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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

RESENHA: A Mão Esquerda da Escuridão

Genly Ai foi enviado ao gelado planeta Gethen com a missão de convidar seus governantes a se juntarem a Ekumen, uma comunidade universal que reúne mais de 80 planetas. No entanto, Genly é humano demais e, mesmo após anos de estudo, não consegue compreender toda a riqueza e a complexidade da cultura daquele povo. 

O livro é narrado em primeira pessoa por Genly, relatando sua missão, alternado com relatórios de outros visitantes e de lendas locais. A opção pela primeira pessoa me pareceu acertada, pois sentimos na pele todo o estranhamento que o protagonista sente. No entanto, creio que em alguns momentos a autora pesa a mão nas descrições, o que torna a leitura um pouco cansativa.

A Mão Esquerda da Escuridão é baseada no choque entre mundos. Ao mesmo tempo em que o universo vive uma utopia, experimentando o progresso e a cooperação entre os povos, Genly se vê jogado em um mundo com nações com intensas rivalidades e que o enxergam com desconfiança. 

Mas a principal diferença do povo de Ghelen diz respeito ao gênero: trata-se de uma raça andrógena que, ao entrar no período reprodutivo, desenvolve os órgãos sexuais necessários para aquele momento. A autora desenvolveu de forma extremamente original as consequências deste aspecto em toda a estruturação da sociedade, sendo que as reflexões sobre este assunto certamente são o ponto alto do livro. 

“Considere: qualquer um pode trabalhar em qualquer coisa. Parece muito simples, mas os efeitos psicológicos são incalculáveis. O fato de toda população, entre dezessete e trinta e cinco anos de idade, estar a sujeita a ficar (como Nim definiu) ‘amarrada à gravidez’ sugere que ninguém aqui fica tão completamente ‘amarrado’ como, provavelmente, ficam as mulheres em outros lugares – psicológica ou fisicamente. Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitário; todos tem o mesmo risco a correr ou a mesma escolha a fazer. Portanto, ninguém aqui é tão completamente livre quanto um macho livre, em qualquer outro lugar.” (LE GUIN, 2019, p. 103)

Mas apesar de ser o ponto alto, as reflexões de A Mão Esquerda da Escuridão também são seu calcanhar de Aquiles. Isso porque fiquei com a impressão que a autora teve mais interesse em desenvolver tais discussões, deixando a estória em segundo plano. Tanto é assim que preciso admitir que não senti uma conexão com o protagonista, nem com os demais personagens. 

A Mão Esquerda da Escuridão é um clássico da ficção científica e Ursula K. Le Guin certamente foi uma escritora a frente do seu tempo, visto que há 50 anos já questionava os papeis de gênero que nos são impostos pela sociedade e sua obra nos faz imaginar um mundo sem tais delimitações. Ainda assim, apesar de toda a genialidade e crítica social, admito que o livro não me envolveu o quanto eu desejava. 

Título: A Mão Esquerda da Escuridão
Autora: Ursula K. Le Guin
Editora: Aleph
N.º de páginas: 304
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 7 de dezembro de 2019

RESENHA: Star Wars - Estrelas Perdidas

star wars estrelas perdidas
Entre os livros canônicos de Star Wars, confesso que Estrelas Perdidas nunca esteve no topo da minha lista de prioridade. Mas com a aproximação da estreia do episódio IX, a vontade de ler algum livro do universo expandido da saga me dominou e, sendo o único livro que eu tinha em mãos, me joguei na leitura e me surpreendi do início ao fim. 

Thane e Ciena se conhecem quando criança e os dois compartilham o sonho de voar nas naves do Império Galáctico. Porém, quando crescem, um deles se junta a Aliança Rebelde, enquanto o outro permanece fiel ao imperador. O problema é que a amizade que nutriam um pelo outro nunca foi apenas amizade. 

Um dos aspectos que logo chamou minha atenção foi como Gray consegue nos mostrar o outro lado da moeda, uma perspectiva que não vemos no filme. Thane e Ciena cresceram em um mundo da Orla Exterior que foi anexado pelo Império, portanto, a verdade que conhecem é a verdade ditada por Palpatine. Um mundo onde o Imperador é um messias em busca da paz, os Jedis uma ameaça derrotada e a Aliança Rebelde um grupo de terroristas. E nesse mundo, servir ao Império é uma das maiores honras. 

Depois que Thane e Ciena se formam na Academia Imperial e recebem suas missões, percebemos que Estrelas Perdidas é um livro escrito por um verdadeiro fã de Star Wars, que conhece todos os detalhes do universo. Isso porque vemos outros ângulos dos acontecimentos retratados na trilogia original e é impressionante ver como Gray consegue amarrar a estória de seus protagonistas à estória dos filmes. 

É apenas quando estão dentro das fileiras do império que os amigos percebem que a utopia que imaginavam está longe de ser verdade. Porém, cada um deles reage de uma forma: enquanto um vê no Império uma fonte de maldade que deve ser destruída, o outro enxerga um poder que foi corrompido, mas que pode ser restaurado para servir a propósitos mais nobres. É com esta dicotomia como pano de fundo que Gray nos faz refletir sobre temas como justiça, poder, moral, fanatismo e lealdade. 

“Era assim que o mal ganhava mais espaço: criava raízes nos jovens e crescia junto com eles. Cada geração elevava o abuso a outro nível.
— Estamos ensinando crianças a aprovar a escravidão. Estamos ensinando a elas que crueldade é uma virtude.”
(GRAY, 2015, p. 177) 

Outro ponto alto do livro certamente é a construção dos protagonistas. A autora criou personagens tão profundos e multifacetados que entendemos exatamente o que os motiva a agir de um jeito ou de outro. Outros personagens também se destacam, em especial um dos coadjuvantes que nos deixa apavorado por mostrar como uma boa pessoa pode ser corrompida pelo mal. 

O final deixa um gostinho de quero mais. Mesmo sendo uma estória de amor em meio a um cenário caótico, Gray conseguiu fugir dos clichês do gênero e entregar um desfecho que, embora não coloque um ponto final na estória, deixa claro o que irá acontecer com os personagens. 

Este foi o terceiro livro de Star Wars que li e certamente foi o meu preferido. Para quem é fã da saga, trata-se de uma experiência enriquecedora conhecer pontos de vista que não aparecem nos filmes e que mostram que a galáxia não se divide entre vilões e mocinhos. Além disso, ficou cristalino o talento de Claudia Gray e seu domínio sobre a saga, de modo que mal posso esperar para ler outros livros de sua autoria.

Título: Star Wars – Estrelas Perdidas
Autora: Claudia Gray
N.º de páginas: 444
Editora: Seguinte

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sábado, 16 de novembro de 2019

RESENHA: O Instituto

instituto stephen king
Luke Ellis, um garoto de doze anos, foi sequestrado de sua casa e levado para o Instituto, local onde são feitos experimentos científicos com crianças com poderes sobrenaturais há mais de cinquenta anos. Na Parte da Frente eles são testados de todas as formas possíveis e, quando estão prontos, vão para Parte de Trás do Instituto. E depois nunca mais são vistos. Após ver seus amigos serem levados para a Parte de Trás, Luke decide fugir, uma proeza que ninguém conseguiu. 

O livro começa nos apresentando a Tim Jamieson, o vigia noturno da pequena cidade de Du Pray. Apesar de não ser o protagonista, a estória de Tim é cativante e mal percebemos as primeiras cinquenta páginas passarem. É então que conhecemos Luke — o menino gênio que aos doze anos já está pronto para ingressar na faculdade — e seus pais, acompanhando-os até a fatídica noite em que o garoto é sequestrado. 

Luke é carismático e logo conquista o leitor, não apenas por sua inteligência, mas principalmente por sua empatia. E, desse modo, ficamos com um nó na garganta quando vemos os horrores que são realizados no Instituto. É impossível não se perguntar como médicos e cuidadores conseguem tratar crianças inocentes de uma forma tão perversa. E esta é uma das maiores reflexões do livro: os fins justificam os meios? 

Outro aspecto que merece destaque é como King consegue nos fazer acreditar em uma teoria da conspiração envolvendo crianças telepatas e telecinéticas, que são testadas e usadas até os limites de seus poderes. Nos agradecimentos, o autor comenta que seu objetivo sempre é “fazer o impossível parecer plausível” e é exatamente isso que King consegue fazer em O Instituto, por mais absurdas e extremas que fossem as situações. 

“Ocorreu a ele de repente que era preciso ficar preso para entender de fato o que era liberdade.” (KING, 2019, p. 266)

Confesso que no início senti uma vibe “Stranger Things” em relação aos experimentos científicos e aos poderes paranormais das crianças. Porém, logo fica claro que King criou seu próprio mundo e, apesar de possuírem um ponto comum, a estória se desenvolve de uma forma completamente diferente daquela que vemos na série. 

As últimas duzentas páginas são adrenalina pura. King já tem o talento natural de prender a atenção do leitor, mas nessa reta final se torna praticamente impossível interromper a leitura, pois queremos saber a todo custo como as coisas irão se desenvolver. O desfecho é explosivo e entrega o que promete, além de amarrar todas as pontas da estória. 

Em O Instituto King revela que os monstros não são vampiros, cachorros ou palhaços assassinos, mas os próprios seres humanos. E é por causa deste contexto de tortura e violência contra quem sequer consegue se defender que o livro nos faz refletir sobre a falta de humanidade, a perda da inocência e o poder da amizade. 

Misturando ficção científica e suspense, Stephen King mais uma vez compôs uma estória de tirar o fôlego, com personagens cativantes e antagonistas que fazem o sangue ferver. Certamente, uma estória que está a altura dos outros clássicos do autor. 

Título: O Instituto
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 540  
Editora: Suma
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 26 de outubro de 2019

RESENHA: Ubik

Philip K. Dick / Ubik / Editora AlephQuem conhece Philip K. Dick não precisa sinopse para saber o que esperar de seus livros: algo que irá lhe fazer refletir sobre a vida que você conhece, mas que não necessariamente lhe trará respostas. Foi neste espírito que li “Ubik”.

Em uma Nova York futurista, poderes psíquicos podem servir tanto para manipular realidades, quanto para neutralizar esses efeitos. Nesse mundo, também é possível falar com os mortos, já que eles são mantidos em um estado de meia-vida que permite que seus entes queridos os abordem de tempos em tempos para, entre outras coisas, receberem conselhos. É isso que Glen Runciter faz quando seus funcionários começam a desaparecer e ele precisa da ajuda de sua esposa falecida, Ella, para definir os rumos da empresa. Eventualmente, Runciter embarca em uma missão para a Lua com um grupo dos seus melhores funcionários, entre eles Joe Chip, e coisas estranhas começam a acontecer.

Aprendi a gostar de ficção cientifica quando entendi que ela sempre parte de alguma pergunta, normalmente um “e se?”, questionando como seria a nossa realidade caso alguma coisa fundamental fosse alterada. Em “Ubik” o questionamento não é “como” seria e sim “o que” seria. O que é, afinal, a realidade? Como sabemos que o que estamos vivendo é mesmo real e não um sonho, um delírio ou uma manipulação?

A outra grande pergunta que PKD propõe nesse livro é a existência da vida após a morte. Em “Ubik”, os mortos podem ser armazenados durante anos e, eventualmente, serem despertados para pequenas conversas. Eles têm uma espécie de estoque de vida, um número limitado de horas, que poderá ser utilizado em doses homeopáticas para momentos oportunos. Isso seria viver, de alguma forma?

Outro elemento interessante que surge ao longo do livro é o “Ubik”, que adota finalidades diferentes, devendo sempre ser utilizado de acordo com as instruções de uso para manter a segurança, e que é apresentado para o leitor de maneira isolada em pequenos anúncios publicitários que introduzem cada início de capítulo. Essa foi uma das coisas que mais me deixou curiosa ao longo da leitura: afinal, o que é este Ubik e como ele entra nessa confusão toda?

“É como se, pensou, alguma força maliciosa estivesse brincando conosco, deixando-nos fugir e matraquear feito ratos descerebrados. Nós a entretemos. Nossos esforços a divertem. E quando chegarmos ao ponto exato, seu punho se fechará à nossa volta para depois largar nossos restos espremidos, como os de Runciter, sobre o chão que se move devagar.” (DICK, 2019, p.86)

“Ubik” foi a minha quarta experiência com PKD, então, de certa forma, eu já sabia o que esperar. Pelas minhas leituras anteriores, aprendi que os livros dos autor não necessariamente são leituras agradáveis (costumo sentir sempre um certo distanciamento e uma frieza em relação às tramas, o que acredito ser próprio da ficção científica, afinal, trata-se de um mundo que nos é estranho), mas que sempre compensam com reflexões interessantíssimas. No caso de “Ubik” confesso que continuei bastante perdida ao finalizar a leitura.

Durante a trama toda, acompanhamos Joe Chip tentando desvendar o que está acontecendo com ele e seus colegas. Isso dá a “Ubik” contornos de história policial, o que funciona bem. De fato esse foi o livro que mais rápido li de PKD e um dos que mais me estimulou a querer descobrir o que estava acontecendo. O problema foi que terminei a leitura continuando sem saber. Ao se propor questionar a essência do que é realidade e o que não é, PKD mantém seus personagens e seu leitor no mesmo barco (ou, deveríamos dizer, nave espacial?) sem ter certezas do que é real e o que é manipulação. É claro que é interessante que o autor seja capaz de construir e destruir seus conceitos constantemente durante a trama, jogando o leitor e os personagens no abismo a todo instante, o que me desagradou foi terminar na incerteza. Acho isso até bastante surpreendente, pois costumo gostar muito de finais em aberto, mas com “Ubik” senti que eu não tinha com o que trabalhar para encontrar as respostas e que a ideia do autor nem era deixar que o leitor encontrasse as suas respostas e sim demostrar justamente o contrário: que respostas não existem, consequentemente, certezas também não.

Ao chegar nessa conclusão, devo dizer que aprecio a obra, mas não consigo evitar ficar com o sentimento de que “Ubik” é um mistério incômodo que não chega a lugar algum.

Título: Ubik
Autor: Philip K. Dick
N° de páginas: 242
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

RESENHA: A Última Colônia

A série A Guerra do Velho me surpreendeu e encantou desde o primeiro livro. Scalzi é um daqueles autores com o raro talento de criar estórias que se tornam experiências de imersão, pois uma vez que você inicia a estória simplesmente não consegue interromper a leitura. E por isso mesmo estava ansioso para conferir A Última Colônia, o terceiro livro da saga. 

Atenção: o parágrafo abaixo contém spoilers. O restante da resenha é livre de spoilers. 

A União Colonial decidiu criar uma nova colônia, mas em vez de terráqueos, são os povos de planetas já colonizados que habitarão Roanoke. Por ser um empreendimento inédito, a UC convoca John Perry e Jane Sagan para administrar a colônia. Porém, o que eles não sabem é que a União Colonial tem planos muito maiores e mais complexos. 

A Última Colônia certamente é o turning point da saga. Apesar de ser mais uma aventura eletrizante, Scalzi continua expandido os horizontes e limites do universo que criou. Assim, a estória vai muito além das estruturas militares e da luta por planetas, passando a explorar o aspecto político da estória e suas consequências. 

É comum dizer que as relações internacionais são anárquicas e caóticas, uma vez que não há hierarquia entre os atores internacionais e nem regras determinando suas condutas. E Scalzi mostra exatamente isso: na corrida pela colonização do universo, o que vale é a lei do mais forte. Ou do mais inteligente. 

“Somos corpos estranhos quando pousamos em novos mundos e sabemos o que qualquer sistema de vida faz com um corpo estranho em seu meio: tenta matá-lo o mais rápido possível.” (SCALZI, 2019, p. 61)

Além desse pano de fundo intrigante, o autor consegue trazer à tona uma profunda discussão a respeito da importância da informação e dos riscos que a falta dela ou sua distorção podem causar na sociedade. Outro tema de reflexão é o conceito de humanidade: o que nos faz humanos e o que nos rouba a humanidade? Assim, Scalzi consegue mostrar que a ficção científica, por mais futurística que seja, consegue dialogar com os desafios e dilemas que vivenciamos na atualidade. 

Desta vez, a narrativa volta a ser feita em primeira pessoa do ponto de vista de John Perry e tive aquela gostosa sensação de voltar para casa. Não que o autor não tenha sido bem sucedido quando narrou em terceira pessoa, porém, Perry é um personagem tão carismático que é impossível o leitor não se conectar com ele e com sua jornada logo nos primeiros capítulos. 

Como esperado, o final é empolgante e deixa ganchos inesperados para o futuro da saga. Quando iniciei a leitura do primeiro livro, jamais imaginei que o autor seguiria por rumos tão inusitados e mal posso esperar para descobrir o que os próximos volumes da saga reservam.

Mais uma vez Scalzi acerta em cheio e entrega tudo o que um leitor pode esperar: bons personagens, trama bem construída e altas doses de aventura e adrenalina. Resta-me reconhecer, mais uma vez, que A Guerra do Velho é a melhor série de ficção científica da atualidade. 

Título: A Última Colônia
Autor: A Guerra do Velho
Editora: Aleph
N.º de páginas: 357
Exemplar cedido pela editora

domingo, 12 de maio de 2019

RESENHA: Matadouro-cinco

matadouro-cinco
Billy Pilgrim é um soldado que testemunha a destruição de Dresden no final da Segunda Guerra Mundial. Após o trauma, ele é internado em um hospital psiquiátrico e logo descobre que está solto no tempo, conseguindo viajar entre o passado e o futuro. Depois de retornar para os Estados Unidos, Billy acaba sendo abduzido por uma raça alienígena. 

Vonnegut optou por uma estrutura narrativa não-linear, de modo que acompanhamos a vida do protagonista em múltiplos momentos e lugares. Considerando que Billy viaja no tempo e no espaço, tal estratégia me pareceu combinar com as habilidades peculiares do protagonista. Na verdade, tal estrutura até reflete a experiência do personagem que de uma hora para outra se vê em diferentes locais. Porém, apesar de inovador, creio que este artifício tornou a leitura cansativa e confusa. 

A falta de linearidade também afetou meu envolvimento com a estória. A impressão que eu tinha era Billy pulava de cenário em cenário, mas que todos esses arcos eram desenvolvidos apenas no médio e longo prazo. Acrescente-se a isso o fato de Billy não ser o mais carismático dos personagens, de modo que haviam poucos elementos realmente me prendendo a leitura. 

“O livro é tão curto, tão confuso, tão desarmônico, Sam, porque nada de inteligente pode ser dito sobre um massacre. Todos devem estar mortos, sem nunca mais dizer ou querer nada. Tudo deve ser muito quieto depois de um massacre, e sempre é, exceto pelos passarinhos.” (VONNEGUT, 2019, p. 37)

Matadouro-cinco é descrito como um dos maiores clássicos antimilitaristas e creio que talvez esse seja exatamente o problema. Vonnegut também foi um prisioneiro de guerra e testemunhou o ataque a Dresden, de modo que o livro é claramente inspirado na sua experiência. No entanto, minha sensação foi de que o autor priorizou as críticas à guerra, à sociedade de consumo e a nossa capacidade de nos acostumarmos com tudo, deixando a estória de Billy em segundo plano. 

Por um lado, claro que as reflexões sobre a guerra são interessantes, pois o autor consegue mostrar o lado mais perverso e cruel do conflito, sem nenhuma romantização. No entanto, sou da opinião que nenhuma reflexão deveria ser maior do que a estória, afinal, é esta que motiva o interesse do leitor. Creio que reflexões são bem-vindas quando surgem de uma forma natural, a partir dos conflitos que os personagens vivenciam. 

Encerro esta resenha esclarecendo que li Matadouro-cinco durante uma semana um pouco conturbada, o que pode ter afetado negativamente minha experiência de leitura. Ainda assim, confesso que esperava mais de um livro que é tão reverenciado. 

Título: Matadouro-cinco
Autor: Kurt Vonnegut
N.º de páginas: 284
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

RESENHA: Thrawn

star wars thrawn
Em 1991, Timothy Zhan lançou Herdeiro do Império, o primeiro livro do universo expandido de Star Wars publicado com a autorização oficial da LucasFilm. Nos anos seguintes, mais dois livros foram lançados completando a trilogia e que foram considerados por muitos fãs como os episódios VII, VIII e IX da saga. E parte desse sucesso se deve ao vilão criado por Zhan: o grão-almirante Thrawn. 

Porém, em 2012, a Disney adquiriu a LucasFilm e, consequentemente, os direitos autorais de Star Wars. Assim, eles optaram por não se comprometer com as estórias contadas nas outras mídias, dando origem ao selo Legends: são lendas, que podem ou não ter acontecido. Por sua vez, as obras publicadas após a compra pela Disney fazem parte do cânone, ou seja, integram as estórias dos filmes, livros, HQs e séries em uma mesma linha temporal.

Reconhecendo o potencial do grão-almirante Thrawn, a Disney não quis deixar o personagem restrito ao selo Legends. Assim, ele foi inserido como um dos antagonistas na série de animação Star Wars: Rebels, entrando oficialmente no cânone. Posteriormente, uma nova trilogia de livros foi encomendada, permitindo que Zhan se aprofundasse nas origens de Thrawn. 

Vivendo em exílio, Thrawn é encontrado por forças imperiais e levado para Coruscant, onde jura fidelidade ao imperador Palpatine. O alienígena de pele azulada e olhos vermelhos é um brilhante estrategista militar e, apesar de seus métodos pouco convencionais, sempre alcança a vitória, o que lhe garantiu uma ascensão meteórica dentro da Marinha Imperial. Porém, sua falta de tato para as questões políticas poderá ser um problema. 

“Artistas eram indivíduos, mas também eram produtos de sua cultura, história e filosofia. O entrelace de artista e cultura era óbvio ao olha crítico. O padrão fundamental de uma espécie podia ser esboçado, depois desenhado e então preenchido completamente. Mais importante de tudo: os relacionamentos entre arte, cultura e doutrina militar podiam ser deduzidos.
E o que pode ser deduzido pode ser combatido.”
(ZAHN, 2017, p. 202)

Quando iniciei a leitura, imaginava que um dos maiores desafios de Zhan seria transformar Thrawn em protagonista. Afinal, já havia assistido a série Star Wars: Rebels e, apesar de admirá-lo por suas capacidades, ainda o enxergava como vilão, pois foi recrutado para pôr um fim aos ataques de uma célula rebelde. Porém, Zhan consegue nos mostrar que nada é preto no branco e que o mundo de Star Wars é muito mais complexo e vai muito além da dicotomia heróis versus vilões. 

E esse é um dos maiores méritos do livro: colocar o leitor nas fileiras do Império Galáctico, de modo que podemos ver que apesar dos muitos defeitos do Império e do Imperador, ainda existem pessoas decentes e que, do jeito delas, lutam por uma galáxia melhor. E Thrawn é uma dessas pessoas, que reconhece esses defeitos, mas que olha para o movimento rebelde com receio de que o sucesso deles implique em um novo banho de sangue, assim como foi nas Guerras Clônicas (conflito que ocorreu entre a República e o movimento separatista, que se passa entre os episódios II e III e que é retratado na série de animação Star Wars: Clone Wars)

Além de Thrawn, outra personagem da série Star Wars: Rebels ganha destaque: Arihnda Pryce. Sua jornada é tortuosa, como inúmeras idas e vindas, mas sua ambição para galgar os degraus do poder no Império é incansável. Na animação, Pryce é uma pessoa extremamente desagradável, mas no livro vemos seu lado mais humano, bem como os eventos que a transformaram naquela pessoa. 

A ascensão de Thrawn passa por inúmeras missões dentro da Marinha Imperial e muitas delas envolvem Cisne Noturno, um estrategista engenhoso e adversário à altura. Assim, o fio condutor do livro acaba sendo a perseguição do grão-almirante por esse misterioso personagem. Entretanto, confesso que achei a evolução dos personagens muito mais interessante do que a perseguição. 

O desfecho não surpreende, mas deixa um gancho promissor para o próximo livro, que unirá o grão-almirante ao icônico Darth Vader. 

Para quem assistiu Star Wars: Rebels, considero Thrawn uma leitura enriquecedora, pois mostra outros pontos de vista e acaba tornando personagens já conhecidos muito mais profundos e multifacetados. Para aqueles que não assistiram, reconheço que o livro pode não ter tanto apelo, apesar de apresentar um personagem fantástico. 

Título: Star Wars: Thrawn
Autor: Timothy Zahn
N.º de páginas: 471
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

RESENHA: Passagem para o ocidente

Passagem para o ocidente
Uma das aulas mais intrigantes que tive na pós-graduação de Relações Internacionais foi sobre o Oriente Médio, uma região com uma história riquíssima, marcada por conflitos e que é constantemente mal interpretada. Fascinado pela região, comecei a procurar livros que retratassem essa realidade que é tão desconhecida por mim e foi assim que esbarrei em Passagem para o ocidente, eleito por Barack Obama como “um dos melhores livros do ano”.

Saeed e Nadia são dois jovens que vivem em um país muçulmano e que se conhecem em um curso noturno. Atraídos um pelo outro, acabam dando início a um relacionamento em meio a um ambiente de crescente violência. Quando a guerra civil eclode, eles ouvem rumores sobre portais que levariam para outros países. Desesperados, eles decidem se aventurar por um desses portais, sem imaginar o que os espera do outro lado. 

Saeed e Nadia são o cerne absoluto da estória. Não apenas acompanhamos a evolução de seu relacionamento, mas principalmente seu desenvolvimento como pessoas em cenários extremamente adversos. Chama atenção que o autor, inclusive, não dá nomes a mais nenhum outro personagem, ficando clara sua intenção de focar a atenção do leitor no casal de protagonistas. 

Passagem para o ocidente dialoga com temas relevantes e atuais, como a crise dos refugiados. Por um lado vemos a dificuldade em abandonar sua nação, que é uma parte importante da nossa identidade, bem como de se reintegrar em um novo local, que muitas vezes é avesso a estrangeiros. Outra discussão muito interessante é a questão dos portais que levam para os mais diversos cantos do mundo e como eles, de certa forma, redefinem o conceito de fronteiras. 

“Pode parecer estranho que em cidades cambaleado à beira do abismo jovens ainda compareçam às aulas [...], mas é assim que as coisas são, seja quanto às cidades, seja quanto à vida, pois por um momento estamo entretidos com nossos afazeres habituais e no momento seguinte estamos morrendo, e nosso fim para sempre iminente não interrompe nossos começos e meios transitórios até o instante que o fim chega de fato.” (HAMID, 2018, p. 7-8)

Entretanto, apesar da originalidade e da criatividade da estória, preciso confessar que não gostei da narrativa de Hamid. A meu ver, a regra número um da literatura é o famoso “show, don’t tell”, ou seja, não me diga o que os personagens estão fazendo, me mostre eles fazendo. Infelizmente, Hamid optou por narrar os eventos que acontecem com os protagonistas, bem como seus pensamentos e sentimentos. Essa opção do autor, além de tornar a leitura cansativa, acarretou em um distanciamento do leitor com os personagens, que pareciam estéreis e sem vida. 

Outro aspecto que não gostei — e que está diretamente conectado com o anterior — é o excesso descritivo. Creio que uma descrição mais sucinta e precisa é suficiente para transmitir uma imagem ao leitor, enquanto que o exagero apenas tende a interromper sua conexão com a estória. Afinal, a quantidade de estímulos visuais parece colocar o desenvolvimento da trama em segundo plano.

Por fim, também achei o desenvolvimento trama um tanto simples e sem gosto, apesar de ter muito potencial. No fim das contas, fiquei com a impressão de que a Hassin tinha mais interesse em fazer o leitor refletir sobre os assuntos que a obra aborda, do que em desenvolver a trama com mais profundidade, o que iria levar a reflexões de forma mais natural. 

Encerrei a leitura com a sensação de que Hassin tinha em mãos uma ótima premissa, mas que pecou na execução. Assim, preciso dizer que achei a declaração de Barack Obama um tanto exagerada. 

Título: Passagem para o ocidente
Autor: Mohsin Hamid
N.º de páginas: 168
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

RESENHA: Flores para Algernon

Flores para Algernon Daniel Keys
Charlie Gordon é submetido a uma cirurgia experimental para aumentar seu QI. Aos poucos, ele deixa de ser um adulto com uma grave deficiência intelectual e passa a absorver o conhecimento como se fosse uma esponja. Mas ao mesmo tempo em que se torna um gênio no que diz respeito ao conhecimento acadêmico, Charlie ainda conta com uma capacidade emocional pouca desenvolvida. E em meio a tantos aprendizados e a flashes sobre sua vida passada, ele tenta desesperadamente descobrir quem realmente é. 

Por se tratar de um romance epistolar, ficamos restritos a visão do protagonista, o qual sofre de uma debilidade mental acentuada e que não consegue expressar todos os seus pensamentos e sentimentos no papel. O texto inclusive reflete as habilidades limitadas de Charlie, o que embora seja um recurso interessante, tornou a leitura um pouco cansativa. Porém, é incrível ver como o autor consegue fazer transparecer a evolução de Charlie por pequenos detalhes que aparecem no texto. E a partir do momento que sua inteligência começa a se desenvolver, a narrativa se torna mais fluída e envolvente.  

E falando em inteligência, vemos desde o início a obsessão do protagonista em se tornar inteligente, pois acreditava que somente assim as pessoas gostariam dele. No entanto, quando começa a recuperar memórias antigas, Charlie percebe que era alvo constante de piadas por causa de suas limitações. Desse modo, a obsessão acaba dando espaço a paranoia, em alguns momentos justificada, em outros não. 

O grande mérito de Keys é a profundidade psicológica que ele conseguiu dar para o personagem. É com dor no coração que acompanhamos as memórias da infância de Charlie, e vemos os abusos que sofreu nas mãos de sua família, que não conseguia aceitar suas diferenças e amá-lo incondicionalmente. E vemos que mesmo sem entender plenamente o que acontecia ao seu redor, Charlie carrega as cicatrizes desses traumas emocionais a vida toda. 

“Apesar de sabermos que, no fim do labirinto, a morte nos aguarda (e isso é algo que nem sempre soube, até pouco tempo atrás, pois o adolescente em mim pensava que a morte acontecia só com outras pessoas), vejo agora que o caminho escolhido pelo labirinto me faz quem sou. Não sou apenas uma coisa, mas também uma maneira de ser — uma das muitas maneiras —, e saber os caminhos que percorri e os que me restam vai me ajudar a entender o que estou me tornando.” (KEYS, 2018, p. 204). 

Durante a leitura de Flores para Algernon, foi impossível não lembrar de outro livro: Longe da Árvore, do jornalista Andrew Solomon. O autor escreveu um extenso trabalho sobre as identidades verticais, aquelas características que herdamos da família, e as identidades horizontais, que são estranhas a família, como síndrome de Down, surdez e transgêneros. Solomon reflete que há pais que tentam corrigir as “diferenças” do filho, enquanto existem outros que as celebram. Para alguns é doença e deve ser curada, para outros, é identidade e deve ser aceita. 

E é justamente neste aspecto que as reflexões do livro mais se destacam. Charlie tem limitações, mas seu maior problema é falta de aceitação. Em vez de incentivo, encontra ameaças. Em vez de amor, crueldade e violência. Sua forma de ser e de se expressar é apenas diferente, mas é vista por muitos como errada. E o mais triste é perceber como as pessoas parecem descartar completamente sua existência antes da cirurgia, como se apenas agora ele fosse um ser humano. 

Flores para Algernon mostra que não é a inteligência, mas sim nossas emoções e nossas relações afetivas com outras pessoas que nos tornam verdadeiramente humanos. Prepara-se para encontrar uma estória extremamente original, absurdamente profunda e um tanto quanto triste. Suas reflexões são o ponto alto e o mais interessante é perceber que mesmo passados mais de cinquenta anos de sua publicação, a obra continua atual e relevante. 

Título: Flores para Algernon
Autor: Daniel Keys
N.º de páginas: 284
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 18 de novembro de 2018

RESENHA: Marcas da Guerra

Star Wars Marcas de Guerra
A saga Star Wars chama minha atenção há anos, especialmente depois que me tornei um leitor ávido de ficção científica, mas por um motivo ou outro nunca assistia aos filmes. Mês passado, finalmente criei vergonha na cara e assisti tanto a trilogia original quanto a segunda trilogia e uma coisa ficou clara: o universo de Star Wars é absurdamente rico! E por isso mesmo fiquei entusiasmado em explorar o restante deste universo em outras mídias, sobretudo pelos livros. 

Marcas da Guerra dá continuidade ao sexto episódio da saga. Após a destruição da Segunda Estrela da Morte, o Império Galáctico está em ruínas e uma Nova República começa a surgir. Entretanto, os remanescentes imperiais não pretendem desistir sem lutar e por isso se reúnem no planeta de Akiva, para planejar os próximos passos. O que eles não esperavam é que o destino acabasse levando para aquele mesmo planeta uma piloto das forças rebeldes, uma caçadora de recompensas e um agente da lealdade imperial. 

O início de Marcas da Guerra é lento. Weding introduz diversos personagens e a trama parece ser bastante dispersa. Porém, aos poucos vemos como as vidas desses personagens começam a se cruzar, convergindo para um mesmo ponto. Assim, a impressão que tive é que o livro é como uma partida de xadrez: no começo há pouca emoção, porém, na medida em que a partida avança e as estratégias ficam claras fica impossível não se empolgar. 

Por sua vez, o desfecho da obra é absurdamente empolgante, tanto é que li as últimas cento e cinquenta páginas de uma só vez, pois não conseguia parar a leitura. Wendig move as peças no tabuleiro de forma a surpreender o leitor com os rumos da estória, sendo que a batalha final conta com altas doses de adrenalina e certamente não irá desapontar aos fãs da franquia.  

A narrativa é exatamente o que eu esperava de um livro de Star Wars: visual. Wendig sabe como puxar o leitor para dentro da cena e fazê-lo enxergar tudo o que está acontecendo, como se estivesse sentando na poltrona do cinema assistindo a um filme. Apesar de ser visual, em nenhum momento o livro se torna excessivamente descritivo, de modo que não cansa o leitor. 

“O Império finge empenhar-se pela lei e ordem, mas no fim das contas, empenha-se em vestir a opressão com a fantasia da justiça.” (WENDIG, 2015, p. 346)

Me causou um certo estranhamento o fato de que não há exatamente um protagonista. Vemos um grupo de personagens, envolvidos de uma forma ou de outra numa situação complexa, mas não há como afirmar que a estória de um deles se sobressaia em relação aos demais. Talvez esse vácuo de protagonismo se deva ao fato de que a própria guerra seja o foco do livro, e as consequências devastadoras que ela traz para a vida de todos os personagens. 

Ainda assim, é preciso dizer que todos os personagens são bem desenvolvidos, contando com vidas pretéritas que foram afetadas por essa nova conjuntura política. Aliás, também merece elogio a diversidade dos personagens: além de mulheres fortes e em posição de liderança, também temos representatividade LGBT.  E finalmente, vamos a questão que não quer calar: algum personagem dos filmes aparece? Leia, Han e Chewie fazem pequenas participações na estória, enquanto o Almirante Akcbar tem um papel mais decisivo na estória. 

Outro aspecto interessante é que o livro conta com diversos interlúdios, mostrando o que está acontecendo nos demais cantos da galáxia. Assim, apesar do enfoque ser nos eventos que se desenrolam em Akiva, temos pequenos vislumbres do que acontece em planetas como Coruscant, Naboo e Tatooine, mostrando como a Nova República está se organizando. 

Marcas da Guerra faz parte do projeto “Jornada para Star Wars: O Despertar da Força”, uma iniciativa da Disney que visava a publicação de diversos livros que fizessem a ponte entre os acontecimentos do episódio VI com a nova trilogia. 

Encerrei a leitura com dois sentimentos: morrendo de curiosidade para assistir O Despertar da Força e ver como as peças do livro se encaixam com o filme, mas também com muita vontade de ler os demais livros da série. Marcas da Guerra é o primeiro livro da Trilogia Aftermath, sendo seguido por Dívida de Honra e Fim do Império. 

Título: Marcas da Guerra
Autor: Chuck Wendig
N.º de páginas: 404
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora 

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terça-feira, 26 de junho de 2018

RESENHA: Justiça Ancilar

justiça ancilar ann leckie
A Justiça de Toren era uma nave comandada por uma complexa inteligência artificial, que controlava inúmeros corpos humanos para servir aos propósitos do Império Radch. Mas a nave se vê presa em um intricando jogo político e acaba sendo destruída, restando-lhe apenas um fragmento: Breq. Sozinha, ela passa os anos tramando a sua vingança contra o império, até chegar a hora de colocar o plano em ação. 

A narrativa, feita em primeira pessoa, divide-se em duas linhas temporais: o passado, mostrando os eventos que culminaram com a destruição da Justiça de Toren; e o presente, onde vemos Breq perseguindo sua vingança. A meu ver, a estória ganhou folego quando ambas as linhas temporais se encontram, de forma que entendemos como as peças do quebra-cabeça se encaixam. 

A estória é absurdamente original. Contamos com uma protagonista que é uma inteligência artificial, extremamente evoluída e, curiosamente, humana. Além disso, vemos que a autora soube aproveitar as oportunidades que essa premissa oferecia, explorando-a de forma muito criativa. 

Outro fator que chama atenção é a relação linguística com os aspectos de gênero. No Império Radch e em seu idioma, os pronomes não têm distinção de gênero, pois tal diferenciação não é relevante para seu povo. A autora utilizou o pronome “ela” como uma convenção de tradução do idioma radchaai e confesso, que inicialmente, senti um certo estranhamento. Entretanto, com o avançar da estória, fica nítido como a diferenciação de gêneros é irrelevante para o desenvolver da trama. 

“Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.” (LECKIE, 2018, p. 143)

Entretanto, preciso reconhecer que achei o livro confuso. Creio que um dos maiores erros que um autor de fantasia e ficção-científica pode cometer é despejar informações do universo da estória sobre o leitor. E, infelizmente, foi essa a impressão que tive durante boa parte da leitura de Justiça Ancilar. O problema é que o universo da obra é extremamente complexo e as informações dadas não eram de fácil assimilação, de modo que a sensação de estar um pouco perdido me acompanhou durante boa parte da leitura. 

Por isso mesmo, minha experiência de leitura acabou sendo um pouco arrastada e monótona, sendo que não consegui me conectar com os personagens, nem me envolver com a estória, o que atribuo principalmente a essa tonelada de informações que recebi sem compreender totalmente. Foi apenas na reta final do livro que meu interesse pela estória aumentou e que fiquei realmente intrigado para ver o desenrolar dos eventos. 

No fim das contas, fiquei com a sensação de que a autora partiu de uma premissa incrível e extremamente original, mas que pecou no desenvolvimento da estória. Apesar das minhas ressalvas, ressalto que Justiça Ancilar ganhou os principais prêmios da ficção científica e talvez agrade aqueles que já são fãs do gênero. 

Justiça Ancilar é o primeiro livro da trilogia Império Radch. 

Título: Justiça Ancilar
Autora: Ann Leckie
N.º de páginas: 381
Editora: Aleph
Exempar cedido pela editora

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sábado, 19 de maio de 2018

RESENHA: Todos os Pássaros no Céu

Todos os passaros no ceu Charlie Jane Anders
Todos os Pássaros no Céu me chamou atenção pela promessa de mesclar fantasia com ficção científica. E embora o livro conte com os elementos destes gêneros, a estória não entregou exatamente o que eu esperava. 

Quando crianças, Patrícia descobre a magia, enquanto Laurence a tecnologia. Ambos são crianças excluídas e ignoradas na escola, de modo que aos poucos eles se aproximam e se tornam amigos. A amizade não resiste, mas dez anos depois eles se reencontram e o mundo está prestes a terminar em uma batalha entre a ciência e a magia. E cada um deles está de um lado do tabuleiro. 

O primeiro aspecto a ser destacado são os protagonistas. Ambos contam com famílias desestruturadas, além de enfrentarem bullying nos corredores da escola. Assim, tanto Patrícia quanto Laurence convivem com essa pesada carga emocional e buscam um futuro melhor por vivenciarem e se desenvolverem neste cenário adverso. 

Durante as primeiras cento e setenta páginas, acompanhamos os protagonistas durante sua infância/adolescência, e a sensação que tive durante esta parte da leitura foi de “mal necessário”. Ou seja, fiquei com a impressão de que para entender o cerne da estória, precisávamos conhecer tais eventos, mesmo que eles não fossem muito interessantes. O problema é que além dessa parte ser um pouco entediante, ela também peca por transmitir a ideia de um livro extremamente juvenil, sendo que posteriormente a estória assume um tom mais adulto, causando uma discrepância perceptível de estilos narrativos. Creio que se a autora tivesse optado por utilizar flashbacks, estes problemas poderiam ter sido evitados. 

“— Sabe ... não importa o que você faça, as pessoas sempre vão esperar que você seja alguém que não é. Mas se for esperta, sortuda e se ralar de trabalhar, vai se cercar de pessoas que esperam que você seja a pessoa que gostaria de ser.” (ANDERS, 2017, p. 211)

Mas o que realmente me incomodou é que, mesmo após o “mal necessário”, a estória continuou a dar a impressão de que estava patinando. Por um lado, vemos uma evolução dos personagens, sendo interessante ver como suas vidas voltam a se cruzar tantos anos depois e o impacto que causam um no outro. Entretanto, a leitura se tornou maçante por que parecia que nada estava acontecendo, inexistindo um senso de progressão da estória. Além disso, outros aspectos da estória não são convincentes o suficiente, porém, não vou entrar em detalhes para evitar spoilers. 

Outro aspecto um pouco frustrante foi a ausência de um melhor desenvolvimento do sistema mágico. Não entendemos por que, em determinados momentos, Patrícia consegue evocar magia e em outros não. Posteriormente, depois que ela frequenta a escola de magia, recebemos algumas explicações sobre o assunto, mas as mesmas são extremamente superficiais. 

No fim das contas, quando encerrei a leitura, cheguei à conclusão de que a autora não tinha uma ideia clara de qual seria a estória que desejava contar, de modo que optou por atirar para todos os lados e, evidentemente, não acertou em nenhum alvo. 

Todos os Pássaros no Céu é o típico caso de uma ideia promissora que teve uma execução fraca. 

Título: Todos os Pássaros no Céu
Autora: Charlie Jane Anders
N.º de páginas: 474
Editora: Morro Branco

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sábado, 12 de maio de 2018

RESENHA: A Incendiária

A Incendiária Stephen King
Durante a faculdade, Andy e Vicky participam de um experimento científico promovido pelo governo americano e acabam desenvolvendo poderes psíquicos. Anos depois nasce Charlie, a filha do casal, e desde pequena ela demonstra ter herdado a pirocinese, a capacidade de criar fogo. Quando o governo descobre os poderes de Charlie, tem início uma caçada implacável e para sobreviver, pai e filha terão que fazer tudo o que estiver ao seu alcance. 

A Incendiária prende a atenção do leitor logo nas primeiras páginas, pois acompanhamos a fuga desesperada de Andy e Charlie de agentes do governo. Mesmo sem entender todas as nuances do que está acontecendo, King vai fornecendo aos poucos as respostas que o leitor deseja. Assim, o cerne da estória gira em torno da perseguição e do desenvolvimento dos poderes de Charlie. 

Charlie é uma personagem incrivelmente bem construída. Com sete anos, ela possui um poder poderoso, o qual não sabe controlar, mas que se vê obrigada a usá-lo para poder sobreviver. Ao longo do livro, vemos como as situações a que é submetida acarretam na perda da inocência e em um amadurecimento forçado. 

Já falamos diversas vezes por aqui como King utiliza elementos sobrenaturais que servem de gatilho para mostrar reações essencialmente humanas. Assim, os poderes psíquicos de Andy e Charlie servem como esse gatilho, colocando a trama em movimento e revelando emoções como medo, impotência e desespero. 

“— Nunca — repetiu ela com ênfase discreta.
— É melhor não falar isso, gatinha — disse Irv, olhando para ela. — É melhor não se bloquear assim. Você vai fazer o que precisa fazer. Vai fazer o melhor que puder. E isso é tudo o que pode fazer. Eu acredito que o Deus deste mundo adora dar trabalho para as pessoas que dizem “nunca”. Entendeu?”
(KING, 2018, p. 143)

O livro é narrado em terceira pessoa com alternância do ponto de vista. Assim, vemos a estória se desenvolver tanto a partir do olhar de Andy e Charlie, como do ponto de vista de agentes do governo que desejam colocar as mãos no pai e na filha. Neste ponto, saliento também que me pareceu que o autor perdeu um pouco do controle sobre a narrativa, especialmente da metade para o final, pois algumas informações me pareciam irrelevantes para o desenvolvimento da estória. 

Entre os agentes do governo, alguns deles ganham destaque e preciso confessar que é neste aspecto que me decepcionei. Um destes personagens acaba desenvolvendo uma obsessão doentia por Charlie, a qual, a meu ver, parece completamente injustificada. Ao final do livro, tal personagem desempenha um papel necessário para o desfecho da estória, de modo que fiquei com a sensação de que ele foi inserido na estória por que tinha esta função para cumprir. Ou seja, a obsessão dele me pareceu apenas uma desculpa para sua presença na estória, e não algo natural e verossímil. 

Ainda assim, A Incendiária foi uma excelente leitura, que misturou nas doses certas thriller e ficção científica. Com um ritmo intenso, que mal deixa o leitor respirar e muito menos largar o livro, King mostra mais uma vez seu talento inquestionável como contador de estórias. 

Título: A Indenciária
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 447
Editora: Suma
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 6 de maio de 2018

RESENHA: Kindred - Laços de Sangue

Kindred Octavia Butler
Em seu aniversário de 26 anos, Dana e seu marido estão de mudança. Enquanto organizam o novo lar, ela sente uma tontura e de repente se vê à beira de um rio. Quando enxerga uma criança se afogando, ela não pensa duas vezes e mergulha na água para salvá-la. Mas assim que a arrasta para fora do rio, encontra um homem apontando uma espingarda para seu rosto. Antes de ter tempo para reagir, Dana está de volta ao apartamento, encharcada e sem acreditar no que aconteceu. Até que acontece de novo e ela descobre ter voltado para uma Maryland pré-Guerra Civil, um lugar perigoso para uma mulher negra. 

Kindred é narrado em primeira pessoa por Dana e logo nos afeiçoamos a protagonista, sentindo na pele o horror de ser levado para uma realidade de subserviência, violência e nenhum direito. Por mais que tenhamos conhecimento teórico sobre o que aconteceu durante aquele período, Octavia Butler consegue pintar uma imagem muito mais real, vívida e assustadora. 

Mas além de Dana, outro personagem se destaca: Rufus, a criança que Dana salvou e que reencontra em diferentes estágios da vida toda vez que volta no tempo. Suas vidas estão profundamente entrelaçadas, porém, eles ainda são pessoas de mundos diferentes. Por mais que Rufus reconheça a inteligência de Dana e a respeite à sua maneira, ele ainda a enxerga como alguém inferior por causa de sua raça. 

Desse modo, o relacionamento entre os dois é repleto de conflitos. Por mais que Dana tente mudar a visão de Rufus, ele ainda é um homem do século XIX e, portanto, reflete o mesmo pensamento daquela sociedade, o que é acentuado por sua personalidade forte. É justamente a partir desses conflitos que Butler consegue fazer o leitor refletir profundamente sobre temas como escravidão, justiça, preconceito, poder e liberdade. 

“A escravidão era um processo que matava pouco a pouco”. (BUTLER, 2017, p. 297)

O texto Butler é extremamente envolvente, de modo que a leitura se torna uma experiência imersiva. Fazia tempo que um livro não me deixava tão vidrado na estória, pois até mesmo nos momentos em que eu estava ocupado com outras atividades, me pegava refletindo sobre Dana e os rumos da estória. 

Apesar da premissa da viagem no tempo ser um elemento clássico da ficção científica, a meu ver o livro é, acima de tudo, um drama. Isso por que o cerne da estória diz respeito ao impacto que os personagens causam uns aos outros e como suas vidas são drasticamente alteradas por causa daquele acontecimento. Ou seja, os leitores que gostam de todos os pingos nos is podem se sentir um pouco frustrados pela falta de explicações mais aprofundadas sobre as viagens no tempo. 

Se precisasse definir Kindred em uma palavra eu escolheria “perturbador”. Isso por que a obra é como um soco no estômago, que não apenas nos faz refletir e questionar o mundo que nos cerca, mas que também emociona. Sem sombra de dúvidas, esta foi uma das melhores leituras do ano e garantiu a Octavia Butler um lugar na categoria de autores que eu confio de olhos fechados. 

A boa notícia é que a Editora Morro Branco lança ainda em maio “A Parábola do Semeador”, o primeiro volume da duologia “Earthseed”. 

Título: Kindred – Laços de Sangue
Autora: Octavia E. Butler
N.º de páginas: 424
Editora: Morro Branco

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terça-feira, 17 de abril de 2018

RESENHA: Encarcerados

Encarcerados John Scalzi
Desde que li Guerra do Velho, me tornei fã incondicional de John Scalzi e estava extremamente curioso para conferir Encarcerados, uma promissora mescla de ficção científica e policial. 

A Síndrome de Haden matou mais de 400 milhões de pessoas e os sobreviventes precisaram lidar com uma terrível sequela: o encarceramento, ou seja, suas mentes saudáveis ficaram presas em corpos incapazes de se movimentar. A situação é contornada pela tecnologia, que permite que os hadens transfiram suas consciências para corpos robóticos e assim possam viver em sociedade. É neste contexto que conhecemos o haden Cris Shane que, em seu primeiro dia de trabalho no FBI, começa a investigar o assassinato de um homem em um quarto de hotel em Washington.

Como esperado de Scalzi, a narrativa é extremamente fluída e envolvente. Em poucas páginas o leitor já está completamente fascinado por este novo mundo e suas infinitas possibilidades. Aliás, é impossível não se impressionar com a originalidade do pano de fundo criado pelo autor. 

Outros dois aspectos também se destacaram. O primeiro deles é o bom humor presente na narrativa, que em diversos momentos me fez rir alto. O segundo é a quantidade de reflexões que a estória provoca, tais como identidade, evolução e os limites entre a moral e a tecnologia.

"— Estamos trabalhando em pesquisas para desencarcerar os acometidos pela Haden. [...]. Para libertar os corpos e trazê-los de volta ...
— Trazer-nos de volta de quê, exatamente? — questionou Hubbard. — De uma comunidade de 5 milhões de pessoas nos Estados Unidos e 40 milhões em todo o mundo? De uma cultura emergente que interage com o mundo físico, mas é independente dele, com preocupações, interesses e economia próprios? Você tem ciência de que um grande número de haddens não tem lembrança nenhuma do mundo físico?"(SCALZI, 2018, p. 96)

O protagonista é extremamente cativante, sendo um excelente condutor da estória. É através de seu olhar que entendemos o funcionamento deste universo, bem como acompanhamos a evolução da investigação policial e seus desdobramentos. 

A estória de Scalzi é um típico “whodunit”, ou seja, o livro gira em torno de descobrir quem é o responsável pelo assassinato. Apesar da identidade do assassino não ter me surpreendido, fiquei impressionado com a forma como a trama foi construída e amarrada. Além disso, saliento que o autor preferiu manter a verossimilhança do que forçar reviravoltas na estória apenas para surpreender o leitor. 

Encerro afirmando que John Scalzi partiu de um conceito interessantíssimo, mas também acertou em cheio no desenvolvimento da estória. Encarcerados é uma mistura bem sucedida de ficção científica e policial, que me prendeu do início ao fim e que provou que Scalzi é um dos autores mais criativos e originais da atualidade.  

Após encerrada a leitura, obviamente fiquei com um gostinho de quero mais e para minha alegria descobri que há uma continuação (Head On, lançado este mês nos Estados Unidos). Mas fique tranquilo, pois a estória de Encarcerados tem início, meio e fim, não ficando ganchos para o segundo livro. Na verdade, creio que as estórias dos livros serão independentes entre si, apenas dividindo o mesmo contexto e protagonista. 

Título: Encarcerados
Autor: John Scalzi
N.º de páginas: 326
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

RESENHA: Sangue por Sangue

Sangue por Sangue Ryan Graudin
Desde que li Lobo por Lobo, estava extremamente curioso para conferir a continuação da estória: Sangue por Sangue. O primeiro livro da duologia foi uma surpresa empolgante e que me deixou com a expectativa em alta para conhecer o desfecho da estória. 

ATENÇÃO: a sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é spoiler free. 

Yael cumpriu sua missão: atirou em Adolf Hitler diante das câmeras. Mas logo em seguida ela descobriu que aquele homem não era Hitler, e sim um metamorfo como ela. Agora, ela precisa fugir das garras do serviço secreto para se juntar a resistência e descobrir qual será o próximo passo da luta. 

A primeira observação que preciso fazer diz respeito a habilidade da autora em explorar absolutamente todos os detalhes do universo que criou. Graudin soube aproveitar ao máximo cada uma das possibilidades da estória, criando uma trama complexa e sem deixar pontar soltas pelo caminho.

Mais uma vez, temos uma narrativa bastante dinâmica e ágil, que envolve o leitor na saga de Yael. Porém, desta vez também acompanhamos os pontos de vista de Luka e Felix, uma vez que a estória ganha uma dimensão maior. Nem preciso dizer que ao mostrar os três pontos de vista, a autora conseguiu desenvolver ainda mais os personagens, mostrando diversas facetas de suas personalidades. 

"— Monstros abrem o corpo de crianças e chamam isso de progresso. Monstros matam grupos inteiros de pessoas sem pestanejar, mas ficam irritados quando têm que limpar as cinzas humanas dos morangos de seus jardins. Monstros veem as pessoas cometerem isso tudo e não fazem nada para impedir." (GRAUDIN, 2017, p. 291)

A estória criada por Graudin é extremamente original e criativa, sendo que também desperta diversas reflexões, principalmente sobre a temática da identidade. Porém, preciso registrar que em alguns momentos o livro se mostrou um pouco previsível. 

O final —  mesmo contando com uma revelação bastante surpreendente — não me pareceu impactante o suficiente. Não sei explicar exatamente o porquê, mas minha sensação foi que o desenvolvimento do desfecho pareceu um tanto morno quando comparado com o restante da jornada. 

Para quem tem receio de séries e da famosa “maldição do 2º livro”, garanto que não há nada a temer. Os dois livros se justificam, sendo que seria impossível contar toda a estória em apenas um volume. Além disso, em nenhum momento fiquei com a impressão de que a Graudin estava enrolando o leitor. 

A duologia escrita por Graudin é uma mistura inusitada de young adult e ficção científica, contando com doses generosas de ação, drama e romance. Apesar dos diferentes elementos, a autora soube utilizar os melhores elementos de cada gênero para compor uma estória verossímil e coesa. 

Mesmo esperado por um final mais marcante, preciso reconhecer que a série foi uma excelente experiência de leitura e o saldo certamente foi positivo. 

Título: Sangue por Sangue 
Autora: Ryan Graudin
N.º de páginas: 467
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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