Talvez esse seja um comentário superficial, mas, para mim, quanto maior o livro, maior a promessa. Não é qualquer história que dá conta de 700 páginas, simplesmente porque são poucas as que precisam 700 páginas para serem contadas. Nessa categoria de livros imensos, Stephen King faz questão de ter um lugar cativo. Seu “Dança da Morte”, por exemplo, justifica (quase) todas as suas mais de 1200 páginas, por ter milhares de personagens em um mundo que precisa ser apresentado como é para depois ser destruído e só depois ser construído de novo. Já tendo se provado tantas vezes, o autor é digno de confiança para encarar uma aventura desse tamanho, mas com “Insônia” ele errou a dose.
Após a morte de sua mulher, Ralph Roberts, um aposentado de 70 anos, passa a sofrer de insônia. Mas não qualquer tipo de insônia. Ao invés de não conseguir dormir, Ralph não consegue se manter dormindo e a cada dia acorda um pouco mais cedo. Mesmo testando todos os remédios caseiros imagináveis, a condição se prolonga por meses e, com o passar o tempo, ele começa a enxergar áureas e luzes coloridas emanando das pessoas, além de seres estranhos que ele chama de Doutorezinhos Carecas. Ao descobrir o significado de suas visões, Ralph se verá desempenhando um importante papel em uma luta muito maior que a sua compreensão.
Stephen King tem um talento único. Mesmo depois de tantos livros do autor, ainda me espanta a sua capacidade de transformar premissas absurdas (e algumas vezes até ridículas) em histórias interessantes que sempre levam o leitor a uma reflexão, algo que ele repete em “Insônia”. Mas o que mais me admira é como o autor é hábil em pintar imagens para o seu leitor e fazer com que as cenas surjam diante dos seus olhos com tamanha riqueza de detalhes que é como se uma cortina se abrisse e simplesmente revelasse o que há por trás. Além disso, a voz de King é única e ninguém, absolutamente ninguém, soa como ele. Um leitor fiel reconhece o texto do mestre de longe e é por essas pequenas coisas que nada do que King escreve se torna chato. Ele conduz o leitor pela mão de uma forma que só nos resta apreciar o passeio. E é isso o que salva boa parte de “Insônia”. Confesso que se eu não tivesse tanta confiança em King provavelmente teria desistido do livro antes de chegar na metade. Isso porque durante as 300 primeiras páginas, a história não avança e tudo o que temos são o início da insônia de Ralph e suas consequências. Levando em consideração que 300 páginas é o espaço que muitas histórias precisam para serem contadas (com início, meio e fim) isso é muita coisa para pouco desenvolvimento. A minha sensação era a de nadar sem nunca chegar na praia. Sim, a água estava gostosa, mas ninguém quer nadar o dia inteiro sem nem avistar a terra firme. Para se ter uma ideia, é apenas depois da página 400 que vamos entender em torno do que gira a história (até então Ralph não tem a menor ideia do porquê da sua insônia ou suas visões).
A partir desse momento
as coisas ganham fôlego e King entrega uma história tipicamente sua que inclui o
sobrenatural, a luta do bem contra o mal e cenas grandiosas. Funciona? Sim, muito bem. Mas não é uma história mais complexa que a de “
A Zona Morta”, por exemplo, e não justifica sua extensão, não importa o quão habilidoso seja
King.
“Não fazia sentido recuar, no último instante, do limiar da loucura; não fazia sentido chegar tão próximo de qualquer limiar. Contudo, ele compreendia perfeitamente bem que não podia viver muito tempo em um mundo tão brilhante e maravilhoso sem por em perigo sua sanidade (...)” (KING, 2013, p.142)
Com tantas reclamações, pode parecer que eu não gostei de “Insônia”, mas não é o caso. A narrativa é envolvente, Ralph é um personagem carismático (assim como outros que cruzam seu caminho), os Doutorezinhos Carecas são figuras intrigantes e interessantes e a história é sim boa e bem amarrada e teria tudo para traçar uma curva ascendente, mas pela sua extensão acaba sendo uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Há momentos grandiosos em que eu me peguei dizendo: “Esse é o King que eu conheço”, mas outros tantos que me faziam pensar ao final de uma sessão de leitura “o que a história avançou?”.
Eu costumo dizer que King usa do sobrenatural para desencadear situações/problemas/dilemas humanos. Nesse sentido, achei interessante que “Insônia” use do contrário: uma situação mundana (a insônia) é a ferramenta usada pelo sobrenatural para se manifestar.
O jogo “acaso” e “desígnio” também é interessante, nos fazendo pensar sobre como algumas coisas são de suma importância e geram consequências capazes de mudar tudo, enquanto outras têm direito à flexibilidade já que qualquer coisa pode acontecer com elas a qualquer momento sem grandes consequências. Pensando bem, isso é válido para pessoas, decisões...
Convém mencionar também que há em “Insônia” um pequeno cruzamento com a história de “A Torre Negra”, mas não é preciso estar familiarizado com a série para entender os acontecimentos deste livro. Por falar em cruzamento, a história se passa em Derry, uma das cidades mais tradicionais do universo Stephen King.
“Insônia” não é um livro ruim. Mas ao estender a jornada além do necessário, King perdeu de ter mais um “muito bom” atrelado ao seu nome. Isso prova que mesmo os mestres escorregam de vez em quando, mas prova também que, mestre que é mestre, acerta até mesmo quando erra e que sempre recompensa seus fiéis seguidores.
Título: Insônia
Autor: Stephen King
N° de páginas: 701
Editora: Suma de Letras
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.