Um misto de drama familiar e mistério foi a promessa que me atraiu no livro de estreia de Nathan Hill. E que estreia!
Samuel Anderson é um professor universitário que passa a maior parte dos seus dias em uma realidade virtual de ladrões, ogros e dragões jogando com companheiros que conhece apenas por codinome. Anos antes, ele era um promissor escritor, com um contrato assinado para a publicação de um livro que ele nunca escreveu. Agora, em vias de ser processado pela editora e na esperança de escrever a obra que o salvará, ele embarca em uma jornada para entender Faye, a mulher que a mídia apelidou de “Terror do Governador”, após ela ter jogado pedras no candidato em meio a um comício. Porém, para Samuel, a mulher (cujo passado desencavado pela mídia inclui acusações de prostituição e de participação em movimentos revolucionários na década de 60) é especialmente assustadora, pois é a mãe que o abandonou quando ainda era criança e nunca mais deu notícias.
“Como é que eu vou resenhar esse livro?” Essa é a pergunta que eu venho me fazendo desde que estava na página 100 de “Nix”. 565 se passaram e eu continuo sem a menor ideia de como cumprir a missão.
Sobre o que é “Nix”? Difícil dizer. A trama tem um fio condutor que não conduz a história, ao contrário, abre pontas e mais pontas, nos fazendo parar em mirantes no caminho, ao invés de concluir a jornada. Isso seria péssimo caso Nathan Hill não tivesse um domínio absurdo da história e não soubesse extrair de seus personagens absolutamente tudo que eles têm a oferecer. E quando eu digo personagens, não me refiro apenas a Samuel e Faye, os dois protagonistas, mas também a todos que cruzam o caminho dos dois. Explicarei melhor adiante.
O livro é divido em dois momentos temporais principais: 2011 (o presente), cujo foco é Samuel adulto, e a década de 60, que foca em Faye jovem. Porém, o autor não se limita a isso e explora também a infância e juventude de Samuel. Até aí, nada de novo. O que torna “Nix” um livro único é que Hill mergulha em todo e qualquer episódio sem medo de afastar o leitor do que seria a trama principal. Temos Samuel jovem, mas temos também Bishop, o menino que é seu melhor amigo, e Bethany, a irmã deste por quem Samuel se apaixona. Sim, a história é de Samuel e de sua mãe, mas isso não impede o autor de colocá-los de lado para se dedicar por capítulos inteiros a Bishop como se a história fosse dele. Isso é apenas um exemplo que se repete com as colegas de colégio de Faye, com a aluna universitária de Samuel, com seu colega de jogos virtuais e assim por diante. Todos coadjuvantes, mas protagonistas de suas próprias histórias. É por isso que digo que “Nix” é um livro para ser lido do jeito certo, pois se você ler para descobrir o que acontece entre Samuel e sua mãe, você vai achar enrolado e provavelmente desistirá no caminho. Mas se estiver disposto a entender toda a história de vida desses dois (que muito tem das histórias de vida daqueles que os cercam), então o achará fascinante.
“O que chamamos de esquecimento não é esquecimento de verdade (...) Nunca esquecemos as coisas de fato. Apenas perdemos o caminho de volta até elas.” (HILL, 2018, p. 191)
Com essa abordagem, o autor desenvolve uma narrativa que busca mostrar cada segundo de cada momento, mas sem tornar enfadonho. As cenas se espicham, são escritas em detalhes, mas parecem saídas do roteiro de um filme de tão fáceis que são de se enxergar. Hill se aprofunda tanto que alguns episódios parecem contos dentro do livro, de forma que você termina um capítulo e pensa: “Passaram só 15 páginas? Mas eu li tanta coisa! Como ele pode ter escrito tanto em tão pouco?” Sim, “Nix” demora a avançar em números, mas isso não incomoda porque em nenhum momento nos sentimos enrolados. Pelo contrário. O autor nos envolve tanto que esquecemos que a história tem outros núcleos e quando ele interrompe o que está narrando e pula para outro ponto da história, ficamos angustiados querendo saber a sequência daquilo que foi interrompido.
Não é que muita coisa aconteça, mas é que são muitas histórias e cada uma delas é importante para nos fazer compreender os dois protagonistas. Mais do que o que acontece entre eles, “Nix” é sobre quem eles são e porque tomaram as decisões que tomaram. Ou seja, é um livro sobre grandes personagens mais do que sobre grandes acontecimentos.
O curioso é que Samuel não é exatamente carismático. Um homem adulto que passa a maior parte dos seus dias jogando vídeo-game. Ele está perdido, mas simpatizamos com a sua busca.
Já Faye é extremamente complexa pois com ela partimos de dois extremos: em uma ponta, a mulher que abandonou o filho e cujo vídeo jogando pedras em um político viralizou na internet e, na outra, a menina do interior que tirava as melhores notas no colégio e namorava o rapaz certinho, aprovado pela família. Uma personagem riquíssima que Hill explora para compreendermos quem é em essência e não apenas para entendermos seus atos. Sim, ela foi uma péssima mãe, mas isso não quer dizer que seja uma péssima pessoa.
“Você jamais decidiu que sua vida seria assim – a vida simplesmente ficou desse jeito. Você foi esculpido pelas coisas que lhe aconteceram. Você é como um cânion, que não pode escolher a forma em que o rio vai moldá-lo. Simplesmente permite que as águas o escavem.” (HILL, 2018, p. 343)
Em meio a tudo isso, Hill faz um panorama dos Estados Unidos em tempos de Vietnã, abordando também o papel das mulheres na sociedade da década de 60, a revolução sexual e os protestos, mas também encontra um meio de criticar a era das redes sociais, a obsessão por realidades virtuais e, ainda, a influencia da mídia no que consumimos e acreditamos. Mundos extremamente diferentes que o autor consegue casar com maestria.
Hilário quando menos se espera, pelos comentários mais inusitados, mas também dramático e tocante, envolvente tanto pelos mistérios que deixa pelo caminho quanto pelo drama pessoal que acompanha cada personagem, “Nix” é o mais corajoso livro de estreia que já li. Já seria audacioso e arriscado para um autor experiente, mas para um estreante impressiona pelo domínio, pelo fôlego e pela confiança de Nathan Hill. Um dos melhores livros do ano até o momento.
Autor: Nathan Hill
N° de páginas: 665
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora
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