terça-feira, 28 de agosto de 2018

RESENHA: Nix

Nix / Nathan Hill
Um misto de drama familiar e mistério foi a promessa que me atraiu no livro de estreia de Nathan Hill. E que estreia!

Samuel Anderson é um professor universitário que passa a maior parte dos seus dias em uma realidade virtual de ladrões, ogros e dragões jogando com companheiros que conhece apenas por codinome. Anos antes, ele era um promissor escritor, com um contrato assinado para a publicação de um livro que ele nunca escreveu. Agora, em vias de ser processado pela editora e na esperança de escrever a obra que o salvará, ele embarca em uma jornada para entender Faye, a mulher que a mídia apelidou de “Terror do Governador”, após ela ter jogado pedras no candidato em meio a um comício. Porém, para Samuel, a mulher (cujo passado desencavado pela mídia inclui acusações de prostituição e de participação em movimentos revolucionários na década de 60) é especialmente assustadora, pois é a mãe que o abandonou quando ainda era criança e nunca mais deu notícias.

“Como é que eu vou resenhar esse livro?” Essa é a pergunta que eu venho me fazendo desde que estava na página 100 de “Nix”. 565 se passaram e eu continuo sem a menor ideia de como cumprir a missão.

Sobre o que é “Nix”? Difícil dizer. A trama tem um fio condutor que não conduz a história, ao contrário, abre pontas e mais pontas, nos fazendo parar em mirantes no caminho, ao invés de concluir a jornada. Isso seria péssimo caso Nathan Hill não tivesse um domínio absurdo da história e não soubesse extrair de seus personagens absolutamente tudo que eles têm a oferecer. E quando eu digo personagens, não me refiro apenas a Samuel e Faye, os dois protagonistas, mas também a todos que cruzam o caminho dos dois. Explicarei melhor adiante.

O livro é divido em dois momentos temporais principais: 2011 (o presente), cujo foco é Samuel adulto, e a década de 60, que foca em Faye jovem. Porém, o autor não se limita a isso e explora também a infância e juventude de Samuel. Até aí, nada de novo. O que torna “Nix” um livro único é que Hill mergulha em todo e qualquer episódio sem medo de afastar o leitor do que seria a trama principal. Temos Samuel jovem, mas temos também Bishop, o menino que é seu melhor amigo, e Bethany, a irmã deste por quem Samuel se apaixona. Sim, a história é de Samuel e de sua mãe, mas isso não impede o autor de colocá-los de lado para se dedicar por capítulos inteiros a Bishop como se a história fosse dele. Isso é apenas um exemplo que se repete com as colegas de colégio de Faye, com a aluna universitária de Samuel, com seu colega de jogos virtuais e assim por diante. Todos coadjuvantes, mas protagonistas de suas próprias histórias. É por isso que digo que “Nix” é um livro para ser lido do jeito certo, pois se você ler para descobrir o que acontece entre Samuel e sua mãe, você vai achar enrolado e provavelmente desistirá no caminho. Mas se estiver disposto a entender toda a história de vida desses dois (que muito tem das histórias de vida daqueles que os cercam), então o achará fascinante.

“O que chamamos de esquecimento não é esquecimento de verdade (...) Nunca esquecemos as coisas de fato. Apenas perdemos o caminho de volta até elas.” (HILL, 2018, p. 191)

Com essa abordagem, o autor desenvolve uma narrativa que busca mostrar cada segundo de cada momento, mas sem tornar enfadonho. As cenas se espicham, são escritas em detalhes, mas parecem saídas do roteiro de um filme de tão fáceis que são de se enxergar. Hill se aprofunda tanto que alguns episódios parecem contos dentro do livro, de forma que você termina um capítulo e pensa: “Passaram só 15 páginas? Mas eu li tanta coisa! Como ele pode ter escrito tanto em tão pouco?” Sim, “Nix” demora a avançar em números, mas isso não incomoda porque em nenhum momento nos sentimos enrolados. Pelo contrário. O autor nos envolve tanto que esquecemos que a história tem outros núcleos e quando ele interrompe o que está narrando e pula para outro ponto da história, ficamos angustiados querendo saber a sequência daquilo que foi interrompido.

Não é que muita coisa aconteça, mas é que são muitas histórias e cada uma delas é importante para nos fazer compreender os dois protagonistas. Mais do que o que acontece entre eles, “Nix” é sobre quem eles são e porque tomaram as decisões que tomaram. Ou seja, é um livro sobre grandes personagens mais do que sobre grandes acontecimentos.

O curioso é que Samuel não é exatamente carismático. Um homem adulto que passa a maior parte dos seus dias jogando vídeo-game. Ele está perdido, mas simpatizamos com a sua busca.

Já Faye é extremamente complexa pois com ela partimos de dois extremos: em uma ponta, a mulher que abandonou o filho e cujo vídeo jogando pedras em um político viralizou na internet e, na outra, a menina do interior que tirava as melhores notas no colégio e namorava o rapaz certinho, aprovado pela família. Uma personagem riquíssima que Hill explora para compreendermos quem é em essência e não apenas para entendermos seus atos. Sim, ela foi uma péssima mãe, mas isso não quer dizer que seja uma péssima pessoa.

“Você jamais decidiu que sua vida seria assim – a vida simplesmente ficou desse jeito. Você foi esculpido pelas coisas que lhe aconteceram. Você é como um cânion, que não pode escolher a forma em que o rio vai moldá-lo. Simplesmente permite que as águas o escavem.” (HILL, 2018, p. 343)

Em meio a tudo isso, Hill faz um panorama dos Estados Unidos em tempos de Vietnã, abordando também o papel das mulheres na sociedade da década de 60, a revolução sexual e os protestos, mas também encontra um meio de criticar a era das redes sociais, a obsessão por realidades virtuais e, ainda, a influencia da mídia no que consumimos e acreditamos. Mundos extremamente diferentes que o autor consegue casar com maestria.

Hilário quando menos se espera, pelos comentários mais inusitados, mas também dramático e tocante, envolvente tanto pelos mistérios que deixa pelo caminho quanto pelo drama pessoal que acompanha cada personagem, “Nix” é o mais corajoso livro de estreia que já li. Já seria audacioso e arriscado para um autor experiente, mas para um estreante impressiona pelo domínio, pelo fôlego e pela confiança de Nathan Hill. Um dos melhores livros do ano até o momento.

Título: Nix
Autor: Nathan Hill
N° de páginas: 665
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

RESENHA: O Ladrão de Raios

O Ladrão de Raios Percy Jackson
Começo esta resenha dizendo que sim, tenho consciência de que estou alguns anos atrasados. Após anos de muita curiosidade, consegui vencer o meu receio em iniciar mais uma série e finalmente conferi o primeiro volume da série Percy Jackson e os Olimpianos.

Percy Jackson é um garoto de doze anos com dislexia e déficit de atenção, que passou por seis escolas nos últimos seis anos. De alguma forma, ele é um imã para problemas e enrascadas improváveis. É então que ele descobre que os deuses gregos não são apenas mitos, sendo ele mesmo filho de um deles. E pior: sua primeira missão será recuperar o raio-mestre de Zeus, antes que uma guerra entre as divindades coloque a humanidade em risco. 

O Ladrão de Raios é narrado em primeira pessoa pelo protagonista, e o texto de Riordan é extremamente fluído e bem humorado. Além disso, o livro é dinâmico e conta com um bom ritmo, o que deixa o leitor envolvido com a estória do primeiro ao último capítulo. 

Percy é aquele herói improvável com o qual todos se identificam. Longe de ser perfeito, mas com o coração no lugar certo, sempre pronto para agir, mesmo que muitas vezes por impulso e sem pesar as consequências. Além de esbanjar carisma, a narrativa em primeira pessoa foi a chave para que o leitor criasse uma conexão quase que instantânea com o protagonista

Eu trouxe você para um destino de herói, e um destino de herói nunca é feliz. Não passa de um destino trágico.” (RIORDAN, 2014, p. 356)

Um dos aspectos que sempre me chamou atenção nos livros escritos por Riordan era a abordagem da mitologia com pano de fundo de suas obras. E tendo lido O Ladrão de Raios, reconheço que é preciso tirar o chapéu para o autor por sua criatividade: Riordan explora a mitologia grega, mas também a mescla com elementos do século XXI.

Como esperado de um livro infanto-juvenil de fantasia, O Ladrão de Raios conta com alguns clichês do gênero: um grupo de amigos, a figura do mentor, a missão do escolhido, os poderes do antagonista, e assim sucessivamente. Entretanto, tais clichês não ofuscam a originalidade da estória. 

Admito que já havia assistido ao filme há alguns anos, e mesmo sabendo quais seriam os rumos da estória, não perdi o interesse na leitura em nenhum momento. Creio que por causa deste fator também achei o final do primeiro livro um pouco previsível. 

Também é preciso dizer que O Ladrão de Raios não apenas tem uma estória própria, com início, meio e fim; mas também serve como um excelente livro introdutório para a série, apresentando não apenas personagens, cenário e universo, mas também deixando ganchos promissores para as continuações. 

Minha expectativa era encontrar uma leitura leve, divertida e descompromissada, e foi exatamente isso que encontrei em O Ladrão de Raios

Título: O Ladrão de Raios (Percy Jackson e os Olimpianos)
Autor: Rick Riordan
N.º de páginas: 385
Editora: Intrínseca

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Intrínsecos: o clube de livros da Intrínseca

Como parceiros da Intrínseca, fomos convidados a divulgar o novo projeto da editora que surge em comemoração aos seus 15 anos: o Intrínsecos, clube de livros lançado no mês de agosto, com a proposta de trazer para os inscritos livros do catálogo da editora 45 dias antes de eles estarem à venda nas livrarias.

Além de antecipar o lançamento de apostas da Intrínseca, a edição do clube vem em capa dura e com projeto gráfico diferente do que será comercializado. A escolha do título, claro, fica a cargo da editora, sendo surpresa para o inscrito que recebe, além do livro em si, uma revista com conteúdo exclusivo que complementará a experiência de leitura, um marcador de página e um brinde relacionado ao livro do mês.

Além de brincar com a expectativa de receber o pacote de um livro surpresa em casa (o que por si só já desperta a vontade de ler tal livro), vejo como mérito dos clubes de livros em geral, não apenas o Intrínsecos, dar um empurrãozinho ao inscrito para que ele saia da sua zona de conforto, dando chance a um livro que, de outra forma, talvez passasse despercebido ou até desprezado. Afinal, o livro já está ali, a edição está linda, por que não arriscar?

Outra coisa interessante de observar de uns tempos para cá é o empenho de algumas editoras em ampliar a experiência do leitor. Não se trata apenas de devorar a história. É colocar o leitor para pensar sobre ela e permitir que ele saiba mais sobre ela, para poder realmente levar essa história para a vida. Algumas optam por fazer isso dentro do próprio livro, incluindo materiais complementares como entrevistas com o autor, prefácios que contextualizam a publicação original de livros mais antigos ou a relacionam com adaptações para outras mídias (Darkside e Aleph são duas editoras que apostam nessa abordagem). Eu, particularmente, adoro esses materiais, por isso vejo como um ponto alto do Intrínsecos a revista com materiais extra.

Quem é blogueiro parceiro de grandes editoras está familiarizado com o prazer de receber um kit criado para valorizar o livro. Eu mesma já abri pacotes tão criativos que me deixaram com vontade de fazer a leitura mais pelo carinho da editora do que pelo livro em si. Imagino que o Intrínsecos seja a oportunidade de outros leitores experimentarem a mesma sensação e, depois, se deliciar com o livro que o kit do mês traz: seja um livro aguardado, seja um livro desconhecido, seja um livro que passaria despercebido. Um livro novo!

As inscrições para o clube já estão abertas. A primeira caixa será enviada no mês de outubro.

Para aqueles que se interessarem, fica aqui o link para maiores informações:



domingo, 19 de agosto de 2018

RESENHA: Ausência na Primavera

Ausência na Primavera Agatha Christie
Todo mundo conhece, pelo menos de nome, a grande Dama do Crime: Agatha Christie. Em número de vendas, a autora é superada apenas pela Bíblia e por Shakespeare, tendo vendido mais de quatro bilhões de exemplares ao redor do mundo. Christie escreveu obras-primas do gênero policial, como “E não sobrou nenhum” e “O Assassinato de Roger Ackroyd”, porém, o que nem todo mundo sabe é que a autora explorou outros gêneros escrevendo sob o pseudônimo de Mary Westmacott

Joan Scudamore sempre se considerou uma pessoa bem sucedida, com uma família exemplar e um casamento feliz. Após visitar a filha em Bágda, Joan fica presa em uma pousada no meio do deserto em virtude de um atraso do trem que a levaria de volta para casa. Sozinha e sem atividades com as quais se ocupar, Joan começa a refletir sobre a própria vida e sobre os relacionamentos com seus filhos e marido. 

Ausência na Primavera parte de uma premissa simples: uma mulher orgulhosa, que vive de aparências, que vê a sua família sob uma luz romantizada sendo confrontada por suas lembranças. Porém, não se engane: apesar desta trama simples, Agatha Christie vai a fundo na psique da protagonista, mostrando ser uma profunda conhecedora das complexidades da alma humana. 

O mais interessante é que, de certo modo, a protagonista sempre soube os problemas e desafios que sua família enfrentou e ainda enfrenta. Entretanto, é somente quando se vê neste ambiente desolador, sendo assombrada por pensamentos que não consegue evitar, é que a personagem começa a aceitar que sua vida não passava de uma fachada. 

“Pensamentos aparecendo na mente... pensamentos aterrorizantes, pensamentos perturbadores. Pensamentos que não se queria ter. Mas, se era assim, por que tê-los? Afinal de contas, podem-se controlar os próprios pensamentos, ou não? Seria possível que, em algumas circunstâncias, os pensamentos de alguém o controlassem?” (CHRISTIE, 2017, p. 93). 

A narrativa é fluida e mesmo que não haja muitos eventos e que boa parte do livro se resuma a flashbacks, fiquei impressionado como Christie consegue envolver o leitor com a estória. Outro fator que deve ser destacado é o clima de tensão crescente, que fica mais palpável a cada capítulo. De certa forma, sentimos a mesma sensação de sufocamento da protagonista, que não consegue lidar com a verdade expressa nas lembranças que lhe assombram.  

E falando na protagonista, é impressionante como Ausência na Primavera prende o leitor mesmo contando com uma personagem que não é carismática. De alguma forma, Christie consegue atiçar e manter o interesse na estória, mesmo que não haja um personagem com quem o leitor desenvolva uma conexão maior. 

A única palavra que tenho para descrever Ausência na Primavera é brilhante. Há muito tempo não lia um livro com personagens tão bem construídos, que explorasse de forma tão sutil e precisa as emoções e contradições humanas. Ausência na Primavera é um dos livros preferidos da autora e confesso que se tornou um dos meus preferidos também. 

Para conhecer mais sobre a autora, não deixe de conferir o especial A Essência de Agatha Christie, uma série de pequenos vídeos com Mathew Prichard, neto da autora. E se você se interessou por Ausência na Primavera, aconselho assistir ao episódio dedicado a Mary Westmacott

Título: Ausência na Primavera
Autora: Agatha Christie
N.º de páginas: 213
Editora: L&PM

Comprar: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

[Calhamaço] para quem não gosta de [calhamaço]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Começo esta coluna fazendo uma confissão: adoro livros grandes, aqueles tijolões que, se duvidar, até mesmo param em pé. Creio que por ser uma estória mais extensa do que estamos acostumados, acabo desenvolvendo uma conexão maior e fico completamente imerso na obra. Entretanto, nem todo mundo gosta de calhamaços e tais pessoas geralmente argumentam que a estória é arrastada ou muito enrolada. E, às vezes, esse realmente é o caso. Porém, está longe de ser a regra.

Sob a Redoma

Antes de ler Sob a Redoma, já havia tentado ler outros dois livros do King, mas sem sucesso. Foi só anos depois que decidi dar mais uma chance ao autor e foi com Sob a Redoma que virei um fã incondicional de King. E por que este é um calhamaço que eu indico mesmo para quem não curte livros grandes? Por que a jornada dos personagens é tão incrível, que o leitor não se preocupa com o que vai acontecer no final, mas apenas com o que está acontecendo naquele momento. Assim, apesar de você se perguntar sobre a origem da redoma ou se ela vai desaparecer, não esses questionamentos que impulsionam a leitura. O que faz o leitor virar as páginas avidamente é acompanhar a jornada dos personagens nesta situação extremamente improvável, onde as regras sociais começam a ruir e os jogos pelo poder tem início. E nem preciso dizer que a narrativa de King é tão envolvente que as 950 páginas passam voando.

Os Luminares

Os Luminares foi o tipo de livro que me chamou atenção mais pelos prêmios que ganhou e pelos elogios da crítica, do que pela sinopse, admito. Mas o que torna Os Luminares tão especial é a sua trama audaciosa e absurdamente genial. O livro começa com uma reunião secreta de doze homens que estão a discutir estranhos eventos com os quais todos eles, direta ou indiretamente, estão relacionados. Assim, a leitura da obra impressiona por que vamos formando aos poucos um intricado quebra-cabeça, o qual nos faz perder o fôlego quando finalmente entendemos como todas as peças se encaixam. Além desta trama que já é tão espetacular que por si só valeria a leitura, Os Luminares também transcende a um gênero literário específico, contando com pitadas de drama, suspense, romance e thriller, de modo que o livro agrada a leitores de todos os estilos. Tenho certeza que depois das mais de 800 páginas você vai ficar com gostinho de quero mais.

Os Miseráveis

Talvez alguns de vocês estejam questionando minha sanidade ao indicar este clássico de mais de 1500 páginas, mas indico sem medo de errar: Os Miseráveis foi uma das leituras mais impactantes e emocionantes da minha vida. A força do livro certamente reside nos personagens absurdamente reais e complexos, aos quais nos apegamos e pelos quais sofremos. Victor Hugo não poupa o leitor em nenhum momento, mostrando uma realidade de muita dor e sofrimento, a qual muitas vezes preferimos ignorar. Além disso, o autor faz uma severa crítica social, abordando temas como injustiça, criminalidade, abuso infantil, prostituição e tantos outros, que certamente farão o leitor refletir. Ressalto também que, apesar de ser um clássico escrito há mais de cento e cinquenta anos, o texto de Hugo é surpreendentemente fluído e envolvente, de modo que a leitura avança com rapidez. Porém, reconheço que entre os livros desta lista este talvez seja o menos indicado para quem não gosta de calhamaços. Isso por que o autor, em alguns momentos, perde o fio da meada e faz digressões sobre assuntos completamente irrelevantes. Se você não ficar com peso na consciência, pule essas partes, mas não deixe de ler o livro. Garanto que você não vai se arrepender. 


domingo, 12 de agosto de 2018

RESENHA: Praia de Manhattan

Praia de Manhattan / Jennifer Egan
Praia de Manhattan” é o mais recente lançamento de Jennifer Egan, uma autora com quem eu só tive boas experiências. Justamente por isso, minhas expectativas estavam nas alturas quando o livro chegou às minhas mãos.

Nova York, década de 40. Anna e sua família passam pelas dificuldades que a maioria das famílias americanas passa naquele momento: muitos conhecidos indo lutar na guerra, racionamento e mulheres precisando assumir o sustento da família. São tempos difíceis. Ainda mais que o pai de Anna desapareceu. Até que em uma noite, ela reencontra um homem que conheceu quando criança ao acompanhar o pai em uma visita de trabalho e desenvolve com ele uma relação na esperança de que ele possa ajudar a esclarecer o porquê do sumiço.

Algo que sempre me cativa nos livros de Egan é a vivacidade, tanto de sua narrativa quanto de seus personagens. Em “Praia de Manhattan” são três os que brilham: Anna, nossa protagonista; Eddie, seu pai; e Dexter Styles, o homem misterioso. Esses também são os três olhares que nos apresentarão a trama.

Outra coisa a respeito de Egan é que seus livros são sempre muito diferentes uns dos outros. Enquanto “O Torreão” é o mais misterioso, “Olhe para mim” o mais reflexivo, e “A Visita Cruel do Tempo” seja uma colcha de retalhos com milhares de personagens e nenhum tempo definido, “Praia de Manhattan”, por sua vez, é praticamente um romance histórico que chega até mesmo a flertar com o noir. Fica clara a pesquisa de Egan a respeito da Nova York daquele tempo e da realidade que os americanos enfrentaram durante a guerra. É o típico caso em que o pano de fundo ajuda a construir a personalidade dos personagens, tanto que Dexter é um gângster. Quer figura mais década de 40 do que isso?

“A noite se espalhava por toda parte, negra e difusa; preenchia o carro, rodeava Anna. Mas seu medo do escuro tinha desaparecido. Sem saber quando nem como, tinha se entregado à escuridão, desaparecido por uma brecha na noite. Ninguém sabia onde encontra-la. Nem mesmo Dexter Styles.” (EGAN, 2018, p. 241)

Por falar em Dexter, esse é aquele personagem que não nos deixa saber em que terreno estamos pisando. Não sabemos o quão perigoso ele é, nem até onde suas ações o levam, mas como acompanhamos seu ponto de vista, também vemos um outro lado seu: o homem, além do gângster.

Eddie é um personagem que cativa pelo amor que Anna sente por ele. A relação pai e filha tem uma força que irá acompanhá-la por toda a jornada. Gostamos dele porque ela gosta dele, mesmo que suas atitudes não sejam sempre corretas.

Anna é a luz da história. Forte e determinada, ela não deixa que lhe impeçam de conquistar o que quer apenas por ser mulher. Pode até ser que tome algumas decisões ruins pelo caminho, mas suas escolhas são sempre suas. Aliás, o papel da mulher na sociedade da década de 40 é um aspecto que Egan explora muito bem ao longo da trama em figuras como a mãe, a tia e as amigas da protagonista.

Apesar de não apontar defeitos em “Praia de Manhattan”, confesso que não foi um livro que me conquistou. Em alguns momentos achei os acontecimentos bem enfadonhos (principalmente as partes que mostram Eddie após o seu desaparecimento) e em outros os achei muito previsíveis. Ainda assim o livro não é ruim porque seus personagens fazem valer a pena e porque o contexto histórico é interessante, mas está muito longe de ser Jennifer Egan em sua melhor forma.

Título: Praia de Manhattan
Autora: Jennifer Egan
N° de páginas: 448
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

RESENHA: Leve-me com você

Leve-me com você Catherine Ryan Hyde
August planejava fazer uma road trip por reservas naturais para deixar cinzas do seu filho, que morreu em um acidente. O que ele não esperava é que seu caminho iria cruzar com duas crianças, Seth e Henry, e como sua vida seria impactada pelo convívio com os garotos. 

A narrativa da autora é bastante envolvente, de modo que a leitura flui com rapidez. Entretanto, admito que em algumas passagens, especialmente nos momentos em que os personagens estavam em meio a natureza, a autora exagerou no uso de descrições. 

Os personagens são bem desenvolvidos e a relação entre eles é muito natural. Apesar da improbabilidade que os reuniu, percebemos que as crianças não apenas precisam de uma figura paterna, mas o próprio August precisava deste contato para superar a perda do filho. Para mim, o destaque vai para Henry, personagem que ganha menos espaço na trama, mas que me pareceu o mais cativante, curiosamente. 

O livro aborda diversos temas, como redenção, amadurecimento, solidão, amizade, superação, injustiça, luto, perdão, recomeços, e muitos outros. Apesar desses assuntos serem pesados e complexos, a autora teve bastante sensibilidade ao abordá-los

“O que você sente é o que você sente, e, por mais que pense que devia sentir outras coisas, não pode mudar seus sentimentos. Tem coisas na vida que podemos mudar e outras que não.” (HYDE, 2018, p. 158)

O alcoolismo é outro tema abordado ao longo do livro, tendo afetado os três personagens de formas diferentes e profundas. Porém, me pareceu que a autora pesou a mão, forçando o assunto inúmeras vezes na trama, de modo que me deixou com o gosto de ser mais uma lição de moral do que uma reflexão. Além disso, fica claro que o assunto era algo pessoal para a escritora e pesquisando sobre sua vida descobri que ela de fato enfrentou tal problema.

Durante a road trip, fiquei com a impressão que não ocorrem muitos eventos. A viagem em si parece não ter muita importância para a estória, pois basicamente vemos os personagens indo de um ponto a outro. E muitas das situações que ocorrem na viagem servem para trazer à tona a discussão sobre o alcoolismo.  

A última parte do livro me surpreendeu bastante, pois a autora seguiu um rumo inesperado. É neste momento que conseguimos ver o impacto que os personagens causaram na vida uns dos outros. Entretanto, o desfecho em si não empolgou muito, visto que deu a impressão de ficar no lugar comum. 

Leve-me com você foi uma boa leitura, que conta com personagens interessantes e reflexões profundas. Apesar de ter batido desnecessariamente na mesma tecla, a autora consegue encantar o leitor e prender sua atenção do início ao fim.

Título: Leve-me com você
Autora: Catherine Ryan Hyde
N.º de páginas: 331
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

Comprar: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.
 

Além da Contracapa Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger