quarta-feira, 7 de março de 2018

RESENHA: Me Chame Pelo Seu Nome

Me Chame Pelo Seu Nome André Aciman
Quem acompanha o blog sabe que Me Chame Pelo Seu Nome era uma das minhas maiores expectativas literárias para este ano, não apenas pelas críticas que o filme estava colecionando, mas também em virtude da sinopse promissora. 

Todos os anos, a família de Elio recebe um acadêmico por seis semanas em sua mansão na Riviera Italiana e o convidado da vez é Olver, um americano com 24 anos. Elio, um adolescente de 17 anos, logo se sente atraído pelo visitante, mas não sabe como agir. Aos poucos, surge uma conexão entre os dois, que os atrai na mesma medida em que assusta. 

O livro é narrado em primeira pessoa por Elio, de modo que o leitor emerge em todo os seus pensamentos e sentimentos. Vemos de perto as angústias que Elio vive: por um lado o desejo e o interesse quase obsessivo por Oliver, por outro a negação e até mesmo aversão a si mesmo. 

Um dos aspectos mais interessantes do texto de Aciman é como temos a impressão de que, pelo olhar de Elio, tudo está fora de foco, com a exceção de Oliver. O pano de fundo, as histórias paralelas e os personagens coadjuvantes são de pouca importância e parecem turvos para o leitor. O que ganha destaque são os sentimentos do protagonista e as ações de Oliver, enquanto o resto é apenas o resto. 

“Eu não sabia do que eu tinha medo, ou por que me preocupava tanto, ou por que aquela coisa que me causava tanto pânico às vezes parecia esperança e, como a esperança nos momentos mais sombrios, trazia tanta alegria, uma alegria irreal, uma alegria que trazia consigo uma armadilha. Eu tinha medo quando ele aparecia, medo quando não aparecia, medo quando ele olhava para mim, ainda mais medo quando não olhava.” (ACIMAN, p. 73, 2018)

Outro fator que me chamou atenção é que o livro não segue uma ordem cronológica exata, sendo que também há poucos acontecimentos. Isso por que o cerne da estória é a evolução do sentimento entre Elio e Oliver, bem como o amadurecimento do protagonista diante desta situação. Cabe salientar que além do romance homoafetivo e da diferença de idade, a estória se passa na década de oitenta, intensificando ainda mais os conflitos. 

Os personagens são bem desenvolvidos e multifacetados. Elio é um livro aberto para o leitor e vivenciamos tudo de forma intensa ao seu lado, entendendo não apenas suas ações e reações, mas principalmente suas contradições. Já Oliver, apesar de ser uma pessoa extrovertida, é cercado por uma aura de mistério, de modo que precisamos decifrá-lo ao longo da estória. 

O autor aborda diversos assuntos, tais como amizade, paixão, medo, obsessão, descoberta da sexualidade, e muitos outros. A temática LGBT está presente de forma bastante sútil, sendo que o autor não cai nos clichês do gênero — como preconceito ou aceitação —, tampouco levanta bandeiras em defesa da causa, o que poderia ofuscar a estória de amor dos personagens. 

Na reta final do livro, senti que o autor perdeu um pouco do controle da estória. O foco se volta para eventos que pouco importam para os personagens principais e que não auxilia a desenvolver a trama. Durante estas páginas, achei o livro bastante monótono e já tinha perdido as esperanças de que a estória retornasse para os trilhos. 

Para minha surpresa e alivio, Aciman recuperou o controle, voltando a atenção para o que realmente importava. O desfecho é extremamente verossímil e humano, encerrando a estória de forma bastante reflexiva, embora possa desagradar alguns leitores. 

Me Chame Pelo Seu Nome foi uma boa experiência de leitura, mas confesso que não atingiu todas as minhas expectativas. Por um lado, ficou claro que Aciman é um autor incrível e a qualidade literária da obra é inquestionável. Além disso, tenho certeza que irei refletir sobre a estória de Elio e Oliver por muitos dias, tentando absorver todos os detalhes. Ainda assim, creio que não desenvolvi uma conexão emocional mais profunda, que seria o elemento necessário para tornar a leitura inesquecível. 

Me Chame Pelo Seu Nome foi adaptado para o cinema, sendo indicado a quatro Oscars, incluindo a categoria de melhor filme.

Título: Me Chame Pelo Seu Nome
Autor: Andre Aciman
N.º de páginas: 287
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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11 comentários:

Adriana Holanda Tavares disse...

Oi, então eu também estou super ansiosa para ler e até tentei comprar o meu nessa promoção de dia das Mulheres da Saraiva, mas adivinha só: esgotado, e fiquei aqui chupando os dedos de vontade. Portanto se quiser me doar o seu aceito (hihihihhiih)
Brincadeiras (não tão brincantes assim) a parte quero poder ler logo, mas vou esperar mais um pouco!

Gabriela CZ disse...

Confesso que não esperava tanto dessa trama, Alê. Imaginei algo bem clichê, mas com seus comentários me interessei. Ótima resenha.

Beijos!

Daiane Araújo disse...

Oi, Alexandre.

Eu diria que a história é um pouca rara, justamente por não focar no questionamento da vida sexual do personagem, e nem na aceitação familiar...

Mas, sim, no despertar/interesse e até mesmo descobertas e exploração do Elio pelo mesmo sexo.

Por ter como pano de fundo o desenvolvimento desse breve relacionamento e os breves momentos vividos pelos dois.

A emoção, se descobrir, acolhimento da família/relação consigo mesmo e com o Oliver, ou seja, no desenvolvimento do relacionamento dos dois.

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Alê, tudo bem/ Eu fiquei conhecendo o livro por conta do filme que é lindo e tem uma excelente fotografia! Ainda quero ler a obra original, mas vou com menos expectativa!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Aline Nascimento disse...

Oi Alê...
Já li muitas resenhas desse livro, a maioria positiva mas outras nem tanto...
Que pena que não funcionou pra você, confesso que não tenho muita vontade de ler essa história, quem sabe um dia assisto o filme.
Beijos

Divagando Palavras
www.divagandopalavras.com

Felipe disse...

Oi Alê, eu ainda não li o livro, mas já assisti o filme e gostei bastante. Inclusive comentaram que a adaptação foi bem fiel.
Blog Entrelinhas

Catarina Pinheiro disse...

Oi Alê!
Ainda não vi o filme e nem li o livro, mas ouço falar bastante dos dois. Que pena que não atendeu suas expectativas! Desenvolver uma conexão em geral é chave pra tornar o livro excelente.
Acho que se for ler ainda vou demorar mas o filme devo ver em breve, espero gostar.

RUDYNALVA disse...

Alê!
Parece um livro sensível, cheio de descobertas e sem rótulos e o melhor, tem apoio familiar que para mim é tudo.
Pena o autor ter se perdido durante o enredo, mas depois ter tomado as rédeas novamente, ainda assim, não atingiu as expectativas para você.... triste, achei que o livro seria fabuloso.
Bom final de semana!
“Os lírios não bastam. As leis não nascem das flores. Meu nome é luta, e escreve-se na história.” (Luciana Maria Tico-tico)
cheirinhos
Rudy
TOP COMENTARISTA MARÇO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

suzana cariri disse...

Oi!
Tinha visto que o filme tinha estava no Oscar, mas ainda não tinha parado para ver sobre o que era essa historia, achei muito legal que o autor não trás clichês do gênero, mas que ele consegue com o livro sair disso é interessante também que temos um livro que se passa na década de 80 e parece ser um livro bem focado nessa relação, acho que se for ler irei sentir falta dos personagens secundários, pois para mim e o que dar movimento ao livro !!

Ana I. J. Mercury disse...

Tô bem curiosa pra ler!
Conheci o livro pela indicação ao Oscar, mas ainda não li nem vi o filme.
Quero muito ler. Parece ser um livro sensível e de bastante reflexão. Embora pelo jeito, não haja grandes reviravoltas.
bjs

Carolina Santos disse...

Adoro ler livros com aquela pegada lgbt. Fique profundamente apaixonada com a historia desde que eu ouvi falar na adaptação. Apesar de ainda não ter conferido nenhum dos dois eu sinceramente quero muito esses bbs

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