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quarta-feira, 8 de março de 2017

As Mulheres da Intrínseca

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Com a aproximação do Dia Internacional da Mulher, a Editora Intrínseca sugeriu que os blogs parceiros falassem um pouco sobre as principais escritoras do seu catálogo. Imediatamente aceitei o desafio de falar um pouquinho mais sobre algumas das autoras que me marcaram, percebendo, sem tanta surpresa, que todas se valem de personagens (principalmente femininas) com personalidades fortes, além de tramas intensas, e que todas figuraram nas minhas listas de melhores leituras ou de grandes expectativas dos últimos anos.

Jennifer EganA começar por Jennifer Egan, vencedora do Pulitzer pela genial colcha de retalhos “A Visita Cruel do Tempo”. Li todos os livros da autora e posso dizer, sem pestanejar, que ela acerta sempre. Para mim, um destaque na obra de Egan é como a autora sabe explorar personagens que, sem serem carismáticos, conquistam o leitor porque seus dramas, questionamentos e angústias são fascinantes. “Olhe para mim” é um livro maravilhoso sobre identidade (sobre a perda e busca dela). Sua história nos apresenta uma modelo que, após sofrer um acidente de carro, tem seu rosto destruído e reparado por uma cirurgia plástica. Ela volta a ser linda, mas agora com um rosto completamente diferente do que tinha antes, de maneira que ela já não se reconhece mais porque muito de sua vida se baseava em sua aparência.

A obra de estreia de Egan, “Circo Invisível”, é uma jornada espetacular de autoconhecimento protagonizada por uma personagem que, às sombras da memória da irmã a quem idolatrava, esqueceu de viver a própria vida e não tem a menor ideia de quem é. Aqui, a habilidade da autora está em fazer o leitor conhecer a fundo uma personagem que não conhece a si mesma e em fazer o leitor se sentir tocado por sua jornada, mesmo que não ache a protagonista cativante. Em ambos os livros, Egan aborda a perfeição que se espera das mulheres. As exigências dos outros e delas mesmas.

Lionel Shriver
Eu não poderia deixar de lado, Lionel Shriver autora do aclamado “Precisamos falar sobre o Kevin”, que elegi como a minha melhor leitura de 2016. A história de uma mãe que convive com as consequências do massacre provocado por seu filho no colégio e que resultou na morte de sete pessoas. A temática é forte e a personagem não busca, de maneira alguma, justificar o que o filho fez. Pelo contrário. Busca mostrar que todos os indícios de que ele poderia ser capaz de algo assim estavam ali desde a sua infância. Shriver molda uma história intensa, protagonizada por um personagem perturbador e uma mulher que tem a coragem de se mostrar falha e desconfortável naquele que todos esperavam que fosse o grande papel da sua vida: o de ser mãe. Um thriller fantástico que faz com que nos deparemos com um dos maiores clichês impostos pela sociedade às mulheres: a obrigação de desejarem ser mães, esquecendo que algumas não querem isso para si mesmas ou, simplesmente, não tem aptidão para a tarefa.

Elizabeth Haynes
Outra autora que me marcou muito foi Elizabeth Haynes, provavelmente o nome menos conhecido da lista, o que atribuo ao fato de que os livros que se seguiram a sua obra de estreia não  terem se equiparado àquela. Estou falando de “No Escuro”, um livro não tão badalado como merecia e um dos meus thrillers psicológicos favoritos. A história de uma mulher tão marcada por um relacionamento abusivo que praticamente se transformou em outra pessoa. A tortura pela qual essa mulher passa ao perceber certos comportamentos no seu “tão perfeito” namorado, a angústia que sente ao relatar suas percepções e medos para as amigas e ouvir todas dizerem que as atitudes dele são justificáveis e que a reação dela é um exagero, tornam a violência psicológica do livro muito pior do que a física e deixam o leitor hipnotizado mesmo que não não seja uma história de surpresas e reviravoltas. Hayes mostra aqui o inverso do que costumamos ver em relacionamentos abusivos: a mulher enxerga a que esta sendo submetida, mas as pessoas próximas a ela estão cegas pelo charme do namorado. Sem apoio, ela luta por si mesma, se revelando uma personagem forte, vivendo uma situação em que tudo a faz se sentir rebaixada, fraca e impotente.

Gillian FlynnE é claro que eu não poderia deixar de fora Gillian Flynn. A autora de um livro tão bom que até estragou a minha vida. Sempre gostei de thrillers e livros de suspense, mas desde a história de Nick e Amy tenho dificuldade de encontrar livros do gênero que me conquistem e surpreendam como “Garota Exemplar”. Que me deixem em estado praticamente catatônico ao final da leitura sem saber como voltar para a minha vida. A verdade é que nem mesmo os demais livros da autora causaram o mesmo impacto, embora todos sejam excelentes e suas mulheres sempre perturbadoras de alguma forma. Flynn destrói totalmente a tola ideia preconcebida de que toda mulher é doce e frágil, mostrando que mulheres podem ser cruéis e perversas (com os outros e com si mesmas, com os que pouco significam para elas e com os mais próximos) e que, quando o são, conseguem ser ainda mais intensas e ardilosas que os homens.

Todas as autoras citadas nesse post quebram clichês de alguma forma. Mas acima de tudo são excelentes na arte de criar, desenvolver e contar uma história. São autoras completas: têm bons personagens, narrativas envolventes e tramas cativantes. São autoras que conseguem desenvolver um laço com seus leitores: o da confiança de que qualquer coisa que venha delas vale a pena ser lida e que, mesmo quando não fazem o seu melhor (pois nem sempre é possível se superar a cada vez), ainda superam o melhor de muitos outros autores. Na verdade, a razão pela qual esperamos essa superação é porque elas estabeleceram para si mesmas os mais altos patamares com livros absolutamente inesquecíveis e porque, sobretudo, são únicas e não buscam soar como ninguém que veio antes delas. Que venham mais Egans e Shrivers e Hayes e Flynns não porque se assemelham a elas como tantas vezes tenta se propagar, mas porque são autoras surpreendentes. Autoras com uma voz literária única. Autoras irresistíveis.

domingo, 6 de novembro de 2016

RESENHA: O Adulto

“Ainda assim, eu também sentia: a casa. Não necessariamente malévola, mas... atenta. Podia senti-la me estudando, faz sentido? O lugar me sufocava. Certo dia eu estava esfregando o piso e de repente senti uma dor pungente no dedo médio — como se tivesse sido mordia —, e quando olhei, estava sangrando. Enrolei o dedo, apertando-o com um dos panos de limpeza, e vi o sangue penetrar no tecido. Senti como se algo na casa tivesse ficado satisfeito. 
Comecei a ter medo.” (FLYNN, 2016, p. 36)

***

Já comentei aqui no blog que não tenho o costume de ler contos, pois acho mais difícil de me conectar com a estória. Entretanto, após quase um ano sem ler algum livro de Gillian Flynn — uma das melhores autoras contemporâneas —, mal podia esperar para conferir O Adulto. E mesmo com altas expectativas, Flynn não decepciona. 

Uma jovem — cujo nome não sabemos — é uma falsa vidente. Tendo uma aptidão natural para “ler” as pessoas, ela nunca teve dificuldade em dizer exatamente o que seus clientes queriam ouvir. Quando atende Susan Burke, mulher que acredita que a casa para a qual se mudou está tornando seu enteado, Miles, mais agressivo, a “sensitiva” imagina que irá ganhar dinheiro fácil ao fazer uma limpeza espiritual na residência. Mas ao visitar a mansão e se deparar com situações apavorantes, ela percebe que Susan não é apenas uma mulher fútil em busca de emoções.  

A narrativa, em primeira pessoa, nos coloca ao lado da golpista e nos faz mergulhar de cabeça na estória. Mesmo sem saber seu nome, Flynn nos dá um retrato muito claro da protagonista, de modo que entendemos seus motivos e atitudes e logo simpatizamos com ela. Além disso, por ser um conto e ter menos de sessenta páginas, é impossível interromper a leitura antes de chegar ao final e descobrir como as peças se encaixam. 

Flynn mais uma vez impressiona pelo talento em construir personagens reais e, com o desenrolar da estória, vemos as diversas facetas de suas personalidades. Chama atenção o fato de que apesar da protagonista ser o nosso ponto de contato com a estória e estar diretamente relacionada aos eventos narrados, ela não é a personagem mais importante do conto, o que revela originalidade da autora. 

Desta vez, Flynn flerta com elementos sobrenaturais, sendo precisa em transmitir ao leitor uma atmosfera soturna e opressora nos momentos certos. Entretanto, o enfoque da trama ainda é a relação conturbada entre Susan e Miles e as consequências que advém desta situação, não apenas na vida deles, mas também na vida da protagonista. 

Apesar de não ter achado o desfecho tão imprevisível assim, mais uma vez é preciso reconhecer a genialidade da autora. Entretanto, ressalto que o conto deixa algumas perguntas no ar, de modo que aqueles leitores que preferem um final fechado podem se sentir um pouco frustrados. De minha parte, digo que a Flynn acertou em cheio, pois deixa o leitor em estado catatônico, tentando processar tudo o que leu. 

O Adulto é a prova cabal de que bons thrillers psicológicos não dependem do número de páginas, nem de reviravoltas impossíveis. Ainda assim, é impressionante como uma estória tão enxuta consegue ser tão surpreendente e impactante. Por isso mesmo, creio que O Adulto seja uma excelente forma de ser introduzido à obra de Gillian Flynn, mas que também agradará aqueles que já são fãs. 

Título: O Adulto (exemplar cedido pela editora)
Autora: Gillian Flynn
N.º de páginas: 64
Editora: Intrínseca

domingo, 31 de julho de 2016

Quem vem para o jantar? #26

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Não vou negar que o jantar desse mês foi organizado com base em segundas intenções: reunir essa dupla de autores na esperança que eles decidissem escrever um livro juntos. Eu não conseguia imaginar uma combinação mais perfeita, já que ambos criam personagens complexos e conseguem explorar o que o ser humano tem de pior, deixando o leitor sem fôlego ao chegar à última página, se perguntando como fará para continuar a vida depois do fim daquela história.

Para começar, ela que escreveu o livro que redefiniu a minha relação com a literatura policial e de suspense, porque depois dele nenhum teve o mesmo impacto. Gillian Flynn. Confesso que eu estava até com medo de recebe-la sozinha, afinal, eu li todos os seus livros e sei bem o tipo de ideias que passam pela sua mente. Quando a campainha tocou, verifiquei se algum item potencialmente perigoso estava à vista, embora eu não tenha dúvidas de que ela fosse capaz de transformar os mais inocentes objetos em fatais, caso quisesse. Quando abri a porta, ali estava ela, um pouco encolhida de frio, com um sorriso meigo e até mesmo um tanto tímido no rosto. Quando um “Até parece” saiu da minha boca sem que eu o controlasse, ela quis saber a que eu me referia. Achei mais seguro não revelar.

O tempo foi passando e eu comecei a ficar preocupada que meu segundo convidado não aparecesse. Será que ele havia descoberto qual fora a minha opinião inicial sobre ele? Será que ele deixaria de vir ao jantar por causa disso? Reconheço que tive algumas birras com as minhas primeiras leituras, mas agora ele faz parte da minha seleta lista de autores cujos livros eu leio dispensando sinopses, tamanha a minha confiança. Tudo que precisava era do livro certo para que ele me conquistasse e foi por isso que, quando Dennis Lehane chegou ao jantar se desculpando pelo atraso, fui eu que me desculpei.

Como boa anfitriã, cabia a mim apresentar os convidados. Mas, um pouco nervosa como estava diante de dois dos meus autores favoritos, talvez tenha confessado mais do que devia.

- Essa mulher estragou a minha vida – disse eu para Dennis.
- Por quê? – ambos quiseram saber. Dennis desconfiado, se aproximando um pouco mais da porta, talvez planejando uma fuga estratégica. Gillian um pouco ofendida.
- Porque “Garota Exemplar” é tão bom que depois dele nenhum livro de suspense chegou perto de provocar o mesmo efeito. Passei anos me decepcionando com as reviravoltas forçadas e com os acontecimentos previsíveis.
- Aquela sensação de “já vi isso antes”?, perguntou Gillian
- Exatamente. Até que tirei “Sobre Meninos e Lobos” da minha estante.
- Ele estava há muito tempo parado na sua estante? – quis saber o autor, ele agora ofendido.
- Sim, anos. Mas era porque eu esperava o momento ideal para ler – me apressei a explicar - E foi uma sábia decisão, pois ao final da leitura fiquei quase catatônica. Na verdade, quase me arrependi de ter lido.
- O que você disse? – perguntou Dennis, agora sim ofendido.

Eu precisava controlar o meu nervosismo.

- Porque era melhor não conhecer aquela história, entende? É tão intensa, tão angustiante e tão verdadeira. Tão surpreendente e ao mesmo tempo tão natural porque é um acúmulo de coisas que vai  apenas se intensificando e gerando consequências. No instante em que eu fechei o livro eu soube que aqueles personagens nunca iriam me deixar.
- Agora você está sendo gentil, apenas porque disse que Gillian humilhou todos nós.
- É a mais pura verdade.
- Qual delas? O seu elogio ou que fomos todos humilhados?

Rimos. Quem diria que com aqueles livros Dennis Lehane podia ter tanto senso de humor? A mim, restava conduzir meus convidados para a sala de jantar e cuidar o que diria dali para frente. Melhor nem dizer nada mesmo. Que eles conversem, percebam o quanto os seus estilos têm em comum e, quem sabe, gerem o livro dos meus sonhos.

sábado, 5 de dezembro de 2015

RESENHA: Lugares Escuros

“— [...]. É um crime insano, insano, grande parte dele não vai fazer sentido. Por isso as pessoas são tão obcecadas com esses assassinatos. Se fizessem algum sentido, não seriam realmente mistérios, certo?” (FLYNN, 2015, p. 123)

***

Considero Gillian Flynn uma das melhores autoras da atualidade, e depois de ter ficado atônito com Garota Exemplar, e espantado com Objetos Cortantes, mal podia esperar para conferir Lugares Escuros.

Em janeiro de 1985 a família Day foi assassinada, sendo Libby, uma garotinha de oito anos, a única sobrevivente. Foi seu irmão mais velho, Ben, quem foi condenado a prisão perpétua pela prática do crime, mesmo com poucas provas de seu envolvimento. Libby nunca teve dúvidas de que fora Ben quem cometera os assassinatos, mas quando um grupo de pessoas convencidas de que ele é inocente a instiga a desvendar os mistérios do passado, segredos começam a ser revelados. 

Creio que Lugares Escuros é o livro de Flynn que me envolveu mais rapidamente. Em poucas páginas já estava imerso naquele mundo, tentando entender o que tinha acontecido naquele fatídico dia, bem como tentando desvendar o caráter e a personalidade de Ben: manipulador ou vítima da situação? 

Porém, fiquei com a impressão de que o desenvolver da estória é um tanto lento. Libby começa a rastrear pessoas do passado, que poderiam saber detalhes sobre o caso, ou até mesmo estarem envolvidas com o crime, mas senti que foram poucas as respostas que o leitor encontra.Além disso, creio que esse desenvolvimento mais vagaroso se deva, em parte, a estrutura da obra, que conta com capítulos alternados entre Libby, narrando em primeira pessoa os acontecimentos nos dias de hoje, e um narrador em terceira pessoa, contando os pontos de vista de Ben e Patty (a mãe deles) sobre os eventos que antecederam os assassinatos. 

Um elemento presente nas obras da autora e que sempre me impressiona é a possibilidade de juntar as peças de inúmeras formas e ver que todas elas são plausíveis quando se chega ao final da estória. No decorrer da leitura, me vi criando novas teorias a todo instante, e isso só foi possível por causa da profundidade dos personagens, que permitiam múltiplas interpretações e poderiam ser vistos sobre diversos prismas. 

A reta final consiste em uma dose concentrada de ação e adrenalina, sendo impossível interromper a leitura até que todas as peças se juntem. E neste quesito Gillian Flynn também se sobressai: me impressiona como ela consegue amarrar a trama de forma tão cuidadosa, verossímil e ainda impressionar o leitor. Aliás, preciso registrar que Flynn é uma das poucas autoras que sabe manter o pé no chão quando se trata de thrillers psicológicos, não precisando recorrer a artifícios desnecessários e forçosos para criar reviravoltas surpreendentes. 

Creio que minha única decepção com a obra foi o fato de ter acertado parcialmente a resolução do mistério. A teoria que criei desde o início e na qual apostava as minhas fichas foi certeira, embora estivesse incompleta. Mas ainda assim, é impossível ler Lugares Escuros e não se espantar e maravilhar com a genialidade da autora.  

Contando com bons personagens, uma narrativa fluída e uma estória que envolve o leitor rapidamente, Flynn mostra seu talento mais uma vez. Mesmo não sendo a obra mais impactante ou surpreendente de sua autoria, Lugares Escuros é um excelente exemplar do gênero. 

A obra foi adaptada para o cinema neste ano, estrelando Charlize Theron. Clique aqui para assistir ao trailer. 

Título: Lugares Escuros (exemplar cedido pela editora)
Autora: Gillian Flynn
N.º de páginas: 351
Editora: Intrínseca

sexta-feira, 27 de março de 2015

RESENHA: Objetos Cortantes

“Curry gosta de dizer que repórteres são como vampiros. Não podem entrar em sua casa sem um convite, mas, uma vez do lado de dentro, você não consegue expulsá-los até que tenham sugado todo o seu sangue.” (FLYNN, 2015, p. 107).

***

Garota Exemplar foi o melhor thriller psicológico que já li. E depois que um livro estabelece um padrão tão alto para comparações, decepções literárias se tornam comuns. Assim, ao mesmo tempo que mal podia esperar para conferir Objetos Cortantes, também sentia aquele receio de não encontrar algo a altura do outro livro. Porém, fiquem tranquilos. Se existe alguém que sabe o que faz, este alguém se chama Gillian Flynn. 

Camille, uma repórter do jornal Chicago Daily Post, é convocada por seu editor a retornar à sua cidade natal, para cobrir o assassinato de uma garota e o sequestro de outra. Camille, que não mantém boas relações com sua família, volta a contragosto para a pequena Wind Gap, onde terá de enfrentar os fantasmas do passado enquanto investiga os misteriosos casos. 

A qualidade mais marcante de Objetos Cortantes é como a autora consegue manter um clima de tensão em todo o tempo. A ideia de ter como cenário uma cidade interiorana no Missouri, onde todos se conhecem (e, consequentemente, conhecem os segredos alheios) foi o ambiente ideal para construir este cenário de suspeita e desconfiança. 

É incrível como Flynn tem um talento natural para fazer com que o leitor desconfie de tudo e de todos ao mesmo tempo. Enquanto muitos autores sofrem em tentar despistar a atenção do leitor, deixando pistas fajutas no decorrer da trama, Flynn não tenta induzir o leitor em erro, pois conta com personagens tão bons, que “joguinhos” são desnecessários.

A verdade é que os personagens de Objetos Cortantes são o ponto alto da obra. Flynn criou personagens complexos, ambíguos, traumatizados, dissimulados, conflituosos e manipuladores, que não são facilmente interpretados, e que desafiam o leitor a compreendê-los. Assim, é fácil entender por que o leitor fica se perguntando sobre as motivações e ações de cada um deles, tentando determinar se suas palavras são confiáveis ou não. 

Obviamente, muitas teses sobre os casos de Wind Gap me ocorreram durante a leitura, e o mais interessante foi perceber, ao final, que muitas delas de fato faziam sentido. Ou seja, o domínio que Flynn detinha sobre a trama era tanto que, ao mesmo tempo que conseguiu apresentar peças que se encaixavam de formas diferentes, também conseguiu encerrar a obra amarrando todas as pontas de forma coerente.

Quanto ao desfecho de Objetos Cortantes, embora não seja o mais surpreendente de todos, se mostrou condizente com a obra e absurdamente genial. Mais uma vez a autora encerra a obra e deixa o leitor em um estado de choque, tentando assimilar todas as informações e processar os últimos acontecimentos. 

E quanto a pergunta que não quer calar: Objetos Cortantes supera Garota Exemplar? Creio que Objetos Cortantes não conta com o ritmo acelerado, nem com as reviravoltas alucinantes de Garota Exemplar, mas certamente não deixa a desejar. Aliás, Objetos Cortantes apresenta uma qualidade surpreendente para um livro de estreia e já demonstra os sinais da grande autora que Flynn viria a se tornar. 

Se fosse preciso definir Objetos Cortantes, diria: deliciosamente perturbador. Mostrando que é possível fazer um excelente thriller psicológico em pouco mais duzentas e cinquenta páginas, Gillian Flynn fixa seu nome na literatura contemporânea de forma indubitável e indelével. 

Objetos Cortantes ganhará uma adaptação para a televisão, contando com Flynn como produtora executiva. Dark Places, o segundo livro da autora, tem previsão de lançamento para este ano, pela editora Intrínseca. 

Título: Objetos Cortantes (exemplar cedido pela editora)
Autora: Gillian Flynn
N.º de páginas: 254
Editora: Intrínseca

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Especial de Fim de Ano: Expectativa Literária 2014



Para encerrar o Especial de Fim de Ano, falamos um pouco sobre quais são os nossos livros mais desejados para 2014. Tivemos alguns problemas técnicos com a máquina, e por isso tivemos de trocar de câmera no final do vídeo (é o nosso segundo vídeo..ainda estamos pegando o jeito rsrs). 

Esperamos que tenham gostado desse especial e nos digam quais são as maiores expectativas de vocês para 2014 e se assim como nós estão ansiosos para ler alguns dos livros que citamos. E não esqueçam de inscrever-se em nosso canal no YouTube.



Resenhas Citadas:

Eu Sou o Número Quatro - Pittacus Lore
O Poder dos Seis - Pittacus Lore
Marilyn e JFK - François Forestier
Branca Como o Leite, Vermelha Como o Sangue - Alessandro D'avenia
Criança 44 - Tom Rob Smith
Discurso Secreto - Tom Rob Smith
Garota Exemplar - Gillian Flynn
A Sombra do Vento - Carlos Ruis Zafón
Estrela do Diabo - Jo Nesbo
O Redentor - Jo Nesbo
Sob a Redoma - Stephen King

Outros posts citados:
Retrospectiva Literária: Melhores de 2012 - Lista da Mari
Lista de Releitura: Garganta Vermelha - Jo Nesbo
Conversa de Contracapa: Adaptação de Sob a Redoma
Retrospectiva Literária: Melhores de 2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

Especial de Fim de Ano: Retrospectiva Literária 2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quem vem para o jantar? # 21

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

No ano passado, a festa do nosso primeiro aniversário surpreendeu a todos os convidados. Então, esse ano, com a intenção de fazer algo ainda melhor, decidimos fazer um evento mais elegante. Tendo isso em mente, entramos em contato com Mr. Darcy e Elizabeth, os quais, de bom grado, cederam o espaço para a nossa comemoração: a casa de Pemberley.

Estando em um local tão requintado e suntuoso, é claro que o nosso jantar subiu para o nível de banquete. O único problema é que precisaríamos limitar o número de convidados. Assim sendo, optamos por reduzir a lista apenas a autores que conhecemos desde a última festa, mas sem esquecer, é claro, de três convidados que terão sempre lugar de honra nos nossos eventos. Tendo a decoração e o cardápio definidos, mal podíamos esperar a chegada de nossos queridos convidados.
  

O primeiro a chegar foi F.Scott Fitzgerald e ele vinha sozinho. Sua esposa — a também escritora Zelda Fitzgerald — ficara em casa, pois um pouco antes de sair o casal tivera uma de suas brigas. Aceitando a primeira de muitas taças de champagne, Scott nos deu o maior elogio da noite:

— Essa é uma festa digna de Jay Gatsby!

Pouco depois de Fitzgerald chegavam Agatha Christie e Jane Austen, mantendo a tradição da pontualidade britânica. Nem é preciso dizer que estávamos extasiados em ter novamente a presença  dessas grandes damas. Jane, porém, logo se dispersou, mas Agatha se manteve conosco e, a pedidos, contava a respeito de sua última expedição na companhia do marido.

— A Mesopotâmia é fascinante!

Mesmo sem envolver em seus relatos os crimes pelos quais é tão conhecida, a Dama do Crime fascinou a todos com o seu relato e aos poucos os convidados a cercavam para ouvir mais.
Percebemos que, enquanto falava, Agatha se mantinha atenta ao que acontecia ao nosso redor e acompanhava o movimento dos garçons, recusando sempre que lhe era oferecida uma bebida. Curiosos, ficamos a observar a escritora e entendemos o seu comportamento apenas ao constatar que ela só aceitou sua primeira taça de champagne quando conseguiu manter sob vigília todos os passos do garçom, desde a cozinha até que ele chegasse ao seu lado. Trocamos um olhar de compreensão e contivemos um sorriso: nossa convidada era extremamente cuidadosa com o que ingeria, afinal, ela sabia melhor do que ninguém o tipo de coisas que podem ser colocadas acidentalmente nas bebidas.

Quando a sobremesa chegou, nossos convidados já estavam mais a vontade, o que era ótimo pois nos liberava parcialmente do trabalho de anfitriões e nos permitia observar os encontros inusitados que se formavam. Foi assim que testemunhamos a aproximação de Jane Austen e seu conterrâneo Ben Aaronovitch, autor da série “Enigmas de Londres”. Após conhecer J.K. Rowling no jantar que oferecemos no ano passado, Jane ficou curiosa para ler a saga Harry Potter e, ao terminar a leitura do último livro, percebeu que se tornara fã do gênero fantástico. Assim, ela logo aproveitou a oportunidade de embarcar nas aventuras de Peter Grant, guarda da polícia metropolitana e aprendiz de mago, pelo submundo londrino.

— Como você teve a ideia de unir fantasia e suspense? — indagou Jane.
— São os meus gêneros favoritos. — respondeu o outro e, após terminar de comer uma fatia de generosa de torta, acrescentou: — Sempre tive vontade de mesclá-los.

Do outro lado da mesa, percebemos que Michael Connelly se aproximava de Elizabeth Haynes e Gillian Flynn. Ele parecia ter certo receio principalmente em relação a essa última, talvez por medo que a protagonista de “Garota Exemplar” fosse um reflexo de sua autora. De qualquer forma, era difícil acreditar que um rosto tão meigo pudesse criar uma trama tão impactante e foi isso que Connelly disse a Flynn. Ela enrubesceu, pois se disse fã das séries Harry Bosch e Michael Haller e ao perguntar sobre futuras aventuras de Jack McEvoy disse ter um carinho especial pelo protagonista de “O Poeta”.

Connelly, que começava a ficar encabulado com tanta atenção, direcionou o assunto para Elizabeth Heynes, autora de "No Escuro", sem saber que com isso as duas autoras começariam a trocar figurinhas sobre como fazer thrillers psicológicos viciantes e com isso, o deixariam de lado. 

Mas a essa hora a noite já se encaminhava para o final. Connelly se despediu das autoras e do restante dos convidados, passando na saída por Ben Aaronovitch que nesse momento conversava com Alessandro D’avenia sobre a maravilhosa experiência que tivera durante a leitura do belo “Branca Como o Leite, Vermelha Como o Sangue”.

— Certamente, foi um dos livros mais emocionantes que já li. E sua narrativa é tão impactante que me fazia parar a todo instante para refletir.

Alessandro recebeu o elogio com um sorriso no rosto e, embora tenha admitido não ter lido nenhum livro da série “Enigmas de Londres” por falta de tempo, disse que era fã da série britânica "Doctor Who", da qual Ben foi roteirista.

Agatha Christie e Jane Austen também decidiram partir aproveitando a companhia uma da outra. Podemos perceber que para Jane era difícil deixar Pemberley, afinal o lugar saíra de sua própria imaginação, mas ela já estava cansada, visto que nunca fora muito chegada a festas.

F. Scott Fitzgerald, ao contrário, ficou nos fazendo companhia até o nascer do sol.


Nosso segundo aniversário foi uma noite e tanto. 


terça-feira, 28 de maio de 2013

RESENHA: Garota Exemplar

“Fico de pé no meio do quarto e penso em não abrir. Toc, toc, toc. Agora entendo por que tantos filmes de terror usam esse artifício — a batida misteriosa na porta —, porque ele tem o peso de um pesadelo. Você não sabe o que está lá fora, mas sabe que irá abrir. Você pensa o mesmo que eu: ninguém mau bate na porta.” (FLYNN, 2013, p. 330)

***

Foi no último trimestre do ano passado que vi o livro Garota Exemplar (Gone Girl no original) entre os mais vendidos da Amazon americana pela primeira vez. Minha curiosidade foi atiçada ao constatar que, visita após visita, o livro continuava na referida lista. Assim que li a sinopse, o livro entrou para a lista "PRECISO LER", e mesmo tendo altas expectativas para a leitura, fui surpreendido capítulo após capítulo.

No dia do aniversário de cinco anos de casamento, Amy desaparece. Seu marido, Nick, encontra sinais de luta na sala de sua casa, e logo chama a polícia, imaginando que sua esposa tenha sido sequestrada. Todavia, após o início das investigações, Nick se torna o principal suspeito. 

A narrativa, em primeira pessoa, é alternada entre o ponto de vista dos protagonistas: enquanto Nick narra os acontecimentos que ocorrem a partir do dia do desaparecimento da esposa, Amy nos faz retornar ao passado, através de seu diário, contando ao leitor como eles se conheceram e como foram os primeiros anos da vida de casados.

Uma das principais qualidades da narrativa é a sua deliciosa ambiguidade  Acho que uma das perguntas mais recorrentes durante a leitura foi: “O que tal personagem quis dizer com isso?”. Todavia, registre-se que a ambiguidade não se limita aos diálogos, mas reveste até mesmo as atitudes dos protagonistas. 

A genialidade de Gillian Flynn surpreende o leitor quando as primeiras peças começam a se encaixar, e as reviravoltas mais inesperadas têm início. De minha parte digo que fui completamente tragado pela leitura, varando as noites prometendo a mim mesmo: “Vou ler apenas mais um capítulo” para logo em seguida dizer: “Não posso parar agora”. 

O final, embora não tenha me agradado por completo, se mostrou coerente com o desenrolar da estória, além de deixar o leitor atônito e sem palavras.  

Garota Exemplar é uma mistura rara que combina altas doses de suspense e tensão, brindando o leitor com personagens bem construídos, além de contar com uma trama densa, que se desenrola de forma sutil. Alguma surpresa para o fato de Gillian Flynn ter entrado para o seleto grupo de autores que dispensam sinopse? Basta ver seu nome na capa e já sei que preciso ler o livro.

A boa notícia é que a Editora Intrínseca já comprou os direitos para publicação do livro Dark Places.

Título: Garota Exemplar (exemplar cedido pela Editora Intrínseca)
Autora: Gillian Flynn
N.º de Páginas: 443
Editora: Intrínseca
 

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