Genly Ai foi enviado ao gelado planeta Gethen com a missão de convidar seus governantes a se juntarem a Ekumen, uma comunidade universal que reúne mais de 80 planetas. No entanto, Genly é humano demais e, mesmo após anos de estudo, não consegue compreender toda a riqueza e a complexidade da cultura daquele povo.
O livro é narrado em primeira pessoa por Genly, relatando sua missão, alternado com relatórios de outros visitantes e de lendas locais. A opção pela primeira pessoa me pareceu acertada, pois sentimos na pele todo o estranhamento que o protagonista sente. No entanto, creio que em alguns momentos a autora pesa a mão nas descrições, o que torna a leitura um pouco cansativa.
A Mão Esquerda da Escuridão é baseada no choque entre mundos. Ao mesmo tempo em que o universo vive uma utopia, experimentando o progresso e a cooperação entre os povos, Genly se vê jogado em um mundo com nações com intensas rivalidades e que o enxergam com desconfiança.
Mas a principal diferença do povo de Ghelen diz respeito ao gênero: trata-se de uma raça andrógena que, ao entrar no período reprodutivo, desenvolve os órgãos sexuais necessários para aquele momento. A autora desenvolveu de forma extremamente original as consequências deste aspecto em toda a estruturação da sociedade, sendo que as reflexões sobre este assunto certamente são o ponto alto do livro.
“Considere: qualquer um pode trabalhar em qualquer coisa. Parece muito simples, mas os efeitos psicológicos são incalculáveis. O fato de toda população, entre dezessete e trinta e cinco anos de idade, estar a sujeita a ficar (como Nim definiu) ‘amarrada à gravidez’ sugere que ninguém aqui fica tão completamente ‘amarrado’ como, provavelmente, ficam as mulheres em outros lugares – psicológica ou fisicamente. Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitário; todos tem o mesmo risco a correr ou a mesma escolha a fazer. Portanto, ninguém aqui é tão completamente livre quanto um macho livre, em qualquer outro lugar.” (LE GUIN, 2019, p. 103)
Mas apesar de ser o ponto alto, as reflexões de A Mão Esquerda da Escuridão também são seu calcanhar de Aquiles. Isso porque fiquei com a impressão que a autora teve mais interesse em desenvolver tais discussões, deixando a estória em segundo plano. Tanto é assim que preciso admitir que não senti uma conexão com o protagonista, nem com os demais personagens.
A Mão Esquerda da Escuridão é um clássico da ficção científica e Ursula K. Le Guin certamente foi uma escritora a frente do seu tempo, visto que há 50 anos já questionava os papeis de gênero que nos são impostos pela sociedade e sua obra nos faz imaginar um mundo sem tais delimitações. Ainda assim, apesar de toda a genialidade e crítica social, admito que o livro não me envolveu o quanto eu desejava.
Autora: Ursula K. Le Guin
Editora: Aleph
N.º de páginas: 304
Exemplar cedido pela editora
Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.





















