isso que Robin brilha. Longe de ser um daqueles companheiros de detetive que estão ali apenas para que o dito cujo tenha alguém que escute seus devaneios e assim não passe o livro falando sozinho, Robin traz graça à história. De um trabalho formal em relações públicas ela passa a ser secretária de detetive e se empolga a cada descoberta de uma maneira que só iniciantes poderiam.

É por essas razões que “O Chamado do Cuco” transpira naturalidade. O ritmo da investigação, as entrevistas do detetive com personagens que deixam de fazer parte da trama quando já não têm importância na investigação, os diferentes pontos de vista que pessoas diferentes têm, tudo isso soa muito real.

Além disso, a resolução do caso é de uma simplicidade admirável, como sempre ocorre nos melhores romances policiais. O que começa sendo intricado, se desenrola para se revelar simples. Embora tenha demorado um pouco, o livro me fisgou e me deixou com um ar de sorriso no rosto nas últimas páginas e na expectativa de reencontrar Strike e Robin.

Esse é o melhor livro policial do ano? Eu não diria tanto. A verdade é que minha expectativa para “O Chamado do Cuco” era ler por horas e horas, sem ver o tempo passar e sem querer largá-lo. Não foi esse o ritmo que eu encontrei no primeiro livro de Robert Galbraith, mas isso não o desmerece de forma alguma. Temos personagens bem construídos, relações conflituosas, um caso interessante e uma narrativa primorosa. É apenas uma questão de se adequar ao ritmo e se deixar levar.

Robert Galbraith é o pseudônimo de J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter.

Título: O Chamado do Cuco (exemplar cedido pela Editora Rocco)
Autor: Robert Galbraith
Tradutora: Ryta Vinagre
Nº de páginas: 447
Editora: Rocco
 

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