sexta-feira, 19 de julho de 2019

RESENHA: Especial

Especial é a autobiografia de Ryan, um jovem gay e diagnosticado com paralisia cerebral, que conta episódios marcantes de sua vida como um típico millenial. Escrito em primeira pessoa, quase como se fosse uma conversa, o texto de Ryan rapidamente envolve o leitor, especialmente por seu teor cômico. Ao longo das mais diversas experiências do autor, é impossível não se identificar e rir das aventuras mais inesperadas. 

E identificação talvez seja uma das melhores palavras para definir Especial. O autor mergulha fundo nos medos, anseios e traumas de nossa geração, mostrando como fomos afetados pela explosão do mundo digital. Hoje, podemos ter centenas ou até milhares de amigos nas redes sociais, mas viver uma vida de solidão. Podemos estar em diversos aplicativos de relacionamento, mas sem nunca encontrar um relacionamento verdadeiro. 

A autobiografia de Ryan aborda suas dificuldades por ser uma pessoa com deficiência e homossexual, bem como seu processo de aceitação. Mas, muito mais do que isso, Especial é uma jornada rumo ao amadurecimento e ao descobrimento de sua própria personalidade. E nessa jornada, diversos temas são abordados como autoestima, narcisismo, amizades, uso de drogas, ansiedade, entre outros. 

"Tínhamos a impressão de que a reinvenção nos transformaria em algo melhor, mas apenas nos tornou mais miseráveis e confusos. Você pode experimentar diferentes personalidades como quem troca de roupa, mas garanto que o traje original vai ser sempre o veste melhor." (O'CONNELL, 2019, p. 64)

Por ser um relato de um conjunto de experiências, Especial acaba tendo muitos coadjuvantes, mas sem aprofundar em nenhum deles. Somos apresentados a membros da família, alguns amigos, crushes e colegas de trabalho, mas em nenhum momentos os conhecemos de fato, o que me causou um certo estranhamento. 

Outro fator que me incomodou é que em alguns momentos do livro o autor assumia um tom mais professoral, dando lições de vida, fugindo de uma autobiografia e entrando no território da auto-ajuda. 

Ainda assim, o saldo final da experiência foi positivo. Especial é uma leitura rápida, engraçada e que faz refletir sobre nossa própria vida, sobre a importância de valorizarmos quem somos e vivermos a vida a real. 

O livro inspirou a série Special, da Netflix, sendo protagonizada pelo próprio Ryan. 

Título: Especial
Autor: Ryan O'connell
N.º de páginas: 223
Editora: Galera Record
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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domingo, 14 de julho de 2019

RESENHA: Floresta Escura

Floresta Escura / Nicole Krauss
Aquele livro no qual você esbarra por acaso, lê a prova e não esquece dela por meses. Até que chega a hora de fazer a leitura.

Jules Epstein está beirando os 70 anos quando simplesmente desaparece. Ao ser avisada, sua família se depara com um apartamento que jamais poderia ser associado a ele, o que intensifica ainda mais o mistério a respeito do que pode ter lhe acontecido. Já Nicole é uma romancista que, ao tentar escrever um novo livro, se vê cheia de lembranças da piscina do hotel que frequentava com a família em Tel Aviv quando era criança. Em busca de um sopro de inspiração, ela deixa os filhos e o marido, com quem vive um casamento acomodado, e decide passar uma temporada em Israel.

Duas histórias que correm paralelas, sem que o leitor saiba como elas irão se cruzar. É assim que Krauss molda “Floresta Escura”. De um lado temos a história de Epstein. Do outro, a de Nicole. Ambos estão em busca de si mesmos, mas em pontas diferentes. Enquanto Epstein já não vê sentido nas coisas que antes foram importantes na sua vida, Nicole espera encontrar sentido para os anos que estão por vir.

Na narrativa há uma diferenciação que funciona como um reflexo dos personagens. Enquanto a de Nicole (que está tentando se entender) é em primeira pessoa, a de Epstein (que os outros estão tentando entender) é em terceira pessoa. Uma é o olhar de dentro para fora. A outra, de fora para dentro.

“E parte do temor que sentimos quando confrontamos o desconhecido não vem de saber que, se ele afinal nos envolver e se tornar conhecido, não vamos mudar?” (KRAUSS, 2018, p.55)

“Epstein entrou na casa. Entrou com uma música na cabeça. Entrou do modo como um homem entra em sua própria solidão, sem esperança de preenchê-la.” (KRAUS, 2018, p.149)

Embora ambos sejam ótimos personagens, confesso que aos poucos fui perdendo o interesse na jornada de Epstein, mas continuei envolvida com a história de Nicole. Talvez isso tenha acontecido porque, desde o início, vi uma profundidade maior nos trechos dedicados a ela e não foram poucas as vezes em que determinadas frases me fizeram interromper a leitura para refletir, porque “Floresta Escura” é, acima de tudo, um livro reflexivo sobre as decisões que tomamos, sobre como deixamos a vida nos levar, sobre os caminhos que não percebemos que estamos trilhando, sobre o sentido que muitas vezes não somos capazes de atribuir às coisas que nos cercam.

Quem também aparece em “Floresta Escura” é Franz Kafka. Para a minha surpresa, em um belo momento me vi lendo algo que era praticamente uma biografia do autor de “A Metamorfose”, mas eventualmente, tudo faz sentido e é interessante ver o paralelo entre a vida e obra do autor com a dos personagens que estamos acompanhando.

“Floresta Escura” é um livro lento, reflexivo e ligeiramente melancólico sobre as perguntas que fazemos e as respostas que buscamos. Sobre o sentido que damos às nossas ações e sobre a felicidade que almejamos. Sobre quem somos e quem gostaríamos de ser.

Título: Floresta Escura
Autora: Nicole Krauss
N° de páginas: 297
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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quinta-feira, 11 de julho de 2019

RESENHA: A caixa-preta

Por muito tempo considerei Michael Connelly um dos nomes de destaque da literatura policial, especialmente em virtude de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, minhas últimas experiências com o autor foram um pouco decepcionantes, de modo que estava mantendo uma certa distância de suas obras. Mas, como recebi este livro por engano, decidi dar uma nova chance ao autor. 

Em 1992, Harry Bosch investiga de forma superficial o assassinato de Anneke, uma jornalista holandesa, durante uma onda de protestos, caos e violência que tomaram conta de Los Angeles. Vinte anos depois, o caso retorna às mãos de Bosch, que fará de tudo para solucionar o mistério. 

O livro é narrado em terceira pessoa, mas acompanhamos o detetive Bosch de perto, de modo que sentimos estar ao seu lado, seguindo pistas, interrogando suspeitos e tentando encaixar as peças. Como sempre, Connelly consegue nos fazer mergulhar de cabeça na estória, nos envolvendo completamente com o caso. 

Outro fator que merece destaque é a originalidade e a criatividade do autor. O caso tem início com com poucas pistas e fiquei surpreso com o fato de Harry conseguir aprofundar a investigação partindo de uma base tão superficial. Além disso, a estória por trás da morte de Anneke também me surpreendeu e evidencia o talento do autor em criar boas estórias policiais. 

"Ele acreditava que todo caso tinha sua caixa-preta. Alguma evidência, alguém, algum encaixe dos fatos capaz de lançar um pouco de luz e ajudar a explicar o que acontecera e por quê. Com Annake Jespersen, no entanto, não havia caixa-preta. Apenas um par de caixas de papelão emboloradas tiradas dos arquivos, que lhe renderam pouca orientação ou esperança." (CONNELLY, 2017, p. 28)

A investigação segue um ritmo ágil, o que torna a leitura extremamente fluída. Todavia, alguns momentos da estória dedicados a outros aspectos da vida de Bosch me pareceram um pouco maçantes. Já o final conta com um ritmo mais intenso, repleto de adrenalina e tensão. Connelly sabe dosar todos os ingredientes com precisão, de forma a deixar o leitor com o coração na mão e completamente absorto na estória.  

No entanto, continuo achando Bosch um personagem desagradável. Creio que desde que li A Queda, a conduta arrogante e de superioridade do detetive em relação às normas me desagradou. Desta vez, tal característica mais uma vez se sobressaí. Minha impressão é de que o autor exagera tentando mostrar um detetive durão, que não liga para as burocracias, pois está ocupando demais combatendo o crime. Porém, em seu afã de combater o crime, pratica diversas irregularidades.  

Apesar de ter sido uma boa experiência de leitura, A caixa-preta não é o tipo de livro que impressiona ou empolga. A meu ver, faltou aquele algo a mais, que transforma uma estória mediana em memorável. Assim, A caixa-preta é um bom livro policial, com todos os elementos esperados do gênero, mas não é bom o suficiente a ponto de se destacar. 

Título: A Caixa-preta
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 303
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

sábado, 6 de julho de 2019

O que vem por ai - julho

Separamos alguns dos lançamentos de nossas editoras parceiras que estão previstos para o mês de julho. Quais estão na lista de desejados de vocês?

INTRÍNSECA



GRUPO COMPANHIA DAS LETRAS




GRUPO EDITORIAL RECORD



DARKSIDE



ALEPH


quinta-feira, 4 de julho de 2019

Top Comentarista Julho



No top comentarista de julho, o vencedor poderá escolher o livro que quer ganhar dentre as quatro opções: "Matadouro Cinco", "Os Turistas, "As Viúvas" e "Good Omens"
Confira o regulamento:

1. Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebookcomentar em todas as postagens de julho e ter um endereço de entrega no Brasil.

2. Para simplificar, optamos por utilizar o Rafflecopter. A primeira entrada confirma sua participação no Top Comentarista, enquanto as demais constituem chances extras, sendo opcionais. Atenção: depois de feito o sorteio será conferido se o sorteado comentou em todas as postagens do mês. Caso essa regra não seja cumprida, o mesmo será desclassificado, e um novo sorteio será realizado.

3. Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog no twitter. 

4. Lembrando que somente serão válidos comentários significativos. Ou seja, comentários do gênero “interessante”, “legal” ou “ótima resenha” não serão computados. O participante poderá comentar apenas uma vez em cada post.

5. O sorteado poderá escolher o livro que deseja receber dentre as quatro opções disponíveis:
Matadouro Cinco
- Os Turistas
- As Viúvas
Good Omens

6. O resultado do Top Comentarista será divulgado no blog até o dia 05 de agosto.

7. O sorteado será contatado por email, tendo o prazo de 48h para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

8. O prêmio será enviado pelo blog no prazo de quarenta e cinco dias úteis.

9. A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.


a Rafflecopter giveaway

sexta-feira, 28 de junho de 2019

RESENHA: A caixa-preta

A Caixa-Preta - Amós Oz
Após um divórcio conturbado e anos de silêncio, Ilana contata Alex, seu ex-marido, em virtude de recentes eventos envolvendo Boaz, o problemático filho do casal. Diante da situação tensa, o atual marido de Ilana, Michel, e até mesmo o advogado de Alex se vêem envolvidos.

A caixa-preta é um livro epistolar, de modo que o leitor encontra uma colcha de retalhos: são cartas, telegramas e trechos de anotações que mostram os mais diversos pontos de vista de uma complexa relação. O grande mérito do autor certamente é sua capacidade de criar vozes completamente diferentes e únicas para cada um dos personagens.

E não apenas isso: através de cada carta conseguimos vislumbrar traços de personalidade de cada um deles. Assim, é nas entrelinhas que percebemos que Ilana escreve de forma aleatória, divagando entre lembranças e acusações, tentando disfarçar sua necessidade de manter contato com Alex. Ele, por sua vez, é objetivo e absurdamente honesto, sem se preocupar em medir as palavras. Michael disfarça seus interesses mesquinhos por trás de uma fachada religiosa, enquanto Boaz se vê perdido na vida.

O mais curioso é perceber como esta colcha de retalhos, com múltiplas vozes e pontos de vista, se junta de forma coerente. Minhas experiências com livros epistolares nunca foram positivas por que nenhuma delas conseguiu chegar perto do desenvolvimento e da profundidade que Oz consegue dar aos personagens e as relações entre eles.

"Com todo respeito a Tolstói, eu digo que o contrário é o correto: os infelizes na maioria estão imersos em sofrimentos convencionais, vivem numa única rotina estéril entre quatro ou cinco clichês de miséria gastos. Enquanto a felicidade é um objeto fino e raro, uma espécie de vaso chinês, e os poucos que chegam a ele cinzelaram-no traço por traço durante anos, cada um a sua imagem, cada um segundo as suas medidas, portanto não há uma felicidade que se pareça com a outra." (OZ, 2007, p. 142)

Outro ponto interessante são as críticas que o autor faz à intolerância e ao fanatismo religioso, mostrando como muitas religiões se assemelham neste aspecto. Além disso, o autor traz à tona a discussão do empoderamento feminino em virtude do tratamento de inferioridade que é dado a Ilana por sua condição de mulher tanto em seu divórcio, quanto por seu submetimento a Michel. O livro, publicado pela primeira vez em 1987, já se propunha a debater esse assunto que está tão em voga atualmente.

O desfecho não conta com grandes reviravoltas e o final é um tanto abrupto. Oz não coloca todo os pingos nos is, de forma que não sabemos como a vida desses personagens continuará. Assim A caixa-preta é um recorte para vida deles: vemos a retomada de contato, as guinadas que ocorrem, entendemos o passado, os segredos e as mentiras, e tudo o que os levou àquela situação. Mas o futuro fica em aberto.

Apesar de ter me surpreendido com a capacidade do autor em criar um drama tão profundo a partir de cartas, tive a sensação de que o livro perdeu um pouco de sua força da metade para o final. Talvez por que já havia desvendando o passado deles, talvez por que as cartas tenham se tornado um pouco maçantes. Ainda assim, A caixa-preta mostrou o talento singular de Amós Oz em criar tramas complexas, com uma narrativa rica, além de personagens vívidos a ponto de suas personalidades transparecerem a cada vírgula. Assim, não tenho dúvidas que explorarei outras obras do autor.

Título: A caixa-preta
Autor: Amoz Oz
N de páginas: 301
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 25 de junho de 2019

RESENHA: Cabo do Medo

Cabo do Medo - John D. MacDonald - Darkside Books
Adoro quando eu descubro que filmes que gosto muito foram inspirados em livros que eu nem sabia que existiam. Isso aconteceu mais uma vez com “Cabo do Medo”.

Sam Bowden vive feliz com a esposa e os três filhos até o dia em que Max Cady é libertado da prisão após cumprir 13 anos de uma sentença de prisão perpétua. Há anos, Sam foi um dos responsáveis pela condenação de Max pelo estupro de uma menina de quatorze anos e, agora que está em liberdade, Max quer vingança.

Cabo do Medo” não é um livro sobre surpresas e reviravoltas. Desde o início sabemos quem Max é e o que pretende. Sabemos onde está o perigo. A tensão está em esperar que ele surja em qualquer lugar, a qualquer momento. Que algo aconteça. Algo que torcemos para que não aconteça. É essa expectativa que segura o leitor ao longo de mais de 200 páginas.

Essa tensão constante acontece porque MacDonald vai direto ao ponto, dando início à trama a partir do momento em que Max começa a colocar sua vingança em prática. É uma história em que não precisamos de introduções. Não precisamos acompanhar o planejamento. Só precisamos ve-lo aterrorizar a família Bowden. Por isso também, “Cabo do Medo” é um livro curto, do tipo que facilmente pode ser lido em um único dia.
“Era como se todos os seus medos tivessem se tornado realidade, como se ela sempre houvesse sabido da agonia especial que a aguardava.” (MACDONALD, John D., 2019, p.54)

O autor faz algo que me agrada muito que é envolver Max em uma atmosfera de imprevisibilidade e violência de forma que a simples menção do seu nome basta para aterrorizar. Esse é o tipo de livro cuja alma está no vilão, mas a verdade é que ele pouco aparece e, nas vezes em que aparece, mal fala. Só isso basta! Se Max está ali, isso é sinônimo de algo terrível e ninguém será páreo para ele.

Sam, por sua vez, nos faz questionar até que ponto uma pessoa pode ir quando a segurança das pessoas que ama está em risco e o quanto as regras de certo e errado se aplicam em situações extremas.

Mesmo tendo me prendido do início ao fim, confesso que no desfecho “Cabo do Medo” me jogou um balde de água fria. É ruim? Não. Longe disso. Mas eu esperava mais. Quando eu vi, o livro havia acabado sem os momentos de tensão extrema que eu aguardava para as últimas páginas. Mas isso não desmerece a jornada.

“Cabo do Medo” já ganhou duas adaptações cinematográficas com nomes de peso da sétima arte. A primeira, em 1962, com Gregory Peck e Robert Mitchum. A segunda, em 1991, com Robert De Niro (tão assustador como Max Cady que eu podia enxerga-lo durante a leitura mesmo já tendo assistido há anos) e Nick Nolte em filme de Martin Scorsese. Quanto à primeira não posso opinar, mas a segunda afirmo que é de tirar o fôlego.

Título: Cabo do Medo
Autor: John D. MacDonald
Nº de páginas: 221
Editora: Darkside Books
Exemplar cedido pela editora

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