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domingo, 9 de fevereiro de 2020

RESENHA: Sagrado

Dennis Lehane - Sagrado - Patrick Kenzie & Angela Genaro
No terceiro livro de sua série detetivesca, Dennis Lehane se mostra extremamente afiado.

A bela e deprimida Desiree Stone desapareceu. Seu pai, o milionário Trevor Stone contrata a dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Genaro para descobrir o seu paradeiro, mas o caso não é tão simples quanto parece. Antes da dupla, o detetive Jay Becker, com quem Patrick tem laços de amizade, foi contratado para o caso, mas, assim como Desiree, ele também desapareceu.

Como característico da série, “Sagrado” é narrado por Patrick Kenzie e mostra claramente a evolução de Lehane neste seu terceiro livro. Não só o personagem encontrou sua voz e o carisma que lhe faltaram nos dois primeiros livros (ao menos a meu ver), mas sua ironia é o ponto alto dos diálogos da trama. Incrível como nas cenas mais tensas o autor consegue fazer o leitor rir do atrevimento do personagem sem que isso soe deslocado diante das situações.

A trama de “Sagrado” brinca com o leitor como os melhores livros policiais sabem fazer. Tudo parece mal contado. A sensação é de que todos estão mentindo o tempo todo e que mesmo a verdade não é totalmente verdadeira. São milhares de reviravoltas e tudo muda a todo instante. Em “Sagrado” em nenhum momento é possível afirmar quem são os mocinhos e quem são os bandidos porque qualquer um pode se revelar qualquer coisa a qualquer momento.

“Eu sabia muito bem aonde podiam nos levar todas essas investigações, todas essas descobertas, todas essas revelações: à fria consciência de que não estávamos bem, nem um nem outro. Nossos corações e nossas mentes estavam guardados porque eram frágeis, mas também porque sempre supuravam algo sinistro e depravado demais para os olhos dos outros.” (LEHANE, 2004, p.39)

Algo que me agrada muito em Patrick e Angela é que eles são detetives totalmente das ruas. Já viram coisas horríveis e estão preparados para verem outras tantas. Eles conhecem as escalas de cinza. Sabem melhor do que rotular as pessoas como boazinhas ou malvadas, mas isso não os impede de ter seu senso moral sempre ativado. Sim, existe o certo e o errado, mas também existe o que algumas pessoas merecem como retribuição às suas ações.

Um acerto da série é o relacionamento entre a dupla de protagonistas. Tendo se conhecido desde a infância e tido um breve relacionamento amoroso há muitos anos, Patrick e Angela são aquele casal que, mesmo não sendo um casal, sabemos que serão em algum momento e Lehane dosa com maestria a evolução deste relacionamento de maneira que soa natural para o leitor, sem esquecer que estamos dentro de um livro policial e que a investigação deve ser sempre o carro chefe da trama.

Li os livros da série Kenzie-Genaro fora de ordem: comecei com os dois primeiros, pulei para o quarto, para o sexto (último da série) e então voltei para o terceiro (este “Sagrado”). Alguns são mais sanguinários (como “Apelo às Trevas”), outros mais dramáticos e pesados (como “Gone, baby, gone”), mas “Sagrado” é simplesmente um exemplar do que um livro policial deve ser: uma trama envolvente, cheia de mentiras e meias-verdades, personagens de almas podres, ritmo acelerado e diálogos afiados. Um Dennis Lehane em excelente forma que me deixou o tempo todo com aquele gostinho de “só mais um capítulo”. Uma das minhas melhores experiências dentro da série.

Título: Sagrado
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 354
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

domingo, 13 de outubro de 2019

RESENHA: Estrada Escura

Dennis Lehane - Estrada Escura - Patrick Kenzie - Angela GenaroQuem conhece a obra de Dennis Lehane e a saga da dupla Patrick Kenzie e Angela Genaro sabe que a história da pequena Amanda McCready é um assunto delicado. Quando tinha quatro anos, Amanda foi sequestrada e levada para ser criada por um casal que, durante poucos meses, lhe deu um ambiente seguro e a vida familiar de amor e proteção que uma criança merece ter. Mas os detetives localizaram a criança e, contra a vontade de Angela, Patrick a levou de volta para sua mãe, uma mulher viciada em drogas, com péssimas influencias para ela. Para o último livro da série, o autor volta a cruzar os caminhos de Amanda, Patrick e Angela, doze anos depois. Agora, Amanda desapareceu novamente, sua mãe continua uma péssima influência e a máfia russa está atrás de todos os envolvidos.

Desde que li “Gone, baby, gone” (quarto livro da série detetivesca de Lehane, que traz o caso de Amanda McCready) aguardo ansiosa o momento de conferir o que o destino reservou para a menina. Mas Lehane não é um autor para se emendar um livro no outro. É um autor para ser lido e digerido com calma. Suas histórias sempre são pesadas, seu mundo sempre é cruel e é quase impossível o leitor fechar o livro e não se sentir impactado. Entre a leitura daquele caso e deste, 3 anos se passaram (e confesso não ver problema em ter pulado o quinto livro da série, que separa as duas histórias).

Doze anos depois, Patrick é um homem diferente. Agora, ele e Angela são casados e têm uma filha (uma menina da mesma idade que Amanda ao ser sequestrada). Agora há outras coisas em jogo ao se fazer um trabalho perigoso. Há também o acúmulo das decepções, das coisas horríveis que precisaram testemunhar ao longo dos anos, há questionamentos, arrependimentos e uma carga de sentimentos intensos.

Lehane é um autor envolvente. Tanto que a primeira parte de “Estrada Escura” (quase 100 páginas) são dedicadas principalmente a contextualizar a vida do casal, mais do que a dar início à investigação. Ainda assim, o autor mantém o interesse do leitor.

Embora trate de temas pesados como tráfico de bebês, “Estrada Escura” não é tão desolador quanto eu esperava. E pela primeira vez digo que isso é bom. Sempre espero de Lehane livros que me fazem dizer: “pára o mundo que eu quero descer”, mas nesse me surpreendi muito com a fase em que encontrei Patrick, com a estabilidade do relacionamento dele e de Angela (depois de tudo que já passaram juntos) e, principalmente, com a jovem adulta que Amanda se tornou.

“Doze anos antes, eu tinha agido errado. Tinha certeza disso todos os dias que haviam se passado desde então, mais ou menos uns quatro mil e quatrocentos. No entanto, doze anos antes, eu também tinha agido certo. Deixar Amanda morando com sequestradores, por mais que eles estivessem investindo no seu bem-estar, significava deixa-la morando com sequestradores. Durante os quatro mil e quatrocentos dias desde que eu a havia tirado de lá, tivera certeza disso. Sendo assim, qual era a minha situação?” (LEHANE, 2012, p.102)

Achei sensacional que, para o desfecho da saga da dupla, Lehane tenha optado por não criar um novo caso, e sim trazer de volta o mais impactante que viveram. Para aqueles que não leram “Gone, baby, gone”, “Estrada Escura” pode ser compreendido sem problemas, pois o caso anterior é contextualizado e este segue de maneira independente. Mas para aqueles que leram, é incrível como o autor consegue despertar o sentimento de já conhecermos esta menina (embora só tenhamos convivido com a investigação do seu sequestro e não com ela, propriamente dita, no livro anterior) e de torcermos por ela por sabermos a vida que teve. Amanda é uma personagem interessante e poderosa. Seu coração, mas também sua frieza, seu senso de justiça que pouco se importa com a lei e sua inteligência lhe dão um conjunto de características que, arrisco dizer, poderiam até lhe colocar em outros livros. 

O interessante é que, além de girar em torno dos mesmos personagens, o autor faz com que esse novo livro gire em torno do mesmo debate ético do anterior: o que é o certo e o que é o errado? Quem define a linha que separa os dois? A lei deve ser sempre a regra máxima? No mundo de Dennis Lehane não existe preto e branco e as respostas nunca são fáceis.

Algo inesperado para mim foi constatar que a minha implicância com a voz narrativa de Patrick se foi. Sempre achei que Lehane falhava neste aspecto, não conseguindo empregar a alma do protagonista no olhar que ele transmitia ao leitor, mas nesse livro me senti junto de Patrick. Muito além de seus comentários irônicos, à la Philip Marlowe, Patrick não esteve apenas dentro das situações. Ele era as situações.

Continuidades são sempre audaciosas, afinal, elas correm o risco de estragar o efeito da primeira obra caso tomem um rumo torno. “Estrada Escura” é uma história de redenção que nos faz questionar conceitos e regras, mais uma vez. Um complemento válido ao excelente “Gone, baby, Gone”.

Título: Estrada Escura
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 329
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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sexta-feira, 31 de maio de 2019

Lista de Releituras #15

Um drink antes da guerra - Patrick Kenzie - Angela Genaro - Dennis Lehane
Título: Um drink antes da guerra

Autor: Dennis Lehane

Sinopse: Dennis Lehane estreou no gênero policial com Um drink antes da guerra, romance em que os leitores são apresentados a uma formidável dupla de detetives: Patrick Kenzie e Angie Gennaro, versão mais neurótica do par Nick & Nora, de Dashiell Hammet, de quem Lehane herdou a agilidade para narrar cenas de ação e a crítica aguda às imbricações entre crime e poder. Nesta história, Kenzie e Gennaro são contratados para descobrir o paradeiro de Jenna Angeline, faxineira do gabinete de um senador. Jenna teria roubado certos documentos que conteriam subsídios importantes para um projeto de lei polêmico, segundo o qual as gangues seriam qualificadas como "terrorismo de rua" - verdadeiro rastilho de pólvora para as relações raciais tensas de Boston. Ao descobrir que a faxineira tem ligações com os líderes de grupos rivais no gueto negro, Kenzie e Gennaro serão atirados no fogo cruzado de uma violenta guerra urbana. E, entre conflitos raciais, escândalos sexuais, tráfico de drogas e práticas políticas mais que duvidosas, terão de descobrir o que fazer com sua relação intensa de amizade e paixão.

Ocasião da primeira leitura: 2012

Por que está na lista de releituras: Porque na ocasião da primeira leitura, vários fatores interferiram para que eu não gostasse muito deste que é o livro de estreia de um dos meus autores favoritos.

Comentários: Descobri Dennis Lehane por acaso em um sebo. Na ocasião, o livro que caiu em minhas mãos foi “Apelo as Trevas”. Sabendo se tratar do segundo livro de uma série, tentei localizar o primeiro e o encontrei online, mas eis que minha leitura de “Um drink antes da guerra” foi toda errada.

Para começar, descobri que sou o tipo de pessoa que não se concentra lendo ebooks. Eu gosto de folhear as páginas, sentir o papel em minhas mãos. A tela, para mim, é sinônimo de algo rápido, que não exige grande concentração. Além disso, comecei a leitura em um ambiente que também não contribuiu em nada: um ônibus barulhento. Não me entenda mal. Não sou uma daquelas pessoas que precisa se isolar para ler. Para mim, qualquer lugar é lugar. Mas já aprendi que a maneira como inicio a leitura vai definir muito da minha experiência com o livro. Por essa soma de fatores, em nenhum momento cheguei a mergulhar totalmente em “Um drink antes da guerra”.

Confesso também que impliquei um pouco com Patrick Kenzie por enxergar nele muito de Philip Marlowe, detetive que eu adoro criado por Raymond Chandler, mas sem que nele houvesse o carisma de Marlowe.

Ainda assim, a coragem de Lehane em explorar o que de pior há no ser humano fizeram com que eu investisse em outros livros dele. O resultado: hoje ele é um dos meus autores favoritos. Daqueles que leio dispensando sinopses. Por isso, nada mais justo que adar outra chance a “Um drink antes da guerra”, em especial porque hoje vejo Patrick com outros olhos e reconheço nele um personagem extremamente humano que tenta fazer o correto em um mundo em que a crueldade, muitas vezes, prevalece.

A série detetivesca Patrick Kenzie e Angela Genaro conta com seis livros, dos quais li três até o momento. Os demais estão na lista de leituras (sendo um deles um dos meus mais desejados para o ano de 2019). “Um drink antes da guerra”, na de releituras.


terça-feira, 12 de junho de 2018

RESENHA: Depois da Queda

Depois da Queda / Dennis Lehane
Para alguns, um promissor thriller protagonizado por uma personagem feminina complexa. Para mim, simplesmente, o novo livro de Dennis Lehane.

Rachel Childs teve uma infância tumultuada. Filha de uma mãe dominadora, que nunca contou para a filha quem era o seu pai e o afastou da vida dela quando Rachel ainda era criança. Já adulta, ela se torna jornalista, mas ao cobrir uma matéria no Haiti, chocada com horrores que presencia, tem um surto no ar que acaba com a sua carreira. Com um casamento fracassado nas costas, Rachel se casa pela segunda vez com Brian, um homem compreensível e carinhoso que a ajuda em sua recuperação. Até o dia em que ela descobre que tudo que sabe sobre o marido talvez seja uma mentira.

“Depois da Queda” é Rachel da primeira a última página. Não apenas porque ela é a protagonista, ou porque a narrativa em terceira pessoa está o tempo todo apresentando o ângulo dela, mas porque a essência da história é como essa mulher se tornou quem ela se tornou. Os acontecimentos são a própria Rachel. A prova disso é que a primeira parte do livro (que corresponde a 100 páginas) é basicamente sobre os eventos de sua infância e adolescência e a procura pelo pai que ela mal conheceu. Aos poucos, esse enredo perde espaço dando lugar para outros que mostram que a personagem nunca consegue estar inteira. No Haiti, vemos uma realidade extrema mexer com ela a ponto de fazê-la perder a conexão com a realidade, levando a ataques de pânico que a tornam reclusa. E quando isso começa a ser superado, vem toda a questão de Brian e seus mistérios. Não é que Rachel seja incapaz de ser feliz e se boicote de alguma forma. É que Rachel é incapaz de ser Rachel. Na sua essência algo sempre falta. Isso é justamente o que os livros de Lehane têm de melhor: o desenvolvimento de personagens complexos e, na maioria das vezes, infelizes.

Enquanto a primeira parte foca em apresentar Rachel para o leitor, a segunda foca em seu relacionamento com Brian, mas é na terceira que as reviravoltas começam. A partir do momento em que Rachel passa a desconfiar do marido, é como se tivéssemos outro livro em mãos. Lehane se reinventa e entrega um livro que eu não esperava receber das suas mãos, apresentando a trama mais ágil dentre todos as suas que já li e que eu não sentia vontade nenhuma de interromper. As reviravoltas vêm a cada capítulo, mas logo vemos que a pergunta não vai ser simplesmente “O que Brian está fazendo?” ou “O que está acontecendo?”, mas sim “Qual a função de Rachel nisso tudo?”. Mais uma vez, o livro é ela. Sempre ela.

"Era isso que a esperava, o que sempre tinha estado à sua espera: o além. Ficasse acima ou abaixo, fosse branco ou preto, frio ou quente, não era o mundo que ela conhecia, com seus confortos, suas distrações e seus males reconhecíveis. Talvez fosse um nada absoluto. Só uma ausência. Ausência de identidade, ausência de sentido, ausência de alma ou memória." (LEHANE, 2018, p. 294)

É bem verdade que “Depois da Queda” comete alguns excessos nessa terceira parte (algumas coisas são um pouco difíceis de engolir, mas estamos tão envolvidos com a história que nem nos importamos), mas não muda o fato de que é uma excelente leitura. O que eu não concordo é com a afirmação que consta na contracapa e alega que o livro mostra Dennis Lehane em sua melhor forma. Não mostra. Falta em “Depois da Queda” o caráter desolador que marca as melhores histórias do autor. Aquela sensação de caminho sem volta que bate antes mesmo de concluir a leitura porque você já sabe que os personagens não lhe deixarão nunca mais e você até se arrepende de tê-los conhecido. “Depois da Queda” nos mantém fixos em suas páginas, mas não nos arranha por dentro, como fazem “Ilha do Medo”, “Gone, baby, Gone” e “Sobre Meninos e Lobos” (este último um dos livros que mais me marcaram na vida). É por isso que mesmo considerando “Depois da Queda” um ótimo livro, o considero um Lehane mediano.

As pessoas são maleáveis, quase modeláveis. É isso que Dennis Lehane nos mostra. Não há situação que não possa ser contornada, não há atitude de que uma pessoa não seja capaz diante de determinadas circunstancias. É apenas uma questão de adaptação e, logo, novas facetas surgirão no rosto de qualquer um. Ninguém é isso ou aquilo enquanto houverem espaços para serem preenchidos. “Depois da Queda” tem como base uma mulher sem base. Ao mesmo tempo que busca sua identidade, ela a perde pelo caminho. Uma personagem complexa, uma narrativa envolvente em um livro que mostra que Dennis Lehane é bom a ponto de acertar até mesmo quando não atinge seu auge.  

Os direitos de adaptação cinematográfica de “Depois da Queda” foram vendidos para a DreamWorks antes mesmo do lançamento do livro. O filme não tem previsão de estreia.

Título: Depois da Queda
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 392
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

RESENHA: Gone, baby, gone

“(...) nada é mais ensurdecedor que o silêncio da criança desaparecida. É um silêncio de setenta a noventa centímetros de altura (...), gritando para você de todos os cantos, de todos os recantos, e do rosto impassível de uma boneca caída ao lado da cama. É um silêncio diferente do silêncio que fica depois dos enterros e dos velórios. O silêncio dos mortos exprime o sentimento de conclusão; é um silêncio ao qual você sabe que terá de se acostumar. Mas o silêncio de uma criança desaparecida não é algo a que você queira se acostumar; você se recusa a aceitá-lo, por isso ele berra na sua cara.
O silêncio dos mortos diz: Adeus.
O silêncio dos desaparecidos diz: Encontrem-me”. (LEHANE, 2005, p. 35)

O que faz um livro ser considerado bom por você? É mal conseguir interromper a leitura, o devorando em um piscar de olhos? Ou é ser assombrado por sua história mesmo depois da última página? Se a sua resposta for a segunda, então Dennis Lehane é o autor para você.

A pequena Amanda McCready, de apenas 4 anos, desapareceu sem deixar vestígios no que seria apenas mais uma das noites em que sua mãe a deixou sozinha em casa e saiu se divertir. A vizinhança e a polícia foram mobilizadas para encontrá-la, mas os tios da menina recorrem também aos detetives Patrick Kenzie e Angela Genaro.

Os dois primeiros livros da série Kenzie-Genaro me apresentaram ao mundo perverso de Dennis Lehane. Agora, reencontro os detetives neste quarto livro, já sendo uma fã declarada do autor.

Me agrada muito que Patrick e Angela não estejam na trama apenas para investigar o caso, como outros detetives. Eles têm uma história própria, que se desenrola há vários livros, e que afeta a maneira como encaram os casos. Prova disso é que ao serem abordados para investigar o sumiço de Amanda, eles se questionam sobre aceitar a tarefa já que nenhum deles, nas palavras de Patrick, “gostaria de ser a pessoa que encontraria uma menina de 4 anos enfiada em uma lata de lixo”, e consideram ainda que podem nem mesmo fazer a diferença, sendo apenas mais uma dupla em meio a tantas equipes policiais. Assim, Kenzie e Genaro não só estão longe de serem detetives infalíveis como também se conectam com o leitor por se mostrarem humanos, porque não importa o quão habituados estejam aos horrores que testemunham diariamente, esses continuam a afetá-los. Outra coisa que funciona muito bem é o romance da dupla, perfeitamente verossímil. É possível ver o amor, a paixão e a intimidade entre os dois, mesmo que a situação na qual se encontram peça tudo menos por momentos assim.

O que não funciona, infelizmente, é o olhar de Patrick como narrador. Lehane tem inúmeras qualidades, mas saber narrar em primeira pessoa não é uma delas já que parece apenas conjugar os verbos na primeira pessoa do singular ao invés de realmente dar um olhar único para a situação. Quando li “Um drink antes da guerra” (livro de estreia do autor) achei que esse distanciamento de Patrick fosse falta de carisma. Hoje acho que não, já que Patrick é sim um personagem interessante que contribui com a carga dramática da trama, mas em alguns momentos é perfeitamente esquecível que é ele quem nos conta a história. Talvez isso seja um problema que se estabeleceu naquele primeiro livro quando o autor ainda não tinha tanta experiência e acabou definindo esta voz distante como sendo a voz narrativa de Patrick Kenzie. De um jeito ou de outro, não interfere na envolvimento do leitor, mas é uma mácula que o livro não merecia.

E por falar nas qualidades de Lehane, é impressionante como o autor consegue sugar toda a alegria e deixar sua história sombria e melancólica em poucas páginas. Mais do que apenas real ou verossímil, tudo em suas tramas é cru e ficará entranhando na mente do leitor. Sou do tipo que esquece facilmente as histórias que leio, mas isso nunca se aplica aos livros deste autor.

Lehane sabe mexer com as emoções do leitor como ninguém e é o único autor de suspense que eu conheço capaz comover e emocionar, inserindo cenas intensas e dramáticas em meio a uma investigação policial, sem que elas pareçam deslocadas ou piegas. Além disso, Lehane sabe arrastar seu leitor para os buracos mais profundos e sombrios e é só quando a narrativa parece dizer “agora respira” que o leitor percebe onde foi parar e então é impossível não fechar o livro por uns instantes e dizer “uau!”. Lehane consegue tudo isso sem ser explicitamente violento ou abusar de cenas fortes, apenas por apresentar um mundo que tem toda essa maldade enraizada e usá-lo para criar histórias que despertam uma empatia profunda. Eu não me lembro se alguma vez terminei uma de suas histórias sem a sensação de que o mundo era absurdamente injusto.

Qualquer história envolvendo violência contra crianças será revoltante (e o caso de Amanda não é o único que o autor apresenta para assombrar o leitor). Em "Gone, baby, gone", ao invés de acompanharmos o sofrimento de uma mãe que não sabe o que aconteceu com sua filha, o que vemos é uma personagem desprezível que merecia mesmo uma lição por seu comportamento irresponsável, uma punição pela indiferença com que tratava a filha e pelas influências a que a submetia. Torcemos para que a história tenha um final feliz, mas sabemos que a mãe de Amanda não o merece.

O ritmo da narrativa se mantém constante do início ao fim, priorizando a intensidade dos eventos a um ritmo frenético. Por vezes, o desenrolar mais lento dos acontecimentos aumenta a angústia do leitor que sabe que o tempo está passando e que as chances de se encontrar a criança com vida (e sem grandes traumas) fica cada vez menor.

Eu só não tive uma experiência ainda melhor com “Gone, baby, gone” porque há alguns anos assisti sua adaptação cinemtográfica (o ótimo “Medo da Verdade”, dirigido por Ben Affleck, com Casey Affleck e Michelle Monaghan como a dupla de detetives) e nunca esqueci o seu desfecho. Assim, a investigação não conseguiu me fisgar durante a leitura já que eu sabia onde tudo aquilo iria terminar.

“Gone, baby, gone” pode não ter sido para mim o melhor livro de Dennis Lehane, mas tamanho é o impacto da história de Amanda que ela ganha continuação em “Estrada Escura”, o sexto livro da série Kenzie-Genaro, cujos eventos acontecem doze anos após os de “Gone, baby, gone” e com uma premissa ainda mais promissora. Um livro que mal posso esperar para ler.

Título: Gone, baby, gone (exemplar cedido pela editora)
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 469
Editora: Companhia das Letras

domingo, 31 de julho de 2016

Quem vem para o jantar? #26

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Não vou negar que o jantar desse mês foi organizado com base em segundas intenções: reunir essa dupla de autores na esperança que eles decidissem escrever um livro juntos. Eu não conseguia imaginar uma combinação mais perfeita, já que ambos criam personagens complexos e conseguem explorar o que o ser humano tem de pior, deixando o leitor sem fôlego ao chegar à última página, se perguntando como fará para continuar a vida depois do fim daquela história.

Para começar, ela que escreveu o livro que redefiniu a minha relação com a literatura policial e de suspense, porque depois dele nenhum teve o mesmo impacto. Gillian Flynn. Confesso que eu estava até com medo de recebe-la sozinha, afinal, eu li todos os seus livros e sei bem o tipo de ideias que passam pela sua mente. Quando a campainha tocou, verifiquei se algum item potencialmente perigoso estava à vista, embora eu não tenha dúvidas de que ela fosse capaz de transformar os mais inocentes objetos em fatais, caso quisesse. Quando abri a porta, ali estava ela, um pouco encolhida de frio, com um sorriso meigo e até mesmo um tanto tímido no rosto. Quando um “Até parece” saiu da minha boca sem que eu o controlasse, ela quis saber a que eu me referia. Achei mais seguro não revelar.

O tempo foi passando e eu comecei a ficar preocupada que meu segundo convidado não aparecesse. Será que ele havia descoberto qual fora a minha opinião inicial sobre ele? Será que ele deixaria de vir ao jantar por causa disso? Reconheço que tive algumas birras com as minhas primeiras leituras, mas agora ele faz parte da minha seleta lista de autores cujos livros eu leio dispensando sinopses, tamanha a minha confiança. Tudo que precisava era do livro certo para que ele me conquistasse e foi por isso que, quando Dennis Lehane chegou ao jantar se desculpando pelo atraso, fui eu que me desculpei.

Como boa anfitriã, cabia a mim apresentar os convidados. Mas, um pouco nervosa como estava diante de dois dos meus autores favoritos, talvez tenha confessado mais do que devia.

- Essa mulher estragou a minha vida – disse eu para Dennis.
- Por quê? – ambos quiseram saber. Dennis desconfiado, se aproximando um pouco mais da porta, talvez planejando uma fuga estratégica. Gillian um pouco ofendida.
- Porque “Garota Exemplar” é tão bom que depois dele nenhum livro de suspense chegou perto de provocar o mesmo efeito. Passei anos me decepcionando com as reviravoltas forçadas e com os acontecimentos previsíveis.
- Aquela sensação de “já vi isso antes”?, perguntou Gillian
- Exatamente. Até que tirei “Sobre Meninos e Lobos” da minha estante.
- Ele estava há muito tempo parado na sua estante? – quis saber o autor, ele agora ofendido.
- Sim, anos. Mas era porque eu esperava o momento ideal para ler – me apressei a explicar - E foi uma sábia decisão, pois ao final da leitura fiquei quase catatônica. Na verdade, quase me arrependi de ter lido.
- O que você disse? – perguntou Dennis, agora sim ofendido.

Eu precisava controlar o meu nervosismo.

- Porque era melhor não conhecer aquela história, entende? É tão intensa, tão angustiante e tão verdadeira. Tão surpreendente e ao mesmo tempo tão natural porque é um acúmulo de coisas que vai  apenas se intensificando e gerando consequências. No instante em que eu fechei o livro eu soube que aqueles personagens nunca iriam me deixar.
- Agora você está sendo gentil, apenas porque disse que Gillian humilhou todos nós.
- É a mais pura verdade.
- Qual delas? O seu elogio ou que fomos todos humilhados?

Rimos. Quem diria que com aqueles livros Dennis Lehane podia ter tanto senso de humor? A mim, restava conduzir meus convidados para a sala de jantar e cuidar o que diria dali para frente. Melhor nem dizer nada mesmo. Que eles conversem, percebam o quanto os seus estilos têm em comum e, quem sabe, gerem o livro dos meus sonhos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

RESENHA: Os Filhos da Noite

“Você faz cagada porque essa é a sua natureza. Porque bem lá no fundo você se sente culpado pelo que faz, então quer ser pego. Na área em que atuamos, porém, é preciso encarar nossa culpa ao fim de cada noite. Manuseá-la, formar com ela uma bola. E depois jogá-la no fogo. Só que você, você não faz isso, então passou a sua curta vida inteira esperando alguém vir puni-lo pelos seus pecados. Bem, esse alguém sou eu.” (LEHANE, p.88, 2013)

Ainda impactada pela excelente leitura de “Sobre Meninos e Lobos” decidi que já que não me livraria tão fácil dos personagens criados por Dennis Lehane eu bem que poderia ler outro de seus livros. Foi nesse espírito que “Os Filhos da Noite” caiu em minhas mãos. O resultado: preciso me redimir com Lehane e assumir que virei sua fã.

Boston, 1926. No auge da Lei Seca, o que não falta são bares clandestinos, operações ilícitas e oportunidades para jovens como Joe Coughlin trilharem seu caminho dentro do crime organizado. Cercado de amigos leais, inimigos implacáveis, policiais corruptos e femmes fatales, Joe irá descobrir que o melhor é aproveitar os dias ao máximo, pois nesse ramo não se pode esperar que eles sejam muitos.

A primeira página de “Os Filhos da Noite” basta para cativar o leitor (ainda mais se ele, assim como eu, adora histórias de máfia e literatura noir), pois já é possível ver que Lehane usará todos os elementos típicos das histórias de gângsters, os somará aos típicos do noir e aos que são característicos de sua própria obra e mesclará tudo isso com perfeição. Com uma cena repleta de ação, tensão, diálogos ágeis e temperados com ironia, Lehane mostra a que veio e deixa o leitor completamente envolvido. Dali para a frente, o que se pode esperar é mais e é justamente isso o que move esses personagens: a busca por mais. Ambição, orgulho e sentimentos intensos é o que eles levam em suas bagagens em uma jornada na qual os desafios mudam, os inimigos vem e vão, mas o objetivo é sempre o mesmo: ganhar dinheiro e sobreviver.

É nesse contexto que surge Joe. Um sujeito nem bom nem mau, mas que vive momentos de bondade e de maldade e na soma deles vai trilhando seu caminho, lutando uma batalha de cada vez. Durante muito tempo, Joe quer acreditar que não é um gângster e sim um mero fora da lei. No fim das contas, Joe nada mais é do que um sujeito que aprende a jogar as regras do jogo e a vencer.

Junto com Joe surgem homens violentos, homens leais e mulheres sedutoras, sendo que todos podem trocar de lado a qualquer momento, pois o mútuo-benefício é válido até deixar de ser.

Cenas que já vimos inúmeras vezes nas telas de cinema e que são típicas dessas histórias ganham espaço (o cara sentado no escuro com a arma apoiada na perna e apontada para o inimigo que será pego de surpresa e não sairá vivo da situação, é um bom exemplo), mas nem por isso caem no clichê nem seus personagens se reduzem a caricaturas, tudo graças a habilidade do autor.

E por falar em habilidade, o que mais me agrada nas histórias de Lehane é que nada é preto ou branco. Essa escala de cinza se aplica tanto à personalidade dos personagens quanto ao que acontece com eles (e final feliz é algo que não consta no repertório desse autor). Assim, o que temos são personagens que vivem um dia após o outro, tentando fazer o certo conviver com o errado, sem esperança de que no final o saldo seja positivo.

Longe de ter a carga dramática de “Sobre Meninos e Lobos”, o livro se destaca pela ambientação de época baseada em uma extensa pesquisa do autor. Embora seja uma história independente, “Os Filhos da Noite” foi escrito como uma continuação de “Naquele Dia”, considerado o livro mais ambicioso de Lehane, no qual ele apresenta um panorama dos Estados Unidos (Boston, especificamente) após a Primeira Guerra Mundial.

Eu diria que é quase impossível ler “Os Filhos da Noite” e não enxergar ali um roteiro cinematográfico. O bom é que logo se poderá ver o filme também. Em 2016 chega aos cinemas a adaptação dirigida, roteirizada e protagonizada por Ben Affleck (que também dirigiu o ótimo “Medo da Verdade”, inspirado no livro “Gone, baby, gone” de Lehane). O elenco conta ainda com Zoe Saldana e Siena Miller como os interesses amorosos de Joe nesta que é a primeira produção de Affleck como diretor desde o premiado “Argo”.

Título: Os Filhos da Noite (exemplar cedido pela editora)
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 475
Editora: Companhia das Letras

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

RESENHA: Sobre Meninos e Lobos

Sobre Meninos e Lobos Mystic River Dennis Lehane
Sempre me intrigou que, mesmo sem apontar defeitos nos livros de Dennis Lehane e reconhecendo que suas tramas e personagens tinham tudo para entrar no rol dos meus favoritos, eu não conseguisse gostar de verdade dos três livros que havia lido do autor. Mas, por alguma razão, eu sempre soube que haveria algum que mudaria isso. Eis “Sobre Meninos e Lobos”, um suspense de tirar o fôlego não por reviravoltas, nem por um ritmo alucinante, mas pelo buraco que deixa na vida do leitor depois da última página.

Quando crianças, Jimmy, Sean e Dave eram bons amigos. Isso até a manhã em que dois policiais levaram Dave embora como reprimenda por uma briga de rua entre os meninos. Quatro dias depois, Dave retorna e nada mais será como antes. Na hora os meninos não perceberam, mas policiais de verdade não teriam agido daquela forma. Agora eles sabem que alguma coisa estava errada e ninguém quer falar sobre o que os homens fizeram com Dave. O episódio faz com que se separem, mas vinte e cinco anos depois, o caminho dos três amigos volta a se cruzar quando a filha de Jimmy é assassinada e Sean, agora um detetive, é encarregado de solucionar o crime que ocorreu na mesma noite em que Dave chegou em casa coberto de sangue.

A carga dramática que será a marca essencial de “Sobre Meninos e Lobos” está presente desde as primeiras páginas. Em poucos parágrafos, Lehane já nos mostra quem são esses meninos e que neles está a semente para os homens que se tornarão.

A narrativa em terceira pessoa não deixa a desejar em nada ao nos fazer conhecer o íntimo desses personagens focando não apenas nos três meninos, mas também nas esposas de Jimmy e Dave, em especial na desconfiança dessa última sobre o que o seu marido possa ter feito.

Uma sacada genial de Lehane é fazer o leitor desconfiar de um personagem de quem ele sente pena. Sabemos o que aconteceu com Dave na infância, sabemos do trauma que ele carrega e não queremos mais sofrimento em seu caminho, mas também não seremos capaz de aceitar caso ele tenha assassinado uma pessoa inocente. Você se pergunta se ele teria sido capaz, ou porque teria feito, mas no fundo não quer saber a resposta.

Pungente, desesperançoso e até mesmo melancólico, “Sobre Meninos e Lobos” é um suspense desprovido de senso de urgência, o que torna tudo mais denso. E para que apressar as respostas quando você sabe que as coisas não irão acabar bem? Quando digo isso, não quero dizer que se pressente uma grande tragédia no futuro dos personagens, mas sim que nada os salvará deles mesmos, da vida que se construiu ao seu redor. Jimmy quer saber porque e por quem sua filha foi assassinada, mas a resposta não será o fim do seu sofrimento. Não queremos que Dave precise encarar a prisão, mas mesmo inocente e livre, isso não faz dele um homem feliz porque seu tormento jamais chegará ao fim. Sean é, sem dúvida, o menos trágico dos três, mas também enfrenta seus demônios, entre eles a culpa de ter deixado o amigo entrar no carro com aqueles homens. Eles eram apenas crianças, mas não deveriam saber que havia algo errado? Uma parte deles não sabia? Afinal, por que ele e Jimmy não foram junto?

“Era aquilo que se levava consigo por toda parte (...), a consciência exasperante de que as pessoas eram repulsivas, de que as pessoas eram estúpidas e más, muitas vezes tinham instintos assassinos, abriam a boca somente para mentir, e quando se encontravam desaparecidas sem nenhum motivo plausível, normalmente eram achadas mortas ou num estado ainda mais terrível.” (LEHANE, 2004, p.165)

A impressão que se tem é que a história já existia muito antes da primeira página e que continuará bem depois da última. O livro que temos em mãos nada mais é do que uma janela que se abre e nos permite uma espiada - e apenas excelentes autores são capazes disso.

É comum acharmos que uma trama policial gira em torno da resposta do crime. Em “Sobre Meninos e Lobos” o impacto do crime na vida das pessoas é muito mais relevante do que saber quem matou ou mesmo porquê. Se pensarmos bem, livros ao estilo “whodunnit” são relativamente felizes, afinal, queremos descobrir a identidade do assassino e vê-lo pagar por seu crime e é isso que recebemos no final. Depois, fechamos o livro e não voltamos a pensar nele. Na trama de Lehane essa é a ponta do iceberg e se já não existia felicidade nas primeiras páginas, nas últimas ela não faz a menor questão de aparecer.

Sem se preocupar com reviravoltas desnecessárias, Lehane encontra outra maneira de arrebatar o leitor que é deixa-lo com a incômoda sensação de que não está no destino de ninguém ser feliz e que não há respostas suficientes para preencher as lacunas das perguntas que nos fazemos. Essa sensação é muito mais chocante do que, por exemplo, o esquartejamento detalhado de um corpo, porque o que nos choca de verdade e que não seremos capazes de esquecer não é a atitude física de um personagem. É sua mente, seu estado de espírito. Sua razão (ou sua falta de) para fazer o que faz, o impacto e as consequências que isso gera. Nada é capaz de apagar essa sensação, mas litros de sangue escorrendo só precisam de produtos de limpeza para nunca mais serem lembrados.

Os personagens são complexos e magnificamente construídos e pouco a pouco adentramos mais em sua psique. Destaque para Jimmy e Dave. Não é à toa que, em 2003, a adaptação de “Sobre Meninos e Lobos” rendeu a Sean Penn e Tim Robbins o Oscar de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente. O filme de Clint Eastwood foi indicado ainda a outras categorias, como Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. Um raro caso de excelente filme derivado de um igualmente excelente livro.

Título: Sobre Meninos e Lobos
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 483
Editora: Companhia das Letras

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sábado, 5 de outubro de 2013

RESENHA: Ilha do Medo

“Teddy (...) virou o bloco de modo que Chuck pudesse ver a página, e a única palavra que lá estava escrita, num rabisco pouco legível que a chuva começava a borrar, era: fuja.” (LEHANE, pag. 134, 2010).

Para que essa resenha seja fiel à minha experiência com o livro é preciso que ela tome rumos pouco usuais. Infelizmente, não poderei fazer uma análise detalhada da narrativa, personagens e outros aspectos – por motivos que logo ficarão claros - e precisarei começar pelo fim, ou seja, pelo filme, que foi por onde eu comecei.

Em 2010, o diretor Martin Scorsese conduziu a adaptação de “Ilha do Medo”, um suspense psicológico ambientado na década de 50 e estrelado por Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo nos papéis principais. Di Caprio é Teddy Daniels, um xerife federal que na companhia de seu novo parceiro, Chuck Aule, é enviado à ilha Shutter – abrigo do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe para criminosos - para investigar o desaparecimento de uma paciente. Ao chegar no local os dois se deparam com indícios de que o hospital pratica experimentos com os pacientes, através de drogas e cirurgias. Descobrir a verdade se torna uma questão de segurança para Teddy e Chuck porque quanto mais perto eles chegam, mais em perigo se colocam, e quando Teddy descobre que o assassino de sua esposa pode estar entre os pacientes do hospital sair da ilha se torna cada vez mais difícil. Até o momento em que sair talvez já não seja uma opção.

Foram poucas as vezes em que eu assisti ao filme antes de ler o livro que o originou. Meu engano no caso de “Ilha do Medo” foi achar que saber o final da história – o que estava por trás do mistério da ilha Shutter – não atrapalharia o meu envolvimento com o livro, como não atrapalhou com outras obras. Porém, Dennis Lehane apresenta neste livro uma história impactante que para ser apreciada exige que o leitor compartilhe as dúvidas e temores dos personagens, algo que, sabendo o que estava por trás de tudo, me foi impossível fazer.

Ao assistir o filme (um suspense elegante e assustador que eu recomendo), gostei muito da história e achei que seria interessante observar os artifícios que o autor havia usado para contá-la no livro, mas infelizmente esse meu conhecimento prévio fez com que eu não conseguisse mergulhar na trama, como se eu não a levasse a sério. Com isso, a narrativa de Lehane não me envolveu e não creio que isso tenha sido falta de habilidade do autor (algo que a julgar pelos capítulos finais, que me deixaram quase hipnotizada, ele deve ter de sobra). Ainda assim, reconheço que a narrativa é rica em ambientação e fluida, mas sem ser ágil demais (algo que comprometeria a proposta, afinal, o medo é algo que se manifesta aos poucos).

Uma das marcas de Dennis Lehane é criar personagens cheios de nuances, com dramas reais que elevam o envolvimento de leitor a mais do que um mero acreditar que eles possam a ser reais, mas sentir isso e se importar. Fechar o livro, continuar pensando neles e, na maioria das vezes, desejar que tudo fosse diferente. Em “Ilha do Medo”, ele esbanja essa habilidade.

Se saber o que iria acontecer me impediu de mergulhar a fundo na atmosfera proposta pelo autor, por outro lado fez com que eu pudesse observar que nada que ele insere na obra é desnecessário. Tudo está ali com um propósito.

Não li “Ilha do Medo” com olhos inocentes e isso atrapalhou não só a minha experiência como também a objetividade da minha análise. O que posso dizer com certeza é que Dennis Lehane criou nesse livro uma excelente história. Se o livro é uma excelente leitura, infelizmente não me sinto em condições de afirmar, mas acredito que seja. Acredito tanto a ponto de lamentar profundamente ter assistido a um ótimo filme.

Título: Ilha do Medo (publicado originalmente como “Paciente 67”)
Autor: Dennis Lehane
Nº de páginas: 339
Editora: Companhia das Letras

domingo, 16 de setembro de 2012

RESENHA: Apelo às Trevas

“É como se existisse um fio que ligasse todos esses acontecimentos, toda essa violência aleatória, arbitrária, e que, se pudéssemos descobrir onde esse fio começa e o puxássemos pela ponta, todas essas coisas começariam a fazer sentido.” (LEHANE, 2003, P.12).

Foi em um dos meus passeios pelo sebo que me deparei com “Apelo às Trevas”. Não foi o título macabro, a capa, nem necessariamente a sinopse que me fizeram querer ler o livro. Foram as credenciais de seu autor - Dennis Lehane - que, segundo a contracapa do livro, é frequentemente comparado a mestres do gênero policial, como Raymond Chandler e, além disso, escreveu “Sobre Meninos e Lobos”, livro que não li, mas que inspirou um ótimo filme. Antes mesmo de ler a sinopse eu já havia dito: “UAU!”

A trama também parecia interessante: a dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro são contratados por uma mulher que recebeu uma ameaça, aparentemente da máfia irlandesa. Mas a ameaça é muito pior do que parece e os dois se veem envolvidos em uma investigação complicada e no encalço de um cruel assassino que parece estar em atividade há mais de vinte anos. A vida de Patrick, Angela e das pessoas próximas a eles está em risco, enquanto a vizinhança é palco de um macabro show.

O que mais me chamou a atenção em “Apelo às Trevas” é que o livro não para um segundo sequer. Elementos novos surgem a todo tempo e o caso adquire tantas ramificações que às vezes até se esquece como começou. O autor apresenta uma narrativa eficiente e equilibra muito bem o desenvolvimento dos acontecimentos e das informações até introduzir novos elementos, desenrolando a história aos poucos. A cada página se descobre que há muito mais nessa trama do que se imaginava no início da leitura.

Criminosos que matam meramente por prazer são sempre assustadores e Lehane cria personalidades tenebrosas nesse livro. Me parece que o autor é muito hábil em usar o que o ser humano tem de pior e fazer disso o combustível de certos personagens, contaminando outros também. Isso pode ser observado não só nos criminosos, mas também na relação de Patrick com o seu pai, o que talvez não fique tão claro em “Apelo às Trevas”, mas aparece muito bem em “Um drink antes da guerra”, primeiro livro da série protagonizada por Patrick e Angela. Alias, o relacionamento da dupla de detetives também é um aspecto interessante que o autor parece querer explorar aos poucos ao longo da série.

Por falar nos detetives, em alguns momentos, Patrick conseguiu me fazer lembrar de Philip Marlowe – o clássico detetive de Raymond Chandler – por suas respostas rápidas, irônicas e seu temperamento “tô nem aí” quando na verdade isso está longe de ser verdade. Mas falta ao personagem de Lehane algo fundamental que o de Raymond Chandler tem de sobra: carisma. Isso se estende aos demais personagens e até mesmo a história. Mesmo recheada de bons elementos, faltou algo. Eu não sei apontar o que exatamente, mas me parece que “Apelo às Trevas” tinha tudo para ser um excelente livro, mas não é. Não é ruim, em hipótese alguma, mas é bem inferior ao que eu esperava.

Não sei bem como avaliar “Apelo às Trevas”. De modo geral, não posso dizer que não gostei da leitura, mas também não posso dizer que gostei. Como eu disse, a narrativa é boa e a trama tem ótimos elementos. Se me permitam uma analogia culinária: tem ótimos ingredientes, ótimos temperos, mas ainda faltou alguma coisa. Sal talvez. Para o meu paladar pelo menos.

Título: Apelo às Trevas
Autor: Dennis Lehane
Nº de páginas: 456
Editora: Companhia das Letras

 

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