quinta-feira, 12 de julho de 2018

RESENHA: O Menino do Pijama Listrado

o menino do pijama listrado john boyne
Quem acompanha o blog sabe que depois de ler O Pacifista virei fã incondicional de John Boyne. Curiosamente, nunca tive muito interesse em ler sua obra mais conhecida, O Menino do Pijama Listrado, visto que já havia assistido ao filme e não tinha achado aquilo tudo. Porém, depois de conhecer o talento do autor, resolvi dar uma chance ao livro e me arrependi de não ter feito isto antes. 

Bruno é um garoto de nove anos que vive com sua família em Berlim durante a Segunda Guerra Mundial. Quando seu pai é promovido, a família acaba tendo que se mudar para "Haja-Vista", onde Bruno acaba conhecendo Shmuel, um garoto que está do outro lado da cerca e que logo se torna um amigo. 

O Menino do Pijama Listrado é uma estória que revela os horrores da guerra pelo olhar inocente e ingênuo de uma criança. Apesar de Bruno não compreender o contexto em que está, nem suas implicações, o leitor entende o que está acontecendo. Assim, Boyne conseguiu uma façanha incrível: mostrar um mundo de dor e angústia de uma forma extremamente delicada, por mais paradoxal que isto pareça. 

Como não poderia deixar de ser, o livro acaba discutindo diversos temas — tais como amizade, inocência, preconceito, injustiça, solidão, entre outros — de forma sútil. Em nenhum momento Boyne força as reflexões, porém, a estória naturalmente conduz o leitor a pensar sobre tais assuntos.

“Qual era a diferença, exatamente?, ele se perguntou. E quem decidia quem usava os pijamas e quem usava os uniformes?” (BOYNE, 2007, p. 91) 

Os personagens são muito bem desenvolvidos, especialmente Bruno. É impossível não se apegar ao garoto, que conquista o leitor com sua curiosidade e pureza. Além disso, é impressionante como Boyne cria personagens multifacetados, que estão longe da dicotomia heróis ou vilões. 

O final do livro é de partir o coração. Mesmo sabendo o que estava por vir por causa do filme, foi impossível não se emocionar com o desfecho da estória e não ser profundamente impactado. Não sou um leitor que costuma chorar, mas não deu para segurar as lágrimas com O Menino do Pijama Listrado. Curiosamente, esta foi a segunda vez que um livro me fez chorar, sendo que o primeiro livro a atingir este feito foi O Pacifista. 

O Menino do Pijama Listrado é um livro pequeno, com uma estória relativamente simples e linear, mas extremamente intenso a ponto de causar um alvoroço dentro do leitor. Apesar de ser classificado como uma obra infanto-juvenil, creio que leitores de todas as idades apreciarão a leitura e poderão tirar dele diversas lições de vida. 

Este foi o quarto livro do autor que li e seu talento ficou ainda mais evidente. Seja escrevendo dramas adultos ou livros juvenis, Boyne tem a rara habilidade de colocar no papel a essência da nossa humanidade. E creio que seja por isso que seus livros causem tamanho impacto. 

Título: O Menino do Pijama Listrado
Autor: John Boyne
N.º de páginas: 186
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 9 de julho de 2018

RESENHA: Terra das Mulheres

Terra das Mulheres / Charlotte Perkins GilmanAdoro quando os autores se propõem a brincar de “e se?”. Em “Terra das Mulheres”, Charlotte Perkins Gilman imagina uma sociedade habitada apenas por mulheres.

Van, Jeff e Terry são três exploradores que irão se deparar com uma curiosa tribo que vive afastada da civilização, é composta apenas por mulheres e irá desafiar a maneira como eles enxergam o mundo em que vivem.

Narrado em primeira pessoa por Van, o livro nos apresenta uma sociedade que causa estranheza e faz isso através dos olhos de quem também a acha estranha. Caso fosse narrado por uma das mulheres, com certeza o impacto seria diferente. O interessante é que essa estranheza se apresenta dos dois ângulos, porque, da mesma forma que os homens não compreendem essa sociedade, as mulheres também não entendem a maneira deles de viver. E é pela estranheza delas que percebemos como muitos dos nossos hábitos fazem pouco sentido.

Apesar de interessante, “Terra das Mulheres” me decepcionou. O grande problema é que o livro não tem história, parecendo mais uma bandeira que a autora quer levantar, como se um dia ela tivesse pensado: “Como seria um mundo povoado apenas por mulheres?” e criado as regras que regeriam esse mundo, o que faz com que “Terra das Mulheres” pareça um livro teórico e sem carisma. Além disso, algumas das soluções que a autora propõe para a falta dos homens são completamente sem sentido. A principal delas, obviamente, a concepção das crianças que continuam nascendo mesmo sem a presença de homens há anos. Nessa sociedade, tudo que as mulheres precisam fazer para engravidar é querer muito, do fundo do coração, e pronto! Elas estão esperando um filho. Se isso não é uma solução preguiçosa, eu não sei mais o que é.

“Ficam surpresas ao saber que ainda enterrávamos os mortos – perguntaram nossos motivos e ficaram muito insatisfeitas com os que fornecemos. Contamos sobre a crença na ressurreição dos corpos, e elas perguntaram se nosso Deus não seria tão capaz de ressuscitar das cinzas quanto da podridão antiga. Contamos que as pessoas consideravam repugnante queimar seus entes queridos, e elas perguntaram se deixá-los apodrecer seria menos repugnante.” (GILMAN, 2018, p.100)

Outra coisa que me incomodou é que, tão distante de nós quanto a civilização das mulheres, é a própria sociedade de Van, Terry e Jeff. Tendo sido escrito em 1915, muitos dos costumes que eles comentam como sendo “normais” também já soam muito distante de nós (como o fato de as mulheres não trabalharem fora de casa). É como se tivéssemos duas distopias brigando uma com a outra.

“Terra das Mulheres” tem uma premissa fantástica, mas se preocupa tanto em explicar a sociedade que criou que esquece de deixá-la se contar por conta própria. Por isso, não consegue fisgar o leitor para dentro do seu mundo e o deixa como o trio de protagonistas, dividido entre a curiosidade de saber o que acontece por lá e a vontade de escapar.

Título: Terra das Mulheres
Autora: Charlotte Perkins Gilman
N° de páginas: 256
Editora: Rosa dos Tempos
(exemplar cedido pela editora)

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sábado, 7 de julho de 2018

RESENHA: A Bússola de Ouro

a bússola de ouro philip pullman
Lyra é uma criança órfã de doze anos que vive na Faculdade Jordan. De lá ela acompanha os rumores sobre o Pó, as expedições para o norte, os pesquisadores mortos e as crianças desaparecidas. Mas quando seu amigo, Roger, desaparece, ela decide que irá encontra-lo. E para isso contará com a ajuda de feiticeiras, ursos e de um poderoso instrumento que responde a qualquer pergunta com a verdade. 

O grande acerto de A Bússola de Ouro é a apresentação de sua protagonista. Lyra é uma garota destemida, ousada, teimosa, aventureira e fiel aos seus amigos, sendo impossível não se apegar a ela logo nos primeiros capítulos. Os demais personagens também são bem desenvolvidos, merecendo destaque o urso Iorek, o lorde Asriel e a sra. Coulter. 

A narrativa é em terceira pessoa, mostrando, principalmente, o ponto de vista de Lyra. O texto de Pullman é mediano, não contando com grandes atributos, tampouco defeitos. Porém, registro que em alguns momentos a narrativa me pareceu muito descritiva, o que é um fator que sempre me desagrada. 

Também preciso admitir que o livro demorou a me envolver. O início da estória parece patinar, dando a impressão de que nada de relevante está acontecendo. Foi apenas na reta final que a trama ganhou um novo fôlego e prendeu minha atenção. Aliás, tenho dúvidas se de fato eram necessárias as mais de trezentas páginas para o desenvolvimento da estória. 

Mas não se pode mudar o que a gente é, só o que a gente faz.” (PULLMAN, 2017, p. 271)

Apesar de ser um livro infanto-juvenil, achei a trama relativamente complexa e fiquei com a impressão de que o autor não tinha total domínio sobre a estória. Isso por que durante vários momentos da leitura me parecia que a trama não estava completamente amarrada e que a estória perdia o rumo. 

O universo criado pelo autor é muito criativo e original, ficando claro que sua obra, inclusive, serviu de inspiração para outros escritores. Porém, fiquei com a sensação de que este mundo tinha mais potencial a ser desenvolvido, o que provavelmente ficou reservado para os demais livros da série. 

Ao findar a leitura de A Bússola de Ouro, fiquei com uma curiosa sensação: há muitos aspectos positivos e poucos defeitos a serem apontados, entretanto, a estória não me impactou, nem me deixou com vontade de continuar a leitura da série, apesar dos inúmeros e promissores ganchos deixados para a sequência. No fim das contas, talvez o maior pecado do livro é que ele seja absolutamente introdutório. 

A Bússola de Ouro é o primeiro livro da série Fronteiras do Universo

Título: A Bússola de Ouro
Autor: Philip Pullman
N.º de páginas: 341
Editora: Suma
Exemplar cedido pela editora

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O que vem por aí - julho

terça-feira, 3 de julho de 2018

Top Comentarista Julho


No Top Comentarista de julho, o vencedor poderá escolher o livro que quer ganhar dentre as quatro opções: "O dia em que o presidente desapareceu", "Lembra aquela vez", "Robopocalipse" e "Todos os pássaros no céu". 

Confira o regulamento:

1. Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebookcomentar em todas as postagens de julho e ter um endereço de entrega no Brasil.

2. Para simplificar, optamos por utilizar o Rafflecopter. A primeira entrada confirma sua participação no Top Comentarista, enquanto as demais constituem chances extras, sendo opcionais. Atenção: depois de feito o sorteio será conferido se o sorteado comentou em todas as postagens do mês. Caso essa regra não seja cumprida, o mesmo será desclassificado, e um novo sorteio será realizado.

3. Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog no twitter. 

4. Lembrando que somente serão válidos comentários significativos. Ou seja, comentários do gênero “interessante”, “legal” ou “ótima resenha” não serão computados. O participante poderá comentar apenas uma vez em cada post.

5. O sorteado poderá escolher o livro que deseja receber dentre as quatro opções disponíveis:
O dia em que o presidente desapareceu;
- Lembra aquela vez; 
- Robopocalipse; 
- Todos os pássaros no céu.

6. O resultado do Top Comentarista será divulgado no blog até o dia 05 de agosto.

7. O sorteado será contatado por email, tendo o prazo de 48h para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

8. O prêmio será enviado pelo blog no prazo de trinta dias úteis.

9. A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway

sábado, 30 de junho de 2018

Definindo Literatura LGBT

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

literatura lgbt
Em junho comemoramos o Mês do Orgulho LGBT e, aproveitando a ocasião, comecei a refletir sobre o conceito de “literatura LGBT”. E quanto mais pensava no assunto, mais difícil me parecia encontrar uma definição.

Poderíamos dizer que a literatura LGBT é aquela produzida por membros dessa comunidade? A meu ver, tal definição é extremamente restritiva. É claro que autores LGBT certamente terão maior autoridade e facilidade para abordar temas referentes a este universo. Entretanto, não creio que seja necessário ser membro da comunidade para escrever sobre ela. Primeiro, porque (bons) autores fazem pesquisas extensas e contam com material de apoio para escreverem com propriedade; segundo, porque se levarmos esse raciocínio para outros campos um escritor homem jamais poderia escrever sobre mulheres ou crianças, por exemplo. Além disso, escrever ficção é um exercício de imaginação e se apenas pudéssemos escrever sobre aquilo que conhecemos pessoalmente, gêneros como a fantasia e a ficção científica sequer existiriam. 

Então, será que a literatura LGBT é aquela que conta com personagens da comunidade? Mais uma vez, creio que a resposta seja não. Evidentemente, livros com personagens LGBT favorecem o diálogo sobre as questões referentes a esta comunidade. Porém, tenho visto com frequência cada vez maior livros que contam com personagens LGBT rasos e mal construídos, que parecem terem sido escalados apenas para preencherem uma cota. A verdade é que um obra não pode ser considerada literatura LGBT apenas por contar com personagens LGBT, assim como um protagonista doente não é motivo suficiente para classificarmos o livro como sicklitÉ preciso ir além dos personagens, seja o gênero que for. 

A meu ver, o aspecto mais importante para conceituarmos a literatura LGBT é a temática que ela se propõe a abordar. São livros que geralmente discutem assuntos como identidade, descobrimento, preconceito, aceitação, empoderamento, entre outros. Entretanto, até mesmo esse critério me parece impróprioCreio que a resposta mais completa é que a literatura LGBT é aquela que reproduz a vida real, com todos os seus sabores e temperos, com toda a sua complexidade. Que mostra as alegrias e as dores, as dificuldades e as superações, os dramas e as vitórias não apenas como pessoas LGBTs, mas como seres humanos. Ou seja, uma literatura que retrata vidas completas, e não apenas limitadas no que diz respeito a orientação sexual ou ao gênero.

Tenho esperança que, futuramente, sair do armário seja algo ultrapassado e que o preconceito contra a comunidade LGBT faça parte do passado. Tenho esperança que não fará diferença nenhuma para o leitor, ou para o mercado editorial, se o autor ou se os personagens são LGBTs. Tenho esperança que a literatura LGBT não precise abordar temas que hoje são repetidamente discutidos, porque não haverá necessidade de falar sobre eles. Tenho esperança que nem mesmo seja necessário conceituar o que é literatura LGBT. 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

RESENHA: A Sede

A Sede / Jo Nesbø / Harry Hole
No décimo primeiro livro da série Harry Hole, o lendário detetive está de volta em mais um acerto de Jo Nesbø.

Um assassino que mata suas vítimas com mordidas de uma dentadura de ferro e bebe seu sangue, dando um novo sentido a expressão "sede de sangue". Um criminoso tão sem precedentes que obriga a polícia de Oslo a chamar Harry Hole para ajudar nas investigações, colocando de novo em seu caminho o único criminoso que escapou de suas mãos há anos.

Já falei muito aqui sobre como gosto de Harry Hole. Tendo lido todos os livros da série, com exceção do segundo, acompanhei a jornada do inspetor em seus tempos mais sombrios e também mais leves (aspas generosas em “leves”) e há alguns livros acredito que esta jornada esteja se aproximando do fim. Isso não tem a ver com a qualidade das tramas e sim com a história do próprio personagem que sempre foi um protagonista para a série mais do que apenas um investigador de casos policiais.

Neste livro vemos um Harry casado com a mulher que ama, sendo um pai para o menino que ele viu crescer e que hoje, homem adulto, escolhe seguir seus passos na polícia. Vemos Harry direcionar seus talentos para o ensino, se tornando professor da academia de polícia, ao invés de portar seu distintivo. Mas também vemos Harry continuar sendo Harry, atormentado por seus demônios que sempre estarão ali, não importa o que aconteça. Ainda assim, como é bom vê-lo tendo um porto seguro para voltar ao final do dia. Como é bom poder ve-lo encontrar com Rakel uma forma de serem felizes, nem que seja entre brechas de escuridão.

“É claro que perdemos todas as pessoas a quem tentamos nos agarrar, o destino faz pouco-caso de nós, nos torna pequenos, patéticos. Quando choramos pelas pessoas que perdemos não é por compaixão, porque é claro que sabemos que elas finalmente estão livres da dor. Mas ainda assim choramos. Choramos porque estamos sozinhos outra vez. Choramos por sentirmos pena de nós mesmos.” (NESBØ, 2018, p. 370)

Outra coisa que gosto na série é que, aos poucos, alguns personagens se despedem e outros surgem para ocupar lugares de destaque. É o caso, por exemplo de Trulls Berntsen (e seu eterno complexo de inferioridade e paixão impossível por Ulla Bellman), da inspetora Katrine (que agora lidera a equipe de investigação) e de Michael Bellman (o ambicioso e desprezível chefe de polícia contra quem qualquer leitor vai gostar de torcer). Todos rendem subtramas envolventes e isso acorre porque, ao criar um personagem consistente como Harry Hole, Nesbø fez dele um terreno fértil para que outros pudessem se desenvolver ao seu redor.

Quanto ao caso em si, confesso que o autor soube me conduzir direitinho, de forma que não previ a surpresa que ele guardava para o final. Os crimes, como sempre, são grotescos e Nesbø não tem medo de criar imagens fortes na mente do leitor. A condução da trama acelera o ritmo com o avançar dos capítulos, enredando cada vez mais os personagens, até colocá-los todos em um mesmo lugar para um desfecho doentio.

Três anos após os eventos de “Polícia, a trama de “A Sede” usa o cliffhager deixado pelo livro anterior para trazer de volta o vilão Valentin Gjertsen, algo que Nesbø parece planejar fazer novamente com Svein Finne, “o noivo”. Apesar disso, as tramas dos livros são independentes e podem ser lidas fora de ordem.

“A Sede” é a décima primeira trama de uma série que não mostra sinais de cansaço. Mais uma vez, Jo Nesbø entrega uma trama bem amarrada, inteligente e capaz de surpreender o leitor.

Título: A Sede
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 531
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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