domingo, 12 de agosto de 2018

RESENHA: Praia de Manhattan

Praia de Manhattan / Jennifer Egan
Praia de Manhattan” é o mais recente lançamento de Jennifer Egan, uma autora com quem eu só tive boas experiências. Justamente por isso, minhas expectativas estavam nas alturas quando o livro chegou às minhas mãos.

Nova York, década de 40. Anna e sua família passam pelas dificuldades que a maioria das famílias americanas passa naquele momento: muitos conhecidos indo lutar na guerra, racionamento e mulheres precisando assumir o sustento da família. São tempos difíceis. Ainda mais que o pai de Anna desapareceu. Até que em uma noite, ela reencontra um homem que conheceu quando criança ao acompanhar o pai em uma visita de trabalho e desenvolve com ele uma relação na esperança de que ele possa ajudar a esclarecer o porquê do sumiço.

Algo que sempre me cativa nos livros de Egan é a vivacidade, tanto de sua narrativa quanto de seus personagens. Em “Praia de Manhattan” são três os que brilham: Anna, nossa protagonista; Eddie, seu pai; e Dexter Styles, o homem misterioso. Esses também são os três olhares que nos apresentarão a trama.

Outra coisa a respeito de Egan é que seus livros são sempre muito diferentes uns dos outros. Enquanto “O Torreão” é o mais misterioso, “Olhe para mim” o mais reflexivo, e “A Visita Cruel do Tempo” seja uma colcha de retalhos com milhares de personagens e nenhum tempo definido, “Praia de Manhattan”, por sua vez, é praticamente um romance histórico que chega até mesmo a flertar com o noir. Fica clara a pesquisa de Egan a respeito da Nova York daquele tempo e da realidade que os americanos enfrentaram durante a guerra. É o típico caso em que o pano de fundo ajuda a construir a personalidade dos personagens, tanto que Dexter é um gângster. Quer figura mais década de 40 do que isso?

“A noite se espalhava por toda parte, negra e difusa; preenchia o carro, rodeava Anna. Mas seu medo do escuro tinha desaparecido. Sem saber quando nem como, tinha se entregado à escuridão, desaparecido por uma brecha na noite. Ninguém sabia onde encontra-la. Nem mesmo Dexter Styles.” (EGAN, 2018, p. 241)

Por falar em Dexter, esse é aquele personagem que não nos deixa saber em que terreno estamos pisando. Não sabemos o quão perigoso ele é, nem até onde suas ações o levam, mas como acompanhamos seu ponto de vista, também vemos um outro lado seu: o homem, além do gângster.

Eddie é um personagem que cativa pelo amor que Anna sente por ele. A relação pai e filha tem uma força que irá acompanhá-la por toda a jornada. Gostamos dele porque ela gosta dele, mesmo que suas atitudes não sejam sempre corretas.

Anna é a luz da história. Forte e determinada, ela não deixa que lhe impeçam de conquistar o que quer apenas por ser mulher. Pode até ser que tome algumas decisões ruins pelo caminho, mas suas escolhas são sempre suas. Aliás, o papel da mulher na sociedade da década de 40 é um aspecto que Egan explora muito bem ao longo da trama em figuras como a mãe, a tia e as amigas da protagonista.

Apesar de não apontar defeitos em “Praia de Manhattan”, confesso que não foi um livro que me conquistou. Em alguns momentos achei os acontecimentos bem enfadonhos (principalmente as partes que mostram Eddie após o seu desaparecimento) e em outros os achei muito previsíveis. Ainda assim o livro não é ruim porque seus personagens fazem valer a pena e porque o contexto histórico é interessante, mas está muito longe de ser Jennifer Egan em sua melhor forma.

Título: Praia de Manhattan
Autora: Jennifer Egan
N° de páginas: 448
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

RESENHA: Leve-me com você

Leve-me com você Catherine Ryan Hyde
August planejava fazer uma road trip por reservas naturais para deixar cinzas do seu filho, que morreu em um acidente. O que ele não esperava é que seu caminho iria cruzar com duas crianças, Seth e Henry, e como sua vida seria impactada pelo convívio com os garotos. 

A narrativa da autora é bastante envolvente, de modo que a leitura flui com rapidez. Entretanto, admito que em algumas passagens, especialmente nos momentos em que os personagens estavam em meio a natureza, a autora exagerou no uso de descrições. 

Os personagens são bem desenvolvidos e a relação entre eles é muito natural. Apesar da improbabilidade que os reuniu, percebemos que as crianças não apenas precisam de uma figura paterna, mas o próprio August precisava deste contato para superar a perda do filho. Para mim, o destaque vai para Henry, personagem que ganha menos espaço na trama, mas que me pareceu o mais cativante, curiosamente. 

O livro aborda diversos temas, como redenção, amadurecimento, solidão, amizade, superação, injustiça, luto, perdão, recomeços, e muitos outros. Apesar desses assuntos serem pesados e complexos, a autora teve bastante sensibilidade ao abordá-los

“O que você sente é o que você sente, e, por mais que pense que devia sentir outras coisas, não pode mudar seus sentimentos. Tem coisas na vida que podemos mudar e outras que não.” (HYDE, 2018, p. 158)

O alcoolismo é outro tema abordado ao longo do livro, tendo afetado os três personagens de formas diferentes e profundas. Porém, me pareceu que a autora pesou a mão, forçando o assunto inúmeras vezes na trama, de modo que me deixou com o gosto de ser mais uma lição de moral do que uma reflexão. Além disso, fica claro que o assunto era algo pessoal para a escritora e pesquisando sobre sua vida descobri que ela de fato enfrentou tal problema.

Durante a road trip, fiquei com a impressão que não ocorrem muitos eventos. A viagem em si parece não ter muita importância para a estória, pois basicamente vemos os personagens indo de um ponto a outro. E muitas das situações que ocorrem na viagem servem para trazer à tona a discussão sobre o alcoolismo.  

A última parte do livro me surpreendeu bastante, pois a autora seguiu um rumo inesperado. É neste momento que conseguimos ver o impacto que os personagens causaram na vida uns dos outros. Entretanto, o desfecho em si não empolgou muito, visto que deu a impressão de ficar no lugar comum. 

Leve-me com você foi uma boa leitura, que conta com personagens interessantes e reflexões profundas. Apesar de ter batido desnecessariamente na mesma tecla, a autora consegue encantar o leitor e prender sua atenção do início ao fim.

Título: Leve-me com você
Autora: Catherine Ryan Hyde
N.º de páginas: 331
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

Comprar: Amazon
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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

RESENHA: O Desfile de Páscoa

O Desfile de Páscoa / Richard Yates
Em 2017, elegi “Foi apenas um sonho” como a minha segunda melhor leitura do ano. Desde então, fiquei na expectativa de ter em mãos outro livro humano e envolvente escrito por Richard Yates. O escolhido foi “O Desfile de Páscoa”.

Sarah e Emily são duas irmãs completamente diferentes. Sarah é linda e carismática e ainda jovem se casa com o homem perfeito, tem três filhos e se muda para uma grande propriedade da família dos seus sogros. Já Emily observa o comportamento da irmã na esperança de um dia ser como ela, mas quando adulta decide trilhar um caminho diferente, focando na carreira e se envolvendo em relacionamentos que nunca duram muito tempo.

“Nenhuma das irmãs Grimes teria uma vida feliz e, olhando em retrospecto, sempre pareceu que o problema começou com o divórcio de seus pais.” É com essa frase que Yates dá início à jornada de Sarah e Emily e mostra, mais uma vez, que o forte de seus livros são os seus personagens. Não é o que acontece com elas que move o leitor e sim quem elas são diante das situações. O livro é sobre Sarah e Emily e sobre como elas passam pelo mundo.

Conhecemos as irmãs desde a infância e vemos que as mulheres que elas serão no futuro já estão nelas ainda crianças. Sarah sempre será capaz de aguentar qualquer dor calada. Emily, diante de uma situação desconfortável, irá dizer que entende coisas que não entende. O fato de as conhecermos ainda na infância também nos permite ver que as inseguranças daquela idade as perseguem ainda adultas.

A princípio parece que Sarah é a irmã carismática, cheia de vida, interessante. Mas depois vemos que ela é só mais uma vivendo uma vivinha convencional. É Emily quem vai passar pelos percalços e sustentar boa parte do livro, cativando, ainda que não seja carismática. Essa é outra coisa que me agrada nos livros de Yates: assim como acontece com Frank e April em “Foi Apenas um Sonho”, os personagens são humanos demais, reais demais para nos apaixonarmos por eles. Eles têm defeitos, são infelizes e é isso que os tornam personagens que amamos acompanhar, mesmo que não os amemos.

“Mas isso era parte do problema: ela vivia de lembranças o tempo todo. Não havia visão, som ou cheiro em toda a Nova York que estivesse livre de antigas associações; para onde quer que andasse, e às vezes ela andava por horas, tudo que encontrava era o passado.” (YATES, 2010, p. 208)

Sobre a dinâmica familiar, ambas mantém com a mãe um relacionamento distante, mesmo que ela as acompanhe durante quase toda as suas vidas. Já o pai, que as deixa cedo, é muito mais significativo, sendo Sarah mais próxima dele, capaz de levar as boas lembranças consigo por toda a vida, enquanto Emily sempre se sentirá em segundo plano.

Ao ler “O Desfile de Páscoa” não espere um livro de tirar o fôlego ou de arrancar lágrimas. Como eu disse, é tudo verossímil demais, próximo da realidade demais para provocar emoções tão intensas. Não espere reviravoltas e sim o desenrolar natural dos acontecimentos. Não espere, inclusive, que o final soe como o fim. A última página é só o momento que o autor decidiu interromper a história. Como se dissesse: “Pronto Isso já foi suficiente para você conhecer essas duas.” E é assim que ele mostra sua certeza de ter criado personagens de verdade. Porque o fim do livro não é o fim deles. Outras coisas lhes acontecerão após a última página e o leitor sente isso. Ele apenas não irá testemunhar.

Um livro envolvente, cuja a narrativa nos leva pela mão para acompanharmos décadas na vida de duas personagens fortes em algumas situações, fracas em outras tantas. Personagens humanas o tempo todo.

Título: O Desfile de Páscoa
Autor: Richard Yates
N° de páginas: 221
Editora: Alfaguara
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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sábado, 4 de agosto de 2018

O que vem por aí: agosto

E agosto chegou recheado de lançamentos das nossas editoras parceiras. Dá uma olhada no que vem por aí:

INTRÍNSECA



GRUPO COMPANHIA DAS LETRAS



GRUPO EDITORIAL RECORD



ROCCO



DARKSIDE BOOKS


sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Top Comentarista Agosto



No Top Comentarista de agosto, o vencedor poderá escolher o livro que quer ganhar dentre as quatro opções: "Dias de Despedida", "Grey", "Eleanor Oliphant está muito bem" e "As Oito Montanhas". 

Confira o regulamento:

1. Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebookcomentar em todas as postagens de agosto e ter um endereço de entrega no Brasil.

2. Para simplificar, optamos por utilizar o Rafflecopter. A primeira entrada confirma sua participação no Top Comentarista, enquanto as demais constituem chances extras, sendo opcionais. Atenção: depois de feito o sorteio será conferido se o sorteado comentou em todas as postagens do mês. Caso essa regra não seja cumprida, o mesmo será desclassificado, e um novo sorteio será realizado.

3. Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog no twitter. 

4. Lembrando que somente serão válidos comentários significativos. Ou seja, comentários do gênero “interessante”, “legal” ou “ótima resenha” não serão computados. O participante poderá comentar apenas uma vez em cada post.

5. O sorteado poderá escolher o livro que deseja receber dentre as quatro opções disponíveis:
Dias de Despedida;
- Grey; 
- Eleanor Oliphant está muito bem; 
- As Oito Montanhas.

6. O resultado do Top Comentarista será divulgado no blog até o dia 05 de setembro.

7. O sorteado será contatado por email, tendo o prazo de 48h para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

8. O prêmio será enviado pelo blog no prazo de trinta dias úteis.

9. A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway

terça-feira, 31 de julho de 2018

RESENHA: O Mundo Segundo Garp

Há anos tinha curiosidade de ler algum livro de John Irving, mas apenas criei vergonha na cara quando vi que John Boyne — um dos meus autores favoritos da atualidade — não apenas havia dedicado o incrível As Fúrias Invisíveis do Coração para Irving como também citava o autor e O Mundo Segundo Garp por diversas vezes durante a obra. Com o aval de Boyne, mal podia esperar para conhecer a estória de Garp. 

Garp é o filho bastardo de Jenny Fields, uma enfermeira que sempre desejou ter um filho, mas que nunca teve a intenção de se envolver com um homem. Anos depois ela escreve sua autobiografia e acaba se tornando uma líder feminista. Garp, que desde sua adolescência desejava ser escritor, vê sua carreira literária ser ofuscada pelo best-seller da mãe. 

A primeira observação que sou obrigado a fazer é que a sinopse que você leu no parágrafo acima é bastante simplória, sendo que a complexidade da trama e o medo de dar spoilers me impedem de ir além. O Mundo Segundo Garp é típico livro que segue a jornada de um personagem, mas Irving fez isso de forma bastante inovadora. Primeiro, conhecemos a vida de Jenny e sua família, entendemos sua visão de mundo e as circunstâncias da concepção de Garp. Em seguida, vemos o crescimento e amadurecimento do menino criado por uma mãe “excêntrica”. Por fim, vemos Garp formando sua própria família, desenvolvendo o papel de marido, pai e escritor. 

Assim, como o livro cobre um longo período de tempo, é natural que haja uma sucessão de personagens, que terão sua importância em momentos específicos da trama. Creio que o fator que mais me chamou atenção nesse ponto é como tudo parece muito orgânico e natural, como a aproximação dessas pessoas com Garp é verossímil e parece retratar a vida real. Mas creio que esse grande número de coadjuvantes teve um efeito colateral: a trama se tornou um pouco pulverizada e com muitas estórias paralelas (apesar de que, verdade seja dita, todas elas se concatenavam com a estória do protagonista).

“— A tolerância para com os intolerantes é uma tarefa difícil que os tempos que correm exigem de nós – dizia Helen.” (IRVING, 2013, p. 531)

O Mundo Segundo Garp foi publicado pela primeira vez em 1978 e continua surpreendentemente atual. Na verdade, creio que no momento de sua publicação o livro deve ter sido considerado como muito à frente de seu tempo, pois abordava assuntos polêmicos como adultério, feminismo, transexualidade, entre outros. E, a meu ver, o autor fez um excelente trabalho ao mostrar nossas intolerâncias e preconceitos. 

O texto de Irving é envolvente e ele consegue despertar a curiosidade do leitor a todo instante com sua forma peculiar de storytelling. Aliás, creio que a melhor definição para O Mundo Segundo Garp seria a de uma estória improvável escrita de uma forma inventiva. Entretanto, confesso que em alguns momentos o autor se tornava detalhista demais, especialmente com eventos que eram de pouca importância para o desenvolvimento da trama. 

Encerrei a leitura sem saber exatamente quais haviam sido minhas impressões. Vi um texto muito bom, apesar de alguns excessos descritivos; personagens construídos com esmero; uma trama extremamente original e criativa; além de despertar diversas reflexões. Porém, ao mesmo tempo senti que faltou um algo a mais, talvez uma conexão maior com o protagonista, algo que me fizesse importar mais com sua jornada de vida. Assim, apesar de todas as suas qualidades, O Mundo Segundo Garp não me impactou como eu esperava. 

Título: O Mundo Segundo Garp
Autor: John Irving
N.º de páginas: 607
Editora: Rocco
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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sexta-feira, 27 de julho de 2018

[Livros com poucos personagens] para quem não gosta de [livros com poucos personagens]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Algumas premissas são arriscadas e podem facilmente dar errado. Livros cuja dinâmica gira em torno de apenas dois personagens correm o risco de serem monótonos e dependem, principalmente, do carisma de seus protagonistas para sustentar a trama, afinal, em uma situação como essa, há pouco para distrair o leitor das suas personalidades.

Os três livros dessa edição de "[...] para quem não gosta de [...]" trabalham com a mesma premissa: uma pessoa mantém outra em cativeiro. Mas apresentam razões diferentes para conquistar um leitor que foge de elencos que se reduzem a uma dupla.

Misery

Aqui temos uma das melhores personagens já criadas por Stephen King: Annie Wilkes. A fã lunática que sequestra seu escritor favorito após este sofrer um acidente de carro e o força a ressuscitar a mocinha que ele havia matado no último livro. Annie é completamente desiquilibrada, o que a torna tão assustadora quanto os piores seres sobrenaturais de King. É por ela que lemos o livro: para sabermos até onde ela será capaz de ir, mais até do que para saber o que acontecerá com Paul. Ele, por sua vez, é um competidor à altura porque é inteligente a ponto de tentar ludibriá-la, mas acaba por extrair dela o que ela tem de pior. Um duelo mental que tem tudo para agradar leitores que gostam de um suspense que cresce da primeira à última página e de livros que se lê para saber o que acontece dentro dos personagens mais do que fora.


O Colecionador

Um amor platônico e obsessivo faz com que Frederick sequestre Miranda. Ou melhor dizendo, a receba como convidada em sua casa nova, construída e decorada especialmente para mantê-la ali com ele, sem contato com o mundo exterior. O que torna esta dinâmica entre captor e vítima diferente das outras é que Miranda é tão mais inteligente que Frederick que chega a ser injusto. A única razão pela qual ele controla a situação é porque é ele quem a mantém presa. Um thriller psicológico de primeira que mesmo tendo apenas dois personagens, os transforma em quatro: o Frederick que ele vê, o Frederick que ela vê, a Miranda que ele vê e a Miranda que ela vê. E são essas facetas que deixam o leitor sem saber o que pensar, o que sentir ou para que torcer. Uma das minhas melhores leituras de 2018 é um estudo psicológico interessantíssimo que mostra que dois personagens podem fazer estrago mais que suficiente.

Escrita por uma ghost-writer, a história de Laura, uma adolescente sequestrada e mantida em cativeiro como escrava sexual por quatro anos, é a mais brutal dessa lista. Tanto a violência física quanto a psicológica pela qual a personagem passa são de revirar o estômago (e não costumo dizer isso com frequência, mesmo já tendo lido outros livros do tema), mas o que mais marca nessa história é o quão frágil é a nossa humanidade. O quanto precisamos de coisas e pessoas que nos façam sentir seguros e dignos e como nossas certezas podem ser abaladas quando somos levados a extremos. Com um desfecho polêmico que me deixou absolutamente chocada, “Diário de uma Escrava” é um livro que busca alertar sobre perigos que nos esperam em cada esquina e deve agradar leitores que gostam de histórias com os dois pés bem fincados em uma realidade que preferíamos que não existisse.






 

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