quarta-feira, 19 de julho de 2017

RESENHA: Minha Vida Fora dos Trilhos

“Quando há sofrimento, procuramos por um motivo. E é mais fácil encontrar esse motivo dentro de si mesmo.” (2017, VANDERPOOL, p. 143)

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Depois da incrível experiência de leitura que tive com Em Algum Lugar nas Estrelas, não poderia deixar de conferir Minha Vida Fora dos Trilhos, o livro de estreia de Clare Vanderpool. 

Abilene Tucker, uma garota de doze anos, é enviada para a cidade de Manifest por seu pai, que irá trabalhar durante o verão na construção de trilhos. Quando se instala na casa de Shady, um amigo de seu pai, Abilene acaba encontrando uma caixa com cartas trocadas entre dois jovens, Ned e Jinx, durante a Primeira Guerra Mundial. Ao ver a menção a um possível espião instalado em Manifest, ela decide investigar o conteúdo das cartas e para isso contará com a ajuda de novas amigas. 

Minha Vida Fora dos Trilhos conta com duas linhas temporais. Na primeira vemos a chegada de Abilene a Manifest em 1936, sua adaptação a nova cidade e logo entendemos seu desejo de desenterrar a história do pai, que nunca lhe contou as experiências que viveu naquela cidade. Paralelamente, também acompanhamos a estória que a srta. Madie conta para Abilene sobre os acontecimentos de Manifest durante a Primeira Guerra. Além disso, lemos as cartas de Ned e trechos do jornal local, os quais completam uma grande colcha de retalhos, que costura presente e passado de forma magistral. 

Abilene é uma protagonista bem desenvolvida, que encanta o leitor imediatamente. Logo entendemos sua necessidade de se conectar com a cidade para, quem sabe, compreender melhor seu pai. Sua jornada acaba descortinando a história de Manifest e assim como a protagonista, também somos cativados pelos personagens do passado e ficamos ansiosos para descobrir quais são os segredos da cidade e como as peças se encaixam. 

A narrativa também merece destaque, pois dá a impressão de que voltamos no tempo e que estamos andando pelas ruas empoeiradas e ensolaradas de Manifest. Além da narrativa viciante e envolvente, fica claro que Vanderpool tem uma habilidade natural para criar estórias juvenis que misturam elementos de diversos gêneros como aventura, suspense e drama. E apesar dos inúmeros arcos da trama, é impressionante como a autora não se perde, conseguindo amarrar todas as pontas. 

Outro fator que me chamou atenção foram as discussões sobre temas complexos como amizade, ambição, superação, injustiça, amor e altruísmo de forma sútil e impactante. Dessa forma, Vanderpool consegue falar sobre temas universais de forma simples, o que faz com que o livro vá muito além da literatura juvenil, pois transcende a uma faixa etária específica. 

Apesar de ter adorado Em Algum Lugar nas Estrelas, preciso admitir que Minha Vida Fora dos Trilhos me encantou ainda mais, pois é o tipo de livro que coloca um sorriso no rosto de quem lê e que aquece a alma. 

Título: Minha Vida Fora dos Trilhos
Autora: Clare Vanderpool
N.º de páginas: 311
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 17 de julho de 2017

RESENHA: O Bazar dos Sonhos Ruins

“- Você pode atingir a pessoa, mas não pode atingir o mal. (...) O mal sempre sobrevive. Sai voando como um pássaro enorme e pousa em outra pessoa. É essa a merda, não acha? A merda dessa situação toda.” (KING, 2017, p. 278)

Estou ansiosa para conferir “O Bazar dos Sonhos Ruins” desde antes do anuncio da sua publicação no Brasil. O motivo é simples: não se trata apenas de um livro de Stephen King e sim de um livro de histórias curtas de Stephen King e eu costumo ter ótimas experiências quando o Mestre escreve nesse formato.

Nesse caso, temos os mais diversos temas. Há histórias mais longas, outras mais curtas (há até mesmo dois poemas narrativos – os únicos textos que, diga-se de passagem, não me agradaram). A temática também difere bastante, mostrando um pouquinho de tudo que costumamos encontrar nas obras do autor. Há histórias sobrenaturais, outras que são apenas bons dramas, outras temperadas com um humor macabro que King sempre sabe fazer funcionar muito bem. De certa forma, “O Bazar dos Sonhos Ruins” poderia ser considerado uma espécie de portfólio do autor, dando de uma vez só para o leitor um gostinho do que é o Universo Stephen King.

Como é de se esperar em um livro que reúne 20 histórias, nem todas vão envolver o leitor da mesma forma, embora todas sejam bem elaboradas e interessantes. No meu caso, destaco aqui “Garotinho Malvado”, em que um homem no corredor da morte conta sobre a perturbadora presença de um menino na sua vida e porque ele finalmente assassinou esse menino; “UR”, em que um professor é capaz de acessar mundos paralelos através do seu Kindle e descobrir obras nunca publicadas/escritas por alguns dos maiores nomes da literatura; “Indisposta”, protagonizada por um homem dedicado à sua esposa (aqui há ecos de uma história lendária, mas com o jeitinho Stephen King de manipular o leitor); “Aquele ônibus é outro mundo”, breves oito páginas nas quais um homem no trânsito testemunha um assassinato no ônibus que pára por alguns segundos ao seu lado; e “Obituários”, em que um jornalista descobre que consegue matar pessoas através dos obituários debochados que escreve, caso faça isso com alguém que ainda está vivo.

Cada conto ganhou uma introdução na qual o autor revela como surgiu a ideia da história em questão (aliás, King é tão envolvente que até mesmo os seus prefácios parecem mini-contos). Ao ler esses comentários do autor, a sensação que temos é que King se permite escrever sobre tudo que passa em sua mente. Com uma carreira extensa como a dele, é claro que alguns temas acabam sendo revisitados (o último conto, “Trovão de Verão”, por exemplo, tem como temática o fim do mundo, ou seja, a mesma do romance “Dança da Morte”, como o próprio autor comenta na introdução. O conto que abre a coletânea, “Milha 81”, gira em torno de um carro assassino, algo que também já foi utilizado anteriormente pelo autor), mas em nenhum momento King parece estar sendo repetitivo, isso porque seu foco está sempre nos personagens, sejam eles um velho casal de namorados em um piquenique, mulheres que bebem para fugir das frustrações de suas vidas, um casal necessitado de dinheiro que descobre ser capaz de coisas que não imaginou que seria, um filho e seu pai senil e até mesmo crianças testemunhando um carro assassino devorar todos os que se aproximam dele (no que é, obviamente, o tipo de premissa absurda que só um talento como o de Stephen King é capaz de fazer funcionar).

Escrevendo com a narrativa que lhe é característica, Stephen King leva seu Leitor Fiel aos mais diversos universos e o faz testemunhar o melhor e o pior do ser humano em situações por vezes banais, por outras totalmente fora da realidade, mas o fisgando para dentro da história e o fazendo acreditar, mesmo no absurdo, sempre.

No prefácio, o autor diz que nunca sente tanto as limitações do seu talento como quando escreve contos, já que esses são um exercício “acrobático”. Ah King...se todos os talentos limitados da literatura fossem como o seu...

Título: O Bazar dos Sonhos Ruins
Autor: Stephen King
N° de páginas: 527
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

RESENHA: As Garotas

“Uma grande parte do desejo, naquela época, era um ato intencional. Tentando incessantemente moldar as quinas ásperas e decepcionantes dos meninos no formato de alguém que pudéssemos amar. (...) Mais tarde eu veria isto: como o nosso amor era impessoal e ávido, vasculhando o universo, na esperança de um hospedeiro que moldasse nossos desejos.” (CLINE, 2017, p.45)

O que leva uma pessoa a ser sugada para dentro de um culto? Que espécie de vazio precisa ser preenchido para que algo tão extremo como o fanatismo ganhe espaço? Foi esse aspecto da temática de “As Garotas” que me fisgou imediatamente. Depois, lembrei de ter lido Stephen King recomendar a leitura. Quando peguei o livro em mãos, vi um elogio de ninguém mais, ninguém menos, que Jennifer Egan. Com as expectativas em alta, eu esperava um suspense, mas a autora me levou por um caminho diferente (talvez ainda mais tortuoso) e não decepcionou.

Em 1969, aos 14 anos, Evie Boyd vive com a mãe, com quem mantém um relacionamento distante, tem uma melhor amiga, sobre quem às vezes se pergunta o que as mantém amigas, e sente uma série de complexos e inseguranças, como a maioria das adolescentes. Até o dia em que ela vê Suzanne pela primeira vez. Usando roupas velhas, revirando latas de lixo com outras duas meninas, Suzanne emana uma áurea de autoconfiança, desapego e sensualidade que hipnotiza Evie. Logo elas se aproximam e Evie descobre que as meninas vivem juntas em uma comunidade comandada pelo carismático Russell. Mas o que Evie descobre depois é que há outras facetas em Russell e que aquelas pessoas são capazes de uma violência que ela nunca imaginara penetrar na sua vida.

A narrativa se divide entre o presente e 1969 e intercala as duas fases constantemente. Ambas são narradas por Evie já adulta e é possível perceber que, mesmo que os eventos estejam distantes, eles deixaram uma marca na sua vida. Não demoramos a descobrir que o culto foi responsável por uma chacina, embora ainda não temos conhecimento das circunstâncias e das pessoas envolvidas. Tudo o que sabemos é que, por alguma razão, Evie não fez parte de tal ato. Mas poderia ter feito.

São poucas as cenas no presente. Pouco sabemos sobre como Evie vive atualmente ou por que está passando uns dias na casa de um amigo que não está lá (coincidentemente, a mesma situação em que estavam as vítimas da chacina na noite fatídica). Tudo o que sabemos é que ela deveria ter a casa somente para ela, mas é surpreendida pelo filho do amigo e sua namorada, Sasha. Em Sasha, Evie vê o reflexo das inseguranças que ela mesma tinha quando adolescente, o que torna fácil perceber que essas angústias não tinham a ver com a década de 60 ou mesmo com a influência do culto. São questões atemporais que afligem meninas mesmo tantas décadas depois.

O foco da trama poderia ser a chacina e isso teria rendido o ótimo livro de suspense que eu acreditei que “As Garotas” seria. Mas Emma Cline vai além disso e o torna um drama sobre amadurecimento, insegurança e carência. Sobre a necessidade que todos temos de nos sentirmos especiais e de termos pessoas em nossas vidas que proporcionem isso. É um livro melancólico e intenso nas suas entrelinhas. O tempo todo, Evie lembra de uma fase em que suas emoções estavam à flor da pele e a nossa percepção de que as coisas não vão acabar bem não está relacionada apenas à chacina, mas sim ao que captamos do olhar que Evie dirige ao passado, mesmo que a tragédia não tenha tido resultados diretos na vida dela.

Se a leitura for direcionada à chacina, certamente o leitor irá se decepcionar. É preciso saber que a história é sobre Evie e, mais ainda, talvez, sobre os personagens que ela encontrou no caminho e o impacto que tiveram na vida dela. Principalmente Suzanne. Esta, aliás, é uma personagem interessantíssima. Pouco sabemos sobre seu passado, sobre o que a levou ao culto, quais as suas intenções e o tipo de sentimentos que tem por Evie. Captamos indícios, da mesma forma que a narradora, mas estamos presos a sua visão parcial dos eventos, o que nos faz ver Suzanne por seus próprios olhos. Ela é símbolo de liberdade. Alguém que parece se sentir à vontade dentro do próprio corpo, sendo quem é, vivendo como vive. Tudo que Evie queria sentir sobre si mesma. Enquanto todas vêem em Russell o centro do universo, Evie vê isso em Suzanne. Na verdade, o que Evie busca é se encontrar. Ela não esteve presente na chacina, mas a influência de Suzanne sobre ela é tanta que nos perguntamos o que ela teria feito se tivesse estado lá.

Russell também é um personagem complexo e, assim como Suzanne, seu passado se mantém uma incógnita. Como ele deu início ao culto? Houveram outros atos de violência no seu passado? Quais os planos dele para aquelas pessoas que o cercam? São respostas que nunca encontramos porque o livro não gira em torno delas e sim do amadurecimento de Evie.

O interessante é que em nenhum momento a protagonista se entrega totalmente ao culto. Ela se divide entre a vida no rancho, ao lado de Suzanne e os outros, e a casa de sua mãe, a “vida normal”. Ela não pertence a lugar nenhum. Não consegue se encaixar porque não sabe se encontrar, não sabe quem é. E mesmo que seja seu olhar adulto que nos apresenta toda a história, ainda assim não temos certeza se ela descobriu as respostas para essas perguntas. Seria a Evie adulta uma mulher feliz? A minha impressão é que não há brilho na vida da protagonista. Como se a luz estivesse apagada e ela nunca tivesse encontrado o interruptor para acendê-la.

Em seu livro de estreia, Emma Cline usa uma tragédia como pano de fundo para mostrar como é fácil seguir por um caminho sem volta quando não sabemos para onde se quer ir. Quando tudo que se quer é pertencer a algum lugar, não importa que lugar seja. Quando se espera que as respostas que chegam de fora calem as perguntam que brotam de dentro.

Título: As Garotas
Autora: Emma Cline
N° de páginas: 336
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 12 de julho de 2017

RESENHA: Belas Maldições

“Isso era o que alguns humanos achavam difícil de entender. O Inferno não era um grande reservatório de maldade, não mais do que o Céu, na opinião de Crowley, era uma fonte de bondade; eles eram apenas lados no grande xadrez cósmico. Onde se encontrava a coisa em si, a verdadeira graça e a verdadeira treva da maldade, era bem no interior da mente humana.” (PRATCHETT, GAIMAN, 2017, p. 80) 

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O mundo está chegando ao fim. Mas o demônio Crowley e o anjo Aziraphale, que vivem na Terra desde o início da criação, acham o Armagedom um evento inconveniente. Para impedir o fim do mundo, eles precisam localizar o anticristo, uma criança de onze anos. No caminho deles, encontrarão Anathema Device, a descendente da bruxa Agnes Nutter, que escreveu o único livro com profecias precisas sobre o fim do mundo. 

A primeira observação que preciso fazer é sobre a originalidade da premissa de Belas Maldições. Pratchett e Gaiman subvertem absolutamente tudo o que já ouvimos falar sobre o apocalipse, criando não apenas uma estória engraçada, mas também repleta de reflexões sobre a religião.  

A improvável amizade entre Crowley e Aziraphale também merece destaque, sendo que as interações entre eles eram hilárias. A meu ver, eles eram os personagens mais interessantes da estória, porém, não ganharam tanta atenção quanto eu imaginava. Isso por que a estória é bastante pulverizada, contando com vários núcleos e inúmeros personagens, alguns com pouca importância para o desenvolvimento da trama. 

"As Justas e Precisas Profecias" escritas por Agnes Nuter eram, para dizer o mínimo, bastante inusitadas. A verdade é que Agnes, uma mulher do século XVII, tinha vislumbres de um futuro que ela não entendia e o interpretava de acordo com seu conhecimento. Assim, os autores deixam clara a crítica sobre as mais variadas interpretações que podem ser feitas de qualquer texto religioso. 

O núcleo liderado por Adam, o anticristo, foi de longe o mais insosso. Isso por que Adam é apenas uma criança, sendo que ele e seus amigos ocupam-se de atividades eminentemente infantis, como esperado. Até é compreensível por que os autores optaram por fazer do anticristo uma criança, porém, não me pareceu necessário tanto enfoque neste núcleo. 

Apesar das situações inusitadas e do bom humor constante que permeia o texto, admito que a estória me pareceu subaproveitada, pois seus melhores aspectos tiveram que dividir espaços com outros elementos menos interessantes. Por causa disso, a leitura teve altos e baixos, o que acabou afetando meu envolvimento com a trama.  

Belas Maldições é um livro com uma premissa original e inusitada e que entrega uma leitura leve e despretensiosa, além de interessantes reflexões.

Título: Belas Maldições
Autores: Terry Pratchett e Neil Gaiman
N.º de páginas: 349
Editora: Bertrand Brasil
Exemplar cedido pela editora 

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domingo, 9 de julho de 2017

RESENHA: Coração Satânico

“Que coisa singela, o coração humano. Ele segue batendo dia após dia, ano após ano, até que alguém chega e o arranca fora, e ele acaba parecendo comida de cachorro.” (HJORTSBERG, 2017, p. 170)

“Coração Satânico”, clássico da década de 80, estrelado por Robert De Niro e Mickey Rouke, está há anos na minha lista de filmes essenciais para serem vistos, mas, vergonhosamente, ainda não o assisti. Talvez tão vergonhoso quanto é o fato de eu nem ao menos saber que o filme havia sido inspirado em um livro. Por isso, quando a Darkside anunciou esse lançamento, eu contei os dias para que ele chegasse as minhas mãos.

O ano é 1959. As ruas são as da cidade de Nova York. Harry Angel é um detetive particular contratado pelo misterioso Louis Cypher para localizar Jhonny Favorite, um cantor de sucesso que está desaparecido há 15 anos. Mas conforme Angel avança na investigação, mais sombrio se torna o seu caminho. Mortes terríveis e rituais satânicos o encontram onde ele vai e se torna cada vez mais perigoso cumprir a missão.

A voz narrativa de Angel faz com que seja um prazer acompanhá-lo por qualquer um dos horríveis lugares para onde vai. O detetive é o típico personagem dos romances policiais noir - cínico, irônico, valentão – trazendo facilmente para o leitor lembranças de autores como Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

A atenção aos detalhes se revela principalmente no que tange a cidade de Nova York, não apenas um cenário, mas praticamente um personagem da trama. Hjortsberg tem o cuidado de desenhar a cidade de tal forma que é fácil sentir como se estivéssemos ao lado de Angel. No posfácio, o autor, nascido em Nova York, revela que seu cuidado foi tanto que, nos dez dias em que a história transcorre, o que se vê no livro (chuvas, nevascas) foi o que realmente aconteceu na cidade naqueles dias em 1959. É válido comentar que o livro foi escrito em 1978 e que esses pequenos detalhes estão longe de serem supérfluos em “Coração Satânico”, pois dão toda a ambientação da trama. É importante comentar também que mesmo se atendo a tais detalhes, em nenhum momento a narrativa é enfadonha ou arrastada, pelo contrário. É envolvente da primeira à última página, sem ser frenética, mas também sem sofrer com momentos de lentidão.

Conforme Angel avança nas investigações, as pessoas vão caindo mortas como moscas ao seu redor. Chegou um ponto em que, cada vez que ele se deslocava para um lugar ou um encontro, eu me perguntava quem ele encontraria morto dessa vez. É uma história que você sente o tempo todo que vai acabar mal, mesmo que não saiba como. É algo que Angel vai descobrir? É algo que vai acontecer com ele? Eu tinha meus palpites e desconfiava de algo semelhante ao que o autor propôs no desfecho, mas ainda assim fui surpreendida. O que surpreende também é a simplicidade da história, pois quando se fecha o livro é fácil ver que aquelas respostas estavam em todas as páginas para serem encontradas, mas arrisco dizer que dificilmente os leitores irão juntar todas as peças e montar o quebra-cabeça completo, embora seja fácil chegar perto disso. É parte do que torna a leitura gratificante: perceber que você foi envolvido em uma trama bem amarrada e segura a ponto de se manter simples.

Apesar do título assustador, em geral o livro é um suspense policial. Porém, há algumas cenas envolvendo rituais satânicos que são mais perversas e chocantes. Uma coleção de personagens misteriosos aparece no caminho do detetive e é impossível saber quais deles serão as respostas e quais serão a ruína de Angel. Destaque para a sensual Epiphany Proudfoot e o enigmático Louis Cypher.

“Coração Satânico” coleciona elogios de nomes associados à gêneros distintos como Carlos Ruiz Zafón e Stephen King. Sobre o livro, o Mestre do Terror disse que é como imaginar “O Exorcista” sendo escrito por Raymond Chandler. Para mim, não foi exatamente assustador, mas acho que a descrição de King se encaixa como uma luva à história de Hjortsberg (e caso fique alguma dúvida, isso é um elogio).

Título: Coração Satânico
Autor: William Hjortsberg
N° de páginas: 315
Editora: Darkside Books
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

RESENHA: Na Escuridão da Mente

“Para ser sincera, e deixando de lado todas influências externas, existem algumas partes das quais me lembro com tantos detalhes horríveis que temos me perder no labirinto de lembranças. Há outras que permanecem confusas e misteriosas como se fossem a mente de outra pessoa e temo que, em minha cabeça, eu tenha provavelmente misturado e comprimido as linhas do tempo e os acontecimentos.” (TREMBLEY, 2017, p. 23)

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Marjorie Barret é um adolescente de 14 anos que apresenta sinais de esquizofrenia aguda. Porém, quando os médicos não conseguem tratar a doença, a família procura a ajuda do padre Wanderly, que acredita que a jovem esta possuída por um demônio. O padre também entre em contato com uma produtora, que se oferece para gravar um reality show sobre a família e o exorcismo. Embora contrariados, a família Barret acaba aceitando a oferta em virtude das dívidas que se acumulam. Quinze anos depois, uma escritora entrevista Merry, a irmã mais nova de Marjorie, para escrever um livro sobre a família, o reality show e o exorcismo. 

Os capítulos são narrados em primeira pessoa por Merry e se alternam entre o presente e o passado, além de contar também com os posts de uma blogueira que analisa os episódios do reality show. Desta forma, o leitor vai coletando informações e montando um grande quebra-cabeça sobre o que aconteceu com a família Barret. 

Marjorie, como o esperado, é o grande destaque do livro. Tremblay construiu uma personagem astuta e ambígua, que deixa o leitor em dúvida o tempo todo, pois não conseguimos ter certeza se estamos vendo apenas um adolescente mentalmente instável ou se há forças sobrenaturais envolvidas. 

Outra jogada inteligente do autor foi utilizar Merry como narradora do livro, não apenas por transmitir ao leitor uma visão do que se passava com aquela família, mesmo com as câmeras desligadas, mas também para provocar mais dúvidas no leitor, afinal, na época dos fatos Merry era uma criança de oito anos. Até que ponto suas memórias e relatos são confiáveis? Até que ponto pode ter romanceado ou fantasiado os fatos?

Porém, o problema de Na Escuridão da Mente é que seu ritmo é bastante lento e, em certo momentos, a leitura se torna um pouco monótona. Creio que a intenção do autor era ir acentuando os momentos de tensão até culminar no exorcismo de Marjorie, porém, a impressão que fiquei é que a estória patinou até alcançar o ápice. 

O exorcismo em si rendeu cenas e diálogos interessantes, além de fazer com o próprio leitor sentisse na pele o nervosismo dos personagens, porém, não conseguiu ir além do que outros livros, filmes e séries já fizeram. Entretanto, é preciso registrar que nas páginas finais o autor seguiu um caminho inesperado e que deu um fim surpreendente à estória. 

O principal motivo que me levou a ler o livro foram as diversas frases estampadas na capa e na contracapa que prometiam um livro assustador. Sinceramente, não foi isso que eu encontrei. Sim, o livro conta com cenas tensas e que até causavam um friozinho na barriga, mas certamente não me assustou para valer, não tirou meu sono, não me deu pesadelos e tampouco foi o livro mais assustador que já li. 

Na Escuridão da Mente é um livro que acerta por brincar com a mente do próprio leitor, deixando-o em dúvida sobre o que realmente aconteceu, mas peca por contar com um ritmo arrastado. Mas preciso admitir que, para mim, a leitura deixou um gostinho de decepção por não entregar o livro assustador que eu esperava encontrar. 

Título: Na Escuridão da Mente
Autor: Paul Tremblay
N.º de páginas: 264
Editora: Bertrand Brasil
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

O que vem por aí - Julho

 

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