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domingo, 28 de maio de 2017

[Fantasia] para quem não gosta de [fantasia]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

1. Harry Potter

Sim, a série Harry Potter é a primeira da minha lista de indicações para quem não gosta de fantasia. Isso por que a saga do bruxinho mais famoso da literatura não é apenas uma estória sobre feitiços, poções e magia. J.K. Rowling criou um mundo fantástico — extremamente complexo e repleto de possibilidades, diga-se de passagem — que serve de pano de fundo para discutir questões muito mais importantes, tais como amizade, amor, ódio, integridade, preconceito, justiça, e tantos outros. Então, muito mais do que um mero livro juvenil ou de fantasia, vejo Harry Potter como a saga de três jovens amigos que crescem em um cenário conturbado e que optam não apenas por resistir ao mal, mas combatê-lo com todas as suas forças. Sinceramente, se eu tivesse que fazer uma aposta sobre qual livro da nossa geração tem mais chances de se tornar um clássico, meu dinheiro certamente estaria na obra-prima de J.K. Rowling. Isso por que Harry Potter fala de temas universais, com os quais todos podem se identificar, e tenho certeza que as aventuras desse trio continuará inspirando e emocionado leitores por muito tempo.

A premissa de pessoas comuns que descobrem superpoderes e fazem enormes sacrifícios pessoais para garantir a segurança do mundo já foi usada tantas vezes que me surpreendo em continuar vendo livros, séries e filmes explorarem esta ideia. Felizmente, Brandon Sanderson inverteu o clichê: e se as pessoas comuns que recebessem superpoderes se tornassem ditadores maquiavélicos e não se importassem com nada além da satisfação de suas vontades? Como se não bastasse a lufada de originalidade, o primeiro livro da série, Coração de Aço, mescla ação, aventura e suspense com muito humor, uma narrativa extremamente fluída e envolvente, além de personagens extremamente bem construídos. A literatura fantástica sempre me empolgou por ser um mundo de infinitas possibilidades, mas, infelizmente, o que eu estava encontrando nos últimos tempos era mais do mesmo. Creio que justamente por isso apreciei ainda mais a obra de Sanderson, que conseguiu explorar todo o potencial que sua estória tinha a oferecer. E a boa notícia é que o segundo livro da trilogia, Tormenta de Fogo, tem previsão de lançamento para junho. 

Também não poderia deixar de citar a obra épica de George Martin, embora seja a série que indico com reservas. Sim, Martin é audacioso, cria tramas complexas, nos surpreende com reviravoltas empolgantes e não tem medo de um banho de sangue. Mas seus livros são densos, alguns são extremamente descritivos e chegam a ser monótonos, então não irão agradar a todos. Mas por que indico estes calhamaços para quem não gosta de fantasia? Por que a meu ver As Crônicas de Gelo e Fogo são, acima de qualquer outra coisa, uma estória sobre os jogos de poder e os elementos fantásticos apenas fazem parte daquele mundo, mas não constituem o cerne da obra. Eu li apenas os quatro primeiros livros e achei que os elementos fantásticos foram explorados de forma bem superficial até o momento, o que apenas reforça minha teoria. Então, se você não tem medo de livros grandes e gosta da temática de jogos de poder, creio que As Crônicas de Gelo e Fogo é uma boa pedida. 



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

RESENHA: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

“DUMBLEDORE: Harry, nunca existe uma resposta perfeita nesse mundo confuso e perturbado. A perfeição está fora do alcance da humanidade, fora do alcance da magia. Em cada momento luminoso de felicidade há esta gota de veneno: o conhecimento de que a dor voltará. Seja sincero com aqueles que ama, mostre sua dor. Sofrer é tão humano quanto respirar.” (ROWLING; TIFFANY; THORNE, 2016, p. 275)

A oitava história de Harry Potter, dezenove anos depois. Alguém em sã consciência não ficou enlouquecidamente ansioso assim que soube que isso ia existir?

Nunca foi fácil ser Harry Potter, mas também não é fácil ser filho de Harry Potter. Alvo Severo, o segundo filho de Harry e Gina, agora frequenta Hogwarts e enfrenta o peso de levar o nome do menino que liderou a batalha contra o maior bruxo das trevas que já existiu.

Fugi o máximo possível de qualquer informação sobre “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”. Por isso, quando comecei a ler, tudo que eu sabia era que a tal criança do título era Alvo Severo. Dali para frente, tudo foi surpresa. Para que você também tenha suas surpresas, aviso: essa resenha contém alguns spoilers.

Antes de mais nada é preciso reconhecer a coragem de J.K. Rowling em dar continuidade à história de Harry Potter, pois isso significa mexer em uma obra irretocável. Há nove anos ganhamos um final cheio de aventura e ação, mas também lindo e emocionante. E se esse sentimento se perdesse? E se essa nova história estragasse tudo? E se, ao ler, você pensasse: “Esses não são os personagens que eu conheço”? Seria um sentimento terrível. Mas estamos falando da pessoa que teve a genialidade de criar esse mundo tão rico e é claro que ela não decepcionaria agora. Dito isso, eu não esperava muitas das coisas abordadas nesse livro, mas fiquei bem satisfeita com o que encontrei.

A começar pela relação de Harry e Alvo. Eu jamais imaginei Harry (que, acima de tudo, sempre sonhou em ter uma família) tendo problemas com seu filho. Jamais imaginei que o menino pudesse sentir qualquer outra coisa pelo pai que não idolatria. E jamais (jamais!) imaginei que ele não seria um destaque em Hogwarts, que não seria popular, que iria para a Sonserina (!) e que teria como melhor amigo o filho de Draco Malfoy (ah, como o mundo bruxo dá voltas...).

Acredito que Rowling enfrentou uma série de desafios com essa história. O primeiro deles: como é um mundo após a queda de Voldemort? Obviamente não pode ser perfeito, então quais são os desafios? Como vivem aqueles que nunca conheceram um mundo assombrado por Voldemort? E, principalmente, quem será o nosso vilão se antes tínhamos um dos maiores vilões de todos os tempos? É uma responsabilidade como substituir Darth Vader! E a autora arruma outra saída que eu jamais havia imaginado: Voldemort teve um filho! E o que esse filho quer? Trazer seu pai de volta para dominar o mundo bruxo. Simples e genial.

Outro desafio era que o foco não deveria ser tanto nos nossos velhos conhecidos e sim nos novos personagens. Como fazer isso de forma que não estranhássemos e ainda assim víssemos as características que nos fizeram amar a saga para começo de conversa? Fácil: qual a essência de Harry Potter? A aventura, a amizade e a importância de se fazer a coisa certa. E é isso que vemos acontecer com Alvo e Escórpio Malfoy. Uma amizade verdadeira que se provará diante dos maiores perigos.

“ESCÓRPIO: O mundo muda e nós mudamos com ele. Estou melhor neste mundo. Mas o mundo não é melhor. E eu não quero isso.” (ROWLING; TIFFANY; THORNE, 2016, p. 207)

“ALVO: Amigo, agora que temos isto (...) nossa jornada está só começando.
ESCÓRPIO: Só está começando e já quase nos matou. Ótimo. Vai ser ótimo.” (ROWLING; TIFFANY; THORNE, 2016, p. 94)

Quanto aos nossos velhos amigos, é muito gostoso ver que as relações continuam as mesmas e que eles tomaram os rumos que poderíamos ter previsto. Rony continua engraçado, Hermione continua um poço de responsabilidade (e agora é Ministra da Magia – que orgulho!), Harry continua tendo um enorme coração (e por vezes o peso do mundo nas costas) e Gina continua forte e determinada. Nesse sentido, um dos personagens mais interessantes de reencontrarmos é Draco Malfoy, que ao longo da saga foi se mostrando, aos poucos, menos filho de Lucio do que se poderia supor. Draco nunca será humilde, mas há muito deixou de ser o menino insuportavelmente arrogante que conhecemos em “Harry Potter e a Pedra Filosofal” e há uma cena ótima (um dos diálogos mais bonitos da peça/livro, na minha opinião) em que ele confessa ter sonhado em ter a amizade que Harry, Rony e Hermione tinham. Agora, Draco é um pai como qualquer outro. Preocupado com seu filho, cometendo muitos erros, mas sempre tentando acertar.

Outra escolha que me agradou muito foi a revisitação de alguns momentos icônicos da saga (como o Torneio Tribruxo) e o uso o vira-tempo para nos mostrar como teria sido o destino dos personagens caso algumas escolhas tivessem sido diferentes. Mas mais do que tudo, achei incrível que o ápice da história estivesse ligado justamente ao momento em que tudo começou: a noite em que Voldemort matou Lílian e Tiago em Godric’s Hollow. Ali Harry venceu Voldemort mais uma vez, mas também reviveu a maior perda da sua vida. Um momento glorioso, carregado de tristeza e beleza, como a saga sempre soube entregar.

É preciso mencionar também que este texto não é uma narrativa convencional (e não foi escrito por JK Rowling e sim baseado no argumento dela para a peça), afinal se trata de uma versão especial de um roteiro teatral. Por isso, a leitura causa estranheza já que não temos uma narrativa contínua, apenas breves comentários que nos permitem visualizar as cenas. Além disso, os diálogos são marcados pelo nome do personagem que fala. Mas logo é possível se acostumar e a leitura flui muito rápido (tanto que li em poucas horas).

Sim, Alvo é um tanto imaturo, mas ele é apenas uma criança que - assim como seu pai cresceu sendo “o menino que sobreviveu” - cresce sendo “o filho de Harry Potter” e ainda não encontrou uma maneira de lidar com as decepções e superá-las. Sim, Harry comete erros como pai, mas ele está em uma nova fase da vida, enfrentando novos desafios, muitas vezes sem saber como agir diante deles. Não, Alvo e Escórpio não têm o carisma nem a força de Harry, Rony e Hermione, mas a saga nunca se fez apenas de seus protagonistas e sim de um conjunto de situações e essa essência se manteve. Isso, para mim, era o mais importante. “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” não tem a grandiosidade dos livros originais da saga (e nem poderia ter, já que se trata de uma trama avulsa, mas que precisa estar linkada a todo o histórico da série), mas é um retorno competente ao mundo que aprendemos a amar e que jamais esqueceremos. Sem dúvida, enche o coração do leitor de saudade e coloca um sorriso no seu rosto.

Sempre há lugar para as trevas, mas também sempre há lugar para a amizade. E é essa a mensagem que “Harry Potter” reforça mais uma vez: que o amor e a lealdade são os maiores poderes de que alguém pode dispor.

“GINA: Harry, você tem um dos maiores corações de qualquer bruxo que já viveu...” (ROWLING; TIFFANY; THORNE, 2016, p. 138)

Título: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (exemplar cedido pela editora)
Autor: J.K. Rowling, John Tiffany & Jack Thorne
N° de páginas: 343
Editora: Rocco

quarta-feira, 9 de março de 2016

RESENHA: Morte Súbita

“Na sua opinião, o maior erro de noventa e nove por cento das pessoas é ter vergonha de serem quem são, é mentir a esse respeito, fingindo ser alguém diferente. A honestidade era a sua marca, a sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, ficam chocadas.” (ROWLING, p.77, 2012)

Como não ter altas expectativas pelo primeiro livro publicado por J.K. Rowling após a saga Harry Potter? Logo que “Morte Súbita” chegou no Brasil, tratei de adquirir meu exemplar, mas demorei a fazer a leitura. Uma das razões foram as inúmeras resenhas contraditórias que vi pela blogosfera: alguns consideram o livro incrível, outros detestam tanto que nem chegaram a concluir. A unanimidade me parecia ser a lentidão do livro. Desde então, esperei o momento certo para poder ler com calma e tirar minhas próprias conclusões. Fico feliz em dizer que faço parte do time dos que reconhecem as inúmeras qualidades do livro.

Após a morte repentina de Barry Fairbrother, uma vaga fica disponível no conselho administrativo do pequeno vilarejo de Pagford. Esse é o pontapé inicial para uma série de acontecimentos que envolverão os segredos, as más decisões, as intrigas e picuinhas que existem entre os moradores da cidade.

Ao invés do livro lento que me preparei para encontrar nas primeiras páginas, “Morte Súbita” se revelou já no início uma vitrine de personagens promissores. É bem verdade que os acontecimentos demoram a engrenar e que demoramos a entender como aquele vasto elenco de personagens se cruza, mas sou uma árdua defensora de que o que faz bons livros são bons personagens. Tendo personalidade e conflitos interessantes, as situações em que eles se encontram é o que menos importa. E é com base nisso que J.K. constrói sua história. Se nas duas primeiras páginas temos a morte de Barry Fairbrother, nas cinquenta seguintes o que temos é o circular da notícia pelo vilarejo. É através de pequenos comentários e reações que a autora nos apresenta seu elenco. Um excelente exemplo do que é saber mostrar e não dizer na literatura.

Muito gradativamente as coisas começam a ser colocadas em movimento. Mas é importante ter em mente que “Morte Súbita” não gira em torno de um acontecimento e o leitor que embarcar na aventura querendo encontrar uma trama bem definida ou a resolução de um conflito especifico (digamos “quem irá ocupar a vaga deixada por Barry”) irá se decepcionar profundamente, pois não existe tal conflito. Arrisco dizer que esses são os leitores que dizem que o livro é arrastado e que nada acontece. Mas quem tiver em mente que essa é a história de um grupo de personagens, contada de maneira orgânica, de forma que eles vão se cruzando uns com os outros de diversas maneiras, culminando em várias pequenas situações, verá que acontece muita coisa.

Também é preciso ter em mente que o cenário de “Morte Súbita” é uma cidade pequena. Se os acontecimentos do livro não ocorrem em uma velocidade alucinante é porque jamais seria assim em um lugar como Pagford. Lá as coisas acontecem aos poucos, mas todas deixam marcas profundas já que todo mundo conhece detalhes da vida uns dos outros e de alguma forma todos estão entrelaçados mesmo que vivam histórias bem diferentes. Por isso mesmo, os segredos desses personagens são parte fundamental dos acontecimentos da trama.

Algo que me manteve fascinada era não ter a menor ideia de onde J.K. queria chegar com tudo aquilo e fiquei satisfeita em ver que não havia um único lugar. O que havia eram as consequências de uma série de eventos e escolhas feitas pelos personagens. Embora alguns eventos sejam mais marcantes que outros, temos muitos pequenos desfechos.

E por falar em final, os últimos capítulos são de tanta tensão e emoção que é quase impossível acreditar que a autora estava construindo tudo aquilo diante dos nossos olhos sem que percebêssemos que era assim que se desenrolaria. Ao final, vemos que “Morte Súbita” é um trabalho de tapeçaria executado por uma habilidosa artesã.

Quanto aos personagens, é muito difícil dar destaques. Entre alguns completamente desprezíveis (como Simon e Howard), outros deliciosamente complexos (como Krystal) todos, sem excessão, são verossímeis e interessantes. O próprio Barry Fairbrother, que morre no primeiro capítulo, ecoa com a mesma força que os demais personagens. Aliás, o livro serve também como prova de que não se faz necessário narrar pelo ponto de vista de determinado personagem para conhece-lo a fundo. Em “Morte Súbita” vemos todos os personagens sob os mais diversos pontos de vista e isso é o mais interessante. O narrador onisciente, em terceira pessoa, nos leva a conhecer cada um desses personagens pelos olhos dos outros personagens, e também deles mesmos, mostrando todos os pontos de vista de maneira natural, sem forçar divisões e transições.

Pode até ser que o livro não mantenha seu leitor fissurado ao longo de todas as 500 páginas, mas sem duvida consegue manter o interesse e é um atestado (se é que se precisa mais algum) do talento de J.K. Rowling. Porque só uma grande escritora, com total domínio de sua criação, seria capaz de um livro como “Morte Súbita”.

Em 2015, a BBC adaptou o romance para uma mini-serie em três episódios. 

Título: Morte Súbita
Autora: J.K. Rowling
N° de páginas: 501
Editora: Nova Fronteira

sábado, 13 de setembro de 2014

Quem vem para o jantar? # 22

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Há meses planejávamos a festa do nosso aniversario de três anos. As histórias sobre os encontros históricos dos aniversários anteriores já circulavam no universo literário e muitos dos nossos convidados em potencial manifestavam interesse em comparecer. 

Um deles foi George R.R. Martin. Nos sentimos honrados com o interesse do escritor, porém, usando de muita diplomacia, encontramos um jeito de não convidá-lo. Entre nós, decidimos: É melhor deixá-lo em casa trabalhando no sexto livro. Se ele ficar indo em festas desse jeito, já pensou quando vai terminar a série? Além disso, todos sabemos o que Martin gosta de fazer com festas. Ainda assim, lhe mandamos uma mensagem carinhosa (e levemente chantagista):

Quando você terminar o último livro, sediaremos a festa em Westeros e você será o convidado de honra. 

Há algumas semanas, começamos a enviar os convites e foi com estranheza que recebemos inúmeras respostas de recusas. Eram as desculpas mais estapafúrdias vindas de pessoas que tinham tudo para inventar ótimos pretextos (afinal, é de inventar histórias que nossos convidados vivem). J.K. Rowling nos disse que fora informada que uma violenta espécie de gripe draconiana estava assolando a américa, enquanto Isaac Azimov alegou estar fazendo pesquisa de campo para seu próximo livro. E então uma das mensagens nos fez entender o porquê de tantas recusas (não revelaremos aqui o conteúdo para não entregar quem foi o autor), basta dizer que o local que escolhemos para sediar nosso tão aguardado evento estava assustando os nossos convidados (e eles ainda nem haviam chegado aqui!). Ora... e nós que pensamos que o Hotel Overlook seria, além de tudo, prático, já que os convidados poderiam se hospedar para passar a noite depois da festa e seguir para casa no dia seguinte. 

Mas já era tarde demais para mudar e muita gente interessante havia confirmado presença. 

Nossas primeiras convidadas chegaram juntas. Elas que nunca faltaram às nossas festas e nunca nos decepcionaram quando recorremos a elas como leitores: Agatha Christie e Jane Austen. Sabendo já serem “da casa”, ambas se ofereceram a ajudar nos bastidores do evento, mas recusamos a gentileza, pois queríamos que elas aproveitassem essa noite tanto quanto as outras.

E por falar nas outras noites, quem também faltou a nossa comemoração foi Michael Connelly, alegando que havíamos lido poucos livros dele nos últimos tempos. Uma pena, mas compreendemos já que realmente temos negligenciado o autor. Esperamos encontrar você ano que vem, Connelly. Entre nós, comentamos que Agatha e Jane poderiam ter usado o mesmo argumento e nos encheu de orgulho elas deixarem isso de lado e estarem conosco da mesma forma. Ambas sabem que não as esquecemos. É apenas a falta de tempo (não que isso aplaque nosso remorso).

Quem também chegou cedo foi Ernest Hemingway e foi logo pedindo pela localização do bar. Ele também nos disse que logo antes de sair de casa havia conversado com seu amigo de longa data F.Scott Fitzgerald que lhe dissera o quanto lamentava não vir a festa desse ano, pois a do ano passado havia sido “digna de Jay Gatsby”. 

Distraídos pelas poucas, porém precisas, palavras de Hemingway, não percebemos a presença de Guilhermo Del Toro e Chuck Hogan, que não apenas foram os primeiros a responder nosso convite, mas assim que chegaram começaram a explorar o hotel. Pelo que entendemos, os autores da Trilogia da Escuridão estavam empolgados com oportunidade de encontrar as meninas gêmeas que supostamente assombravam o local. Quando deram sua aventura por encerrada e retornaram à festa, narraram a empreitada:

— Estávamos no corredor do terceiro andar quando as luzes começaram a piscar, até apagarem por completo. — disse Del Toro, enquanto Hogan virava uma dose de tequila. — Ouvíamos murmúrios incompreensíveis e o ar parecia ficar mais frio a cada passo. 

Os convidados que ouviam a estória seguraram a respiração involuntariamente, enquanto Hogan continuava:

— De repente, um grito horripilante começou a ecoar. Vocês não ouviram daqui?

Todos menearam a cabeça, negativamente. O autor estava prestes a continuar sua narrativa, mas então Guilhermo não conseguiu mais segurar sua gargalhada:

— Não acredito que vocês caíram nessa. 

Todos pareciam estar se divertindo, mas estávamos preocupados. Nosso convidado de honra estava atrasado, o que era muito estranho sendo ele um suíço. Mas a partir do momento em que ele chegou, foi difícil distribuirmos a nossa atenção igualmente a todos os nossos maravilhosos convidados. Joel Dicker, como já fizera antes durante seu “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” soube nos envolver com suas palavras de maneira que esquecemos todo o resto. Eventualmente nos afastamos movidos por uma especial curiosidade em ver com quais autores Dicker interagiria já que seu livro mistura tantos gêneros tão habilmente.  

Não foi uma surpresa ver que o jovem autor buscou a companhia de Charles Dickens, dizendo ter adorado a jornada de Pip e que “Grandes Esperanças” era um de seus livros de cabeceira. Joel também confidenciou sua preocupação acerca da adaptação cinematográfica de seu livro, ao que Dickens retrucou:

— Nenhuma adaptação consegue suprir nossas expectativas. Se quer meu conselho, não assista e poupe-se do sofrimento. 

Não pudemos deixar de rir do comentário amargurado do escritor, visto que conferimos a malfadada série da BBC inspirada na obra. 

Deixamos Dicker se aconselhando sobre sua promissora carreira com o grande Dickens e fomos para outro canto do salão, onde encontramos o ancião Pittacus Lore falando com nostalgia sobre o planeta de Lorien para Richelle Mead e Suzanne Collins (que, por sua vez, não sentia falta alguma de Panem e estava muito bonita em um vestido desenhado por Cinna). Enquanto os autores se dedicaram a discutir os rumos da literatura fantástica, tivemos a impressão de ver um lírio discretamente tatuado no pescoço de Richelle. Curiosos e intrigados, tentamos averiguar se aquela seria a tatuagem que imaginávamos, mas a autora, ao perceber nosso interesse, jogou seu cabelo sobre o pescoço e piscou pra nós.

A noite estava querendo virar madrugada quando recebemos uma mensagem de um convidado que fez muita falta, mas não pode comparecer visto que na véspera fora sua própria festa de aniversário. Suas palavras eram inconfundíveis: 

“Lembrem-se de verificar a caldeira e aproveitem a festa. Nos vemos, qualquer dia desses, no escuro. Steve.”

Trocamos um olhar misto de divertimento e preocupação. Não custava nada verificar a caldeira...de novo. 

Agatha e Jane foram as primeiras a ir embora e Dickens fez questão de acompanhar as damas em segurança. Aos poucos, os outros convidados os seguiram, com exceção de Guilhermo e Chuck, que foram os únicos que aceitaram dormir no hotel. Esperamos que tenham sido deles os barulhos estranhos que ouvimos durante a noite.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

RESENHA: O Chamado do Cuco

“Ele tinha esperanças de localizar a sombra vacilante de um assassino ao virar as páginas do arquivo, mas, em vez disso, era o fantasma da própria Lula que surgia, olhava-o, como vítimas de crimes violentos às vezes faziam, do que restava de sua interrompida.” (GALBRAITH, pag. 174, 2013)

Quando a modelo Lula Landry cai da sacada do seu apartamento, sua trágica morte é considerada suicídio. Três meses depois, o detetive Cormoran Strike é contratado pelo irmão de Lula para investigar a morte que ele acredita ter sido assassinato. Aos poucos o detetive se afasta da teoria do suicídio e se envolve em um mundo de luxo, muito diferente do que ele – um veterano de guerra - conhece. Nos mesmos dias, o escritório de Strike é agraciado com uma secretária temporária, Robin, que se revelará uma assistente tão valiosa quanto inusitada.

Um dos livros mais aguardados do ano, “O Chamado do Cuco” apresenta uma trama policial que foca nas relações conturbadas e duvidosas de seus personagens. Para mim, o mais interessante foi observar o quanto as pessoas do círculo familiar e social de Lula têm idéias contraditórias umas sobre as outras.

Personagens desagradáveis e interesseiros desfilam pelas páginas, fazendo com que a construção de suas personalidades e suas falhas de caráter sejam pontos de destaque. Além disso, o autor trabalha muito bem a unicidade da voz de cada um - o que os torna reais aos olhos do leitor - como se não fossem personagens construídos para uma história e sim pessoas reais que caíram nela. Dar um desfecho para cada um desses personagens não é uma preocupação do autor. Eles servem ao caso e não o caso e eles e quando sua serventia tem fim, também o tem a sua participação na história.

A narrativa não tem pressa e insere o leitor na atmosfera de Londres sempre que possível. Esse não é um livro policial que você vai ler madrugada adentro sem conseguir parar. Robert Galbraith toma seu tempo para contar a história e se a princípio parece que ela demora a engrenar – o que é perfeitamente aceitável, visto que a morte de Lula, após ser investigada à exaustão, foi considerada suicídio e então não faria sentido Strike encontrar furos ou provas de seu assassinato imediatamente - chega um momento em que ter respostas passa a ser uma necessidade para o leitor, pois há muitas informações o cercando. É curioso que seja justamente essa lentidão e essas incertezas as responsáveis pelo melhor de “O Chamado do Cuco”. Podemos não estar desesperados para saber o que aconteceu com Lula e não estarmos devorando as páginas, mas nossa sensação de incerteza é tão real quanto seria se fossemos um dos personagens que vivem a história.

Enquanto a investigação dá seus primeiros passos, nos familiarizamos com Strike e Robin e os vemos construírem sua relação aos poucos. Detetives particulares tendem a ser personagens fortes e solitários e não é sempre que um autor consegue inserir satisfatoriamente um assistente nessa equação de forma que esse coadjuvante seja alguém que realmente contribua para o desenvolvimento do caso, trazendo para a investigação algo que o protagonista não poderia oferecer, e ainda consiga desenvolver uma boa dinâmica entre os dois personagens. É por isso que Robin brilha. Longe de ser um daqueles companheiros de detetive que estão ali apenas para que o dito cujo tenha alguém que escute seus devaneios e assim não passe o livro falando sozinho, Robin traz graça à história. De um trabalho formal em relações públicas ela passa a ser secretária de detetive e se empolga a cada descoberta de uma maneira que só iniciantes poderiam.

É por essas razões que “O Chamado do Cuco” transpira naturalidade. O ritmo da investigação, as entrevistas do detetive com personagens que deixam de fazer parte da trama quando já não têm importância na investigação, os diferentes pontos de vista que pessoas diferentes têm, tudo isso soa muito real.

Além disso, a resolução do caso é de uma simplicidade admirável, como sempre ocorre nos melhores romances policiais. O que começa sendo intricado, se desenrola para se revelar simples. Embora tenha demorado um pouco, o livro me fisgou e me deixou com um ar de sorriso no rosto nas últimas páginas e na expectativa de reencontrar Strike e Robin.

Esse é o melhor livro policial do ano? Eu não diria tanto. A verdade é que minha expectativa para “O Chamado do Cuco” era ler por horas e horas, sem ver o tempo passar e sem querer largá-lo. Não foi esse o ritmo que eu encontrei no primeiro livro de Robert Galbraith, mas isso não o desmerece de forma alguma. Temos personagens bem construídos, relações conflituosas, um caso interessante e uma narrativa primorosa. É apenas uma questão de se adequar ao ritmo e se deixar levar.

Robert Galbraith é o pseudônimo de J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter.

Título: O Chamado do Cuco (exemplar cedido pela Editora Rocco)
Autor: Robert Galbraith
Tradutora: Ryta Vinagre
Nº de páginas: 447
Editora: Rocco

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Nascimento de Harry Potter e o Túmulo de Voldemort

Quando fiz meu intercâmbio, além de aprender inglês, também tive a oportunidade de viajar para algumas cidades. E é claro que como um bom bookaholic, não poderia deixar de conferir a história por trás de alguns livros. Na coluna Viagem Literária, compartilho com vocês as experiências mais marcantes que tive. 

Nossa primeira parada tem como destino a capital da Escócia, Edimburgo, declarada pela UNESCO como Cidade da Literatura. Edimburgo foi lar ou fonte de inspiração para escritores como Walter Scott, Robert Louis Stevenson, Arthur Conan Doyle e J. K. Rowling. No post de hoje, o foco será em J.K. e na saga Harry Potter!


O Nascimento de Harry Potter

Mãe solteira e desempregada, J.K. Rowling começou a frequentar o The Elephant House para dar vida ao bruxinho mais famoso da literatura. Sentada em uma mesa nos fundos do café, a vista da autora era do famoso Castelo de Edimburgo e da George Herriot’s School. Diz a lenda que foram estas construções que inspiraram J.K. na criação de Hogwarts. Veja as fotos e tire suas conclusões (George Herriot's School à esquerda e Castelo de Edimburgo à direita).


Apenas para o registo, hoje os filhos de J.K. estudam na George Herriot’s School, a terceira escola mais cara de Edimburgo.

Após todo o sucesso de Harry Potter, o The Elephant House saiu no lucro visto que os fãs fazem filas para conhecer o “local de nascimento de Harry Potter”. Para minha alegria a fila estava curta e todos os clientes estavam esperando dentro do café (para registrar, acho que nunca passei tanto frio como em Edinburgo). Sim, acredite, há dias que a fila é do lado de fora mesmo. E como você pode ver na foto abaixo, não havia mesas vagas.

Agora, se você me dá licença, vou me exibir um pouco: tomar um capuccino no local onde J.K. Rowling escreveu os dois primeiros volumes da saga foi inesquecível. Fora isso, devo ser sincero: The Elephant House não tem nada de mais.

The Elephant House

Após beber a minha xícara de café (e me esquentar), faço uma pausa para ir ao banheiro, e qual não é minha surpresa ao encontrar inúmeras declarações dos fãs nas portas e paredes.


Foto 1: "'Palavras são, em minha não tão humilde opinião, nossa magia mais poderosa' Você provou isto, Jo, obrigado por HP e pela minha infância."

Foto 2: "'Nenhuma estória vive a não ser que alguém queria escutar' Eu sempre estarei pronto para ouvir suas estórias. Obrigado Jo, por tudo. Sempre."


O Túmulo de Lord Voldmort

Saindo do café e caminhando em direção a George Herriot’s School, chegamos ao cemitério Greyfriars. E é lá que encontramos o túmulo de Lord Voldemort. Mais uma vez, diz a lenda que J.K. Rowling passeava pelo cemitério e atribuiu a seus personagens os nomes que encontrava nas lápides.

Túmulo de Voldemort

Além de Thomas Riddell, o túmulo do poeta Wiliam McGonagal fica às portas da escola, que curiosamente é marcada por formas que lembram o chapéu seletor. Coincidência ou inspiração?


Sobre a viagem

A sensação de visitar Edimburgo deve ser semelhante com a de voltar no tempo. De longe, foi a cidade mais medieval que conheci. Todo o centro histórico possui o mesmo estilo arquitetônico do Castelo de Edimburgo e da George Herriot's School, ou seja, é uma cidade muito galante e inspiradora.

O Castelo de Edimburgo é absurdamente gigante, mas não são todas as alas que estão abertas para visitação. Infelizmente, são poucos os ambientes que foram mantidos como eram antigamente. Sim, acredite, mudaram completamente o interior da construção de algumas alas para abrigarem modernos museus. Uma heresia.

O National Museum of Scotland também merece ser conhecido, pois conta com um acervo bastante diverso: lá você vai encontrar de tesouros egípcios e até mesmo o fóssil de um tiranossauro rex.

Infelizmente, permaneci em Edimburgo por apenas três dias, de modo que não tive tempo para conhecer muitos pontos turísticos da cidade, tendo me limitado ao centro histórico. E sinceramente? Já foi o suficiente para me deixar com vontade de retornar e poder explorar com mais tempo o que a cidade tem a oferecer.

Não deixe de clicar aqui para conferir nossa próxima parada: Roma.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Expectativas Literárias 2013: Lista da Mari

Escolher só cinco livros para essa lista foi muito (muito!) difícil. Evitei incluir nela livros de autores como Agatha Christie, Raymond Chandler, Georges Simenon e Michael Connelly, que sempre estão na minha lista, e também de Jo Nesbo, Lawrence Block e Val McDermid que descobri mais recentemente e também me conquistaram, me fazendo querer ler todos os seus livros que surgirem na minha frente. Assim, a lista ficou sendo a seguinte:

A Janela Quebrada – Jeffery Deaver

Gosto muito de Deaver e faz tempo que não leio nenhum de seus livros que são policiais, mas com uma pitada forense que os torna únicos. Essa é a oitava aventura da dupla Lyncon Rhyme e Amelia Sachs que eu adoro e eu mal posso esperar para conferir.

Morte Súbita – J.K. Rowling

Não é pela sinopse e sim pelo nome da autora. Seja lá o que for que J.K. fez nesse livro, não acredito que a mente que criou um universo tão rico quanto o de Harry Potter seja capaz de um livro ruim.


 A Zona Morta – Stephen King

A Zona Morta não é um livro do terror do mestre do terror. É um suspense com uma pitada de ficção cientifica, gênero que nunca me atraiu, mas que esse ano aprendi a enxergar com outros olhos e apreciar. PS.: Minha leitura do momento é “Sob a Redoma”, o que está aumentando consideravelmente minha expectativa sobre “A Zona Morta”.


O Prisioneiro do Céu – Carlos Ruiz Zafón

Livro que encerra a trilogia do cemitério dos livros esquecidos. Não preciso dizer mais nada, certo?









O Estranho Mundo de Tim Burton – Paul A. Woods

Eu adoro os filmes de Tim Burton. Adoro a maneira como o diretor mistura a comédia e o horror e de alguma forma consegue que suas bizarrices sejam artisticamente belas e muitas vezes de uma sensibilidade tocante. Lógico que quero esse livro que não é uma biografia, mas sim uma analise da obra do diretor.


Menção Honrosa: Vira-vira Ernest Hemingway: O Velho e o Mar / As Neves de Kilimanjaro

Ernest Hemingway é, possivelmente, um dos maiores escritores que já existiu e eu admiro imensamente sua habilidade de dizer tanto e ser tão visual com tão poucas palavras. Já li alguns de seus contos, mas romance mesmo só li um (“Adeus às Armas”). Há tempos tenho vontade de adquirir essa edição vira-vira que conta com um de seus títulos mais famosos e ainda uma coletânea de contos, mas nunca mais a vi disponível. É provável que eu acabe comprando os títulos separados, mas adoraria encontrar essa edição.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quem vem para o jantar? #15

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Sempre bem vinda, a turma de Hogwarts marca presença mais uma vez em nossos jantares. Esta será uma recepção especial, pois será exclusivamente para eles, porque estes três convidados são os meus personagens favoritos, dentre os inúmeros inesquecíveis criados por J.K. Rowling. Ainda não sei se será uma boa ideia juntá-los nesta noite, afinal dois deles tem um histórico complicado e não se gostam desde seus tempos de estudante na escola de magia e bruxaria. Mas, com tanta água embaixo da ponte, quem sabe o que pode acontecer?

Mesmo tendo uma participação menor na saga (apenas 3 livros contam com sua presença) o padrinho de Harry, Sirius Black, é o queridinho do meu coração. Ele é o responsável por “O Prizioneiro de Azkaban” ser o título que brilha quando alguém me pergunta qual dos sete livros é o meu favorito. Embora tenha menos acontecimentos emocionantes e nem mesmo conte com a presença de Lord Voldemort, “O Prizioneiro de Azkaban” tem Sirius Black e isso é muita coisa. Sirius perdeu seus melhores amigos de forma trágica, sofreu durante anos na temível prisão e ainda conseguiu manter, não apenas a sanidade, mas também o amor pelo afilhado e a cara-de-pau. Sim, a cara-de-pau e audácia de Sirius Black são alguns dos ingredientes que temperam esse delicioso e queridíssimo personagem. Sua morte é, de longe, a mais sentida por mim e uma das razões pelas quais Bellatrix Lestrange é a personagem que mais detesto da saga (sentimento que veio a ser reforçado pela interpretação da ótima Helena Bonham Carter no papel da bruxa desequilibrada, devota ao Lord das trevas e sem a menor noção de amor ou qualquer outro sentimento nobre).

Quando menciono o segundo convidado como um dos meus personagens favoritos, o estranhamento é grande, mesmo que com o fim da saga muitos tenham passado a vê-lo com outros olhos. Não foi o meu caso, porque eu sempre gostei de Severo Snape. Desde quando seus esforços para salvar Harry são revelados em “A Pedra Filosofal”, eu sempre acreditei que o amargo e mal-humorado professor era “bonzinho” e tinha, sim, deixado o lado das trevas (ok, confesso que depois da morte de Dumbledore duvidei disso por um momento, mas eu sabia que ele não iria me decepcionar). Snape é sofrido, reprimido, foi mal compreendido por quase sua vida inteira, mas gosto de pensar que tenha ganhado o reconhecimento merecido após a sua morte. Alias, falando em morte, eu disse que a morte de Sirius era a mais sentida por mim, mas agora que penso na morte de Snape, já não tenho tanta certeza. Lembro-me de estar morta de sono, mas não conseguir dormir sem devorar o capítulo seguinte à morte do professor, no qual Snape se revela um dos melhores e mais bem elaborados personagens criados por JK Rowling (no filme, o excelente Alan Rickman também não deixa a desejar).

Para completar meu trio e convidados – e, talvez, amenizar o clima no ambiente – o terceiro personagem é o adorável, medroso e hilário Rony Weasley. Rony já esteve em um jantar anteriormente (confira AQUI) e por isso relutei em convidá-lo dessa vez, mas eu não poderia falar nos meus personagens favoritos de Harry Potter e deixar citar aquele que me fez rir tantas vezes. Visto que Rony já esteve por aqui, o destaque da noite é para os outros convidados.

Eu poderia ficar muito tempo discursando sobre as razões que me fazem gostar tanto destes personagens, mas preciso verificar se a comida já está pronta, me certificar que há cerveja amanteigada para todos e esperar a chegada dos bruxos. A noite exigirá muito das minhas habilidades como anfitriã, mas tenho certeza que será memorável.

domingo, 14 de outubro de 2012

Quem vem para o jantar? # 14

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

A data exigia convidados a altura. E depois de muito pensar a respeito, convidei a dois respeitáveis senhores, que representariam sua classe de forma exemplar. Novamente, percebi que minha humilde residência não seria o local ideal para o jantar, por isso optei por reservar uma mesa no Três Vassouras, taverna localizada em Hosgmeade.

O local estava decorado com várias abóboras de diferentes tamanhos, e sempre que alguém passava em frente, elas soltavam uma gargalhada maquiavélica, fazendo com que vários clientes se sobressaltassem. Como era de se esperar naquela época do ano, o bar estava cheio de alunos de Hogwarts, os quais portavam várias sacolas da Dedosdemel e da Gemialidades Weasley. Eu estava em uma mesa situada aos fundos, com uma caneca de cerveja amanteigada, enquanto aguardava meus convidados.

O primeiro deles é ninguém mais, ninguém menos que Alvo Dumbledore. Além de ser considerado um dos mais poderosos bruxos de sua época — especialmente após vencer Grindelwald — , Dubledore é conhecido por sua mente afiada, por ser um hábil duelista e por fazer feitiços raramente vistos (as vezes, até mesmo sem varinha e sem pronunciar uma sílaba sequer).

Enquanto terminava de beber minha caneca de cerveja amanteigada, meus convidados chegaram, pedindo perdão pelo atraso. Na verdade, eles não estavam atrasados. Era eu quem estava ansioso por aquele encontro, que cheguei cerca de meia hora antes do horário combinado.

O segundo mago que convidei para aquele jantar (ok, não foi exatamente um jantar, como você já deve ter percebido...) foi Gandalf. Igualmente sábio e poderoso, Gandalf foi uma peça decisiva para derrotar Sauron e seus aliados e restaurar a paz na Terra-média. 

Depois de uma longa conversa — e de terminar de beber a jarra de hidromel envelhecido em barril de carvalho — decidimos que a noite exigia uma visita a Casa dos Gritos. Saímos do bar de Madame Rosmerta e sentimos uma lufada de ar frio. Já era noite e a lua cheia brilhava ao longe, encoberta parcialmente por algumas nuvens.

Devo reconhecer que em situações normais eu estaria com medo. Mas com aqueles convidados ao meu lado, nem mesmo o uivo de animais (ou quem sabe de lobisomens) me assustou... muito. 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Quem vem para o jantar? # 13

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

A data era mais do que especial, pois comemorávamos um ano de existência, e estávamos decididos a fazer mais do um simples jantar, mas uma FESTA, com letras garrafais.

Após muita discussão a respeito de onde poderíamos realizar nosso evento, optamos por um local nada convencional para promover uma festa: a Escola de Magia de Hogwarts. Mais especificamente, o Salão Principal. O motivo é óbvio: existe algum outro lugar em que há banquetes suntuosos como os que lá são servidos?

É evidente que o jantar foi soberbo, e pudemos perceber que todos os nossos convidados estavam mais do que satisfeitos. Falando em convidados, é claro que a melhor parte foi poder compartilhar uma refeição com eles.

E quem são eles, você deve estar a se perguntar, certo? Bom, a lista de convidados ficou enorme, pois a cada momento incluíamos um novo autor ou personagem, por isso não iremos listar todos os nomes.

A primeira convidada não é surpresa alguma: J.K. Rowling — que generosamente nos emprestou o local sem cobrar sequer um galeão —, a responsável por ensinar a muitos leitores que a magia realmente existe. Basta abrir um livro e mergulhar em um novo mundo.

Sentada ao lado de Joanne, estava Agatha Christie. A Dama do Crime, que não conhecia a famosa série dos bruxos mais adoráveis que já existiram, estava fascinada conforme ouvia a autora contar o surgimento de muitas de suas ideias que não serão facilmente esquecidas pelos fãs.

- Avada Kedrava? – Agatha disse – Basta falar e apontar a varinha? Nada de venenos ou de adagas? Veja só, que prático!

Foi com curiosidade que observamos a aproximação de Agatha e Joanne, pois imaginávamos que a Dama do Crime se associaria ao seu colega de gênero, Raymond Chandler. Mas este, por sua vez, travava uma divertida conversa com Machado de Assis, cada qual com suas ironias características.

- Essa Capitu é perigosa – disse Raymond Chandler, ao descobrir sobre a fascinante personagem de Dom Casmurro – É melhor tomar cuidado com ela.


Nós não nos atrevíamos a interromper. Cada conversa era fascinante. Do outro lado da mesa Stephen King compartilhava uma jarra de hidromel com John Green - aclamado autor do livro “A Culpa é das Estrelas” - e Carlos Ruiz Zafón – de “A Sombra do Vento” - que demonstraram que é possível escrever um livro que transcenda a um gênero literário específico.

- Como vocês conseguem misturar tantos elementos diferentes em uma única história? – admirava-se o mestre do terror.

Os dois trocaram um sorriso e devolveram a gentileza:
- E como você consegue ser tão assustador? Até hoje lembro de não ser capaz de ler “O Iluminado” à noite.
- “O Iluminado”? – respondeu Green – Eu quase morri de medo de “Carrie”

A noite prolongou-se e quando já não esperávamos mais ninguém, eis que Jane Austen nos presenteia com sua presença. A razão do seu atraso: sua charrete teve dificuldade de chegar a plataforma 9 e ¾.


Sentimos falta de Ian Fleming e Nicholas Sparks que, infelizmente, não foram capazes de comparecer, pois a noite da nossa festa coincidiu com a pré-estreia de filmes baseados em seus livros. Ainda assim a noite foi gloriosa. Ao despedirem-se todos prometeram retornar no ano que vem. Os esperaremos ansiosos.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Conexões Além da Contracapa # 04

Conexões Além da Contracapa é uma coluna em que estaremos mostrando que o mundo literário está mais conectado do que imaginamos e mesmo dando voltas e mais voltas, todas as pontas acabam se unindo, de um jeito ou de outro.

Jane Austen, autora reconhecida por criar personagens femininas fortes, alcançou o ápice do sucesso com o inesquecível romance Orgulho e Preconceito, que narra a estória de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy. Esta obra inspirou ...

... Helen Fielding em seu segundo livro, O Diário de Briget Jones, no qual narra as aventuras da desastrada Bridget em Londres. Esta cidade também compôs o cenário utilizado por ...

... J.K. Rowling na saga Harry Potter, que utiliza a estação King's Cross como ponto de partida para a viagem dos alunos até Hogwarts. Adaptada para o cinema, a saga conta com a participação de Ralph Fiennes no papel de Lord Voldemort, sendo que o ator também participa da adaptação cinematográfica da obra de ...

... Emily Brontë, o Morro dos Ventos Uivantes, interpretando o atormentado Heathcliff. Brontë, considerada uma das maiores escritoras inglesas, nasceu no ano de 1818, um ano após o falecimento de outra grande escritora inglesa: Jane Austen.
 

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