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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

RESENHA: A Corrente

O que mais me motivou a ler A Corrente não foi a sinopse do livro, mas sim os elogios feitos por grandes autores, como Stephen King e Dennis Lehanne. Para minha surpresa, não precisei chegar ao fim do livro para perceber que todos os elogios eram exagerados e indevidos. 

Rachel está se recuperando do câncer e retomando sua vida, porém, tudo muda quando sua filha é sequestrada. E além do resgate, Rachel terá que sequestrar outra criança e exigir de seus pais o resgate. É assim que a organização denominada de A Corrente montou um esquema contínuo de sequestros e resgates, transformando as vítimas em criminosos e sem precisar sujar as mãos. 

A premissa do livro é interessante e bastante original. No entanto, McKinty peca na execução do livro, pois logo nas primeiras páginas minha impressão era de ter em mãos uma obra escrita por um autor amador e que não contou com o feedback de um editor. Em primeiro lugar, o ritmo do livro é instável. No início, os problemas se acumulam e não sabemos como a protagonista irá resolvê-los. No entanto, em determinado momento o autor decide correr com a estória e resolve todos os problemas com muita facilidade. 

Além disso, os personagens não convencem. O livro poderia mostrar uma jornada sombria da protagonista se tornando uma criminosa, fazendo coisas terríveis para libertar sua filha. Porém, o autor foca mais na mulher fragilizada, que depende da ajuda de outros, mas que em momentos súbitos e pontuais se mostra o completo oposto.

Os personagens parecem se limitar a nomes, profissões e aos papeis a serem desenvolvidos na estória. Ou seja, eles não parecem ter vida e as atuações não são orgânicas, dando a impressão de que  não passam de meros robôs, programados para agirem dessa ou daquela forma. E, sendo assim, se torna muito difícil se envolver e até mesmo se importar com a estória quando tudo parece tão artificial. 

“Qualquer coisa que decida fazer é uma escolha ruim. Agir é ruim. Deixar de agir é ruim. É o clássico se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. É como saltar de paraquedas num campo minado e não ter para onde correr.” (MCKINTY, 2019, p. 260)

A narrativa é feita em terceira pessoa, mostrando diversos pontos de vista, mas não me pareceu uma decisão acertada. A meu ver, um dos grandes potenciais da estória era a jornada de Rachel, o que sugeriria o uso da primeira pessoa, a fim de mostrar de perto o pesadelo que ela vive. Porém, preso a uma narrativa dispersa em diversos personagens e focada na ação, McKinty não consegue mostrar a evolução da protagonista. 

Outro aspecto que me incomodou foi que as maldades que Rachel se vê obrigada a fazer sequer são tão desprezíveis assim, no entanto, ela reage como se fosse a pior pessoa do mundo.Creio que McKinty poderia ter tornado a experiência de Rachel como vítima e criminosa muito mais perturbadora e diabólica, criando outras facetas para a protagonista. 

Apesar da ideia promissora, é preciso reconhecer que A Corrente é inverossímil e mal desenvolvido. McKinty tentou criar um thriller ágil, instigante e perverso, mas não conseguiu acertar o alvo que pretendia.

Título: A Corrente
Autor: Adrian McKinty
N.º de páginas: 377
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 11 de abril de 2019

RESENHA: A Paciente Silenciosa

a paciente silenciosa
Alicia Berenson foi internada no Grove, um hospital psiquiátrico, após ter matado seu marido. Desde então, ela nunca mais falou e todos os seus terapeutas falharam em descobrir o que aconteceu na noite em que deu cinco tiros em Gabriel. É então que Theo Farber, um psicoterapeuta forense, ingressa no Grove e insiste em tratar Alicia e tentar ajudá-la de todas as formas possíveis. 

A Paciente Silenciosa prende a atenção dos leitores desde os primeiros capítulos: somos apresentados aos protagonistas e ficamos intrigados pelo mistério que Alicia representa. Uma pintora talentosa, que vivia uma vida comum ao lado do marido e que, do nada, se torna capaz de um ato hediondo. Theo, por outro lado, também intriga o leitor em virtude de sua obsessão por Alicia.

O livro é narrado em primeira pessoa por Theo, alternando entre sua vida profissional — trabalhando no Grove, tratando de Alicia e pesquisando sobre seu passado — e sua vida pessoal, envolvendo seus traumas de infância e seu relacionamento com Kathy. Além disso, também acompanhamos o diário de Alicia, que ela escreveu antes de ser internada. 

Assim, o livro nos fornece múltiplos pontos de vista: Theo conversa com os amigos e familiares de Alicia para desvendar as origens de seus transtornos mentais, e também lemos as informações que constam no seu diário. Dessa forma, ficamos em dúvida sobre o que é real e o que não é

“A fúria assassina, a fúria homicida, não nasce no presente. Ela tem origem no território anterior a memória, no mundo da primeira infância, com abusos e maus-tratos, que vão se acumulando ao longo dos anos até explodir — não raro contra o alvo errado” (MICHAELIDES, 2019, p. 50).

É na reta final que uma reviravolta completamente inesperada acontece, fazendo com que todas as peças se encaixem. Mesmo pegando o leitor de surpresa, Michaelides mantém a coerência e a lógica da estória, não tendo necessidade de apelar para elementos inverossímeis. 

Vi algumas resenhas em que o pessoal comentou não ter gostado do final em aberto do livro. No entanto, aprovei o desfecho da obra. Primeiro, por que o autor nos dá informações suficientes para saber o que vai acontecer em seguida; e segundo, por que não havia necessidade de continuar a estória. Creio que um thriller precisa ser encerrado no ápice, deixando o leitor com aquela sensação de “não acredito no que está acontecendo”. Assim, se Michaelides tivesse continuado por mais algumas páginas para colocar todos os pingos nos is,  a obra perderia um pouco desse impacto final, sem nada agregar, visto que as informações necessárias já estavam nas entrelinhas.

Adoro ler thrillers mas nos últimos anos li tantas estórias forçadas e incoerentes que tenho mantido certa distância do gênero. Assim, confesso que comecei a leitura de no espírito de “vou dar uma chance” e acabei me vendo preso a estória de Alicia e Theo do início ao fim. A Paciente Silenciosa se mostrou um thriller envolvente, com ritmo acelerado, além de contar com uma trama complexa e original. 

Título: A Paciente Silenciosa
Autor: Alex Michaelides
N.º de páginas: 349
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

RESENHA: Headhunters

jo nesbo headhunters
Meu primeiro contato com Jo Nesbø ocorreu há mais de 5 anos e de lá para cá apenas ouço a Mari elogiar o trabalho do autor, especialmente os livros que compõem a série Harry Hole. Como ler livros que já foram resenhados aqui no blog é um desafio (afinal, precisamos de um estoque de resenhas para que isso aconteça), acabei esbarrando em Headhunters no Kindle Unlimited e resolvi dar uma chance, pois estava com desejo de ler um thriller. 

Roger Brown é um dos mais conceituados headhunters da Noruega. Assim, quando grandes empresas buscam por novos executivos é a Brown que eles recorrem. Porém, seu alto estilo de vida exige rendimentos extra. E é assim que ele entra no ramo de roubo de obras de arte para revendê-las no mercado negro. Tudo vai bem até que um desses furtos acaba virando um pesadelo interminável.

Headhunters é narrado em primeira pessoa por Roger e, sendo sincero, confesso que não simpatizei com o protagonista de início. Ambicioso, esnobe e obcecado com sua baixa estatura são apenas algumas de suas características que logo saltam aos olhos do leitor. Mesmo assim, Nesbø consegue prender a atenção do leitor, pois queremos desvendar o que irá acontecer. Também preciso dizer que, apesar de seus defeitos, o protagonista apresenta uma evolução surpreendente ao longo da obra. 

Confesso que comecei a leitura sem ter lido a sinopse, de modo que me perguntava nos primeiros capítulos como o livro viraria um thriller se contava com um protagonista que era headhunter. Achei incrível como, ao longo das páginas iniciais, Nesbø vai dando pequenas pistas até que revela o genial golpe aplicado por Brown, mostrando como as peças se encaixam. 

E genial, sem a menor sombra de dúvidas, é a melhor palavra para descrever Headhunters. A cada novo arco da trama, Nesbø consegue surpreender o leitor, até chegarmos a um ponto que são tantas pontas da trama que não temos a menor ideia de como o autor conseguirá amarrar todas elas. Mas é obvio que ele as amarra, fazendo um trabalho espetacular, mas sem perder a verossimilhança.

“Uma colisão entre dois veículos é uma questão de física básica. Tudo é imprevisível, mas todos os imprevistos podem ser explicados pela seguinte equação: força vezes tempo é igual a massa vezes a variação da velocidade. É só inserir as variáveis em forma de números e o resultado será uma história simples, verdadeira e cruel.” (NESBØ, 2012, livro digital)

Além disso, outro fator de destaque é como o autor consegue aproveitar muito bem os personagens e seus históricos. Não apenas são bem desenvolvidos, mas logo percebemos que nenhuma informação sobre a vida deles é dada a troca de nada. De alguma forma ou de outra, todas elas são importantes para o desenvolvimento da estória, das formas mais inesperadas. 

Também me surpreendi com a narrativa, que me obrigou a continuar a leitura madrugada adentro tamanho era meu envolvimento com a estória. Outro aspecto que me agradou foi o uso do humor com válvula de escape para uma estória que é repleta de adrenalina, de forma que o livro me levou as gargalhadas por diversas vezes. 

No fim das contas, Headhunters foi exatamente o tipo de leitura que eu procurava: um thriller envolvente, extremamente original e inteligente, que me deixou preso a leitura do início ao fim e que me lembrou do talento indiscutível de Jo Nesbø para contar boas estórias. 

Dados da edição física
Título: Headhunters
Autor: Jo Nesbø
N.º de páginas: 238
Editora: Record

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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

[Calhamaço] para quem não gosta de [calhamaço]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Começo esta coluna fazendo uma confissão: adoro livros grandes, aqueles tijolões que, se duvidar, até mesmo param em pé. Creio que por ser uma estória mais extensa do que estamos acostumados, acabo desenvolvendo uma conexão maior e fico completamente imerso na obra. Entretanto, nem todo mundo gosta de calhamaços e tais pessoas geralmente argumentam que a estória é arrastada ou muito enrolada. E, às vezes, esse realmente é o caso. Porém, está longe de ser a regra.

Sob a Redoma

Antes de ler Sob a Redoma, já havia tentado ler outros dois livros do King, mas sem sucesso. Foi só anos depois que decidi dar mais uma chance ao autor e foi com Sob a Redoma que virei um fã incondicional de King. E por que este é um calhamaço que eu indico mesmo para quem não curte livros grandes? Por que a jornada dos personagens é tão incrível, que o leitor não se preocupa com o que vai acontecer no final, mas apenas com o que está acontecendo naquele momento. Assim, apesar de você se perguntar sobre a origem da redoma ou se ela vai desaparecer, não esses questionamentos que impulsionam a leitura. O que faz o leitor virar as páginas avidamente é acompanhar a jornada dos personagens nesta situação extremamente improvável, onde as regras sociais começam a ruir e os jogos pelo poder tem início. E nem preciso dizer que a narrativa de King é tão envolvente que as 950 páginas passam voando.

Os Luminares

Os Luminares foi o tipo de livro que me chamou atenção mais pelos prêmios que ganhou e pelos elogios da crítica, do que pela sinopse, admito. Mas o que torna Os Luminares tão especial é a sua trama audaciosa e absurdamente genial. O livro começa com uma reunião secreta de doze homens que estão a discutir estranhos eventos com os quais todos eles, direta ou indiretamente, estão relacionados. Assim, a leitura da obra impressiona por que vamos formando aos poucos um intricado quebra-cabeça, o qual nos faz perder o fôlego quando finalmente entendemos como todas as peças se encaixam. Além desta trama que já é tão espetacular que por si só valeria a leitura, Os Luminares também transcende a um gênero literário específico, contando com pitadas de drama, suspense, romance e thriller, de modo que o livro agrada a leitores de todos os estilos. Tenho certeza que depois das mais de 800 páginas você vai ficar com gostinho de quero mais.

Os Miseráveis

Talvez alguns de vocês estejam questionando minha sanidade ao indicar este clássico de mais de 1500 páginas, mas indico sem medo de errar: Os Miseráveis foi uma das leituras mais impactantes e emocionantes da minha vida. A força do livro certamente reside nos personagens absurdamente reais e complexos, aos quais nos apegamos e pelos quais sofremos. Victor Hugo não poupa o leitor em nenhum momento, mostrando uma realidade de muita dor e sofrimento, a qual muitas vezes preferimos ignorar. Além disso, o autor faz uma severa crítica social, abordando temas como injustiça, criminalidade, abuso infantil, prostituição e tantos outros, que certamente farão o leitor refletir. Ressalto também que, apesar de ser um clássico escrito há mais de cento e cinquenta anos, o texto de Hugo é surpreendentemente fluído e envolvente, de modo que a leitura avança com rapidez. Porém, reconheço que entre os livros desta lista este talvez seja o menos indicado para quem não gosta de calhamaços. Isso por que o autor, em alguns momentos, perde o fio da meada e faz digressões sobre assuntos completamente irrelevantes. Se você não ficar com peso na consciência, pule essas partes, mas não deixe de ler o livro. Garanto que você não vai se arrepender. 


sábado, 12 de maio de 2018

RESENHA: A Incendiária

A Incendiária Stephen King
Durante a faculdade, Andy e Vicky participam de um experimento científico promovido pelo governo americano e acabam desenvolvendo poderes psíquicos. Anos depois nasce Charlie, a filha do casal, e desde pequena ela demonstra ter herdado a pirocinese, a capacidade de criar fogo. Quando o governo descobre os poderes de Charlie, tem início uma caçada implacável e para sobreviver, pai e filha terão que fazer tudo o que estiver ao seu alcance. 

A Incendiária prende a atenção do leitor logo nas primeiras páginas, pois acompanhamos a fuga desesperada de Andy e Charlie de agentes do governo. Mesmo sem entender todas as nuances do que está acontecendo, King vai fornecendo aos poucos as respostas que o leitor deseja. Assim, o cerne da estória gira em torno da perseguição e do desenvolvimento dos poderes de Charlie. 

Charlie é uma personagem incrivelmente bem construída. Com sete anos, ela possui um poder poderoso, o qual não sabe controlar, mas que se vê obrigada a usá-lo para poder sobreviver. Ao longo do livro, vemos como as situações a que é submetida acarretam na perda da inocência e em um amadurecimento forçado

Já falamos diversas vezes por aqui como King utiliza elementos sobrenaturais que servem de gatilho para mostrar reações essencialmente humanas. Assim, os poderes psíquicos de Andy e Charlie servem como esse gatilho, colocando a trama em movimento e revelando emoções como medo, impotência e desespero. 

“— Nunca — repetiu ela com ênfase discreta.
— É melhor não falar isso, gatinha — disse Irv, olhando para ela. — É melhor não se bloquear assim. Você vai fazer o que precisa fazer. Vai fazer o melhor que puder. E isso é tudo o que pode fazer. Eu acredito que o Deus deste mundo adora dar trabalho para as pessoas que dizem “nunca”. Entendeu?”
(KING, 2018, p. 143)

O livro é narrado em terceira pessoa com alternância do ponto de vista. Assim, vemos a estória se desenvolver tanto a partir do olhar de Andy e Charlie, como do ponto de vista de agentes do governo que desejam colocar as mãos no pai e na filha. Neste ponto, saliento também que me pareceu que o autor perdeu um pouco do controle sobre a narrativa, especialmente da metade para o final, pois algumas informações me pareciam irrelevantes para o desenvolvimento da estória. 

Entre os agentes do governo, alguns deles ganham destaque e preciso confessar que é neste aspecto que me decepcionei. Um destes personagens acaba desenvolvendo uma obsessão doentia por Charlie, a qual, a meu ver, parece completamente injustificada. Ao final do livro, tal personagem desempenha um papel necessário para o desfecho da estória, de modo que fiquei com a sensação de que ele foi inserido na estória por que tinha esta função para cumprir. Ou seja, a obsessão dele me pareceu apenas uma desculpa para sua presença na estória, e não algo natural e verossímil. 

Ainda assim, A Incendiária foi uma excelente leitura, que misturou nas doses certas thriller e ficção científica. Com um ritmo intenso, que mal deixa o leitor respirar e muito menos largar o livro, King mostra mais uma vez seu talento inquestionável como contador de estórias. 

Título: A Indenciária
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 447
Editora: Suma
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 10 de outubro de 2017

RESENHA: Entre quatro paredes

Entre quatro paredes / B.A. Paris
Um casal aparentemente perfeito, cuja vida privada esconde muitos segredos. A premissa não é inédita, mas foi justamente por já haver funcionado antes que instigou a amante de thrillers psicológicos que existe em mim a ler "Entre Quatro Paredes". 

Grace sempre fez suas escolhas levando em consideração Millie, sua irmã com Síndrome de Down. Se o emprego não lhe permitia pagar uma boa escola para a irmã, então ela encontrava outro emprego. Se os namorados não a aceitavam, então o namoro terminava. Até que ela conheceu Jack, um advogado especializado em defender mulheres vítimas de violência doméstica. Jack é perfeito. Carinhoso, bonito, inteligente, rico, trata Millie com carinho e está disposto a recebê-la para morar com eles. Por isso, quando aos três meses de namoro Jack pede Grace em casamento, ela se considera a mulher mais feliz do mundo em poder aceitar. Mas as coisas mudam após o casamento e já não existe mais Grace sem Jack, pois ele passa a controlar todos os movimentos da esposa.

A história é narrada por Grace e dividida em dois momentos temporais: o passado, quando conheceu e casou com Jack, e o presente, pouco mais de um ano após o casamento.

Nas primeiras páginas o casal está diante de amigos em um jantar no qual são anfitriões. Ali já podemos perceber que há algo muito errado entre Grace e Jack. Para os amigos, eles são o casal perfeito. Mas vemos que Grace tem um medo mortal do marido. Cada palavra que ela diz, cada movimento que faz leva em consideração as consequências. Que preço ela irá pagar pelo que fizer? Que preço Millie irá pagar? Isso é o que faz "Entre Quatro Paredes" funcionar. O medo que Grace tem de Jack é genuíno e isso cativa o leitor a querer acompanhar o seu relato, querer entender como eles vivem e porque vivem assim.

“A escuridão total do ambiente, sem nenhum sinal de luz vindo das janelas, assim como o silencio – pois a casa estava assustadoramente quieta – me deixaram subitamente aterrorizada. Saber que Jack poderia estar em qualquer lugar, esgueirando-se escada abaixo atrás de mim, a poucos metros de distancia, fez meu coração bater acelerado.” (PARIS, 2017, p.143)

Os problemas começam justamente quando passamos a entender isso tudo. Jack mantém Grace prisioneira e simplesmente não há escapatória para ela porque ele pensou em todos os detalhes. O difícil de engolir é como foi tudo tão fácil para ele. Como ela concorda facilmente com decisões que darão a ele total controle sobre ela ou como cai com a inocência de uma criança em cada armadilha que ele prepara. Acima de tudo, é muito difícil de engolir que os amigos não vejam que há algo muito errado nesse casamento, porque não se trata das aparências do casal diante das pessoas e sim de uma mulher cuja rotina que não faz o menor sentido.

É um conjunto de fatores que, isolados, são pouco prováveis, mas até seriam aceitáveis para a trama. Ok, ela poderia ter largado o emprego e por isso não ter dinheiro ou compromissos aos quais ele não poderia acompanhá-la. Poderia não gostar de e-mail e celular e nunca falar com outras pessoas sem que ele supervisionasse o que ela diria. Poderia tentar fugir das formas mais ridículas, sem pensar se elas dariam certo ou não. Poderia. O problema é que, ao tentar encurralar Grace de todas as formas, somando todas essas possibilidades, a autora criou um contexto simplesmente inaceitável. Assim, é claro que suas chances de escapar são tão nulas quanto a lógica da trama.

Outra coisa que não me convenceu foi a maneira como Jack se tornou o tipo de homem que é e o que o motiva a ser desse jeito. Também não me convenceu ele abrir o jogo para Grace da maneira como faz, no momento em que faz.

Mas eu estaria mentindo se dissesse que o livro não me envolveu. A verdade é que mal vi as páginas passarem e realmente gostei da leitura. Meu problema é que foi tudo orquestrado demais, extremo demais, estereotipado demais. Grace, a vítima indefesa. Jack, o bicho-papão que está sempre um passo à frente. São personagens intensos pelo sofrimento que passam e que incutem, respectivamente. Mas estão longe de serem personagens profundos.

"Entre Quatro Paredes" foi uma boa leitura de uma história não tão boa assim.

Título: Entre Quatro Paredes
Autora: B.A. Paris
N de páginas: 265
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 9 de setembro de 2017

RESENHA: Noturno

Noturno Scott Sigler DarkSide Books
O detetive Bryan Clauser começa a ter pesadelos vividos sobre assassinatos brutais. Porém, para sua surpresa, os pesadelos são reais e as pessoas foram mortas exatamente da mesma forma que em seus sonhos. Assim, Bryan e Pookie, seu parceiro, começam a investigar as mortes e descobrem segredos sombrios da cidade de São Francisco. Porém, quanto mais tentam desencavar a verdade, mais resistência encontram. 

Noturno começa como um típico livro policial, com cena do crime, autopsias e investigações. Mas quando a trama começa a se desenvolver, elementos fantásticos vão sendo adicionados. E quando a investigação de Bryan e Pookie os leva a acreditar em uma conspiração, o livro ganha contornos de thriller em virtude da busca alucinada dos detetives pela verdade. A mistura de policial, fantasia e thriller foi inédita para mim e Sigler soube mesclar todos os gêneros com maestria. 

Um aspecto interessante da obra — mas que talvez frustre alguns leitores — é que não temos respostas completas sobre o mundo sobrenatural de Noturno. Isso por que enquanto a investigação se desenrola, vamos formando um grande quebra-cabeça, porém, nem mesmo os detetives encontram respostas para todas as questões. Entretanto, cabe salientar que tais aspectos são meros detalhes, pois a essência deste mundo é bastante complexa e foi habilmente desenvolvida

Admito que, durante o início da leitura, demorei para me envolver com a estória. E mesmo que os acontecimentos fossem interessantes, parecia que pouca coisa estava efetivamente acontecendo. Mas em determinado ponto, quando as primeiras peças começam a se encaixar, Sigler consegue atiçar a curiosidade do leitor e, como se não bastasse, o ritmo da estória se torna mais intenso, prendendo a atenção. 

Quanto aos personagens, confesso que não simpatizei muito com Bryan, especialmente quando demonstrou reações exageradas para um evento que não me pareceu tão relevante assim. Já Pookie compensou no carisma, além de ser o alívio cômico da estória, me levando a gargalhar por diversas vezes. O antagonista da estória foi muito bem construído e entendemos exatamente o que motiva suas ações.

“‘Não sou’, disse Bryan. ‘Não sou um assassino.’
Pookie ergueu as sombrancelhas.
‘É? Tem certeza disso?’
Bryan abriu a boca para responder, mas não saiu som nenhum.
Porque quando parou para pensar, não tinha certeza alguma.” (SIGLER, 2017, p. 78)

O texto do autor é bastante fluído, entretanto, preciso registrar que houve uma certa repetição de ideias que poderia ter sido evitada. Por exemplo, se um personagem estava com raiva ou arrependido, o autor insistia neste ponto, afirmando e reafirmando tais sentimentos em diversos capítulos. Creio que se não fossem essas repetições, o texto teria ficado ainda mais dinâmico e envolvente. 

O final, apesar de um ou outro clichê, conta com uma dose extra de ação e adrenalina, fazendo com que o leitor fique sem fôlego. Além disso, o autor consegue amarrar todas as pontas da trama, criando um desfecho plausível e coerente com o desenvolvimento da estória e com a evolução dos personagens. 

Noturno foi uma leitura que demorou a engrenar, mas, depois que engrenou, me envolveu completamente e não consegui mais largar o livro. Com uma trama complexa, bons personagens e texto envolvente, Noturno se mostrou uma ótima forma de ser introduzido a obra de Scott Sigler. 

Título: Noturno
Autor: Scott Sigler
N.º de páginas: 499
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 22 de agosto de 2017

RESENHA: Eu Sou o Peregrino

“Ninguém gosta de pensar que encontrou um inimigo à altura, especialmente não um agente de inteligência selecionado e treinado para ser o melhor no campo de batalha, mas esse era meu medo mais arraigado quando cheguei no aeroporto. E devo dizer que, à medida que eu e o Sarraceno nos tornamos mais próximos um do outro nas semanas seguintes, não tive motivos para afastar tal sentimento." (HAYES, 2016, p. 320)

***

Quando Eu Sou o Peregrino fui lançado, tinha achado a premissa bastante interessante, mas estava sem ânimo para ler suas quase setecentas páginas. Este ano, porém, resolvi dar uma chance e li a amostra do livro no site da editora e quando terminei fiquei com um gostinho de quero mais. 

O Peregrino é o codinome de um espião americano já aposentado e que aproveitou seu conhecimento de campo para escrever um livro sobre o uso da ciência forense em casos de homicídio. Quando ele é convidado por Ben, um detetive de Nova York, para auxiliar na investigação de um assassinato, a dupla percebe que o assassino utilizou os casos comentados pelo Peregrino em seu livro, de forma a cometer um crime sem deixar vestígios. Mas antes que consigam fazer progressos, o Peregrino é convocado para o mundo da espionagem mais uma vez, a fim de impedir um terrorista que planeja um ataque biológico mortal. 

Confesso que em virtude da leitura da amostra do livro, havia ficado com a impressão de que Eu Sou o Peregrino contaria com uma pegada de investigação policial. Porém, este é apenas o início da obra de Terry Hayes e logo vemos a trama ganhar proporções homéricas e aos poucos as diversas estórias começam a se entrelaçar. 

Assim, o que começa com uma investigação policial, envolvendo dois homens, acaba se tornando em uma empolgante caçada por um terrorista inteligente e habilidoso. Hayes vai desenvolvendo aos poucos a estória da vida pregressa do Peregrino, incluindo a amizade que desenvolveu com Ben, bem com a jornada de Sarraceno, o terrorista que dedicou sua vida a causar o maior número de baixas. 

Apesar desta abrangência da trama, em nenhum momento a leitura se torna monótona. Isso por que a profundidade da construção dos personagens nos dá a exata dimensão de quem são aquelas pessoas, de modo que entendemos exatamente por que agem ou pensam de determinada forma. Além disso, Hayes soube contar a estória de uma forma que os saltos temporais e a alteração do foco narrativo não dispersasse o interesse do leitor. 

A narrativa é outro aspecto que merece destaque. O texto de Hayes é dinâmico e ágil, sendo que o leitor emerge na estória rapidamente. Quando as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar, o ritmo do livro atinge níveis alucinantes, sendo difícil parar a leitura antes da última. Por isso, creio que Eu Sou o Peregrino é um verdadeiro thriller, capaz de deixar o leitor completamente sem fôlego, especialmente na reta final. 

Mesmo que o livro tenha assumido um rumo diferente do que eu aguardava, Eu Sou o Peregrino foi uma grata surpresa e um dos melhores thrillers que li nos últimos tempos. Cabe salientar que este foi o livro de estreia de Terry Hayes e não restaram dúvidas de seu talento para compor personagens intrincados e criar uma trama complexa. Assim, mal posso esperar por seus próximos livros. 

Título: Eu Sou o Peregrino
Autor: Terry Hayes
N.º de páginas: 685
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 29 de julho de 2017

RESENHA: Leviatã Desperta

“— As pessoas falam sobre a guerra? — Miller perguntou.
— Com frequência — o missionário respondeu.
— Alguém vê sentido nela?
— Não. Não acredito que a guerra faça sentido. É uma loucura que está na nossa natureza. Às vezes ela persiste; outras, desaparece.” (COREY, 2017, p. 268)

Duzentos anos depois de sua expansão para o universo, a humanidade não habita apenas a Terra, mas colonizou a Lua, Marte e o Cinturão de Asteróides. Porém, as desavenças políticas e culturais criam atritos constantes entre os três centros de poder. Os ânimos se acirram quando a nave Canterburry, uma transportadora de gelo, é violentamente atacada a caminho do Cinturão. Caberá ao capitão Jim Holden e ao detetive Miller descobrir a verdade e tentar impedir uma catastrófica guerra interplanetária. 

Leviatã Desperta é o primeiro volume da série The Expanse e, como esperado, conta com um teor introdutório, apresentando ao leitor as informações deste novo e complexo mundo. Apesar deste cenário altamente tecnológico e avançado, todos os aspectos da vida no espaço são verossímeis e convincentes. 

A narrativa é extremamente fluida, o que é um aspecto vital para livros extensos. Uma de minhas preocupações era o fato de o livro ter sido escrito por dois autores — James S. A. Corey é o pseudônimo de Daniel Abraham e Ty Franck —, porém, o texto é uniforme e mantém um mesmo estilo do início ao fim. 

Outro acerto dos autores foi escolher uma dupla de protagonistas tão diferente. Holden é impulsivo, emotivo e, em certo ponto, ingênuo, enquanto Miller é racional e cético. Os choques entre estes diferentes pontos de vista são vistos durante todo o desenvolver da estória, sendo que o leitor consegue entender ambos os lados. 

Um dos fatores que mais me chamou atenção foi a complexidade da trama. O que os autores criaram, a meu ver, foi uma espécie de xadrez espacial e vemos a cada capítulo as peças se moverem e, eventualmente, caírem no gigantesco tabuleiro. Apesar dessa complexidade, em nenhum momento a leitura se tornou monótona ou cansativa. 

Também merece destaque é a mistura de diversos elementos, alguns até mesmo inusitados, mas que compõe uma estória harmônica. Quanto ao gênero, diria que a estória é uma mistura de ficção-científica e investigação policial. Apesar do texto fluído, não achei que o ritmo da estória fosse intenso o suficiente para considera-lo um thriller. 

Preciso admitir que Leviatã Desperta não me deixou com aquela empolgação que sempre espero do primeiro livro de uma série. Não me entenda mal, pois eu me envolvi com a estória e com seus personagens, sendo que a leitura foi bastante agradável. Mas fiquei com a sensação de que, ao encerrar a leitura, não senti aquele “desespero” por continuar a leitura da saga. 

Além disso, também me pareceu que o livro foi extenso demais. Ao contrário de muitos livros que já li, Leviatã Desperta não deixa o leitor com a impressão de que está sendo enrolado. Entretanto, quando encerrei a leitura, senti que a estória não era tão densa a ponto de necessitar quase setecentas páginas para ser desenvolvida. 

Somente depois que termine de ler fui pesquisar quantos livros compõe a série e me surpreendi ao descobrir que já foram lançados seis livros no exterior, sendo que o sétimo será publicado no final do ano e mais dois volumes já foram comprados. Assim, confesso que tenho dúvidas se continuarei a ler a série, pois não sei se tenho fôlego para ler mais oito livros extensos, ainda mais quando o primeiro não empolgou tanto quanto poderia. 

Título: Leviatã Desperta
Autor: James S. A. Corey
N.º de páginas: 671
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora.

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sexta-feira, 14 de abril de 2017

RESENHA: Matéria Escura

“Todos nós vivemos, dia após dia, totalmente alheios ao fato de que fazemos parte de uma realidade muito maior e mais estranha do que se pode imaginar.” (CROUCH, 2017, p. 103)

Há quinze anos, Jason Dessen fez uma escolha: abandonar a carreira promissora como cientista e casar com Daniela, a mulher com quem estava saindo há pouco tempo e que estava grávida dele. Agora, Jason não consegue imaginar sua vida sem a esposa e o filho, embora em alguns momentos se sinta frustrado por sua carreira ter se reduzido a de um professor universitário. Então, em uma noite, Jason é raptado por um homem mascarado e acorda preso em um laboratório onde todos o admiram e respeitam. Ele ainda é ele, mas sua vida está longe de ser a mesma já que ali ele é o grande cientista, o homem que fez a mais incrível das descobertas, mas que também nunca se casou nem teve filhos. Agora ele precisa encontrar um jeito de voltar para a própria vida, antes que perca Daniela, Charlie e a si mesmo.

Tudo é uma questão de escolha e são as nossas escolhas que nos definem. Esse é, basicamente, o cerne de “Matéria Escura”, um livro que tem o ritmo de um thriller frenético, uma premissa digna das melhores ficção científicas e leva o leitor a refletir sobre a sua própria vida, afinal, quem nunca se perguntou como a vida seria se tivesse feito uma escolha diferente em determinado momento? E quantas outras escolhas, ou momentos divisórios, essa escolha teria acarretado? Até que ponto a vida iria para o outro extremo? Quantas pequenas e diferentes versões haveria dentro de cada um desses cenários? São essas as questões com as quais Jason se depara em sua busca para voltar para a vida que conhece.

A narrativa se dá em primeira pessoa, de forma que estamos ao lado de Jason em sua jornada e entendemos suas angústias e incertezas. Não se trata apenas de uma escolha do passado. A todo momento ele se vê obrigado a fazer novas escolhas que o colocam em mundos cada vez mais diferentes. Mundos em que catástrofes acontecem, ou em que ele já estaria morto, ou em que perderia Daniela e Charlie de outras maneiras, ou ainda em que ele não viveria um casamento feliz. Os cenários são infinitos, lembrando o protagonista (e o leitor) que a vida pode tomar novos rumos a qualquer momento, basta uma única decisão.

Embora a premissa seja de ficção científica (e a mecânica quântica seja o centro de tudo), vejo “Matéria Escura” mais como um thriller, pois sua trama é uma jornada por sobrevivência, porém recheada de conflitos existenciais.

Apesar de muito da história girar em torno de Daniela e Charlie, eles ganham pouco espaço no desenrolar dos acontecimentos, sendo para o leitor apenas a imagem que o próprio Jason tem deles. Esse é, aliás, o único aspecto em que Crouch peca. Ao optar por dar início ao pesadelo de Jason ainda nas primeiras páginas, não temos a chance de nos afeiçoarmos a ele e a sua família, de entender sua dinâmica e o porquê de ser tão importante para ele retomar aquela rotina. Por um lado, a opção confere agilidade à trama e deixa o leitor com a mesma sensação que acomete o protagonista, ou seja, de ser arrancado da vida que conhece e jogado em meio a uma louca aventura. Mas por outro dificulta que o leitor desenvolva uma verdadeira conexão com o personagem, já que o próprio Jason também não chega a ser um personagem carismático, sendo apenas a vítima (ou vilão?) de toda essa situação.

Ainda assim, “Matéria Escura” envolve o leitor a ponto de fazê-lo devorar suas páginas. Com uma premissa genial (e, felizmente, bem aproveitada pelo autor) a trama aborda a temática dos universos paralelos a fim de mostrar o quão fragmentado e multifacetado o ser humano pode ser. Há algo que nos torna completos? Há algo que define quem somos? São algumas das perguntas com as quais o autor nos deixa.

Título: Matéria Escura
Autor: Blake Crouch
N° de páginas: 349
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 11 de março de 2017

RESENHA: A Viúva

“A primeira coisa que Sparkes pensou era que Glen parecia um cara comum. Mas monstros raramente parecem como o personagem. Você espera ver o mal irradiando deles — isso tornaria o trabalho policial muito mais fácil, ele costumava dizer. Só que o mal era uma substância fugidia, vislumbrada apenas de vez em quando, e muito mais horrenda por causa disso.” (BARTON, 2017, p. 80). 

***

Jean Taylor era a esposa perfeita e aguentou o julgamento do marido dignamente e sem dizer uma palavra à imprensa. Glen acaba sendo absolvido por um erro técnico da polícia, o que desperta a fúria da sociedade. E quando ele morre em um acidente, a viúva pode ser a única a ter respostas sobre o que aconteceu. E após anos de silêncio, Jean está pronta para falar. 

O que me chamou atenção ao ler a sinopse de A Viúva foi justamente a premissa: uma mulher que apoia seu marido durante o julgamento por um crime bárbaro, o sequestro e assassinato de Bella, uma criança de dois anos. Com a morte do marido e com as investigações paradas, ela pode ser a única a saber sobre o que aconteceu com a criança. 

Assim, o que eu esperava era que o cerne do livro se limitasse às interações entre Jean e Kate, a repórter que a convence a dar uma entrevista, voltando no tempo e revivendo todos os acontecimentos. A meu ver, o mais interessante não seria descobrir o que aconteceu, mas sim as reações e os pensamentos desta mulher. Isso por que Jean é uma personagem extremamente complexa e desvendar todas estas camadas me parecia promissor. Entretanto, esta não foi a abordagem escolhida pela autora. 

A aceitação de Jean em conceder uma entrevista é apenas o estopim, mas a partir daí Barton retorna no tempo, contando a estória do desaparecimento de Bella por três perspectivas: o detetive Sparkes, o encarregado do caso; Kate, a repórter que cobriu a notícia e posteriormente convence Jean a falar; e a própria Jean a partir do momento que Glen se torna um suspeito. 

Creio que esta foi a abordagem errada, pois mais da metade do livro é destinada a mostrar como a investigação e o julgamento ocorreram. Entretanto, como o leitor já sabe desde o início que o resultado será a absolvição de Glen, investir tanto tempo em detalhar isso tudo se tornou cansativo e maçante. E como consequência direta desta abordagem, todo o potencial que Jean oferecia pareceu subexplorado, justamente por que em vez de dissecar a protagonista, Barton se perde em elucidar os detalhes do passado. 

Mas o verdadeiro “tiro no pé” ocorre com a entrevista de Jean, pois o que poderia (e deveria) ter sido o ápice do livro, não é. Barton parece que pisa no acelerador e dá a impressão de estar com pressa de terminar a entrevista para seguir com a estória. Assim, os momentos que Jean poderia ter vocalizado todos os seus pensamentos sem medo de confrontar a verdade se esvaem. Mesmo que o leitor acompanhe o ponto de vista de Jean, tanto no desenrolar da investigação e julgamento, quanto durante os preparativos para a entrevista, a mesma parece manter uma fachada: no primeiro momento por que é submissa a Glenn e não se permite questionar o marido, no segundo por que está perdida em devaneios e pensamentos. 

Quando a solução do caso vem à tona, a mesma causa frustração por ser uma resolução simplista. Se Barton tivesse optado por revelar toda estória através dos olhos de Jean, contando com os demais personagens como meros coadjuvantes, a resposta mais simples não teria causado frustração, afinal, esta não seria o cerne do livro. Entretanto, quando todo o suspense gira em torno de desvendar o que aconteceu com Bella, a resposta morna é pior que um banho de água fria. 

Assim, apesar de todo o potencial que a estória e, principalmente, a protagonista tinham a oferecer, me pareceu que Barton pecou na execução e tornou o que poderia ter sido memorável em uma leitura que não empolga em nenhum momento.

Título: A Viúva (exemplar cedido pela editora)
Autora: Fiona Barton
N.º de páginas: 299
Editora: Intrínseca

sexta-feira, 15 de abril de 2016

RESENHA: Mr. Mercedes

“Hodges leu que há poços tão fundos na Islândia que você pode jogar uma pedra lá dentro e nunca ouvir o barulho dela batendo na água. Ele acha que algumas almas humanas são assim.” (KING, 2016, p. 34). 

***

Desde que vi Mr. Mercedes em pré-venda, o livro imediatamente entrou na minha lista de maiores expectativas literárias. A razão é simples: não apenas sou fã de Stephen King, mas também de literatura policial. Então, nada poderia ser mais promissor que um thriller policial escrito pelas mãos habilidosas do Mestre do Terror. 

Bill Hodges foi o detetive encarregado de investigar o massacre que ocorreu em uma feira de empregos, ocasião em que um serial killer atropelou os trabalhadores que aguardavam na fila, matando oito pessoas. O assassino, apelidado pela mídia de O Assassino do Mercedes, escapou ileso. Meses depois, quando Hodges já aposentou o distintivo de policial, ele é contatado pelo assassino e dessa vez contará com a ajuda de uma dupla improvável para capturá-lo. 

Sempre admiro autores que tem a ousadia de deixar claro quem é o assassino desde o início da estória. Trata-se de uma abordagem arriscada, pois a falta de mistério quanto a identidade do vilão pode acabar com o suspense, o que definitivamente não aconteceu neste caso. O cerne de Mr. Mercedes é acompanhar o emocionante jogo de gato e rato protagonizado pelo detetive e pelo assassino. 

O livro — que conta com uma narrativa em terceira pessoa que mostra ambos os pontos de vista — tem um ritmo mais vagaroso nos seus primeiros capítulos, devido a apresentação dos personagens, de seus históricos e da contextualização do caso. Mas mesmo assim, King consegue fisgar a atenção do leitor desde o início, mantendo-o interessado durante toda a jornada e não apenas no resultado final. 

O desfecho é uma corrida alucinante para impedir que o serial killer ataque novamente, sendo de longe o ápice do livro. As últimas cem páginas esbanjam emoção e adrenalina, de modo a manter o leitor completamente submerso na estória. 

O que mais se destaca em Mr. Mercedes são os personagens. Hodges é o policial aposentado que acaba ficando sem uma razão de viver e que chafurda em frente à TV com pensamentos suicidas. Outro personagem que me surpreendeu ao roubar a cena foi um dos ajudantes de Hodges, que experimentou uma grande evolução ao longo da trama. Como de costume, King desenvolveu até mesmo personagens coadjuvantes. 

O autor também fez um trabalho fantástico mostrando como o assassino se tornou quem é, descascando suas várias camadas, e talvez este seja um dos aspectos mais interessantes da obra. Entretanto, ele também é o ponto em que reside minha única crítica: me pareceu que o assassino possui uma natureza mais lunática do que malévola. Ou seja, seus atos de violência originavam-se de sua loucura, e não de uma personalidade essencialmente má. Não que ele seja um antagonista fraco, mas considerando o rol de grandes vilões que King já criou, O Assassino do Mercedes acaba por não se destacar.

Apesar de não ter se tornado meu livro preferido, Mr. Mercedes parece ser o início de uma saga promissora, tanto em virtude dos personagens, quanto em virtude dos inúmeros rumos que a estória poderá tomar considerando o gancho deixado ao final. 

Em Mr. Mercedes, King escreve sobre um mundo palpavelmente real, onde coisas ruins acontecem e nem sempre o bem prevalece. O terror não se encontra em monstros ou demônios, e sim no homem, na sua loucura e na sua maldade. Encerro esta resenha reconhecendo o óbvio: King comprova de forma derradeira que suas habilidades como escritor não estão restritas a um gênero literário. 

O segundo livro da série, Achados e Perdidos, será lançado em maio. 

Título: Mr. Mercedes (exemplar cedido pela editora)
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 393
Editora: Suma de Letras



quinta-feira, 17 de março de 2016

RESENHA: Precisamos falar sobre o Kevin

“Você só consegue afetar quem tem consciência. Só pode punir quem tem esperanças para serem frustradas ou laços a serem cortados; quem se preocupa com a opinião dos outros. Você, na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom.” (SHRIVER, p. 170, 2012)

Há alguns anos se falava muito de “Precisamos falar sobre o Kevin”. O curioso é que só agora, baixada a poeira, é que tive vontade de conferi-lo e não foi nada difícil entender o porquê do sucesso.

Prestes a completar 16 anos, Kevin Khatchadourian planejou e executou cuidadosamente o massacre de sete colegas de classe, uma professora e um servente do colégio onde estudava. Quase dois anos após a tragédia, sua mãe, Eva, começa a escrever cartas para seu pai reavaliando as escolhas feitas em família e a convivência no lar a fim de tentar entender os motivos que levaram o filho a cometer tamanha atrocidade.

Ao optar por uma narrativa epistolar, Lionel Shriver permitiu que todas as fases da vida do casal Eva e Franklin e seu filho se entrelaçassem com naturalidade já que as cartas que a mulher escreve seguem o fluxo de sua memória, sem obrigação nenhuma com ordem cronológica, dando ao leitor uma noção de tudo ao mesmo tempo.

Como já se sabe desde as primeiras páginas o que Kevin fez, todos os acontecimentos (desde os planos para gravidez, o parto, a infância de Kevin, as primeiras crises do casamento) são vistos através de olhos contaminados pela tragédia. Isso confere doses extras de carga dramática já que Eva é obrigada a encarar toda sua vida em família como nada mais do que os capítulos que antecederam o massacre. Já o leitor vê Kevin crescer sabendo exatamente o que ele irá se tornar. Além disso, o fato de já haverem se passado um ano e oito meses da tragédia faz com que a poeira já tenha baixado, permitindo focar nas consequências (ou seja, na dor dos envolvidos passado o choque) mais do que nos acontecimentos.

Sabendo que o livro era narrado pela mãe de Kevin, imaginei que a intenção da autora seria mostrar, através de um olhar contaminado de amor, um personagem que fez algo abominável. Isso me parecia bastante interessante, já que faria o leitor lidar com a dualidade de odiar Kevin por suas ações, enquanto o conhecia através do olhar de alguém que o ama profundamente. Seria uma versão interessante, sim, mas eu estava enganada. Ao contrário, o que Shriver nos mostra é que Eva é a única pessoa que percebe as coisas erradas do comportamento de Kevin, enquanto Franklin fecha os olhos para elas, sempre encontrando desculpas e passando a mão na cabeça do filho. Também surpreende o relacionamento conflituoso dessa mãe com esse filho. Na verdade, é difícil dizer se Eva chegou a amar Kevin, se algum dia foi feliz em ser sua mãe (acredito que não). Agora que tudo está no passado e as piores consequências possíveis já se tornaram uma triste realidade, ela pode finalmente falar sobre coisas que nunca se atreveu a verbalizar para o marido antes.

A história abrange um longo período de tempo (o que passa batido pela narrativa epistolar e a fluidez do ir e vir de memórias), já que vai desde a época que antecede a gravidez de Eva até o momento atual, mas durante o tempo todo seu foco está em apenas três personagens: Eva, Franklin e Kevin. E que personagens! Verossímeis, complexos e capazes de despertar os mais diversos sentimentos no leitor. Eva é uma mulher independente, que ama o marido e quer uma família por acreditar que deve haver mais na vida do que apenas a vida em casal e entre amigos, mas que nunca se sentiu confortável com Kevin, nem mesmo durante a gravidez. Quando ela se dirige a Franklin, existe amor, mas também existe ressentimento por todas as coisas para as quais o marido escolheu fechar os olhos. Existe um tom de acusação à cegueira do marido, mas também de remorso por nunca ter conseguido ser a mãe que queria ser. Franklin, por outro lado, tenta fazer o que é melhor para a família, mas a maneira como lida com o comportamento de Kevin e com as angústias de Eva é irritante e até mesmo revoltante em alguns momentos. Kevin, por sua vez, é um personagem maravilhosamente perturbador desde o primeiro instante e Shriver faz um excelente trabalho ao retratar alguém que cometeu uma monstruosidade não como um mostro, mas sim como alguém inteligente, calculista, maldoso e apático, esta última a característica mais marcante para mim. Kevin não se importa com nada nem com ninguém. Justamente por isso não tem nada a perder e é um verdadeiro cretino desde muito criança. Como educar uma criança assim, desconectada de tudo?

Tamanha é a intensidade do relato de Eva e do nível de envolvimento que ele é capaz de provocar no leitor que em alguns momentos eu até esqueci que se tratava de um livro de ficção. Eva, Franklin e Kevin se tornaram reais e me deixaram boquiaberta no desfecho da leitura.

“Precisamos falar sobre o Kevin” é um drama familiar no qual tudo é colocado em perspectiva a partir de uma situação de extrema violência. Onde nada é simples e justificativas não satisfazem. Recomendo.

Título: Precisamos falar sobre o Kevin (exemplar cedido pela editora)
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 463
Editora: Intrínseca

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

RESENHA: Brilhantes

“— Você não pode deter o futuro. Tudo que pode fazer é escolher um lado.” (SAKEY, 2015, p. 21).

***

Com uma estória promissora, Brilhantes logo chamou minha atenção quando o vi entre os mais vendidos da Amazon americana. E quando descobri que Gillian Flynn e Michael Connelly tinham dado seu aval à obra de Marcus Sakey, o livro logo se tornou uma das minhas maiores expectativas literárias para 2016. 

A partir de 1980, uma parcela da população começa a nascer com sinais de inteligência avançada e por isso são chamados de brilhantes. Anos depois, eles começam a mudar o mundo, criando tecnologias inovadoras e solucionando problemas intrincados, mas alguns deles passam a utilizar seus dons em benefício próprio e se tornam excelentes criminosos. É assim que surge uma forte tensão, entre seres humanos “normais” e os “anormais”. Nick Cooper, um agente brilhante, trabalha para os Serviços Equitativos, seção do governo destinada a neutralizar outros brilhantes que se tornaram uma ameaça para o país. E o maior alvo deles atende pelo nome de John Smith, um terrorista inescrupuloso, que não se importa em colocar a vida de civis em risco para defender sua causa. 

A narrativa de Sakey é ágil e dinâmica, mesmo nos capítulos iniciais, quando a apresentação dos personagens e do cenário é o foco do livro. Passado este momento, quando a ação realmente começa, é impossível interromper a leitura. Para se ter uma ideia, li as últimas cento e vinte páginas de madrugada, após uma noite mal dormida e um longo dia de mudança. E o mais impressionante disso tudo é que sequer vi as páginas passarem. 

Nick Cooper é um protagonista fantástico. Ser um brilhante que trabalha para o governo é visto com maus olhos tanto por seus pares, quanto pelos seres humanos normais. Mas Cooper entende que a única forma de criar um país onde normais e anormais possam conviver pacificamente é interromper a atividade terrorista. Afinal, a violência apenas dá margem para medidas ainda mais agressivas contra os brilhantes. Mesmo vivendo uma situação complexa e repleta de dilemas, o leitor entende desde o início suas atitudes e motivos, 

Apesar de ser um livro de ficção científica, é interessante ver como Brilhantes traz discussões atuais e relevantes para a sociedade. É impossível ler e não constatar o paralelo entre os Serviços Equitativos e a NSA, órgãos que deteriam amplos poderes de investigação, que não se importarim em violar direitos fundamentais, e que fariam isso tudo sem supervisão. A questão que surge é: até que ponto é lícito ao governo violar direitos garantidos pela constituição em nome da segurança e do bem comum?

O desfecho — apesar de não ser surpreendente — é o ápice do livro, contando com muita ação e adrenalina, além de deixar ganchos promissores para a sequência da série. Aliás, devo registrar que fazia tempo que o primeiro livro de uma saga não me empolgava tanto para continuar a leitura dos demais. 

Creio que minha única crítica se limite ao fato de que, em determinados momentos, Brilhantes se tornou previsível e contou com alguns clichês. Porém, quando um autor tem uma boa estória para contar e sabe o que está fazendo, tais detalhes em nada desmerecem a obra. 

Ao eleger Brilhantes como uma das maiores expectativas para o ano, esperava encontrar uma mistura de thriller e ficção científica com terrorismo, política e conspiração, e foi exatamente isso que encontrei. 

Título: Brilhantes (exemplar cedido pela editora)
Autor: Markus Sakey
N.º de páginas: 474
Editora: Galera Record

sábado, 28 de novembro de 2015

RESENHA: O Colecionador de Peles

“Na ciência forense, um investigador examina a morte de forma abstrata, considera-a meramente um acontecimento que dá origem a uma série de incumbências. Bons policiais forenses enxergam esse episódio como algo do passado; os melhores veem a morte como ficção, e a vítima como alguém que jamais existiu. 
O distanciamento é uma ferramenta necessária para o trabalho numa cena de crime, assim como luvas de látex e luz negra.” (DEAVER, 2015, p. 24). 

***

Desde que li O Colecionador de Ossos — livro que inspirou o filme estrelado por Denzel Washington e Angelina Jolie — me tornei fã do autor. Jeffery Deaver é especialista em mesclar empolgantes perseguições com investigações policiais centradas na perícia forense. Porém, em O Colecionador de Peles, Deaver não alcançou o brilhantismo pelo qual o admiro. 

Um serial killer está a solta nas ruas de Nova York. Suas vítimas parecem ser aleatórias e o que chama a atenção é a forma como ele as assassina: utilizando uma pistola de tatuagem, inserindo veneno ao invés de tinta. Lincoln Rhyme e Amelia Sachs precisam desvendar as enigmáticas mensagens tatuadas na pele das vítimas e correr contra o tempo para impedir os próximos passos do Colecionador de Peles. 

A narrativa de Deaver é fluída e envolvente, rapidamente transpondo o leitor para o contexto do livro, seja ao lado de Amelia, ao processar uma cena do crime, seja ao lado de Rhyme, tentando compreender como as evidências coletadas se encaixam no panorama geral. O auge do livro fica por conta dos momentos de perseguição, em um brilhante jogo de gato e rato, no qual sobejam ação e adrenalina. 

Entretanto, o que me decepcionou foi o fato de que a perícia se tornou muito mais um pano de fundo do que o cerne do livro propriamente dito. Me pareceu que a investigação em O Colecionador de Peles contou muito mais com a ajuda constante da sorte e de deduções exageradas do que de inferências lógicas partindo dos indícios encontrados pela equipe nos locais dos assassinatos. 

Por sua vez, o que me desagradou no transcorrer da trama foi a opção do autor em fazer saltos no tempo no decorrer da investigação. Exemplifico: em um momento vemos um personagem correndo risco de vida, sendo que ninguém mais sabe o que está acontecendo. Do nada, chegam policiais para impedir que a situação se agrave, sendo que a explicação vem somente depois. Rhyme, revendo as evidências, conclui que poderia haver uma ameaça a tal pessoa. Ao utilizar tal artificio, Deaver quebrou duas regras essenciais do gênero policial: a) o leitor tem que fazer parte da investigação, acompanhando o detetive e recebendo as mesmas informações para ter a oportunidade de desvendar o mistério; b) quando se trata de uma perseguição policial, a jornada é o cerne da estória. Não é viável que fatos novos surjam do nada, se o leitor, em tese, está acompanhando toda a jornada. Assim, ao cortar um trecho, Deaver deliberadamente optou por excluir o leitor da investigação. 

Ao final da leitura, quando todas as peças se encaixam, é impossível não ficar com a sensação de que a trama ficou forçada em alguns aspectos, exagerada em outros, faltando coerência e, principalmente, verossimilhança. Sempre afirmo que Deaver é um autor que não precisa recorrer a truques para fazer um bom suspense, reviravoltas empolgantes, e isso tudo sem tirar o pé do chão. Infelizmente, parece que toda regra de fato tem sua exceção. 

Encerro dizendo que, apesar de tudo, O Colecionador de Peles não é um livro ruim. Entretanto, não está nem perto de retratar a habilidade e competência de Deaver como escritor. 

Título: O Colecionador de Peles (exemplar cedido pela editora)
Autor: Jeffery Deaver
N.º de páginas: 489
Editora: Record

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

RESENHA: Os Luminares

Os Luminares Eleanor Catton
Os Luminares me chamou a atenção nem tanto por sua premissa, mas principalmente por sua excelente recepção pela crítica. Além disso, o livro foi laureado com o Man Booker Prize em 2013, sendo Eleanor Catton a mais jovem autora a receber o prêmio.

Walter Moody chega em Hokitika para tentar a sorte na corrida do ouro e em seu primeiro dia na cidade, interrompe, sem saber, uma reunião secreta de doze homens. Estes estavam a discutir  os misteriosos acontecimentos do dia 14 de janeiro de 1866: um eremita alcoólatra morreu e quando seu espólio é vendido se descobre uma grande fortuna; uma cobiçada prostituta é presa por tentativa de suicídio; um jovem e rico garimpeiro desaparece. Aqueles doze homens estão relacionados, direta ou indiretamente, a tais fatos e por isso sabem uma parte desta estória. A preocupação deles é a de ser comprometido em algo muito maior e de serem considerados cúmplices dos crimes alheios. 

Os Luminares surpreende por sua trama maravilhosamente intrincada e magistralmente concatenada. Nunca, em toda minha vida, encontrei um livro que tivesse uma trama tão audaciosa, cruzando a vida dos personagens em um verdadeiro efeito borboleta. A impressão que eu tinha ao ler era semelhante a de estar puxando o fio de um novelo, e quanto mais puxava mais conexões entre os personagens descobria. 

Catton escolheu uma interessante forma de contar sua estória: apesar do livro começar com os doze homens e a vida deles estar relacionada, pelos mais diversos motivos, com o cerne da estória, eles são os coadjuvantes. Cada um deles revela o que sabe sobre os fatos de modo que o leitor comece a juntar as peças, montando este grandioso quebra-cabeça. Quanto mais o livro avança, mais o leitor se aproxima do cerne da estória e de seus verdadeiros protagonistas. 

Digo "protagonistas" no plural por que a estória de Os Luminares não diz respeito a um personagem, mas há um grupo deles. E não há como dizer que a estória de um seja mais importante que a do outro, até mesmo porque não há como separar suas estórias. Como consequência, é igualmente difícil classificar o livro, pois trata-se de uma mistura afrodisíaca de drama, suspense, mistério, romance e até mesmo thriller. 

O único problema desta abordagem é que ao contar a estória por tantos pontos de vista, e a maior parte dela pelo olhar dos coadjuvantes, não há ninguém com quem o leitor crie uma conexão. O que me encantou e me impulsionava a ler Os Luminares foi a trama, a vontade de juntar as peças e de descobrir toda a verdade, e não por me importar com os personagens. 

“— Senhores [...], eu defendo que não há verdades totais, e sim apenas verdades pertinentes, e a pertinência, hão de convir, é sempre uma questão de perspectiva. Não creio que nenhum de vocês haja perjurado de alguma maneira esta noite. Eu acredito que me deram a verdade, e nada além da verdade. Mas suas perspectivas são muitas, e hão de me perdoar se eu não tomar por integral a sua narrativa.” (CATTON, 2013, p. 300).

Mas preciso destacar que os personagens são um prato cheio. Todos são multifacetados e decifrar seu caráter e personalidade é tão interessante quanto desbravar os mistérios mais prementes do livro. É ainda mais interessante ver a interação entre pessoas tão diferentes como um reverendo irlandês, um nativo maori, um chinês viciado em ópio, um funcionário da justiça e uma prostituta. 

A narrativa de Eleanor Catton me incomodou um pouco dado o excesso descritivo. A autora descrevia não apenas o mundo físico, mas sobretudo a personalidade de cada novo personagem que era introduzido na estória, o que tornava o texto um pouco cansativo. Entretanto, os diálogos são brilhantes, pois além de bem construídos, conseguiam imergir o leitor naquele contexto. Felizmente, depois da primeira metade do livro a narrativa se torna menos descritiva

O desfecho impressiona pelo grau de detalhes que Catton observou, amarrando todas as pontas, deixando claro o que aconteceu, mesmo que algumas explicações tenham ficado nas entrelinhas. O final do livro não é o final da estória daqueles personagens, sendo impossível encerrar a leitura e não ficar se perguntando o que o futuro reserva para eles. 

Não posso encerrar esta resenha sem elogiar a estrutura da obra. A cada um dos doze homens é atribuído um signo do zodíaco e aos demais personagens são designados astros de modo que seus encontros e conflitos seguem os movimentos celestes. Se escrever um livro já é uma tarefa hercúlea, apenas imagino o trabalho que a autora não teve com Os Luminares.

Os Luminares é uma estória fantástica sobre sorte, chantagem, segredos, amor, traição, vingança, ódio, ambição, recomeço, justiça e principalmente sobre a verdade, e o quão relativa ela pode ser até se ter todos os fatos. Durante a FLIP de 2014, Eleanor Catton afirmou que quanto maior o livro, maior a promessa do autor, pois este estará exigindo que o leitor invista mais tempo em sua obra e, portanto, deverá entregar uma experiência a altura. Após encerrar a leitura só tenho uma coisa a dizer: promessa cumprida.

Título: Os Luminares
Autora: Eleanor Catton
N.º de páginas: 884
Editora: Biblioteca Azul

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