quarta-feira, 16 de julho de 2014

RESENHA: A Verdade sobre o caso Harry Quebert

“Eu passara a primeira parte da minha existência saciando minhas ambições, comecei a segunda tentando manter essas ambições despertas e pensar nelas com calma, e estava simplesmente me perguntando em que momento decidiria viver.” (DICKER, 2014, p. 237)

A primeira coisa que me atraiu em “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” foi a tela de Edward Hopper na capa, pois costumo gostar da temática da obra do pintor. Fisgada, li a sinopse e soube que esse era exatamente o tipo de livro tinha tudo para me agradar. Quando o peguei em mãos, fiquei admirada com a quantidade e o entusiasmo dos elogios tecidos pela imprensa. Ao terminar a leitura, “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” não só correspondeu como superou as minhas já altas expectativas. Se bem que é possível falar em “expectativa” quando o assunto é um livro em que tudo é inesperado?

O primeiro livro de Marcus Goldman fez dele um escritor de sucesso. Meses depois, acometido pela doença dos escritores, ele não consegue encontrar tema ou inspiração para seu segundo livro. Sofrendo cobranças por parte de sua editora, ele se volta ao grande Harry Quebert, um dos autores mais importantes das últimas décadas, que fora seu mentor ainda nos tempos de faculdade. Talvez passar uma temporada na pacata Aurora, cidade onde Harry reside, possa lhe inspirar. Porém, pouco depois da chegada de Marcus a Aurora, o corpo de Nola Kellergan, uma jovem de 15 anos desaparecida há 33 anos, é encontrado nas proximidades da casa de Harry que se torna o principal suspeito do crime, o que traz à tona um grande segredo e o leva a admitir ter tido um caso com a menina, mas não tê-la matado. Entre tentar inocentar o amigo e escrever um novo best-seller, Marcus irá descascar camadas surpreendentes de segredos.

É difícil falar sobre um livro como “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”. Isso porque não existem livros como “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”.

Poucos livros escapam de uma descrição fechada, já que, mesmo que a trama conte com uma mescla de elementos, costuma ser possível agrupá-los em um gênero. Isso não acontece com “Harry Quebert” que é um thriller tanto quanto é uma história de amor, da mesma forma que é uma história de amizade ou, simplesmente, um drama sobre um escritor que perdeu a inspiração. Acredito que essa é uma característica dos melhores livros: não serem uma coisa nem outra, e sim uma mistura inteligente e bem articulada. O mais admirável nesse caso é como o Dicker consegue transitar com naturalidade por todas essas vertentes e extrair o máximo delas. O suspense existe não apenas porque a trama central é um mistério, mas também porque há momentos tensos e hipnotizantes. O romance existe não apenas porque dois personagens se envolvem em uma história de amor e sim porque o sentimento entre eles é palpável em diversas cenas e diálogos.

Sem pressa de revelar as camadas da história, o autor bombardeia o leitor com elementos e informações de uma maneira tão sutil e natural que nem se percebe que novos desdobramentos surgem a todo instante. É tanta coisa que chega de fininho para mudar tudo que qualquer teoria elaborada desmorona antes mesmo que se perceba.

A trama em si é um quebra-cabeça e são tantas as peças e pequenas histórias que o autor inseriu dentro da história maior que chegado um ponto eu percebi que mesmo que a pergunta principal do livro (“quem matou Nola?”) não viesse a ser satisfatoriamente respondida, isso não teria importância porque “Harry Quebert” não se escora nisso. Nem é preciso dizer que a resposta ao que aconteceu é fabulosa e inesperada. Quando eu achava que sabia algo, o autor vinha e levava todas as minhas certezas. Quando eu achava que não tinha mais espaço para reviravoltas, lá vinha ele com elementos completamente inesperados. Chegou um ponto em que eu já nem queria mais saber o que tinha acontecido. Eu tinha medo de saber. E isso só acontece quando o autor consegue fazer seus personagens atingirem os mais altos níveis de verossimilhança e carisma.

“ - Paraíso dos escritores? Que porra é essa?
 - É quando o poder da escrita volta-se contra você. Você não sabe mais se os seus personagens existem somente na sua cabeça ou se vivem de fato.” (p. 480)


“Os bons policiais não se interessam pelo assassino...E sim pela vítima. É sobre a vítima que você deve interrogar. Deve começar pelo início, por antes do assassinato. Não pelo fim.” (p.110)


Esse é um livro que suga o leitor para dentro da história de uma forma que ele esquece que se trata apenas de palavras impressas no papel. Eu não sou capaz de lembrar a última vez em que li um livro onde tudo me parecia real. Que aqueles dramas eram verdadeiros e que, mesmo ao fechar o exemplar, parecia que os personagens continuavam comigo.

O curioso é que, mesmo tendo terminado a leitura, eu não sei apontar, exatamente, o que faz de “Harry Quebert” um livro tão bom. Dicker é tão ardiloso e sua narrativa flui tão naturalmente que ele arrasta seu leitor e o impede de pensar em qualquer outra coisa que não no que aqueles personagens sentem e fazem. Arrisco dizer que esses são os livros verdadeiramente bons: aqueles que não conseguimos apontar o que os fazem tão bons.

Além de mesclar estilos, o autor se vale ainda do mise-en-abime (técnica que eu, particularmente, gosto muito e que consiste em uma história dentro da história e esta dentro de outra história), o que deixa tudo ainda mais curioso.

Outro detalhe magnífico são os conselhos de Harry para Marcus, em especial os inícios de capítulos que são sempre marcados por uma lição.

“Pois a força dos escritores, Marcus, está no fato de que eles decidem o fim do livro. Eles tem o poder de fazer viver ou fazer morrer, o poder de mudar tudo. (...) Basta-lhes fechar os olhos para mudar o curso de uma vida.” (p. 457)

Encerro essa resenha relatando como encerrei a leitura desse livro. Era 1:30h da manhã e meus planos eram ler mais 20 ou 30 páginas e ir dormir (afinal, no dia seguinte eu deveria acordar as 6:50h). Mas em algum momento entre essas 20 ou 30 páginas fui atingida: eu precisava saber como a história terminava. Não se tratava de querer ler mais alguns capítulos ou páginas, de não querer largar o livro. Se tratava de uma necessidade. Eu precisava saber como a história terminava, caso contrário não conseguiria dormir. Ultrapassei a última página às 3:30h com a nítida sensação de ter sido atingida por algo que eu não sabia o que era. Tentei dormir, mas “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” não me deixava. 4 horas da manhã e eu ainda estava acordada. No dia seguinte, continuava sob efeito da leitura, então reli as últimas 20 páginas (ainda não estava pronta para me despedir) para me encorajei a escrever essa resenha (era preciso coragem, pois eu sabia que seria uma tarefa árdua analisar esse livro). Terminada a resenha, continuo aqui sem saber o que me atingiu. “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” é, até o momento, o melhor livro do ano.

“Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter terminado.” (p. 563)

Título: A Verdade sobre o Caso Harry Quebert (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Joël Dicker
Nº de páginas: 572
Editora: Intrínseca

6 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Esse livro não tinha me atraído até eu ver alguns comentários sobre ele. Mas agora... Mari do céu! Preciso desse livro pra ontem! Sério, saber de toda essa mescla e os mistérios... Preciso dele. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Virginia de Oliveira disse...

Ganhei esse livro no twitter da intrínseca na sexta-feira e agora que li sua resenha não vejo a hora de ele chegar em casa para eu lê-lo, acho que ando precisando ler um livro como ele.
Excelente resenha.
Bjs!

Bruna Monteiro disse...

Nossa, amei a sua resenha sobre este livro. Você fez comentários tão bons a respeito, que chega deu uma vontade de ler. Pude perceber que ele tem todos os elementos que eu gosto em um livro, o que é muito bom! Excelente dica!

Lais Cavalcante disse...

Essa sua resenha é capaz de convencer qualquer um, sério. Confesso que não dava muita importância para esse livro, mas sua empolgação ao falar dele, da tamanha qualidade que foi escrito, ou pelo simples fato de não ter palavras para descrevê-lo, foi crucial para mim. Mesmo a premissa sendo um pouco confusa para mim, fiquei com vontade de lê-lo. Já adicionei na minha lista de desejados e vocês já podem parar de me deixar com vontade de mais livros! hahah

Letícia Souza disse...

Oiee
Que livro diferente,um mix de temas e gêneros mas nenhum chega
a ser o principal mas todos tem sua utilidade na história.Ler um livro nesse
aspecto é coisa nova pra mim.
O enredo é bastante intrigante e fica difícil soltar o livro até o terminar.
beijos

Nardonio disse...

Também acho ótimos esses livros em que não ficam apenas inseridos em um gênero. Mas, sabemos que essa característica nem sempre é legal. Existem alguns casos em que o autor tenta, mas não consegue articular bem todas as vertentes e gêneros que se propôs a inserir na trama. Ainda bem que isso não aconteceu nesse caso. Fiquei bem curioso pra ler.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

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