Todo mundo conhece, pelo menos de nome, a grande Dama do Crime: Agatha Christie. Em número de vendas, a autora é superada apenas pela Bíblia e por Shakespeare, tendo vendido mais de quatro bilhões de exemplares ao redor do mundo. Christie escreveu obras-primas do gênero policial, como “E não sobrou nenhum” e “O Assassinato de Roger Ackroyd”, porém, o que nem todo mundo sabe é que a autora explorou outros gêneros escrevendo sob o pseudônimo de Mary Westmacott.
Joan Scudamore sempre se considerou uma pessoa bem sucedida, com uma família exemplar e um casamento feliz. Após visitar a filha em Bágda, Joan fica presa em uma pousada no meio do deserto em virtude de um atraso do trem que a levaria de volta para casa. Sozinha e sem atividades com as quais se ocupar, Joan começa a refletir sobre a própria vida e sobre os relacionamentos com seus filhos e marido.
Ausência na Primavera parte de uma premissa simples: uma mulher orgulhosa, que vive de aparências, que vê a sua família sob uma luz romantizada sendo confrontada por suas lembranças. Porém, não se engane: apesar desta trama simples, Agatha Christie vai a fundo na psique da protagonista, mostrando ser uma profunda conhecedora das complexidades da alma humana.
O mais interessante é que, de certo modo, a protagonista sempre soube os problemas e desafios que sua família enfrentou e ainda enfrenta. Entretanto, é somente quando se vê neste ambiente desolador, sendo assombrada por pensamentos que não consegue evitar, é que a personagem começa a aceitar que sua vida não passava de uma fachada.
“Pensamentos aparecendo na mente... pensamentos aterrorizantes, pensamentos perturbadores. Pensamentos que não se queria ter. Mas, se era assim, por que tê-los? Afinal de contas, podem-se controlar os próprios pensamentos, ou não? Seria possível que, em algumas circunstâncias, os pensamentos de alguém o controlassem?” (CHRISTIE, 2017, p. 93).
A narrativa é fluida e mesmo que não haja muitos eventos e que boa parte do livro se resuma a flashbacks, fiquei impressionado como Christie consegue envolver o leitor com a estória. Outro fator que deve ser destacado é o clima de tensão crescente, que fica mais palpável a cada capítulo. De certa forma, sentimos a mesma sensação de sufocamento da protagonista, que não consegue lidar com a verdade expressa nas lembranças que lhe assombram.
E falando na protagonista, é impressionante como Ausência na Primavera prende o leitor mesmo contando com uma personagem que não é carismática. De alguma forma, Christie consegue atiçar e manter o interesse na estória, mesmo que não haja um personagem com quem o leitor desenvolva uma conexão maior.
A única palavra que tenho para descrever Ausência na Primavera é brilhante. Há muito tempo não lia um livro com personagens tão bem construídos, que explorasse de forma tão sutil e precisa as emoções e contradições humanas. Ausência na Primavera é um dos livros preferidos da autora e confesso que se tornou um dos meus preferidos também.
Para conhecer mais sobre a autora, não deixe de conferir o especial A Essência de Agatha Christie, uma série de pequenos vídeos com Mathew Prichard, neto da autora. E se você se interessou por Ausência na Primavera, aconselho assistir ao episódio dedicado a Mary Westmacott.
Autora: Agatha Christie
N.º de páginas: 213
Editora: L&PM
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