sexta-feira, 26 de agosto de 2016

RESENHA: O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação

“Durante os cinco meses seguintes, Tsukuru viveu à beira da morte. Construiu um pequeno lugar para ficar na ponta do abismo escuro e sem fundo, e viveu completamente sozinho ali. Era um lugar perigoso, já na borda, e, se virasse o corpo uma vez enquanto dormia, corria risco de cair nas profundezas do vazio. Mas ele não sentia medo. Como é fácil cair, foi a única coisa que pensou.” (MURAKAMI, 2014, p. 40)

Há tempos tenho curiosidade de ler Haruki Murakami, mas nunca me senti atraída por algum livro em específico. Tanto que foi aleatoriamente que tirei “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” da prateleira da livraria e li suas primeiras páginas. O problema foi que depois delas eu já não queria largá-lo.

Tsukuru Tazaki é hoje um homem de 36 anos, mas nunca se livrou de um trauma da juventude. Aos 20 anos, seus quatro melhores amigos o cortaram de suas vidas sem a menor explicação, dando início ao que se tornou uma existência solitária. Agora, por incentivo da mulher com quem está iniciando um relacionamento, Tsukuru irá procurar esses amigos para encontrar respostas.

Um dos aspectos que mais vejo serem ressaltados a respeito de Murakami é o caráter fantástico (e por vezes até bizarro) de suas histórias, mas isso não acontece em “Tsukuru Tazaki”. Talvez justamente por isso haja a menção deste livro ser recomendado tanto para os leitores novos quanto para os fiéis, pois mostra uma nova faceta do autor.

A história é simples em essência, mas se revela complexa nos detalhes. Para mim, havia inclusive uma curiosa sensação de instabilidade temporal porque, mesmo que a história se dê no presente, o presente do protagonista pouco importa, de forma que eu sentia estar o tempo todo no passado. Para Tsukuru, é como se os melhores anos da sua vida, a época em que ele pertencia a algo, estivessem no passado. Já agora, mesmo que não haja motivos sérios para infelicidade, ele não parece feliz. Para ele, e para o leitor, consequentemente, o mais importante é entender o passado, mas fazemos isso através das suas reflexões e comentários no presente (embora a narrativa seja em terceira pessoa, Murakami é hábil em nos fazer ver o mundo pelos olhos de seu protagonista). Assim, mesmo que a trama aconteça no presente, ela é sobre o passado, para que ele possa finalmente ficar no passado e deixar de afetar o presente. Outra coisa interessante é o vácuo que se cria nesses 16 anos. Conhecemos o Tsukuru de hoje e o que tinha 20 anos, mas sabemos muito pouco sobre sua vida nesse intervalo de tempo.

São muitas as coisas que movem o leitor. A primeira, e mais óbvia, é o mistério do porquê os amigos o excluíram. As respostas não são simples e quanto mais sabemos sobre elas, mais detalhes queremos. O autor também é hábil em substituir um mistério por outro, já que a partir do momento em que entendemos as ações do grupo, outro mistério surge.

Existe também o amadurecimento pelo qual o protagonista precisa passar e que se revela o cerne da trama. Embora a intenção dele seja encontrar respostas, “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” se revela um livro não sobre isso e sim sobre abrir os olhos. Sobre cicatrizar feridas ainda abertas para poder começar a trilhar um novo caminho. Além disso é sobre entender quem somos e como as pessoas nos enxergam. Aliás, até certo ponto da narrativa, tudo o que temos é a visão do próprio Tsukuru sobre si mesmo. Depois passamos a ter a visão dos amigos, que é bastante diferente.

E existem ainda relacionamentos cujo papel na vida do protagonista queremos desvendar, como o início do namoro com Sara e a amizade com Haida, um amigo que faz parte da vida de Tsukuru durante um breve período nesses 16 anos. Sua importância na vida do protagonista é um tanto misteriosa e, justamente por isso, interessante.

Interessante também é simbolismo. No grupo de amigos, todos tinham nomes que remetiam a cores e, devido a isso, cada um ganhou um apelido: o vermelho, o azul, a branca e a preta. Tsukuru era o único incolor (e aqui vale destacar a simplicidade e a beleza da capa desta edição). Por um lado talvez ele seja o vazio, aquele que precisa ser preenchido. Por outro, talvez seja o único que esteja completo, não precisa de definição. Ele é ele. Apenas Tsukuru Tazaki.

O texto de Murakami é delicioso. Além de fluido, é belo e por vezes até poético, mas ao mesmo tempo também apresenta uma simplicidade cativante. É graças a ele que a carga dramática do livro parece leve, sem por isso perder sua intensidade ou os muitos momentos de reflexão que proporciona.  

Outra coisa que Murakami faz bem é criar personagens muito humanos. Ao acompanharmos Tsukuru, ficamos ao seu lado e esperamos que haja uma excelente justificativa para o que o grupo fez com ele, mas ainda assim não os vemos como vilões. O mesmo se aplica ao próprio protagonista que, apesar da aparente injustiça que sofreu, também está longe de ser um personagem cujas atitudes são todas aceitáveis (a começar por seu conformismo e apatia). Não é um livro de vilões ou de mocinhos. É um livro sobre erros. Sobre aceitá-los, corrigi-los e aprender a viver com eles.

“O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” deixa muitas perguntas sem respostas e tem um final em aberto que pode não agradar a todos. Para mim, deixou um gostinho de que essa é apenas uma etapa na vida deste personagem. O que acontece com ele depois? Não se sabe. O mais estranho é que nem mesmo fiquei curiosa para descobrir. A questão é que a história não é sobre o que vai acontecer, da mesma forma que não é sobre o que aconteceu há 16 anos. É sobre deixar o passado para trás e abrir as portas para o futuro. Então talvez essa seja uma história de transição. Talvez não seja nem mesmo uma história. Talvez seja só uma ponte entre duas histórias. Convenhamos que só um autor brilhante para fazer um ótimo livro disso. Murakami conseguiu realizar o feito.

Título: O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação (exemplar cedido pela editora)
Autor: Haruki Murakami
N° de páginas: 328
Editora: Alfaguara

terça-feira, 23 de agosto de 2016

RESENHA: A Resposta

“Não era esse o objetivo do livro afinal? Que as mulheres se dessem conta de que: Somos só duas pessoas. Não há tanto assim a nos separar. Nada do que eu havia imaginado.” (STOCKETT, 2012, p. 536)

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O ano é 1962 e a jovem Skeeter, após se formar em jornalismo, retorna a Jackson, no Mississipi. Mas tudo mudou em sua cidade natal: suas amigas já estão casadas e têm filhos, mas o verdadeiro choque foi descobrir que Constantine — a empregada da família a quem considerava uma mãe — foi embora. E agora, não consegue deixar de observar as relações de suas amigas com suas empregadas, espantando-se com a falta de consideração que demonstram. É por isso que se aproxima de Aibileen e Minny, duas mulheres negras que trabalharam a vida toda como empregadas, e juntas embarcam em um arriscado projeto: escrever um livro com histórias reais de empregadas domésticas, revelando as regras, as alegrias e decepções que enfrentam diariamente. 

A Resposta é narrado em primeira pessoa pelos pontos de vista de Skeeter, Aibileen e Minny em capítulos alternados. O interessante é que além de conseguir mostrar o mesmo fato por diferentes prismas, também acompanhamos os dramas pessoais de cada uma delas, entendendo o que as motivou a participar deste projeto. Além de criar personagens profundos e que logo despertam a empatia do leitor, Stockett é extremamente hábil em mostrar as diversas facetas dos personagens, mesmo dos antagonistas. Ou seja, não há vilões e mocinhos, mas sim pessoas com qualidades e defeitos. 

A autora também fez um excelente trabalho contextualizando o período em que a obra se passa. Mergulhamos no sul dos Estados Unidos da década de sessenta e sentimos nas menores palavras e ações o preconceito latente, o sentimento de superioridade dos brancos em relação aos negros. A segregação racial era a regra e aqueles que discordassem, na melhor das hipóteses, perderiam o emprego. Na pior, perderiam a vida. 

Apesar de ser um livro que dialoga abertamente com a luta pelos direitos civis, Stockett teve muito cuidado em fazer desta luta apenas o pano de fundo da estória. O cerne de A Resposta são os relacionamentos destas mulheres, mostrando como é tênue a linha que as separa. Mais do que falar sobre direitos civis, A Resposta fala sobre como impactamos as pessoas ao nosso redor, para o bem e para o mal. 

A trama do livro é linear e não conta com muitas reviravoltas, porém, em nenhum momento a leitura se torna monótona ou cansativa. O desfecho deixa algumas pontas em aberto, deixando claro que aquele não é o fim da estória, entretanto, há elementos suficientes para o leitor entender qual será o rumo da vida daquelas três mulheres. 

Com uma narrativa fluída e estórias marcantes, é impossível não se envolver com A Resposta e não ser completamente fisgado pelas protagonistas. Um livro emocionante, que brilha em sua simplicidade e que espanta pela profundidade de suas reflexões. 

O livro foi adaptado para o cinema em 2011 com o título Histórias Cruzadas, estrelado por Viola Davis, Emma Stone e Octavia Spencer. 

Título: A Resposta
Autora: Kathryn Stockett
N. de páginas: 573
Editora: Bertrand Brasil

sábado, 20 de agosto de 2016

RESENHA: Heróis Urbanos

“Começar de novo. É conseguir respirar que nem gente após dias de nariz entupido. (...) Todos os membros do corpo se agitam, os pelinhos mais escondidos vibram, cada célula pulsa com a nova chance que recebeu. Ah, começar de novo. Ver que pode chegar longe. Pensar em voz alta: agora vai! Tu pensa que pode voar até cair, de cara no chão. E se dar conta que nada muda. Nada nunca muda.” (“Da gravidade e outras leis”, Emiliano Urbim, p. 155)

Me interessei imediatamente pela premissa de “Heróis Urbanos”: pessoas comuns que se revelam heróis apenas por encontrarem maneiras de sobreviver a situações do cotidiano. Além disso, por se tratar de uma antologia escrita por diversos autores (dos quais, confesso, só conhecia três) minha expectativa estava em ver os mais diversos olhares em relação ao tema.

Em “Volnei”, o conto que abre a antologia, uma mulher fala sobre a traição de seu marido ao mesmo tempo em que relembra uma série de assassinatos cometidos contra meninos de 12 a 15 anos. Por ser a narradora uma mulher da favela, Raphael Montes dá a ela uma voz narrativa que se esforça ao extremo para se aproximar da linguagem coloquial, usando palavras e expressões como “mermo”, “casquela” e “sirial quiller”, sem se preocupar com conjugação adequada e outras exigências do texto escrito. De certa forma a estratégia faz sentido, mas o autor exagerou na dose, fazendo com que um texto curto (menos de 30 páginas) soe incômodo o tempo inteiro. A verdade é que quando algo causa estranheza dentro da narrativa, o leitor se descola da leitura, e é isso que acontece com “Volnei” que causa estranheza o tempo inteiro, não permitido uma verdadeira conexão com a obra, já que o texto chama mais atenção do que o conteúdo. Além disso, outra coisa me incomodou, repetindo um dos problemas que eu tive ao ler “Dias Perfeitos”, também do autor. Ao tentar surpreender ao máximo, o desfecho acabou sendo previsível desde o começo. Talvez seja porque eu já tenha lido um conto que adotava uma estratégia parecida, mas o fato é que para mim a identidade do “sirial quiller” era óbvia e as atitudes da narradora exatamente o que se esperava dela.

Em “Material Escolar”, Luisa Geisler apresenta a minha personagem favorita da antologia. A jovem e esperta Carolina, bolsista do ensino médio que, para conseguir um dinheiro extra, acaba desenvolvendo um esquema de venda de provas, trabalhos e afins. “Material Escolar” apresenta exatamente o que eu esperava de “Heróis Urbanos”: personagens que estão fazendo algo errado, mas que, de certa forma, admiramos por sua esperteza e seus recursos. A narrativa intercala entrevistas da própria Carolina com relatos de seus colegas e boatos de fonte anônima, deixando o leitor curioso para saber o que é verdade e o que não é, cogitar até onde Carolina é capaz de ir com suas falcatruas, além de se perguntar onde aquela investigação toda vai dar (e já que o tema da antologia é o cotidiano, nada mais adequado que um conto assim terminar com uma injustiça).

Rubem Fonseca, por sua vez, traz em “Passeio Diurno” o senso de justiça de uma criança. Por contar com menos de 10 páginas a história não chega a ter muitos desdobramentos, mas consegue desenhar a personalidade de seu protagonista.

Já Letícia Wierzchowski é responsável por “Seu amor de volta em três dias”, o conto mais inusitado da antologia no qual um jovem desempregado tem a ideia de virar pai de santo para conseguir dinheiro. E já que os orixás não conseguirão nada para os seus clientes, cabe a ele encontrar métodos terrenos para cumprir o que o “Pai Léo” promete. Em geral, sempre tive experiências positivas com as obras da autora e, por isso mesmo, confesso que o conto me deixou com um gostinho de “esperava mais”.

“Da gravidade e outras leis” é o conto que encerra a antologia e foi um dos meus favoritos. A história é narrada através de um diário no qual um adolescente deslocado no colégio fala sobre as suas tentativas de se reinventar diante do promissor início de um novo ano letivo. Mas seus dramas adolescentes ganham um toque dramático extra quando sua prima de 18 anos vem morar com ele e com a mãe e logo revela ter tendências suicidas. Emiliano Urbim brinca com as expectativas do leitor e é eficiente em conduzi-lo e tirar seu chão quando o conto termina.

A antologia conta ainda com “Besouro Azul entre o bem e o mal”, de Cecilia Giannetti e “A História Lacrimogênica de Jamile”, de Natércia Pontes.

De um modo geral, “Heróis Urbanos” apresenta personagens extremamente humanos que nada mais são do que sobreviventes. Uma premissa sempre interessante que poderia render até outros volumes.

Vale ainda um destaque para as ilustrações de Rascal que complementam a edição ao final de cada conto.

Título: Heróis Urbanos (exemplar cedido pela editora)
Autor: Rubem Fonseca [org.]
N° de páginas: 184
Editora: Rocco

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

RESENHA: Pacto Sinistro

“— É exatamente aí que você se engana! Qualquer pessoa é capaz de matar. É uma questão de simples circunstâncias, não tem nada a ver com temperamento. As pessoas chegam lá e uma coisinha à toa pode levá-las a ultrapassar a fronteira. Qualquer um. Até mesmo sua avó. Sei disso!” (HIGHSMITH, 2006, p. 28).

***

Pacto Sinistro é muito mais conhecido pelo filme dirigido por Alfred Hitchcock e com roteiro de Raymond Chandler do que pelo livro que o inspirou, escrito por Patricia Highsmith. Sendo fã da autora desde que li a saga iniciada com “O Talentoso Ripley”, não podia deixar de conferir seu livro de estreia. 

Dois estranhos se encontram em um trem e entre doses de uísque acabam compartilhando suas vidas. No decorrer da conversa, Charles diz que gostaria de matar seu pai, responsável por infernizar sua vida. E quando ele fica sabendo dos problemas que Guy tem com Miriam, sua ex-esposa, sugere o crime perfeito: um mataria pelo outro, assim, teriam álibis inquestionáveis. Guy fica chocado com a ideia, atribuindo-a ao álcool e à imaginação fértil. Mas, para sua surpresa, Charles leva o plano a cabo, matando Miriam, e agora espera que Guy cumpra com sua parte do “acordo”. 

O primeiro fator a chamar atenção em Pacto Sinistro é como Highsmith é hábil na construção dos personagens. Em poucas páginas o leitor já tem uma imagem clara de cada um dos protagonistas. Bruno é um solitário bon vivant, que não precisou se esforçar por nada na vida e que passa suas horas livres sempre com um drink na mão. Guy é o sujeito submisso, que sempre quer agir corretamente e ser honesto. 

O ápice do livro é ver a desconstrução dessas personalidades, ver como cada um começa a perder sua essência em decorrência da sucessão de eventos. Por isso mesmo, antes de ser um suspense ou até mesmo um livro policial, Pacto Sinistro é um thriller psicológico. Aliás, este aspecto fica claro na própria narrativa, que se foca mais no estado de espirito e nos pensamentos dos personagens, do que em suas ações. 

Entretanto, confesso que achei o livro, especialmente da metade para o final, enrolado. Highsmith faz questão de mostrar o efeito que a relação entre Charles e Guy causa na vida cotidiana deles. Por isso, o leitor acompanha diversas vezes cenas sobre o trabalho de Guy ou as noitadas de Charles que em nada acrescentam à trama. Trata-se do típico caso “menos é mais”. 

Confesso que o final tampouco me agradou, pois a solução apresentada pela autora me pareceu simplista demais em alguns momentos, e forçada demais em outros, de modo que não me convenceu. Além disso, o final conta com pouca ação e nenhuma reviravolta, sendo até mesmo um pouco previsível, de modo que não empolga o leitor. 

Assim, apesar de fã da autora e com grandes expectativas para a leitura de Pacto Sinistro, admito que senti um gosto de decepção ao final. É claro que a premissa é genial e os personagens literalmente ganham vida, mas a execução infelizmente deixa a desejar. 

Título: Pacto Sinistro
Autora: Patricia Highsmith
N.º de páginas: 288
Editora: Ediouro

domingo, 14 de agosto de 2016

[Biografias] para quem não gosta de [biografias]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. Na primeira edição, falamos sobre biografias. 


Uma declaração de amor à obra do genial Alfred Hitchcock através da própria obra de Alfred Hitchcock. A partir de uma série de entrevistas realizadas com o mestre do suspense, o diretor François Truffaut faz um apanhado cronológico da carreira de Hitchcock, desde seus filmes mudos até os grandes sucessos Hollywoodianos. Assim, o livro apresenta tanto as opiniões do próprio Hitchcock em relação a seus filmes, quanto as de Truffaut com seu olhar de colega diretor e também de grande admirador. Assim, por mais que seja parcialmente uma biografia de Alfred Hitchcock, pois acompanhamos sua vida pelo andar de sua carreira, não é o diretor que está em foco e sim seus filmes. Além do rico conteúdo, o livro é repleto de imagens dos filmes, bastidores e até das próprias entrevistas. Indicado para qualquer amante da sétima arte, do gênero suspense em geral e, claro, imperdível para fãs de Hitchcock.


2. Paris é uma Festa, de Ernest Hemingway

Livro de caráter autobiográfico no qual Hemingway relembra os anos em que viveu em Paris na década de 20 quando ainda tentava dar seus primeiros passos como escritor. Por ter sido escrito 30 anos depois dos acontecimentos, a nostalgia permeia as lembranças do autor que, naquele momento, já era um dos mais consagrados da sua geração. Mesmo trazendo eventos biográficos, o próprio Hemingway afirma que o livro não precisa ser encarado como uma biografia, pois mesmo que tentasse não conseguiria abordar todos os eventos daqueles anos. Além disso, o livro não tenta nos apresentar quem foi Ernest Hemingway, apenas direcionar o nosso olhar para alguns eventos da sua vida. Mas talvez o mais cativante é que, independente do protagonista dos acontecimentos, Hemingway apresenta Paris de uma maneira tão encantadora que é impossível não se apaixonar pela cidade e sua atmosfera, esteja você interessado no próprio Hemingway ou não. Um daqueles livros que se destaca em meio a obra de qualquer autor por ser diferente de todo o resto que ele escreveu, mas ainda assim mantém suas características principais, o que o torna recomendável tanto para quem é fã, quanto para quem nunca leu. E tudo isso, claro, com o sempre maravilhoso texto de Ernest Hemingway (o que é razão suficiente para se ler qualquer coisa).


3. A Morte do Pai, de Karl Ove Knausgård

Primeiro livro da aclamada série autobiográfica “Minha Luta”, Knausgård brinca com os limites entre biografia e ficção, seguindo apenas duas regras: ser honesto e falar aquilo que lhe vem à mente, sem seguir uma ordem específica. Em “A Morte do Pai” o autor desabafa sobre seu relacionamento conturbado com o pai, lembrando de episódios da adolescência, do distanciamento crescente, culminando com a morte e os preparativos para o funeral. Apesar da premissa não parecer tão empolgante, Knausgård prende o leitor não apenas pela estória que está narrando, mas sobretudo por suas reflexões sobre temas como morte, relacionamentos familiares e amadurecimento. Um dos fatores mais interessantes é que “Minha Luta” está longe de ser uma biografia comum. Geralmente se espera que a vida do biografado tenha sido interessantíssima ou que fosse responsável por grandes feitos. E é neste ponto que Knausgård se diferencia: sua vida é comum. Embora muitas pessoas tenham se questionado por que uma vida tão ordinária mereceu uma obra biográfica dividida em seis livros, eu creio que esta é justamente a razão de tamanha popularidade: Knausgård narra sobre a vida que todos nós conhecemos e com a qual todos podemos nos identificar.

            

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

RESENHA: Suave é a Noite

“Sua ingenuidade se sentia atraída pela custosa simplicidade dos Diver, sem perceber que nela havia complexidade e falta de inocência, sem ver que eles se preocupavam mais com qualidade do que com quantidade. Assim também a naturalidade de comportamento, a paz e a boa vontade, a ênfase dada às virtudes mais singelas, tudo isso fazia parte de um desesperado acordo com os deuses e fora atingido à custa de lutas incalculáveis.” (FITZGERALD, 2010, pag. 43).

Comprei “Suave é a Noite” pouco tempo depois (e sob evidente influência) da minha leitura de “O Grande Gatsby”, livro que elegi como uma das minhas melhores leituras de 2013. Quando o li, mais de um ano depois, não encontrei nele a mesma experiência prazerosa que no meu primeiro contato com a obra de Fitzgerald.

Dick Diver é um brilhante psiquiatra que, ao ser chamado para um caso, apaixona-se pela paciente. Com o casamento, o estilo de vida que os dois adotam passam a ser financiado pelo dinheiro de Nicole e aos poucos Dick abandona a psiquiatria. Apesar do dinheiro, dos belos lugares e das inúmeras festas, o casal não é feliz e sua vida é tediosa.

Ambientado na década de 20 e dividido em três partes, “Suave é a Noite” começa lento, para não dizer entediante. Dick e Nicole vivem uma vida vazia na Riviera Francesa quando em suas vidas surge a jovem atriz Rosemary que se apaixona por Dick e, eventualmente, é correspondida. Esses capítulos, porém, são monótonos e os personagens não cativam (o que talvez mostre como eles se sentem em relação à vida).

Já na segunda parte do livro a mudança é palpável. O autor brinca com a linha temporal e dedica alguns capítulos centrais à época em que Dick e Nicole se conheceram – a época de ouro da carreira dele e o auge da doença dela no hospital psiquiátrico. Nas primeiras linhas já é possível perceber que aquelas pessoas que vínhamos acompanhando eram outras pessoas em outra fase de suas vidas e que o casamento foi um marco da mudança (uma característica que lembra obras do Realismo, por exemplo, “Madame Bovary”). Ali, podemos ver um Dick vibrante, uma pessoa cheia de planos e sonhos - a quem todos gostavam pelo que de fato era e não pelo que tentava ser - e detentora do domínio de sua própria vida.

Voltando ao presente, acompanhamos o desgaste da relação do casal e a decadência de Dick que, aos poucos, se entrega ao alcoolismo. “Suave é a Noite” é considerada a obra mais autobiográfica de Fitzgerald e o alcoolismo de Dick é um reflexo do alcoolismo do autor, enquanto a esquizofrenia de Nicole é um reflexo da de Zelda, sua esposa. Não só esses, mas outros aspectos da trama foram inspirados em acontecimentos da vida do casal.

É interessante a inversão de papeis que ocorre aos poucos. Enquanto Dick vai se reduzindo a um fragmento do homem que era, Nicole, por sua vez, que a principio depende dele para se curar – primeiro como médico, depois como marido - aos poucos se livra dessa dependência e encontra seu próprio rumo.

Com uma recepção morna na época do seu lançamento (já que histórias da Era do Jazz já estavam defasadas nos anos que se seguiram à crise da bolsa de valores) “Suave é a Noite” era considerado por Fitzgerald sua melhor obra e foi o último livro que o autor finalizou (na ocasião de sua morte trabalhava em “O Último Magnata”). Confesso não ter gostado - ou talvez devesse dizer apreciado – a leitura que mesmo em seus melhores momentos me pareceu enfadonha. Reconheço, porém, méritos em especial devido a complexidade dos personagens. Talvez seja o caso de reler em outro momento. Ainda assim, pretendo ler outros livros do autor, em especial “Os Belos e Malditos”, e também seus contos.

Título: Suave é a Noite
Autor: F.Scott Fitzgerald
Nº de páginas: 445
Editora: Best Bolso

terça-feira, 9 de agosto de 2016

RESENHA: Emma

“A vaidade trabalhando em uma mente fraca produz muitos tipos de danos.” (AUSTEN, 2015, p. 346).

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Emma é uma jovem rica de vinte e dois anos que, após o casamento da irmã, passou a governar a casa onde mora com seu pai. Apesar de não ter interesses amorosos, tampouco a intenção de se casar, ela se diverte tentando arrumar um bom partido para Harriet, sua nova protegida, ignorando as objeções de seu cunhado, sr. Knightley. Quando seus planos tomam rumos inesperados, Emma percebe os problemas que suas intromissões causaram na vida dos envolvidos. 

Confesso que demorei a me envolver com a estória e o motivo principal foi a protagonista. Emma me pareceu uma jovem superficial, fútil e que tinha um conceito muito elevado de si mesma. Acima de tudo, Emma é egocêntrica, pois não apenas espera que a vida da cidade de Higbury gire ao seu redor, mas também acha que suas opiniões e seus juízos sempre estão corretos, desdenhando das posições contrárias as suas. Mas a característica que mais me incomodou foi o preconceito latente e o sentimento de superioridade em relação aos outros. 

Uma das ocupações de Emma era fazer as vezes de cupido, entretanto, a personagem tinha pouca aptidão para discernir os verdadeiros sentimentos alheios, o que a levava a dar péssimos conselhos e a criar situações embaraçosas. Felizmente, ela aprende com os erros e aos poucos começa a amadurecer, deixando transparecer seu lado mais humano e sensível. É essa mistura de bondade e esnobismo que faz de Emma uma personagem memorável, que consegue ser, ao mesmo tempo, heroína e vilã. 

A narrativa é em terceira pessoa, entretanto, trata-se de um texto que vem permeado pelas impressões e emoções de Emma. Assim, um dos grandes baratos do livro é tentar desvendar o que realmente está acontecendo, pois a imaginação fértil somada aos preconceitos de Emma sempre a levavam a enxergar coisas que não estavam lá ou a ignorar as que estavam, de forma que o leitor não pode se fiar em suas interpretações dos fatos.

Emma é, sem sombra de dúvidas, o cerne da obra, e não por menos seu nome dá título ao livro. O que vemos é sua jornada de crescimento e amadurecimento, sendo os demais acontecimentos simples panos de fundo para o desenvolvimento da protagonista. Em virtude disso, o livro conta com um ritmo mais vagaroso e com poucas reviravoltas. 

Outro fator que chama atenção é que Emma é uma protagonista completamente diferente das demais heroínas de Jane Austen. Creio que a intenção da autora foi mostrar o ponto de vista de alguém que estivesse no centro de uma família abastada, revelando a cultura que pregava a superioridade de uma classe social em relação às outras. Emma é a personificação desse mundo de aparências e vaidades, que valoriza mais o sangue e o dinheiro do que outras qualidades. E por isso mesmo, eu diria que esta é a crítica social mais clara e contundente de Austen, pois expõe uma forma de pensar mesquinha e obtusa. 

Emma foi o último dos seis romances de Jane Austen que li e fico feliz que tenha sido assim. Isso por que o livro, apesar de não ter uma trama tão complexa, certamente apresenta uma personagem que não é fácil de ser compreendida em virtude de sua ambiguidade e que demora a despertar a empatia do leitor. Se este tivesse sido meu primeiro contato com a autora, tenho dúvidas se teria apreciado a genialidade na construção da personagem, bem como as críticas sociais. 

Esta edição digna de colecionador também conta com os livros “Mansfield Park” e “A Abadia Northanger”.


 
Título: Emma (exemplar cedido pela editora)
Autora: Jane Austen
N.º de páginas: 767
Editora: Martin Claret
 

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