Há anos tinha curiosidade de ler algum livro de John Irving, mas apenas criei vergonha na cara quando vi que John Boyne — um dos meus autores favoritos da atualidade — não apenas havia dedicado o incrível As Fúrias Invisíveis do Coração para Irving como também citava o autor e O Mundo Segundo Garp por diversas vezes durante a obra. Com o aval de Boyne, mal podia esperar para conhecer a estória de Garp.
Garp é o filho bastardo de Jenny Fields, uma enfermeira que sempre desejou ter um filho, mas que nunca teve a intenção de se envolver com um homem. Anos depois ela escreve sua autobiografia e acaba se tornando uma líder feminista. Garp, que desde sua adolescência desejava ser escritor, vê sua carreira literária ser ofuscada pelo best-seller da mãe.
A primeira observação que sou obrigado a fazer é que a sinopse que você leu no parágrafo acima é bastante simplória, sendo que a complexidade da trama e o medo de dar spoilers me impedem de ir além. O Mundo Segundo Garp é típico livro que segue a jornada de um personagem, mas Irving fez isso de forma bastante inovadora. Primeiro, conhecemos a vida de Jenny e sua família, entendemos sua visão de mundo e as circunstâncias da concepção de Garp. Em seguida, vemos o crescimento e amadurecimento do menino criado por uma mãe “excêntrica”. Por fim, vemos Garp formando sua própria família, desenvolvendo o papel de marido, pai e escritor.
Assim, como o livro cobre um longo período de tempo, é natural que haja uma sucessão de personagens, que terão sua importância em momentos específicos da trama. Creio que o fator que mais me chamou atenção nesse ponto é como tudo parece muito orgânico e natural, como a aproximação dessas pessoas com Garp é verossímil e parece retratar a vida real. Mas creio que esse grande número de coadjuvantes teve um efeito colateral: a trama se tornou um pouco pulverizada e com muitas estórias paralelas (apesar de que, verdade seja dita, todas elas se concatenavam com a estória do protagonista).
“— A tolerância para com os intolerantes é uma tarefa difícil que os tempos que correm exigem de nós – dizia Helen.” (IRVING, 2013, p. 531)
O Mundo Segundo Garp foi publicado pela primeira vez em 1978 e continua surpreendentemente atual. Na verdade, creio que no momento de sua publicação o livro deve ter sido considerado como muito à frente de seu tempo, pois abordava assuntos polêmicos como adultério, feminismo, transexualidade, entre outros. E, a meu ver, o autor fez um excelente trabalho ao mostrar nossas intolerâncias e preconceitos.
O texto de Irving é envolvente e ele consegue despertar a curiosidade do leitor a todo instante com sua forma peculiar de storytelling. Aliás, creio que a melhor definição para O Mundo Segundo Garp seria a de uma estória improvável escrita de uma forma inventiva. Entretanto, confesso que em alguns momentos o autor se tornava detalhista demais, especialmente com eventos que eram de pouca importância para o desenvolvimento da trama.
Encerrei a leitura sem saber exatamente quais haviam sido minhas impressões. Vi um texto muito bom, apesar de alguns excessos descritivos; personagens construídos com esmero; uma trama extremamente original e criativa; além de despertar diversas reflexões. Porém, ao mesmo tempo senti que faltou um algo a mais, talvez uma conexão maior com o protagonista, algo que me fizesse importar mais com sua jornada de vida. Assim, apesar de todas as suas qualidades, O Mundo Segundo Garp não me impactou como eu esperava.
Autor: John Irving
N.º de páginas: 607
Editora: Rocco
Exemplar cedido pela editora
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