Filha de psicopata, psicopata é? É nessa premissa que se baseia “Menina Boa, Menina Má”, thriller psicológico de Ali Land.
Em outra vida, Mille era Annie. Uma vida em que ela vivia com a sua mãe: uma enfermeira que sequestrava crianças, as levava para casa e, depois de dias de violência, as matava. Depois de anos sendo obrigada a testemunhar horrores dentro de sua própria casa, aos 15 anos, a menina denuncia a mãe para a polícia. É assim que ela se torna Millie e vai morar com Mike (o psicólogo que a prepara para testemunhar no julgamento da mãe) sua esposa, Saskia, e a filha do casal, tendo que esconder o seu passado e se adaptar a uma nova vida.
O livro é narrado em primeira pessoa por Millie. Estamos dentro da cabeça dela e, justamente por isso, nunca temos todos os detalhes do que aconteceu. Estamos assistindo seus pensamentos, então descobrimos as coisas quando as lembranças vêm à sua mente. Em nenhum momento ela pára para falar sobre o que aconteceu, já que a narrativa é sobre os dias atuais, sobre a nova vida, então o que o leitor faz é montar o quebra-cabeça conforme ela dá as peças. Outro aspecto interessante da narrativa é que ela se dirige constantemente à mãe, como se contasse a história para ela, o que reforça o quanto é assombrada por sua figura.
A maneira como os personagens são apresentados merece destaque, em especial a mãe de Millie. Em nenhum momento vemos ela ou ouvimos dela. Apenas conhecemos suas atitudes e seus crimes. De alguma forma, isso a torna ainda mais monstruosa porque só chega até nós a essência de sua maldade.
“O cérebro de um psicopata é diferente do da maioria, eu já vi as estatísticas. Oitenta por cento genética, vinte por cento influências do meio. Eu. Cem por cento fodida.” (LAND, 2018, p.92)
Millie tem alguns dilemas que poderiam ter sido melhor explorados. Ela sabe que a mãe nunca a amou, sabe que o que ela fez é abominável e sabe também que estava certa em entregá-la à polícia. Mas ela também convive com a ânsia de conhecer o amor e a segurança que deveriam vir do lar. Ao mesmo tempo em que ela sabe que não tinha nada disso ao lado da mãe, ela sente que aquela era uma situação com a qual se sentia familiarizada. Agora tudo é novo e ela não se encaixa. Ela não pode dizer quem é, de onde veio ou o que traz consigo. É como se ela tivesse que se criar do zero. Tudo isso é promissor, mas a autora falha ao explorar essas angústias de maneira repetitiva, trazendo com frequência os mesmos pensamentos sem dar a eles toda a intensidade que mereciam. Isso acaba se tornando cansativo porque o julgamento (momento tão aguardado, afinal, vamos ver Millie sob o mesmo teto que sua mãe e vamos descobrir se ela vai pagar pelos crimes que cometeu) acontece apenas no final do livro, de forma que até lá ficamos nadando em águas que pouco se movem.
Mike também desperta interesse, parecendo bem intencionado com Millie, aceitando um risco enorme ao levá-la para casa, mas também escrevendo às escondidas um livro sobre ela.
Tenho o hábito de fugir de sinopses sempre que possível porque prefiro descobrir os acontecimentos da trama da maneira que o autor planejou me contar, uma página após a outra. Mas é claro que isso não se aplica a todos os livros (afinal, é preciso saber alguma coisa para se querer ler) e com “Menina boa, menina má” isso me trouxe um problema desnecessário. Ao final da sinopse há um comentário: “Mas a mãe de Millie é uma assassina em série. E quem sai aos seus não degenera.” Isso fez com que eu olhasse a menina a leitura toda com desconfiança, esperando que ela fizesse alguma coisa, cometesse algum ato de violência. Se ela chega a fazer isso ou não, não vem ao caso nessa resenha. O fato é que um comentário desses é capaz de influenciar toda a experiência de leitura, deixando o leitor com uma desconfiança que talvez a narrativa não desperte ou mesmo estragando uma surpresa que o autor pode estar guardando lá para a frente.
“Menina boa, menina má” cria um ótimo enredo, uma situação cheia de conflitos, mas escorrega deixando de dar a eles a intensidade que merecem.
Autora: Ali Land
N de páginas: 374
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora
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