sábado, 30 de junho de 2018

Definindo Literatura LGBT

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

literatura lgbt
Em junho comemoramos o Mês do Orgulho LGBT e, aproveitando a ocasião, comecei a refletir sobre o conceito de “literatura LGBT”. E quanto mais pensava no assunto, mais difícil me parecia encontrar uma definição.

Poderíamos dizer que a literatura LGBT é aquela produzida por membros dessa comunidade? A meu ver, tal definição é extremamente restritiva. É claro que autores LGBT certamente terão maior autoridade e facilidade para abordar temas referentes a este universo. Entretanto, não creio que seja necessário ser membro da comunidade para escrever sobre ela. Primeiro, porque (bons) autores fazem pesquisas extensas e contam com material de apoio para escreverem com propriedade; segundo, porque se levarmos esse raciocínio para outros campos um escritor homem jamais poderia escrever sobre mulheres ou crianças, por exemplo. Além disso, escrever ficção é um exercício de imaginação e se apenas pudéssemos escrever sobre aquilo que conhecemos pessoalmente, gêneros como a fantasia e a ficção científica sequer existiriam. 

Então, será que a literatura LGBT é aquela que conta com personagens da comunidade? Mais uma vez, creio que a resposta seja não. Evidentemente, livros com personagens LGBT favorecem o diálogo sobre as questões referentes a esta comunidade. Porém, tenho visto com frequência cada vez maior livros que contam com personagens LGBT rasos e mal construídos, que parecem terem sido escalados apenas para preencherem uma cota. A verdade é que um obra não pode ser considerada literatura LGBT apenas por contar com personagens LGBT, assim como um protagonista doente não é motivo suficiente para classificarmos o livro como sicklitÉ preciso ir além dos personagens, seja o gênero que for. 

A meu ver, o aspecto mais importante para conceituarmos a literatura LGBT é a temática que ela se propõe a abordar. São livros que geralmente discutem assuntos como identidade, descobrimento, preconceito, aceitação, empoderamento, entre outros. Entretanto, até mesmo esse critério me parece impróprioCreio que a resposta mais completa é que a literatura LGBT é aquela que reproduz a vida real, com todos os seus sabores e temperos, com toda a sua complexidade. Que mostra as alegrias e as dores, as dificuldades e as superações, os dramas e as vitórias não apenas como pessoas LGBTs, mas como seres humanos. Ou seja, uma literatura que retrata vidas completas, e não apenas limitadas no que diz respeito a orientação sexual ou ao gênero.

Tenho esperança que, futuramente, sair do armário seja algo ultrapassado e que o preconceito contra a comunidade LGBT faça parte do passado. Tenho esperança que não fará diferença nenhuma para o leitor, ou para o mercado editorial, se o autor ou se os personagens são LGBTs. Tenho esperança que a literatura LGBT não precise abordar temas que hoje são repetidamente discutidos, porque não haverá necessidade de falar sobre eles. Tenho esperança que nem mesmo seja necessário conceituar o que é literatura LGBT. 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

RESENHA: A Sede

A Sede / Jo Nesbø / Harry Hole
No décimo primeiro livro da série Harry Hole, o lendário detetive está de volta em mais um acerto de Jo Nesbø.

Um assassino que mata suas vítimas com mordidas de uma dentadura de ferro e bebe seu sangue, dando um novo sentido a expressão "sede de sangue". Um criminoso tão sem precedentes que obriga a polícia de Oslo a chamar Harry Hole para ajudar nas investigações, colocando de novo em seu caminho o único criminoso que escapou de suas mãos há anos.

Já falei muito aqui sobre como gosto de Harry Hole. Tendo lido todos os livros da série, com exceção do segundo, acompanhei a jornada do inspetor em seus tempos mais sombrios e também mais leves (aspas generosas em “leves”) e há alguns livros acredito que esta jornada esteja se aproximando do fim. Isso não tem a ver com a qualidade das tramas e sim com a história do próprio personagem que sempre foi um protagonista para a série mais do que apenas um investigador de casos policiais.

Neste livro vemos um Harry casado com a mulher que ama, sendo um pai para o menino que ele viu crescer e que hoje, homem adulto, escolhe seguir seus passos na polícia. Vemos Harry direcionar seus talentos para o ensino, se tornando professor da academia de polícia, ao invés de portar seu distintivo. Mas também vemos Harry continuar sendo Harry, atormentado por seus demônios que sempre estarão ali, não importa o que aconteça. Ainda assim, como é bom vê-lo tendo um porto seguro para voltar ao final do dia. Como é bom poder ve-lo encontrar com Rakel uma forma de serem felizes, nem que seja entre brechas de escuridão.

“É claro que perdemos todas as pessoas a quem tentamos nos agarrar, o destino faz pouco-caso de nós, nos torna pequenos, patéticos. Quando choramos pelas pessoas que perdemos não é por compaixão, porque é claro que sabemos que elas finalmente estão livres da dor. Mas ainda assim choramos. Choramos porque estamos sozinhos outra vez. Choramos por sentirmos pena de nós mesmos.” (NESBØ, 2018, p. 370)

Outra coisa que gosto na série é que, aos poucos, alguns personagens se despedem e outros surgem para ocupar lugares de destaque. É o caso, por exemplo de Trulls Berntsen (e seu eterno complexo de inferioridade e paixão impossível por Ulla Bellman), da inspetora Katrine (que agora lidera a equipe de investigação) e de Michael Bellman (o ambicioso e desprezível chefe de polícia contra quem qualquer leitor vai gostar de torcer). Todos rendem subtramas envolventes e isso acorre porque, ao criar um personagem consistente como Harry Hole, Nesbø fez dele um terreno fértil para que outros pudessem se desenvolver ao seu redor.

Quanto ao caso em si, confesso que o autor soube me conduzir direitinho, de forma que não previ a surpresa que ele guardava para o final. Os crimes, como sempre, são grotescos e Nesbø não tem medo de criar imagens fortes na mente do leitor. A condução da trama acelera o ritmo com o avançar dos capítulos, enredando cada vez mais os personagens, até colocá-los todos em um mesmo lugar para um desfecho doentio.

Três anos após os eventos de “Polícia, a trama de “A Sede” usa o cliffhager deixado pelo livro anterior para trazer de volta o vilão Valentin Gjertsen, algo que Nesbø parece planejar fazer novamente com Svein Finne, “o noivo”. Apesar disso, as tramas dos livros são independentes e podem ser lidas fora de ordem.

“A Sede” é a décima primeira trama de uma série que não mostra sinais de cansaço. Mais uma vez, Jo Nesbø entrega uma trama bem amarrada, inteligente e capaz de surpreender o leitor.

Título: A Sede
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 531
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 26 de junho de 2018

RESENHA: Justiça Ancilar

justiça ancilar ann leckie
A Justiça de Toren era uma nave comandada por uma complexa inteligência artificial, que controlava inúmeros corpos humanos para servir aos propósitos do Império Radch. Mas a nave se vê presa em um intricando jogo político e acaba sendo destruída, restando-lhe apenas um fragmento: Breq. Sozinha, ela passa os anos tramando a sua vingança contra o império, até chegar a hora de colocar o plano em ação. 

A narrativa, feita em primeira pessoa, divide-se em duas linhas temporais: o passado, mostrando os eventos que culminaram com a destruição da Justiça de Toren; e o presente, onde vemos Breq perseguindo sua vingança. A meu ver, a estória ganhou folego quando ambas as linhas temporais se encontram, de forma que entendemos como as peças do quebra-cabeça se encaixam. 

A estória é absurdamente original. Contamos com uma protagonista que é uma inteligência artificial, extremamente evoluída e, curiosamente, humana. Além disso, vemos que a autora soube aproveitar as oportunidades que essa premissa oferecia, explorando-a de forma muito criativa. 

Outro fator que chama atenção é a relação linguística com os aspectos de gênero. No Império Radch e em seu idioma, os pronomes não têm distinção de gênero, pois tal diferenciação não é relevante para seu povo. A autora utilizou o pronome “ela” como uma convenção de tradução do idioma radchaai e confesso, que inicialmente, senti um certo estranhamento. Entretanto, com o avançar da estória, fica nítido como a diferenciação de gêneros é irrelevante para o desenvolver da trama. 

“Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.” (LECKIE, 2018, p. 143)

Entretanto, preciso reconhecer que achei o livro confuso. Creio que um dos maiores erros que um autor de fantasia e ficção-científica pode cometer é despejar informações do universo da estória sobre o leitor. E, infelizmente, foi essa a impressão que tive durante boa parte da leitura de Justiça Ancilar. O problema é que o universo da obra é extremamente complexo e as informações dadas não eram de fácil assimilação, de modo que a sensação de estar um pouco perdido me acompanhou durante boa parte da leitura. 

Por isso mesmo, minha experiência de leitura acabou sendo um pouco arrastada e monótona, sendo que não consegui me conectar com os personagens, nem me envolver com a estória, o que atribuo principalmente a essa tonelada de informações que recebi sem compreender totalmente. Foi apenas na reta final do livro que meu interesse pela estória aumentou e que fiquei realmente intrigado para ver o desenrolar dos eventos. 

No fim das contas, fiquei com a sensação de que a autora partiu de uma premissa incrível e extremamente original, mas que pecou no desenvolvimento da estória. Apesar das minhas ressalvas, ressalto que Justiça Ancilar ganhou os principais prêmios da ficção científica e talvez agrade aqueles que já são fãs do gênero. 

Justiça Ancilar é o primeiro livro da trilogia Império Radch. 

Título: Justiça Ancilar
Autora: Ann Leckie
N.º de páginas: 381
Editora: Aleph
Exempar cedido pela editora

Compre: Amazon
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quinta-feira, 21 de junho de 2018

A diferença entre um bom livro e uma boa leitura

Tenho um hábito que provavelmente muitos bookholics compartilham comigo: anoto em um caderninho os livros que leio. Minha lista é simples: coloco o título do livro e o dia que iniciei. Ao finalizar, registro a data, contabilizo os dias que levei para concluir a leitura e, se for o caso, faço um sinal de destaque que indica que o livro será levado em consideração no momento de montar o post “Retrospectiva Literária”, no qual elegemos as melhores leituras do ano. Porém, às vezes, mesmo o livro merecendo destaque, sei de antemão que ele não será considerado para o post porque mesmo sendo uma ótima leitura, não é um livro que irá me marcar.

Recentemente isso aconteceu com “Depois da Queda”, um livro envolvente e eletrizante, cujas páginas não senti passarem e para o qual eu tinha muita expectativa, afinal se tratava do mais recente livro de um dos meus autores favoritos. “Depois da Queda” foi uma ótima leitura, sim. Mas está longe de ser um ótimo livro como “Sobre Meninos e Lobos” (também do autor) que, por sua vez, é mais lento e pesado. Um livro que levei mais tempo para terminar e que sentia necessidade de parar de quando em quando. Mas um livro que, mesmo três anos após a leitura, ainda trago a história comigo. Ainda lembro dos personagens, seus dramas e suas tragédias. Lembro do meu sentimento durante e ao concluir a leitura. Três anos depois, a história permanece comigo. Claro, são histórias diferentes e o impacto de cada uma é diferente, mas isso me fez pensar.

Quantas vezes devorei livros e na hora de resenhá-los sentia que não tinha nada para falar sobre eles? Ou o oposto, quando o livro se revelou ainda melhor no momento em que parei para esmiuçá-lo a fim de escrever sobre ele? Isso aconteceu recentemente com “O Colecionador”. Durante a leitura eu estava gostando do livro, mas foi ao resenhá-lo que vi o quanto era brilhante. Quanto mais eu pensava sobre os personagens e sobre a situação que vivem, mais via o quão perturbadora e complexa era a trama. Após a resenha, eu ainda continuei resenhando o livro na minha cabeça porque a análise não havia terminado, embora eu não pudesse colocar mais nada no papel porque algumas coisas seriam spoilers e meu texto já havia se estendido bastante. “É o melhor livro do ano até agora!”, pensei. “Mas é engraçado que eu não tenha sentido isso durante a leitura”. Parece contraditório, mas, pensando bem, não é, porque nem sempre uma excelente leitura é sinônimo de um excelente livro, da mesma forma que nem sempre os melhores livros nos dão as mais prazerosas leituras.

Isso é algum problema? Isso torna uma coisa melhor do que a outra? Isso torna uma coisa excludente da outra? Claro que não. Há livros difíceis de engolir que ao final se revelam geniais e há livros dos quais não conseguimos nos separar, mas que acabam sendo vazios. Há momentos em que precisamos de um tipo e há momentos em que precisamos de outro. Não é questão de ser melhor ou ser pior. É apenas questão de ser diferente. É questão de escolher o livro certo para o momento certo e aproveitar tudo o que ele pode oferecer. Seja por poucos dias, seja para a vida inteira.


quarta-feira, 20 de junho de 2018

RESENHA: Dias de Despedida

dias de despedida jeff zentner
Em Dias de Despedida conhecemos Carver, que perdeu seus três melhores amigos em um acidente de trânsito. Além do luto, ele também precisa lidar com a culpa: afinal, se não tivesse enviado uma mensagem de texto, talvez seus amigos ainda estivessem vivos. E para completar, ainda é possível que ele seja alvo de uma investigação criminal. 

Dias de Despedida é narrado em primeira pessoa por Carver, o que coloca o leitor em contato direto com os medos e aflições do protagonista. Apesar da narrativa ser fluida, a temática abordada pelo autor é pesada, de modo que em alguns momentos a leitura se torna mais densa. 

Carver é um ótimo personagem, a quem o leitor rapidamente se apega, sendo que conseguimos entender suas motivações e atitudes desde a primeira página. Entretanto, o mesmo não pode ser dito sobre os amigos de Carver. Por boa parte da estória, tive a sensação de que os amigos que morreram no acidente eram apenas nomes, e não personagens palpáveis. Apenas da metade para o final que me pareceu que eles ganharam contornos mais definidos. 

O livro conta com diversos flashbacks, mostrando eventos na vida dos quatro amigos antes do acidente. E admito que por diversas vezes fiquei com a impressão de que estas cenas soaram um tanto artificiais, além de não me parecerem muito significativas para o desenvolvimento da trama

“— Nossa mente busca causa e efeito porque isso sugere uma ordem no universo que talvez não exista, mesmo se você acreditar em algum poder superior. Muita gente prefere aceitar uma parcela indevida da culpa por alguma tragédia do que aceitar que não existe ordem nas coisas. O caos é assustador. É assustadora uma existência inconstante em que coisas ruins acontecem a pessoas boas sem nenhum motivo lógico.” (ZENTNER, 2017, p. 229)

Outro aspecto que não gostei foi a questão judicial. Carver acaba sendo investigado por que, supostamente, sua mensagem teria causado o acidente. Para quem não sabe, atuei por alguns anos como advogado criminalista e nunca vi uma tese jurídica mais estapafúrdia do que essa. É claro que há diferenças enormes entre o direito brasileiro e o americano, mas ainda assim achei que o autor forçou a barra neste aspecto. 

A meu ver, o ápice do livro é a própria jornada de Carver. Uma perda como esta é insuperável e o que o autor faz muito bem é mostrar que a vida pode seguir em frente, mesmo que este vazio criado pela ausência sempre esteja presente. Assim, vemos como o protagonista se apoia na família, nas amizades e inclusive na terapia para enfrentar a dor. 

Dias de Despedidas foi uma boa experiência de leitura, que abordou temas pesados com sensibilidade, e que provocou ótimas reflexões. Entretanto, confesso que estava esperando por um livro mais impactante e emocionante.

Título: Dias de Despedida
Autor: Jeff Zentner
N.º de páginas: 385
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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segunda-feira, 18 de junho de 2018

PROMOÇÃO: Encarcerados


Em parceria com a Editora Aleph, vamos sortear um exemplar de "Encarcerados", uma mistura incrível de ficção científica e policial. Vai ficar de fora dessa? E não deixe de conferir a resenha do livro clicando aqui

Regulamento:

A promoção terá início no dia 18 de junho e término no dia 09 de julho.
Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebook e ter um endereço de entrega no Brasil.

As demais entradas são opcionais

Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog e a editora no twitter. 

O resultado será divulgado no blog e nas redes sociais até três dias após o encerramento da promoção, sendo que o sorteado será contatado por e-mail, tendo o prazo de 48 horas para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. 

Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

O vencedor ganhará um exemplar do livro "Encarcerados", de John Scalzi.

O livro será enviado pelo blog, no prazo de 30 dias úteis. 

A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.


a Rafflecopter giveaway

sexta-feira, 15 de junho de 2018

RESENHA: Tempo é Dinheiro

Tempo é Dinheiro / Lionel Shriver
Com “Tempo é DinheiroLionel Shriver entrou definitivamente para o rol de autores em que confio dispensando sinopses.

Shepard sempre economizou para “a outra vida”. Sempre sonhou em, um dia, deixar tudo para trás e ir viver em um lugar idílico. Por isso, suas viagens de férias com a família nunca foram chamadas de férias e sim de “pesquisa de campo”, afinal, era preciso estudar os territórios para descobrir em qual recomeçar a vida. Até que um dia Shepard toma a coragem necessária. Compra as passagens (para ele, a esposa Glynis e o filho adolescente), coloca a mala em cima da cama e começa a pensar no que irá levar. Quando a esposa chegar em casa naquela noite, ele irá confrontá-la com a notícia, mas eis que Glynis também chega com notícias: ela está com câncer terminal.

Shriver é o tipo de autora que não cria tramas e sim personagens. É por isso que nas suas mãos qualquer premissa funciona e a de “Tempo é Dinheiro” é um prato cheio para deixar a humanidade de cada personagem transbordar.

É por isso também que mesmo o livro girando em torno da terrível doença e da deterioração de Glynis, ele não seja sobre a doença ou sobre sua possível cura e sim sobre o que ela faz com o relacionamento do casal, como muda a dinâmica entre marido e mulher, os aproximando e os afastando ao mesmo tempo. É sobre como as pessoas da vida de Glynis (seus filhos, amigos, parentes e vizinhos) passam a vê-la, como lidam eles mesmos com a doença. Por isso, “Tempo é Dinheiro” não é um livro sobre uma mulher com câncer, mesmo sendo protagonizado por uma. É um livro sobre relacionamentos.

Além de Glynis, Shriver também coloca em cena os melhores amigos do casal lidando com uma doença raríssima que acomete sua filha adolescente e ainda com as consequências de uma cirurgia. Como se não bastasse, completa o time o pai de Shepard que, já idoso, passa a necessitar de cuidados específicos. E aí você pode pensar: “Mas isso é forçar muita doença junta” e eu estaria inclinada a concordar caso Shriver não fosse hábil a ponto de deixar que as angústias dos personagens fossem maiores do que os acontecimentos que os cercam.

“Para a sua vergonha, estar na cama sozinho foi um alívio. A simplicidade, a vastidão sem exigência dos lençóis vazios. Não se apercebera da tensão de um outro corpo ao lado do seu, apodrecendo um pouco mais a cada minuto, de dentro para fora. Da energia que a impossibilidade de protegê-la drenava dele. Ninguém imaginaria que uma coisa que não se podia fazer e não se vinha fazendo pudesse tirar alguma energia, mas tirava.” (SHRIVER, 2012, p. 148)

Também não vem ao caso gostarmos ou desgostarmos desses personagens. Eles são humanos demais para que nos sintamos da mesma forma o livro todo. Eles erram uns com os outros, se arrependem, são injustiçados e assim seguem. Ao final, é impossível não se sentir comovido com o que acontece a todos.

Outro toque genial de Shriver é iniciar alguns capítulos com o saldo bancário de Shepard, de forma que podemos ver o quanto a doença de Glynis o está sugando em todos os sentidos. Vemos o tempo que passou, o dinheiro que se foi, o quanto “a outra vida” era uma ilusão e o quão triste é que, na verdade, ele tenha deixado de fazer tantas coisas que queria fazer, que tenha economizado tanto em cada oportunidade, apenas para que o dinheiro fosse aproveitado dessa maneira. Sem hipocrisia ou insensibilidade, Shriver aborda a importância do dinheiro em uma situação como essa e o fato de que Shepard e o filho precisarão de meios para continuar vivendo quando Glynis se for.

A autora também nos leva a pensar sobre as apostas que fazemos todos os dias, contando que o futuro nos reserva isso ou aquilo quando, na verdade (e o clichê é inevitável), tudo é incerto. É assim que o “tempo” do título também se justifica. Não temos todo o tempo do mundo. Temos algum tempo e algumas chances de fazer o que queremos. Muito ficará para trás. Muito ficará apenas no plano dos sonhos. É preciso escolher e agir.

Fiz com “Tempo é Dinheiro” algo que nunca faço: interrompi a leitura na metade para aproveitar um feriadão e mergulhar em um livro que há meses ansiava em ler. A razão pela qual nunca faço isso é que perco a conexão com a história e com os personagens, mas nesse caso, Shepard, Glynis e aqueles que os cercam são tão verdadeiros que senti que podia me afastar e quando retomei a história não senti que havia perdido nada. Nem parecia que eu tinha interrompido a leitura.

Longe de ser um livro ágil, “Tempo é Dinheiro” obriga o leitor a passar com sua protagonista por todo o processo do tratamento. Não é bonito, mas não queremos nos afastar. Uma trama trágica, comovente e, sobretudo, humana na qual Lionel Shriver aborda o que fazemos com o dinheiro, o que fazemos do nosso tempo, como construímos (ou destruímos) as nossas relações. Como vivemos as nossas vidas enquanto a morte, inevitavelmente, não chega.

Título: Tempo é dinheiro
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 462
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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