terça-feira, 21 de março de 2017

[Stephen King] para quem não gosta de [Stephen King]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Muitos leitores mantêm distância da obra de Stephen King por acharem que o autor dedica-se exclusivamente ao terror. E embora King de fato seja conhecido como o Mestre do Terror, suas habilidades como escritor vão muito além deste gênero. Assim, selecionamos três livros que mostram diferentes facetas do autor e que irão agradar a qualquer leitor. 


Sob a Redoma parte de uma premissa relativamente simples: e se uma pequena cidade fosse cercada por uma redoma invisível do dia para noite? É a partir desta premissa que King cria uma trama homérica e perfeitamente amarrada, explorando, essencialmente, duas temáticas: os jogos pelo poder e a luta pela sobrevivência. Ou seja, o desenvolvimento do livro não se baseia na origem da redoma, mas sim dos conflitos existentes entre os personagens em um contexto tenso e perturbador. 
Curiosamente, Sob a Redoma foi o livro responsável por tornar a equipe Além da Contracapa fã incondicional de Stephen King, pois foi a partir dele que passamos a entender a abordagem utilizada pelo autor: os elementos sobrenaturais são meros “gatilhos” que causam os mais diversos conflitos e reações entre os personagens, sendo estes o enfoque das tramas. 


Mesmo partindo de um tema complexo como a viagem no tempo — afinal, o protagonista descobre uma brecha no tempo e retorna para o ano de 1958 para impedir o assassinato do presidente Kennedy —, Novembro de 63 não é um livro de ficção científica propriamente dito. Isso por que a viagem no tempo é apenas o pano de fundo no qual King constrói um grande protagonista e desenvolve sua jornada. O objetivo do personagem é salvar Kennedy e tudo que ele faz durante esses cinco anos tem em mente o fatídico 22 de novembro de 63, mas, apesar disso, a trama não gira em torno desse episódio e sim de um romance. Para a sua surpresa, Jake se apaixona por uma mulher que não vive no seu tempo, o que torna todas as suas escolhas mais difíceis. Por isso, Novembro de 63 é, acima de tudo, uma estória de amor, recheada de ação e de reflexões sobre o tempo e a importância do passado. 


No geral, a obra de Stephen King leva a crer que ele não é um autor que escreve simplesmente porque essa é sua a profissão, a maneira como ganha a vida, e sim que ele escolheu essa profissão porque escrever é a sua vida. Por isso, mesmo que a história não tenha previsão de vir à tona, se King sente que tem uma história para contar, ele a conta. O livro Quatro Estações é composto por quatro histórias curtas que o autor achou que jamais chegariam às mãos dos leitores, pois eram longas demais para serem vendidas como contos e curtas demais para serem romances. A antologia, no geral, pode ser recomendada para quem não gosta de terror (afinal, são dois dramas, um suspense e uma história sobrenatural - a única fraca das quatro), mas o destaque aqui vai para O Corpo: uma história de amizade entre quatro adolescentes que ao ouvirem falar da localização do corpo de um menino da idade deles, desaparecido há dias, resolvem encontrá-lo e revelar a notícia para as autoridades para ganharem fama e glória. Porém, no caminho outras coisas adquirem importância, fazendo desta uma história sobre amadurecimento e a passagem da idade infantil para a idade adulta. O leitor conhece a história através do olhar de um dos meninos, agora adulto, o que derrama sobre os acontecimentos uma camada de melancolia raramente associada a King. Uma das mais belas histórias que li do autor e certamente uma das minhas favoritas. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

PROMOÇÃO: O Livro dos Baltimore



Em parceria com a Editora Intrínseca, iremos sortear um exemplar de "O Livro dos Baltimore": um maravilhoso drama familiar envolto em suspense. 

Regulamento:

A promoção terá início no dia 20 de março e término no dia 16 de abril

Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebook e ter um endereço de entrega no Brasil.

As demais entradas são opcionais

Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog e a editora no twitter. 

O resultado será divulgado no blog e nas redes sociais até três dias após o encerramento da promoção, sendo que o sorteado será contatado por e-mail, tendo o prazo de 48 horas para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. 

Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

O vencedor ganhará um exemplar do livro "O Livro dos Baltimore", de Joël Dicker

O livro será enviado pela editora Intrínseca.

A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway

sábado, 18 de março de 2017

RESENHA: Cujo

“O grito estava entalado na garganta. Era algo vivo se debatendo para sair, e tudo fervilhava no mesmo instante (...)” (KING, 2016, p. 198)

Quando você é fã de um autor, é natural querer ler todos os livros dele, mas também é natural que alguns despertem mais interesse que outros, principalmente quando se trata de uma obra extensa como a de Stephen King. “Cujo”, apesar da fama que alcançou e de a sinopse prometer “um dos livros mais assustadores e emocionantes de Stephen King” pouco me atraia. Mas, se tem alguém que sabe extrair o melhor de uma premissa bizarra e fazer o leitor acreditar totalmente naquilo, esse alguém é Stephen King, então o livro ganhou uma chance.

Tad Trenton é um menino aterrorizado pelo monstro que vive em seu armário e que, toda a noite, sussurra a assustadora promessa de se aproximar dele cada dia mais. Cujo é um dócil São Bernardo de 90kg que pertence a família dos Camber. Como em toda a cidade pequena em que todos conhecem a todos, Tad até já brincou com Cujo, mas isso foi antes de o cachorro ser mordido por morcegos contaminados e desenvolver raiva. Agora, os piores pesadelos de Tad podem se tornar realidade a qualquer momento.

O que me faz gostar dos livros de Stephen King não são as situações assustadoras e sim o que o autor faz com seus personagens nessas situações assustadoras. O principal nunca é a situação em si (de onde surgiu a redoma e como eles vão se livrar dela, como exatamente John Smith adquiriu seus poderes depois do coma, qual a força maligna que paira sobre o Hotel Overlook), mas sim o que ela desperta nos personagens, ou seja, os conflitos psicológicos. Essa é a razão pela qual os livros do autor vão além do mero terror, pois King usa situações assustadoras para extrair as reações dos personagens, ao invés de usar os personagens apenas para transitar em situações assustadoras. Mas em “Cujo” essa característica se perde e por isso o livro me decepcionou.

Longe de ser um livro ruim, “Cujo” apresenta uma situação que se torna gradativamente mais tensa (uma mãe e seu filho presos em um carro isolado e cercado por um cão raivoso). O problema é que a situação é pobre porque os personagens são pobres em dramas e todos os conflitos existem apenas para justificar onde os personagens estarão quando Cujo atingir o ápice da raiva. É um livro frio, sem sentimento.

A abordagem não é de todo decepcionante. Ao invés de alastrar o pânico pela cidade, fazendo com que Cujo atacasse geral, o autor prefere explorar um único ataque ao máximo, elegendo vítimas específicas. Existem outros ataques, mas mesmo esses visam as consequências para o ataque principal. Assim, King consegue extrair o máximo desta situação porque é fácil se colocar no lugar de Donna e seu filho e achar angustiante estar preso em um carro trancado, no calor, sem comida ou água, sem possibilidade de comunicação e com um cachorro violento e atento a qualquer um dos seus movimentos, pronto para atacar você. Mas também é nisso que o livro peca: a situação funciona porque nos colocamos no lugar de Donna e Tad e imaginamos o que é sentir aquilo na pele, mas não porque nos importamos com eles.

Por um lado, é admirável ver como King planeja tudo de forma estender aquela situação ao máximo a fim de que as coisas fiquem realmente complicadas (caso o contrário, logo o leitor se perguntaria por que ninguém dá pela falta dos dois ou por que ninguém passa por lá e os encontra), mas não muda o fato de que o livro gira em torno do ataque de um cachorro e o ataque pelo ataque significa muito pouco a não ser que os personagens tenham se tornado importantes para o leitor.

Ressalto que “Cujo” não é um livro ruim e que eu concordo com as opções que King fez sobre como contar a história, apenas acho que soa como um livro de principiante, do tipo que mostra que seu autor é talentoso, mas ainda não sabe como explorar esse talento a fundo. Certamente tem menos complexidade psicológica do que obras que King escreveu anteriormente como “O Iluminado”, “Carrie”, “Dança da Morte” e “A Zona Morta”, embora a situação pudesse proporcionasse isso.

Um detalhe inusitado é que o livro não é dividido em capítulos, apenas trechos, fazendo com que a história esteja em movimento o tempo todo, com todas as pontas conectadas.

Essa edição em capa dura (que dá início à coleção de clássicos do mestre: a “Biblioteca Stephen King”) conta ainda com uma excelente entrevista concedida pelo autor, parte em 2001 e parte em 2006.

Título: Cujo (exemplar cedido pela editora)
Autor: Stephen King
N° de páginas: 373
Editora: Suma de Letras

quinta-feira, 16 de março de 2017

RESENHA: Os Miseráveis

“O que é essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava. 
De quem? Da miséria.
Da fome, do frio, do isolamento, do abandono, da privação. Dolorosa negociação. Um alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita. 
[...]. Dizem que a escravidão desapareceu da civilização europeia: é um erro. Existe ainda, mas não pesa senão sobre a mulher, e chama-se prostituição.” (HUGO, 2014, p. 229)

***

Jean Valjean foi condenado a trabalho forçado nas galés e, por causa de inúmeras tentativas de fuga, teve que cumprir uma sentença de dezenove anos. Quando é liberto, percebe que a condição de ex-prisioneiro nunca o abandonará, motivo pelo qual troca de nome e recomeça sua vida.  É então que conhece Fantine, uma mulher que teve uma vida difícil, tendo até mesmo que abandonar sua filha, Cosette. Mas antes que Jean possa ajudá-las, o inspetor Javert se coloca no encalço do antigo forçado, determinado a levá-lo a justiça. Anos depois, a vida destes personagens irá se cruzar com o jovem Marius, um estudante engajado com a Revolução de 1832. 

A primeira observação que faço é que está sinopse é sucinta, pois se trata de uma tarefa hercúlea, senão impossível, resumir em poucas palavras a trama magistral de Os Miseráveis. Entretanto, creio que a tentativa de explicar com mais detalhes a premissa da trama acarretaria em spoilers, motivo pelo qual optei por prezar pela concisão. 

O primeiro fator que chama atenção é como a narrativa de Victor Hugo é fluida e envolvente, não dando a menor impressão de ser um livro publicado há mais de cento e cinquenta anos. Assim, mesmo que o início do livro demore cerca de cem páginas para realmente engrenar, o leitor não sente essas páginas pesarem (ainda mais por que apresentam um personagem coadjuvante interessantíssimo). 

Mas quando Hugo começa a desenvolver o cerne da estória, prepare-se para embarcar em uma aventura emocionante. O autor faz retratos da miséria sem poupar o leitor, mostrando como os mais diversos personagens perdem, pouco a pouco, sua humanidade. A partir do momento em que se é ignorado socialmente e que as necessidades mais básicas não são saciadas, o ser humano regride aos seus impulsos mais animalescos. E quem pode culpá-lo? É com uma narrativa sutil e tocante que Hugo compõe um quadro doloroso, sendo impossível não sentir um aperto no coração vendo dramas tão intensos e injustos. 

O ponto alto do livro certamente é a crítica social contundente que Victor Hugo desenvolve ao longo da estória, expondo diversas feridas de nossa sociedade como a pobreza, a criminalidade, a injustiça, o abuso infantil, a prostituição e a forma como tratamos pessoas menos favorecidas. Apesar do autor não dar nenhuma lição de moral, a estória é tão forte e impactante que equivale a uma sucessão de “tapas na cara”. Assim, ao mesmo tempo em que emociona, Os Miseráveis também causa desconforto, por revelar uma realidade amarga para a qual fechamos os olhos. 

A construção dos personagens também merece destaque. É impressionante como o autor consegue criar personagens tão reais e vívidos, de modo que o leitor entende suas motivações e ações. É preciso elogiar, principalmente, a composição de dois personagens: Jean Valjean e Javert. A caracterização de protagonista e antagonista é impecável, pois vai muito além de uma visão maniqueísta. Assim, Jean não é um santo, mas Javert também não é um demônio. São homens, com qualidade e defeitos, e que tentam fazer apenas o que julgam ser correto. 

Entretanto, preciso apontar dois fatores que me desagradaram na leitura de Os Miseráveis. O primeiro diz respeito às incontáveis e extensas divagações do autor sobre os mais diversos assuntos, como a Batalha de Waterloo, a vida monástica e, pasmem, até mesmo o sistema de esgoto parisiense. Considerando o tamanho do livro, tais divagações, embora até fossem interessantes, me pareceram desnecessárias, sendo que pouco contribuíram para o desenvolvimento da estória. 

Outro fator que não me agradou foram as estórias do núcleo composto por Marius, seus amigos e sua família, bem como o desenvolvimento da Revolução Estudantil de 1832. Curiosamente, este trecho é apontado por muitos leitores como o ápice da estória, mas não posso afirmar o mesmo. A meu ver, é nesta parte da estória que Victor Hugo pesou a mão e não conseguiu dar a mesma densidade aos personagens, tampouco aos seus dramas. Assim, admito que não me importava com este núcleo, tampouco com o pano de fundo histórico, restando-me apenas aguardar o desenvolvimento deste arco narrativo até que os demais personagens retornassem à cena. 

Rompendo as barreiras de diversos gêneros literários, Os Miseráveis certamente foi uma das melhores leituras da minha vida, seja pela força dos personagens e seus dramas, seja pelas reflexões que proporciona, seja pelo impacto que a estória causa. Um clássico que permanece atual e que emociona com suas estórias de dor, amor, amizade e redenção.  

***

“De sofrimento em sofrimento, chegou, pouco a pouco, à convicção de que a vida é uma guerra; guerra em que o vencido era ele. A única arma que possuía era seu ódio. Resolveu afiá-la na prisão e levá-la consigo quando fosse embora.” (HUGO, 2014, p. 129)

Título: Os Miseráveis (exemplar cedido pela editora)
Autor: Victor Hugo
N.º de páginas: 1509
Editora: Martin Claret 

segunda-feira, 13 de março de 2017

RESENHA: O Livro dos Baltimore

“Tudo começa como termina, e os livros costumam começar pelo fim. Não sei se o livro da nossa juventude se encerra no momento em que nos formamos no colégio ou exatamente um ano antes, no final de julho de 1997, quando aquelas férias de verão nos Hamptons acabaram depois de testemunharem a amizade selada e as promessas de fidelidade que havíamos feito irem pelos ares, não resistindo aos adultos que nos tornaríamos.” (DICKER, 2017, p. 216)

Joël Dicker me conquistou completamente com “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”, tanto que guardo esta leitura como uma das mais especiais e marcantes que fiz nos últimos anos. Por isso, não é difícil imaginar o tamanho da minha expectativa para “O Livro dos Baltimore”, primeiro livro escrito pelo autor depois do sucesso de “Harry Quebert”.

Marcus Goldman cresceu admirando os tios bem sucedidos e vivendo momentos inesquecíveis ao lado de seus primos, Hillel e Woody, com quem formava a “Gangue dos Goldman”: um trio inseparável e indestrutível. Divididas em “Os Goldman-de-Montclair” e “Os Goldman de Baltimore”, as famílias apresentavam diferenças expressivas - enquanto os Montclair tinham uma vida de classe média, os Baltimore viviam em uma luxuosa mansão em um bairro rico – mas isso nunca interferiu na amizade dos meninos. Porém, tudo mudou depois do Drama. Oito anos depois do episódio fatídico, Marcus, agora um escritor de sucesso, procura preencher as lacunas do que aconteceu e escrever seu novo livro, tudo isso enquanto lida com o reencontro de Alexandra, uma antiga paixão.

Quando nos deparamos com um bom livro, é comum dizermos que os personagens são bem construídos, carismáticos e verossímeis, que a narrativa do autor é fluida, que mal conseguimos parar de ler depois que começamos e que as tramas são inteligentes, bem amarradas e surpreendentes. Mas não é sempre que podemos dizer todas essas coisas de um mesmo livro e, mesmo quando podemos, é raro ainda ficarmos com a sensação de: “Mas não é só isso. Esse livro é muito mais”. Pois com Joël Dicker é assim: seus livros são muito mais.

É difícil resenhar “O Livro dos Baltimore” porque, não importa o quanto eu fale, serei incapaz de traduzir porquê ele está além de ser apenas mais um drama familiar, embora seja exatamente isso. Não são os acontecimentos e sim a maneira como o autor os desenrola, nos fazendo sentir como parte daquela família, como se vivêssemos tudo ao lado deles. Conhecemos os personagens a fundo, mas a cada página descobrimos que há mais para saber. Há sempre um evento que vimos por apenas uma perspectiva, algo que não nos foi totalmente revelado, a bagagem que os personagens carregam, as aparências que querem manter. Tudo contribui para que a teia se feche cada vez mais e eventos, aparentemente, simples se tornem complexos. Esse é o trunfo de Dicker: saber aproveitar a complexidade das relações familiares. Por isso, mesmo que a premissa seja simples, a trama está longe de ser porque com famílias nada nunca é simples.

A linha temporal não é contínua. Por vezes estamos no presente, por vezes em um passado distante (antes do Drama), por vezes em um passado mais próximo (depois do Drama). O que nos conduz é sempre a narrativa de Marcus que ora nos conta sua própria história (fazendo o papel de narrador em primeira pessoa), ora foca na história de seus primos (soando como um narrador em terceira pessoa). Pode parecer confuso, mas não é. Tudo está ali ao mesmo tempo porque tudo faz parte da vida de Marcus e de quem ele se tornou. Ele apenas lembra ora de uma fase da vida, ora de outra, e também lida com o que acontece no momento presente.

Justamente por essa característica, os acontecimentos se desenrolam aos poucos e é impossível prever como tudo irá terminar. Temos pistas, fazemos suposições, mas a cada página surge um detalhe novo que irá compor o quebra-cabeça final que, quando montado, se revela como uma consequência natural, surpreendendo sim, mas também revelando a sua simplicidade por não forçar reviravoltas em nenhum momento.

Eu diria que “O Livro dos Baltimore” é um drama envolto em suspense. “O que é o Drama?” é uma pergunta que nos fazemos desde a primeira página, mas não lemos apenas para encontrar essa resposta e sim para saber o que aconteceu com aqueles personagens e o que fez com que se afastassem. Eu, inclusive, esquecia do Drama em diversos momentos até que Marcus voltava a tocar no assunto. Por isso, é importante reconhecer que esse não é um thriller (embora tenha características do gênero) porque, caso tenha em mente apenas a resolução do mistério, você vai achar que demora muito até chegar lá e talvez não consiga apreciar a maravilhosa jornada que se desenrola a sua frente.

Há personagens encantadores aqui (Woody é meu favorito) e mesmo seus clichês são bem explorados pelo autor, se dissolvendo no panorama geral. No contexto tudo se justifica: a paixão entre Marcus e Alexandra, a dependência que Woody e Hillel passam a ter um do outro e o amor de irmãos que surge entre eles (mesmo que aquele não seja de fato da família), a admiração de Marcus pelo tio Saul, os momentos de raiva, de ciúmes, de rivalidade são todas coisas que brotam com naturalidade. Aliás, por mais que Marcus assuma o papel de protagonista (afinal, é da posição dele que conhecemos a história) a verdadeira protagonista é a família Goldman e o relacionamento entre seus membros, mesmo que em alguns momentos acreditemos que a história gire mais em torno de um ou de outro personagem.

Para aqueles que leram “Harry Quebert”, Marcus Goldman é um velho amigo, já que o personagem é o protagonista de ambos os livros. Mas isso é apenas um detalhe, pois as tramas são completamente independentes, não tendo nenhum cruzamento ou comentário que remeta àquele livro ou mesmo alguma consequência daquela trama nesta. A única coisa é que temos o mesmo Marcus Goldman: “o escritor”.

Aquele livro que conquista por completo, que você não quer parar de ler e, quando pára, não vê a hora de voltar para poder reencontrar aqueles personagens. Que depois da última página deixa você querendo falar muito sobre ele, mas sem saber o que dizer. Esse é “O Livro dos Baltimore” e com ele Joël Dicker me deixa mais uma vez me sentindo órfã. Já saudosa da mágica indefinível com a qual constrói seus livros e apaixona os seus leitores.

Título: O Livro dos Baltimore (exemplar cedido pela editora)
Autor: Joël Dicker
N° de páginas: 416
Editora: Intrínseca

sábado, 11 de março de 2017

RESENHA: A Viúva

“A primeira coisa que Sparkes pensou era que Glen parecia um cara comum. Mas monstros raramente parecem como o personagem. Você espera ver o mal irradiando deles — isso tornaria o trabalho policial muito mais fácil, ele costumava dizer. Só que o mal era uma substância fugidia, vislumbrada apenas de vez em quando, e muito mais horrenda por causa disso.” (BARTON, 2017, p. 80). 

***

Jean Taylor era a esposa perfeita e aguentou o julgamento do marido dignamente e sem dizer uma palavra à imprensa. Glen acaba sendo absolvido por um erro técnico da polícia, o que desperta a fúria da sociedade. E quando ele morre em um acidente, a viúva pode ser a única a ter respostas sobre o que aconteceu. E após anos de silêncio, Jean está pronta para falar. 

O que me chamou atenção ao ler a sinopse de A Viúva foi justamente a premissa: uma mulher que apoia seu marido durante o julgamento por um crime bárbaro, o sequestro e assassinato de Bella, uma criança de dois anos. Com a morte do marido e com as investigações paradas, ela pode ser a única a saber sobre o que aconteceu com a criança. 

Assim, o que eu esperava era que o cerne do livro se limitasse às interações entre Jean e Kate, a repórter que a convence a dar uma entrevista, voltando no tempo e revivendo todos os acontecimentos. A meu ver, o mais interessante não seria descobrir o que aconteceu, mas sim as reações e os pensamentos desta mulher. Isso por que Jean é uma personagem extremamente complexa e desvendar todas estas camadas me parecia promissor. Entretanto, esta não foi a abordagem escolhida pela autora. 

A aceitação de Jean em conceder uma entrevista é apenas o estopim, mas a partir daí Barton retorna no tempo, contando a estória do desaparecimento de Bella por três perspectivas: o detetive Sparkes, o encarregado do caso; Kate, a repórter que cobriu a notícia e posteriormente convence Jean a falar; e a própria Jean a partir do momento que Glen se torna um suspeito. 

Creio que esta foi a abordagem errada, pois mais da metade do livro é destinada a mostrar como a investigação e o julgamento ocorreram. Entretanto, como o leitor já sabe desde o início que o resultado será a absolvição de Glen, investir tanto tempo em detalhar isso tudo se tornou cansativo e maçante. E como consequência direta desta abordagem, todo o potencial que Jean oferecia pareceu subexplorado, justamente por que em vez de dissecar a protagonista, Barton se perde em elucidar os detalhes do passado. 

Mas o verdadeiro “tiro no pé” ocorre com a entrevista de Jean, pois o que poderia (e deveria) ter sido o ápice do livro, não é. Barton parece que pisa no acelerador e dá a impressão de estar com pressa de terminar a entrevista para seguir com a estória. Assim, os momentos que Jean poderia ter vocalizado todos os seus pensamentos sem medo de confrontar a verdade se esvaem. Mesmo que o leitor acompanhe o ponto de vista de Jean, tanto no desenrolar da investigação e julgamento, quanto durante os preparativos para a entrevista, a mesma parece manter uma fachada: no primeiro momento por que é submissa a Glenn e não se permite questionar o marido, no segundo por que está perdida em devaneios e pensamentos. 

Quando a solução do caso vem à tona, a mesma causa frustração por ser uma resolução simplista. Se Barton tivesse optado por revelar toda estória através dos olhos de Jean, contando com os demais personagens como meros coadjuvantes, a resposta mais simples não teria causado frustração, afinal, esta não seria o cerne do livro. Entretanto, quando todo o suspense gira em torno de desvendar o que aconteceu com Bella, a resposta morna é pior que um banho de água fria. 

Assim, apesar de todo o potencial que a estória e, principalmente, a protagonista tinham a oferecer, me pareceu que Barton pecou na execução e tornou o que poderia ter sido memorável em uma leitura que não empolga em nenhum momento.

Título: A Viúva (exemplar cedido pela editora)
Autora: Fiona Barton
N.º de páginas: 299
Editora: Intrínseca

quarta-feira, 8 de março de 2017

Conversa de Contracapa #33

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Com a aproximação do Dia Internacional da Mulher, a Editora Intrínseca sugeriu que os blogs parceiros falassem um pouco sobre as principais escritoras do seu catálogo. Imediatamente aceitei o desafio de falar um pouquinho mais sobre algumas das autoras que me marcaram, percebendo, sem tanta surpresa, que todas se valem de personagens (principalmente femininas) com personalidades fortes, além de tramas intensas, e que todas figuraram nas minhas listas de melhores leituras ou de grandes expectativas dos últimos anos.

A começar por Jennifer Egan, vencedora do Pulitzer pela genial colcha de retalhos “A Visita Cruel do Tempo”. Li todos os livros da autora e posso dizer, sem pestanejar, que ela acerta sempre. Para mim, um destaque na obra de Egan é como a autora sabe explorar personagens que, sem serem carismáticos, conquistam o leitor porque seus dramas, questionamentos e angústias são fascinantes. “Olhe para mim” é um livro maravilhoso sobre identidade (sobre a perda e busca dela). Sua história nos apresenta uma modelo que, após sofrer um acidente de carro, tem seu rosto destruído e reparado por uma cirurgia plástica. Ela volta a ser linda, mas agora com um rosto completamente diferente do que tinha antes, de maneira que ela já não se reconhece mais porque muito de sua vida se baseava em sua aparência.

A obra de estreia de Egan, “Circo Invisível”, é uma jornada espetacular de autoconhecimento protagonizada por uma personagem que, às sombras da memória da irmã a quem idolatrava, esqueceu de viver a própria vida e não tem a menor ideia de quem é. Aqui, a habilidade da autora está em fazer o leitor conhecer a fundo uma personagem que não conhece a si mesma e em fazer o leitor se sentir tocado por sua jornada, mesmo que não ache a protagonista cativante. Em ambos os livros, Egan aborda a perfeição que se espera das mulheres. As exigências dos outros e delas mesmas.

Eu não poderia deixar de lado, Lionel Shriver autora do aclamado “Precisamos falar sobre o Kevin”, que elegi como a minha melhor leitura de 2016. A história de uma mãe que convive com as consequências do massacre provocado por seu filho no colégio e que resultou na morte de sete pessoas. A temática é forte e a personagem não busca, de maneira alguma, justificar o que o filho fez. Pelo contrário. Busca mostrar que todos os indícios de que ele poderia ser capaz de algo assim estavam ali desde a sua infância. Shriver molda uma história intensa, protagonizada por um personagem perturbador e uma mulher que tem a coragem de se mostrar falha e desconfortável naquele que todos esperavam que fosse o grande papel da sua vida: o de ser mãe. Um thriller fantástico que faz com que nos deparemos com um dos maiores clichês impostos pela sociedade às mulheres: a obrigação de desejarem ser mães, esquecendo que algumas não querem isso para si mesmas ou, simplesmente, não tem aptidão para a tarefa.

Outra autora que me marcou muito foi Elizabeth Haynes, provavelmente o nome menos conhecido da lista, o que atribuo ao fato de que os livros que se seguiram a sua obra de estreia não  terem se equiparado àquela. Estou falando de “No Escuro”, um livro não tão badalado como merecia e um dos meus thrillers psicológicos favoritos. A história de uma mulher tão marcada por um relacionamento abusivo que praticamente se transformou em outra pessoa. A tortura pela qual essa mulher passa ao perceber certos comportamentos no seu “tão perfeito” namorado, a angústia que sente ao relatar suas percepções e medos para as amigas e ouvir todas dizerem que as atitudes dele são justificáveis e que a reação dela é um exagero, tornam a violência psicológica do livro muito pior do que a física e deixam o leitor hipnotizado mesmo que não não seja uma história de surpresas e reviravoltas. Hayes mostra aqui o inverso do que costumamos ver em relacionamentos abusivos: a mulher enxerga a que esta sendo submetida, mas as pessoas próximas a ela estão cegas pelo charme do namorado. Sem apoio, ela luta por si mesma, se revelando uma personagem forte, vivendo uma situação em que tudo a faz se sentir rebaixada, fraca e impotente.

E é claro que eu não poderia deixar de fora Gillian Flynn. A autora de um livro tão bom que até estragou a minha vida. Sempre gostei de thrillers e livros de suspense, mas desde a história de Nick e Amy tenho dificuldade de encontrar livros do gênero que me conquistem e surpreendam como “Garota Exemplar”. Que me deixem em estado praticamente catatônico ao final da leitura sem saber como voltar para a minha vida. A verdade é que nem mesmo os demais livros da autora causaram o mesmo impacto, embora todos sejam excelentes e suas mulheres sempre perturbadoras de alguma forma. Flynn destrói totalmente a tola ideia preconcebida de que toda mulher é doce e frágil, mostrando que mulheres podem ser cruéis e perversas (com os outros e com si mesmas, com os que pouco significam para elas e com os mais próximos) e que, quando o são, conseguem ser ainda mais intensas e ardilosas que os homens.

Todas as autoras citadas nesse post quebram clichês de alguma forma. Mas acima de tudo são excelentes na arte de criar, desenvolver e contar uma história. São autoras completas: têm bons personagens, narrativas envolventes e tramas cativantes. São autoras que conseguem desenvolver um laço com seus leitores: o da confiança de que qualquer coisa que venha delas vale a pena ser lida e que, mesmo quando não fazem o seu melhor (pois nem sempre é possível se superar a cada vez), ainda superam o melhor de muitos outros autores. Na verdade, a razão pela qual esperamos essa superação é porque elas estabeleceram para si mesmas os mais altos patamares com livros absolutamente inesquecíveis e porque, sobretudo, são únicas e não buscam soar como ninguém que veio antes delas. Que venham mais Egans e Shrivers e Hayes e Flynns não porque se assemelham a elas como tantas vezes tenta se propagar, mas porque são autoras surpreendentes. Autoras com uma voz literária única. Autoras irresistíveis.

 

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