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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

RESENHA: Menina Boa, Menina Má

Menina Boa, Menina Má / Ali Land
Filha de psicopata, psicopata é? É nessa premissa que se baseia “Menina Boa, Menina Má”, thriller psicológico de Ali Land.

Em outra vida, Mille era Annie. Uma vida em que ela vivia com a sua mãe: uma enfermeira que sequestrava crianças, as levava para casa e, depois de dias de violência, as matava. Depois de anos sendo obrigada a testemunhar horrores dentro de sua própria casa, aos 15 anos, a menina denuncia a mãe para a polícia. É assim que ela se torna Millie e vai morar com Mike (o psicólogo que a prepara para testemunhar no julgamento da mãe) sua esposa, Saskia, e a filha do casal, tendo que esconder o seu passado e se adaptar a uma nova vida.

O livro é narrado em primeira pessoa por Millie. Estamos dentro da cabeça dela e, justamente por isso, nunca temos todos os detalhes do que aconteceu. Estamos assistindo seus pensamentos, então descobrimos as coisas quando as lembranças vêm à sua mente. Em nenhum momento ela pára para falar sobre o que aconteceu, já que a narrativa é sobre os dias atuais, sobre a nova vida, então o que o leitor faz é montar o quebra-cabeça conforme ela dá as peças. Outro aspecto interessante da narrativa é que ela se dirige constantemente à mãe, como se contasse a história para ela, o que reforça o quanto é assombrada por sua figura.

A maneira como os personagens são apresentados merece destaque, em especial a mãe de Millie. Em nenhum momento vemos ela ou ouvimos dela. Apenas conhecemos suas atitudes e seus crimes. De alguma forma, isso a torna ainda mais monstruosa porque só chega até nós a essência de sua maldade

“O cérebro de um psicopata é diferente do da maioria, eu já vi as estatísticas. Oitenta por cento genética, vinte por cento influências do meio. Eu. Cem por cento fodida.” (LAND, 2018, p.92)

Millie tem alguns dilemas que poderiam ter sido melhor explorados. Ela sabe que a mãe nunca a amou, sabe que o que ela fez é abominável e sabe também que estava certa em entregá-la à polícia. Mas ela também convive com a ânsia de conhecer o amor e a segurança que deveriam vir do lar. Ao mesmo tempo em que ela sabe que não tinha nada disso ao lado da mãe, ela sente que aquela era uma situação com a qual se sentia familiarizada. Agora tudo é novo e ela não se encaixa. Ela não pode dizer quem é, de onde veio ou o que traz consigo. É como se ela tivesse que se criar do zero. Tudo isso é promissor, mas a autora falha ao explorar essas angústias de maneira repetitiva, trazendo com frequência os mesmos pensamentos sem dar a eles toda a intensidade que mereciam. Isso acaba se tornando cansativo porque o julgamento (momento tão aguardado, afinal, vamos ver Millie sob o mesmo teto que sua mãe e vamos descobrir se ela vai pagar pelos crimes que cometeu) acontece apenas no final do livro, de forma que até lá ficamos nadando em águas que pouco se movem.

Mike também desperta interesse, parecendo bem intencionado com Millie, aceitando um risco enorme ao levá-la para casa, mas também escrevendo às escondidas um livro sobre ela.

Tenho o hábito de fugir de sinopses sempre que possível porque prefiro descobrir os acontecimentos da trama da maneira que o autor planejou me contar, uma página após a outra. Mas é claro que isso não se aplica a todos os livros (afinal, é preciso saber alguma coisa para se querer ler) e com “Menina boa, menina má” isso me trouxe um problema desnecessário. Ao final da sinopse há um comentário: “Mas a mãe de Millie é uma assassina em série. E quem sai aos seus não degenera.” Isso fez com que eu olhasse a menina a leitura toda com desconfiança, esperando que ela fizesse alguma coisa, cometesse algum ato de violência. Se ela chega a fazer isso ou não, não vem ao caso nessa resenha. O fato é que um comentário desses é capaz de influenciar toda a experiência de leitura, deixando o leitor com uma desconfiança que talvez a narrativa não desperte ou mesmo estragando uma surpresa que o autor pode estar guardando lá para a frente.

“Menina boa, menina má” cria um ótimo enredo, uma situação cheia de conflitos, mas escorrega deixando de dar a eles a intensidade que merecem.

Título: Menina boa, menina má
Autora: Ali Land
N de páginas: 374
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 27 de julho de 2018

[Livros com poucos personagens] para quem não gosta de [livros com poucos personagens]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Algumas premissas são arriscadas e podem facilmente dar errado. Livros cuja dinâmica gira em torno de apenas dois personagens correm o risco de serem monótonos e dependem, principalmente, do carisma de seus protagonistas para sustentar a trama, afinal, em uma situação como essa, há pouco para distrair o leitor das suas personalidades.

Os três livros dessa edição de "[...] para quem não gosta de [...]" trabalham com a mesma premissa: uma pessoa mantém outra em cativeiro. Mas apresentam razões diferentes para conquistar um leitor que foge de elencos que se reduzem a uma dupla.

Misery

Aqui temos uma das melhores personagens já criadas por Stephen King: Annie Wilkes. A fã lunática que sequestra seu escritor favorito após este sofrer um acidente de carro e o força a ressuscitar a mocinha que ele havia matado no último livro. Annie é completamente desiquilibrada, o que a torna tão assustadora quanto os piores seres sobrenaturais de King. É por ela que lemos o livro: para sabermos até onde ela será capaz de ir, mais até do que para saber o que acontecerá com Paul. Ele, por sua vez, é um competidor à altura porque é inteligente a ponto de tentar ludibriá-la, mas acaba por extrair dela o que ela tem de pior. Um duelo mental que tem tudo para agradar leitores que gostam de um suspense que cresce da primeira à última página e de livros que se lê para saber o que acontece dentro dos personagens mais do que fora.


O Colecionador

Um amor platônico e obsessivo faz com que Frederick sequestre Miranda. Ou melhor dizendo, a receba como convidada em sua casa nova, construída e decorada especialmente para mantê-la ali com ele, sem contato com o mundo exterior. O que torna esta dinâmica entre captor e vítima diferente das outras é que Miranda é tão mais inteligente que Frederick que chega a ser injusto. A única razão pela qual ele controla a situação é porque é ele quem a mantém presa. Um thriller psicológico de primeira que mesmo tendo apenas dois personagens, os transforma em quatro: o Frederick que ele vê, o Frederick que ela vê, a Miranda que ele vê e a Miranda que ela vê. E são essas facetas que deixam o leitor sem saber o que pensar, o que sentir ou para que torcer. Uma das minhas melhores leituras de 2018 é um estudo psicológico interessantíssimo que mostra que dois personagens podem fazer estrago mais que suficiente.

Escrita por uma ghost-writer, a história de Laura, uma adolescente sequestrada e mantida em cativeiro como escrava sexual por quatro anos, é a mais brutal dessa lista. Tanto a violência física quanto a psicológica pela qual a personagem passa são de revirar o estômago (e não costumo dizer isso com frequência, mesmo já tendo lido outros livros do tema), mas o que mais marca nessa história é o quão frágil é a nossa humanidade. O quanto precisamos de coisas e pessoas que nos façam sentir seguros e dignos e como nossas certezas podem ser abaladas quando somos levados a extremos. Com um desfecho polêmico que me deixou absolutamente chocada, “Diário de uma Escrava” é um livro que busca alertar sobre perigos que nos esperam em cada esquina e deve agradar leitores que gostam de histórias com os dois pés bem fincados em uma realidade que preferíamos que não existisse.






terça-feira, 12 de junho de 2018

RESENHA: Depois da Queda

Depois da Queda / Dennis Lehane
Para alguns, um promissor thriller protagonizado por uma personagem feminina complexa. Para mim, simplesmente, o novo livro de Dennis Lehane.

Rachel Childs teve uma infância tumultuada. Filha de uma mãe dominadora, que nunca contou para a filha quem era o seu pai e o afastou da vida dela quando Rachel ainda era criança. Já adulta, ela se torna jornalista, mas ao cobrir uma matéria no Haiti, chocada com horrores que presencia, tem um surto no ar que acaba com a sua carreira. Com um casamento fracassado nas costas, Rachel se casa pela segunda vez com Brian, um homem compreensível e carinhoso que a ajuda em sua recuperação. Até o dia em que ela descobre que tudo que sabe sobre o marido talvez seja uma mentira.

Depois da Queda” é Rachel da primeira a última página. Não apenas porque ela é a protagonista, ou porque a narrativa em terceira pessoa está o tempo todo apresentando o ângulo dela, mas porque a essência da história é como essa mulher se tornou quem ela se tornou. Os acontecimentos são a própria Rachel. A prova disso é que a primeira parte do livro (que corresponde a 100 páginas) é basicamente sobre os eventos de sua infância e adolescência e a procura pelo pai que ela mal conheceu. Aos poucos, esse enredo perde espaço dando lugar para outros que mostram que a personagem nunca consegue estar inteira. No Haiti, vemos uma realidade extrema mexer com ela a ponto de fazê-la perder a conexão com a realidade, levando a ataques de pânico que a tornam reclusa. E quando isso começa a ser superado, vem toda a questão de Brian e seus mistérios. Não é que Rachel seja incapaz de ser feliz e se boicote de alguma forma. É que Rachel é incapaz de ser Rachel. Na sua essência algo sempre falta. Isso é justamente o que os livros de Lehane têm de melhor: o desenvolvimento de personagens complexos e, na maioria das vezes, infelizes.

Enquanto a primeira parte foca em apresentar Rachel para o leitor, a segunda foca em seu relacionamento com Brian, mas é na terceira que as reviravoltas começam. A partir do momento em que Rachel passa a desconfiar do marido, é como se tivéssemos outro livro em mãos. Lehane se reinventa e entrega um livro que eu não esperava receber das suas mãos, apresentando a trama mais ágil dentre todos as suas que já li e que eu não sentia vontade nenhuma de interromper. As reviravoltas vêm a cada capítulo, mas logo vemos que a pergunta não vai ser simplesmente “O que Brian está fazendo?” ou “O que está acontecendo?”, mas sim “Qual a função de Rachel nisso tudo?”. Mais uma vez, o livro é ela. Sempre ela.

"Era isso que a esperava, o que sempre tinha estado à sua espera: o além. Ficasse acima ou abaixo, fosse branco ou preto, frio ou quente, não era o mundo que ela conhecia, com seus confortos, suas distrações e seus males reconhecíveis. Talvez fosse um nada absoluto. Só uma ausência. Ausência de identidade, ausência de sentido, ausência de alma ou memória." (LEHANE, 2018, p. 294)

É bem verdade que “Depois da Queda” comete alguns excessos nessa terceira parte (algumas coisas são um pouco difíceis de engolir, mas estamos tão envolvidos com a história que nem nos importamos), mas não muda o fato de que é uma excelente leitura. O que eu não concordo é com a afirmação que consta na contracapa e alega que o livro mostra Dennis Lehane em sua melhor forma. Não mostra. Falta em “Depois da Queda” o caráter desolador que marca as melhores histórias do autor. Aquela sensação de caminho sem volta que bate antes mesmo de concluir a leitura porque você já sabe que os personagens não lhe deixarão nunca mais e você até se arrepende de tê-los conhecido. “Depois da Queda” nos mantém fixos em suas páginas, mas não nos arranha por dentro, como fazem “Ilha do Medo”, “Gone, baby, Gone” e “Sobre Meninos e Lobos” (este último um dos livros que mais me marcaram na vida). É por isso que mesmo considerando “Depois da Queda” um ótimo livro, o considero um Lehane mediano.

As pessoas são maleáveis, quase modeláveis. É isso que Dennis Lehane nos mostra. Não há situação que não possa ser contornada, não há atitude de que uma pessoa não seja capaz diante de determinadas circunstancias. É apenas uma questão de adaptação e, logo, novas facetas surgirão no rosto de qualquer um. Ninguém é isso ou aquilo enquanto houverem espaços para serem preenchidos. “Depois da Queda” tem como base uma mulher sem base. Ao mesmo tempo que busca sua identidade, ela a perde pelo caminho. Uma personagem complexa, uma narrativa envolvente em um livro que mostra que Dennis Lehane é bom a ponto de acertar até mesmo quando não atinge seu auge.  

Os direitos de adaptação cinematográfica de “Depois da Queda” foram vendidos para a DreamWorks antes mesmo do lançamento do livro. O filme não tem previsão de estreia.

Título: Depois da Queda
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 392
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

RESENHA: O Colecionador

O Colecionador / John Fowles / Darkside Books
Alguns livros escolhem priorizar tensão psicológica à ação. Cenários, múltiplos personagens, reviravoltas, ritmo eletrizante...tudo isso se torna desnecessário porque a história acontece dentro de alguns poucos personagens desenvolvidos ao extremo. Esse é o caso de “O Colecionador”, livro de estreia de John Fowles, que inspirou nomes como Stephen King e Thomas Harris.

Miranda é uma bela estudante de arte. Um espírito livre. Cheia de amigos e ocasionais namorados. Tudo o que Frederick não é. Órfão, criado pela tia, um funcionário público silencioso e de poucos amigos que observa Miranda da janela do trabalho. Até que ele ganha na loteria e compra uma casa para receber uma convidada especial.

O livro se divide em quatro partes: na primeira, acompanhamos o ponto de vista de Frederick, na segunda, o de Miranda. A técnica tem sido banalizada nos últimos tempos, mas é fundamental para fazer de “O Colecionador” o livro que é. São duas histórias diferentes que mostram Fredericks e Mirandas diferentes. A narrativa dele é toda sobre Miranda. Ela é o objeto. Ela é tudo! A ação demora a comecar, mas ele é tão obcecado e o relato tão intenso, que isso não importa. Já sabemos imediatamente que ele está nos levando para dentro da sua mente e que o terreno não é saudável.

a narrativa de Miranda é sobre como ela se sente em cativeiro e, mais ainda, sobre a vida que deixou para trás. É Frederick quem está fazendo isso com ela, mas ele é pequeno diante de todo o resto que existe lá fora. Outra diferença é que o texto de Miranda é imediato, ocorre no tempo presente (afinal, trata-se de um diário), enquanto o de Frederick é um relato de coisas que já aconteceram. A terceira e quarta partes são mais breves e trazem o desfecho da história, também pelos dois pontos de vista.

"O que ela nunca entendeu foi que aquilo me bastava. Tê-la comigo era o suficiente. Nada precisava ser feito. Só queria que fosse minha, e a salvo, finalmente." (FOWLES, 2018, p. 122)

Tanto em um relato quanto em outro, percebemos que a situação é um duelo. Quem irá vencer? Miranda é atrevida e claramente mais inteligente que seu captor, mas é Frederick quem tem todas as vantagens. Sua fraqueza, porém, é a própria Miranda. Sim, ele a sequestrou. Sim, ele a mantém em cativeiro, mas em sua mente doentia ele não está dando razões para ela sofrer. Pelo contrário. Decorou a casa pensando nos gostos dela, comprou os livros que ela gosta, as roupas nas cores e estilo que ela usa. Tudo para que ela seja feliz e se sinta bem como sua hóspede. Ele está disposto a fazer tudo por ela e só o que quer é que ela o conheça, porque ele a ama. Em sua mente doentia, ela está sendo ingrata ao reagir contra suas ações.

Algo que me surpreendeu é que Frederick não é violento da maneira convencional. Ele não maltrata Miranda, física ou verbalmente. Não há perversidade em sua mente. Ele não fica excitado com o sofrimento dela, não a estupra, não faz nada do que se imagina que ele iria fazer. Isso é um dos aspectos mais perturbadores em “O Colecionador” porque ele não quer nada dela. Ele só quer ela. Tanto que não pensa nela como sua vítima e sim como sua hóspede. Ele não está a mantendo em cativeiro e sim a recebendo para uma estadia. Dessa forma, não há nada que Miranda possa fazer que lhe garanta a liberdade. Ela não pode dar a Frederick o que ele quer porque esse algo não existe. O que ele almeja é tê-la como uma das borboletas que coleciona, mas sabe que isso nunca vai acontecer. É simples e perturbador assim.

O que torna tudo pior é que os dois estão sofrendo, cada um a seu modo. Ela porque foi privada da sua vida. Ele porque foi um esquisitão a vida inteira e a única pessoa que ele ama só quer fugir dele. Sim, Frederick é o vilão, mas ele também é um coitado. Miranda é superior a ele em todos os sentidos, ela só está em desvantagem. Frederick não é perverso. A situação em que ele coloca Miranda é perversa. Ele é apenas louco e sua loucura tem uma fonte: ela. A situação toda é tão deturpada que eu cheguei a sentir pena de Frederick e me culpar por isso. É essa complexidade que torna “O Colecionador” tão interessante: uma situação infeliz para todos os envolvidos.

"É porque estou tão sozinha. Preciso olhar para um rosto inteligente. Qualquer um que tenha sido trancafiado desse jeito deve entender. Você se torna real demais para si mesmo de um jeito estranho. Como você nunca foi anteriormente." (FOWLES, 2018, p.262)

Thomas Harris confessa que não teria escrito “O Silêncio dos Inocentes” sem este livro. Stephen King não confessa, mas nem precisa: é clara a influencia de “O Colecionador” em “Misery” (dois personagens trancados em uma casa. Um vítima da obsessão do outro). Aliás, o Mestre do Terror assina o prefácio desta que é uma das edições mais bonitas já lançadas pela Darkside Books, analisando o impacto do livro na época de sua publicação, em 1963, e o quanto o leitor enriquece a sua experiência ao fazer uma segunda leitura da obra.

O desfecho da história de Frederick e Miranda é bastante verossímil. Embora eu confesse que esperava algo mais (e que até previ que era isso que me aguardava no final), também fiquei feliz com a abordagem do autor. Um livro que parte de uma situação intensa, mas a coloca em segundo plano, já que os holofotes estão o tempo todo apontados para o personagens. Simples em acontecimentos, complexo e perturbador em todo o resto.

Título: O Colecionador
Autor: John Fowles
N° de páginas: 256
Editora: Darkside Books
Exemplar cedido pela editora 

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

RESENHA: Eu sei onde você está

Eu sei onde você está / Claire Kendal / Thriller Psicológico
Gosto de livros que focam em como o personagem se sente diante de tal situação mais do que na situação em si. E thrillers psicológicos são um prato cheio para esse tipo de desenvolvimento. Foi isso que me atraiu em "Eu sei onde você está": a angústia de uma mulher que está sendo perseguida.

Desde a noite que passaram juntos, Clarissa não consegue se livrar de Rafe. Ele está em todos os lugares. Acompanhando todos os seus movimentos, mandando presentes nada bem vindos, vigiando sua casa. Não demora até que Clarissa passe a sacrificar sua rotina para poder escapar do olhar possessivo de Rafe. Para acumular provas suficientes contra seu perseguidor, ela deixa que a situação se desenrole para evitar correr o risco de ser menosprezada quando levar o caso à polícia. Mas Rafe fica cada vez mais perigoso e Clarissa entende que há motivos para ela mal lembrar da tal noite que deu início a tudo e da qual ela acordou com hematomas pelo corpo. Enquanto o pesadelo se desenrola, ela serve de jurada em um caso de uma mulher que também foi vítima de abuso sexual.

A história se desenvolve em duas narrativas, ambas no presente: de um lado, um narrador em terceira pessoa nos conta a história de Clarissa. Do outro, a própria Clarissa faz anotações detalhadas em um diário a respeito de tudo o que Rafe faz e de como isso faz ela se sentir.

Rafe é um personagem perturbador. Não o conhecemos fora do contexto perseguidor, mas nesta situação o conhecemos a fundo. Ele não é apenas obsessivo e desequilibrado. Ele é realmente violento e sua mania de encerrar cada frase com "Clarissa" é de dar arrepios. Um pequeno detalhe que funciona bem.

Quanto a Clarissa, é sua paranoia que dá forma a trama. A história não é sobre o que Rafe faz com ela e sim sobre o medo que ela sente do que ele pode vir a fazer. De onde ele possa estar. De onde mais possa se infiltrar. Das pessoas, próximas a ela, que ele possa alcançar. O medo de Clarissa é tão verdadeiro que, mesmo que as ações de Rafe não escalassem, ainda assim o livro se tornaria mais tenso a cada página porque é assim que a protagonista se sente, porque quando você está por um fio, até a brisa do vento se torna assustadora e é a esse ponto que Rafe reduz Clarissa.

"Devo parecer uma louca, como se eu tivesse algum tique nervoso. E fico me perguntando onde você está. Isso me apavora ainda mais, me faz ver que há o perigo de eu passar a ter uma fixação tão grande por você quanto você tem por mim. Na verdade, é isso que você quer, na sua missão interminável de conquistar minha atenção." (KENDAL, 2017, p. 130)

Em paralelo a isso, acompanhamos o caso do tribunal no qual uma prostituta viciada em drogas luta contra uma agressão sexual. O caso coloca uma carga extra sobre Clarissa que percebe o quão humilhante é estar na posição de vítima, uma abordagem da qual eu gostei. Em primeiro lugar, o caso não está ali apenas para preencher os dias da personagem e sim para entrar na mente dela. Não bastasse ela estar amedrontada pelo seu perseguidor, ela também tem medo do que deveria lhe ajudar a fazer com que a perseguição parasse. Nesse dilema, Clarissa se mostra uma personagem bastante racional diante de uma situação totalmente emocional, algo que também me agradou.

Em segundo lugar, fica claro que a autora quer mostrar o descaso das autoridades ao lidar com certos crimes. Porque a pessoa não está sob a mira de uma arma isso significa que ela está correndo menos risco ou que sua vida não está em perigo? Porque a mulher não consegue provar que foi estuprada, isso quer dizer que ela não foi? Porque a violência que o perseguidor comete deixa apenas marcas psicológicas isso significa que ela é menos traumática ou é menos digna de resgate do que a violência física? Até que ponto a vítima precisa sustentar uma situação insustentável apenas para acumular provas de que o que está acontecendo com ela é caso de polícia? Essas são algumas das questões que Kendal consegue abordar dentro da trama. 

É no julgamento também que a protagonista conhece um homem por quem desenvolve um interesse romântico. Aliás, Robert também é um personagem interessante já que Clarissa vê nele a antítese de Rafe, mas o leitor percebe que algo pode estar errado com ele. 

Mesclando a sequência de acontecimentos com Clarissa, os diários e ainda a história da vítima do caso do tribunal, "Eu sei onde você está" é um livro que mantém o interesse e o envolvimento, embora a tensão da história não chegue a contaminar o leitor. A trama é bem amarrada e conta com um desfecho em parte clichê, em parte inesperado. Não apresenta nada de extraordinário, mas é sim uma boa leitura.  

Título: Eu sei onde você está
Autora: Claire Kendal
Nº de páginas: 304
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

RESENHA: Por trás de seus olhos

“Ninguém realmente espera o melhor de outra pessoa.” (Pinborough, 2017, p.262)

Se tem uma premissa da qual eu costumo fugir é o triângulo amoroso. Mas algo em “Por trás de seus olhos” me fisgou, em especial por se tratar de um thriller psicológico da Intrínseca – editora que, na minha opinião, tem um excelente faro para livros do gênero. Além disso, os elogios eram extremamente instigantes. Basicamente: um triângulo amoroso como nenhum que você já viu antes, um desfecho que você não será capaz de prever. Intrigada, pensei: “Mas será mesmo tudo isso?” e sim. É.

Louise é uma mãe solteira que em uma noite conhece um estranho em um bar. Os dois trocam alguns beijos e se afastam, mas qual não é a surpresa de Louise ao descobrir, dias depois, que o homem do bar é seu novo chefe? Para completar o constrangimento da situação, é claro que ele é casado. Como se as coisas não pudessem ficar mais estranhas, Louise faz amizade com uma mulher em quem esbarra por acaso na rua: a esposa dele, Adele. Aos poucos ela percebe que há algo muito errado com o casamento dos dois e que talvez o seu encantador David não seja tão encantador e que talvez sua nova amiga guarde mais segredos do que ela imagine.

Bizarro. Essa é a palavra que define “Por trás de seus olhos”. Se isso é um aspecto positivo ou negativo ainda não sei. Mas que leitura! Basta dizer que há muito tempo eu não tinha em mãos um livro que me fazia questionar o tempo inteiro “Qual é a desse personagem?”, principalmente para múltiplos personagens, porque é exatamente isso que acontece.

É possível sentir o perigo em cada página e isso se torna ainda mais intenso porque não conseguimos saber, exatamente, de onde ele vem. Qual é a de Adele? Qual é a de David? Qual a função de Louise nesse casamento disfuncional? Como ela reagirá diante de tantos jogos mentais e manipulações? Qual a importância de Rob (um amigo do passado de Adele)? As respostas não são tão fáceis de prever, por um lado porque a autora nos prende de tal forma no desenrolar dos acontecimentos que nem paramos para pensar. Por outro, ninguém em sã consciência vai cogitar uma coisa como a com que nos deparamos no desfecho. É algo semelhante ao que Raymond Chandler falou a respeito de “O Assassinato no Expresso do Oriente”, clássico de Agatha Christie cujo desfecho foge totalmente das “regras” da literatura policial. Deixando a Dama do Crime de lado, alguns dirão que Sarah Pinborough joga sujo (e talvez jogue mesmo), mas é inegável que sua trama é criativa, surpreendente e encontra sua lógica dentro de si mesma. Mais importante ainda, é fiel à essência de seus personagens e suas personalidades e é isso que me faz aceitar o que a autora propõe. Por fim, o livro cumpre o seu principal propósito, ou seja, entreter seu leitor.

A narrativa é dividida em três perspectivas: a de Adele, a de Louise (ambas em primeira pessoa) e o passado de Adele (em terceira pessoa), no qual vemos a temporada que ela passou em um hospital psiquiátrico logo após a morte de seus pais e no início do seu relacionamento com David. Esses ângulos contribuem para que sempre estejamos no escuro de alguma forma. Temos algumas informações que os protagonistas não têm, mas nunca temos todas.

Quanto aos personagens, o grande destaque vai para Adele: aquele tipo que faz você se sentir em um terreno traiçoeiro, incerto sobre onde pisar. Você não sabe se deve torcer por ela ou não. Você sente que nada de bom virá do que ela está tramando (seja o que for), mas você quer ver onde tudo vai chegar. Não queremos ser cúmplices de seus atos, mas querermos ser testemunhas deles. David também intriga. Qual será sua verdadeira faceta? Quais suas intenções? Onde está a sua lealdade (se é que ela existe)?

“Por trás de seus olhos” é surpreendente de uma maneira ligeiramente incômoda, mas proporciona uma experiência de leitura intensa e envolvente. Não tenho ideia do que esperar de outras leituras de Sarah Pinborough, mas pretendo conferir.

Título: Por trás de seus olhos
Autora: Sarah Pinborough
N° de páginas: 352
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

RESENHA: Na Escuridão da Mente

“Para ser sincera, e deixando de lado todas influências externas, existem algumas partes das quais me lembro com tantos detalhes horríveis que temos me perder no labirinto de lembranças. Há outras que permanecem confusas e misteriosas como se fossem a mente de outra pessoa e temo que, em minha cabeça, eu tenha provavelmente misturado e comprimido as linhas do tempo e os acontecimentos.” (TREMBLEY, 2017, p. 23)

***

Marjorie Barret é um adolescente de 14 anos que apresenta sinais de esquizofrenia aguda. Porém, quando os médicos não conseguem tratar a doença, a família procura a ajuda do padre Wanderly, que acredita que a jovem esta possuída por um demônio. O padre também entre em contato com uma produtora, que se oferece para gravar um reality show sobre a família e o exorcismo. Embora contrariados, a família Barret acaba aceitando a oferta em virtude das dívidas que se acumulam. Quinze anos depois, uma escritora entrevista Merry, a irmã mais nova de Marjorie, para escrever um livro sobre a família, o reality show e o exorcismo. 

Os capítulos são narrados em primeira pessoa por Merry e se alternam entre o presente e o passado, além de contar também com os posts de uma blogueira que analisa os episódios do reality show. Desta forma, o leitor vai coletando informações e montando um grande quebra-cabeça sobre o que aconteceu com a família Barret. 

Marjorie, como o esperado, é o grande destaque do livro. Tremblay construiu uma personagem astuta e ambígua, que deixa o leitor em dúvida o tempo todo, pois não conseguimos ter certeza se estamos vendo apenas um adolescente mentalmente instável ou se há forças sobrenaturais envolvidas. 

Outra jogada inteligente do autor foi utilizar Merry como narradora do livro, não apenas por transmitir ao leitor uma visão do que se passava com aquela família, mesmo com as câmeras desligadas, mas também para provocar mais dúvidas no leitor, afinal, na época dos fatos Merry era uma criança de oito anos. Até que ponto suas memórias e relatos são confiáveis? Até que ponto pode ter romanceado ou fantasiado os fatos?

Porém, o problema de Na Escuridão da Mente é que seu ritmo é bastante lento e, em certo momentos, a leitura se torna um pouco monótona. Creio que a intenção do autor era ir acentuando os momentos de tensão até culminar no exorcismo de Marjorie, porém, a impressão que fiquei é que a estória patinou até alcançar o ápice. 

O exorcismo em si rendeu cenas e diálogos interessantes, além de fazer com o próprio leitor sentisse na pele o nervosismo dos personagens, porém, não conseguiu ir além do que outros livros, filmes e séries já fizeram. Entretanto, é preciso registrar que nas páginas finais o autor seguiu um caminho inesperado e que deu um fim surpreendente à estória. 

O principal motivo que me levou a ler o livro foram as diversas frases estampadas na capa e na contracapa que prometiam um livro assustador. Sinceramente, não foi isso que eu encontrei. Sim, o livro conta com cenas tensas e que até causavam um friozinho na barriga, mas certamente não me assustou para valer, não tirou meu sono, não me deu pesadelos e tampouco foi o livro mais assustador que já li. 

Na Escuridão da Mente é um livro que acerta por brincar com a mente do próprio leitor, deixando-o em dúvida sobre o que realmente aconteceu, mas peca por contar com um ritmo arrastado. Mas preciso admitir que, para mim, a leitura deixou um gostinho de decepção por não entregar o livro assustador que eu esperava encontrar. 

Título: Na Escuridão da Mente
Autor: Paul Tremblay
N.º de páginas: 264
Editora: Bertrand Brasil
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 11 de maio de 2017

RESENHA: Quem era ela

“Porque foi isso que eu percebi morando em Folgate Street, n.º 1. Você pode tornar o ambiente em que vive tão refinado e vazio quanto quiser. Mas isso não importa se você ainda estiver bagunçado por dentro. E, na verdade, todos nós estamos buscando isso, não é mesmo? Alguém que cuida da bagunça que há dentro da nossa cabeça.” (DELANEY, 2017, p. 319)

***

A casa minimalista localizada em Folgate Street, n.º 1, atrai muitos interessados por sua arquitetura vanguardista integrada com os melhores recursos tecnológicos. Para se candidatar a inquilino é preciso responder a um extenso questionário e, se selecionado, assinar um contrato com as mais diversas e peculiares regras. É neste cenário que conhecemos duas mulheres: Emma e Jane. E aos poucos elas vivem a mesma experiência: a casa que parecia ser um refúgio se torna um lugar ameaçador, ainda mais quando descobrem que o local já foi o cenário de mortes suspeitas. 

O primeiro fator que merece destaque em Quem era ela é a narrativa de Delaney, que além de ser fluída, nos coloca em contato direto com ambas as protagonistas. Os capítulos são alternados entre os pontos de vista de Emma e Jane, de forma a entrelaçar passado e presente. A narrativa é em primeira pessoa e o autor conseguiu dar vozes distintas a cada uma das protagonistas, embora tenha recorrido a alguns artifícios para conseguir este efeito. 

Também é preciso elogiar o ritmo da obra, pois em nenhum momento a leitura se torna cansativa ou monótona. Além disso, os personagens são bem desenvolvidos e o autor consegue evidenciar a personalidade de cada um deles através de suas atitudes, sem ter que recorrer a descrições infindáveis. Apesar disso, admito que não senti uma conexão com as protagonistas, de modo que foi difícil me importar com elas. Porém, é possível que está tenha sido a intenção do autor, pois a casa minimalista e impessoal não é apenas um cenário, mas praticamente um personagem. 

Mas o principal problema de Quem era ela é que o autor vai construindo um clima de tensão que cresce ao longo da trama, de modo a aumentar a expectativa do leitor, porém, o final é anticlimático. As respostas que recebemos não são apenas fracas e sem graça, mas principalmente sem sentindo ou coerência. A meu ver, o autor fez alterações bruscas na personalidade de dois personagens para manter o suspense e o mistério. E embora eu concorde que um bom antagonista deve enganar principalmente o leitor, é preciso dizer que isso não serve como uma carta em branco para passar por cima da verossimilhança. 

Estes acontecimentos me levaram a concluir que o autor escreveu o livro sem ter controle sobre a trama, de modo que quando se aproximou do final lhe sobraram apenas duas opções inadequadas: ir pelo caminho óbvio e não surpreender o leitor ou tentar surpreendê-lo forçando elementos incongruentes com o restante da obra. 

Quem era ela é uma leitura rápida e despretensiosa e que, apesar das escorregadas, consegue prender a atenção do leitor. Porém, não Delaney não consegue entregar tudo o que promete, então não espere encontrar um grande thriller psicológico. 

Título: Quem era ela
Autor: JP Delaney
N.º de páginas: 331
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 26 de março de 2017

RESENHA: Eu estou pensando em acabar com tudo

“Nós não podemos e não sabemos o que os outros estão pensando. Não podemos e não sabemos que motivações as pessoas têm para fazer as coisas que fazem. Nunca. Não totalmente. Essa era a minha aterrorizante epifania da juventude. Nós nunca conhecemos realmente alguém. Eu não conheço. Nem você.” (REID, 2017, p. 186)

Quando expressões como ”narrativa profundamente psicológica” e “thriller minimalista” são usadas para descrever um livro, é certo que eu vou me interessar em lê-lo.

Narrado em primeira pessoa por uma personagem cujo nome não sabemos, “Eu estou pensando em acabar com tudo” nos leva em uma jornada estranhamente angustiante porque não conseguimos detectar de onde vem o desconforto que sentimos. A narrativa é extremamente interessante e, sem dúvida nenhuma, o grande mérito do livro. Não é exatamente o que ela conta (inclusive porque não há muita história sendo desenvolvida), mas o que está nas suas entrelinhas, as sensações que ela consegue provocar no leitor. A contracapa diz: “Você sentirá medo. Mas não saberá dizer por quê...”. Eu não sei se chegaria a usar a palavra medo, mas concordo com a afirmação, aliás, arrisco dizer que ela é tudo que você precisa saber sobre “Eu estou pensando em acabar com tudo”. O resto é experiência de leitura.

A trama se resume a uma viagem de carro, na qual Jake, o namorado da narradora, a leva conhecer os pais dele. Enquanto isso, estamos dentro da mente dela, relembrando momentos que os dois viveram juntos - como se conheceram, as longas conversas que tiveram - e também acompanhando os seus pensamentos de terminar o relacionamento, algo que Jake não tem a menor ideia que ela cogite. Talvez o tal desconforto venha disso: sentimos que a personagem não quer estar ali, mas, por outro lado, ela insiste em nos contar os motivos que a levam a se sentir atraída por Jake e quer nos convencer da conexão que existe entre eles, enquanto tudo que testemunhamos é um relacionamento morno.

Ocupando também os pensamentos da mulher está uma série de ligações e mensagens telefônicas que ela tem recebido nos últimos tempos de um homem que nunca se identifica e sempre deixa a mesma misteriosa mensagem.

Os capítulos da viagem se intercalam ainda com outros que fazem referência a um episódio trágico, protagonizado por um personagem que não sabemos quem é nem qual seria sua relação com a Jake e a narradora.

A narrativa vertiginosa me fisgou já na primeira página, mas eu sentia que faltava algo. A verdade era que eu não me importava com nenhum dos personagens e sentia que estava em meio a um livro sem história, mas de alguma forma me via quase hipnotizada lendo. Porém, quando me aproximei da metade do livro, comecei a elaborar uma teoria e, a partir disso, passei a ler com outros olhos, atenta a qualquer indício que pudesse comprovar que eu estava certa. Quanto mais eu lia, mais eu percebia o quão bem articulada era a narrativa de Iain Reid e o quanto ela conseguia preservar as surpresas e reviravoltas da história, enquanto dava todos os indícios para o leitor captar o que estava acontecendo. Quando cheguei ao final, descobri que a minha teoria estava certa e fiquei bastante satisfeita com o que encontrei, percebendo que até mesmo as coisas que me incomodavam faziam todo o sentido dentro da trama.

Não se pode falar muito de “Eu estou pensando em acabar com tudo” sem dar spoilers (justamente por isso, a edição física do livro não traz sinopse e sim apenas um trecho do primeiro capítulo). É um livro que você não lê pela história que ele conta e sim pela sensação que provoca enquanto você o lê (e que, em alguns momentos, me lembrava o ótimo “Um Bom Rapaz”). Pode surpreender muitos leitores, pode entediar outros tantos, mas vai agradar em cheio quem souber ler nas suas entrelinhas. Deixo essa resenha, propositalmente, sem muitos detalhes.

A Fábrica 231 merece elogios pela beleza dessa edição que ganhou capa dura, uma arte minimalista perfeitamente adequada à história e marca cada início de capítulo com uma página preta escrita em branco.

Título: Eu estou pensando em acabar com tudo
Autor: Iain Reid
N° de páginas: 222
Editora: Fábrica 231
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 6 de novembro de 2016

RESENHA: O Adulto

“Ainda assim, eu também sentia: a casa. Não necessariamente malévola, mas... atenta. Podia senti-la me estudando, faz sentido? O lugar me sufocava. Certo dia eu estava esfregando o piso e de repente senti uma dor pungente no dedo médio — como se tivesse sido mordia —, e quando olhei, estava sangrando. Enrolei o dedo, apertando-o com um dos panos de limpeza, e vi o sangue penetrar no tecido. Senti como se algo na casa tivesse ficado satisfeito. 
Comecei a ter medo.” (FLYNN, 2016, p. 36)

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Já comentei aqui no blog que não tenho o costume de ler contos, pois acho mais difícil de me conectar com a estória. Entretanto, após quase um ano sem ler algum livro de Gillian Flynn — uma das melhores autoras contemporâneas —, mal podia esperar para conferir O Adulto. E mesmo com altas expectativas, Flynn não decepciona. 

Uma jovem — cujo nome não sabemos — é uma falsa vidente. Tendo uma aptidão natural para “ler” as pessoas, ela nunca teve dificuldade em dizer exatamente o que seus clientes queriam ouvir. Quando atende Susan Burke, mulher que acredita que a casa para a qual se mudou está tornando seu enteado, Miles, mais agressivo, a “sensitiva” imagina que irá ganhar dinheiro fácil ao fazer uma limpeza espiritual na residência. Mas ao visitar a mansão e se deparar com situações apavorantes, ela percebe que Susan não é apenas uma mulher fútil em busca de emoções.  

A narrativa, em primeira pessoa, nos coloca ao lado da golpista e nos faz mergulhar de cabeça na estória. Mesmo sem saber seu nome, Flynn nos dá um retrato muito claro da protagonista, de modo que entendemos seus motivos e atitudes e logo simpatizamos com ela. Além disso, por ser um conto e ter menos de sessenta páginas, é impossível interromper a leitura antes de chegar ao final e descobrir como as peças se encaixam. 

Flynn mais uma vez impressiona pelo talento em construir personagens reais e, com o desenrolar da estória, vemos as diversas facetas de suas personalidades. Chama atenção o fato de que apesar da protagonista ser o nosso ponto de contato com a estória e estar diretamente relacionada aos eventos narrados, ela não é a personagem mais importante do conto, o que revela originalidade da autora. 

Desta vez, Flynn flerta com elementos sobrenaturais, sendo precisa em transmitir ao leitor uma atmosfera soturna e opressora nos momentos certos. Entretanto, o enfoque da trama ainda é a relação conturbada entre Susan e Miles e as consequências que advém desta situação, não apenas na vida deles, mas também na vida da protagonista. 

Apesar de não ter achado o desfecho tão imprevisível assim, mais uma vez é preciso reconhecer a genialidade da autora. Entretanto, ressalto que o conto deixa algumas perguntas no ar, de modo que aqueles leitores que preferem um final fechado podem se sentir um pouco frustrados. De minha parte, digo que a Flynn acertou em cheio, pois deixa o leitor em estado catatônico, tentando processar tudo o que leu. 

O Adulto é a prova cabal de que bons thrillers psicológicos não dependem do número de páginas, nem de reviravoltas impossíveis. Ainda assim, é impressionante como uma estória tão enxuta consegue ser tão surpreendente e impactante. Por isso mesmo, creio que O Adulto seja uma excelente forma de ser introduzido à obra de Gillian Flynn, mas que também agradará aqueles que já são fãs. 

Título: O Adulto (exemplar cedido pela editora)
Autora: Gillian Flynn
N.º de páginas: 64
Editora: Intrínseca

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

RESENHA: Baseado em fatos reais

“Pensei que L. havia percebido meu ponto de demência e que a recíproca era verdadeira.
Talvez, inclusive, seja isso um encontro, amoroso ou amigável: duas demências que se reconhecem e se cativam.” (VIGAN, 2016, p.96)

Após o grande sucesso de seu mais recente livro, uma história autobiográfica que explora dramas familiares, a escritora Delphine se vê diante do dilema do próximo livro. O que ela pode escrever que esteja a altura de tanta expectativa? Fragilizada pela pressão, ela enfrenta um bloqueio criativo que nunca a havia cometido com tanta intensidade antes, chegando ao ponto de nem mesmo conseguir responder um email. Para piorar, ela tem recebido cartas violentas com críticas severas sobre seu livro de sucesso. É neste contexto que Delphine conhece L., uma ghost-writer com quem desenvolve uma amizade instantânea e, aos poucos, uma relação de dependência.

Narrado em primeira pessoa por Delphine e composto em sua maioria por trechos curtos, “Baseado em fatos reais” é um livro intenso desde as primeiras páginas, graças à atmosfera de perigo criada pela autora e é um daqueles livros que funciona mais pela habilidade narrativa com a qual é conduzido do que pelos acontecimentos. Quando somos apresentados à história, todos os eventos já aconteceram e tomamos conhecimento deles a partir do relato de Delphine que agora os enxerga com um olhar muito diferente do que tinha quando de fato ocorreram. Agora ela vê as atitudes de L. com desconfiança, enxerga potencial de perigo em cada uma delas, o que faz com que o leitor veja as coisas da mesma maneira. Caso acompanhássemos os eventos enquanto eles aconteciam, com certeza a história seria muito diferente. Não conhecemos L. diretamente, mas já a vemos surgir como uma personagem perigosa e misteriosa porque é assim que Delphine a revela para nós. Por isso, a protagonista é uma espécie de narradora não-confiável que apresenta a história para o leitor através de seu olhar totalmente contaminado pelas consequências daqueles episódios.

L. é uma personagem misteriosa (e em muitos momentos lembra a perturbada Anne Wilkes de “Misery”) que deixa o leitor na expectativa, mas também ressabiado, para descobrir o que ela irá fazer. Parece que sempre temos um pé atrás com L., que devemos desconfiar de cada uma das suas ações e esperar qualquer coisa dela. Paira a sensação de que a enxergamos melhor do que a própria Delphine, mas a verdade é que é apenas pelos olhos de Delphine que a conhecemos. Por isso, certezas não existem. Por um lado, sentimos que há alguma coisa muito errada na ânsia de L. de estar disponível e ser prestativa. Por outro, parece que tudo o que ela quer é que Delphine escreva o melhor livro que é capaz de escrever. Aos poucos, testemunhamos como L. entra dentro da mente de Delphine, como se torna necessária, mas não sabemos seus motivos já que não temos acesso direto a ela.

“Baseado em fatos reais” é aquele tipo de livro envolvente que, não precisando, o leitor não larga. O curioso é que não são muitos os acontecimentos que se desenrolam e na maior parte da trama a sensação que se tem é que o território está sendo preparado para alguma coisa que eventualmente vai acontecer, mas que nada está acontecendo no momento. Ainda assim, o livro não é arrastado (e Vigan acerta em fazê-lo curto) e prende o leitor pelo magnetismo de sua narrativa e pela atmosfera de perigo que cria, provocando um efeito muito mais satisfatório do que milhares de reviravoltas (que tantas vezes soam forçadas).

Me lembrando um pouco o excelente “No Escuro” (um dos meus thrillers psicológicos favoritos), “Baseado em fatos reais” manipula muito bem seu leitor, escondendo o jogo ao mesmo tempo em que revela suas cartas. Sabemos de onde vem o perigo, sabemos que aquela situação não irá acabar bem, só não sabemos todos os detalhes do caminho.

Ao longo do leitura tentei prever o desfecho, pois me parecia que a história poderia se encaminhar para milhares de soluções diferentes, todas potencialmente interessantes. Fiquei muito satisfeita em constatar que uma das minhas teorias estava certa, mas ainda assim a autora conseguiu me surpreender. Vigan fez algo que eu aprecio muito em livros de suspense: plantou pistas muito discretas e deu as chaves para as respostas, sem se dar ao trabalho de explicar tudo para o leitor.

Em uma época em que thrillers psicológicos têm me decepcionado, “Baseado em fatos reais” foi uma grata surpresa e deixa a expectativa para os demais livros da autora.

Título: Baseado em fatos reais (exemplar cedido pela editora)
Autora: Delphine de Vigan
N° de páginas: 254
Editora: Intrínseca

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

RESENHA: Pacto Sinistro

“— É exatamente aí que você se engana! Qualquer pessoa é capaz de matar. É uma questão de simples circunstâncias, não tem nada a ver com temperamento. As pessoas chegam lá e uma coisinha à toa pode levá-las a ultrapassar a fronteira. Qualquer um. Até mesmo sua avó. Sei disso!” (HIGHSMITH, 2006, p. 28).

***

Pacto Sinistro é muito mais conhecido pelo filme dirigido por Alfred Hitchcock e com roteiro de Raymond Chandler do que pelo livro que o inspirou, escrito por Patricia Highsmith. Sendo fã da autora desde que li a saga iniciada com “O Talentoso Ripley”, não podia deixar de conferir seu livro de estreia. 

Dois estranhos se encontram em um trem e entre doses de uísque acabam compartilhando suas vidas. No decorrer da conversa, Charles diz que gostaria de matar seu pai, responsável por infernizar sua vida. E quando ele fica sabendo dos problemas que Guy tem com Miriam, sua ex-esposa, sugere o crime perfeito: um mataria pelo outro, assim, teriam álibis inquestionáveis. Guy fica chocado com a ideia, atribuindo-a ao álcool e à imaginação fértil. Mas, para sua surpresa, Charles leva o plano a cabo, matando Miriam, e agora espera que Guy cumpra com sua parte do “acordo”. 

O primeiro fator a chamar atenção em Pacto Sinistro é como Highsmith é hábil na construção dos personagens. Em poucas páginas o leitor já tem uma imagem clara de cada um dos protagonistas. Bruno é um solitário bon vivant, que não precisou se esforçar por nada na vida e que passa suas horas livres sempre com um drink na mão. Guy é o sujeito submisso, que sempre quer agir corretamente e ser honesto. 

O ápice do livro é ver a desconstrução dessas personalidades, ver como cada um começa a perder sua essência em decorrência da sucessão de eventos. Por isso mesmo, antes de ser um suspense ou até mesmo um livro policial, Pacto Sinistro é um thriller psicológico. Aliás, este aspecto fica claro na própria narrativa, que se foca mais no estado de espirito e nos pensamentos dos personagens, do que em suas ações. 

Entretanto, confesso que achei o livro, especialmente da metade para o final, enrolado. Highsmith faz questão de mostrar o efeito que a relação entre Charles e Guy causa na vida cotidiana deles. Por isso, o leitor acompanha diversas vezes cenas sobre o trabalho de Guy ou as noitadas de Charles que em nada acrescentam à trama. Trata-se do típico caso “menos é mais”. 

Confesso que o final tampouco me agradou, pois a solução apresentada pela autora me pareceu simplista demais em alguns momentos, e forçada demais em outros, de modo que não me convenceu. Além disso, o final conta com pouca ação e nenhuma reviravolta, sendo até mesmo um pouco previsível, de modo que não empolga o leitor. 

Assim, apesar de fã da autora e com grandes expectativas para a leitura de Pacto Sinistro, admito que senti um gosto de decepção ao final. É claro que a premissa é genial e os personagens literalmente ganham vida, mas a execução infelizmente deixa a desejar. 

Título: Pacto Sinistro
Autora: Patricia Highsmith
N.º de páginas: 288
Editora: Ediouro

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

RESENHA: Carrie, a Estranha

Carrie, a Estranha Stephen King
Carrie, a Estranha foi o primeiro livro publicado por King e confesso que entre sua vasta obra, esta nunca foi uma prioridade, visto que a premissa não me parecia tão atraente. Entretanto, sendo o fã do autor que sou hoje, não poderia deixar de ler uma de suas obras mais icônicas. 

Carrie é uma adolescente tímida e retraída que vive com a mãe, uma fanática religiosa que submente a filha a uma vida de punições absurdas por pecados imaginários. Tudo muda quando Carrie, em um incidente na escola, descobre seu poder telecinético e aos poucos começa a dominá-lo. 

Apesar de ter começado a ler o livro sem grandes expectativas, confesso que me surpreendi com Carrie, a Estranha. Mesmo contando com uma estória simples e relativamente curta, a profundidade dos personagens chama atenção desde o início. É incrível ver como a personalidade e as atitudes de Carrie são uma reação ao meio inóspito em que vive, tanto com sua mãe, tanto com os colegas de escola. Acrescente-se a esta combinação explosiva o poder telecinético, o qual começa a dar confiança a Carrie, que deixa a passividade de lado e começa a se impor.

“— Mas quase ninguém descobre que seus atos, na verdade, magoam realmente os outros! Ninguém fica melhor, as pessoas só ficam mais espertas. Quando fica mais esperto, você não para de arrancar asa de mosca, só imagina um motivo melhor para fazer isso.” (KING, 2013, p. 76)

Este foi o décimo livro que li do mestre King, e mesmo sem poder dizer que sou um expert na obra do autor, começo a notar uma clara diferença entre seus livros de início da carreira, como Carrie, a Estranha e O Iluminado e os demais. Suas primeiras obras possuem uma trama mais simples e coesa, girando em torno da jornada dos personagens e tem um foco muito maior na psique destes. Já livros mais recentes — como Sob a Redoma, Novembro de 63 e Doutor Sono —, possuem tramas mais complexas, contam com inúmeras reviravoltas e o cerne da estória não se resume a jornada do protagonista. São estilos bem distintos e me impressiona como King se sai bem em ambos. 

A narrativa é composta por trechos em terceira pessoa, narrando diversos pontos de vista, de Carrie a sua mãe, bem como a professores e colegas, alternados com trechos de livros e reportagens que discorrem sobre os eventos que ocorreram na cidade de Chamberlain e que tiveram Carrie como principal figura. Creio que tal estrutura acarretou em um certo distanciamento entre o leitor e o livro, pois me pareceu haver uma formalidade desnecessária, faltando alguém com quem o leitor pudesse criar uma conexão. 

Mesmo tendo sido escrito na década de setenta, King aborda assuntos complexos e que permanecem atuais, como o fanatismo religioso e o bullying, porém, sem fazer destes tópicos o cerne da estória, tampouco utilizando-os para dar lições de moral. 

Muito mais do que uma estória de terror, Carrie, a Estranha é uma bem sucedida mistura de drama e thriller psicológico, mostrando que qualquer pessoa pode ser vítima e vilão ao mesmo tempo. Encerro dizendo que com Carrie, a Estranha, Stephen King fez uma incrível estréia literária e já dava sinais do grande autor que viria a ser. 

Título: Carrie, a Estranha
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 199
Editora: Suma de Letras


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sábado, 5 de dezembro de 2015

RESENHA: Lugares Escuros

“— [...]. É um crime insano, insano, grande parte dele não vai fazer sentido. Por isso as pessoas são tão obcecadas com esses assassinatos. Se fizessem algum sentido, não seriam realmente mistérios, certo?” (FLYNN, 2015, p. 123)

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Considero Gillian Flynn uma das melhores autoras da atualidade, e depois de ter ficado atônito com Garota Exemplar, e espantado com Objetos Cortantes, mal podia esperar para conferir Lugares Escuros.

Em janeiro de 1985 a família Day foi assassinada, sendo Libby, uma garotinha de oito anos, a única sobrevivente. Foi seu irmão mais velho, Ben, quem foi condenado a prisão perpétua pela prática do crime, mesmo com poucas provas de seu envolvimento. Libby nunca teve dúvidas de que fora Ben quem cometera os assassinatos, mas quando um grupo de pessoas convencidas de que ele é inocente a instiga a desvendar os mistérios do passado, segredos começam a ser revelados. 

Creio que Lugares Escuros é o livro de Flynn que me envolveu mais rapidamente. Em poucas páginas já estava imerso naquele mundo, tentando entender o que tinha acontecido naquele fatídico dia, bem como tentando desvendar o caráter e a personalidade de Ben: manipulador ou vítima da situação? 

Porém, fiquei com a impressão de que o desenvolver da estória é um tanto lento. Libby começa a rastrear pessoas do passado, que poderiam saber detalhes sobre o caso, ou até mesmo estarem envolvidas com o crime, mas senti que foram poucas as respostas que o leitor encontra.Além disso, creio que esse desenvolvimento mais vagaroso se deva, em parte, a estrutura da obra, que conta com capítulos alternados entre Libby, narrando em primeira pessoa os acontecimentos nos dias de hoje, e um narrador em terceira pessoa, contando os pontos de vista de Ben e Patty (a mãe deles) sobre os eventos que antecederam os assassinatos. 

Um elemento presente nas obras da autora e que sempre me impressiona é a possibilidade de juntar as peças de inúmeras formas e ver que todas elas são plausíveis quando se chega ao final da estória. No decorrer da leitura, me vi criando novas teorias a todo instante, e isso só foi possível por causa da profundidade dos personagens, que permitiam múltiplas interpretações e poderiam ser vistos sobre diversos prismas. 

A reta final consiste em uma dose concentrada de ação e adrenalina, sendo impossível interromper a leitura até que todas as peças se juntem. E neste quesito Gillian Flynn também se sobressai: me impressiona como ela consegue amarrar a trama de forma tão cuidadosa, verossímil e ainda impressionar o leitor. Aliás, preciso registrar que Flynn é uma das poucas autoras que sabe manter o pé no chão quando se trata de thrillers psicológicos, não precisando recorrer a artifícios desnecessários e forçosos para criar reviravoltas surpreendentes. 

Creio que minha única decepção com a obra foi o fato de ter acertado parcialmente a resolução do mistério. A teoria que criei desde o início e na qual apostava as minhas fichas foi certeira, embora estivesse incompleta. Mas ainda assim, é impossível ler Lugares Escuros e não se espantar e maravilhar com a genialidade da autora.  

Contando com bons personagens, uma narrativa fluída e uma estória que envolve o leitor rapidamente, Flynn mostra seu talento mais uma vez. Mesmo não sendo a obra mais impactante ou surpreendente de sua autoria, Lugares Escuros é um excelente exemplar do gênero. 

A obra foi adaptada para o cinema neste ano, estrelando Charlize Theron. Clique aqui para assistir ao trailer. 

Título: Lugares Escuros (exemplar cedido pela editora)
Autora: Gillian Flynn
N.º de páginas: 351
Editora: Intrínseca

domingo, 22 de novembro de 2015

RESENHA: A Garota no Trem

“No trem a caminho de casa, ao analisar tudo o que deu errado hoje, fico surpresa por não estão me sentindo tão mal. Pensando bem, já sei por quê: não bebi ontem à noite, e não sinto vontade de beber agora. Estou interessada, pela primeira vez em muito tempo, em algo que não seja minha própria desgraça. Tenho um objetivo. Ou, pelo menos, uma distração.” (HAWKINS, 2015, p. 104). 

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Estava com expectativa em alta para conferir A Garota No Trem, livro que em questão de semanas alcançou o topo dos mais vendidos da Amazon americana e do New York Times. A febre literária ganhou o aval de centenas de escritores e da crítica especializada, sendo traduzido para inúmeras línguas e já vendeu os direitos para a adaptação cinematográfica. 

Rachel é uma mulher alcoólatra que se separou de Tom há dois anos, mas ainda não conseguiu superar o fracasso do casamento. Ao utilizar o trem, não consegue evitar de olhar para sua antiga residência, localizada as margens dos trilhos, onde Tom vive com sua nova esposa, Anna. Em uma vã tentativa de não olhar mais para a casa que antes lhe pertencera, Rachel começa a observar a vida dos moradores da casa ao lado, apelidados por ela de “Jess” e “Jason”. E quando “Jess”, na verdade Megan, desaparece, Rachel está convicta de que sabe o que aconteceu com ela. 

Assim que comecei a leitura percebi pela qualidade do texto que A Garota no Trem era a primeira incursão de Paula Hawkins no mundo literário. Meu problema com a narrativa em primeira pessoa é que muitos autores interpretam tal recurso como uma carta em branco para descrever tudo nos mínimos detalhes, e foi exatamente isto que a autora fez. Durante todo o livro somos bombardeados com as emoções, pensamentos e sentimentos das três narradoras: Rachel, Anna e Megan. Para um thriller psicológico funcionar quando narrado em primeira pessoa, é fundamental que o autor foque nas reações que os eventos externos causam no narrador. A meu ver, não existe explicação lógica para focar nas ladainhas inúteis de uma mulher que não conseguiu superar o ex-marido. 

E sinceramente não compreendi por que a autora optou por enrolar o leitor por cerca de setenta páginas com digressões sobre a vida dos personagens, que se mostraram completamente desnecessárias para o desenrolar da estória, quando: a) o leitor já sabe pela sinopse que uma das mulheres irá desaparecer; b) o leitor não tem o menor interesse em ler sobre as agruras de uma mulher divorciada. Creio que talvez, e apenas talvez, A Garota no Trem não seria tão ruim se toda essa parte introdutória fosse cortada e as informações estritamente necessárias, que não são muitas, fossem desenvolvidas ao longo da trama. Eis um exemplo do típico caso “menos é mais”. 

O envolvimento de Rachel na investigação não me convenceu. Até aceito que ela tenha procurado a polícia para relatar suas suspeitas a respeito de algo que testemunhou. Até entendo que ela tenha ficado obsessiva com o caso, visto que a mulher não tinha vida própria, nem outras distrações para se ocupar. Mas participar da elucidação do caso da forma como participou me pareceu forçado. 

Já o desfecho conseguiu ser extremamente previsível e incoerente. Minha desconfiança sobre um dos personagens se mostrou certeira, mas a motivação para que agisse da forma que agiu soou exagerada e até mesmo inverossímil. A meu ver o personagem, de uma hora para outra, simplesmente se traveste de vilão. E não é como se ele tivesse conseguido manipular ao leitor no decorrer da estória, pois simplesmente há uma quebra na sua personalidade, se tornando outra pessoa. 

Considerando que Rachel, Anna e Megan narram seus episódios em primeira pessoa, me pareceu inaceitável que uma delas ocultasse o “gatilho” de toda a trama, com objetivo exclusivo de manter o suspense. Foi neste ponto que fiquei convencido da incompetência da autora. É uma das regras mais básicas da literatura policial que o leitor deve ter acesso a todas as informações que os personagens têm, a fim de poder desvendar o mistério. E mesmo escondendo deliberadamente a peça central da trama, o suspense de Paula Hawkins é tão fraco que sequer pode ser chamado de suspense. 

Não sei em que mundo um livro dessa qualidade poderia ser comparado com Garota Exemplar (comparação estampada na capa do livro). Em todos os aspectos que se análise, A Garota no Trem não chega nem perto da obra perturbadora, original, surpreendente e absurdamente genial de Gillian Flynn. De semelhança resta apenas o título. 

A ideia de um narrador alcoólatra que sofre com constantes “apagões” quando abusa da bebida é promissora, afinal, tal fato abriria margem para inúmeras possibilidades. Entretanto, não é só de uma boa premissa que se faz um bom livro e Paula Hawkins falhou tanto na composição dos personagens, como no desenvolvimento da trama, recorrendo a artifícios esdrúxulos para contar uma estória medíocre. 

Título: A Garota no Trem (exemplar cedido pela editora)
Autora: Paula Hawkins
N.º de páginas: 378
Editora: Record

sexta-feira, 27 de março de 2015

RESENHA: Objetos Cortantes

“Curry gosta de dizer que repórteres são como vampiros. Não podem entrar em sua casa sem um convite, mas, uma vez do lado de dentro, você não consegue expulsá-los até que tenham sugado todo o seu sangue.” (FLYNN, 2015, p. 107).

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Garota Exemplar foi o melhor thriller psicológico que já li. E depois que um livro estabelece um padrão tão alto para comparações, decepções literárias se tornam comuns. Assim, ao mesmo tempo que mal podia esperar para conferir Objetos Cortantes, também sentia aquele receio de não encontrar algo a altura do outro livro. Porém, fiquem tranquilos. Se existe alguém que sabe o que faz, este alguém se chama Gillian Flynn. 

Camille, uma repórter do jornal Chicago Daily Post, é convocada por seu editor a retornar à sua cidade natal, para cobrir o assassinato de uma garota e o sequestro de outra. Camille, que não mantém boas relações com sua família, volta a contragosto para a pequena Wind Gap, onde terá de enfrentar os fantasmas do passado enquanto investiga os misteriosos casos. 

A qualidade mais marcante de Objetos Cortantes é como a autora consegue manter um clima de tensão em todo o tempo. A ideia de ter como cenário uma cidade interiorana no Missouri, onde todos se conhecem (e, consequentemente, conhecem os segredos alheios) foi o ambiente ideal para construir este cenário de suspeita e desconfiança. 

É incrível como Flynn tem um talento natural para fazer com que o leitor desconfie de tudo e de todos ao mesmo tempo. Enquanto muitos autores sofrem em tentar despistar a atenção do leitor, deixando pistas fajutas no decorrer da trama, Flynn não tenta induzir o leitor em erro, pois conta com personagens tão bons, que “joguinhos” são desnecessários.

A verdade é que os personagens de Objetos Cortantes são o ponto alto da obra. Flynn criou personagens complexos, ambíguos, traumatizados, dissimulados, conflituosos e manipuladores, que não são facilmente interpretados, e que desafiam o leitor a compreendê-los. Assim, é fácil entender por que o leitor fica se perguntando sobre as motivações e ações de cada um deles, tentando determinar se suas palavras são confiáveis ou não. 

Obviamente, muitas teses sobre os casos de Wind Gap me ocorreram durante a leitura, e o mais interessante foi perceber, ao final, que muitas delas de fato faziam sentido. Ou seja, o domínio que Flynn detinha sobre a trama era tanto que, ao mesmo tempo que conseguiu apresentar peças que se encaixavam de formas diferentes, também conseguiu encerrar a obra amarrando todas as pontas de forma coerente.

Quanto ao desfecho de Objetos Cortantes, embora não seja o mais surpreendente de todos, se mostrou condizente com a obra e absurdamente genial. Mais uma vez a autora encerra a obra e deixa o leitor em um estado de choque, tentando assimilar todas as informações e processar os últimos acontecimentos. 

E quanto a pergunta que não quer calar: Objetos Cortantes supera Garota Exemplar? Creio que Objetos Cortantes não conta com o ritmo acelerado, nem com as reviravoltas alucinantes de Garota Exemplar, mas certamente não deixa a desejar. Aliás, Objetos Cortantes apresenta uma qualidade surpreendente para um livro de estreia e já demonstra os sinais da grande autora que Flynn viria a se tornar. 

Se fosse preciso definir Objetos Cortantes, diria: deliciosamente perturbador. Mostrando que é possível fazer um excelente thriller psicológico em pouco mais duzentas e cinquenta páginas, Gillian Flynn fixa seu nome na literatura contemporânea de forma indubitável e indelével. 

Objetos Cortantes ganhará uma adaptação para a televisão, contando com Flynn como produtora executiva. Dark Places, o segundo livro da autora, tem previsão de lançamento para este ano, pela editora Intrínseca. 

Título: Objetos Cortantes (exemplar cedido pela editora)
Autora: Gillian Flynn
N.º de páginas: 254
Editora: Intrínseca
 

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