terça-feira, 26 de janeiro de 2016

RESENHA: Hibisco Roxo

“Eu sorrira, correra, rira. Meu peito estava repleto de alguma coisa parecida com espuma de banho. Leve. A leveza era tão doce que eu podia sentir seu gosto na língua, tinha a doçura de um caju maduro, amarelo-vivo.” (ADICHIE, 2011, p. 192). 

***

Me interessei em ler algum livro de Chimamanda Ngozi Adichie quando vi sua palestra no TEDGlobal falando sobre o perigo de conhecer apenas uma estória. Ou seja, o perigo de generalizar e julgar toda uma cultura, nação ou etnia por apenas um fato. É deste raciocínio que surgem frases como “o Brasil é o país do futebol”, “no Oriente Médio só existem terroristas” ou que “a população africana é pobre e miserável”. As estórias de Chimamanda se passam na Nigéria, sua terra natal, e sua intenção é justamente mostrar uma diversidade que desconhecemos e desfazer estereótipos. 

Kambili e Jaja são filhos de pais abastados e apesar de serem alvo da inveja de colegas e parentes, poucos sabem dos horrores que eles enfrentam em casa. O pai dos jovens, Eugene, é um católico fervoroso, que não suporta a ideia de que seus filhos pequem e por isso regula suas vidas nos mínimos detalhes. E quando suas regras são desrespeitadas, não tem medo de ensinar aos filhos uma lição pelos meios que forem necessários. 

O livro é narrado em primeira pessoa por Kambili e confesso que não simpatizei com a protagonista. O que me incomodou foi ver sua passividade, sua busca constante pela aprovação do pai, mesmo depois de sofrer castigos injustos. Não conseguia ler Hibisco Roxo sem me questionar por que Kambili não se rebelava contra seu pai ou contra a religião que o motivava. 

Porém, a beleza do livro talvez esteja justamente em ver esta pessoa completamente submissa e passiva, criada tão rigidamente que de certa forma sequer tem uma personalidade própria, começando a descobrir aos poucos sua identidade, seus valores e suas vontades. Apesar dos traumas que irá levar para vida e de talvez nunca vir a ser a pessoa que poderia ter sido, Kambili floresce a sua maneira. 

Eugene é um personagem que espanta por sua complexidade. Sim, ele é autoritário e abusivo, mas, de certa forma, faz o que faz por achar que é o melhor para sua família, sendo impossível chamá-lo de mocinho ou de vilão, pois ele é um pouco dos dois. A figura de Eugene permeia toda o livro e é interessante ver como cada membro da família lida com as agressões de formas diferentes. Kambili tem uma dificuldade imensa de questionar o pai, pois vê nele uma pessoa que beira a divindade. Jaja não aceita, tampouco entende o pai, porém, internaliza seus sentimentos pois não sabe como confrontá-lo. Já sua esposa se sente em dívida eterna com o marido e por isso o perdoa por todos os erros.  O cerne da obra é ver até que ponto esta família irá aguentar as regras opressoras e a violência de Eugene. 

O desfecho não conta com grandes reviravoltas, mas impacta por sua verossimilhança. O final do livro não representa o final da estória, mas o leitor conhece os personagens bem o suficiente para saber qual será o destino deles. 

O pano de fundo de Hibisco Roxo é a situação política na Nigéria, fazendo severas críticas à ditadura militar, que tentou calar professores universitários e jornalistas, e que chafurdava em escândalos de corrupção. Além disso, outro ponto crucial abordado é a forma como a cultura europeia e o catolicismo penetraram nos países africanos, a ponto de enfraquecer até mesmo a tradição local e ser vista com maus olhos pela própria população. 

Hibisco Roxo é um livro sutil, que explora a alma dos personagens e que permite ao leitor uma interpretação sobre a personalidade de cada um deles. Mas Hibisco Roxo também é um livro revoltante, pois mostra uma realidade dura e injusta, sendo impossível não se pôr na situação vivenciada pelos personagens.

Título: Hibisco Roxo (exemplar cedido pela editora)
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
N. de páginas: 321
Editora: Companhia das Letras

33 comentários:

Thalita Branco disse...

Olá Alê!
Adoro visitar o seu blog pois sempre há resenha de livros diferentes. Esse não faz muito o meu estilo, mas gostei de conhecer um novo livro e um novo autor.
Bjs

EntreLinhas Fantásticas - SORTEIOS NO BLOG! PARTICIPE :)

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Alê!
Realmente, o mundo é bem estereotipado.
Não conhecia o livro e nem a autora, e apesar de não fazer meu estilo, achei bem interessante o tema abordado. Existem muitas famílias assim por aí.
Beijos
Balaio de Babados

Tô pensando em Ler disse...

Ai que amor gente!!!
Tô namorando esse livro, e agora o namoro tá bem sério.

Gosto de livros assim, é muito mais do que ler e colocar na estante, ele fica marcado sempre.

Adorei a resenha.

Bjks

Lelê

Diane disse...

Oi...
Achei super coincidência ver esse livro por aqui, pois, estava bisbilhotando sobre esse livro ontem no site da Cia. das Letras.
Quero muito o ler e acho que essa será a minha próxima compra.
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Sil disse...

Olá, Alê.
Eu fiquei na duvida quanto a ler esse livro. Me interessei por querer conhecer o cenário do livro, já que nunca li nenhum livro ambientado nesse país. Mas não gosto de livros que os personagens fiquem passivos ante aos acontecimentos. Me dá nos nervos e tenho vontade de entrar na história e dar uns safanões no personagem.

Blog Prefácio

Gabriela CZ disse...

Fui conhecer o nome da Chimamanda quando a Companhia das Letras lançou Sejamos Todos Feministas, que é transcrição de um discurso dela. Comprei esse e também quero conferir os romances, e me interessei muito por esse, Alê. Ultimante tenho apreciado essas histórias que nos fazem ter percepção de outra realidade que não a nossa. Vou procurar. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Leandro de Lira disse...

Oi, Ale!
Eu acho que este livro não me agradaria. Ao menos a premissa não me convenceu o suficiente, e sua resenha só enfatizou o fato de que talvez a leitura não será proveitosa para mim.
Parabéns pela resenha e sinceridade.
Abraço!

"Palavras ao Vento..."
www.leandro-de-lira.blogspot.com

Pâm Possani disse...

Alexandre,
gente!
Esse livro tem uma pegada totalmente forte e lida com assuntos fortes tambem, acho que no momento nao leria, mas um dia sim, muito interessante viu
o tipo de livroque abre os olhos, a mente, os horizontes inteiros! rsrs
Um beijo!
Pâm - www.interruptedreamer.com

Caroline L.D. disse...

Estou lendo esse livro nesse momento. Já tinha lido o Americanah da Adichie e amado. Mas esse livro tem uma pegada completamente diferente, é forte, impactante, revoltante, triste e profundamente real. Tenho vontade de sacudir os personagens, fazer ele pararem de ser assim. Principalmente a mãe, tenho muita compaixão por ela, parece uma mulher triste, mas que apesar disso, faz de tudo pela paz da familia.

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Alê. Já vi várias críticas a respeito deste livro e é no mínimo um título interessante. Conhecer esse relacionamento abusivo de um pai para com os seus filhos devido ao preceito errôneo da religião é bastante curioso e até mesmo polêmico. Abraço!

www.newsnessa.com

Luana Karla disse...

Nunca tinha lido resenha sobre o livro. Mesmo não parecendo ser muito o meu estilo de livro, ele parece ser bastante interessante e intrigante. Adorei conhecê-lo. Ótima resenha!
Beijos,
Luana Agra - Blog Sector 12 - http://sector-12.blogspot.com.br/

Tamires Marins disse...

Oi, Alexandre, tudo bem?

Antes de mais nada, ótima resenha! Muito bem explicada e detalhada, parabéns!

Hibisco Roxo parece ser uma leitura bem densa e real. Gosto de livros que colocam a gente pra pensar, sabe?

Já conhecia a autora através de um outro livro... não sabia que ela tinha outro (ou outros) lançados.

Acho que a passividade de Kambili também me incomodaria!

Beijo
- Tami
http://www.meuepilogo.com

Amanda Ferreira disse...

Achei bem interessante o livro ter como plano de fundo a situação política nigeriana com todas as críticas e tudo mais. Não gostei da personagem principal e já fiquei me imaginando lendo o livro e tendo raiva dela por causa de toda submissão a seu pai. Ah, eu detestei Eugene só pelo que ele faz a toda sua família :(

Kayna Barra disse...

Achei Bem interessante o livro mostra a realidade e gosto de livros assim também porque mostra que nem tudo é o mar de rosa e sim pelo contrario e gostei muito da resenha eu acho que mostro a essência do livro.
Bjss

Vanessa Sueroz disse...

Oie,
não conhecia o livro, e confesso que a capa não me chama atenção, mas gostei da sua resenha, parece ser uma boa história.

bjos
http://blog.vanessasueroz.com.br

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Alê.
Esse é um livro bem diferente dos que vemos resenhados em blogs literários, o que já me agrada demais.
Para começar, o primeiro ponto que me agrada é o enredo se passar na Nigéria. Que eu me lembre, nunca li nada ambientado nesse país. A crítica social presente em relação ao sistema político também me agrada demais; gosto de obras que vão além de uma "historinha".
Sem dúvidas, uma obra que eu leria.
Ótima resenha.

Desbrava(dores) de livros - Participe do top comentarista de janeiro. Serão dois vencedores!

Nana Barcellos disse...

Oi Alê,
Não conhecia esse livro da autora e logo de cara me interessei, por se passar na Nigéria, bom mudar o ambiente e conhecer outros pensamentos.
Mas, creio que a protagonista me decepcionaria nos pontos negativos que você ressaltou. Porém, acredito que a leitura seja super válida.

Ótima resenha.

tenha uma ótima quinta.
Nana - Obsession Valley

Jessica Andrade disse...

Oi Ale,
Adore conhecer o livro, confesso que não é muito o meu estilo, mas não digo que não leria, só não agora.
Parabéns pela resenha.
Bjs
http://diarioelivros.blogspot.com.br/

Vanessa Meiser disse...

É realmente um livro bem diferente, eu nunca li nada desta autora, mas sem dúvida leria sem pensar duas vezes, estou numa fase de leituras diferentes e este me chama a atenção.

Beijo, Van - Retrô Books
http://balaiodelivros.blogspot.com.br/

Vanessa Meiser disse...

É realmente um livro bem diferente, eu nunca li nada desta autora, mas sem dúvida leria sem pensar duas vezes, estou numa fase de leituras diferentes e este me chama a atenção.

Beijo, Van - Retrô Books
http://balaiodelivros.blogspot.com.br/

Dan Igor disse...

Alguns livros trazem temas duros de aceitar, a obra realmente parece ser muito interessante, mas acho que irei passar, não é meu tipo de leitura. Abraços.

suzana cariri disse...

Oi!
Ainda não conhecia esse livro nem o autor, gostei muito que o livro se passa na Nigéria já que nunca li nada ambientado nesse pais e achei essa historia interessante !!

Jéssica Soares disse...

Oi, Alê! Tudo bem? Também conheci a Chimamanda na palestra para o TED e li o "Sejamos todos feministas", mas até agora não tive contato com algum romance da autora. Acho que todos os seus livros tem algo que me atrai, seja pelo plano de fundo, pela desconstrução do esteriótipo ou mesmo pela representatividade, tenho certeza de que eles me tocarão de alguma forma. Com relação a "Hibisco roxo", chega a dar aquela agonia só de saber a sinopse, mas definitivamente é uma trama que desejo conhecer... Só não sei se confiro primeiro ela ou o "Americanah". Abraços,
Jéssica S. - http://lereincrivel.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Alê =)

Já quero ler esse livro! Simplesmente adoro livros que são ambientados em culturas diferentes da nossa. Primeiro por que é uma ótima oportunidade de conhecer um pouco nossas culturas e segundo por esse conflito que leituras assim sempre nos proporcionam. É tudo tão diferente da gente, as vezes mais cruel ou mais bonito, simples ou complicado e por esse motivo tão rico e interessante.

Adorei!

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary


RUDYNALVA disse...

Alê!
Acredito que o livro seja rico no sentido de mostrar toda arbitrariedade que o país passa com a interferência do governo.
E ainda mais rico em mostrar como as famílias são 'iguais' em alguns aspectos em toda parte do mundo, porque existem muitos Eugene por aí...
“ Educação é uma coisa admirável, mas é bom recordar que nada do que vale a pena saber pode ser ensinado.” (Oscar Wilde)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Daniele Costa disse...

Oii Alê, tudo bom?
Parece ser um livro muito interessante, acho que o mais incrível é perceber na obra como esse tipo de situação é passível de acontecer em qualquer lugar do mundo.
Acho que também sentiria um pouco de irritação com Kambili, não suporto personagens submissos de mais e, por isso, não aguentaria ler o livro até o fim D:
http://estantedeumafangirl.blogspot.com.br/

Vida de Leitor disse...

Oii, gostei da resenha. Essa coisa de desfazer os esteriótipos é uma boa apesar de ser meio difícil, pois pra cada lado que você olha tem um.

Beijos,
Natália

Do Prefácio ao Epílogo

Participe do sorteio do blog!

Carlos Magno Silva disse...

É o típico livro que pela capa/titulo não daria nada e estaria perdendo, pelo jeito, uma grande obra. Curti pra caramba a proposta dele e sua resenha. Aparenta ser uma história rica em detalhes e que prende a leitura. Já quero!

Cantina do Livro

buscando sonhos disse...

Nunca li o livro, mas parece ser legal. A capa nao me agradou muito, mas sua resenha me deixou curiosa :D
http://b-uscandosonhos.blogspot.com.br/

Ana I. J. Mercury disse...

A premissa não me ganhou, não gosto de pais violentos, principalmente quando os filhos fazem de tudo para agrada-los , mesmo que seja, anular-se completamente. Porém, gostei muito da sua resenha, muito bem escrita e pontuada sobre os acontecimentos da obra.
bjos
Ana,
elvisgatao.blogspot.com

Minhas Impressões disse...

Oi Alê.
Já li esse livro e também resenhei no meu blog.
É interessante notar como minha visão da Kambili diverge um pouco da sua. Eu concordo com você que ela é extremamente passiva e submissa ao pai, mas não me atentei muito para isso porque eu só conseguia ter pena dela por toda dor que seu pai lhe infligia. O final eu não gostei muito, achei que destoou um pouco do restante da estória, mas no geral, gostei do livro. Ele é muito forte e mexe mesmo com a gente.
Abraços

Minhas Impressões

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!!

Que livro interessante! Eu concordo com você sobre a facilidade de generalizar um povo devido a um fato específico.
Temos como exemplo os refugiados da Síria que agora sofrem com a rejeição em massa (mais forte que antes) por conta de canalhas que atacaram e estupraram mulheres europeias.

Dez anos atrás tive a oportunidade de conhecer a África do Sul e vi de perto a abundância de algumas famílias africanas em comparação com a miséria de outras. As favelas de lá eram tão pobres, mas tão pobres que o governo teve que ceder banheiros públicos porque eles não tinham onde fazer as necessidades.
Uma discrepância social e um racismo (que não era nem um pouco velado) muito mais perceptível que no Brasil.
São questões que nos fazem refletir tanto como indivíduo como nosso papel em uma sociedade.

Aqui também temos muitos Eugenes e muitos deles não comandam só as próprias famílias a ferro e fogo. Infelizmente.

Obrigada por me apresentar ao título. Vou dar uma checada nele. :)

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Rafaela. disse...

Oi, Alê!

Assisti essa palestra na faculdade e fiquei encantada, a Chimamanda é ótima e sempre aborda temas que devem ser discutidos.
Estou louca para ler este livro, a premissa é muito boa, especialmente por mostrar aspectos pouco conhecidos ou ignorados.
Adorei a resenha!

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

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