Alguns livros escolhem priorizar tensão psicológica à ação. Cenários, múltiplos personagens, reviravoltas, ritmo eletrizante...tudo isso se torna desnecessário porque a história acontece dentro de alguns poucos personagens desenvolvidos ao extremo. Esse é o caso de “O Colecionador”, livro de estreia de John Fowles, que inspirou nomes como Stephen King e Thomas Harris.
Miranda é uma bela estudante de arte. Um espírito livre. Cheia de amigos e ocasionais namorados. Tudo o que Frederick não é. Órfão, criado pela tia, um funcionário público silencioso e de poucos amigos que observa Miranda da janela do trabalho. Até que ele ganha na loteria e compra uma casa para receber uma convidada especial.
O livro se divide em quatro partes: na primeira, acompanhamos o ponto de vista de Frederick, na segunda, o de Miranda. A técnica tem sido banalizada nos últimos tempos, mas é fundamental para fazer de “O Colecionador” o livro que é. São duas histórias diferentes que mostram Fredericks e Mirandas diferentes. A narrativa dele é toda sobre Miranda. Ela é o objeto. Ela é tudo! A ação demora a comecar, mas ele é tão obcecado e o relato tão intenso, que isso não importa. Já sabemos imediatamente que ele está nos levando para dentro da sua mente e que o terreno não é saudável.
Já a narrativa de Miranda é sobre como ela se sente em cativeiro e, mais ainda, sobre a vida que deixou para trás. É Frederick quem está fazendo isso com ela, mas ele é pequeno diante de todo o resto que existe lá fora. Outra diferença é que o texto de Miranda é imediato, ocorre no tempo presente (afinal, trata-se de um diário), enquanto o de Frederick é um relato de coisas que já aconteceram. A terceira e quarta partes são mais breves e trazem o desfecho da história, também pelos dois pontos de vista.
"O que ela nunca entendeu foi que aquilo me bastava. Tê-la comigo era o suficiente. Nada precisava ser feito. Só queria que fosse minha, e a salvo, finalmente." (FOWLES, 2018, p. 122)
Tanto em um relato quanto em outro, percebemos que a situação é um duelo. Quem irá vencer? Miranda é atrevida e claramente mais inteligente que seu captor, mas é Frederick quem tem todas as vantagens. Sua fraqueza, porém, é a própria Miranda. Sim, ele a sequestrou. Sim, ele a mantém em cativeiro, mas em sua mente doentia ele não está dando razões para ela sofrer. Pelo contrário. Decorou a casa pensando nos gostos dela, comprou os livros que ela gosta, as roupas nas cores e estilo que ela usa. Tudo para que ela seja feliz e se sinta bem como sua hóspede. Ele está disposto a fazer tudo por ela e só o que quer é que ela o conheça, porque ele a ama. Em sua mente doentia, ela está sendo ingrata ao reagir contra suas ações.
Algo que me surpreendeu é que Frederick não é violento da maneira convencional. Ele não maltrata Miranda, física ou verbalmente. Não há perversidade em sua mente. Ele não fica excitado com o sofrimento dela, não a estupra, não faz nada do que se imagina que ele iria fazer. Isso é um dos aspectos mais perturbadores em “O Colecionador” porque ele não quer nada dela. Ele só quer ela. Tanto que não pensa nela como sua vítima e sim como sua hóspede. Ele não está a mantendo em cativeiro e sim a recebendo para uma estadia. Dessa forma, não há nada que Miranda possa fazer que lhe garanta a liberdade. Ela não pode dar a Frederick o que ele quer porque esse algo não existe. O que ele almeja é tê-la como uma das borboletas que coleciona, mas sabe que isso nunca vai acontecer. É simples e perturbador assim.
O que torna tudo pior é que os dois estão sofrendo, cada um a seu modo. Ela porque foi privada da sua vida. Ele porque foi um esquisitão a vida inteira e a única pessoa que ele ama só quer fugir dele. Sim, Frederick é o vilão, mas ele também é um coitado. Miranda é superior a ele em todos os sentidos, ela só está em desvantagem. Frederick não é perverso. A situação em que ele coloca Miranda é perversa. Ele é apenas louco e sua loucura tem uma fonte: ela. A situação toda é tão deturpada que eu cheguei a sentir pena de Frederick e me culpar por isso. É essa complexidade que torna “O Colecionador” tão interessante: uma situação infeliz para todos os envolvidos.
O que torna tudo pior é que os dois estão sofrendo, cada um a seu modo. Ela porque foi privada da sua vida. Ele porque foi um esquisitão a vida inteira e a única pessoa que ele ama só quer fugir dele. Sim, Frederick é o vilão, mas ele também é um coitado. Miranda é superior a ele em todos os sentidos, ela só está em desvantagem. Frederick não é perverso. A situação em que ele coloca Miranda é perversa. Ele é apenas louco e sua loucura tem uma fonte: ela. A situação toda é tão deturpada que eu cheguei a sentir pena de Frederick e me culpar por isso. É essa complexidade que torna “O Colecionador” tão interessante: uma situação infeliz para todos os envolvidos.
"É porque estou tão sozinha. Preciso olhar para um rosto inteligente. Qualquer um que tenha sido trancafiado desse jeito deve entender. Você se torna real demais para si mesmo de um jeito estranho. Como você nunca foi anteriormente." (FOWLES, 2018, p.262)
Thomas Harris confessa que não teria escrito “O Silêncio dos Inocentes” sem este livro. Stephen King não confessa, mas nem precisa: é clara a influencia de “O Colecionador” em “Misery” (dois personagens trancados em uma casa. Um vítima da obsessão do outro). Aliás, o Mestre do Terror assina o prefácio desta que é uma das edições mais bonitas já lançadas pela Darkside Books, analisando o impacto do livro na época de sua publicação, em 1963, e o quanto o leitor enriquece a sua experiência ao fazer uma segunda leitura da obra.
O desfecho da história de Frederick e Miranda é bastante verossímil. Embora eu confesse que esperava algo mais (e que até previ que era isso que me aguardava no final), também fiquei feliz com a abordagem do autor. Um livro que parte de uma situação intensa, mas a coloca em segundo plano, já que os holofotes estão o tempo todo apontados para o personagens. Simples em acontecimentos, complexo e perturbador em todo o resto.
Autor: John Fowles
N° de páginas: 256
Editora: Darkside Books
Exemplar cedido pela editora
Compre: Amazon
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