Solidão não tem a ver com companhia. Tem a ver com estado de espírito. É possível se sentir solitário em qualquer lugar, a qualquer momento, com qualquer pessoa. E isso não necessariamente precisa ser algo ruim. Alguns artistas utilizaram a solidão que os consumia como alimento para suas obras e é sobre isso que Olivia Laing fala no seu “A Cidade Solitária”.
Eu já havia lido outro livro da autora (“Viagem ao redor da garrafa”) cujo tema era grandes escritores e suas relações com o alcoolismo. Por isso, já sabia de antemão que a leitura não seria das mais ágeis, mas que compensaria com ótimas reflexões.
Mesclando experiências próprias de quando se mudou para Nova York, com a vida de artistas como Edward Hopper, Andy Warhol, David Wojnarowicz e Henry Darger
e usando episódios destas vidas para compreender suas obras, Laing transforma “A Cidade Solitária” em um livro ímpar: misto de sua própria autobiografia, com a biografia dos artistas em questão, com livro de arte, com pinceladas de psicologia e críticas à sociedade.
A atração pelo tema veio da experiência da própria autora ao deixar sua vida na Inglaterra, se mudar para Nova York, e ainda precisar encarar o final repentino de um relacionamento. Resultado: se isolou em si mesma.
“A Cidade Solitária” não é um livro bonito. É um livro que mergulha em escuridões profundas, das quais a solidão não é a causa de nada e sim a consequência. Drogas, maus tratos infantis, obsessão e até tentativa de homicídio são alguns dos temas que ganham espaço.
"É sobre querer e não querer: sobre precisar que pessoas se derramem sobre você e depois precisar que elas parem com isso, para você restaurar os limites de si mesmo, manter a separação e o controle. É sobre ter uma personalidade que tanto sente falta de outro ego quando teme ser subsumido nele; ser encharcado ou inundado, ingerir ou ser infectado pela confusão e o drama de outra pessoa, como se as palavras dela fossem literalmente agentes transmissores.” (LAING, 2017, p. 68)
Eu confesso que era pouco familiarizada com alguns dos artistas mencionados e que, apesar da popularidade de Warhol, foi Hopper que me atraiu. Há alguns anos, durante um curso de escrita criativa, um dos exercícios propostos pelo meu professor baseava-se em duas obras do pintor (“Morning Sun” e “New York Movie”) e, desde então, me encanta ver como as telas de Hopper contam histórias, como seus personagens têm vidas, históricos, e como sempre transmitem essa sensação melancólica e solitária de quem está tentando pertencer a algo. Tanto que neste ano, o autor de livros policiais Lawrence Block organizou uma antologia de 17 contos intitulada “Na luz e na sombra, histórias inspiradas nas pinturas de Edward Hopper”, da qual participam autores como Stephen King, Joyce Carol Oates e Lee Child. Ainda sobre Hopper, foi uma de sua obras que me chamou a atenção para um dos meus livros favoritos da vida: “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”. Apesar da minha identificação com o trabalho do pintor, talvez a história de Hopper seja uma das menos intensas do livro.
Por sua vez, Andy Warhol, famoso por suas Marilyns, seus Elvis, suas latas Campbell e também por sua excentricidade, surpreende ao se revelar uma pessoa que, apesar da fama e das festas, era essencialmente solitária.
Já Henry Darger, que trabalhou como zelador e teve sua obra descoberta após a sua morte, surge como o autor de uma série de pinturas incômodas, protagonizadas por crianças, em cenários que podem ser tanto encantadores, remetendo a contos de fadas, como de tortura e massacre.
Temos também a história de David Wojnarowicz, pintor e fotógrafo cuja bagagem familiar o levou à prostituição ainda na adolescência.
Outra coisa: se prepare para ler com um olho nas páginas e outro no Google, pois a vontade de analisar cada detalhe das obras mencionadas surge a cada instante.
“A Cidade Solitária” usa algumas histórias específicas para falar sobre um tema mundial com o qual todos podem se identificar em algum nível. Solidão tem a ver com conexão, com intimidade. É possível estar sozinho e não estar solitário e é possível estar solitário em meio a dezenas de pessoas. A solidão é sua. Totalmente sua. Esse é um livro sobre pessoas que a deixaram transbordar e virar arte.
Autora: Olivia Laing
N° de páginas: 304
Editora: Rocco
Exemplar cedido pela editora.
Exemplar cedido pela editora.
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