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sábado, 24 de outubro de 2015

RESENHA: Difamação

“E, por manter tudo trancado por tanto tempo, Catherine tornou o segredo grande demais para vir à luz. Como um bebê que cresceu além da conta para ser parido por meios naturais, o segredo precisará ser arrancado. O ato de mantê-lo oculto quase se tornou maior que o segredo em si.” (KNIGHT, 2015, p.25)

Catherine acabou de se mudar para uma nova casa com o marido. Em meio à mudança, ela encontra um livro que não lembra de ter comprado e começa a ler por mera curiosidade, mas qual não é a sua surpresa ao perceber que a história narrada foi vivida por ela e que o livro traz à tona um segredo que ela vem guardando há muitos anos?

Narrado sob dois pontos de vista, “Difamação” traz de um lado Catherine, e sua angústia após ter descoberto o tal livro, e de outro, Stephen, o responsável por fazer com que o livro tenha chegado até ela. Os capítulos são curtos, conferindo agilidade à narrativa, e a conjugação verbal no tempo presente dá um tom imediatista à obra, causando certa estranheza, mas nada que interfira na leitura.

Desde a primeira página, Renée Knight joga com o leitor. Nada é o que parece e as opiniões que desenvolvemos sobre a trama e os personagens mudam milhares de vezes até chegarmos à última página. Para cada mistério que vemos ser revelado, outro surge para ocupar o seu lugar e, enquanto isso, percebemos que nada é exatamente o que parece. Assim, “Difamação” não é um livro de uma grande reviravolta, mas de várias pequenas reviravoltas que mantém o leitor curioso e alerta.

A cada momento a autora adota uma estratégia inteligente. A princípio, o leitor acompanha, concomitantemente, uma Catherine apavorada e um Stephen enfurecido e magoado, mas mesmo estando dentro da cabeça de ambos os personagens o leitor desconhece o que faz com que se sintam assim. Tudo que ele sabe é que, seja qual for o tal segredo, este é o elo entre os dois personagens e o coloca um contra o outro (as visões de vilão e vítima são contraditórias), mas fica difícil tomar lados quando não se sabe o que está no centro da questão. Também é interessante que, mesmo que o leitor esteja no escuro sobre o que aconteceu e qual é o conteúdo do livro, ele sabe algo que Catherine desconhece, que é a identidade de quem está fazendo isso com ela. Ou seja, nesse aspecto quem está no escuro é a personagem e o leitor tem a resposta (mas não sabe o que fazer com ela).

Mas é quando o segredo vem à tona que as coisas ficam verdadeiramente interessantes. Se a princípio ele parece sem graça, logo fica claro que existem camadas na história que ainda não foram reveladas e que a brincadeira de mostra-esconde ainda não terminou. Nesse momento, Knight deixa de se focar no mistério para focar nas consequências dele na vida dos personagens. Além disso, o único mistério revelado aqui é o conteúdo do livro, mas ainda não é possível ter certeza de que a história narrada seja uma versão fiel dos fatos, de modo que um mistério é eliminado, mas outro permanece.

É dessa forma que a autora brinca o tempo inteiro com as certezas do leitor, com o que ele sabe e o que apenas acredita que sabe, e com os equívocos das primeiras impressões. Aliás, nenhum acontecimento e nenhum personagem passam incólumes de uma avaliação errônea, o que me deixou admirada, especialmente por se tratar de um livro tão curto. E mesmo que Catherine seja a protagonista, é Stephen quem passa pela evolução mais interessante no decorrer da obra (não entro em detalhes para evitar spoilers).

Embora eu ache que Knight tenha escondido um pouco suas cartas a fim de surpreender no final, isso não chegou a me incomodar porque para mim o grande destaque do livro foi a maneira engenhosa que ela encontrou de contar a sua história. Devo dizer, porém, que fiquei com uma sensação de falta de carisma que não sei apontar de onde vem. Talvez tenha sido a extensão da minha leitura (quase o dobro do que normalmente levo para um livro desse tamanho), algo que sempre me incomoda.

Em sua estreia literária, Renée Knight conta sua história como um quebra-cabeças que desafia o leitor a descobrir o quanto primeiras impressões são confiáveis e o quanto qualquer história é apenas uma versão de algum acontecimento.

Título: Difamação (exemplar cedido pela editora)
Autora: Renée Knight
Nº de páginas: 235
Editora: Suma de Letras

sábado, 10 de outubro de 2015

RESENHA: Sonhos Partidos

“Mas cada pessoa adulta que você encontra na vida está arrastando atrás dela uma fileira invisível de muitos fantasmas, dos quais, quando se é criança, você é generosamente poupado de conhecer. 
Contudo, agora sei que esses fantasmas existem, e que outros adultos podem vê-los. Os amores perdidos, os amigos feridos, os mortos: eles seguem seus donos para sempre.” (WALSH, 2015, p. 141).

***

Assim que li a sinopse de Sonhos Partidos fiquei interessado em conhecer mais daquela estória, o que me motivou a ler a prova do livro no site da editora. E apenas três páginas foram suficientes para me convencer de que precisava ler a obra de estreia de M. O. Walsh. 

No verão de 1989 Lindy Simpson, com quinze anos de idade, foi atacada e estuprada perto de casa, em um bairro tranquilo da cidade de Baton Rouge. Considerando os parcos recursos daquela época, a polícia limitou-se a interrogar a vizinhança, e embora tenha identificado alguns suspeitos, o verdadeiro autor do crime nunca foi descoberto. 

Conhecemos esta estória através do olhar de um homem que, quando adolescente, era obcecado por Lindy, e por isso mesmo um dos suspeitos do crime. Não sabemos por que, dezessete anos depois do estupro, ele resolveu contar esta estória, tampouco se suas informações são confiáveis, e são estes aspectos que mais me interessaram durante a leitura. 

O fato do narrador ser, possivelmente, o autor do crime, deixa claro desde o início que ele poderia estar manipulando o leitor ao invés de estar relatando os fatos como realmente aconteceram, abrindo um leque de possibilidades. Assim, Walsh fazia com que o leitor acompanhasse a estória sempre com um pé atrás, aceitando o que era dito, mas também desconfiando. 

Fiquei impressionado com a capacidade do autor em expor todas as falhas e defeitos do protagonista, como seu amor obsessivo por Lindy, sua apatia em relação à família, e ainda assim conquistar o leitor. 

Curiosamente, o narrador sequer tem nome, fato este que apenas reparei no momento em que me pus a escrever esta resenha, o que denota o quanto o personagem foi bem construído, a ponto de sequer necessitar de um nome. 

Apesar da premissa parecer policial, classificaria Sonhos Partidos como uma mistura entre drama e suspense. A meu ver, o cerne da obra não é o mistério que cerca o estupro de Lindy, mas sim como este evento, entre outros, marcou a vida dos personagens e de certa forma moldou o futuro deles. 

Acima de tudo, Sonhos Partidos é um livro que faz refletir sobre os mais diversos assuntos, como a perda da inocência, as consequências da violência, o peso da culpa, o significado da família, a importância do perdão, entre tantos outros. Apesar da capa singela e até mesmo bucólica, uma metáfora para a tranquila cidade de Baton Rouge, não espere encontrar um livro leve. 

Encerrada a leitura, tudo o que tenho a dizer é que M. O. Walsh fez uma bela estreia com Sonhos Partidos e que mal posso esperar para conferir outros livros de sua autoria. 

Título: Sonhos Partidos (exemplar cedido pela editora)
Autor: M. O. Walsh
N. de páginas: 254
Editora: Intrínseca

terça-feira, 6 de outubro de 2015

RESENHA: Doutor Sono

Doutor Sono Stephen King
Depois da leitura de O Iluminado, admito que fiquei curioso para ler Doutor Sono apenas para saber o que teria acontecido com Danny, um dos mais interessantes personagens que King já criou. Mas fora essa curiosidade, admito que este livro nunca esteve no topo da minha lista de leituras obrigatórias. E foi neste estado de ânimo que acabei lendo um dos melhores livros do ano. 

Após viver anos assombrado pelos acontecimentos que ocorreram no Hotel Overlook, e sem saber como lidar com o alcoolismo e a violência herdados de seu pai, Dan Torrance finalmente encontra apoio para recomeçar sua vida do zero. É então que Dan conhece Abra Stone, uma garota que possui o mesmo dom que ele, porém, em uma escala muito maior. A vida deles dois irá cruzar com a seita denominada Verdadeiro Nó, que caça crianças iluminadas para realizar macabros rituais. 

O primeiro aspecto que fica claro durante a leitura é que a estória de Doutor Sono é muito natural. Imagino que muitos leitores e até mesmo editores devem ter indagado King sobre o que teria acontecido com Danny após os eventos de O Iluminado. Ainda assim, King publicou a continuação apenas trinta e seis anos depois, o que deixa explicito que o autor não criou uma estória qualquer para satisfazer uma demanda, mas que apenas se propôs a escrevê-la quando descobriu o que o futuro reservou ao garoto que era iluminado. 

E sim, Danny — agora Dan — continua sendo um personagem complexo e brilhante. Mas dessa vez, ele precisa dividir as luzes do palco com vários personagens. Merecem destaque Abra, a menina iluminada que ainda está descobrindo como usar seu poder e que se torna alvo da seita, e Rose, líder destemida e implacável do Verdadeiro Nó, uma vilã tão assustadoramente real que somente poderia ter saindo da mente de King.

“A vida era um disco, cuja única tarefa era girar, e que sempre voltava ao início.” (KING, 2014, p. 459)

Creio que a principal diferença entre O Iluminado e Doutor Sono é que o primeiro consiste no terror psicológico, afinal, vemos Jack Torrance perdendo o controle, e sentimos a aflição de Danny ao ver o que o Overlook está fazendo com seu pai. Já o segundo é um livro difícil de classificar, pois ao mesmo tempo que parte de uma premissa sobrenatural, divide-se entre o drama e o suspense. Mas a grande diferença é que Doutor Sono é absolutamente imprevisível. Desde o início fiquei me perguntando como o King iria entrelaçar tramas tão diversas, e o que iria acontecer no final e, para meu deleite, fui surpreendido a cada capítulo. 

E falando em tramas, este é outro aspecto que merece destaque. Na primeira metade do livro, King apenas desenvolve os três núcleos centrais, focando em apresentar os personagens e o contexto. Apesar de ter este caráter mais introdutório, é incrível como King consegue prender a atenção do leitor ao desenrolar dessas tramas secundárias, que se referem a apenas um desses núcleos, fazendo com que o restante da estória perca importância. 

Na segunda metade do livro, meu conselho é: respire fundo e se prepare para uma montanha russa de emoções. É nesse momento que a vida dos personagens começa a se cruzar com mais força, e King não poupa o leitor: é tanta ação, adrenalina e reviravoltas, que é simplesmente impossível parar de ler. E para deixar claro, isto não é um mero eufemismo, pois li mais de duzentas páginas em uma só noite. 

O desfecho é tão empolgante e eletrizante quanto a jornada, sendo que todas as pontas são devidamente amarradas. Porém, minha única crítica ao livro se resume a isto: me pareceu que em determinada ocasião King reciclou uma ideia já explorada em outro livro em um dos momentos chave de Doutor Sono. Mas, é claro que tal deslize não foi o suficiente para ofuscar a genialidade da obra. 

Também não posso deixar de falar de como King aborda o alcoolismo com propriedade, deixando claro que fala por experiência própria. Mas, ao mesmo tempo em que possui conhecimento de causa, o autor não despeja informações desnecessárias, tampouco dá lições de vida. 

Encerro a resenha reconhecendo que não fiz jus ao livro e enfatizando que Doutor Sono se tornou um dos meus livros preferidos de Stephen King. Agora, resta torcer para que esta continuação inesperada também ganhe uma continuação, desta vez enfocando em Abra, uma personagem tão rica quanto Dan. E, sinceramente, não me importo em esperar por mais trinta anos se a qualidade da obra estiver no mesmo nível de Doutor Sono. Sei que valerá a pena.

Título: Doutor Sono
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 472
Editora: Suma de Letras

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

RESENHA: Joyland

“Quando se tem vinte e um anos, a vida é um mapa rodoviário. Só quando se chega aos vinte e cinco, mais ou menos, é que se começa a desconfiar que estávamos olhando para o mapa de cabeça para baixo, e apenas aos quarenta temos certeza absoluta disso. Quando se chega aos sessenta, vai por mim, já se está completamente perdido.” (KING, 2015, p. 20)

***

Quem acompanha o blog sabe que considero Stephen King o tipo de autor que dispensa sinopse. Não preciso saber sobre o que se trata o livro para ter vontade de lê-lo, pois ver seu nome na capa já é o suficiente. E foi assim que comecei a leitura de Joyland, sem saber para onde o autor pretendia me levar.  

Devin Jones é um estudante de letras que, durante as férias de verão de 1973, decide trabalhar no parque de diversões Joyland. Ainda lidando com uma decepção amorosa, Dev faz bons amigos e descobre um episódio sinistro do parque: um serial killer matou a jovem Linda Grey no trem fantasma, e diz a lenda que seu espírito ainda vaga pelo brinquedo. Além de investigar o caso, Dev também irá conhecer Mike, um garoto de saúde frágil e que tem um dom especial. 

Joyland me fez perceber como nas mãos de Stephen King uma estória que tinha tudo para ser banal ou corriqueira se torna algo monumental. Mesmo em um cenário quase idílico como um parque de diversões à beira-mar, mesmo com eventos que se desenrolam basicamente em virtude do trabalho em Joyland, King encontra uma fonte quase que inesgotável para falar sobre temas como amor, amizade, dor e morte. 

Já mencionei por aqui o quanto me impressiono com a habilidade do King em construir personagens complexos, com diversas facetas, que não são bons ou ruins, mas apenas seres humanos, com qualidades e defeitos. Mais uma vez o autor consegue criar um protagonista fantástico e que logo conquista a empatia do leitor. Também não posso deixar de expressar minha incredulidade com o fato de que King conseguiu transformar até mesmo um parque de diversões em personagem. 

O que me surpreende é que mesmo após ter escrito mais de cinquenta livros, King continua achando vozes diferentes para contar suas estórias. O estilo do autor é inconfundível, mas a voz do narrador é diferente de tudo o que já vi em suas obras. Devin narra os episódios vivenciados em Joyland anos depois, e o leitor rapidamente percebe o amadurecimento e até mesmo a nostalgia do personagem, sem deixar de entender quem era o Devin apaixonado, de coração quebrado e ingênuo de vinte e um anos.  

Embora a investigação sobre o assassinato de Linda Grey seja uma parte importante do livro, não classificaria Joyland como um livro policial. A obra conta com drama, romance, sobrenatural, suspense e também policial e apesar desta mistura um tanto exótica, King sabe como explorar os elementos de cada gênero, sempre flertando com o verdadeiro cerne da estória: a evolução de Devin e o impacto dos acontecimentos do verão de 73 em sua vida.  

Apesar da investigação ser empolgante, não posso dizer que me surpreendi com a resolução do mistério, e até acho que esta era a intenção do autor, que não queria tirar a atenção do real foco da estória. Mas, ainda assim, preciso parabenizar King pelo desfecho do livro, literalmente de tirar o fôlego e fazer o coração acelerar. 

Creio que apenas não gostei mais de Joyland por que meu tempo de leitura era exíguo e demorei mais tempo do que planejava para encerrá-la. Tenho certeza que se tivesse lido mais rápido, teria me envolvido mais com a estória e com seus personagens, motivo pelo qual já estou planejando uma releitura. 

Joyland é a prova cabal de que Stephen King não é apenas um autor de terror, mas sim um escritor que consegue transitar entre diversos gêneros com facilidade e ser bem sucedido. Com personagens memoráveis, uma narrativa sensível e uma trama despretensiosamente arrebatadora, Joyland é o livro ideal para apresentar o autor àqueles que ainda não tiveram nenhum contato com sua obra, mas que também irá encantar aqueles que já são fãs. 

Título: Joyland (exemplar cedido pela editora)
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 239
Editora: Suma de Letras

segunda-feira, 11 de maio de 2015

RESENHA: Escuridão total, sem estrelas

“Ele achava que, até mesmo no inferno, as pessoas ganhavam um gole d’água de vez em quando, nem que fosse para perceberem melhor o completo horror de uma sede não satisfeita quando voltassem a senti-la” (KING, p.294, 2015)

Houve um tempo em que eu costumava ter preconceito com contos por achar que o número reduzido de páginas impedia um maior desenvolvimento de personagens e trama. Se eu já não tivesse deixado essa bobagem para trás, “Escuridão total, sem estrelas” teria me obrigado a fazê-lo. Porque em 390 páginas, Stephen King apresenta 4 histórias curtas intensas, repletas de suspense e surpresas e cujo maior mérito está justamento no desenvolvimento psicológico de seus personagens.

“Escuridão total, sem estrelas” é a representação do que mais me agrada nas histórias de King. Pessoas vivendo suas vidas normais até que algo inesperado as tira do rumo e muda tudo. O interessante não é a situação em si, mas sim o comportamento dessas pessoas. Como elas se ajustam a nova realidade e o que fazem a partir dela. É claro que, em se tratando de Stephen King, o que vem pela frente é perturbador, mas não se engane achando que esse é um livro de seres sobrenaturais. Perturbador é testemunhar através desses contos o que as pessoas são capazes de fazer quando levadas a extremos ou tentadas ou ainda deparadas com o inesperado. Perturbador mesmo é o quão humanas elas são capazes de ser.

Em “1922”, conto que abre essa impecável coletânea, um homem prestes a perder suas terras decide que a melhor coisa a fazer é se livrar da esposa e convence o filho de 14 anos a ajudá-lo. Na forma de carta, escrita oito anos após os acontecimentos, o autor já revela nas primeiras linhas que os personagens cometerão esse ato e escaparão impunes da lei. O suspense se constrói ao redor do que essa ação desencadeou e as outras punições que precisaram encarar. “1922” é intenso do início ao fim, conta com milhares de pequenas reviravoltas e ainda traz um desfecho de tirar o fôlego.

Em “Gigante do Volante” uma escritora de livros de mistério está voltando de uma palestra quando é estuprada pelo caminhoneiro que a ajuda a trocar um pneu furado. Esse é o ponto de partida para mostrar como um evento isolado pode fazer uma pessoa descobrir uma faceta que não sabia que tinha e que a leva a atos que jamais pensou que poderia cometer. A narrativa em terceira pessoa transmite toda a angústia da personagem como se fosse narrada por ela própria e mostra que a violência do ato em si não é nada comparada ao terror que se cria na cabeça da pessoa que vivenciou e precisa continuar lidando com isso mesmo depois que está em casa salva. “Gigante do Volante” é uma história sobre vingança e ganhou as telas em 2014 no filme “Big Driver”, com Tess Thorne no papel principal.

“Extensão Justa” é o mais curto dos quatro contos (meras 36 páginas) e uma história típica de Stephen King, em que uma fagulha de sobrenatural é usada para despertar as mais humanas reações nos personagens. Um homem que tem câncer terminal se depara com um estranho negociante que lhe propõe uma extensão de seus dias. Mas isso, claro, vem com um preço a ser pago, porém não por ele, nem pelas pessoas que ele ama, mas sim por alguém que ele odeia. O que leva o protagonista a escolher a vítima que escolhe, o que ele assiste acontecer com a pessoa e como ele reage às mudanças em sua própria vida fazem de “Extensão Justa” provavelmente o mais complexo desses contos, mesmo sendo tão curto.

E como se King já não tivesse deixado claro que as pessoas são capazes de tudo, o autor encerra a coletânea com “Um bom casamento”, mostrando que nunca se pode ter certeza de conhecer de verdade uma pessoa. No conto, uma mulher descobre uma caixa na garagem que lhe revela que o homem com quem vive casada e feliz há vinte anos pode não ser a pessoa que ela achou que fosse. Como lidar com a verdade e o que fazer diante dela, sabendo que se não fosse um pequeno acidente ela permaneceria desconhecida e sua vida continuaria como vem sendo pelas últimas duas décadas? Anthony LaPaglia e Joan Allen estrelam a adaptação “A Good Marriage” (ainda sem título no Brasil) que chega aos cinemas em 2015.

Ganância, vingança, orgulho, egoísmo, ilusão, traição, remorso e vergonha dão forma a esses quatro contos. São todas situações de extrema violência, mas não violência física e sim psicológica. São atos e pensamentos agressivos e brutais. Em “Escuridão total, sem estrelas” não existem cenas gratuitas ou de violência explícita porque o foco das histórias está no impacto psicológico que essas situações têm sobre os personagens. Stephen King se revela genial, mais uma vez, porque as situações nunca são mais importantes que seus personagens e o autor os leva a extremos, deixando-os sangrar, metaforicamente, e aproveitando cada gotinha que pinga. King mostra que a maldade nasce de algum lugar (ou sempre esteve ali e apenas foi despertada?) e o mais provável é que esse lugar faça parte do cotidiano. Existe uma razão por trás de tudo, mas razão não é sinônimo de justificativa.

Em um posfácio, o autor explica como foi para ele escrever essas histórias e de onde surgiram as ideias e inspirações para elas, indo de uma cena que viu na estrada a fotos de jornais ou a perturbadora história do assassino BTK.

São poucos os livros de contos que apresentam uma qualidade constante como “Escuridão total, sem estrelas”, de forma que se torna difícil eleger um conto favorito, já que cada um tem algo que o torna fascinante. Cada um tem um ritmo, um dilema e gera uma reflexão que o torna memorável.

Vencedor do Bram Stoker e do British Fantasy, ambos na categoria melhor coletânea, “Escuridão total, sem estrelas” é um desfile de bons personagens em situações de extrema tensão. Um dos melhores livros que já li de Stephen King.

Título: Escuridão total, sem estrelas (exemplar cedido pela editora)
Autor: Stephen King
Nº de páginas: 390
Editora: Suma de Letras

terça-feira, 31 de março de 2015

RESENHA: A Fazenda

“Mas não importa que sejam mentiras, porque quando você mora em uma comunidade que acredita nessas mentiras, repete essas mentiras, as mentiras se tornam reais – reais para você, reais para os outros. Você não tem como escapar delas, porque não é uma questão de provas, é maldade, e maldade não precisa de provas.” (SMITH, p. 131, 2015)

Minhas experiências com “Criança 44” e “O Discurso Secreto” foram boas o suficiente para eu ter certeza que leria qualquer livro de Tom Rob Smith, independente da sinopse. “A Fazenda” não foi tudo o que eu esperava do autor, mas foi um bom entretenimento.

Durante toda a sua vida, Daniel testemunhou o relacionamento perfeito de seus pais e quando eles decidiram encerrar o negócio que mantiveram por anos e se mudar para uma fazenda na Suécia, esse devia ser o início de uma nova etapa nas suas vidas. Daniel, porém, quase não manteve contato já que a distância dos pais era uma desculpa para ele continuar a manter sua vida particular em segredo. Ele achava que estava tudo bem, até o dia em que seu pai lhe telefona, dizendo que sua mãe está internada em um hospital e que foi diagnosticada como psicótica. Preocupado, Daniel compra uma passagem para a Suécia, mas antes que embarque, a mãe lhe telefona. Seu pedido é que não acredite em uma palavra do que o pai disse. Ele é um mentiroso e um criminoso. Ela não é louca e não precisa de médicos. O que precisa é da polícia. A partir disso, Daniel fica entre duas versões perturbadoras da mesma história.

Eu lembrava de Tom Rob Smith como um autor de narrativa detalhada e bem escrita, mas o que encontrei em “A Fazenda” foi muito mais fluidez do que as características que minha lembrança guardava. O autor consegue impulsionar o leitor de forma que se torna impossível largar o livro, tanto que eu mal havia começado a leitura e quando vi já estava na página 100.

O livro é construído com trechos curtos, intercalando duas narrativas em primeira pessoa: o relato da mãe de Daniel sobre o que aconteceu no verão, e do próprio Daniel diante de tal relato.

Como já sabemos desde o início que o relato de Tilde – a mãe de Daniel - pode ser um delírio, a personagem se configura como uma narradora não-confiável, já que não importa o quanto ela acredite na história que conta, só temos a palavra dela de que as coisas aconteceram daquela maneira. Mas acreditamos? Embora faça sentido em alguns momentos, em outros o relato parece fruto de alguém que tem mania de perseguição e é isso que mantém o interesse do leitor na história. Para mim, o que aconteceu durante o verão na tal fazenda sueca não era nem de longe tão interessante quanto a consequência desses eventos na dinâmica dessa família. Ao contar uma história em que o marido diz que a esposa está louca e a esposa o acusa de ser um criminoso, estando seu filho no meio das duas versões, Smith cria uma série de perguntas a partir de uma inicial: a história de Tilde é verdadeira ou ela está delirando? Ou seja, quem fala a verdade: ela ou Chris (seu marido)? Se é Tilde, como as lacunas se preenchem e por que o antes sempre dedicado marido se voltou contra ela e se envolveu em um crime? Se é Chris, o que de fato aconteceu que levou Tilde a ter uma interpretação tão errônea e como essa mulher que sempre foi centrada e racional teve um surto psicótico em poucos meses? Por fim, independente de quem fala a verdade, nenhum dos cenários é bom para Daniel já que ou sua mãe está louca ou seu pai é um criminoso. Diante disso, qual será sua reação ao descobrir a verdade? Independente das respostas, a dinâmica dessa família nunca mais será a mesma e, a meu ver, essas consequências são muito mais interessantes do que o mistério da fazenda.

Essa é a razão que me impede de dizer que “A Fazenda” é um ótimo livro. Embora tenha devorado suas páginas, eu não consegui me interessar pela história que Tilde contava. Talvez a intenção do autor tenha sido mesmo fazer com que a história fosse sobre a família e não sobre os eventos do verão, mas para mim ficou faltando um algo a mais.

Além disso, em uma história que se configura desde o início por ser uma coisa ou outra (ou Tilde é louca, ou Chris é criminoso), optar por uma resposta extrema seria simplório e pouco surpreendente, mas Smith consegue criar um desfecho adequado que não faz com que o leitor se sinta enganado. Embora eu não tenha gostado de algumas respostas, considero aceitável o final proposto pelo autor.

Entre erros e certos, acredito que Smith entrega um bom livro de maneira geral. “A Fazenda” não tem o capricho de desenvolvimento de personagens e intrigas de seus primeiros livros, mas mantém o leitor envolvido da primeira à última página.

Título: A Fazenda (exemplar cedido pela editora)
Autor: Tom Rob Smith
Nº de páginas: 333
Editora: Record

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

RESENHA: Filme Noturno

“Quanto mais perto você chega dele, a velocidade da luz diminui, a informação fica confusa, mentes racionais se tornam ilógicas, histéricas. É um espaço-tempo torto, como a massa de um sol gigantesco curvando a região que o cerca. Você se estica para pegar algo perto e descobre que nunca esteve ali.” (PESSL, 2014, p.336)

Ashley Cordova é encontrada morta aos 24 anos de aparente suicídio e sua morte desperta o interesse do jornalista investigativo Scott McGrath. McGrath tem um histórico com a família de Ashley já que o misterioso cineasta Stanislas Cordova, pai da moça, foi o alvo de uma investigação prévia que acabou custando o emprego e a família do jornalista há alguns anos. Para investigar Ashley, McGrath precisará adentrar mais uma vez o bizarro e aterrorizante mundo criado por Cordova em seus filmes e para isso contará com a ajuda de Hopper e Nora que tiveram contato com a moça pouco antes da sua morte.

O primeiro destaque de “Filme Noturno” é sua narrativa incomum, recheada de fotos, trechos de jornais, revistas e sites e diversos tipos de relatos e anotações. Além de deixar a edição linda, de alguma forma essa estratégia faz com que a história pareça ainda mais real, pois é como se a autora colocasse a investigação nas mãos do leitor tanto quanto a deixa na dos personagens, dizendo: “Você está em posse das mesmas evidências. Vá fundo e descubra por conta própria”. Outro fator que contribui para acreditarmos que tudo é real é contextualização dos filmes do Cordova. Conhecemos os roteiros de seus filmes, algumas histórias de bastidores e vemos o tempo inteiro menções a filmes que de fato existem. Assim, é fácil acreditar que a obra do diretor é real e, a partir do momento em que se acredita nisso, se acredita em todo o resto, o que faz de “Filme Noturno” uma experiência que absorve o leitor para dentro de suas páginas e não o deixa sair até o final.

O ritmo é envolvente desde as primeiras páginas e mesmo não contando com reviravoltas de tirar o fôlego a trama não decepciona, pelo contrário. Ao invés de guardar surpresas para o final, o que Marisha faz é espalhar informações ao longo do livro e juntá-las aos poucos, até que no final tudo faz sentido. Ainda assim, a autora brinca com o leitor e o surpreende, mostrando a engenhosidade de sua trama. A verdade é que “Filme Noturno” conta uma história que poderia ter dado muito errado, mas Marisha Pessl acerta em cheio na execução. Tudo soa tão real que eu acabei aceitando algo que jamais aceitaria em outros livros. Isso porque não parece que o desfecho é algo que alguém escolheu para uma história e sim o que de fato aconteceu aos personagens. Na verdade, é de maneira geral Marisha se revela hábil em fazer o leitor acreditar que o que está lendo não é apenas uma história inventada para um livro.

Os personagens são poucos, mas todos bem construídos. Quanto ao trio protagonista, Hopper (o que mais se destacou para mim) é o mais misterioso a princípio devido ao seu passado e seu relacionamento com Ashley; Nora é a menina que vai para Nova York tentar a vida como atriz e aos poucos mostra o seu valor e cativa ambos os personagens; McGrath é aquele que decide descobrir a verdade e irá até o fim para encontrá-la. Sendo o protagonista e narrador, achei curioso que fosse o menos interessante dentre os três, mas isso possivelmente se dá porque, acompanhando a história por seu ponto de vista, qualquer mistério sobre ele se perde, já que temos acesso à sua consciência, enquanto a dos outros é revelada aos poucos.

Mas a essência da história está mesmo em Ashley e Cordova (esse último o responsável por me deixar mais curiosa a cada página, na expectativa de conhecê-lo ou, pelo menos, entendê-lo melhor). Cordova é o mistério a ser revelado. A história é misteriosa porque ele é.

O que torna o livro interessante desde o começo é que as duas histórias (da morte de Ashley e do universo criado por Cordova, tanto em seus filmes quanto ao seu redor) se entrelaçam e é difícil dizer sobre qual se trata o livro já que uma se sobrepõe a outra o tempo todo. Eu diria que a história é sobre o diretor e que Ashley é a desculpa para ela nos ser contada. Recluso, intenso, a favor de experiências que tirem as pessoas de suas zonas de conforto, as deixando perturbadas sem jamais poderem voltar a serem as mesmas. Esse é Stanislas Cordova. Esse é o mundo que cria em seus filmes, que cerca os que têm contato com sua obra, que McGrath, Nora e Hopper se propõem a adentrar e que Marisha Pessl tenta trazer para o leitor. Mas não entenda com isso que o livro é assustador. Mesmo se valendo de temas como o sobrenatural, ocultismo e rituais e girando em torno do bizarro, o livro está longe de ser classificado como terror, sendo apenas um bom suspense.

Enigmático e envolvente. Esse é “Filme Noturno”.

Título: Filme Noturno (exemplar cedido pela editora)
Autora: Marisha Pessl
Nº de páginas: 624
Editora: Intrínseca

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

RESENHA: Perdido em Marte

“Ainda mais precioso é o meu adubo. É fundamental para a plantação de batatas e sou a única fonte em Marte. Felizmente, quando se passa muito tempo no espaço, aprende-se a defecar em um saco. E, se você acha que a situação é ruim depois de abrir a caixa de xixi, imagine o cheiro depois de eu largar o barro.” (WEIR, 2014, p. 92)

***

Perdido em Marte foi mais um livro que não me chamou atenção quando de seu lançamento no Brasil, mas quando o vi na lista de 100 Melhores Livros de 2014 na Amazon americana, passei a olhá-lo com outros olhos. Se estava indeciso, tudo o que foi preciso foi ver os inúmeros elogios a obra, tanto do público, quanto da crítica. 

Mark Watney foi o décimo sétimo homem a pisar em Marte. Quando a tripulação da missão Ares 3 é surpreendida por uma forte tempestade de areia, eles decidem rapidamente deixar para trás o planeta vermelho. Porém, no momento em que se dirigiam para a nave, Mark é atingido por uma parabólica de comunicação, e todos imaginam que ele morreu, Dessa forma, Mark se torna o primeiro homem a ser abandonado em Marte.

Desde a primeira vez que li a sinopse de Perdido em Marte, fiquei com a impressão de que a ideia era promissora, mas que tinha muito potencial para não funcionar. Felizmente, Andy Weir não teve apenas uma ideia fantástica, mas soube executá-la com maestria. 

Vamos combinar que alguém abandonado em Marte e com poucas chances de sobrevivência tem tudo para ser amargurado. Porém, Mark é um protagonista carismático e bem-humorado, que não fica se lamentando quando as coisas dão errado, e que faz de tudo para sobreviver. A verdade é que teria sido impossível acompanhar até o final um personagem que não tivesse a personalidade e a visão de mundo de Mark. 

Perdido em Marte em muito me lembrou o clássico (e excelente) filme Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo, estrelado por Tom Hanks. Assim como no filme, Mark luta pela sobrevivência em um ambiente inóspito, improvisando soluções a cada novo problema, e mostrando a engenhosidade do ser humano quando a vida está em jogo. 

A estrutura do livro não poderia ser melhor. Ao mesmo tempo em que acompanhamos o diário de bordo, no qual Mark relata suas aventuras em Marte, conquistando rapidamente a empatia do leitor, também assistimos de perto tudo o que está sendo feito pela NASA para salvar o astronauta deixado para trás. A mescla entre primeira e terceira pessoa, além de ser justificável, funcionou perfeitamente. 

Minha única crítica é o nível de detalhes científicos/matemáticos que o autor faz questão de fornecer sobre cada situação adversa que Mark enfrentava, desde pressão, níveis de oxigênio e CO2, aquecimento, reaproveitamento de água, entre outros assuntos mais complicados. Fica claro que o autor fez uma pesquisa extensa e sabe do que está falando — tanto é que Chris Hadfield, comandante da Estação Espacial Internacional, elogiou o trabalho de Weir por sua verossimilhança —, mas para o leitor comum, a quantidade de explicações pode ser um pouco entediante. Confesso que não devo ter absorvido nem metade desses detalhes técnicos.

O desfecho do livro é literalmente de tirar o fôlego, pois exala tensão e adrenalina, sendo impossível interromper a leitura. Embora o encerramento seja um tanto abrupto, e poderia tranquilamente contar com um epílogo para satisfazer os leitores mais curiosos, não é suficiente para tirar o brilho da obra. 

Fazendo uma mistura um tanto excêntrica de ficção científica, aventura e suspense, regado com doses generosas de humor, Perdido em Marte é um livro que surpreende da primeira à última página, e que certamente marca o nome de Andy Weir na literatura contemporânea. 

Perdido em Marte ganhará uma adaptação cinematográfica, dirigida por Ridley Scott e estrelada por Matt Damon. 

Título: Perdido em Marte (exemplar cedido pela editora)
Autor: Andy Weir
N.º de páginas: 335
Editora: Arqueiro

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

RESENHA: Misery - Louca Obsessão

“Não era sonho. Só mais um dia no parque de diversões de Annie Wilkes.” (KING, 2014, p.167) 

“Misery” estava no topo da lista de livros do mestre Stephen King que eu queria ler e, ao final do ano passado, foi eleito a minha maior expectativa literária para 2014. Contudo, conhecimentos prévios que eu tinha sobre a trama atrapalharam de certa forma o meu envolvimento com a história, dando a sensação de que já sabia onde tudo ia dar. Mas esses foram momentos que logo depois se anulavam graças a outros completamente envolventes e mesmo com tanta expectativa envolvida, o livro não decepcionou.

O escritor Paul Sheldon sofre um grave acidente de carro e acorda dias depois para se descobrir sob os cuidados de Annie Wilkes, sua fã número um. Sentindo dores terríveis e sem poder se locomover, Paul logo entende que está na posição de prisioneiro mais do que de paciente de uma mulher perigosamente louca, cuja intenção é fazê-lo corrigir o erro terrível que cometeu em seu último livro: ter matado a mocinha Misery. Para conseguir o que quer, Annie se vale de métodos assustadores que, aos poucos, fazem com que o maior medo de Paul não seja perder a vida e sim continuar vivendo sob o mesmo teto que sua fã.

São poucos os livros que funcionam com base na interação de apenas dois personagens, especialmente quando toda a ação se desenrola dentro de uma casa, a maior parte em um único quarto. Mas nas mãos de Stephen King, isso se torna um livro angustiante (não é à toa que anteriormente “Misery” foi publicado sob o título “Angústia”).

A trama em si é muito simples e não existem reviravoltas. O que vemos na primeira página é o que continuamos a ver até a última: esse escritor que após um acidente se torna prisioneiro de uma fã maluca. Isso não significa que o livro se mantém estagnado. Pelo contrário. Adquirindo contornos de duelo mental entre Paul e Annie, os acontecimentos se intensificam como um reflexo da loucura de Annie que escala a cada página.

Diante da simplicidade da premissa, Annie Wilkes se revela a alma do livro e uma das melhores personagens criadas por Stephen King, na minha opinião. Em poucas palavras, Annie é desequilibrada e completamente louca. Aquele tipo de personagem do qual se espera qualquer coisa. A prova disso é que durante a leitura eu me pegava pensando: “E agora? O que ela vai fazer dessa vez?”.

Para mim, é a imprevisibilidade de Annie que propulsiona a leitura, mesmo que acompanhemos a história pela perspectiva de Paul. Esse, aliás, é um acerto de King. Já na primeira página, a partir do momento em que Paul recobra a consciência e seu pesadelo tem início, ao leitor é dada a oportunidade de viver esse pesadelo ao lado do personagem.

Uma das coisas que me atraiu em “Misery” foi ver como o King lidaria com uma trama que envolve um núcleo tão pequeno de personagens (característica que não é comum observarmos em seus livros). E ele se sai muito bem, desenvolvendo duas personalidades fortes e jogando-as em uma situação tensa. O medo, tão associado à obra do autor, não é despertado graças ao sobrenatural e sim a uma mente desequilibrada.

Acredito que “Misery” seja uma ótima escolha para quem nunca leu Stephen King, não se arrisca a começar por livros que beiram (ou às vezes ultrapassam) as mil páginas e tem certa desconfiança de histórias de cunho sobrenatural. A história de Paul e Annie é um suspense simples, mas muito eficiente. 

“Misery” recebeu uma adaptação cinematográfica que se tornou tão famosa quanto a obra original. Dirigido por Rob Reiner (responsável também pela adaptação de “Conta Comigo”, baseada no conto “O Corpo” de King) e estrelado por Kathy Bates e James Caan, “Louca Obsessão” rendeu a Bates o Oscar de Melhor Atriz.

Título: Misery – Louca Obsessão
Autor: Stephen King
Nº de páginas: 326
Editora: Suma de Letras

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

RESENHA: O Pintassilgo

O Pintassilgo Donna Tartt
Sucesso de público e vendas, aclamado por escritores e críticos, e laureado com o Pulitzer de literatura. O Pintassilgo foi um dos livros mais comentados do ano passado, acumulando os mais diversos elogios e conferindo a Donna Tartt o título de uma das cem pessoas mais influentes do mundo da revista TIME.

Theo Decker é um dos sobreviventes de um ataque terrorista ao Metropolitan Museum of Art, que ceifa a vida de sua mãe. Theo sofre apenas pequenas lesões, e enquanto luta para sair do meio dos escombros e dos corpos das vítimas, decide levar consigo o quadro “O Pintassilgo” de Carel Fabritius. A partir da morte da mãe, todo o seu destino será reescrito, desde as tribulações da adolescência até as responsabilidades da vida adulta. 

Inicialmente, a narrativa se mostrou bastante arrastada. Tal característica apenas é superada quando a parte introdutória do livro termina, e a premissa passa a ser realmente explorada. A partir de então, a leitura assume contornos mais fluídos, sobretudo pelo próprio laço que o leitor rapidamente desenvolve com Theo. 

Além de um protagonista cativante, o envolvimento com a obra se dá pela curiosidade do leitor sobre os acontecimentos que virão a seguir. Acrescente-se a isto que a gama de assuntos abordados no livro é extensa, e o luto é apenas o primeiro (e mais óbvio) deles. O grande diferencial é que Donna Tartt não se propôs a escrever sobre tais temas, mas sim a criar uma estória em que o leitor percebe-se como eles se relacionam, gerando momentos de reflexão. Fazia tempo que não me envolvia tanto com um livro, a ponto de refletir sobre ele enquanto estava ocupado com as tarefas do dia a dia, chegando até mesmo a sonhar com a obra. 

Por conta de O Pintassilgo, Donna Tartt foi comparada a grandes nomes da literatura, em especial com Charles Dickens (influência esta reconhecida pela própria autora), e certamente entendo o porquê. Li apenas um livro de Dickens, mas já foi o suficiente para perceber o cuidado do autor em não “mastigar” todos os acontecimentos, deixando a cargo do leitor interpretar as informações que estão nas entrelinhas. Nesse sentido, Tartt conseguiu mostrar inúmeras facetas da trama e dos personagens utilizando-se do mesmo recurso de Dickens.

“Mas às vezes, inesperadamente, a dor me atingia em ondas que me deixavam sem ar; e, quando as ondas recuavam, eu me via olhando para os destroços repulsivos de um naufrágio, iluminados por uma luz tão lucida, tão deprimente e tão vazia que eu mal conseguia lembrar que o mundo algum dia chegara a ser algo que não morte.” (TARTT, 2014, p. 84).

Como o livro é narrado por Theo e cobre um período de aproximadamente doze anos, e sendo a jornada da protagonista o cerne da obra, é evidente que o livro terá altos e baixos. Afinal, a vida real também é assim, contendo acontecimentos interessantíssimos e outros monótonos. Considerando esta “montanha russa”, creio que se o livro fosse um pouco mais conciso não haveria tempo do leitor perceber estes momentos de declínio. 

Creio ser um fato pacífico que O Pintassilgo é uma obra de difícil classificação. Afinal, o cerne da estória é a atribulada vida de Theo, da adolescência a vida adulta, então, em alguns momentos destaca-se o drama e o romance, em outros o suspense e até mesmo o thriller. Igualmente chama atenção o fato de que o livro é quase que totalmente imprevisível, surpreendendo os leitores em diversas ocasiões. 

Theo é um dos melhores protagonistas que vi nos últimos tempos, pois foi delineado com profundidade incomparável. Temos um personagem em luto, em um período já conturbado da vida, que perde tudo o que lhe é familiar. Sua vida como conhecia passa a desvanecer a cada dia, e lhe é imposta a árdua tarefa de se adaptar. Creio que o ponto alto do livro são os relacionamentos travados por Theo com os mais diferentes tipos de pessoas e como eles determinam ou influenciam a evolução do protagonista. 

Entretanto, preciso dizer que O Pintassilgo é um livro que demanda maturidade do leitor. E não apenas maturidade para entender todas as suas complexas camadas, mas sobretudo para apreciar a obra em toda a sua magnitude. Por isso mesmo, este é um livro que certamente pretendo reler.

O saldo final é positivo e sinto-me obrigado a concordar com Stephen King: este de fato é um livro raro. O Pintassilgo foi uma leitura impactante e envolvente, que faz o leitor refletir a todo instante e que surpreende por sua profundidade. Ainda assim, cheguei ao final com um gostinho de “esperava mais”. Afinal, foram tantos os elogios que aguardei por aquele “que a mais” durante o decorrer da leitura e que acabei não encontrando. 

Encerro dizendo que seria muito fácil escrever um tratado sobre este livro, pois material para a análise é o que não falta. Mas seria impossível prosseguir sem correr o risco de spoilers, então encerro a resenha por aqui, ainda que com a ciência de que não fiz jus ao livro. 

Título: O Pintassilgo 
Autora: Donna Tartt
N.º de páginas: 719
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

RESENHA: Psicose

Psicose // Robert Bloch // Alfred Hitchcock // Editora Darkside
Eu adoro os filmes de Alfred Hitchcock, mas curiosamente o lendário “Psicose” não ocupa o topo da minha lista de preferências e foi só com o lançamento das edições caprichadíssimas da Editora Darkside que eu descobri que o filme fora inspirado em um livro.

Norman Bates é um homem solitário cujos dias giram em torno da convivência com mãe dominadora e a gerência do seu pequeno motel de beira de estrada, cujo movimento diminuiu drasticamente depois de inaugurada a nova rodovia. Mary Crane é uma jovem cheia de sonhos – o principal deles casar com seu noivo endividado – que rouba uma expressiva soma em dinheiro. Quando, em uma noite chuvosa que a leva a se perder no caminho, ela foge e se hospeda no Bates Motel, o destino dos personagens se cruza.

Hitchcock tinha o talento de transformar até mesmo histórias medíocres em obras de arte. Mas isso não se aplica à “Psicose” que é uma história muito interessante, principalmente se analisarmos a época em que o livro de Bloch foi lançado (1959). Nesse momento, tomarei cuidados extras para não arriscar dar spoiler para qualquer pessoa que não saiba o mistério por trás de “Psicose”, basta dizer que se hoje o tema já foi usado inúmeras vezes, na época, sem dúvida, foi um verdadeiro choque e ousado por inúmeras razões (o que fica claro no livro ‘Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose”).

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a maneira como Bloch consegue apresentar os personagens com absoluta clareza já no primeiro capítulo. Com poucas páginas, já é possível sentir que conhecemos Norman, sua mãe e a dinâmica doentia que existe entre eles.

A narrativa do autor é ágil e não perde tempo com descrições desnecessárias. Na verdade, muito mais que ambientações e contextualizações, “Psicose” é um livro de ações e toda a narrativa gira em torno, basicamente, do que acontece e do que os personagens fazem. Aconteceu isso, isso e então aquilo. Direto assim. O que faz com que o livro seja bastante enxuto (na verdade, ele só atinge a casa das duzentas páginas graças ao primoroso trabalho gráfico desta edição).

“Na verdade, ele sentiu os passos, mas sem realmente ouvi-los; a antiga familiaridade ajudava os seus sentidos. Cada vez que a Mãe entrava em um aposento, nem precisava olhar para saber que ela estava ali.” (BLOCH, 2013, p.17)

Algo muito interessante em “Psicose” é como a história muda, não sendo o que aparenta ser. Se na primeira parte acreditamos ser sobre Mary Crane, logo vemos que os protagonistas são outros e a morte daquela que antes julgávamos ser a protagonista (a mocinha da história) é apenas o ponto de partida (e essa é apenas uma das razões pelas quais o livro de Bloch foi tão inovador na ocasião do seu lançamento. Não bastasse a mocinha morrer, ela o faz ainda no começo da história). Brilhante.

Sabemos que, muitas vezes e pelos mais diversos motivos, as adaptações cinematográficas de livros não conseguem ser fieis às obras originais. Mas isso não acontece com "Psicose". Com exceção de pequenos detalhes, absolutamente tudo que está no filme saiu do livro, assim como tudo que está no livro foi para o filme. Portanto, se você é um fã ávido do filme de Hitchcock e teme ter sua visão da história dos Bates arruinada ao vivenciá-la em outra versão, não se preocupe. Ao ler “Psicose”, você vai enxergar o filme em sua cabeça o tempo todo e se isso pode estragar alguns livros, não é esse o caso. Para mim só enriqueceu a experiência. De qualquer forma, não importa o quanto se saiba sobre a história, o último capítulo não é nada menos que sensacional e na cena da grande descoberta, tudo que eu pensava era: “É agora! É agora!”.

Psicose” é um bom livro, mas não resta dúvidas de que Hitchcock o elevou a outro patamar. A lendária cena do chuveiro, por exemplo, (que foi o que chamou a atenção do diretor para transformar o livro de Bloch em filme) ao ser analisada cruamente, não é tão impactante nas páginas quanto na tela. Mas se você assistiu ao filme, a expectativa a partir do momento que Mary (Marion no filme) entra no banheiro é estratosférica.

Por coisas assim, não consegui deixar de pensar que, talvez, se não fosse o filme “Psicose”, o livro “Psicose” teria caído no esquecimento, soterrado por inúmeros outros que o seguiram. Felizmente, não foi o que aconteceu e hoje filme e livro se complementam.

Tanto é difícil separar um do outro que a Editora Darkside fez uma edição especialíssima em capa dura que inclui fotos do filme e até mesmo as famosas ordens do diretor de que ninguém entrasse na sessão depois que já houvesse começado para que o impacto não se perdesse. Além disso, o projeto gráfico é todo é belíssimo, enriquecendo o texto, sem com isso distrair a atenção do leitor. Edição impecável (arrisco até a afirmar que é o livro mais bonito da minha coleção).

A história criada por Robert Bloch é tão assustadoramente rica que ainda hoje rende frutos. Um exemplo disso é a ótima série Bates Motel que explora a adolescência de Norman Bates e seu convívio com a mãe.

Título: Psicose
Autor: Robert Bloch
Nº de páginas: 256
Editora: Darkside

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

RESENHA: Em Nome do Mal

“Ele tem vislumbres de memória. Alguém fazendo coisas terríveis. Mais carne branca sendo cortada com uma faca afiada. Sangue brotando do corte. Ira diante de uma antiga injustiça. Algo escuro, molhado e escorregadio por baixo. Essas lembranças não são dele. Ou talvez sejam. Ele já não sabe o que é real.” (OSWALD, 2014, p.66)

Histórias policiais sempre me atraem. Porém, de uns tempos para cá, são poucas as que têm me agradado. Ao ler as sinopses, muitas vezes sinto que estou me deparando com “mais do mesmo” e, quando decido dar uma chance ao livro, nem sempre a experiência me satisfaz. “Em Nome do Mal” é um exemplo dos livros do gênero que ganharam uma chance e não foram merecedores.

O inspetor Anthony McLean está de folga, passando por uma vizinhança conhecida, quando vê movimento policial. Achando que pode ajudar, ele entra para conferir o que está acontecendo e se depara com um brutal assassinato de um homem bastante conhecido na comunidade. Essa é a primeira das mortes cruéis com as quais ele irá se deparar. As outras incluirão um homem que corta a própria garganta em um bar, uma mulher que se atira em um trilho de trem e uma jovem morta no final da Segunda Guerra Mundial.

É difícil dar sequência à uma leitura que não cativa desde as primeiras páginas. E foi isso que aconteceu comigo ao ler “Em Nome do Mal”. Mesmo com capítulos curtos que deveriam dar agilidade à trama, a narrativa em terceira pessoa peca por ser descritiva em excesso, o que arrasta a leitura sem contribuir para nada essencial. Como os crimes em questão são bastante violentos e o autor faz questão de descrever os ferimentos das vítimas em detalhes, acredito que sua escolha em fazer com que toda a narrativa seja bastante descritiva seja para que todas as cenas tenham o mesmo tom.

O livro segue a estrutura tradicional de um romance policial, ou seja, tem como cerne a investigação, e apresenta uma história na qual as únicas coisas relevantes são as relacionadas ao crime. Existem milhares de livros que adotam essa estrutura e são muito bem sucedidos ao fazê-la, porém, para isso funcionar é preciso que o crime seja muito interessante. Agatha Christie, por exemplo, faz isso melhor do que ninguém. Já James Oswald parece espalhar crimes e aparentes suicídios por toda uma cidade e fazer com que o mesmo inspetor seja designado para os vários casos para que, eventualmente, encontre as coincidências entre eles. É o tipo de história que não me convence. Além disso, por ir pulando de um crime para o outro sem se aprofundar em nenhum, o autor não dá tempo de o leitor se atrair pelo mistério que cada um deles deveria representar dentro da trama. O meu sentimento era o de ir de lá para cá, de cá para lá e ficar na espera de que as respostas surgissem em algum momento e tudo se explicasse. Na verdade, levando em consideração que esse é um livro com múltiplos crimes, chega a ser espantoso que nenhum desperte interesse. É apenas violento, talvez até repugnante, mas não intrigante (e para mim a essência de um bom livro policial deve ser essa última).

Como disse no início dessa resenha, livros policiais tendem a me atrair, mas tenho sido cuidadosa na escolha das minhas leituras do gênero. É por isso que, quando me deparei com “Em Nome do Mal” fui conferir os comentários na Amazon e no Goodreads e o que encontrei foram inúmeras criticas positivas, a maioria das quais se referiam ao livro como “um verdadeiro page turner” (livro que é impossível parar de ler, pois é como se as páginas virassem sozinhas). Talvez justamente pelo excesso de elogios a minha decepção tenha sido tão grande.

“Em Nome do Mal” é o primeiro livro da série protagonizada pelo inspetor Anthony McLean.

Título: Em Nome do Mal (exemplar cedido pela Editora)
Autor: James Oswald
Nº de páginas: 335
Editora: Record

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

RESENHA: À Espera de um Milagre

“Há uma frase que li em algum lugar e nunca esqueci, algo sobre ‘um enigma envolto num mistério’. Isso é que John Coffey era e acho a única razão pela qual ele conseguia dormir de noite era porque não se importava.” (KING, 2013, p. 149)

***

É incrível como a cada livro que leio de Stephen King meu conceito sobre o autor sobe mais um pouco, e com À Espera de um Milagre não foi diferente. Para ser sincero, meu interesse pelo livro se devia muito mais ao seu sucesso entre os fãs do que pela sinopse em si. Agora entendo o porquê de tantos elogios. 

Paul Edgecombe está em um asilo quando decide narrar os eventos ocorridos no outono de 1932, quando era o superintendente do Bloco E (também conhecido como o corredor da morte) da penitenciária de Cold Mountain, em especial os episódios envolvendo os estranhos poderes de John Coffey, condenado a morte pelo estupro e assassinato de duas meninas. 

Como era de se esperar, King escreve com naturalidade e consegue fisgar a atenção do leitor já nas primeiras páginas da obra. Um fator que me chamou atenção neste livro, mais do que nos outros, foi sua qualidade cinematográfica, pois a narrativa de King literalmente consegue reproduzir um filme na mente do leitor.

Para quem não sabe, este livro foi originalmente publicado em seis fascículos e posteriormente reunido na forma como hoje conhecemos, contendo pouquíssimas alterações. O autor conta na introdução ao livro que o desafio de ser publicado em partes era a necessidade de criar pequenos clímax para manter o interesse do leitor semana após semana. Nesse aspecto posso afirmar que o autor fez um excelente trabalho, pois era impossível terminar de ler uma das partes sem perder o fôlego. 

Na introdução, King também compartilha sobre como foi escrever com o cronograma apertado de publicação e como nem ele sabia qual seria o desfecho da estória. Tal característica não passa despercebida pelo leitor, que percebe andar por terreno desconhecido juntamente com King, rumo a um futuro incerto. E esta é uma das maiores qualidades de À Espera de um Milagre: sua deliciosa imprevisibilidade. 

Embora a King geralmente seja atribuído o título de Mestre do Terror, creio que existe outro muito mais propício: Mestre em Criar Personagens. Admito que o escritor que vive em mim morre de inveja dos personagens criados por King. Todos eles, sem exceção, são delineados com profundidade, sendo improvável nada sentir em relação a eles. Pode ser algo entre o amor ao ódio, mas já lhe digo que é impossível permanecer indiferente. 

Se indagado qual o gênero de À Espera de um Milagre, não saberia responder. Apesar da premissa sobrenatural, o cerne da estória não é este, mas sim os acontecimentos ocorridos no Bloco E no outono de 1932. De toda a forma, diria que a obra é uma mistura bem sucedida de drama e suspense, com elementos sobrenaturais. 

Mais uma vez Stephen King esbanja talento e criatividade, e mostra por que suas obras encabeçam as listas de mais vendidos. Para fãs do autor, trata-se de leitura imperdível e para quem nunca teve contato, eis uma boa forma de ser introduzido as obras de King. 

Para quem deseja saber mais sobre o autor, não deixe de conferir o documentário “Stephen King: Shining In The Dark”. 

Título: À Espera de Um Milagre
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 399
Editora: Suma de Letras

domingo, 27 de julho de 2014

RESENHA: Os Três

“Você precisa entender, Elspeth, que, devido à magnitude dos casos, sabíamos que se passaria um tempo até termos certeza absoluta do que estávamos enfrentando. Pense bem. Quatro quedas diferentes envolvendo três modelos distintos de aeronaves em quatro continentes: era algo sem precedentes.” (LOTZ, 2014, p. 38). 

***

Partindo de uma premissa instigante e tendo o aval de Stephen King, estava bastante curioso para conferir o que Sarah Lotz havia preparado em Os Três. Tentando mesclar ficção científica, com terror, suspense, thriller e até drama, no fim das contas a obra não funcionou em nenhum dos genêros. 

Em uma quinta-feira, quatro aviões caem simultaneamente ao redor do mundo e apenas quatro pessoas sobrevivem aos desastres, das quais três são crianças. Pamela, a única adulta, sobrevive apenas por alguns minutos e consegue gravar uma mensagem em seu celular. Uma mensagem que vai mudar o mundo. 

A estrutura narrativa do livro é um tanto estranha, pois trata-se de um texto jornalístico, intitulado de “Quinta-Feira Negra – da queda à conspiração”, contendo diversos pontos de vistas sobre os desastres e suas consequências. Ou seja, a narrativa é uma colcha de retalhos, composta por inúmeros relatos, reportagens, e-mails, entrevistas e transcrições. 

Embora tal opção tenha afetado meu envolvimento com a obra — pois há um certo distanciamento entre os personagens e o leitor —, entendo que seria complicado usar outra estrutura para contar uma estória tão ampla e repleta de detalhes. Outro fator que também afetou o envolvimento é a ausência de um protagonista bem como a quantidade de personagens, visto que, em alguns momentos, era necessário interromper a leitura para lembrar quem era o sujeito entrevistado no momento. 

Elspeth Martins, a autora da obra jornalística, já deixa claro no início de que se trata de uma composição objetiva, com o fim de dar a visão dos principais atores dos eventos ocorridos após a Quinta-Feira Negra. Ou seja, o livro de Elspeth desejava fornecer um panorama dos fatos, sem apresentar qualquer conclusão.

Entretanto, o livro é construído de forma a deixar o leitor na expectativa por respostas, de forma a fazer parecer que todos os relatos juntados por Elspeth são uma contextualização. As respostas vêm apenas no desfecho da obra, quando o leitor não tem mais o menor interesse ou curiosidade sobre elas, e ainda por cima não convencem. 

Outro grande problema é que, em sendo um relato jornalístico, ao invés de mostrar a ação acontecendo, tínhamos que ler o relato de alguém sobre a ação. Ou seja, cenas interessantíssimas, que seriam lidas com a respiração presa, acabaram perdendo toda a emoção e adrenalina que tinham a oferecer. 

Os Três apresenta uma mistura de teoria da conspiração, fanatismo religioso e elementos sobrenaturais que tinha potencial, mas que não deu liga. E friso que não deu liga pela forma como a estória foi explorada, e não em virtude desta mistura nada convencional. 

A ideia de Sarah Lotz tem seus méritos e creio que funcionaria muito melhor se transformada em série televisa. Em minha mente fértil já imagino Elspeth como protagonista, investigando os trágicos eventos com o intuito de escrever o livro. Nesse formato, seria impossível deixar as respostas apenas para o final sem perder a audiência. Então, bastaria criar um final um pouquinho mais interessante e voilà: sucesso garantido. 

Título: Os Três (exemplar cedido pela editora)
Autora: Sarah Lotz
N.º de páginas: 391
Editora: Arqueiro

sábado, 7 de junho de 2014

RESENHA: Restos Humanos

“Se as pessoas pararem de olhar para você, você para de existir? Isso quer dizer que você não é mais uma pessoa? Isso quer dizer que você já está morto?” (HAYNES, 2014, p.59)

O problema quando um autor faz uma estréia brilhante é a expectativa de que todos os seus livros atinjam o mesmo patamar. Com Elizabeth Haynes isso não vem acontecendo.

Annabel é uma analista de informações da polícia que vive sozinha com sua gata, tem poucos amigos no trabalho e cuida da mãe idosa. Um dia, ela nota um cheiro horrível vindo da casa vizinha que acreditava estar desocupada, mas que, naquele dia, parecia ter luz em um dos aposentos. Quando decide ver o que está acontecendo, Annabel se depara com o corpo da mulher que morava ali em avançado estágio de putrefação. Chocada, ela faz uma pesquisa e descobre que um número preocupante de casos como esse vem acontecendo nos últimos meses.

Elizabeth Haynes é uma autora que prima pelo desenvolvimento psicológico de seus personagens e uma de suas principais ferramentas de suspense é fazer o leitor viver a história pelos olhos dos seus protagonistas, utilizando para isso a narrativa em primeira pessoa. No caso de “Restos Humanos” ela utiliza isso de duas formas, o que talvez seja seu grande erro, porque nenhum dos personagens faz por merecer.

Annabel é uma personagem sem vida. Não digo com isso que viva uma vida monótona, sem aventuras e sim que apresenta um comportamento passivo diante da vida. Ela é insossa, se assim quiser chamá-la. Quanto a Colin, que nas primeiras páginas fica claro ser o vilão da história e cuja mente também acompanhamos, apresenta um comportamento doentio, mas não chega a ser interessante. Ele não exibe crueldade ou conflitos que o tornem um bom vilão. Se Annabel é insossa, Colin é repugnante, mas pouco mais do que isso.

Apresentar a mente do criminoso para o leitor é uma opção ousada, até mesmo difícil, mas muito promissora? Sem dúvida. John Verdon, por exemplo, é um autor que faz isso com maestria, conseguindo explorar o íntimo do vilão e ainda assim fazer mistério sobre sua identidade. Haynes não conseguiu fazer uma coisa, nem outra, porque o que se sabe sobre Colin nas últimas páginas, já se sabia nas primeiras.

A escolha realmente interessante da autora para esse livro é o método de seu criminoso para cometer os crimes: usar como arma a mente de suas vítimas, escolhendo com cuidado suas presas para que cumpram seu objetivo. Eu nunca havia visto um criminoso que operasse dessa forma e achei brilhante.

A narrativa ainda intercala trechos dos pensamentos das vítimas aliados às notícias de suas mortes nos jornais. Para mim, esses foram os capítulos mais interessantes, onde Haynes realmente conseguiu se aprofundar na mente dos personagens (o estranho é a autora ser mais bem sucedida com os que aparecem em duas ou três páginas do que com os protagonistas).

Talvez a razão pela qual Haynes não invista tanto no desenvolvimento dos personagens (algo que faz com eficiência até mesmo no mediano “Vingança da Maré”), em especial da protagonista, seja porque Annabel é uma personagem apática e atitudes mais ousadas não seriam condizentes com sua personalidade. Seu envolvimento com o caso e sua busca por respostas acontecem porque ela foi pessoalmente afetada ao descobrir um dos corpos, então é natural que não consiga se desligar tão fácil, mas nem por isso é de se esperar que ela se transforme em um Hercule Poirot. Seu envolvimento é gradual, assim como sua afetação pelo que encontra. O problema é que isso também protela o envolvimento do leitor que anseia por acontecimentos ou respostas (e recebe muito pouco de ambos). Que um livro prometa muito em suas primeiras páginas, mas demore a se tornar empolgante, é algo que eu estou disposta aceitar quando isso se faz necessário para a ambientação da trama e o envolvimento dos personagens com ela (como é o caso do formidável “Boneco de Neve”). O problema é quando o que deveria ser o ápice do livro é tão morno quanto o resto.

Acredito que quando uma história se deixa ficar evidente nas primeiras páginas, ela deva se apoiar mais no desenvolvimento dos personagens do que na sequência de eventos. Isso é ótimo, afinal, são bons personagens que fazem um bom livro (e Elizabeth Haynes provou em “No Escuro” que sabe manipular uma trama assim melhor que ninguém), mas isso não acontece em “Restos Humanos”.

Analisando assim, pode parecer que o livro não funciona, mas não é exatamente o caso (tanto que li várias resenhas positivas a seu respeito). A narrativa da autora é fluida e os crimes são interessantes, em especial pelo método inusitado em que se baseiam. Se esse for o primeiro livro que você ler de Elizabeth Haynes, pode ser que ele capte sua atenção para seus thrillers. Mas para mim que tenho “No Escuro” como base, não posso deixar de ver “Restos Humanos” como um livro inferior ao potencial da autora.

Título: Restos Humanos (exemplar cedido pela Editora)
Autora: Elizabeth Haynes
Nº de páginas: 315
Editora: Intrínseca

quarta-feira, 16 de abril de 2014

RESENHA: Corvo Negro

“A morte de uma pessoa afetou a todos e fez com que passassem a ver o mundo de forma diferente. E talvez isso não fosse de todo ruim. Por que deveriam ser protegidos? O que é que os tornava especiais?” (CLEEVES, 2013, p. 154)

Quando o corpo da jovem Catherine Ross é encontrado na neve mutilado por inúmeras bicadas de corvos, a calma localidade de Shetland tem um antigo pesadelo despertado. Há oito anos a pequena Catriona Bruce desapareceu e desde então se suspeita que Magnus Tait, um ancião que vive isolado, tenha sido o responsável por sua morte, embora não tenha sido possível provar sua culpa. Em um lugar onde todos se conhecem, não é difícil saber os movimentos dos outros e Magnus foi visto na companhia de Catherine na véspera de sua morte. Quando policiais de fora Shetland chegam para assumir a investigação, fica claro que não é porque todos se conhecem que ninguém tem segredos a esconder. A começar pela própria Catherine, cuja personalidade forte e determinada pode ter-lhe arranjado inimigos ao produzir um documentário sobre a vida em Shetland.

À primeira vista “Corvo Negro” pode parecer um suspense policial como outros, mas o que o destaca é a maneira como a autora revela sua trama e seus personagens como se eliminasse uma a uma as camadas de neve que os mantém escondidos. Mesmo que fique claro desde as primeiras páginas que se trata da investigação de um assassinato, se sabe tão pouco sobre o quê – e quem – o cerca que paira a sensação de que as surpresas podem vir de qualquer lugar a qualquer momento. É o tipo de trama que já é interessante na superfície, mas quanto mais revela, mais interessante fica.

Narrada em terceira pessoa e alternando os pontos de vista entre Magnus, o principal suspeito; detetive Perez, responsável pela investigação; Fran Hunter, quem encontrou o corpo de Catherine; e Sally Henry, a melhor amiga da morta, essa é uma história em que o protagonista seja, talvez, o próprio caso sendo investigado.

Mais que o caso em si, quem realmente brilha em “Corvo Negro” são os personagens enigmáticos que o cercam. A autora nos insere em suas vidas de maneira tão natural que questões cotidianas se tornam perguntas e mascara suas intenções de forma que é difícil saber o que é essencial para a investigação, o que não é, e como tudo irá se encaixar. Aos poucos, e com sutileza, os personagens revelam suas verdadeiras naturezas e como se sentem em relação às pessoas que os cercam. Assim, relações vão se revelando a todo o momento e com elas surgem novos enigmas.

É dessa forma que Ann Cleeves cria uma trama em que ninguém parece ter motivo para ter cometido o crime, mas todos parecem agir de maneira suspeita, por uma razão ou outra. Assim, não só é difícil prever o final da história como qualquer desfecho poderia ser crível (e de fato o escolhido o é) e poderia ter ocorrido ao leitor em algum momento da leitura (como ocorreu a mim), mas depois deixado de lado porque os elementos são abundantes e escassos ao mesmo tempo.

Longe de ser um suspense eletrizante, que compele o leitor a varar madrugadas até ter todas as respostas, “Corvo Negro” é um livro lento, mas bem executado, e que foca nas relações, se valendo da premissa de que mais assustador que um crime é o impacto que pessoas têm uma sobre as outras e o quão perigoso isso pode ser.

“Corvo Negro” é o primeiro livro da série “Shetland” protagonizada pelo detetive Jimmy Perez e rendeu a autora o prêmio Duncan Lawrie Dagger em 2006. Tendo sido adaptado para a televisão pela BBC, o livro corresponde aos dois primeiros episódios da segunda temporada da série “Shetland”. Embora guarde diferenças com relação à trama original, a essência do caso e a atmosfera da história foram preservadas na adaptação. Algumas das alterações - como nomes, profissões e relacionamentos dos personagens - me pareceram desnecessárias, porém outras - como a inclusão de novos personagens - provavelmente, têm em vista a longevidade da série (sendo possível até que tenham base nos livros escritos posteriormente por Ann Cleeves). De modo geral me pareceu uma adaptação satisfatória e igualmente interessante quando analisada isoladamente.

Título: Corvo Negro (exemplar cedido pela Editora)
Autora: Ann Cleeves
Nº de páginas: 351
Editora: Record

terça-feira, 18 de março de 2014

RESENHA: Quatro Estações

“As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem – as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas.” (KING, pag. 395, 2013)

Quando assisti “Conta Comigo” - filme de 1986, estrelado por River Phoenix e Kiefer Sutherland - me chamou a atenção como ele conseguia apresentar em apenas uma ou duas cenas toda a dinâmica familiar e das vidas de cada um daqueles quatro meninos, mesmo que essa não fosse a história principal a ser contada. Sabendo que o filme se baseara em um conto de Stephen King, imaginei o quão detalhado fora o trabalho do autor para que um filme - que, em geral, elimina muito da história em que se baseia - conseguisse transmitir com tamanha clareza e profundidade a essência de quatro personalidades tão distintas. Assim, surgiu a minha vontade de ler “Quatro Estações”, livro que conta com quatro contos, entre eles “O Corpo” que baseara o filme. Quando li “Quatro Estações”, o respeito que eu tinha pelo autor adquiriu contornos de idolatria.

Apesar de ser conhecido pela alcunha de “Mestre do Terror”, Stephen King é capaz de nos presentear com belas histórias que nada tem a ver com medo. É o caso de “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”, narrado em primeira pessoa por um homem condenado a prisão perpétua que conta a história de um colega presidiário e, ao mesmo tempo, a sua própria. Não há nada de sobrenatural nesse conto. O que há é uma intensa carga emocional. E mesmo se passando em um ambiente tão inóspito, se transforma em uma bela história, na qual a palavra chave é a amizade. “Shawshank” é uma história esperançosa em um dos ambientes mais desesperançosos possíveis.

Amizade também é o que rege “O Corpo”. Narrado em primeira pessoa por um escritor que, adulto, relembra uma aventura que viveu com seus três melhores amigos quando, aos 12 anos, embarcaram em uma jornada para encontrar o corpo de um menino da idade deles morto nos trilhos de um trem. “O Corpo” é uma história melancólica como eu jamais imaginei encontrar sob a assinatura de Stephen King e se tornou a minha favorita, não só deste livro, mas dentre todas as que li do autor. Além da profundidade dos personagens, o texto apresenta trechos belíssimos que me fizeram respirar fundo.

Em todos os contos, King dedica aos personagens secundários a mesma atenção que aos principais e a naturalidade com que o autor escreve faz com que seja muito fácil tomar seus dramas como reais. Essa naturalidade atinge seu ápice quando em “O Corpo” quase passa despercebido pelo leitor que existem contos completos (com outros personagens e outros dramas igualmente bem construídos) dentre deste, sem que nada soe forçado.

Embora “O Aluno Inteligente” e “O Método Respiratório” não tenham me cativado tanto quanto os outros dois contos, ambos são muito bons. O primeiro conta a história de um menino de treze anos que descobre que um de seus vizinhos é um ex-torturador dos campos de concentração nazistas e, fascinado pelos horrores do assunto, passa a chantageá-lo. É a história de dois personagens detestáveis e de um relacionamento pouco saudável que deteriora cada um deles conforme se fortalece. A meu ver, é conto de maior suspense do livro.

Já o segundo é o mais misterioso e o único que ganha uma pitada de sobrenatural. A história contada por um médico em um clube do qual é sócio há anos na qual os protagonistas são ele mesmo e uma de suas pacientes: uma mulher solteira e grávida em plena década de 30.

“Quatro Estações” é um excelente exemplo de tudo que Stephen King é capaz de fazer ao abordar o sobrenatural, o suspense e o drama com a mesma qualidade, deixando claro que, independente do tema, o autor é capaz de criar bons personagens, boas histórias e contá-las em uma narrativa espetacular. É por isso que essa seria a minha escolha caso eu tivesse que indicar um livro a alguém que nunca leu nada do autor e não sabe por onde começar.

O livro conta ainda com um posfácio em que King fala sobre a elaboração destes contos, dos empecilhos para que fossem publicados e a idéia de reuni-los em um único volume.

Dos contos que compõe “Quatro Estações”, apenas “O Método Respiratório” ainda não foi adaptado para o cinema, embora uma adaptação tenha sido anunciada em 2012. “Um Sonho de Liberdade”, com Morgan Freeman e Tim Robbins, é a adaptação de “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”. Um belo filme, indicado a sete Oscars em 1995 (e que eu assisti no dia seguinte ao final da minha leitura - o que é um indício do quanto gostei do conto). “O Aprendiz”, com Ian McKeller, é a adaptação de “O Aluno Inteligente”.

Título: Quatro Estações
Autor: Stephen King
Nº de páginas: 686
Editora: Ponto de Leitura
 

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