“E, por manter tudo trancado por tanto tempo, Catherine tornou o segredo grande demais para vir à luz. Como um bebê que cresceu além da conta para ser parido por meios naturais, o segredo precisará ser arrancado. O ato de mantê-lo oculto quase se tornou maior que o segredo em si.” (KNIGHT, 2015, p.25)
Catherine acabou de se mudar para uma nova casa com o marido. Em meio à mudança, ela encontra um livro que não lembra de ter comprado e começa a ler por mera curiosidade, mas qual não é a sua surpresa ao perceber que a história narrada foi vivida por ela e que o livro traz à tona um segredo que ela vem guardando há muitos anos?
Narrado sob dois pontos de vista, “Difamação” traz de um lado Catherine, e sua angústia após ter descoberto o tal livro, e de outro, Stephen, o responsável por fazer com que o livro tenha chegado até ela. Os capítulos são curtos, conferindo agilidade à narrativa, e a conjugação verbal no tempo presente dá um tom imediatista à obra, causando certa estranheza, mas nada que interfira na leitura.
Desde a primeira página, Renée Knight joga com o leitor. Nada é o que parece e as opiniões que desenvolvemos sobre a trama e os personagens mudam milhares de vezes até chegarmos à última página. Para cada mistério que vemos ser revelado, outro surge para ocupar o seu lugar e, enquanto isso, percebemos que nada é exatamente o que parece. Assim, “Difamação” não é um livro de uma grande reviravolta, mas de várias pequenas reviravoltas que mantém o leitor curioso e alerta.
A cada momento a autora adota uma estratégia inteligente. A princípio, o leitor acompanha, concomitantemente, uma Catherine apavorada e um Stephen enfurecido e magoado, mas mesmo estando dentro da cabeça de ambos os personagens o leitor desconhece o que faz com que se sintam assim. Tudo que ele sabe é que, seja qual for o tal segredo, este é o elo entre os dois personagens e o coloca um contra o outro (as visões de vilão e vítima são contraditórias), mas fica difícil tomar lados quando não se sabe o que está no centro da questão. Também é interessante que, mesmo que o leitor esteja no escuro sobre o que aconteceu e qual é o conteúdo do livro, ele sabe algo que Catherine desconhece, que é a identidade de quem está fazendo isso com ela. Ou seja, nesse aspecto quem está no escuro é a personagem e o leitor tem a resposta (mas não sabe o que fazer com ela).
Mas é quando o segredo vem à tona que as coisas ficam verdadeiramente interessantes. Se a princípio ele parece sem graça, logo fica claro que existem camadas na história que ainda não foram reveladas e que a brincadeira de mostra-esconde ainda não terminou. Nesse momento, Knight deixa de se focar no mistério para focar nas consequências dele na vida dos personagens. Além disso, o único mistério revelado aqui é o conteúdo do livro, mas ainda não é possível ter certeza de que a história narrada seja uma versão fiel dos fatos, de modo que um mistério é eliminado, mas outro permanece.
É dessa forma que a autora brinca o tempo inteiro com as certezas do leitor, com o que ele sabe e o que apenas acredita que sabe, e com os equívocos das primeiras impressões. Aliás, nenhum acontecimento e nenhum personagem passam incólumes de uma avaliação errônea, o que me deixou admirada, especialmente por se tratar de um livro tão curto. E mesmo que Catherine seja a protagonista, é Stephen quem passa pela evolução mais interessante no decorrer da obra (não entro em detalhes para evitar spoilers).
Embora eu ache que Knight tenha escondido um pouco suas cartas a fim de surpreender no final, isso não chegou a me incomodar porque para mim o grande destaque do livro foi a maneira engenhosa que ela encontrou de contar a sua história. Devo dizer, porém, que fiquei com uma sensação de falta de carisma que não sei apontar de onde vem. Talvez tenha sido a extensão da minha leitura (quase o dobro do que normalmente levo para um livro desse tamanho), algo que sempre me incomoda.
Em sua estreia literária, Renée Knight conta sua história como um quebra-cabeças que desafia o leitor a descobrir o quanto primeiras impressões são confiáveis e o quanto qualquer história é apenas uma versão de algum acontecimento.
Autora: Renée Knight
Nº de páginas: 235
Editora: Suma de Letras





























