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terça-feira, 31 de março de 2015

RESENHA: A Fazenda

“Mas não importa que sejam mentiras, porque quando você mora em uma comunidade que acredita nessas mentiras, repete essas mentiras, as mentiras se tornam reais – reais para você, reais para os outros. Você não tem como escapar delas, porque não é uma questão de provas, é maldade, e maldade não precisa de provas.” (SMITH, p. 131, 2015)

Minhas experiências com “Criança 44” e “O Discurso Secreto” foram boas o suficiente para eu ter certeza que leria qualquer livro de Tom Rob Smith, independente da sinopse. “A Fazenda” não foi tudo o que eu esperava do autor, mas foi um bom entretenimento.

Durante toda a sua vida, Daniel testemunhou o relacionamento perfeito de seus pais e quando eles decidiram encerrar o negócio que mantiveram por anos e se mudar para uma fazenda na Suécia, esse devia ser o início de uma nova etapa nas suas vidas. Daniel, porém, quase não manteve contato já que a distância dos pais era uma desculpa para ele continuar a manter sua vida particular em segredo. Ele achava que estava tudo bem, até o dia em que seu pai lhe telefona, dizendo que sua mãe está internada em um hospital e que foi diagnosticada como psicótica. Preocupado, Daniel compra uma passagem para a Suécia, mas antes que embarque, a mãe lhe telefona. Seu pedido é que não acredite em uma palavra do que o pai disse. Ele é um mentiroso e um criminoso. Ela não é louca e não precisa de médicos. O que precisa é da polícia. A partir disso, Daniel fica entre duas versões perturbadoras da mesma história.

Eu lembrava de Tom Rob Smith como um autor de narrativa detalhada e bem escrita, mas o que encontrei em “A Fazenda” foi muito mais fluidez do que as características que minha lembrança guardava. O autor consegue impulsionar o leitor de forma que se torna impossível largar o livro, tanto que eu mal havia começado a leitura e quando vi já estava na página 100.

O livro é construído com trechos curtos, intercalando duas narrativas em primeira pessoa: o relato da mãe de Daniel sobre o que aconteceu no verão, e do próprio Daniel diante de tal relato.

Como já sabemos desde o início que o relato de Tilde – a mãe de Daniel - pode ser um delírio, a personagem se configura como uma narradora não-confiável, já que não importa o quanto ela acredite na história que conta, só temos a palavra dela de que as coisas aconteceram daquela maneira. Mas acreditamos? Embora faça sentido em alguns momentos, em outros o relato parece fruto de alguém que tem mania de perseguição e é isso que mantém o interesse do leitor na história. Para mim, o que aconteceu durante o verão na tal fazenda sueca não era nem de longe tão interessante quanto a consequência desses eventos na dinâmica dessa família. Ao contar uma história em que o marido diz que a esposa está louca e a esposa o acusa de ser um criminoso, estando seu filho no meio das duas versões, Smith cria uma série de perguntas a partir de uma inicial: a história de Tilde é verdadeira ou ela está delirando? Ou seja, quem fala a verdade: ela ou Chris (seu marido)? Se é Tilde, como as lacunas se preenchem e por que o antes sempre dedicado marido se voltou contra ela e se envolveu em um crime? Se é Chris, o que de fato aconteceu que levou Tilde a ter uma interpretação tão errônea e como essa mulher que sempre foi centrada e racional teve um surto psicótico em poucos meses? Por fim, independente de quem fala a verdade, nenhum dos cenários é bom para Daniel já que ou sua mãe está louca ou seu pai é um criminoso. Diante disso, qual será sua reação ao descobrir a verdade? Independente das respostas, a dinâmica dessa família nunca mais será a mesma e, a meu ver, essas consequências são muito mais interessantes do que o mistério da fazenda.

Essa é a razão que me impede de dizer que “A Fazenda” é um ótimo livro. Embora tenha devorado suas páginas, eu não consegui me interessar pela história que Tilde contava. Talvez a intenção do autor tenha sido mesmo fazer com que a história fosse sobre a família e não sobre os eventos do verão, mas para mim ficou faltando um algo a mais.

Além disso, em uma história que se configura desde o início por ser uma coisa ou outra (ou Tilde é louca, ou Chris é criminoso), optar por uma resposta extrema seria simplório e pouco surpreendente, mas Smith consegue criar um desfecho adequado que não faz com que o leitor se sinta enganado. Embora eu não tenha gostado de algumas respostas, considero aceitável o final proposto pelo autor.

Entre erros e certos, acredito que Smith entrega um bom livro de maneira geral. “A Fazenda” não tem o capricho de desenvolvimento de personagens e intrigas de seus primeiros livros, mas mantém o leitor envolvido da primeira à última página.

Título: A Fazenda (exemplar cedido pela editora)
Autor: Tom Rob Smith
Nº de páginas: 333
Editora: Record

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Especial de Fim de Ano: Expectativa Literária 2014



Para encerrar o Especial de Fim de Ano, falamos um pouco sobre quais são os nossos livros mais desejados para 2014. Tivemos alguns problemas técnicos com a máquina, e por isso tivemos de trocar de câmera no final do vídeo (é o nosso segundo vídeo..ainda estamos pegando o jeito rsrs)

Esperamos que tenham gostado desse especial e nos digam quais são as maiores expectativas de vocês para 2014 e se assim como nós estão ansiosos para ler alguns dos livros que citamos. E não esqueçam de inscrever-se em nosso canal no YouTube.



Resenhas Citadas:

Eu Sou o Número Quatro - Pittacus Lore
O Poder dos Seis - Pittacus Lore
Marilyn e JFK - François Forestier
Branca Como o Leite, Vermelha Como o Sangue - Alessandro D'avenia
Criança 44 - Tom Rob Smith
Discurso Secreto - Tom Rob Smith
Garota Exemplar - Gillian Flynn
A Sombra do Vento - Carlos Ruis Zafón
Estrela do Diabo - Jo Nesbo
O Redentor - Jo Nesbo
Sob a Redoma - Stephen King

Outros posts citados:
Retrospectiva Literária: Melhores de 2012 - Lista da Mari
Lista de Releitura: Garganta Vermelha - Jo Nesbo
Conversa de Contracapa: Adaptação de Sob a Redoma
Retrospectiva Literária: Melhores de 2013

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

RESENHA: O Discurso Secreto

“Zóia abriu a mão, jogando rapidamente a terra fora. Ela não queria lembrar mais. Se não podia entender o sentido da vida, ela certamente poderia entender o sentido da morte. A morte significaria o fim de todas essas memórias tristes, o fim das lamentações. A morte seria menos vazia que a vida” (SMITH, 2011, p.169)

Depois de ler “Criança 44”, livro de estréia de Tom Rob Smith, minhas expectativas para “O Discurso Secreto”, continuação do livro citado, eram altas. A segunda aventura de Liev Demidov é, assim como a primeira, impactante, mas deixa a desejar quando feita a comparação.

O livro começa mostrando o antigo Liev, agente da MGB, quatro anos antes dos acontecimentos de “Criança 44”. Então a história avança sete anos onde reencontramos o Liev que passou por tantas provações no livro anterior. Agora, ele está mudado. Não trabalha mais para a MGB, e sim no Departamento de Homicídios, um novo tipo de polícia secreta. Agora ele tem duas filhas adotivas: Zóia, a mais velha, com quem tem um difícil relacionamento, e Elena, a mais nova, mais receptiva às mudanças e ao amor que Liev e Raíssa querem lhe dar. Os tempos também são outros. Stalin está morto e seu sucessor, Khruschev faz um discurso condenando as ações de seu predecessor e prometendo que o tempo de violência ficou no passado. E é então que as pessoas se revoltam contra o estado a quem culpam por tanto sofrimento.

A escrita de Tom Rob Smith é, mais uma vez, exemplar. Forte e impactante, assim como a história que está sendo contada, e o autor a utiliza para dar vida aos seus personagens de forma que para o leitor é muito fácil sentir que conhece cada um deles. É fácil compreender os conflitos de sentimentos deles quando se sabe os horrores do passado de cada um e se entende que esse passado interfere em cada atitude e cada escolha tomada no presente.

Nesse livro, Liev vai enfrentar seus demônios, sofrendo com a vingança de uma das pessoas a quem mandou prender no tempo em que trabalhava para a segurança do estado. Sua filha mais velha é sequestrada e a fim de resgatá-la ele é levado um dos gulags (campos de trabalho forçado) para onde ele mesmo mandou diversas pessoas. Lá, ele é torturado e obrigado a sentir na própria pele o que aquelas pessoas sentiram.

Dito isso, para mim duas personagens merecem destaque: Zóia, a filha de Liev, e Fraera, a mulher que quer se vingar dele. Como a história gira em torno de Liev tentando salvar sua família, Zóia está bem no centro da trama, e talvez seja uma das razões para eu não gostar tanto desse livro. Eu não suporto a menina. Entendo todos os conflitos dela e o ódio que sente por Liev (não vou entrar em detalhes para não dar spoiler), mas acho que a maneira como ela age não tem justificativa. Ainda assim, a personagem é muito bem construída pelo autor e desempenha papel fundamental na trama. Fraera, por sua vez, é a prova de como o sofrimento pode mudar uma pessoa. Essa é uma mulher que apaga toda a sua identidade, deixando a vida que tinha antes de ser presa por Liev no passado, e torna-se líder de uma gangue. É uma personagem detestável, guiada única e exclusivamente pelo ódio e que chega a dizer para Zóia em um determinado momento que o ódio não é algo que você sente temporariamente e depois deixa de sentir, como o amor, mas algo que lhe acompanha a vida inteira. Acho que essa frase esclarece bem a personagem.

Em meio a tudo isso, há uma revolução ocorrendo nas ruas e tudo que Liev quer é manter a sua família a salvo.


Quando eu digo gostei mais de “Criança 44” do que de “O Discurso Secreto” não quer dizer que não gostei desse livro. Ele é ótimo. Mas considero o primeiro mais surpreendente, para mim a revelação veio como um choque, e mais envolvente. Algumas partes de “O Discurso Secreto”, como o tempo que Liev passa no gulag e a viagem de navio que o leva até lá, se estendem demais e desnecessariamente, na minha modesta opinião, mas não tiram o brilho da trama.

Nesse livro, fica claro mais uma vez o talento de Smith em unir o início do livro ao final, fechando um ciclo de maneira exemplar. Essa foi uma das coisas que me conquistou no autor e dois livros foram o suficiente para me fazer dizer que gosto muito do estilo de Tom Rob Smith que escreve com primazia histórias inteligentes e envolventes. Pesquisando, descobri que no ano passado o autor lançou mais um livro protagonizado por Liev Demidov, “Agent 6” e eu mal posso esperar para que ele seja lançado no Brasil.

Para encerrar, eu não posso deixar de dizer o mesmo que disse sobre “Criança 44”: a capa de “O Discurso Secreto” é belíssima.

Título
: O Discurso Secreto

Autor: Tom Rob Smith
Nº de páginas
: 414
Editora
: Best Bolso - Record

sábado, 4 de fevereiro de 2012

RESENHA: Criança 44

“Medida cautelar. Com essas palavras, todas as mortes estavam justificadas. Melhor destruir o próprio povo do que permitir que um soldado alemão achasse um pedaço de pão. Era proibido ter escrúpulos, arrumar desculpas ou fazer perguntas. Ser contra os assassinatos era crime de traição.” (SMITH, 2011, p.215)

Quando comecei a ler “Criança 44” eu soube, já na primeira página, que tinha em mãos um grande livro. Tom Rob Smith deixa claro nas primeiras linhas o impacto de sua narrativa, a força da história que tem para contar e revela que os personagens não são meros personagens: são seres humanos.

O livro começa com um tom angustiante. Em uma pequena aldeia, uma mulher cozinha as tiras da bota de couro para comer. Dois irmãos, o mais velho com 10 anos, saem para caçar um gato como prato principal para o jantar. Um deles não volta. É sequestrado, provavelmente para servir de alimento para outra família. 15 páginas e eu já estava fascinada com a capacidade do autor em empregar sentimento a uma narrativa de suspense.

A trama se passa na Rússia Stalinista, em 1953. O medo está a solta nas ruas. Você não precisa fazer nada de errado para ser considerado um traidor, basta parecer suspeito de alguma coisa em algum momento. O agente da MGB, segurança do estado, Liev Demidov é apenas um dos agentes que prende e interroga inocentes até que eles confessem culpa de algo de que nem o menos tem conhecimento. Faz parte do trabalho e não há nada que ele possa fazer para impedir.

O corpo de um menino, filho de um de seus colegas, é encontrado morto perto dos trilhos do trem. O pai do menino está convencido que foi assassinato. Liev é enviado a convencer o homem de que se trata de um trágico acidente, pois é mais fácil acobertar os crimes do que encontrar uma resposta.

Liev começa a se incomodar com essas e com outras coisas. O ápice da revolta do agente ocorre quando Raíssa, sua esposa, passa a ser suspeita de traição e cabe a ele entregá-la para o estado. A mensagem subliminar está clara: é a vida dela pela vida dele. Se ele não entregá-la, os dois serão mortos acusados de traição.

Rebaixado e transferido de Moscou, Liev se depara com mortes semelhantes à do menino que foi encontrado nos trilhos e percebe que aquele não foi um mero acidente e esses não são crimes isolados. São obras de um assassino perigoso e extremamente cruel. Ele passa a investigar os casos e, a partir disso, sua situação com o governo fica cada vez pior.

A história é muito bem amarrada, contada lentamente e rica em detalhes. Entre o medo político, os maus tratos sofridos e as angustias dos personagens é possível sentir esse sofrimento junto com eles. É possível acompanhar a transformação de Liev e de seu casamento com Raíssa, apegar-se a personagens e torcer para que tenham um final feliz (mesmo sabendo que isso será praticamente impossível) e encontrar pelo caminho personagens detestáveis como Vassili, colega de Liev que cultiva por ele um ódio intenso que chega a ser seu estímulo de vida.

O autor parece não apressar a narrativa porque tem tamanha confiança em sua trama que sabe que vale a pena fazer o leitor esperar por ela. E vale muito. Devo dizer que jamais imaginei que a história seguiria o caminho que seguiu. Em nenhum momento desconfiei das respostas (para falar a verdade, não desconfiei ao menos das perguntas) e fiquei maravilhada. “Criança 44” é um daqueles livros que valem por tudo. Pela jornada, pela história em si, pela maneira como ela é contada e pelo seu desfecho.

“Criança 44” é o livro de estréia de Tom Rob Smith e apresenta um autor que além de fundamentar em pesquisas os fatos sobre os quais escreve (ao final do livro há uma serie de leituras recomendadas aos interessados e que serviram como base para o autor) é um excelente criador e contador de histórias. É uma trama inteligente e escrita magistralmente. É sim um excelente suspense, mas mais do isso, é um excelente livro. Recomendo a todos.

Em breve estarei publicando a resenha de “O Discurso Secreto”, continuação de “Criança 44”.

PS.: Eu sei que não se deve julgar um livro pela capa, mas no caso de “Criança 44” a capa merece um comentário à parte. É linda! As arvores desfolhadas e a neve, mais do que fiéis a trama, mostram a dificuldade dos tempos em que vivem os personagens. O respingo de sangue, sem fazer com que a capa se torne sinistra ou macabra, é o suficiente para mostrar ao leitor que ele tem em mãos um livro de suspense. É uma das capas mais lindas que eu vi nos últimos tempos.

Título: Criança 44
Autor: Tom Rob Smith
Nº páginas: 416
Editora: BestBolso – Record



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