Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura.
Poderíamos dizer que a literatura LGBT é aquela produzida por membros dessa comunidade? A meu ver, tal definição é extremamente restritiva. É claro que autores LGBT certamente terão maior autoridade e facilidade para abordar temas referentes a este universo. Entretanto, não creio que seja necessário ser membro da comunidade para escrever sobre ela. Primeiro, porque (bons) autores fazem pesquisas extensas e contam com material de apoio para escreverem com propriedade; segundo, porque se levarmos esse raciocínio para outros campos um escritor homem jamais poderia escrever sobre mulheres ou crianças, por exemplo. Além disso, escrever ficção é um exercício de imaginação e se apenas pudéssemos escrever sobre aquilo que conhecemos pessoalmente, gêneros como a fantasia e a ficção científica sequer existiriam.
Então, será que a literatura LGBT é aquela que conta com personagens da comunidade? Mais uma vez, creio que a resposta seja não. Evidentemente, livros com personagens LGBT favorecem o diálogo sobre as questões referentes a esta comunidade. Porém, tenho visto com frequência cada vez maior livros que contam com personagens LGBT rasos e mal construídos, que parecem terem sido escalados apenas para preencherem uma cota. A verdade é que um obra não pode ser considerada literatura LGBT apenas por contar com personagens LGBT, assim como um protagonista doente não é motivo suficiente para classificarmos o livro como sicklit. É preciso ir além dos personagens, seja o gênero que for.
A meu ver, o aspecto mais importante para conceituarmos a literatura LGBT é a temática que ela se propõe a abordar. São livros que geralmente discutem assuntos como identidade, descobrimento, preconceito, aceitação, empoderamento, entre outros. Entretanto, até mesmo esse critério me parece impróprio. Creio que a resposta mais completa é que a literatura LGBT é aquela que reproduz a vida real, com todos os seus sabores e temperos, com toda a sua complexidade. Que mostra as alegrias e as dores, as dificuldades e as superações, os dramas e as vitórias não apenas como pessoas LGBTs, mas como seres humanos. Ou seja, uma literatura que retrata vidas completas, e não apenas limitadas no que diz respeito a orientação sexual ou ao gênero.
Tenho esperança que, futuramente, sair do armário seja algo ultrapassado e que o preconceito contra a comunidade LGBT faça parte do passado. Tenho esperança que não fará diferença nenhuma para o leitor, ou para o mercado editorial, se o autor ou se os personagens são LGBTs. Tenho esperança que a literatura LGBT não precise abordar temas que hoje são repetidamente discutidos, porque não haverá necessidade de falar sobre eles. Tenho esperança que nem mesmo seja necessário conceituar o que é literatura LGBT.
Tenho esperança que, futuramente, sair do armário seja algo ultrapassado e que o preconceito contra a comunidade LGBT faça parte do passado. Tenho esperança que não fará diferença nenhuma para o leitor, ou para o mercado editorial, se o autor ou se os personagens são LGBTs. Tenho esperança que a literatura LGBT não precise abordar temas que hoje são repetidamente discutidos, porque não haverá necessidade de falar sobre eles. Tenho esperança que nem mesmo seja necessário conceituar o que é literatura LGBT.










