sábado, 31 de março de 2018

RESENHA: Mago e Vidro

Mago e Vidro Torre Negra Stephen King
Após a empolgante leitura de As Terras Devastadas, terceiro livro da série, estava com a expectativa em alta para conferir Mago e Vidro e continuar desbravando o caminho rumo a Torre Negra ao lado de Roland, Eddie, Susannah e Jake. Mas, para minha surpresa, o quarto volume da série tomou um caminho inesperado. 

Em Mago e Vidro conhecemos mais a fundo a estória de Roland, descobrindo o que aconteceu com ele após seu precoce teste de maturidade. O pai de Roland, preocupado com sua segurança, envia o filho e seus amigos para uma missão na cidade de Hambry. Entretanto, ao chegarem lá, os adolescentes descobrem uma terrível conspiração que os obriga a tomarem medidas drásticas. Para complicar a situação, Roland se apaixona por Susan Delgado, uma jovem prometida ao prefeito. 

O quarto livro da série demorou para prender minha atenção. As primeiras páginas colocam um fim bastante óbvio ao cliffhanger do livro anterior e, logo em seguida, Roland começa a compartilhar suas memórias. O problema é que, a exceção de Roland, tudo muda: temos novos personagens, um novo cenário e um novo contexto. Ou seja, tive a impressão que estava começando a leitura de um novo livro. 

Confesso que, em um primeiro momento, fiquei um pouco frustrado ao perceber que a obra se dedicaria a destrinchar o passado de Roland, afinal, estava mais interessado na jornada dos personagens rumo a torre. Entretanto, logo entendi a opção de King: somos levados ao passado para entender de onde surgiu a obsessão de Roland pela Torre Negra e vemos os inúmeros sacrifícios que ele fez para seguir em seu caminho. Além disso, o autor também aproveita este momento para fornecer diversas explicações sobre o mundo de Roland.

“Os que estão sob o domínio de uma droga forte — heroína, erva-do-diabo, verdadeiro amor — frequentemente se veem tentando manter um precário equilíbrio entre discrição e êxtase, enquanto avançam na corda bamba de suas vidas. Manter o equilíbrio numa corda bamba é difícil até mesmo no estado mais sóbrio, fazer isso num estado de delírio é praticamente impossível. A longo prazo, é completamente impossível.” (KING, 2007, p. 425)

Apesar de entender a opção do autor, preciso salientar que achei o desenvolvimento da estória muito vagaroso. Das oitocentas páginas do livro, mais de seiscentas são dedicadas a estória de Roland e a minha impressão é que pelo menos um terço poderia ter sido cortado. Assim, considerando que a estória começa praticamente do zero e que tem um ritmo lento, acabei demorando para me sentir envolvido. 

Mas quando King alcança o ápice da estória e começa a amarrar todas as pontas da trama é impossível interromper a leitura. É por isso que tenho uma confiança cega no autor: King sempre sabe o que está fazendo e sempre consegue surpreender o leitor, mesmo que as vezes demore um pouco para entregar este resultado. 

Apesar da jornada rumo a Torre Negra ter avançado pouco, Mago e Vidro é um livro necessário para entendermos a complexidade do protagonista e a origem de tudo. Registro que a estória de Roland ainda está incompleta e imagino que nos próximos livros receberemos mais algumas peças do quebra-cabeça, mas depois deste volume temos uma visão muito mais abrangente de sua estória. 

Como sempre, King me deixou com muita vontade de partir para a leitura do próximo volume assim que virei a última página. Desta vez, o final não contou com cliffhangers e admito não ter a menor ideia de qual rumo a estória irá seguir. 

Título: Mago e Vidro – A Torre Negra vol. IV
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 813
Editora: Suma

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quarta-feira, 28 de março de 2018

RESENHA: O Detetive Parker Pyne

O Detetive Parker Pyne - Agatha Christie“Você é feliz? Se não for, consulte o Sr. Parker Pyne”. Esse é o anúncio que atrai clientes para o escritório deste aposentado que após anos compilando estatísticas em uma repartição pública decidiu usar os seus conhecimentos para devolver a satisfação à vida de pessoas infelizes. Parker Pyne salva casamentos, proporciona aventuras, resolve problemas e, até mesmo, desvenda alguns crimes quando está de férias.

Uma coleção de pequenas histórias, todas protagonizadas por Parker Pyne, o revelam como um misto de Hercule Poirot e Miss Marple. De Poirot, Pyne herda a experiência profissional, o conhecimento técnico, a atenção aos detalhes e as estratégias para comprovar suas teorias. De Miss Marple, o conhecimento da alma humana. Mas nem por isso Parker Pyne soa reaproveitado e sim uma ferramenta para que a Dama do Crime possa criar casos que não giram em torno de crimes. Aliás, ao contrário do que o título sugere, Parker Pyne não é um detetive e sim alguém que resolve casos, mas não necessariamente os investiga.

Pode-se dividir o livro em duas etapas: na primeira, Pyne está em seu escritório e é abordado por clientes. Uma moça que precisa devolver algo que roubou, um homem simplesmente entediado, um homem que está prestes a ser abandonado pela esposa que tanto ama, entre outros. Nesses casos, Pyne encontra soluções criativas para resolver os problemas dos clientes e Agatha sempre consegue uma forma de surpreender o leitor, seja com uma reviravolta inesperada ou com uma informação que muda tudo. O interessante nesses casos é que sabemos que o que está acontecendo não é 100% real e sim tramado por Pyne para que o cliente atinja seu objetivo. Isso dá uma sensação de cumplicidade para o leitor. Os contos neste estilo foram os que mais me agradaram pois me pareceram bastante diferentes das histórias tradicionais de Agatha. Cito como favoritos “O Caso do Marido Descontente” e “O Caso do Soldado Descontente” (sim, há muita gente descontente na vida de Parker Pyne).

“Às vezes as palavras não surtem efeito no momento em que são ouvidas – apenas mais tarde, quando tornamos a nos lembrar delas.” (CHRISTIE, 2012, p.20)

No que eu considero a segunda parte do livro, Pyne está em viagem de férias, mas, assim como acontece com o nosso detetive Belga favorito, seus planos são constantemente frustrados já que a todo momento um caso o encontra. Esses casos têm um caráter diferente dos primeiros, pois Pyne não está sendo procurado para resolver um problema específico e sim ajudando a dar um jeito nos problemas que surgem no caminho. Casos como uma mulher que desconfia que seu marido a está envenenando e morre envenenada durante a viagem. Confesso que esses não me agradaram tanto, pois me pareceu que neles Agatha desperdiçou a oportunidade de aproveitar o que Pyne oferecia de único, dando a ele histórias que outros personagens poderiam ter vivido (a própria Miss Marple, por exemplo) e não é à toa que a autora escolha dois contos da primeira etapa como os seus favoritos do livro.

“O Detetive Parker Pyne” é um livro diferente de Agatha Christie por não girar em torno de resolver um mistério ou desvendar um crime. Com 14 histórias curtas (em média de 20 páginas cada), a Dama do Crime consegue entreter o seu leitor mais uma vez.

Título: O Detetive Parker Pyne
Autora: Agatha Christie
N° de páginas: 272
Editora: L&PM

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domingo, 25 de março de 2018

RESENHA: O mundo pós-aniversário

Depois de uma leitura impactante como “Precisamos Falar Sobre o Kevin” é difícil não confiar em Lionel Shriver para executar qualquer premissa. Em “O mundo pós-aniversário” ela pega uma pergunta que, ocasionalmente, todos nos fazemos e a transforma não em uma, mas em duas tramas interessantíssimas.

Irina, casada com Lawrence, é uma ilustradora de livros infantis. Sua editora, June, casada com Ramsey, há anos sugere que as duas saiam jantar com os maridos. Quando elas finalmente conseguem encontrar uma data na qual os quatro estejam livres, a data coincide com o aniversário de Ramsey e dá início a uma tradição que perdura por anos: no aniversário de Ramsey, o quarteto sai para jantar. Mas, eventualmente, June se separa de Ramsey e rompe relações profissionais com Irina, de forma que o quarteto se reduz a um trio. Até que em um determinado ano, Lawrence está em viagem e o jantar se resume a Irina e Ramsey. Ao estar sozinha com este homem charmoso com quem ela nunca teve muita afinidade, surge uma vontade incontrolável de beijá-lo e é no breve momento que antecede o beijo que sua vida encontra uma bifurcação: beijá-lo e trair Lawrence, ou manter-se fiel ao marido?

Tenho por regra fugir de histórias envolvendo triângulos amorosos, mas também tenho por regra acreditar que a maneira como uma história é contada vale mais do os fatos que ela conta (e, claro, os personagens valem mais do que tudo). E é isso que torna o livro de Shriver tão genial. Não temos uma história e sim duas histórias que surgem a partir da bifurcação na vida de Irina.

A última cena do primeiro capítulo deixa a nossa protagonista a segundos de beijar Ramsey. A partir disso, a narrativa se desdobra em duas: teremos dois “segundo capítulo”, dois “terceiro capítulo”, dois “quarto capítulo”, e assim por diante, porque teremos duas histórias. Em uma, Irina beija Ramsey, na outra, não. Assim, Shriver leva o “e se?” ao extremo e explora as duas possibilidades. Se ela beijasse Ramsey, o que se seguiria seria isso. Se ela não beijasse, seria aquilo.

É incrível como a autora conduz as histórias. Se tratam dos mesmos personagens e muitos dos mesmos eventos (os mesmos torneios, as mesmas premiações, os mesmos programas de tv, os mesmos jantares), mas vividos de maneiras diferentes por causa daquele beijo que em uma realidade aconteceu e na outra não. Dessa forma, às vezes uma mesma frase é dita com conotações completamente diferentes, em outras, algo que Irina diz para Lawrence, por exemplo, é dito por ele para ela na outra realidade. Até mesmo o tempo que leva para moer os grãos de café e preparar uma torrada no café da manhã acaba sendo um evento totalmente diferente após o “beijo”. Assim, “O mundo pós-aniversário” é composto de pequenos momentos que o tornam genial.

“A ideia é que a gente não tem apenas um destino. As crianças, cada vez mais novas, são pressionadas a decidir o que querem fazer na vida, como se tudo dependesse de uma única decisão. Mas, seja qual for a direção tomada, haverá altos e baixos. A gente lida com uma série de compensações e não com um rumo perfeito, comparados ao qual todos os outros seriam uma porcaria. (...) Há vantagens e desvantagens variáveis em cada um desses dois futuros que rivalizam entre si. (...) Em ambos, tudo dá certo, na verdade. Está tudo certo.” (SHRIVER, 2009, p. 398)

É admirável como as duas histórias são totalmente plausíveis. Como as angústias de Irina são completamente diferentes nas duas histórias, mas funcionam da mesma forma. Tanto que não é o objetivo da autora eleger uma versão como sendo verdadeira e a outra imaginação/conjectura/sonho/realidade paralela ou qualquer coisa desse tipo. São duas possibilidades, igualmente admissíveis, que mostram que não é se manter fiel ao marido ou, por outro lado, se entregar a uma paixão intensa que fará Irina feliz ou infeliz. As duas situações trarão alegrias e tristezas e, em alguns momentos, a farão desejar não ter agido como agiu. São escolhas e consequências.

Outro ponto que vale ser destacado é que as histórias são tão densas que quando estamos lendo uma esquecemos totalmente da outra. Por isso não há razão para confundir o leitor sobre em que “mundo” ele está, mesmo que as duas versões usem da mesma voz narrativa (onisciente, com foco em Irina). O que também prova que um bom autor não precisa daquela - atualmente tão banalizada - troca de narrador protagonista para apresentar ao leitor outra perspectiva dos mesmos acontecimentos, ou lançar uma continuação da história para fazer o mesmo.

Sem medo do desafio, a autora desenvolve a história ao longo de cinco anos, de forma que podemos ver as consequências a longo prazo da escolha de Irina. O desfecho foi mais ou menos como eu previa desde o início, mas eu jamais poderia ter imaginado o caminho que Shriver trilharia até lá. Não é que o livro seja surpreendente, mas é que ele é tão verossímil que, da mesma forma que é impossível prever os desdobramentos da vida, é impossível prever os de “O mundo pós-aniversário”.

Nesta minha segunda experiência com Lionel Shriver, constatei que ela é um daqueles poucos escritores que não tem um gênero definido. “Kevin” é um thriller psicológico como poucos, perverso das piores formas, daqueles para quem realmente tem estomago. “O mundo pós-aniversário” é um drama com foco na vida amorosa da protagonista. Cada um intenso a seu modo. Suas premissas habilmente exploradas ao máximo. Bons personagens, excelentes conflitos. Sem dúvida uma autora que pretendo conferir todos os livros.

Título: O mundo pós-aniversário
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 542
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 22 de março de 2018

Concurso Literário #OrgulhodeSer


A plataforma Sweek, em parceria com a Rico Editora, está promovendo o Concurso Literário  #OrgulhodeSer, que visa incentivar a literatura Young Adult que aborde temáticas LGBT+. 

O livro será composto por sete contos, sendo que três serão escolhidos através da plataforma Sweek. A antologia, organizada pela escritora Thati Machado, será lançada na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. 

Quem quiser participar, deve publicar seu conto de até três mil palavras no Sweek até o dia 31 de março. Para conferir o regulamento do concurso, acesse: http://bit.ly/OrgulhodeSer

Aceitei o desafio de participar do concurso e espero que vocês acessem o Sweek para conferir meu conto: Queda Livre.

Sinopse:

Rafa e Gus são amigos desde que se entendem por gente e, por isso mesmo, se consideram irmãos. Quando Rafa começa a enfrentar os desafios da adolescência — especialmente os de um adolescente gay —, ele não hesita em recorrer ao apoio e aos conselhos de Gus, que é três anos mais velho. 

Da aceitação às primeiras vezes, vemos como a amizade deles foi crucial para o processo de descobrimento e amadurecimento de Rafa, bem como para prepará-lo para as reviravoltas da vida. 


Clique aqui para ler Queda Livre. E se você gostar, não esqueça de curtir e de comentar no Sweek. 






segunda-feira, 19 de março de 2018

RESENHA: Maigret hesita

Maigret hesita / Georges SimenonQuando preciso de uma leitura rápida e interessante, o Comissário Maigret costuma ser um dos meus melhores amigos porque sempre que recorro a ele para uma breve aventura, ele nunca me decepciona.   

A primavera começa a dar seus primeiros indícios e Maigret gosta da mudança sutil que ela traz para as ruas de Paris. Porém, na sede da Polícia Judiciária, o Comissário recebe uma estranha correspondência anônima que anuncia que um crime provavelmente acontecerá nos próximos dias. O autor da carta não avisa quem seria a vítima ou mesmo o assassino, tampouco onde, como e porque se dará o crime, mas Maigret sente que ele não está de brincadeira e isso lhe é suficiente para iniciar uma investigação.

Quando se trata de Simenon é preciso saber que “quem matou?” nunca é tão importante quanto os porquês. Em resumo, o crime em si nunca é tão importante quanto os personagens e seus dramas. O crime não é algo elaborado por uma mente perversa e sim uma consequência da vida.

“O senhor sabe melhor do que eu que a realidade nem sempre é verossímil. Um assassinato será cometido em breve, provavelmente dentro de alguns dias. Talvez por alguém que conheço, talvez por mim mesmo. Não lhe escrevo para impedir que o drama aconteça. Ele é, de certo modo, inevitável. Mas quero, quando isso acontecer, que o senhor saiba.” (SIMENON, 2012, p.13)

Em “Maigret hesita” isso não é diferente. Um caso que ainda não aconteceu, e que nem se sabe ao certo qual será, coloca o Comissário dentro da vida de uma família que, mesmo morando todos na mesma casa, parecem viver vidas completamente isoladas. O homem de aparência frágil, mas que lida com negócios sérios, a secretária que fala sem pudores sobre ter um caso com seu chefe, a esposa que parece pouco se importar com as atividades ou qualquer coisa que diga respeito ao marido, a filha que abomina o estilo fácil de vida da família, o filho adolescente que idolatra o pai e uma série de outros empregados transitam pelos corredores sem conhecer a fundo uns aos outros.

O livro gira em torno de desvendar esses personagens e suas relações, tentando antecipar quem estaria com a vida em risco. A questão é que, da maneira como a família se revela, pode ser qualquer um.

A prova de que o crime está em segundo plano é que é apenas nas últimas páginas que ele acontece e, a partir do momento em que sabemos quem é a vítima, é muito fácil deduzir o criminoso e suas motivações.

Uma leitura para ser feita em poucas horas, sem a ânsia de encontrar respostas, mas com a certeza de se estar diante uma trama coesa e com bons dramas. “Maigret hesita” é Maigret sendo Maigret.

Título: Maigret hesita
Autor: Georges Simenon
N° de páginas: 166
Editora: L&PM

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sexta-feira, 16 de março de 2018

A influência da expectativa na leitura

Dificilmente lemos um livro às cegas. Se embarcamos em uma história é porque algo em sua premissa nos cativou ou porque já tivemos experiências anteriores com seu autor e confiamos que ele nos entregará outra boa história ou ainda porque alguém nos recomendou a leitura. Qualquer uma dessas coisas gera expectativas e é óbvio que ninguém dedicará tempo a uma leitura que não acredita que será boa. Mas até que ponto é bom iniciar uma leitura esperando tanto?

Eu já havia percebido que, muitas vezes, a minha expectativa em relação a um livro havia ofuscado a própria história. “Novembro de 63”, por exemplo, considerado um dos melhores livros escritos recentemente por Stephen King (inclusive na opinião do próprio autor) foi morno para mim. Tudo porque eu havia entendido que a história era sobre as consequências de o protagonista tentar impedir o assassinato do presidente John Kennedy, quando na verdade a história era sobre os anos que antecederam o atentado, ou seja, a preparativa do protagonista para esse grande momento. Resultado: por centenas de páginas me senti enrolada porque o autor não chegava ao que importava e a história não começava nunca. Só que o problema não estava na história e sim na minha expectativa, já que a história que King tinha para contar era outra e estava, sim, sendo muito bem desenvolvida. Depois de perceber isso, continuei a leitura com outros olhos, mas parte da empolgação já havia se dissipado. Um ótimo livro pouco aproveitado devido a minha expectativa.

Outra prova de que expectativas nas alturas não fazem bem à leitura nenhuma foi o que constatei ao final de 2017 ao fazer a minha lista de melhores do ano. Pela primeira vez em seis anos de blog, o livro que eu elegi como a minha maior expectativa realmente ficou no posto de melhor leitura. Os outros, raramente entraram no pódio no ano seguinte, embora sejam (em sua maioria) ótimas leituras.  

Quando você espera demais, por mais que o livro entregue, não será suficiente. Se você já pensa de antemão que será arrebatado, o quanto ele não terá que fazer para realmente conseguir arrebatar você? Se você já espera se emocionar, o quanto ele não deverá investir nisso para realmente conseguir esse efeito? Foi assim que eu desvendei aquele que é considerado um dos livros mais surpreendentes de Agatha Christie: “O Assassinato de Roger Ackroyd”. A trama é tão bem construída como qualquer outra da Dama do Crime e conta com aqueles truques só ela era capaz de fazer para enganar seu leitor. Eu, que sabia da reputação do livro, li toda história pensando: “Mas o que seria tão surpreendente? Qual seria a coisa mais inesperada? Só se o assassino for....”. Pronto! Charada matada graças à minha expectativa (e ainda assim dei um pulo da cama quando a autora revelou que as minhas suspeitas estavam certas).

Quando li “Morte Súbita”, um dos livros mais controversos que já vi pela blogosfera, tive a sorte de ter sido alertada por uma resenha: “o livro não é sobre a morte e sim sobre a vida de cada um desses muitos personagens”. Resultado: li apreciando a complexidade de cada um e não frustrada pela lentidão com que a história avançava, afinal a intenção nem era que se desenvolvesse rapidamente, já que não se tratava de uma investigação de assassinato e sim do cotidiano de uma cidadezinha. Leitura salva por expectativas ajustadas.

Alguns livros são bons. Alguns livros são ótimos. Às vezes, o que coloca um em uma categoria ou em outra é o que você espera dele. Um ótimo livro pode ser uma decepção se você estiver esperando um livro genial. Um livro bom pode ser um excelente entretenimento se você não esperar muito dele e se deixar levar. É por isso que leio sinopses e trato de esquecê-las o mais rápido possível e, em alguns casos, nem leio, apenas me jogo no livro porque sei que gosto do seu autor. Porque é aquela velha história: nada como avaliar o livro pelo livro, e apenas pelo livro, em si.


terça-feira, 13 de março de 2018

RESENHA: A Quinta Testemunha

A Quinta Testemunha Michael Haller
Já considerei Michael Connelly um dos melhores autores policiais da atualidade, principalmente depois da leitura de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, de uns tempos para cá, seus livros têm sido decepcionantes ou até mesmo ruins, como foi o caso de A Queda. Assim, determinado a dar uma última chance ao autor, decide ler A Quinta Testemunha, o quarto livro da série com Mickey Haller. 

Com a crise mobiliaria que assola o país, Haller teve que tomar uma medida drástica: abandonar a advocacia criminal e tentar aproveitar a enxurrada de processos de despejo. Quando uma cliente entra em contato, ele sequer imagina que Lisa está sendo acusada de ter matado um funcionário do alto escalão do banco, o qual está cobrando a hipoteca de sua casa. 

Como sempre, a narrativa de Connelly é bastante fluida e instigante, sendo que em poucas páginas já estamos envolvidos com a estória. O autor também soube estruturar bem a trama, adicionando novos elementos e plot twists na medida certa, de modo a manter o interesse do leitor. 

Outro fator que me impressionou é a facilidade que o autor tem em pensar como um verdadeiro advogado criminalista, o que torna a estória extremamente verossímil. O protagonista criado por Connelly é baseado na vida real, e não nos clichês de filmes e séries jurídicas.

“— Não, quem não está entendendo é você. Se você é inocente ou não, não tem nada a ver com o que está em jogo aqui. O importante é o que podemos provar ou contestar no tribunal.” (CONNELLY, 2013, p. 53)

O caso em si é muito interessante e rende diversas reflexões. Por um lado, uma mulher abandonada pelo marido, com um filho para cuidar e que não consegue pagar a hipoteca da casa. Por outro, uma grande corporação que está executando todos os seus devedores. Mais do que falar em certo ou errado, o autor embarca na nebulosa área da moral, mas de forma sútil e sem a pretensão de dar lições de vida. 

Entretanto, creio que o autor estendeu demais a estória. Sinceramente, não me pareceu que as mais de quatrocentas páginas fossem realmente necessárias para o desenvolvimento do livro. Está impressão ficou ainda mais nítida na reta final do livro, quando o julgamento de Liza parecia não acabar e nada de novo acontecia. 

O desfecho foi bom, sendo que todas as pontas da trama foram devidamente amarradas. Entretanto, saliento que o final não foi exatamente uma surpresa. Além disso, outro detalhe da estória revelado no final me pareceu um pouco forçado. 

Encerro admitindo que entre minhas últimas experiências com os livros do autor, A Quinta Testemunha foi a melhor. Porém, ainda não alcançou o mesmo nível dos livros que citei no início desta resenha. 

Título: A Quinta Testemunha
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 419
Editora: Suma
 

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