sábado, 4 de fevereiro de 2012

RESENHA: Criança 44

“Medida cautelar. Com essas palavras, todas as mortes estavam justificadas. Melhor destruir o próprio povo do que permitir que um soldado alemão achasse um pedaço de pão. Era proibido ter escrúpulos, arrumar desculpas ou fazer perguntas. Ser contra os assassinatos era crime de traição.” (SMITH, 2011, p.215)

Quando comecei a ler “Criança 44” eu soube, já na primeira página, que tinha em mãos um grande livro. Tom Rob Smith deixa claro nas primeiras linhas o impacto de sua narrativa, a força da história que tem para contar e revela que os personagens não são meros personagens: são seres humanos.

O livro começa com um tom angustiante. Em uma pequena aldeia, uma mulher cozinha as tiras da bota de couro para comer. Dois irmãos, o mais velho com 10 anos, saem para caçar um gato como prato principal para o jantar. Um deles não volta. É sequestrado, provavelmente para servir de alimento para outra família. 15 páginas e eu já estava fascinada com a capacidade do autor em empregar sentimento a uma narrativa de suspense.

A trama se passa na Rússia Stalinista, em 1953. O medo está a solta nas ruas. Você não precisa fazer nada de errado para ser considerado um traidor, basta parecer suspeito de alguma coisa em algum momento. O agente da MGB, segurança do estado, Liev Demidov é apenas um dos agentes que prende e interroga inocentes até que eles confessem culpa de algo de que nem o menos tem conhecimento. Faz parte do trabalho e não há nada que ele possa fazer para impedir.

O corpo de um menino, filho de um de seus colegas, é encontrado morto perto dos trilhos do trem. O pai do menino está convencido que foi assassinato. Liev é enviado a convencer o homem de que se trata de um trágico acidente, pois é mais fácil acobertar os crimes do que encontrar uma resposta.

Liev começa a se incomodar com essas e com outras coisas. O ápice da revolta do agente ocorre quando Raíssa, sua esposa, passa a ser suspeita de traição e cabe a ele entregá-la para o estado. A mensagem subliminar está clara: é a vida dela pela vida dele. Se ele não entregá-la, os dois serão mortos acusados de traição.

Rebaixado e transferido de Moscou, Liev se depara com mortes semelhantes à do menino que foi encontrado nos trilhos e percebe que aquele não foi um mero acidente e esses não são crimes isolados. São obras de um assassino perigoso e extremamente cruel. Ele passa a investigar os casos e, a partir disso, sua situação com o governo fica cada vez pior.

A história é muito bem amarrada, contada lentamente e rica em detalhes. Entre o medo político, os maus tratos sofridos e as angustias dos personagens é possível sentir esse sofrimento junto com eles. É possível acompanhar a transformação de Liev e de seu casamento com Raíssa, apegar-se a personagens e torcer para que tenham um final feliz (mesmo sabendo que isso será praticamente impossível) e encontrar pelo caminho personagens detestáveis como Vassili, colega de Liev que cultiva por ele um ódio intenso que chega a ser seu estímulo de vida.

O autor parece não apressar a narrativa porque tem tamanha confiança em sua trama que sabe que vale a pena fazer o leitor esperar por ela. E vale muito. Devo dizer que jamais imaginei que a história seguiria o caminho que seguiu. Em nenhum momento desconfiei das respostas (para falar a verdade, não desconfiei ao menos das perguntas) e fiquei maravilhada. “Criança 44” é um daqueles livros que valem por tudo. Pela jornada, pela história em si, pela maneira como ela é contada e pelo seu desfecho.

“Criança 44” é o livro de estréia de Tom Rob Smith e apresenta um autor que além de fundamentar em pesquisas os fatos sobre os quais escreve (ao final do livro há uma serie de leituras recomendadas aos interessados e que serviram como base para o autor) é um excelente criador e contador de histórias. É uma trama inteligente e escrita magistralmente. É sim um excelente suspense, mas mais do isso, é um excelente livro. Recomendo a todos.

Em breve estarei publicando a resenha de “O Discurso Secreto”, continuação de “Criança 44”.

PS.: Eu sei que não se deve julgar um livro pela capa, mas no caso de “Criança 44” a capa merece um comentário à parte. É linda! As arvores desfolhadas e a neve, mais do que fiéis a trama, mostram a dificuldade dos tempos em que vivem os personagens. O respingo de sangue, sem fazer com que a capa se torne sinistra ou macabra, é o suficiente para mostrar ao leitor que ele tem em mãos um livro de suspense. É uma das capas mais lindas que eu vi nos últimos tempos.

Título: Criança 44
Autor: Tom Rob Smith
Nº páginas: 416
Editora: BestBolso – Record



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6 comentários:

Suzana Sabino disse...

Olá!
Bom, ouvi falar desse livro há alguns dias, pois parece que vão fazer um filme sobre ele e acho que estão negociando para que o Robert Pattinson faça parte e tal, mas não tem nada confirmado ainda, que eu saiba. Mas ainda não tinha visto nenhuma resenha ou coisa do tipo sobre a obra e quando vi no twitter do blog o post, vim correndo conferir. ^^
A história parece ser bem forte! Eu gostei bastante, irei ler com certeza quando a oportunidade surgir, vou até colocar como "desejado" no skoob. ^^
Parabéns pela resenha, ficou muito boa. :D

Beijos.

Obs.: a capa é linda mesmo! pena que seja na edição best-bolso, pois amassa a toa. :/

Camilla Vasconcelos disse...

Eu tbm nunca vi nenhuma resenha sobre esse livro nos blogs que frequento, faz tempo que quero comprar esse livro, vou ver se da pra comprar agora em janeiro, eu adoro o suspense que ronda o livro, se houver um filme vai ser demais!!!! ADOREI SUA RESENHA.

Ygo Maia disse...

Já ouvi falar desse livro. Teve um tempo que pensei em comprá-lo, inclusive nessa coleção vira-vira, mas acabei deixando a compra de lado. A história me desperta curiosidade, gosto do gênero. Concordo com você: capa perfeita. E esse título? "Criança 44". Muito sinistro!!!

http://ymaia.blogspot.com.br/

Vinicius Vini Fugimoto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vinicius Vini Fugimoto disse...

Esta resenha conseguiu expressar grande parte do que senti ao ler o "Criança 44"!

O interessante é que comprei este livro - acho que no início de 2013 - apenas pq havia muito tempo não comprava algo novo para ler. Me limitava apenas a ler o que me emprestavam ou aos livros acumulados em casa, inclusive de meus pais, irmã, enfim. Não sabia eu que estava adquirindo uma das leitura que mais valeu a pena neste último ano.

Me envolvi tanto com a história que, ao terminar de lê-la, fui em busca de informações sobre a história na internet. Acabei descobrindo que a trama foi basada em fatos reais! Digo, é claro que se tem um grande embasamento histórico, mas além de tudo, o serial killer da história realmente existiu! Está lá na wikipedia, na resenha do livro: "Andrei Chikatilo, também conhecido como o Estripador de Rostov". A partir daí acham-se várias referências sobre o caso. Boa pesquisa àqueles que quiserem saber mais. ;)

Diego Fernandes disse...

Confesso que não li muitos livros na minha vida, mas esse é disparado o melhor que já li. Todas as páginas te trazem novas emoções e expectativas. Impossível parar de ler. Recomendo a todos.

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