quarta-feira, 24 de maio de 2017

RESENHA: Um Estranho Numa Terra Estranha

“— Jill, não sabemos muita coisa sobre Marte, mas sabemos que marcianos não são humanos. Imagine que você apareceu numa tribo tão perdida nas profundezas da selva que eles nunca viram sapatos antes. Você saberia participar de toda a conversa fiada que só é aprendida após uma vida inteira imersa naquela cultura? E essa é uma analogia fraca; a verdade é pelo menos 60 milhões de quilômetros mais estranha.” (HEINLEIN, 2017, p. 40). 

***

Robert Heinlein é considerado um dos mais importantes autores da ficção cientifica, sendo que Um Estranho Numa Terra Estranha é sua obra-prima e serviu de fonte de inspiração para inúmeros escritores. 

A Envoy foi a primeira expedição humana enviada a Marte, sendo que a última mensagem enviada pela tripulação foi antes de pousarem. Assim, ninguém sabe o que aconteceu com os tripulantes, se ainda estão vivos ou não. Quase trinta anos depois, uma nova expedição é enviada ao planeta vermelho e a tripulação se surpreende ao encontrar um sobrevivente: Michael Valentine Smith é um humano que nasceu em Marte e foi criado por marcianos. Ao ser trazido para a Terra, tem um choque com os comportamentos e a cultura dos terráqueos. 

O primeiro aspecto que me chamou atenção durante a leitura foi a fluidez do texto de Heinlein. Mesmo escrito em 1961, Um Estranho Numa Terra Estranha tem ritmo e agilidade, e em poucos capítulos faz o leitor mergulhar nesse novo mundo. O autor foi particularmente inteligente em acrescentar altas doses de ação no início do livro, pois creio que se focasse apenas na adaptação de Mike e no choque cultural, a estória se tornaria monótona. 

O título do livro não poderia ser mais propício. Mike é a personificação da dualidade: nunca foi completamente marciano, nunca será completamente humano. O leitor sente na pele todo o estranhamento do personagem por que também não reconhece o cenário, visto que os avanços tecnológicos e políticos transformaram completamente a Terra que conhecemos. Porém, confesso que Mike me pareceu um protagonista um tanto distante do leitor, e talvez essa realmente fosse a intenção do autor: manter uma barreira por que não conseguimos entendê-lo por completo. 

Mas o ponto alto do livro certamente são as provocações e reflexões que Heinlein faz ao longo da estória. Mesmo em uma sociedade evoluída tecnologicamente, a moral e os costumes sofreram poucas alterações, de modo que o ser humano, sua forma de pensar e suas atitudes permanecem as mesmas. Assim, o autor aproveita a estória para questionar e criticar diversos aspectos da nossa sociedade, como democracia, guerras, religião, puritanismo e tantos outros.  

Porém, nem tudo são flores e houve dois momentos que me fizeram torcer o nariz. O primeiro trata-se de um trecho em que uma personagem mulher diz que “Nove em cada dez vezes, se uma garota é estuprada, é parcialmente culpa dela” (p. 392). Em outro momento, um personagem diz que homens se beijavam, mas que “não era um gesto aviadado” (p. 462). Nos dois trechos, me espantei com o preconceito das afirmações. Acho que não é demais salientar que a culpa nunca é da vítima e que homens podem se beijar de forma tão aviadada quanto quiserem. 

Na segunda metade do livro vemos Mike explorando o mundo, tentando entender os costumes terráqueos. Seu modo de pensar marciano o faz refletir sobre cada experiência de forma distinta, o que acaba resultando na criação de uma “filosofia de vida” que rompe com paradigmas e coloca em xeque os padrões que reputamos ser “normais”. Por isso mesmo, me causou muito estranhamento ver esse preconceito escancarado em uma obra que tem um argumento tão liberal. Me pareceu que o autor ou teve medo de bancar a ideia até o fim, ou que no fim das contas ele não era tão “mente aberta” assim. De qualquer forma, a incoerência não tem justificativa. 

O final é morno. Quando o livro empolga tanto por contar uma estória original, tão única que o leitor simplesmente não consegue imaginar que rumo o autor irá seguir no capítulo seguinte, se espera que o desfecho esteja a altura. A meu ver, o final foi um tanto blasé e não combinou com o tom de todo o restante do livro.

Ainda assim, é preciso reconhecer que Um Estranho Numa Terra Estranha é um livro genial. Não conta apenas com bons personagens e uma estória interessante, mas também apresenta um tom filosófico e reflexivo que não encontrava há muito tempo. Apesar do texto fluido e envolvente, as ideias são densas e por isso mesmo ainda pretendo relê-lo a fim de “grokar em plenitude”. 

Título: Um Estranho Numa Terra Estranha
Autor: Robert Heinlein
N.º de páginas: 569
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 21 de maio de 2017

Conversa de Contracapa #34

Há algum tempo li um post no qual a blogueira se propunha um desafio: por um determinado tempo ela só leria livros escritos por mulheres. Isso veio de perceber que sua estante era composta, predominantemente, por autores homens e que o mesmo se repetia nas estantes das livrarias. Então, concluindo que há uma espécie de desprezo e preconceito pela literatura feita por mulheres, ela se propôs tal desafio como forma de valorizar as autoras. Acho válido qualquer propósito que nos incentive a sair da nossa zona de conforto, descobrir novos autores e novos gêneros, mas fiquei me perguntando: eliminar todos os autores homens da sua lista de leitura a fim de incluir mulheres para combater o preconceito não é também uma forma de preconceito?

Da maneira como eu vejo, um autor ganha espaço na minha estante pelo livro que escreve, independente de ser homem, mulher, nacional ou internacional. Para mim, isso perde a importância diante da história que ele desenvolve, dos personagens que cria, dos conflitos que nascem deles e, consequentemente, do envolvimento que a trama provoca em mim. Não digo com isso que sou uma leitora livre de preconceitos, mas quando elimino um autor da minha lista é porque, por mais eclética que eu possa ser, alguns livros simplesmente não me interessam por seu conteúdo. Por exemplo, livros que giram em torno exclusivamente de histórias de amor não me atraem. É um tipo de trama com o qual eu não me conecto e por isso descarto, independente de quem a tenha escrito.

Me parece que ao radicalizar dessa forma, um leitor, embora esteja ganhando uma lista de autores maravilhosos para conhecer, também está se privando de outras leituras que podem ser sensacionais. Eu nunca parei para analisar se na minha estante há mais homens do que mulheres ou se meus livros favoritos foram escritos por homens ou mulheres. O que sei é que adoro Stephen King, Gillian Flynn, Agatha Christie, Carlos Ruiz Zafón, Jo Nesbø, John Green, Jennifer Egan, Raymond Chandler, Joël Dicker, Machado de Assis, J.K. Rowling, Dennis Lehane, Ernest Hemingway, Martha Medeiros e mais uma série de outros. Qual a contagem? Que time tem mais integrantes? Não sei. Por que eu deveria me importar com isso?

Não é justo que mulheres sejam discrimidas e ocupem menos espaço nas livrarias do que os homens. Mas também não é justo discriminar autores homens a fim de divulgar autoras mulheres, apenas por serem mulheres. É tentar eliminar um preconceito com preconceito. É tentar quebrar um clichê ressaltando o clichê.

O mesmo se aplica à literatura nacional. É inegável que vemos mais livros internacionais sendo publicados pelas nossas editoras e poderíamos iniciar toda uma outra discussão sobre os porquês disso (livros originários de outros países já foram publicados antes, portanto já tiveram repersusão, já passaram pelo teste. São apostas mais seguras da editora, já vêm com uma bagagem que ajuda na divulgação por aqui. Livro nacional, principalmente de autor estreante, é uma aposta no escuro. E por aí a conversa segue). É justo? Claro que não. Mas não me parece que a resposta seja: “vou deixar de ler livros internacionais para que os nacionais sejam publicados” porque não é isso que os fará serem publicados.

Essa semana me deparei com “O Sorriso da Hiena”, romance policial de Gustavo Ávila, autor até então publicado de maneira independente e que agora está prestes a ser lançado pela editora Verus. Fico feliz sempre que vejo novos autores nacionais ganhando destaque (e, como amante da literatura policial, fico ainda mais feliz quando é um autor do gênero), mas não foi a nacionalidade de Gustavo que me chamou a atenção e sim o potencial da obra. Caso tenha chance, lerei, mas não porque é um autor nacional e sim porque me parece um bom livro. Para mim, é isso que faz com que ele mereça espaço e, assim, quem sabe, possa abrir caminho para que outros autores tenham a mesma chance.

É preciso que se crie um espaço para que bons livros apareçam e ganhem sua luz aos holofotes, independente de quem os tenha escrito. Há muitos livros bons escritos por mulheres, há muitos livros bons escritos por autores nacionais e, sejamos sinceros, há muita porcaria escrita por ambos. Mas o mesmo se aplica a autores homens e internacionais. Por que não se aplicaria? A verdade é que o autor é uma coisa, a obra é outra. No fim, o livro deve ser analisado pelo seu conteúdo e deve se sustentar por si, porque é isso que vai garantir a ele espaço.

A arte existe para emocionar. Para abrir nossas mentes, para nos apresentar outros mundos, nos tirar da realidade e nos fazer viver coisas que, caso o contrário, não viveríamos. Arte deveria ser o oposto do preconceito. Por isso é realmente injusto que mulheres ganhem menos espaço nas prateleiras das livrarias, da mesma forma que é injusto que haja menos autores orientais (ou seja lá de onde) nelas se a razão para eles não estarem lá for apenas esta. Mas jogar no chão todo o resto não significa abrir espaço para o que não está lá. Um autor que merece espaço é aquele que cria algo vivo mesmo apenas impresso no papel. Seja lá o tipo de história que viva, seja lá quem a tenha escrito. Comigo, um livro conquista espaço por si, pela história que conta, pelos personagens que traz para minha vida. Simples assim. Se não é, me parece que deveria ser.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

RESENHA: A Letra Escarlate

“Hester olhou para agradar à criança; e viu que, devido ao efeito peculiar daquele espelho convexo, a letra escarlate era representada em proporções exageradas e gigantescas, de modo a ser a característica mais proeminente de sua aparência. Na verdade, ela parecia estar totalmente oculta pela letra.” (HAWTHORNE, 2017, p.112)

Depois de ouvir milhares de referências a “A Letra Escarlate” - em outros livros, em filmes ou mesmo séries de TV - há anos eu tinha curiosidade de conferir esse clássico. Esse ano ele finalmente retornou ao catálogo da editora Martin Claret. 

Em Boston, século XVII, em meio a uma sociedade puritana na qual o casamento era uma das mais sagradas instituições, Hester Prynne trai seu marido. Mesmo que ausente há anos e dado como morto, isso não justifica o pecado de Hester que, como punição para o seu crime, é condenada a viver com a letra “A”, de adúltera, bordada em suas vestes para o resto da vida.

O episódio central da trama poderia tornar “A Letra Escarlate” um livro ultrapassado, mas ele se torna extremamente atual quando observamos que ainda vivemos em uma sociedade machista, na qual pesos e medidas muitas vezes são diferentes para homens e mulheres.

Apesar de a sociedade transformar Hester em uma pária, podemos considerar a história feminista, já que mostra não apenas a força da personagem, mas também seu renascimento diante do que lhe acontece. 

Nas primeiras páginas, quando Hester é escoltada da prisão e levada a ficar em praça pública, usando a letra “A” para que todos possam testemunhar a sua punição (por muitos considerada leviana, acreditando que seria mais adequado queimar a letra “A” em sua pele ou mesmo condená-la à morte), o que vemos é uma mulher de cabeça erguida, preocupada apenas em proteger sua filha recém nascida - o símbolo em carne e osso do seu pecado. Apesar da humilhação, Hester se mantém firme e em nenhum momento se arrepende de seus atos, tendo inclusive a coragem de guardar em segredo o nome de seu amante, o homem que deveria dividir com ela a punição pelo crime de ambos. Hester ainda se mantém firme diante do retorno do marido, que reaparece adotando um novo nome a fim de se manter na comunidade para descobrir quem fora o amante da esposa.

Apesar de ter a intenção de punir Hester, o que a letra escarlate faz é proporcionar à mulher a chance de se transformar em uma pessoa melhor, o oposto do que acontece com seu ex-marido e seu amante (cuja identidade é revelada para o leitor, porém permanece em segredo para a sociedade até as últimas páginas). Excluída da comunidade, Hester passa a viver praticamente isolada, mas em nenhum momento se torna amarga e rancorosa, pelo contrário. É preciso levar em consideração ainda que Hester só é uma criminosa naquela comunidade, mas que poderia escolher recomeçar em qualquer outro lugar onde ninguém teria conhecimento do seu crime. Porém encarar sua punição com coragem é o que a permite refazer sua vida. Por outro lado, é encarar com covardia que faz com que seu amante definhe aos poucos.

O livro é repleto de simbolismos (como mostra o quote dessa resenha) que podemos ver até mesmo no nome da filha de Hester: Pérola. A menina é a luz da vida da mãe, mesmo que seja o lembrete diário de seu pecado, sua punição capaz de ver e falar. Pérola é banhada pelo sol, enquanto Hester parece sempre condenada a ficar na penumbra. O certo e o errado, o santo e o pecador, a coragem e a covardia, o perdão e o rancor são as dualidades em cima das quais a trama se constrói.

Porém, por mais interessantes que – em tese - sejam os simbolismos e o desenvolvimento psicológico de personagens atormentados pelos erros do passado ou pelo desejo de vingança, nesse caso eles tornaram o livro um tanto enfadonho. Mesmo se tratando de um livro curto, não consegui ler no meu prazo usual, pois em vários momentos interrompi a leitura desanimada já que as divagações e floreios são muitos, principalmente diante de acontecimentos escassos. Talvez isso se deva, em parte, a essa tradução (já comentei como acredito que a tradução influencia e muito a experiência do leitor), pois já li outras resenhas, de outras edições, salientarem que o livro é ágil, mesmo em se tratando de um clássico. Porém, não foi a experiência que eu tive.

“A Letra Escarlate” mostra a jornada de uma personagem forte, quando tudo ao seu redor estava contra ela. É um daqueles livros sobre os quais todos ouvimos falar e que, portanto, merece a leitura, mas não chega a ser uma obra cativante.

O livro já recebeu inúmeras adaptações para teatro e cinema, sendo a mais recente de 1995 com Demi Moore, Gary Oldman e Robert Duvall nos papéis principais.

Título: A Letra Escarlate
Autor: Nathaniel Hawthorne
N° de páginas: 271
Editora: Martin Claret
Exemplar cedido pela editora

quarta-feira, 17 de maio de 2017

RESENHA: Nós Dois

“Quando Ivy se recupera — e demora um pouco para isso — está exausta e precisa tirar um cochilo. Se fosse esse meu plano, fazer Ivy dormir de tanto rir, eu seria um gênio. Mas não era esse o plano e de gênio eu não tenho nada. O momento passou, o alarme se calou e o pequeno Fisher entregou os pontos.” (JONES, 2016, p. 57). 

***

Fisher e Ivy se conheceram há dezenove dias e desde então não se separaram. Quando o casal decide fazer uma road trip que acaba na casa do pai de Fisher e com as constrangedoras intrusões familiares, o casal percebe que a magia dos primeiros dias do relacionamento terminou. Nos doze meses seguintes, o casal descobre que se apaixonar é fácil, mas manter uma relação exige determinação e comprometimento. 

O primeiro ponto de destaque de Nós Dois é a narrativa de Andy Jones, que não é apenas leve e fluida, mas também é extremamente bem humorada e facilmente arranca risadas do leitor. Como o livro é narrado em primeira pessoa por Fisher, creio que este elemento cômico é um reflexo de sua personalidade, qualidade que logo cativa o leitor. 

Mas apesar disso, o autor também consegue mesclar elementos mais dramáticos na estória, reproduzindo a dicotomia da vida: em um momento podemos estar rindo, para logo em seguida estarmos com o coração na mão. 

Creio que a trama criada por Jones foi muito bem planejada. É possível notar que cada arco narrativo na estória serve a determinado propósito, sendo que a estória não se limita ao relacionamento de Fisher e Ivy. Assim, vemos temas como amizade e relações familiares ganharem um espaço significativo na estória. 

Acho que também deve ser pontuado o fato de vermos um protagonista homem narrando um livro que é, eminentemente, romântico. O autor de certa forma desconstrói o clichê e inverte os papéis, mostrando que homens também são vulneráveis, longe de serem confiantes e seguros de si o tempo inteiro. 

Mas o grande destaque de Nós Dois fica para a verossimilhança da obra. Geralmente tenho um pé atrás com romances justamente por haver uma desconexão com a realidade. E este certamente não é o caso. Na obra de Jones, vemos a evolução natural de um relacionamento, e não apenas um caso de amor à primeira vista que é difícil de engolir.  

Porém, nem tudo são flores. Um aspecto que me incomodou ao longo da obra foi o fato de faltar uma certa dose de sinceridade entre o casal. Mesmo quando insatisfeito, Fisher nunca reclamava dos rumos do relacionamento, nunca se abria para Ivy e sempre aceitava as vontades dela. A meu ver, uma relação implica em sacrifícios de ambos os lados e não apenas de um. E embora houvessem fatores atenuantes para as atitudes de Fisher, admito que esta faceta do relacionamento dos protagonistas me desagradou. 

No fim das contas, o saldo da leitura foi positivo. Andy Jones conseguiu criar um romance verossímil, mesclando humor e drama na medida certa, além de apresentar um texto bem escrito. Não espere encontrar grandes reviravoltas ou uma estória que irá lhe marcar para a vida, mas se você procura um romance envolvente e convincente, Nós Dois é uma boa pedida. 
Título: Nós Dois
Autor: Andy Jones
N. de páginas: 268
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 13 de maio de 2017

RESENHA: Twin Peaks - arquivos e memórias

“A magia de Twin Peaks é que morreu antes do seu tempo. Tem aquela coisa meio James Dean em torno disso.” (DUKES, 2017, p.300)

Se você tem o hábito de assistir séries de TV, é impossível que nunca tenha se deparado com Twin Peaks, seja com um comentário ou mesmo com uma homenagem dentro de outra série (há alguns anos a série Psych, por exemplo, fez um episódio com abertura especial e participação dos atores da clássica série na sua trama). A série, que estreou em 1990 e teve apenas duas temporadas (míseros 30 episódios), foi um marco na televisão, abrindo espaço para uma forma totalmente nova de se contar histórias no formato “um episódio por semana”. Girando em torno da pergunta “Quem matou Laura Palmer?”, brincando com o sobrenatural e o bizarro, mesclando elementos melancólicos e engraçados e com uma estética impressionante, Twin Peaks foi inovadora em muitos sentidos e coleciona até hoje uma legião de fãs. Eu não me considero uma fã fervorosa, mas assisti a série há alguns anos e também fui fisgada por sua mágica (palavra repetida várias vezes ao longo desse livro), de forma que quando soube desse lançamento fiquei imediatamente interessada, porque se tem uma série que deveria ter milhares de histórias interessantes de bastidores, essa série é Twin Peaks.

O livro é exatamente o que o título sugere: uma compilação de memórias e relatos dos envolvidos na produção do programa, seja dos criadores David Lynch e Mark Frost (embora não hajam tantos comentários de Lynch), seja dos atores, diretores, roteiristas e outros. O carinho e o orgulho que sentem por terem participado de um fenômeno como Twin Peaks transborda em cada depoimento, assim como a frustração por a série ter perdido o rumo na desconexa segunda temporada quando os criadores já estavam afastados da produção e não havia um caminho claro a ser percorrido.

Ao invés de escrever um texto com base nos depoimentos, Dukes optou por apenas usar os comentários, um em sequência do outro, de acordo com o tema. Isso dá agilidade à leitura, toda composta de pequenos parágrafos isolados uns dos outros.

A edição da Darkside está maravilhosa. Ao abrir o livro, o leitor é jogado dentro da sala vermelha (quem assistiu a série sabe o que isso significa) para logo em seguida ver a placa de boas vindas a Twin Peaks, que tantas vezes vimos na abertura da série. Quando a leitura inicia, milhares de fotos a complementam. Recentemente, quando resenhei outro livro que abordava a temática “bastidores de séries de TV inovadoras”, comentei sobre como acho interessante conhecer o que estava por trás dessas produções que se tornaram fenômenos culturais e mudaram tudo o que veio depois delas. De todas, Twin Peaks era a que mais tinha tudo para dar errado e só o fato dessas pessoas terem assumido os riscos de uma produção sem precedentes já torna tudo admirável (a começar por David Lynch, um consagrado diretor de cinema aceitando fazer televisão em uma época em que televisão era considerada segunda categoria). Uma coisa é certa: não existe série como Twin Peaks (nem antes, nem depois dela), mas existem muitas séries que se permitiram beber da fonte criada por Lynch e Frost, pois ela abriu as portas para um novo tipo de televisão.

“Twin Peaks: arquivos e memórias” é um livro que não faz sentido para quem não conhece a série, mas para quem acompanhou a jornada do agente Dale Cooper naquela pequena cidadezinha cheia de segredos e pessoas excêntricas é impossível não ficar com vontade de rever os episódios.

Tendo terminado em 1991 e ganhado um filme prequel (“Os últimos dias de Laura Palmer”) logo após o seu encerramento, Twin Peaks conseguiu se manter viva na mente do público, mesmo daqueles que não eram nascidos ou não tinham idade suficiente para testemunhar o fenômeno cultural daqueles dias. Tanto que, em 2017, a série volta com uma nova temporada, toda escrita por Mark Frost e David Lynch e dirigida por este último. Quem está pronto para retornar ao Black Lodge?

Título: Twin Peaks: arquivos e memórias
Autor: Brad Dukes
N° de páginas: 317
Editora: Darkside
Exemplar cedido pela editora


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quinta-feira, 11 de maio de 2017

RESENHA: Quem era ela

“Porque foi isso que eu percebi morando em Folgate Street, n.º 1. Você pode tornar o ambiente em que vive tão refinado e vazio quanto quiser. Mas isso não importa se você ainda estiver bagunçado por dentro. E, na verdade, todos nós estamos buscando isso, não é mesmo? Alguém que cuida da bagunça que há dentro da nossa cabeça.” (DELANEY, 2017, p. 319)

***

A casa minimalista localizada em Folgate Street, n.º 1, atrai muitos interessados por sua arquitetura vanguardista integrada com os melhores recursos tecnológicos. Para se candidatar a inquilino é preciso responder a um extenso questionário e, se selecionado, assinar um contrato com as mais diversas e peculiares regras. É neste cenário que conhecemos duas mulheres: Emma e Jane. E aos poucos elas vivem a mesma experiência: a casa que parecia ser um refúgio se torna um lugar ameaçador, ainda mais quando descobrem que o local já foi o cenário de mortes suspeitas. 

O primeiro fator que merece destaque em Quem era ela é a narrativa de Delaney, que além de ser fluída, nos coloca em contato direto com ambas as protagonistas. Os capítulos são alternados entre os pontos de vista de Emma e Jane, de forma a entrelaçar passado e presente. A narrativa é em primeira pessoa e o autor conseguiu dar vozes distintas a cada uma das protagonistas, embora tenha recorrido a alguns artifícios para conseguir este efeito. 

Também é preciso elogiar o ritmo da obra, pois em nenhum momento a leitura se torna cansativa ou monótona. Além disso, os personagens são bem desenvolvidos e o autor consegue evidenciar a personalidade de cada um deles através de suas atitudes, sem ter que recorrer a descrições infindáveis. Apesar disso, admito que não senti uma conexão com as protagonistas, de modo que foi difícil me importar com elas. Porém, é possível que está tenha sido a intenção do autor, pois a casa minimalista e impessoal não é apenas um cenário, mas praticamente um personagem. 

Mas o principal problema de Quem era ela é que o autor vai construindo um clima de tensão que cresce ao longo da trama, de modo a aumentar a expectativa do leitor, porém, o final é anticlimático. As respostas que recebemos não são apenas fracas e sem graça, mas principalmente sem sentindo ou coerência. A meu ver, o autor fez alterações bruscas na personalidade de dois personagens para manter o suspense e o mistério. E embora eu concorde que um bom antagonista deve enganar principalmente o leitor, é preciso dizer que isso não serve como uma carta em branco para passar por cima da verossimilhança. 

Estes acontecimentos me levaram a concluir que o autor escreveu o livro sem ter controle sobre a trama, de modo que quando se aproximou do final lhe sobraram apenas duas opções inadequadas: ir pelo caminho óbvio e não surpreender o leitor ou tentar surpreendê-lo forçando elementos incongruentes com o restante da obra. 

Quem era ela é uma leitura rápida e despretensiosa e que, apesar das escorregadas, consegue prender a atenção do leitor. Porém, não Delaney não consegue entregar tudo o que promete, então não espere encontrar um grande thriller psicológico. 

Título: Quem era ela
Autor: JP Delaney
N.º de páginas: 331
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 9 de maio de 2017

RESENHA: Antes que eu vá

“Na maioria das vezes – 99 por cento do tempo -, você simplesmente não sabe como e por que os fios se enrolam juntos, e não tem problema. Faz uma coisa boa e algo ruim acontece. Faz uma coisa ruim e algo bom acontece. Não faz nada e tudo explode.” (OLIVER, p. 322, 2011)

De todos os livros não lidos da minha estante, “Antes que eu vá” tinha o status de “É o último que lerei”. Ganhei em um sorteio e só mantive o exemplar comigo porque havia lido várias resenhas positivas sobre ele. No espírito de “Quem sabe um dia?”, ele ficou ali por anos até que seu dia chegou quando eu estava precisando de uma leitura leve, descompromissada e para a qual eu não tivesse muita expectativa. Funcionou.

O Dia do Cupido é sempre o dia favorito de Samatha Kingston. Por que não seria? Afinal a tradição escolar mede o quão popular você é e quantos amigos tem através do número de rosas que recebe, e ela é uma das meninas mais populares do colégio. O que ela não imaginava era que aquele Dia do Cupido seria o seu último dia. Após sair de uma festa com as três melhores amigas, ela sofre um acidente de carro e morre. Mas antes, ela irá reviver seu último dia repetidas vezes até acertar os erros que deixou para trás.

Narrado em primeira pessoa por Sam, “Antes que eu vá” inicia com seus primeiros pensamentos após o acidente para depois nos mostrar como foi o seu último dia. Apesar da situação, é difícil simpatizar com a protagonista nos primeiros capítulos já que ela é a típica adolescente popular que faz o que quer porque pode escapar impune de tudo (palavras dela). É difícil se importar com alguém que não se importa com nada nem com ninguém e é nessa condição que conhecemos Samantha. Ainda assim, Lauren Oliver não chega a extremos. Em nenhum momento detestei Samantha, apesar de não concordar com suas atitudes. “Ela é inconsequente, ela se deixa levar, mas deve existir um outro lado”, era o que eu pensava. E havia. Conforme começa a reviver seus dias, ela vai aos poucos corrigindo pequenos erros e percebendo que muitas coisas a incomodavam sem que ela mesma tivesse consciência disso.

Quando vemos as atitudes de Samantha, é fácil pensar nelas como sendo tipicamente adolescentes. Ela e suas amigas fazem maldades, mas não são más. São adolescentes. Irresponsáveis, fúteis e estão fazendo o possível para esconder seus medos e inseguranças das pessoas que habitam aquilo que, naquele momento, parece ser o mundo todo (o colégio). Pode-se dizer que é uma fase e que com o tempo Samantha deixaria muitas dessas atitudes para trás como consequência do amadurecimento. E é por isso que “Antes que eu vá” se torna interessante. O que Lauren Oliver propõe é uma espécie de amadurecimento forçado. Samantha aprenderia suas lições e poderia sim vir a se tornar uma pessoa melhor, mas não terá chance disso porque morreu aos 17 anos. É isso que reviver sete vezes seu último dia lhe dá: a chance de amadurecer, de se tornar essa pessoa que não terá a chance de se tornar de fato.

Vários clichês aparecem, mas são aceitáveis por serem intrínsecos à história que Oliver tinha para contar. Se Samantha é uma menina popular, ela anda com as populares, namora um dos populares e não se relaciona com os que não são (muitas vezes até sendo maldosa com eles). É clichê? É, mas não incomoda. A jornada de Samantha acaba sendo a de alguém que se viu pega nessa vida sem saber como foi parar nela, sem nunca parar para pensar nisso ou no que deixava pelo caminho, e continuou na onda porque jamais imaginou que qualquer um daqueles dias seria o último e que alguma daquelas coisas seria definitiva. Acredito até que muito da razão pela qual a história funciona é porque se passa na adolescência, uma fase em que pequenas coisas parecem ser tão importantes e justamente por isso pequenas atitudes podem mudar tudo (Lindsay e Juliet mostram isso muito bem).

A premissa de estar presa entre a morte e a vida me lembrou “Se eu ficar”, mas ao contrário do livro de Gayle Forman, achei que “Antes que eu vá” conseguiu mostrar a angústia de Samantha com a situação em que se encontra e com o seu destino.

Também é interessante que se o quarteto formado por Sam, Lindsay, Ally e Elody é o centro da história no início (afinal as amigas são o centro do universo de Samantha), aos poucos são personagens como Kent – o nerd – e Juliet – a esquisitona da escola – que ganham destaque porque Samantha abre os olhos para eles e para as histórias que vivem naqueles mesmos corredores escolares onde ela e as amigas reinam.

Já mencionei que é difícil simpatizar com a protagonista no início e talvez por isso vi as primeiras 50 paginas se arrastaram. Mas depois as outras 300 passaram sem que eu sentisse e acredito que isso não só tenha a ver com a evolução da protagonista (e com a narrativa fluida de Oliver, claro) como com os múltiplos pontos de interesse que surgem a partir do momento que Sam começa a ver o mundo com outros olhos. Além disso, uma das minhas curiosidades desde o início era saber o destino das três meninas que estavam no carro com Sam no acidente e a autora encontrou uma forma bastante natural de trazer essa resposta.

Dias se seguem uns aos outros e é fácil deixar que eles passem, afinal, amanhã é será outro dia (“The sun will come out tomorrow”, diz a música favorita de Sam na infância). Mas e se não for? E mesmo que seja, nem sempre você terá chance de corrigir seus erros. Nem sempre terá a chance de escolher novamente. Para mim, essa é a mensagem de “Antes que eu vá”.

Em 2017, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica com Zoey Deutch no papel principal.

Título: Antes que eu vá
Autora: Lauren Oliver
N° de páginas: 368
Editora: Intrínseca 


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