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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

RESENHA: O sol da meia-noite

Jo Nesbø / O sol da meia-noiteQuando um dos meus autores de suspense favoritos lança um novo livro, eu corro conferir.

Jon cometeu um erro terrível. Tentou enganar seu chefe e fugir com uma considerável quantia de dinheiro. Mas ninguém engana o Pescador e agora o traficante está atrás do seu ex-cobrador que se escondeu em uma pequena comunidade longe de Oslo, onde o sol nunca se põe e ele atende pelo nome de Ulf.

Eu gostaria de fazer uma resenha totalmente imparcial de “O sol da meia-noite”, mas não vejo como, visto que a minha expectativa pela leitura foi totalmente influenciada pela minha experiência prévia com o autor.

A carreira de Nesbø como escritor começou e se firmou com a série Harry Hole: excelentes livros policiais protagonizados por um personagem cheio de problemas. Mas às vezes o autor se afasta do seu cativante inspetor e se arrisca em livros avulsos. Desses, tive oportunidade de ler “Sangue na Neve” e agora “O Sol da Meia-Noite”. Ambos apresentam histórias bem mais curtas do que as de Hole e são protagonizadas por personagens que deveriam matar alguém, decepcionaram seus chefes e agora lutam para continuarem vivos. O que me alertou para as coincidências foi que, mais uma vez, a narrativa em primeira pessoa do autor me incomodou. Por alguma razão, os livros avulsos de Nesbø são narrados por seus protagonistas, o problema é que eles não são homens carismáticos e mesmo estando em situações eletrizantes não conseguem contagiar o leitor (estranhamente, quando se trata dos livros da série Harry Hole, mesmo que a ação demore a acontecer, Nesbø envolve desde a primeira página). Pesquisando, vi em alguns lugares a informação de que os dois livros fazem parte de uma mesma série, mas não consegui entender a relação entre as tramas.

“Acreditava em sonhos tanto quanto em deuses. Estava mais inclinado a acreditar no amor de um viciado pelas drogas do que no amor de uma pessoa por outra. Mas acreditava na morte, isso sim. Essa era uma promessa que eu sabia que seria cumprida. Em uma bala de nove milímetros a mil quilômetros por hora – nisso eu acreditava. E que a vida era o tempo entre essa bala sair da pistola e partir um cérebro ao meio.” (NESBØ, 2018, p. 171)

“O sol da meia-noite” parece um rascunho de história e Jon/Ulf um personagem sem contexto. Mal entendemos de onde ele vem, apenas o vemos cair naquela comunidade que tem uma estranha relação com a religião e onde os relacionamentos que o protagonista desenvolve são clichês e previsíveis. Se vendassem a capa, eu jamais diria que se trata de um livro de Nesbø.

O pior é que havia muito para ser aproveitado, mas o autor não desenvolveu o potencial da trama. O passado de Jon/Ulf (sua relação com a filha doente, seu início no mundo do tráfico), o passado dramático de Lea, a mulher por quem ele se apaixona (obrigada a casar com o homem que lhe estuprou aos 18 anos porque havia engravidado) e também o personagem Mattis, cujas intenções não conseguimos compreender até o final. Para mim, fica claro que a intenção de Nesbø era nos apresentar esses detalhes nas entrelinhas (algo que normalmente aprecio), mas dessa vez deixou o livro sem tempero.

Apesar dos pesares, li o livro em três dias porque a leitura flui rapidamente, mesmo que não instigue o leitor como poderia.

Costumo dizer que Jo Nesbø não erra nunca, mas após a leitura de “O sol da meia-noite” faço o seguinte acréscimo na frase: “na série Harry Hole”, já que o autor certamente não é em seus livros avulsos o mesmo que é na sua excelente série policial.

Título: O sol da meia noite
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 221
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

[Calhamaço] para quem não gosta de [calhamaço]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Começo esta coluna fazendo uma confissão: adoro livros grandes, aqueles tijolões que, se duvidar, até mesmo param em pé. Creio que por ser uma estória mais extensa do que estamos acostumados, acabo desenvolvendo uma conexão maior e fico completamente imerso na obra. Entretanto, nem todo mundo gosta de calhamaços e tais pessoas geralmente argumentam que a estória é arrastada ou muito enrolada. E, às vezes, esse realmente é o caso. Porém, está longe de ser a regra.

Sob a Redoma

Antes de ler Sob a Redoma, já havia tentado ler outros dois livros do King, mas sem sucesso. Foi só anos depois que decidi dar mais uma chance ao autor e foi com Sob a Redoma que virei um fã incondicional de King. E por que este é um calhamaço que eu indico mesmo para quem não curte livros grandes? Por que a jornada dos personagens é tão incrível, que o leitor não se preocupa com o que vai acontecer no final, mas apenas com o que está acontecendo naquele momento. Assim, apesar de você se perguntar sobre a origem da redoma ou se ela vai desaparecer, não esses questionamentos que impulsionam a leitura. O que faz o leitor virar as páginas avidamente é acompanhar a jornada dos personagens nesta situação extremamente improvável, onde as regras sociais começam a ruir e os jogos pelo poder tem início. E nem preciso dizer que a narrativa de King é tão envolvente que as 950 páginas passam voando.

Os Luminares

Os Luminares foi o tipo de livro que me chamou atenção mais pelos prêmios que ganhou e pelos elogios da crítica, do que pela sinopse, admito. Mas o que torna Os Luminares tão especial é a sua trama audaciosa e absurdamente genial. O livro começa com uma reunião secreta de doze homens que estão a discutir estranhos eventos com os quais todos eles, direta ou indiretamente, estão relacionados. Assim, a leitura da obra impressiona por que vamos formando aos poucos um intricado quebra-cabeça, o qual nos faz perder o fôlego quando finalmente entendemos como todas as peças se encaixam. Além desta trama que já é tão espetacular que por si só valeria a leitura, Os Luminares também transcende a um gênero literário específico, contando com pitadas de drama, suspense, romance e thriller, de modo que o livro agrada a leitores de todos os estilos. Tenho certeza que depois das mais de 800 páginas você vai ficar com gostinho de quero mais.

Os Miseráveis

Talvez alguns de vocês estejam questionando minha sanidade ao indicar este clássico de mais de 1500 páginas, mas indico sem medo de errar: Os Miseráveis foi uma das leituras mais impactantes e emocionantes da minha vida. A força do livro certamente reside nos personagens absurdamente reais e complexos, aos quais nos apegamos e pelos quais sofremos. Victor Hugo não poupa o leitor em nenhum momento, mostrando uma realidade de muita dor e sofrimento, a qual muitas vezes preferimos ignorar. Além disso, o autor faz uma severa crítica social, abordando temas como injustiça, criminalidade, abuso infantil, prostituição e tantos outros, que certamente farão o leitor refletir. Ressalto também que, apesar de ser um clássico escrito há mais de cento e cinquenta anos, o texto de Hugo é surpreendentemente fluído e envolvente, de modo que a leitura avança com rapidez. Porém, reconheço que entre os livros desta lista este talvez seja o menos indicado para quem não gosta de calhamaços. Isso por que o autor, em alguns momentos, perde o fio da meada e faz digressões sobre assuntos completamente irrelevantes. Se você não ficar com peso na consciência, pule essas partes, mas não deixe de ler o livro. Garanto que você não vai se arrepender. 


sexta-feira, 27 de abril de 2018

RESENHA: Insônia

Stephen King - Insônia
Talvez esse seja um comentário superficial, mas, para mim, quanto maior o livro, maior a promessa. Não é qualquer história que dá conta de 700 páginas, simplesmente porque são poucas as que precisam 700 páginas para serem contadas. Nessa categoria de livros imensos, Stephen King faz questão de ter um lugar cativo. Seu “Dança da Morte”, por exemplo, justifica (quase) todas as suas mais de 1200 páginas, por ter milhares de personagens em um mundo que precisa ser apresentado como é para depois ser destruído e só depois ser construído de novo. Já tendo se provado tantas vezes, o autor é digno de confiança para encarar uma aventura desse tamanho, mas com “Insônia” ele errou a dose.

Após a morte de sua mulher, Ralph Roberts, um aposentado de 70 anos, passa a sofrer de insônia. Mas não qualquer tipo de insônia. Ao invés de não conseguir dormir, Ralph não consegue se manter dormindo e a cada dia acorda um pouco mais cedo. Mesmo testando todos os remédios caseiros imagináveis, a condição se prolonga por meses e, com o passar o tempo, ele começa a enxergar áureas e luzes coloridas emanando das pessoas, além de seres estranhos que ele chama de Doutorezinhos Carecas. Ao descobrir o significado de suas visões, Ralph se verá desempenhando um importante papel em uma luta muito maior que a sua compreensão.

Stephen King tem um talento único. Mesmo depois de tantos livros do autor, ainda me espanta a sua capacidade de transformar premissas absurdas (e algumas vezes até ridículas) em histórias interessantes que sempre levam o leitor a uma reflexão, algo que ele repete em “Insônia”. Mas o que mais me admira é como o autor é hábil em pintar imagens para o seu leitor e fazer com que as cenas surjam diante dos seus olhos com tamanha riqueza de detalhes que é como se uma cortina se abrisse e simplesmente revelasse o que há por trás. Além disso, a voz de King é única e ninguém, absolutamente ninguém, soa como ele. Um leitor fiel reconhece o texto do mestre de longe e é por essas pequenas coisas que nada do que King escreve se torna chato. Ele conduz o leitor pela mão de uma forma que só nos resta apreciar o passeio. E é isso o que salva boa parte de “Insônia”. Confesso que se eu não tivesse tanta confiança em King provavelmente teria desistido do livro antes de chegar na metade. Isso porque durante as 300 primeiras páginas, a história não avança e tudo o que temos são o início da insônia de Ralph e suas consequências. Levando em consideração que 300 páginas é o espaço que muitas histórias precisam para serem contadas (com início, meio e fim) isso é muita coisa para pouco desenvolvimento. A minha sensação era a de nadar sem nunca chegar na praia. Sim, a água estava gostosa, mas ninguém quer nadar o dia inteiro sem nem avistar a terra firme. Para se ter uma ideia, é apenas depois da página 400 que vamos entender em torno do que gira a história (até então Ralph não tem a menor ideia do porquê da sua insônia ou suas visões).

A partir desse momento as coisas ganham fôlego e King entrega uma história tipicamente sua que inclui o sobrenatural, a luta do bem contra o mal e cenas grandiosas. Funciona? Sim, muito bem. Mas não é uma história mais complexa que a de “A Zona Morta”, por exemplo, e não justifica sua extensão, não importa o quão habilidoso seja King.

“Não fazia sentido recuar, no último instante, do limiar da loucura; não fazia sentido chegar tão próximo de qualquer limiar. Contudo, ele compreendia perfeitamente bem que não podia viver muito tempo em um mundo tão brilhante e maravilhoso sem por em perigo sua sanidade (...)” (KING, 2013, p.142)

Com tantas reclamações, pode parecer que eu não gostei de “Insônia”, mas não é o caso. A narrativa é envolvente, Ralph é um personagem carismático (assim como outros que cruzam seu caminho), os Doutorezinhos Carecas são figuras intrigantes e interessantes e a história é sim boa e bem amarrada e teria tudo para traçar uma curva ascendente, mas pela sua extensão acaba sendo uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Há momentos grandiosos em que eu me peguei dizendo: “Esse é o King que eu conheço”, mas outros tantos que me faziam pensar ao final de uma sessão de leitura “o que a história avançou?”.

Eu costumo dizer que King usa do sobrenatural para desencadear situações/problemas/dilemas humanos. Nesse sentido, achei interessante que “Insônia” use do contrário: uma situação mundana (a insônia) é a ferramenta usada pelo sobrenatural para se manifestar.

O jogo “acaso” e “desígnio” também é interessante, nos fazendo pensar sobre como algumas coisas são de suma importância e geram consequências capazes de mudar tudo, enquanto outras têm direito à flexibilidade já que qualquer coisa pode acontecer com elas a qualquer momento sem grandes consequências. Pensando bem, isso é válido para pessoas, decisões...

Convém mencionar também que há em “Insônia” um pequeno cruzamento com a história de “A Torre Negra”, mas não é preciso estar familiarizado com a série para entender os acontecimentos deste livro. Por falar em cruzamento, a história se passa em Derry, uma das cidades mais tradicionais do universo Stephen King.

Insônia” não é um livro ruim. Mas ao estender a jornada além do necessário, King perdeu de ter mais um “muito bom” atrelado ao seu nome. Isso prova que mesmo os mestres escorregam de vez em quando, mas prova também que, mestre que é mestre, acerta até mesmo quando erra e que sempre recompensa seus fiéis seguidores.

Título: Insônia
Autor: Stephen King
N° de páginas: 701
Editora: Suma de Letras

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

[Dramas Familiares] para quem não gosta de [dramas familiares]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Nem todo leitor gosta dos conflitos dos dramas familiares. Mas há livros do gênero que usam do núcleo familiar como estopim para situações que misturam muitos outros elementos. É pensando nisso que elegemos três livros que irão agradar mesmo aqueles que não gostam do gênero.

Em uma festa de colégio que reúne os pais das crianças, uma pessoa morre. O leitor não sabe se foi acidente ou assassinato, mas, acompanhando a história desde os seis meses anteriores, logo percebe que as duas hipóteses são válidas, que os candidatos à misteriosa vítima são muitos e que são inúmeros os gatilhos que podem disparar para que a tragédia aconteça. Sim, os acontecimentos giram em torno dos dramas de três mulheres e suas famílias e abordam temas sérios como bullying e abuso sexual, mas enquanto os dramas se desenrolam o leitor é guiado pelo mistério “Quem morreu? Quem matou?” ao melhor estilo das histórias policiais. 

A trama é pesada: cinco irmãs (a mais nova com 13, a mais velha com 17 anos) cometem suicídio no período de um ano. A história gira em torno da família Lisbon e de como cada suicídio repercute sobre os pais e sobre cada uma das meninas. Quem nos conta a história é um grupo de meninos que, na época das mortes, era apaixonado pelas meninas. Agora, anos depois, eles relembram os acontecimentos com um olhar melancólico, fascinado e distante próprio de homens adultos. Por isso, o verdadeiro ponto de destaque de “As Virgens Suicidas” é a sensibilidade com que a história é narrada, sendo delicada e bela, apesar de tão trágica. Um livro único, do tipo que emociona e marca o leitor para o resto da vida. Um dos meus favoritos de todos os tempos.

Uma família marcada por um misterioso Drama (assim mesmo, com D maiúsculo). Essa é basicamente a premissa de “O Livro dos Baltimore” (minha melhor leitura de 2017) que conta a história dos Goldman, em especial de três primos, e do trágico acontecimento que mudou os rumos da vida de todos. Sim, temos muitos dramas familiares, mas também temos muito mistério neste quebra-cabeças que abrange décadas de história mesclando gêneros de tal forma que é difícil saber onde termina um e onde começa o outro.



sexta-feira, 6 de abril de 2018

RESENHA: O Homem de Giz

Misteriosos sinais e um grupo de amigos que encontra um corpo em uma cidade pequena. A premissa é “stephenkingiana” demais para não me atrair e fez isso ainda no final do ano passado quando descobri que a Editora Intrínseca havia adquirido os direitos de publicação de "O Homem de Giz", livro de estreia de C.J. Tudor.

Em 1986, Eddie e seus amigos têm apenas 12 anos. Para dar mais emoção aos seus dias, passados entre a escola e pequenas aventuras, a gangue formada por Mickey, Nicky, Gav, Hoppo e Eddie encontra um jeito de se comunicar secretamente através de desenhos de homens de giz. Um dia, um recado misterioso usando o código do grupo os leva até o bosque onde encontram o corpo desmembrado de uma menina da cidade. Está tudo lá. Menos a cabeça. 30 anos depois, os amigos recebem novamente os desenhos de homens de giz, mas antes que possam saber quem os deixou, um deles é encontrado morto.

Intercalando o ano de 1986 com o de 2016, através da narrativa em primeira pessoa de Eddie, Tudor nos conduz pelos eventos que marcaram a infância do grupo, nos deixando conhecer também os adultos que se tornaram.

De maneira bastante orgânica, a autora insere diversos conflitos e personagens, de modo que não sabemos quais deles serão essenciais para desvendarmos o mistério. Tudo o que sabemos é que se Eddie escolhe falar sobre esses episódios, tantos anos depois, é porque alguma importância eles têm. Assim, o trágico acidente com a menina no parque de diversões, o misterioso Sr. Holloran (homenagem a “O Iluminado” já que a autora é uma fã de King?), a morte do irmão mais velho valentão de Mickey e o afastamento dele do grupo, Nicky e seus acidentes domésticos, os protestos comandados pelo reverendo (pai de Nicky) contra o trabalho da mãe de Eddie e sua clínica de aborto, a morte do cachorro de Hoppo, são todos eventos de 1986 que se somam aos intrigantes homens de giz que reaparecem em 2016, assim como a volta de Mickey à cidade e a relação de Eddie com sua inquilina, Chloe. Nesse vai e vem, “O Homem de Giz” se mostra aquele tipo de livro envolvente que se você não precisar interromper a leitura, você não interrompe.

“Minha vida foi definida pelas coisas que não fiz, pelas coisas que não disse. Acho que o mesmo acontece com várias pessoas. Nem sempre o que nos molda são as nossas realizações, e sim as nossas omissões. Não necessariamente as mentiras, apenas as verdades que não dizemos.” (TUDOR, 2017, p.138)

O próprio Eddie diz em um dado momento que aos doze anos os seus amigos são o seu mundo, então esse é outro aspecto positivo de acompanharmos os eventos com 30 anos de intervalo. Apesar de nos contar como se tudo estivesse acontecendo naquele momento, Eddie já tem um certo distanciamento dos eventos e dos próprios amigos o que lhe permite enxergar as coisas com maior amplitude.

No final, todas as pontas se amarram e é preciso reconhecer certa audácia da autora em alguns aspectos. Ainda assim, não sei exatamente porque, fiquei querendo algo a mais. Quando terminei a leitura, senti que se tratava daquele tipo de livro que logo cairia no esquecimento, embora durante a leitura eu estivesse 100% envolvida, querendo sempre ler mais um capítulo.

O Homem de Giz” não é aquele suspense que vai marcar a sua vida, mas você vai curtir cada segundo.

Título: O Homem de Giz
Autora: C.J. Tudor
N° de páginas: 269
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 14 de janeiro de 2018

RESENHA: O Labirinto dos Espíritos

O Labirinto dos Espíritos - Carlos Ruiz Zafón - O Cemitério dos Livros Esquecidos - livro 4
O que pensar quando aquela série que você adora e que você julgava ter terminado no terceiro livro (que, por sua vez, te deixou órfã) anuncia que vem mais um volume pela frente? Foi isso que aconteceu comigo quando a editora Suma de Letras anunciou que estava prestes a lançar “O Labirinto dos Espíritos”, quarto (e, agora sim, último) livro da série “O Cemitério dos Livros Esquecidos” do maravilhoso Carlos Ruiz Zafón.

Quando o Ministro Maurício Valls desaparece, Alicia Gris é chamada para investigar o caso. Para isso, ela precisará retornar para Barcelona, a cidade onde perdeu seus pais durante a guerra e onde ganhou um ferimento que lhe causa uma dor excruciante diariamente. É lá que o destino dela irá cruzar novamente com o de Fermín Romero de Torres (que há anos lhe salvou a vida) e com o da família Sempere, em especial Daniel que tem quase certeza que Valls é o responsável pela morte de sua mãe, a mulher cujo rosto ele sofre tanto por não lembrar.

Mesmo se tratando de uma série, todos os livros do “Cemitério dos Livros Esquecidos” podem ser lidos de maneira independente e em qualquer ordem, já que as quatro histórias se sustentam por elas mesmas. Para quem leu todos os livros (seja na ordem cronológica da história ou na de lançamento), os fios vão se cruzando neste último livro, o que, claro, torna a experiência ainda mais gratificante e permite apreciar a obra em sua totalidade.

Mas mais do que personagens ou que um cenário, para mim, o que realmente liga os quatro livros é a poesia da narrativa de Zafón. Ninguém escreve como ele. Ninguém faz sons, imagens e sensações ecoarem como ele. Seu texto tem atmosfera e evoca algo em cada frase. Mas, por alguma razão, não senti isso tão intensamente neste livro, porém desconfio que há uma intenção por trás disso (não revelarei minha teoria para não dar spoilers).

“Você não percebe o vazio em que deixou o tempo passar até o momento em que vive de verdade. Às vezes a vida é apenas um instante, um dia, uma semana ou um mês, não os dias desperdiçados. Você sabe que está vivo porque dói, porque de repente tudo é importante e porque, quando esse breve momento se acaba, o resto da sua existência se transforma em uma lembrança à qual você tenta em vão voltar enquanto tiver alento no corpo.” (ZAFÓN, 2017, 566)

É claro que, por melhor que seja uma narrativa, uma boa história precisa de bons protagonistas e isso Zafón entrega para o leitor na forma de uma coleção dos mais adoráveis personagens. Não bastasse ter os inesquecíveis Daniel Sempre, seu pai, o hilário Fermín, Beatriz e Bernarda, Zafón dá vida neste livro a Vargas (que irá dividir a missão com Alicia), o misterioso Leandro (mentor de Alicia) e Fernandito (eterno admirador de Alicia), todos carismáticos, cada um do seu jeito. Mas é Alicia quem rouba a cena. Que personagem maravilhosa! Forte, cheia de defeitos e traumas. É ela quem dá forma a “O Labirinto dos Espíritos” e faz as vezes de protagonista. Inclusive, acho admirável que, com tantos personagens que os leitores aprenderam a amar ao longo dos livros anteriores, Zafón tenha a coragem de os deixar de lado por um considerável volume do livro para dar vez a uma personagem nova. Quanto aos velhos conhecidos, Julian Caráx e David Martín marcam forte presença e até mesmo o perverso inspetor Fumero é mencionado.

É preciso dizer também que em alguns momentos a história poderia ter sido desenvolvida mais rapidamente, mas talvez o autor tenha optado por não fazer isso pelas diversas pontas que se criam (afinal, fica claro que também é um objetivo deste livro esclarecer algumas pequenas coisas dos livros anteriores – entre elas os acontecimentos do frustrante “O Jogo do Anjo”). Mas é inegável que a trama é ampla e satisfaz o leitor ao final.

Eu diria ainda que, de todos os livros da série, “O Labirinto dos Espíritos” é o que menos se vale do tempero característico de Zafón (drama + amizade + amor + suspense + mistério) e mergulha mais fundo no suspense. “O que terá acontecido com Valls?” é apenas uma das perguntas que o leitor se faz durante a jornada. Conforme a trama se desenvolve, vemos que ela tem inúmeras subtramas, uma mais enigmática do que a outra.

Mas a série recebe seu título por uma razão e não há nada capaz de encher (e marejar) os olhos de qualquer apaixonado por livros como a visão do Cemitério dos Livros Esquecidos. As cenas que o envolvem são sempre inesquecíveis. As palavras que o descrevem sempre tocam fundo.

Reencontrar personagens que você já aprendeu a amar é sempre uma emoção. Em “O Labirinto dos Espíritos” houveram momentos em que foi bem difícil deixar o livro de lado, em especial nas últimas 200 páginas. Em especial mesmo na última, que nos obriga a encarar a despedida e de um jeito que nos faz querer voltar para o primeiro livro e começar tudo de novo. É com um sorriso no rosto que coloco o livro na minha estante, ao lado dos outros três. Uma jornada inesquecível.

Título: O Labirinto dos Espíritos
Autor: Carlos Ruiz Zafón
N° de páginas: 679
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

RESENHA: Eu sei onde você está

Eu sei onde você está / Claire Kendal / Thriller Psicológico
Gosto de livros que focam em como o personagem se sente diante de tal situação mais do que na situação em si. E thrillers psicológicos são um prato cheio para esse tipo de desenvolvimento. Foi isso que me atraiu em "Eu sei onde você está": a angústia de uma mulher que está sendo perseguida.

Desde a noite que passaram juntos, Clarissa não consegue se livrar de Rafe. Ele está em todos os lugares. Acompanhando todos os seus movimentos, mandando presentes nada bem vindos, vigiando sua casa. Não demora até que Clarissa passe a sacrificar sua rotina para poder escapar do olhar possessivo de Rafe. Para acumular provas suficientes contra seu perseguidor, ela deixa que a situação se desenrole para evitar correr o risco de ser menosprezada quando levar o caso à polícia. Mas Rafe fica cada vez mais perigoso e Clarissa entende que há motivos para ela mal lembrar da tal noite que deu início a tudo e da qual ela acordou com hematomas pelo corpo. Enquanto o pesadelo se desenrola, ela serve de jurada em um caso de uma mulher que também foi vítima de abuso sexual.

A história se desenvolve em duas narrativas, ambas no presente: de um lado, um narrador em terceira pessoa nos conta a história de Clarissa. Do outro, a própria Clarissa faz anotações detalhadas em um diário a respeito de tudo o que Rafe faz e de como isso faz ela se sentir.

Rafe é um personagem perturbador. Não o conhecemos fora do contexto perseguidor, mas nesta situação o conhecemos a fundo. Ele não é apenas obsessivo e desequilibrado. Ele é realmente violento e sua mania de encerrar cada frase com "Clarissa" é de dar arrepios. Um pequeno detalhe que funciona bem.

Quanto a Clarissa, é sua paranoia que dá forma a trama. A história não é sobre o que Rafe faz com ela e sim sobre o medo que ela sente do que ele pode vir a fazer. De onde ele possa estar. De onde mais possa se infiltrar. Das pessoas, próximas a ela, que ele possa alcançar. O medo de Clarissa é tão verdadeiro que, mesmo que as ações de Rafe não escalassem, ainda assim o livro se tornaria mais tenso a cada página porque é assim que a protagonista se sente, porque quando você está por um fio, até a brisa do vento se torna assustadora e é a esse ponto que Rafe reduz Clarissa.

"Devo parecer uma louca, como se eu tivesse algum tique nervoso. E fico me perguntando onde você está. Isso me apavora ainda mais, me faz ver que há o perigo de eu passar a ter uma fixação tão grande por você quanto você tem por mim. Na verdade, é isso que você quer, na sua missão interminável de conquistar minha atenção." (KENDAL, 2017, p. 130)

Em paralelo a isso, acompanhamos o caso do tribunal no qual uma prostituta viciada em drogas luta contra uma agressão sexual. O caso coloca uma carga extra sobre Clarissa que percebe o quão humilhante é estar na posição de vítima, uma abordagem da qual eu gostei. Em primeiro lugar, o caso não está ali apenas para preencher os dias da personagem e sim para entrar na mente dela. Não bastasse ela estar amedrontada pelo seu perseguidor, ela também tem medo do que deveria lhe ajudar a fazer com que a perseguição parasse. Nesse dilema, Clarissa se mostra uma personagem bastante racional diante de uma situação totalmente emocional, algo que também me agradou.

Em segundo lugar, fica claro que a autora quer mostrar o descaso das autoridades ao lidar com certos crimes. Porque a pessoa não está sob a mira de uma arma isso significa que ela está correndo menos risco ou que sua vida não está em perigo? Porque a mulher não consegue provar que foi estuprada, isso quer dizer que ela não foi? Porque a violência que o perseguidor comete deixa apenas marcas psicológicas isso significa que ela é menos traumática ou é menos digna de resgate do que a violência física? Até que ponto a vítima precisa sustentar uma situação insustentável apenas para acumular provas de que o que está acontecendo com ela é caso de polícia? Essas são algumas das questões que Kendal consegue abordar dentro da trama. 

É no julgamento também que a protagonista conhece um homem por quem desenvolve um interesse romântico. Aliás, Robert também é um personagem interessante já que Clarissa vê nele a antítese de Rafe, mas o leitor percebe que algo pode estar errado com ele. 

Mesclando a sequência de acontecimentos com Clarissa, os diários e ainda a história da vítima do caso do tribunal, "Eu sei onde você está" é um livro que mantém o interesse e o envolvimento, embora a tensão da história não chegue a contaminar o leitor. A trama é bem amarrada e conta com um desfecho em parte clichê, em parte inesperado. Não apresenta nada de extraordinário, mas é sim uma boa leitura.  

Título: Eu sei onde você está
Autora: Claire Kendal
Nº de páginas: 304
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

13 companhias caveirosas para a sua sexta-feira 13

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Quem gosta de suspense sabe o valor de uma sexta-feira 13. Quando a data chega, é impossível não ficar com vontade de conferir um filme de terror ou ler um livro que o fará querer dormir com as luzes acesas.

A convite da Editora Darkside, preparamos um post para celebrar a data e sugerir para vocês 13 companhias para uma sexta-feira 13 bem caveirosa. 

1. Norman Bates - Psicose

Norman Bates é o tímido gerente do Motel Bates, um estabelecimento à beira de estrada. Mas caso você cogite se hospedar lá nesta sexta-feira 13, saiba que os Bates guardam alguns esqueletos no armário.


2. A Família Lutz - Amtyville

George e Kathleen Lutz são um tipo azarado para você convidar para a sua casa, já que eles não tiveram experiências muito boas com o que parecia a casa dos sonhos de qualquer família e fugiram 28 dias depois da mudança. Mas quem pode culpá-los? Caso você queira ouvir algumas histórias realmente assustadoras nessa sexta-feira 13, acenda uma fogueira e chame os Lutz para sentar com você.

3. Victor Frankenstein - Frankenstein

Todo mundo já ouviu falar do "Monstro" de Frankenstein, mas você já conheceu Victor Frankenstein? Ele é um jovem talentoso, cheio de ambição e obcecado por descobrir a centelha da vida. E quando a descobre, ele não percebe que a criatura que trouxe a existência é essencialmente humana, apesar da aparência grotesca. Essa sexta-feira 13 também pode ser uma oportunidade para você descobrir quem é o verdadeiro monstro desta clássica estória: a criatura ou o criador?

4. Rhoda Penmark - Menina Má

Rhoda Penmark parece uma adorável menina de oito anos, mas apenas parece. Por trás do rosto angelical se esconde uma mente fria e manipuladora, capaz de atos perversos. Se você quiser ficar de babá de Rhoda nesta sexta-feira 13, é bom ficar atento.

5. Dr. Vincent Di Maio - O Segredo dos Corpos

Se você prefere o terror do mundo real, sugerimos que você aproveite a sexta-feira 13 para fazer uma visita ao necrotério. Seu guia será o Dr. Vincent Di Maio, um conceituado médico legista que irá lhe mostrar de perto como acontece uma necropsia e qual a sua importância para a investigação e o julgamento.

6. "Ogro" - Diário de uma Escrava

"Ogro" é o pior tipo de monstro com o qual você pode se deparar. Um pedófilo. Um homem que caça meninas e as mantém em cativeiro como escravas sexuais. Se você for dar um passeio nesta sexta-feira 13, fique atento a tipos suspeitos.


7. Verônica - Bom dia, Verônica

Você pode aproveitar a sexta-feira 13 para acompanhar a policial Verônica Torres pelas ruas de São Paulo. Mas não se engane: os crimes que ela investiga são brutais e mostram o que há de pior na humanidade. Se você acha que aguenta, esteja preparado para testemunhar torturas, violência e diversas formas de abuso.

8. Bryan Clauser - Noturno

Sexta-feira 13 não é um bom dia para descobrir que existe um culto em São Francisco. Muito menos que suas vítimas são barbaramente assassinadas. Mas se você não tem medo do que se esconde nas sombras, talvez queira acompanhar o detetive Bryan Clauser nesta aventura sobrenatural.

9. Corvo - conto O Corvo

Poderia haver algo mais sinistro que um corvo do lado de fora da sua janela no meio da noite enquanto você lamenta a perda da sua amada? Caso você decida ficar em casa nesta sexta-feira 13, é melhor fechar bem as portas e as janelas para não atrair companhias indesejadas.

10. Louis Cypher - Coração Satânico

Louis Cypher é um tipo misterioso. Ele quer que o detetive Harry Angel localize o famoso cantor Jhonny Favorite, desaparecido há anos. Mas quais os verdadeiros motivos que movem Cypher? Se você estiver pensando em aceitar um servicinho extra nesta sexta-feira 13, pense bem antes de assinar o contrato.

11. Arcebispo da Cantuária - Abominação

O arcebispo da Cantuária descobriu feitiços que poderiam impedir a invasão dos vikings. Os velhos pergaminhos detalham uma poderosa magia que seria capaz de criar um exército invencível. Mas há um preço a ser pago. E garanto que você não quer ficar no caminho do arcebispo para descobrir que preço é esse, especialmente numa sexta-feira 13.

12. Frank Cauldhame - Fábrica de Vespas

Um menino de 16 anos que já matou três pessoas (incluindo seu irmão mais novo e sua prima) e que gosta de fazer pequenos experimentos violentos com animais e registrá-los em um diário, a fim de aplacar o tédio do seu dia a dia em vilarejo afastado em uma ilha escocesa. Se você não tiver medo de brincar com fogo, um passeio com Frank é uma boa pedida para a sua sexta-feira 13.

13. Stephen King 

Para encerrar, quem poderia ser uma companhia mais caveirosa que o homem que criou mundos, medos e monstros e nos mostrou que os piores costumam viver dentro de nós? Uma receita infalível para a sua sexta-feira 13, sem dúvida, é a companhia do mestre Stephen King.

domingo, 6 de agosto de 2017

RESENHA: Até que a culpa nos separe

“Todo mundo tem outro estilo de vida escondido na manga com o qual poderia ser feliz. Sim, Sam poderia ter sido um encanador casado com uma dona de casa que gostava de tarefas domésticas e manteria a casa em perfeita ordem, com cinco belos filhos jogadores de futebol americano, mas então provavelmente sonharia em ter um trabalho divertido em um escritório e em morar em um subúrbio moderno e descolado perto do porto com uma violoncelista e duas menininhas lindas, muito obrigada.” (MORIARTY, 2017, p. 172)

Depois da ótima experiência que tive com “Pequenas Grandes Mentiras”, confiei em Liane Moriarty para entregar mais um ótimo livro, porém não nego que tinha uma desconfiança. Acredito que Liane seja o tipo de autora competente cujo qualquer primeiro livro que o leitor pegue renderá uma boa leitura. Mas me perguntava se o mesmo acontecia com os livros seguintes, já que suas premissas e estruturas narrativas sempre se parecem muito (flashbacks + flashfowards + núcleos familiares). “Até que a culpa nos separe” foi uma boa leitura, mas não se equiparou a minha primeira experiência.

Quando o dia começou, era para Erika e seu marido, Oliver, receberem Clementine (amiga de infância de Erika) e o marido desta, Sam, para um almoço em sua casa. Porém, um convite inesperado de Vid, vizinho de Erika, leva o quarteto para um churrasco. Deveria ser apenas uma tarde comum, mas um acontecimento traumático vai mudar os relacionamentos entre eles.

A narrativa, sempre em terceira pessoa, sempre de ritmo fluido, intercala as visões de todos os personagens nos dando um panorama amplo do que aconteceu no churrasco e de como todos se sentem sobre isso. Nenhum personagem assume a posição de protagonista porque o que está em foco são os relacionamentos entre todos eles. A narrativa alterna ainda entre o presente e o dia do churrasco, dando aos poucos pistas para o leitor deduzir o que aconteceu. Durante um tempo confesso que isso me incomodou um pouco. Como comentei, esse ir e vir é, basicamente, a mesma estrutura de “Pequenas Grandes Mentiras”, porém em “Até que a culpa nos separe” não soa tão natural, parecendo que a autora esconde o jogo propositalmente, interrompendo a narrativa nos pontos cruciais apenas para não dar para o leitor a informação antes do tempo. Mas isso não chega a estragar a experiência porque a Liane não mantém o mistério do dia do churrasco por muito tempo.

Até a revelação, o leitor se pergunta o que aconteceu que fez com que Erika, Oliver, Sam, Clementine (e, em menor grau, Vid e Tiffany – os anfitriões) ficassem tão abalados. Por que agora todos parecem pisar em ovos uns com os outros? Por que agora Clementine, uma violoncelista, dá palestras para a comunidade? Passado o suspense, o foco se vira para as consequências e é nisso que Liane acerta: seu livro não é sobre o que aconteceu no churrasco e sim sobre o impacto disso na vida de seus personagens. O acontecimento em si (que, aliás, não foi uma surpresa para mim) é simples quando as peças se encaixam, mas sua repercussão é intensa.

O que torna as histórias de Liane cativantes é justamente o cotidiano. São pequenas coisas que podem se transformar em algo imenso quando acumuladas ou quando uma situação propícia a catástrofes se configura. No caso de “Até que a culpa nos separe” a pergunta “Quem você realmente é diante de uma situação extrema?” é o cerne da trama e é muito bem explorada pela autora.

Outra coisa que é bem explorada são os personagens. Os sentimentos que eles têm uns pelos outros não são preto no branco. Duas pessoas podem ser amigas e se irritar uma com a outra com frequência. Um casamento pode ser forte, mas também pode passar por momentos de abalo. As certezas diante das decisões não precisam ser definitivas. São todas situações com as quais o leitor consegue se conectar e o aproximam da trama.

Não é por se tratar de livros da mesma autora que comparo e sim porque um livro lembra o outro. “Até que a culpa nos separe” não é tão intrigante nem tem relações tão complexas como as de “Pequenas Grandes Mentiras”, mas apresenta uma trama talvez ainda mais verossímil, brinca com detalhes que parecem insignificantes para depois mostrar que eles estão conectados a algo importante e, o fundamental, mantem seu leitor envolvido do início ao fim.

Título: Até que a culpa nos separe
Autora: Liane Moriarty
N° de páginas: 464
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

Comprar: Amazon
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sábado, 22 de julho de 2017

RESENHA: O casal que mora ao lado

“Sua cabeça continua a mil e seus pensamentos se tornam menos racionais; sua mente vai longe. Não é que as coisas não façam sentido quando ela está assim: às vezes, fazem mais sentido. Fazem sentido da mesma maneira que os sonhos. Só quando o sonho termina é que percebemos como tudo era estranho e que, na verdade, ele não fazia sentido algum.” (LAPENA, 2017, p.156)

Sempre gostei muito de thrillers, mas de uns anos para cá desenvolvi um filtro para diferenciar livros que são “mais do mesmo” e livros que realmente vão me deixar vidrada. Classifiquei “O casal que mora ao lado” na primeira categoria, mas, por ser uma aposta forte da editora Record, decidi que valia uma chance. O que eu encontrei foi uma boa opção para curar a ressaca literária na qual eu me encontrava.

Anne e Marco foram convidados para um jantar na casa de seus vizinhos - Cynthia e Graham – mas, poucas horas antes, a babá que deveria ficar com Cora, sua filha de seis meses, cancela o compromisso. Cynthia faz questão de uma noite só para adultos, então levar a bebê está fora de cogitação e ficar em casa não parece ser uma opção já que se trata do jantar de aniversário de Graham e Anne e Marco são os únicos convidados. Então o casal organiza um esquema: a cada meia hora, um deles passará em casa para ver a bebê e, no restante do tempo, ficarão de ouvidos atentos à babá eletrônica. Não há perigo, afinal, eles estão na casa ao lado. Mas quando eles chegam em casa, se deparam com o tamanho do seu erro: Cora desapareceu.

O que me fisgou em “O casal que mora ao lado” foi a narrativa. Ao escolher conjugar os verbos no presente, Lapena conferiu urgência à trama, deixando o leitor ávido para ler mais e mais, afinal, tudo está acontecendo naquele exato momento. O resultado: quando você vê, páginas e páginas se passaram.

Algo que sempre me agrada são livros em que ninguém é vilão e ninguém é mocinho, o que é justamente o que encontramos aqui, em especial no casal protagonista. Tanto Anne quanto Marco comentem erros, mas ambos o fazem querendo acertar. Nenhum dos dois é especialmente carismático, mas o desespero de ambos em relação ao que possa ter acontecido com Cora soa verdadeiro para o leitor, mesmo que ambos estejam sob uma nuvem de suspeita. Teria a depressão pós-parto de Anne a levado a fazer algo tão terrível que ela nem mesmo se lembre? Estaria Marco protegendo a esposa? Teria ele feito alguma coisa com a filha? Seriam os dois cúmplices de um crime hediondo? Essas são algumas das suspeitas com as quais Lapena brinca, criando uma atmosfera de muita coisa mal explicada. Por isso, mesmo quando a autora esclarece alguns acontecimentos, ainda consegue deixar espaço para dúvidas. Os pais de Anne, que nunca aprovaram Marco como genro, e os vizinhos anfitriões da festa também têm comportamentos suspeitos.

Conforme a trama avança, o leitor se vê em posição favorável diante de alguns personagens, sabendo mais do que eles. Mas em outros aspectos está no escuro tanto quanto eles, o que mantém o interesse tanto em descobrir o que realmente aconteceu, quanto em saber o que os personagens irão fazer assim que descobrirem aquilo que o leitor já sabe.

Embora o ritmo tenha me envolvido (acabei lendo o livro em menos de 24 horas), a minha primeira impressão sobre “O casal que mora ao lado” não estava de todo errada. Mesmo que existam conflitos, não há aprofundamento psicológico em nenhum dos personagens (nem mesmo em Anne que seria tão promissora devido a sua depressão pós-parto e, principalmente, seus episódios de branco de memória). Como eu disse no início dessa resenha, encarei a leitura como um entretenimento rápido, por isso esse detalhe não chegou a me incomodar. Mas caso eu esperasse um thriller complexo, certamente teria saído decepcionada.

Algo que não gostei foi ver que a autora escondeu parcialmente o jogo a fim de surpreender no desfecho. Em uma trama em que todas as cartas estarem sobre a mesa era justamente o que a tornava interessante (afinal, o leitor nunca conseguia apostar todas as fichas em uma teoria já que todas pareciam plausíveis naquelas circunstâncias), revelar informações novas apenas nas últimas páginas para que elas viessem a responder todas as perguntas me pareceu jogo sujo, embora seja uma escorregada perdoável para um livro de estreia. A cena final, embora um tanto sensacionalista, caiu como uma luva na trama.

“O casal que mora ao lado” está longe de ser imperdível, mas cumpre o propósito de entreter o leitor.

Título: O casal que mora ao lado
Autora: Shari Lapena
N° de páginas: 294
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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segunda-feira, 17 de julho de 2017

RESENHA: O Bazar dos Sonhos Ruins

“- Você pode atingir a pessoa, mas não pode atingir o mal. (...) O mal sempre sobrevive. Sai voando como um pássaro enorme e pousa em outra pessoa. É essa a merda, não acha? A merda dessa situação toda.” (KING, 2017, p. 278)

Estou ansiosa para conferir “O Bazar dos Sonhos Ruins” desde antes do anuncio da sua publicação no Brasil. O motivo é simples: não se trata apenas de um livro de Stephen King e sim de um livro de histórias curtas de Stephen King e eu costumo ter ótimas experiências quando o Mestre escreve nesse formato.

Nesse caso, temos os mais diversos temas. Há histórias mais longas, outras mais curtas (há até mesmo dois poemas narrativos – os únicos textos que, diga-se de passagem, não me agradaram). A temática também difere bastante, mostrando um pouquinho de tudo que costumamos encontrar nas obras do autor. Há histórias sobrenaturais, outras que são apenas bons dramas, outras temperadas com um humor macabro que King sempre sabe fazer funcionar muito bem. De certa forma, “O Bazar dos Sonhos Ruins” poderia ser considerado uma espécie de portfólio do autor, dando de uma vez só para o leitor um gostinho do que é o Universo Stephen King.

Como é de se esperar em um livro que reúne 20 histórias, nem todas vão envolver o leitor da mesma forma, embora todas sejam bem elaboradas e interessantes. No meu caso, destaco aqui “Garotinho Malvado”, em que um homem no corredor da morte conta sobre a perturbadora presença de um menino na sua vida e porque ele finalmente assassinou esse menino; “UR”, em que um professor é capaz de acessar mundos paralelos através do seu Kindle e descobrir obras nunca publicadas/escritas por alguns dos maiores nomes da literatura; “Indisposta”, protagonizada por um homem dedicado à sua esposa (aqui há ecos de uma história lendária, mas com o jeitinho Stephen King de manipular o leitor); “Aquele ônibus é outro mundo”, breves oito páginas nas quais um homem no trânsito testemunha um assassinato no ônibus que pára por alguns segundos ao seu lado; e “Obituários”, em que um jornalista descobre que consegue matar pessoas através dos obituários debochados que escreve, caso faça isso com alguém que ainda está vivo.

Cada conto ganhou uma introdução na qual o autor revela como surgiu a ideia da história em questão (aliás, King é tão envolvente que até mesmo os seus prefácios parecem mini-contos). Ao ler esses comentários do autor, a sensação que temos é que King se permite escrever sobre tudo que passa em sua mente. Com uma carreira extensa como a dele, é claro que alguns temas acabam sendo revisitados (o último conto, “Trovão de Verão”, por exemplo, tem como temática o fim do mundo, ou seja, a mesma do romance “Dança da Morte”, como o próprio autor comenta na introdução. O conto que abre a coletânea, “Milha 81”, gira em torno de um carro assassino, algo que também já foi utilizado anteriormente pelo autor), mas em nenhum momento King parece estar sendo repetitivo, isso porque seu foco está sempre nos personagens, sejam eles um velho casal de namorados em um piquenique, mulheres que bebem para fugir das frustrações de suas vidas, um casal necessitado de dinheiro que descobre ser capaz de coisas que não imaginou que seria, um filho e seu pai senil e até mesmo crianças testemunhando um carro assassino devorar todos os que se aproximam dele (no que é, obviamente, o tipo de premissa absurda que só um talento como o de Stephen King é capaz de fazer funcionar).

Escrevendo com a narrativa que lhe é característica, Stephen King leva seu Leitor Fiel aos mais diversos universos e o faz testemunhar o melhor e o pior do ser humano em situações por vezes banais, por outras totalmente fora da realidade, mas o fisgando para dentro da história e o fazendo acreditar, mesmo no absurdo, sempre.

No prefácio, o autor diz que nunca sente tanto as limitações do seu talento como quando escreve contos, já que esses são um exercício “acrobático”. Ah King...se todos os talentos limitados da literatura fossem como o seu...

Título: O Bazar dos Sonhos Ruins
Autor: Stephen King
N° de páginas: 527
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 18 de março de 2017

RESENHA: Cujo

“O grito estava entalado na garganta. Era algo vivo se debatendo para sair, e tudo fervilhava no mesmo instante (...)” (KING, 2016, p. 198)

Quando você é fã de um autor, é natural querer ler todos os livros dele, mas também é natural que alguns despertem mais interesse que outros, principalmente quando se trata de uma obra extensa como a de Stephen King. “Cujo”, apesar da fama que alcançou e de a sinopse prometer “um dos livros mais assustadores e emocionantes de Stephen King” pouco me atraia. Mas, se tem alguém que sabe extrair o melhor de uma premissa bizarra e fazer o leitor acreditar totalmente naquilo, esse alguém é Stephen King, então o livro ganhou uma chance.

Tad Trenton é um menino aterrorizado pelo monstro que vive em seu armário e que, toda a noite, sussurra a assustadora promessa de se aproximar dele cada dia mais. Cujo é um dócil São Bernardo de 90kg que pertence a família dos Camber. Como em toda a cidade pequena em que todos conhecem a todos, Tad até já brincou com Cujo, mas isso foi antes de o cachorro ser mordido por morcegos contaminados e desenvolver raiva. Agora, os piores pesadelos de Tad podem se tornar realidade a qualquer momento.

O que me faz gostar dos livros de Stephen King não são as situações assustadoras e sim o que o autor faz com seus personagens nessas situações assustadoras. O principal nunca é a situação em si (de onde surgiu a redoma e como eles vão se livrar dela, como exatamente John Smith adquiriu seus poderes depois do coma, qual a força maligna que paira sobre o Hotel Overlook), mas sim o que ela desperta nos personagens, ou seja, os conflitos psicológicos. Essa é a razão pela qual os livros do autor vão além do mero terror, pois King usa situações assustadoras para extrair as reações dos personagens, ao invés de usar os personagens apenas para transitar em situações assustadoras. Mas em “Cujo” essa característica se perde e por isso o livro me decepcionou.

Longe de ser um livro ruim, “Cujo” apresenta uma situação que se torna gradativamente mais tensa (uma mãe e seu filho presos em um carro isolado e cercado por um cão raivoso). O problema é que a situação é pobre porque os personagens são pobres em dramas e todos os conflitos existem apenas para justificar onde os personagens estarão quando Cujo atingir o ápice da raiva. É um livro frio, sem sentimento.

A abordagem não é de todo decepcionante. Ao invés de alastrar o pânico pela cidade, fazendo com que Cujo atacasse geral, o autor prefere explorar um único ataque ao máximo, elegendo vítimas específicas. Existem outros ataques, mas mesmo esses visam as consequências para o ataque principal. Assim, King consegue extrair o máximo desta situação porque é fácil se colocar no lugar de Donna e seu filho e achar angustiante estar preso em um carro trancado, no calor, sem comida ou água, sem possibilidade de comunicação e com um cachorro violento e atento a qualquer um dos seus movimentos, pronto para atacar você. Mas também é nisso que o livro peca: a situação funciona porque nos colocamos no lugar de Donna e Tad e imaginamos o que é sentir aquilo na pele, mas não porque nos importamos com eles.

Por um lado, é admirável ver como King planeja tudo de forma estender aquela situação ao máximo a fim de que as coisas fiquem realmente complicadas (caso o contrário, logo o leitor se perguntaria por que ninguém dá pela falta dos dois ou por que ninguém passa por lá e os encontra), mas não muda o fato de que o livro gira em torno do ataque de um cachorro e o ataque pelo ataque significa muito pouco a não ser que os personagens tenham se tornado importantes para o leitor.

Ressalto que “Cujo” não é um livro ruim e que eu concordo com as opções que King fez sobre como contar a história, apenas acho que soa como um livro de principiante, do tipo que mostra que seu autor é talentoso, mas ainda não sabe como explorar esse talento a fundo. Certamente tem menos complexidade psicológica do que obras que King escreveu anteriormente como “O Iluminado”, “Carrie”, “Dança da Morte” e “A Zona Morta”, embora a situação pudesse proporcionasse isso.

Um detalhe inusitado é que o livro não é dividido em capítulos, apenas trechos, fazendo com que a história esteja em movimento o tempo todo, com todas as pontas conectadas.

Essa edição em capa dura (que dá início à coleção de clássicos do mestre: a “Biblioteca Stephen King”) conta ainda com uma excelente entrevista concedida pelo autor, parte em 2001 e parte em 2006.

Título: Cujo (exemplar cedido pela editora)
Autor: Stephen King
N° de páginas: 373
Editora: Suma de Letras

segunda-feira, 13 de março de 2017

RESENHA: O Livro dos Baltimore

“Tudo começa como termina, e os livros costumam começar pelo fim. Não sei se o livro da nossa juventude se encerra no momento em que nos formamos no colégio ou exatamente um ano antes, no final de julho de 1997, quando aquelas férias de verão nos Hamptons acabaram depois de testemunharem a amizade selada e as promessas de fidelidade que havíamos feito irem pelos ares, não resistindo aos adultos que nos tornaríamos.” (DICKER, 2017, p. 216)

Joël Dicker me conquistou completamente com “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”, tanto que guardo esta leitura como uma das mais especiais e marcantes que fiz nos últimos anos. Por isso, não é difícil imaginar o tamanho da minha expectativa para “O Livro dos Baltimore”, primeiro livro escrito pelo autor depois do sucesso de “Harry Quebert”.

Marcus Goldman cresceu admirando os tios bem sucedidos e vivendo momentos inesquecíveis ao lado de seus primos, Hillel e Woody, com quem formava a “Gangue dos Goldman”: um trio inseparável e indestrutível. Divididas em “Os Goldman-de-Montclair” e “Os Goldman de Baltimore”, as famílias apresentavam diferenças expressivas - enquanto os Montclair tinham uma vida de classe média, os Baltimore viviam em uma luxuosa mansão em um bairro rico – mas isso nunca interferiu na amizade dos meninos. Porém, tudo mudou depois do Drama. Oito anos depois do episódio fatídico, Marcus, agora um escritor de sucesso, procura preencher as lacunas do que aconteceu e escrever seu novo livro, tudo isso enquanto lida com o reencontro de Alexandra, uma antiga paixão.

Quando nos deparamos com um bom livro, é comum dizermos que os personagens são bem construídos, carismáticos e verossímeis, que a narrativa do autor é fluida, que mal conseguimos parar de ler depois que começamos e que as tramas são inteligentes, bem amarradas e surpreendentes. Mas não é sempre que podemos dizer todas essas coisas de um mesmo livro e, mesmo quando podemos, é raro ainda ficarmos com a sensação de: “Mas não é só isso. Esse livro é muito mais”. Pois com Joël Dicker é assim: seus livros são muito mais.

É difícil resenhar “O Livro dos Baltimore” porque, não importa o quanto eu fale, serei incapaz de traduzir porquê ele está além de ser apenas mais um drama familiar, embora seja exatamente isso. Não são os acontecimentos e sim a maneira como o autor os desenrola, nos fazendo sentir como parte daquela família, como se vivêssemos tudo ao lado deles. Conhecemos os personagens a fundo, mas a cada página descobrimos que há mais para saber. Há sempre um evento que vimos por apenas uma perspectiva, algo que não nos foi totalmente revelado, a bagagem que os personagens carregam, as aparências que querem manter. Tudo contribui para que a teia se feche cada vez mais e eventos, aparentemente, simples se tornem complexos. Esse é o trunfo de Dicker: saber aproveitar a complexidade das relações familiares. Por isso, mesmo que a premissa seja simples, a trama está longe de ser porque com famílias nada nunca é simples.

A linha temporal não é contínua. Por vezes estamos no presente, por vezes em um passado distante (antes do Drama), por vezes em um passado mais próximo (depois do Drama). O que nos conduz é sempre a narrativa de Marcus que ora nos conta sua própria história (fazendo o papel de narrador em primeira pessoa), ora foca na história de seus primos (soando como um narrador em terceira pessoa). Pode parecer confuso, mas não é. Tudo está ali ao mesmo tempo porque tudo faz parte da vida de Marcus e de quem ele se tornou. Ele apenas lembra ora de uma fase da vida, ora de outra, e também lida com o que acontece no momento presente.

Justamente por essa característica, os acontecimentos se desenrolam aos poucos e é impossível prever como tudo irá terminar. Temos pistas, fazemos suposições, mas a cada página surge um detalhe novo que irá compor o quebra-cabeça final que, quando montado, se revela como uma consequência natural, surpreendendo sim, mas também revelando a sua simplicidade por não forçar reviravoltas em nenhum momento.

Eu diria que “O Livro dos Baltimore” é um drama envolto em suspense. “O que é o Drama?” é uma pergunta que nos fazemos desde a primeira página, mas não lemos apenas para encontrar essa resposta e sim para saber o que aconteceu com aqueles personagens e o que fez com que se afastassem. Eu, inclusive, esquecia do Drama em diversos momentos até que Marcus voltava a tocar no assunto. Por isso, é importante reconhecer que esse não é um thriller (embora tenha características do gênero) porque, caso tenha em mente apenas a resolução do mistério, você vai achar que demora muito até chegar lá e talvez não consiga apreciar a maravilhosa jornada que se desenrola a sua frente.

Há personagens encantadores aqui (Woody é meu favorito) e mesmo seus clichês são bem explorados pelo autor, se dissolvendo no panorama geral. No contexto tudo se justifica: a paixão entre Marcus e Alexandra, a dependência que Woody e Hillel passam a ter um do outro e o amor de irmãos que surge entre eles (mesmo que aquele não seja de fato da família), a admiração de Marcus pelo tio Saul, os momentos de raiva, de ciúmes, de rivalidade são todas coisas que brotam com naturalidade. Aliás, por mais que Marcus assuma o papel de protagonista (afinal, é da posição dele que conhecemos a história) a verdadeira protagonista é a família Goldman e o relacionamento entre seus membros, mesmo que em alguns momentos acreditemos que a história gire mais em torno de um ou de outro personagem.

Para aqueles que leram “Harry Quebert”, Marcus Goldman é um velho amigo, já que o personagem é o protagonista de ambos os livros. Mas isso é apenas um detalhe, pois as tramas são completamente independentes, não tendo nenhum cruzamento ou comentário que remeta àquele livro ou mesmo alguma consequência daquela trama nesta. A única coisa é que temos o mesmo Marcus Goldman: “o escritor”.

Aquele livro que conquista por completo, que você não quer parar de ler e, quando pára, não vê a hora de voltar para poder reencontrar aqueles personagens. Que depois da última página deixa você querendo falar muito sobre ele, mas sem saber o que dizer. Esse é “O Livro dos Baltimore” e com ele Joël Dicker me deixa mais uma vez me sentindo órfã. Já saudosa da mágica indefinível com a qual constrói seus livros e apaixona os seus leitores.

Título: O Livro dos Baltimore (exemplar cedido pela editora)
Autor: Joël Dicker
N° de páginas: 416
Editora: Intrínseca
 

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