segunda-feira, 20 de abril de 2015

RESENHA: Circo Invisível

“(...) talvez o trato com a mãe fosse o de que cada uma teria uma vida secreta e não contaria à outra, mas Phoebe não havia percebido – ela fracassara em viver a vida secreta e agora sua própria vida era só aquilo, uma centena de anos vazios que se estendiam inutilmente atrás dela.” (EGAN, p.80, 2015)

As experiências que tive com Jennifer Egan me ensinaram que não apenas a autora nunca decepciona, como também surpreende. Foi o seu nome que me atraiu imediatamente para “Circo Invisível”, um daqueles livros difícil de acreditar se seja uma estreia literária.

Phoebe completou dezoito anos, se formou no ensino médio e já foi aprovada para a faculdade que irá começar em alguns meses. De longe ela é uma adolescente normal, mas de perto sua vida se resume a trabalhar em uma cafeteria, assistir televisão com a mãe e pensar em sua irmã, Faith, que morreu há oito anos em uma queda misteriosa durante uma viagem pela Europa. Uma briga com a mãe e um encontro inesperado despertam em Phoebe a vontade de largar tudo e seguir os passos da irmã em busca de um entendimento do que aconteceu com ela. Longe de tudo que lhe é familiar, Phoebe será obrigada a descobrir quem ela mesma é.

Já falei antes que considero a narrativa de Jennifer Egan dotada de uma força rara. Em “Circo Invisível” fica claro que essa força vai além dos personagens e da história. As palavras são história, as palavras têm vida. É por isso que o texto deve ser lido sem pressa porque para cada frase que a autora escreve existem outras duas nas entrelinhas. Minha impressão é que uma leitura apressada dá para o leitor apenas 50% da história. Ele pode entender o que está acontecendo, mas para apreciar é preciso que veja o que não está exposto, mas ainda assim disponível para ser visto.

A narrativa é em terceira de pessoa e não linear, mostrando o presente de Phoebe, mas também o passado, quando Faith e seu pai ainda eram vivos. Isso ajuda o leitor a entender a protagonista que vive parte no passado, onde moram episódios e lembranças que são seu combustível.

Sem usar de tramas paralelas e múltiplos conflitos existenciais (como em seus outros livros) a autora opta por uma premissa relativamente simples, mas investe no desenvolvimento dos personagens.

Phoebe pode não ser necessariamente carismática, mas é uma personagem riquíssima em sua melancolia e se torna justamente interessante por não ter a menor noção de quem é, mas não perceber isso. Durante os últimos anos, ela se esforçou tanto em não esquecer a irmã, que esqueceu de si mesma, esqueceu de se transformar em alguém. Ela sempre admirou tanto Faith, que tudo que queria era ser ela. É por isso que dorme na cama que era dela, por vezes usa as roupas que eram dela e espera que as pessoas digam que as duas eram parecidas (esse é o maior elogio que pode receber). Phoebe quer ser Faith porque quer ser o que Faith era para o pai delas. Phoebe vê a irmã como um ser tão maravilhoso que, estando na Europa, teme que sua presença apague a que a irmã deixou. Cheia de problemas que ela mesma não percebe que tem, a personagem embarca em uma jornada que acaba sendo de autoconhecimento, mesmo que a intenção original fosse a de sempre: Faith. É só assim que ela percebe que não sabe quem é fora da realidade em que vive, na qual ela é apenas alguém que tenta se agarrar ao que os outros foram. Egan sabe extrair tão bem a essência da personagem que consegue fazer o leitor entender profundamente alguém não entende a si mesma.

Os outros personagens também são bem aproveitados. A mãe, uma mulher acomodada em sua própria vida; o pai, um artista frustrado cuja maior inspiração é a filha mais velha; Barry, o irmão que é o oposto de Phoebe em quase tudo (desapegado do passado, preocupado com o futuro e com o comodismo da mãe e da irmã, e que escolheu construir sua vida desde cedo). Ainda assim, o destaque dos coadjuvantes é, como não poderia deixar de ser, da irmã. Faith é complexa, triste, inconsequente e intensa. Alguém que quer sugar e aproveitar o máximo da vida (o que me parece exatamente o que a autora faz com os seus personagens) e faz o leitor se perguntar que rumo teria dado à sua vida caso não tivesse se suicidado tão jovem.

O que vai acontecer com Phoebe nessa viagem? Qual a história por trás do suicídio de Faith? Qual o impacto que terá em Phoebe caso ela chegue a descobrir a verdade? São perguntas que dão um ar de suspense a esse drama.

Gostei muito de “Circo Invisível” e se “Olhe para mim” foi o livro de Egan que mais de despertou questionamentos, este foi o que mais me tocou, aquele com que eu mais quis me conectar e que mais me fez admirar seu talento como escritora. É comum pensarmos durante uma leitura “Como esse livro é bom”, mas são poucos os livros que nos fazem interromper a narrativa para dizer “Como esse autor escreve bem”. Foram inúmeras as vezes em que fiz isso com “Circo Invisível.” Curiosamente, o único livro que ainda não li da autora foi o seu premiado “A Visita Cruel do Tempo”, mas pretendo corrigir isso em breve, já que é muito difícil chegar à ultima página e não querer mais de Jennifer Egan.

“Circo Invisível” é um livro sobre pessoas que estão em busca de sentir mais, de viver intensamente, de se aceitarem ou se transformarem em alguém com quem possam se sentir à vontade. E é nessa complexidade de sentimentos que está a sua essência. Com uma história relativamente simples (ambientada nas décadas de 60 e 70), mas uma carga dramática intensa e, claro, suas palavras, Jennifer Egan faz mágica.

Em 2001, “Circo Invísivel” ganhou uma adaptação cinematográfica que recebeu o título brasileiro de “Uma História a Três”, com Jordana Brewster e Cameron Diaz nos papeis de Phoebe e Faith, respectivamente. O filme não recebeu boas críticas e, de minha parte, não consigo imaginar esse elenco dando vida a essas personagens.

Título: Circo Invisível (exemplar cedido pela editora)
Autora: Jennifer Egan
Nº de páginas: 319
Editora: Intrínseca

32 comentários:

Lucas Kammer Orsi disse...

Oi Mari,

Não li nada da Jennifer, apesar de professores meus terem falado muito bem da autora. Acredito que não seja uma leitura tão tranquila de ser feita, logo, um período ideal é o necessário. Mesmo assim, sua resenha me fez refletir acerca disso e quem sabe dar uma chance para a autora.

Beijos,
Lucas
ondeviveafantasia.blogspot.com.br

camila disse...

Ola Mari, gosto de livros que nos desperte esses sentimentos todos que descreveu, são realmente poucos os livros em que paramos a leitura só para pensar em como está bom!
Não conhecia o livro e também não vi a adaptação.
Gostaria de ler futuramente.

Beijos Mila
http://dailyofbooks.blogspot.com.br/

Iris Pereira disse...

Oi,
Nossa fiquei curiosa com esse livro, vou solicitar assim que possível.
Bjs!
Viciados Pela Leitura

Juliete Souza disse...

Oi, Mariana.

tenho lido alguns livros que são românticos demais, clichês demais e isso acaba cansando. Gosto de leituras que movem o leitor internamente, nos fazem perceber coisas diferentes a cada página. Procuro histórias com mais sentido!

beijos

Ps. Estou seguindo teu blog. Segue o meu?

http;//mundo-restrito.blogspto.com.br
@rs_juliete

Luis Carlos disse...

O livro parece ser ótimo, principalmente pela autora ter investido no desenvolvimento dos personagens, pois tem livros que os personagens são mal desenvolvidos e a história fica terrível!

Caverna Literária disse...

Ainda não tinha ouvido falar dessa autora, mas só a capa já é impactante e esconde um toque de mistério nela. Super adorei a resenha, o livro parece ser carregado de dor e perda, junto de descobrimentos de si própria. É algo bem profundo mesmo, fiquei mais que curioosa pra ler

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br
Tem resenha nova no blog de "Só tenho olhos para você", vem conferir!

Helana Ohara disse...

Oi Mari,
só li a sinopse porque ganhei o livro do meu namorado quero ler em breve.
Adoro a capa dele.


Beijinhos, Helana ♥
In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

monique larentis disse...

Interessante a leitura, cheia de sentimentos e um enrredo bem legal. gostei :)

www.vivendosentimentos.com.br

Leticia Siqueira das Chagas disse...

Oi! Não conhecia a autora, mas fiquei tentada a ler. O livro deve ser realmente demais! Nada como um livro bem escrito, haha.
Beijos,

Letícia
http://www.odomdaescrita.com.br/

DominO Simmons disse...

Não conhecia o livro não eim...
mas gostei tanto do seu texto, como da sinopse, e da capa!
e bom esses são os três elementos para um bom livro!
Beijinhussss...
http://cantodadomino.blogspot.com.br/

Mariana Ogawa disse...

ainda não li nada da autora, mas pelo que pude perceber pela resenha é um livro denso que tem que ser lido com calma, e não simplesmente como passatempo .

adorei a descrição dos personagens eles parecem ser bem humanos, daqueles que fazem a gente refletir sobre a própria vida. sem falar na ideia da narrativa não linear, eu acho muito massa esse tipo de narrativa (e mais um motivo para ter cuidado na hora de ler)

assim, que eu tiver um tempo (e ânimo, pq algo me diz que é daqueles livros que vc realmente tem que refletir) eu vou dá uma conferida no livro e na autora.

Gabriela CZ disse...

Estava em dúvida sobre esse livro, mas seus comentários me deixaram curiosa, Mari. Uma história intensa, reflexiva e bem escrita que certamente vou querer conferir. Também fiquei curiosa por outras obras da autora. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Guilherme Dias disse...

Heey!!
O livro parece ser no mínimo interessante, gostei da premissa, apesar de simples, e adoro livros em que os personagens são bem desenvolvidos ^^
Sua resenha está fantástica!
Abraços!!
Enjoy The Little Things

Netinho Alves disse...

Oiiêê
ainda não tinha visto nada sobre a autora, mas parece que os livros dela são bem bacana
espero poder ler algum dia, kkkk
Bjks

Passa Lá No Meu Blog: http://ospapa-livros.blogspot.com.br/

Aline Julião disse...

Oi, Mari!
Adoro ler suas resenhas.
Eu "conheço" a Jennifer por nome e tútulos, não por ter lido algo.
Meu maior problema é a 3ª pessoa. Nossa, como me deixa agoniada.
Acho que preciso ler um livro em 3ª pessoa muito empolgante para tirar isso de mim.
Beijos, :*
http://oqueeuanddolendo.blogspot.com.br/

Andrizy Bento disse...

Ótima resenha, muito bem escrita. Não conheço nada da autora... Pelo menos não me lembro de ter lido nada dela. Mas é bom que assim fico conhecendo. E fiquei curiosa para conferir esse livro. Não tinha ouvido falar do filme, mas pelo visto o livro foi mal adaptado para as telas...

http://sonhos-empoeirados.blogspot.com.br/

Diane disse...

Ainda não conhecia nada da autora e também não conhecia esse livro , me interessei bastante em "Circo invísivel" espero poder lê-lo em breve :)
Parabéns pela resenha ela está bastante clara e objetiva !

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

gih disse...

Oiii, tudo bem???? Eu ainda não conhecia o livro, mas fiquei com muita vontade de ler. Também tenho uma irmã e por muito tempo vivi a sombra dela, por isso acho que iria me identificar bastante com a personagem. Adorei tudo o que você falou sobre o livro. Adicionado a minha lista de próximas leituras =D
Beijooos
http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

Matheus Braga disse...

Hey Mari, tudo bem? Saudade dos seus texto, faz um tempo que não dou uma passada aqui, mas a vida está de pernas pro ar por essas bandas Hahaha.

Confesso que apesar de achar a capa linda e de já ter ouvido falar da autora, esse não é meu estilo de livro favorito. Estou meio que cansado de livros que retratam sempre aquele lance de auto-descoberta, problemas familiares e afins, sabe? Quero aquela fantasia épica mega envolvente com dragões e Zumpiros (zumbis que bebem sangue), ou até mesmo uma distopia mais despreocupada como Prodigy, mas que tenha algo de "fora do normal" acontecendo, saca? Não conhecia essa adaptação, vou ver se tem na Netflix.


Beijão,
Matheus Braga
Vida de Leitor - http://vidadeleitor.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Bem Mari!
Acredito já ter comentado anteriormente que os livros que trazem conflitos existenciais e personagens fragmentadas como é o caso da protagonista que não vivi sua própria existência, mas à sombra da irmã suicida, muito me atraem. Gosto de analisar todo aspecto psicológico que levam as personagens à determinadas atitudes.
Achei muito interessante e ainda não li nada da autora.
“A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros.”(Confúcio)
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Livy disse...

Oi Mari =D

MEU DEUS MULHER! Sempre que entro aqui vejo indicações maravilhosas, e minha wishlist literária só aumenta <3 Este livro tinha me despertado a curiosidade, mas estava com um pé atrás de pegá-lo para ler. Agora minhas dúvidas não existem mais! Quero o livro para ontem! Tudo o que você escreveu só me convenceu a ler o livro logo. Adoro livros assim, e por tudo o que você disse da autora, já a vejo como um fantástico achado literário. Vou ler com certeza, obrigada pela indicação!

Beijos,
Livy
nomundodoslivros.com

Kamila Villarreal disse...

Olá!

Já tinha ouvido falar nela, mas nunca li nada. Gostei da premissa e da sua resenha também!

resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Nunca li nada dessa autora, e confesso que a primeira vista esse livro não em chamou muito a atenção. Porém, agora depois de ler a sua resenha acho que vale a pena dar uma chance.


Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary


Nardonio disse...

Alguns autores conseguem esse feito de nos fazer lermos algum livro, apenas por vermos seus nomes estampados na capa. E que bom que a Jennifer, além de não decepcionar, ainda faz questão de surpreender. Enfim, depois dessa resenha, fiquei bem curioso pra ler algum livro dela.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Estante Diagonal disse...

Oi Mari, fiquei maravilhada com esta história, em sua resenha tu conseguiu passar e muito bem todos os pontos positivos e eu fiquei doidinha aqui. É ótimo quando na metade do livro já temos certeza que o livro é maravilhoso! Quero conhecer a trama e principalmente a autora =D

Beijos,
Joi Cardoso
Estante Diagonal

Lary C disse...

Oi, Mari.
Eu não conhecia a autora, mas fiquei encantada só por ler sua resenha. Ela parece ter uma escrita tão incrível... E eu adoro quando a história não é só aquilo que basicamente está escrito nas páginas, quando fica algum detalhe nas entrelinhas... Isso é muito bom. Fiquei curiosa para saber o desfecho da história. Vai para a lista!
Beijos!

Cecília Vieira disse...

Não conhecia a autora, então fiquei impressionada quando l ia sua resenha. Parece ser mesmo uma obra ótima, que vale muito a pena ler, então vou colocar na minha lista, porque fiquei muito curiosa para fazer a leitura.
Beijos!

Camila Monteiro disse...

Esse livro me chamou a atenção. Gostei da profundidade que Vc falou. Valeu a dica!

Ju M disse...

Não sabia do livro nem da adaptação para o cinema. O livro parece despertar muita reflexão, um livro que precisa ser degustado e aproveitada toda a profundidade que se apresenta. Acho que é uma leitura diferente dos clichês que vemos por aí, acho que esse tem um "que" a mais. Gostei, me chamou a atenção.

Letícia Souza disse...

Eu não conheço a escritora mas fiquei com uma enorme vontade de ter algo dela em mãos pra poder me encantar e admirar com sua escrita.Achei muito boa essa história,gosto daquele clima de suspense e da jornada que o personagem faz para auto se descobrir.E pela sua descrição também não posso ver as atrizes do filme como as garotas do livro.

Anelise santana disse...

Agora eu me pergunto por que cargas d'água ainda não tinha visto esse livro nem a autora?! E olha que eu dou uma bisbilhotada no catalogo da Intrínseca uma vez por semana à procura de um novo livro pra ler.
A autora deve ser ótima mesmo. Mari, fiquei encantada com a resenha, deu pra perceber o quanto você admira a autora, e aí deu vontade de conhecê-la e admirá-la também. Farei isso o mais rápido possível.
O livro parece ser bem profundo. Gosto muito quando "o texto deve ser lido sem pressa porque para cada frase que a autora escreve existem outras duas nas entrelinhas", melhor ainda quando o autor faz isso com maestria.

Paixão de Leitora disse...

Que história interessante! Nunca li nenhum livro dessa autora, mas depois dessa resenha me trouxe uma inquietação do tipo "Meu Deus, como assim estou perdendo essas sensações ?" hahaha. Já entrou pra minha listinha de desejados, AMO livros bem escritos e bem pensados na hora de serem escritos.
Bela resenha! Beijinhos

paixaodeleitora.blogspot.com

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