segunda-feira, 22 de outubro de 2018

RESENHA: Menina Boa, Menina Má

Menina Boa, Menina Má / Ali Land
Filha de psicopata, psicopata é? É nessa premissa que se baseia “Menina Boa, Menina Má”, thriller psicológico de Ali Land.

Em outra vida, Mille era Annie. Uma vida em que ela vivia com a sua mãe: uma enfermeira que sequestrava crianças, as levava para casa e, depois de dias de violência, as matava. Depois de anos sendo obrigada a testemunhar horrores dentro de sua própria casa, aos 15 anos, a menina denuncia a mãe para a polícia. É assim que ela se torna Millie e vai morar com Mike (o psicólogo que a prepara para testemunhar no julgamento da mãe) sua esposa, Saskia, e a filha do casal, tendo que esconder o seu passado e se adaptar a uma nova vida.

O livro é narrado em primeira pessoa por Millie. Estamos dentro da cabeça dela e, justamente por isso, nunca temos todos os detalhes do que aconteceu. Estamos assistindo seus pensamentos, então descobrimos as coisas quando as lembranças vêm à sua mente. Em nenhum momento ela pára para falar sobre o que aconteceu, já que a narrativa é sobre os dias atuais, sobre a nova vida, então o que o leitor faz é montar o quebra-cabeça conforme ela dá as peças. Outro aspecto interessante da narrativa é que ela se dirige constantemente à mãe, como se contasse a história para ela, o que reforça o quanto é assombrada por sua figura.

A maneira como os personagens são apresentados merece destaque, em especial a mãe de Millie. Em nenhum momento vemos ela ou ouvimos dela. Apenas conhecemos suas atitudes e seus crimes. De alguma forma, isso a torna ainda mais monstruosa porque só chega até nós a essência de sua maldade

“O cérebro de um psicopata é diferente do da maioria, eu já vi as estatísticas. Oitenta por cento genética, vinte por cento influências do meio. Eu. Cem por cento fodida.” (LAND, 2018, p.92)

Millie tem alguns dilemas que poderiam ter sido melhor explorados. Ela sabe que a mãe nunca a amou, sabe que o que ela fez é abominável e sabe também que estava certa em entregá-la à polícia. Mas ela também convive com a ânsia de conhecer o amor e a segurança que deveriam vir do lar. Ao mesmo tempo em que ela sabe que não tinha nada disso ao lado da mãe, ela sente que aquela era uma situação com a qual se sentia familiarizada. Agora tudo é novo e ela não se encaixa. Ela não pode dizer quem é, de onde veio ou o que traz consigo. É como se ela tivesse que se criar do zero. Tudo isso é promissor, mas a autora falha ao explorar essas angústias de maneira repetitiva, trazendo com frequência os mesmos pensamentos sem dar a eles toda a intensidade que mereciam. Isso acaba se tornando cansativo porque o julgamento (momento tão aguardado, afinal, vamos ver Millie sob o mesmo teto que sua mãe e vamos descobrir se ela vai pagar pelos crimes que cometeu) acontece apenas no final do livro, de forma que até lá ficamos nadando em águas que pouco se movem.

Mike também desperta interesse, parecendo bem intencionado com Millie, aceitando um risco enorme ao levá-la para casa, mas também escrevendo às escondidas um livro sobre ela.

Tenho o hábito de fugir de sinopses sempre que possível porque prefiro descobrir os acontecimentos da trama da maneira que o autor planejou me contar, uma página após a outra. Mas é claro que isso não se aplica a todos os livros (afinal, é preciso saber alguma coisa para se querer ler) e com “Menina boa, menina má” isso me trouxe um problema desnecessário. Ao final da sinopse há um comentário: “Mas a mãe de Millie é uma assassina em série. E quem sai aos seus não degenera.” Isso fez com que eu olhasse a menina a leitura toda com desconfiança, esperando que ela fizesse alguma coisa, cometesse algum ato de violência. Se ela chega a fazer isso ou não, não vem ao caso nessa resenha. O fato é que um comentário desses é capaz de influenciar toda a experiência de leitura, deixando o leitor com uma desconfiança que talvez a narrativa não desperte ou mesmo estragando uma surpresa que o autor pode estar guardando lá para a frente.

“Menina boa, menina má” cria um ótimo enredo, uma situação cheia de conflitos, mas escorrega deixando de dar a eles a intensidade que merecem.

Título: Menina boa, menina má
Autora: Ali Land
N de páginas: 374
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 20 de outubro de 2018

RESENHA: Celular

celular stephen king
Me tornei fã do King em 2012 com Sob a Redoma, livro que elegi como minha melhor leitura do ano. E, por isso, uma das minhas maiores expectativas literárias para 2013 era Celular, uma obra que também partia de uma premissa sobrenatural e contava com a luta pela sobrevivência em seu cerne. Infelizmente, o livro estava esgotado e somente este ano foi relançado pela Suma.

Clay é um artista gráfico que estava em Boston negociando suas estórias como uma empresa, quando o apocalipse teve início. As pessoas que estavam ao celular se transformam em uma espécie de zumbi de uma hora para outra, regredindo aos seus instintos violentos mais básicos. Longe de casa, tudo o que Clay deseja é reencontrar o filho e a esposa, e nessa longa jornada terá a companhia de outras pessoas que não foram transformadas. 

King dá início a Celular com muita ação. É impossível não sentir a adrenalina subir e não ficar apavorado quando vemos o colapso da civilização de forma tão brusca e tão rápida. A mutação causada pelos telefones dá início a uma era de violência, de modo que a prioridade daqueles que não foram afetados se resume a sobreviver. 

Sempre elogio King por compor bons personagens e Celular não é exceção à regra. Entretanto, preciso admitir que Clay não foi o melhor dos protagonistas. Além de faltar um pouco de carisma, Clay insistia em falar do filho e da esposa a todo momento, o que até é compreensível considerando a situação, mas chegou um momento que a atitude passou a irritar. 

“— No fundo, não somos nem um pouco Homo sapiens. Nossa diretriz primária é matar. O que Darwin foi educado demais para dizer, meus amigos, é que dominamos a Terra não porque somos os mais inteligentes, ou mesmo os mais cruéis, mas porque somos os mais loucos, os mais desgraçados homicidas na floresta.” (KING, 2018, p. 178)

Nem preciso fazer comentários sobre a narrativa de King, que sempre oferece uma experiência imersiva. Mergulhamos de cabeça naquele mundo e fiquei impressionado como o autor consegue nos fazer sentir uma tensão crescente ao longo da estória. E essa é basicamente a melhor definição para Celular: tensão, pois o mundo mudou, mas não sabemos o quanto mudou, nem quanto irá mudar, e muito menos se conseguiremos nos adaptar a tais mudanças. 

Acho genial que King sempre consegue pegar elementos batidos e fugir dos clichês, criando um universo próprio. Há milhares de estórias de zumbis que são mais do mesmo, mas King criou uma a seu modo, com muita originalidade e criatividade. Apesar de não termos muitas respostas sobre o como ou o porquê do que aconteceu, saliento que a parte importante da estória é a jornada dos personagens. 

O desfecho, como esperado, é de tirar o fôlego e fazer o coração bater acelerado. Nesse momento, King pega na mão do leitor e só larga na última página, de tão envolvidos que ficamos com a estória. O final fica um pouco em aberto, pois algumas perguntas sem resposta permanecem no ar, o que pode ser um pouco frustrante para os leitores que gostam de todos os pingos nos is. 

Celular foi uma boa leitura e creio que apenas não apreciei mais por não ter desenvolvido uma ligação maior com os personagens. E mesmo não considerando como o melhor livro de King, trata-se de uma estória envolvente e cheia de ação que apenas o Mestre sabe fazer. 

Título: Celular
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 381
Editora: Suma
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

RESENHA: O sol da meia-noite

Jo Nesbø / O sol da meia-noiteQuando um dos meus autores de suspense favoritos lança um novo livro, eu corro conferir.

Jon cometeu um erro terrível. Tentou enganar seu chefe e fugir com uma considerável quantia de dinheiro. Mas ninguém engana o Pescador e agora o traficante está atrás do seu ex-cobrador que se escondeu em uma pequena comunidade longe de Oslo, onde o sol nunca se põe e ele atende pelo nome de Ulf.

Eu gostaria de fazer uma resenha totalmente imparcial de “O sol da meia-noite”, mas não vejo como, visto que a minha expectativa pela leitura foi totalmente influenciada pela minha experiência prévia com o autor.

A carreira de Nesbø como escritor começou e se firmou com a série Harry Hole: excelentes livros policiais protagonizados por um personagem cheio de problemas. Mas às vezes o autor se afasta do seu cativante inspetor e se arrisca em livros avulsos. Desses, tive oportunidade de ler “Sangue na Neve” e agora “O Sol da Meia-Noite”. Ambos apresentam histórias bem mais curtas do que as de Hole e são protagonizadas por personagens que deveriam matar alguém, decepcionaram seus chefes e agora lutam para continuarem vivos. O que me alertou para as coincidências foi que, mais uma vez, a narrativa em primeira pessoa do autor me incomodou. Por alguma razão, os livros avulsos de Nesbø são narrados por seus protagonistas, o problema é que eles não são homens carismáticos e mesmo estando em situações eletrizantes não conseguem contagiar o leitor (estranhamente, quando se trata dos livros da série Harry Hole, mesmo que a ação demore a acontecer, Nesbø envolve desde a primeira página). Pesquisando, vi em alguns lugares a informação de que os dois livros fazem parte de uma mesma série, mas não consegui entender a relação entre as tramas.

“Acreditava em sonhos tanto quanto em deuses. Estava mais inclinado a acreditar no amor de um viciado pelas drogas do que no amor de uma pessoa por outra. Mas acreditava na morte, isso sim. Essa era uma promessa que eu sabia que seria cumprida. Em uma bala de nove milímetros a mil quilômetros por hora – nisso eu acreditava. E que a vida era o tempo entre essa bala sair da pistola e partir um cérebro ao meio.” (NESBØ, 2018, p. 171)

“O sol da meia-noite” parece um rascunho de história e Jon/Ulf um personagem sem contexto. Mal entendemos de onde ele vem, apenas o vemos cair naquela comunidade que tem uma estranha relação com a religião e onde os relacionamentos que o protagonista desenvolve são clichês e previsíveis. Se vendassem a capa, eu jamais diria que se trata de um livro de Nesbø.

O pior é que havia muito para ser aproveitado, mas o autor não desenvolveu o potencial da trama. O passado de Jon/Ulf (sua relação com a filha doente, seu início no mundo do tráfico), o passado dramático de Lea, a mulher por quem ele se apaixona (obrigada a casar com o homem que lhe estuprou aos 18 anos porque havia engravidado) e também o personagem Mattis, cujas intenções não conseguimos compreender até o final. Para mim, fica claro que a intenção de Nesbø era nos apresentar esses detalhes nas entrelinhas (algo que normalmente aprecio), mas dessa vez deixou o livro sem tempero.

Apesar dos pesares, li o livro em três dias porque a leitura flui rapidamente, mesmo que não instigue o leitor como poderia.

Costumo dizer que Jo Nesbø não erra nunca, mas após a leitura de “O sol da meia-noite” faço o seguinte acréscimo na frase: “na série Harry Hole”, já que o autor certamente não é em seus livros avulsos o mesmo que é na sua excelente série policial.

Título: O sol da meia noite
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 221
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Lista de Releituras # 14

Lista de Releituras é a coluna em que falamos sobre os livros que já lemos e temos muita vontade de ler novamente, mas que, por diversas razões, não chegaram a ser resenhados no blog

O caçador de pipas
Título: O Caçador de Pipas
Autor: Khaled Hosseini
Sinopse: "O Caçador de Pipas é considerado um dos maiores sucessos da literatura mundial dos últimos tempos. Este romance conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem vidas muito diferentes no Afeganistão da década de 1970. Amir é rico e bem-nascido, um pouco covarde, e sempre em busca da aprovação de seu próprio pai. Hassan, que não sabe ler nem escrever, é conhecido por coragem e bondade. Os dois, no entanto, são loucos por histórias antigas de grandes guerreiros, filmes de caubói americanos e pipas. E é justamente durante um campeonato de pipas, no inverno de 1975, que Hassan dá a Amir a chance de ser um grande homem, mas ele não enxerga sua redenção. Após desperdiçar a última chance, Amir vai para os Estados Unidos, fugindo da invasão soviética ao Afeganistão, mas vinte anos depois Hassan e a pipa azul o fazem voltar à sua terra natal para acertar contas com o passado." (sinopse retirada do Skoob)

Ocasião da primeira leitura: 2005 ou 2006

Por que está na lista de releituras: li O Caçador de Pipas quando estava no ensino médio e acho que, naquela época, eu não tinha maturidade o suficiente para apreciar o livro. Admito que li a obra de Hosseini por causa dos inúmeros elogios que colecionava, e não por ter achado a premissa interessante. 

Comentários: Como faz mais de dez anos que li o livro, admito não lembrar da estória com muitos detalhes. Lembro que gostei, mas não achei aquilo tudo. No entanto, acabei me tornando um leitor assíduo de dramas, de modo que os pontos principais da estória me fazem perceber que o livro tem tudo para me agradar em cheio. 

Outro aspecto que me chamou atenção é o cenário do livro. Estamos tão acostumados a ler livros que se passam nos Estados Unidos ou em países europeus, que acabamos perdendo a oportunidade de mergulhar em outras culturas. Uma parte da estória de O Caçador de Pipas se desenvolve no Afeganistão, de modo que vemos de perto a cultura árabe — a qual muitas vezes sofre preconceitos por causa de nosso olhar ocidental. 

Housseini aborda diversos temas ao longo da estória, como violência, amor, amizade, redenção e injustiça. Outro assunto abordado diz respeito ao regime Talibã, que assumiu o poder e instituiu um governo fundamentalista no Afeganistão, sobre o qual eu tinha pouco conhecimento e que me chocou bastante. 



sábado, 13 de outubro de 2018

RESENHA: Para todos os garotos que já amei

Para todos os garotos que já amei
Confesso que não tenho o costume de assistir muitos filmes. E, para minha surpresa, um trailer que me chamou atenção foi o de Para todos os garotos que já amei, que anunciava uma estória leve, engraçada e inteligente. Dei uma chance para o filme, que me surpreendeu demais. Em seguida, vi que John Green em pessoa estava elogiando a obra de Jenny Han, de modo que também decidi dar uma chance para o livro. 

Lara Jean já se apaixonou cinco vezes. E a cada nova paixão ela escreve uma carta, onde pode deixar fluir todos os seus sentimentos. Após escrevê-las, Lara as guarda em uma caixa e então segue sua vida, sem ser consumida por aquela paixão avassaladora. Porém, um dia, todas as cartas são enviadas aos seus destinatários e Lara não sabe como lidar com a situação. 

O livro é narrado em primeira pessoa por Lara Jean, de modo que o leitor tem um contato muito próximo com a protagonista. Entretanto, um dos aspectos que me desagradou um pouco foi perceber a imaturidade da personagem em diversas situações. Eram ações ou pensamentos que me pareciam em dissonância com a idade da protagonista. 

Entretanto, preciso reconhecer que Lara é uma protagonista complexa e multifacetada, sendo que as experiências que vive ao longo da estória acarretam em um vívido amadurecimento da personagem. Aos poucos, vemos que ela fica mais segura de si mesma, mais independente e corajosa. 

“Margot diria que pertence a si mesma. Kitty diria que não pertence a ninguém. E acho que eu diria que pertenço às minhas irmãs a ao meu pai, mas isso nem sempre será verdade. Pertencer a alguém ... Eu não tinha percebido, mas, agora que estou pensando no assunto, parece que é tudo o que eu sempre quis. Ser de alguém de verdade, e que essa pessoa fosse minha.” (HAN, 2015, p. 172)

Além disso, também achei o ritmo um pouco lento e arrastado. Há diversas cenas que pouco acrescentam e que não servem para o desenvolvimento da trama. A meu ver, ficou claro que a autora não precisava das mais de trezentas páginas para contar a estória e fico me perguntando porque ela decidiu escrever uma trilogia. 

Infelizmente, Han optou por desenvolver um triangulo amoroso que, além de absolutamente clichê, não é verossímil. Além de uma paixão que parece surgir do nada, fica claro que o personagem em questão apenas desenvolve esse súbito interesse por Lara Jean em virtude das consequências que isto causará na estória. 

A adaptação corrigiu esses defeitos, então encontramos uma protagonista mais madura e com uma personalidade mais cativante, sendo que tanto os eventos desnecessários quanto o triangulo amoroso forçado são excluídos da estória. No fim das contas, o filme acabou sendo leve, divertido e despretensioso como eu esperava que fosse ser o livro.

Para assistir ao trailer, clique aqui

Título: Para todos os garotos que já amei
Autora: Jenny Han
N.º de páginas: 315
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

RESENHA: A Estrada

A Estrada - Cormac McCarthy Há tempos eu queria conferir um livro de Cormac McCarthy que estava fora do catálogo da Alfaguara. Acabei optando por ler “A Estrada”, vencedor do Pulitzer, que conta uma história pós apocalíptica protagonizada por um pai e seu filho.

Um mundo devastado e duas pessoas em busca de sobrevivência. Essa é a premissa de “A Estrada”. Não sabemos o que aconteceu para que as coisas chegassem a esse ponto, nem mesmo nos importamos. A história não gira em torno de respostas porque, seja lá o que tenha ocasionado o fim da humanidade, não interessa. O que interessa é que temos esse homem e esse menino e eles precisam sobreviver. Aliás, “homem” e “menino” é como os conhecemos, já que em nenhum momento sabemos os seus nomes, suas idades, onde moravam ou o que faziam antes de tudo chegar ao fim. Nada disso importa. Agora eles estão reduzidos ao que são em essência: homem e menino. Pai e filho. E é assim que os conhecemos.

O livro não tem divisão em capítulos, apenas segmenta a narrativa em pequenos trechos. Isso porque nesta história não há interrupção. É tudo uma sequência, um dia após o outro por uma longa estrada. Outra coisa que pode desagradar alguns leitores é a falta de marcação de diálogos. Não temos travessão, nem aspas, nem mesmo indicação de quem fala. Afinal, estamos em um mundo sem regras. Um mundo em que não existe nada além de eles dois. Precisamos nos ater ao essencial e eliminar o supérfluo. Assim, o que vale para os hábitos, o autor transfere também à narrativa. Apesar disso, os diálogos não deixam dúvidas porque o McCarthy define com clareza as duas personalidades. Outro ponto de destaque da narrativa é que ela parece querer preencher com cores a falta de mundo. No cenário não há nada, mas o autor consegue tornar o “nada” vívido.

Livros com apenas dois personagens são sempre desafiantes porque a história pode facilmente se tornar cansativa, dependendo do contexto. Mas dois personagens em um mundo onde nada mais existe além deles e, consequentemente, tudo que eles fazem é andar e comer é um desafio gigante que McCarthy vence sem fazer o leitor sentir. Não temos grandes diálogos entre os personagens porque não há tanto sobre o que falar. Não há grandes situações porque dificilmente algo irá acontecer se não tem mais ninguém lá para fazer acontecer. Ainda assim o autor preenche cada página com vida. Arrisco dizer que se McCarthy consegue fazer funcionar essa premissa, ele consegue fazer funcionar qualquer coisa.

"Quando todos tivermos morrido pelo menos não haverá ninguém aqui além da morte e seus dias estarão contados também. Ela vai estar aqui na estrada sem nada para fazer e sem ninguém a quem fazer. Ela vai dizer: Para onde foi todo mundo? E é assim que vai ser." (MCCARTHY, 2007, p. 143)

E a verdade é que “A Estrada” funciona muito bem. Mesmo tendo pouca ação, vamos nos apegando aos personagens de maneira que só queremos torcer por eles. Só queremos que eles fiquem bem, mesmo sabendo que a situação não permite que o bem perdure. Vamos nos apaixonando pela inocência desse menino e pelo amor que o pai tem por ele. Aliás, por falar em inocência, que personagem ímpar! Esse é um menino que apresenta a inocência típica da criança, mas também uma inocência que vai além disso porque ele não conheceu o mundo como era. Por outro lado, é uma inocência contaminada com a dureza desse novo mundo, com as coisas que ele já viu (corpos carbonizados, amputados, pessoas que comem pessoas para sobreviver). Há cenas de cortar o coração, mas que nunca se tornam apelativas. Como a cena em que o pai se obriga a ensinar o filho a colocar uma arma na própria boca e atirar para cima, caso eles sejam pegos (pegos por quem e o que aconteceria nessa situação são coisas que ficamos sem saber).

Para futuros leitores, dou uma dica: leia “A Estrada” em poucos dias. Como não há um desenrolar de eventos da maneira que estamos acostumados, isso pode dar a impressão de que nada acontece. Lendo mais rápido mergulhamos no que os personagens estão sentindo e é isso que faz valer a leitura.

Melancólico, triste, cheio de amor e de força. Esse é “A Estrada”. Um livro de poucas ações em busca da maior delas: sobreviver. Agora, estou torcendo mais do que nunca para que “Onde os velhos não têm vez” retorne logo ao catálogo da editora.

Título: A estrada
Autor: Cormac McCarthy
N° de páginas: 234
Editora: Alfaguara
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 7 de outubro de 2018

RESENHA: O Lado Bom da Vida

O lado bom da vida matthew quick
Minha relação com Matthew Quick é um pouco conturbada, marcada por altos e baixos. Há livros que adorei, enquanto outros achei mais fracos. Este ano, fiz as pazes com o autor após ler Todas as Coisas Belas e foi então que decidi que era chegada a hora de ler sua obra mais famosa: O Lado Bom da Vida.

Pat recebeu alta de uma instituição psiquiátrica, mas não lembra o que fez para parar no “lugar ruim”, tampouco quanto tempo permaneceu internado. Sua única preocupação é reconquistar sua esposa, Nikki, que pediu um “tempo separados”. Porém, ao retomar sua vida, Pat começa a perceber que há lapsos em sua memória e, para completar, ele ainda precisa aprender a lidar com a nova dinâmica familiar. 

A narrativa é feita em primeira pessoa, o que coloca o leitor em contato direto com o protagonista. Assim, sentimos toda a angústia e desorientação do personagem, ao viver em um mundo que seguiu adiante enquanto ele estava internado. Sentimos o desespero do personagem por estar longe de Nikki, como também enxergamos seu esforço para se tornar uma pessoa melhor. 

“— A vida é dura, Pat, e os jovens têm de saber o quão difícil ela pode ser.
— Por quê?
— Para que sejam solidários. Para que compreendam que algumas pessoas têm mais dificuldades do que eles e que uma passagem por este mundo pode ser uma experiência totalmente diferente, dependendo de quais substâncias químicas estão ativas na mente de um indivíduo.”
(QUICK, 2012, p. 116)

O meu problema, no entanto, é que Pat não se mostrou um protagonista muito carismático, de modo que não desenvolvi uma conexão com sua estória. Além disso, seus pensamentos e sua linha de raciocínio me pareceram extremamente juvenis, sendo incompatíveis com um homem de trinta anos. 

Outro fator que afetou meu envolvimento com a leitura foi seu ritmo vagaroso. Durante boa parte da estória, parece que não está acontecendo muita coisa. E minha impressão era que para disfarçar esses momentos de vácuo, o autor utilizava-se dos jogos de futebol americano que, excetuando um ou outro episódio, pouco influenciaram no desenvolvimento da trama. 

A estória demora a engatar, e mesmo quando engata, não surpreende. Elementos como os lapsos de memória, o passado de Pat, a instituição psiquiátrica, se encaixam de uma forma um pouco blasé, mas pelo menos mantém a verossimilhança. 

O Lado Bom da Vida está longe de ser um livro ruim, porém, claramente é um livro de estreia. E mais: é um livro que está muito aquém do potencial do autor, sendo incomparável com os incríveis Perdão, Leonard Peacock e Todas as Coisas Belas. 

Título: O Lado Bom da Vida
Autor: Matthew Quick
N.º de páginas: 254
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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