Jon cometeu um erro terrível. Tentou enganar seu chefe e fugir com uma considerável quantia de dinheiro. Mas ninguém engana o Pescador e agora o traficante está atrás do seu ex-cobrador que se escondeu em uma pequena comunidade longe de Oslo, onde o sol nunca se põe e ele atende pelo nome de Ulf.
Eu gostaria de fazer uma resenha totalmente imparcial de “O sol da meia-noite”, mas não vejo como, visto que a minha expectativa pela leitura foi totalmente influenciada pela minha experiência prévia com o autor.
A carreira de Nesbø como escritor começou e se firmou com a série Harry Hole: excelentes livros policiais protagonizados por um personagem cheio de problemas. Mas às vezes o autor se afasta do seu cativante inspetor e se arrisca em livros avulsos. Desses, tive oportunidade de ler “Sangue na Neve” e agora “O Sol da Meia-Noite”. Ambos apresentam histórias bem mais curtas do que as de Hole e são protagonizadas por personagens que deveriam matar alguém, decepcionaram seus chefes e agora lutam para continuarem vivos. O que me alertou para as coincidências foi que, mais uma vez, a narrativa em primeira pessoa do autor me incomodou. Por alguma razão, os livros avulsos de Nesbø são narrados por seus protagonistas, o problema é que eles não são homens carismáticos e mesmo estando em situações eletrizantes não conseguem contagiar o leitor (estranhamente, quando se trata dos livros da série Harry Hole, mesmo que a ação demore a acontecer, Nesbø envolve desde a primeira página). Pesquisando, vi em alguns lugares a informação de que os dois livros fazem parte de uma mesma série, mas não consegui entender a relação entre as tramas.
“Acreditava em sonhos tanto quanto em deuses. Estava mais inclinado a acreditar no amor de um viciado pelas drogas do que no amor de uma pessoa por outra. Mas acreditava na morte, isso sim. Essa era uma promessa que eu sabia que seria cumprida. Em uma bala de nove milímetros a mil quilômetros por hora – nisso eu acreditava. E que a vida era o tempo entre essa bala sair da pistola e partir um cérebro ao meio.” (NESBØ, 2018, p. 171)
“O sol da meia-noite” parece um rascunho de história e Jon/Ulf um personagem sem contexto. Mal entendemos de onde ele vem, apenas o vemos cair naquela comunidade que tem uma estranha relação com a religião e onde os relacionamentos que o protagonista desenvolve são clichês e previsíveis. Se vendassem a capa, eu jamais diria que se trata de um livro de Nesbø.
O pior é que havia muito para ser aproveitado, mas o autor não desenvolveu o potencial da trama. O passado de Jon/Ulf (sua relação com a filha doente, seu início no mundo do tráfico), o passado dramático de Lea, a mulher por quem ele se apaixona (obrigada a casar com o homem que lhe estuprou aos 18 anos porque havia engravidado) e também o personagem Mattis, cujas intenções não conseguimos compreender até o final. Para mim, fica claro que a intenção de Nesbø era nos apresentar esses detalhes nas entrelinhas (algo que normalmente aprecio), mas dessa vez deixou o livro sem tempero.
Apesar dos pesares, li o livro em três dias porque a leitura flui rapidamente, mesmo que não instigue o leitor como poderia.
Costumo dizer que Jo Nesbø não erra nunca, mas após a leitura de “O sol da meia-noite” faço o seguinte acréscimo na frase: “na série Harry Hole”, já que o autor certamente não é em seus livros avulsos o mesmo que é na sua excelente série policial.
Título: O sol da meia noiteAutor: Jo Nesbø
N° de páginas: 221
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora
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