sábado, 25 de abril de 2015

RESENHA: Mansfield Park

“Tudo dependia de uma única pergunta. Ela o amava suficientemente para abrir mão de coisas que até então considerava essenciais? Amava-o suficientemente para deixar de ver essas coisas como essenciais? E a resposta a essa pergunta, que ele repetia para si mesmo sem cessar, geralmente era um ‘sim’, porém às vezes era um ‘não’.” (AUSTEN, 2014, p. 345-6).

***

Quem acompanha o blog sabe que sou fã incondicional de Jane Austen, e sentia uma culpa enorme por não ter terminado de ler toda a sua obra. Por isso mesmo, minha meta de leitura para esse ano incluía pelo menos um livro não lido da autora, e o escolhido da vez foi Mansfield Park. Infelizmente, não foi uma boa opção. 

Filha de pais humildes e com poucas perspectivas, Fanny Price é adotada por seus abastados tios, Lady e Sir Bertram, sendo levada para Mansfield Park, onde é criada com os quatro primos. Anos depois, vemos a tranquila convivência familiar ser abalada com a chegada do sr. Rushworth e dos irmãos Henry e Mary Crawford, ante a expectativa de desejáveis enlaces matrimoniais. 

É impossível começar a resenha de Mansfield Park sem falar de Fanny, uma protagonista que não sabe protagonizar, visto que é a personificação da passividade e, portanto, limita-se a assistir aos acontecimentos que ocorrem a sua volta. Em um primeiro momento, imaginei que tal atitude até seria justificável, visto que Fanny cresceu ao lado dos primos sabendo que não era igual a eles, então, talvez sua passividade fosse oriunda de um complexo de inferioridade. Entretanto, logo constatei que as demais atitudes e pensamentos não se coadunavam com tal complexo, de modo que descartei a teoria. Verdade seja dita: Fanny não parece uma protagonista criada por Jane Austen, a mente por trás de outras tantas heroínas da literatura, que brilham justamente por serem independentes, fortes, dinâmicas e audaciosas, mas também lúcidas e racionais. 

Creio que ler livros clássicos é uma das mais interessantes formas de apreender os hábitos e costumes dos tempos de outrora. Ainda assim, me surpreendi com a aversão desmotivada da protagonista ao cortejos e galanteios de outro personagem. Se compararmos com Orgulho e Preconceito, é fácil perceber que a aversão de Elizabeth por Mr. Darcy se dá por uma série de desentendimentos plausíveis e coerentes. O mesmo não se pode falar de Fanny, que simplesmente coloca uma ideia na cabeça, fazendo o pior juízo do cavalheiro, em virtude de uma atitude que não me parece ter tanta importância, mesmo para os padrões daquela época. 

A percepção que eu tinha dos demais personagens não se assemelhava com a percepção de Fanny. A meu ver, parecia que ela estava em um pedestal de moralismo, de onde julgava os outros, exacerbando os defeitos alheios e deixando de enxergar os seus. Ao final, para justificar esta disparidade de percepções, uma série de eventos ocorrem com o único propósito de confirmar os julgamentos da protagonista, e que não me pareceram condizentes com o restante da estória. A verdade é que as condutas dos personagens não se mostraram compatíveis com suas personalidades, ficando claro que autora forçou elementos dissonantes no desfecho da trama apenas para contar a estória que tinha em mente. Jane Austen, que sempre fez um ótimo trabalho retratando o ser humano, me pareceu vilanizar aqueles que não eram maus em sua essência, mas pessoas normais, com qualidades e defeitos. 

De todos os livros da autora que já li, certamente Mansfield Park é aquele que coloca em ênfase os defeitos dos personagens acima de suas qualidades: mesquinharia, inveja, irresponsabilidade, insegurança, arrogância, desprezo, entre tantos outros. Austen expôs os defeitos de todos e, sendo conhecedora da alma humana, poderia ter criado, mais uma vez, um romance universal, com o qual pessoas de todos os cantos do mundo poderiam se identificar. O problema é que faltou carisma em seu elenco, tanto é que achei difícil me envolver com a estória, pois não simpatizei com nenhum deles.

Mansfield Park é reputado pelos críticos como a obra mais complexa de Jane Austen, e esta avalição é certeira. Por um lado, temos um vasto número de personagens, que no início da estória chegam a ofuscar a própria heroína e sua jornada. Por outro, temos uma narrativa onisciente que se mescla com os pensamentos e sentimentos de Fanny, dando a sensação de que há informações contraditórias. Por fim, Mansfield Park apresenta um viés ideológico e moralista acentuado, que não é facilmente absorvido. 

É claro que o texto de Jane Austen ainda é soberbo, porém, por mais que eu admire a autora, me dói admitir a verdade: não gostei de Mansfield Park. Apesar de sua complexidade, creio que o maior problema da obra é sua protagonista insossa, vulnerável e irritante. Se Fanny Price tivesse uma personalidade mais agradável e menos introspectiva, certamente os rumos da obra seriam outros. Ou, pelo menos é isso que quero acreditar. 

Título: Mansfield Park (exemplar cedido pela editora)
Autora: Jane Austen
N.º de páginas: 606
Editora: Penguin Companhia 

23 comentários:

Cecília Vieira disse...

Nunca li esse livro da Jane, mas uma amiga minha fala que não gostou muito dele, basicamente pelos mesmos motivos que você. Ainda não tinha visto nenhuma resenha dessa obra, mas depois disso estou ainda menos tentada a lê-lo.

RUDYNALVA disse...

Alê!
Sempre digo que os bons escritores tem direito de errar na mão vez por outra e acho que aqui está o exemplo de erro da Jane.
Me parece que aqui foi tudo o inverso: as personagens sem graça não causam empatia, o cenário não foi utilizados e os sentimentos ruins, exacerbados.
Difícil ler se identificar.
Um domingo carregadinho de luz e paz!
“Não acredite mais em pessoas especiais, mas em momentos especiais com pessoas habituais.” (Chafic Jbeili)
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Gabriela CZ disse...

É uma pena que não tenha te agrado, Alê. Ainda mais por "contradizer" as outras obras de Austen. Também quero ler toda a obra da autora, mas agora sei que não começarei e nem terminarei por esse. Gosto de pensar que devemos encerrar a obra de um autor com chave de ouro. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

DominO Simmons disse...

Oieee Ale... que resenha legal... eu sou louca pra acabar de ler os livros da jane pra mim falta esse e Emma :)
Amor eterno não é.... e quero reler esse ano Orgulho e preconceito!
Faz alguns anos que li!
Beijos enormes e ótimo domingo pra você!
http://cantodadomino.blogspot.com.br/

Lary C disse...

Oi, Alê.
Eu já comentei várias vezes por aqui que não gosto de Jane Austen, apesar de achar as personagens dela bem interessantes, mas essa... Nossa! Realmente não parece ser uma criação dela. Não tenho saco para protagonistas sem graça e isso normalmente é o que me faz abandonar um livro (mesmo não gostando de deixar uma leitura pela metade).
Abraço!

Mariana Ogawa disse...

oie!!
eu tava me perguntando se vcs estavam fazendo um mês jane austen, por algum motivo.
respondido: o motivo é pq vcs gostam dela
realmente é um problema quando vc não gosta do personagem principal, para mim fica quase impossivel ler, por melhor que seja.
eu já tinha (obvio) falar da passividade da protagonista e da questão do moralismo dela e já tinha ficado entediada só por causa disso eu não queria ler, depois da sua resenha eu sei que é o tipo de personagem que eu fico louca e desisti realmente de ler -.-
eu já tinha visto alguns pedaços da analise dessa obra, mas foi legal ver não só a questão literária, mas a questão de gosto... afinal, não é pq é um grande clássico da literatura que a gente tem que gostar da obra
parabéns pela resenha
abraços

Ana Clara disse...

Oi Alê!

Acredita que nunca li nada da Jane Austen? Juro, nem "Orgulho e Preconceito". Acho que é porque, na real mesmo, nunca tive interesse. Por mais que você seja fã da autora, acho que depois de ler essa resenha aqui fiquei ainda mais desanimada. Odeio personagens passivas, independentes do sexo. E convenhamos também... Ler um livro quando a gente não gosta do personagem principal é um terror.

Beijo!
http://www.roendolivros.com

Diane disse...

Gosto muito de Jane Austen também , não tem nem como explicar o quanto amei "orgulho e preconceito":)
Apesar de você ter me desanimado um pouco com a leitura mesmo assim quero ler para tirar minhas próprias conclusões .

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

blogsemserifa.com disse...

Realmente, Mansfield é o mais chatinho da Austen! A Fanny é difícil de engolir. Mas vi em outro post que vc pretende ler Emma: é beeem mais legal! A Emma é praticamente o oposto da Fanny. (E o livro teve uma adaptação maravilhosa pra TV uns anos atrás.)

Abs!
Isa

Luis Carlos disse...

Por ser uma obra clássia bem complexa, acredito que eu também não iria gostar, não por esse motivo em si, mas pelo fato de que eu não sou acostumado a ler livros como esse. Achei a resenha incrível, bem detalhada e mostrando a sinceridade sobre o livro!

Bárbara Prince disse...

Nunca li nada da Jane Austen (eu sei, estou atrasada), mas agora já sei por qual obra não começar. Na verdade, nunca me interessei muito pelos livros dela, mas vou dar uma chance a algum outro título, pelas personagens femininas tão famosas.
Aliás, essa capa não parece combinar com a obra. Parece mais uma das capas da série "Só perguntas erradas", do Lemony Snicket.
Beijos!
www.blogsemserifa.com

monique larentis disse...

Muitas pessoas falam super bem dos livros da Jane Austen, eu nunca li nenhum, mas gostei da capa desse e a história parece ser bem interessante também :)

www.vivendosentimentos.com.br

Monique Químbely disse...

Esse foi o primeiro livro que li de Jane Austen e gostei um pouco. Também acho que Fanny é uma chata, mas creio que Austen quis ser irônica ao criar tal personagem. Por isso que Fanny julga tanto outros personagens, mas nós percebemos que muitas das suas críticas são infundadas. Fanny, apesar de protagonista, não é a dona da razão.
http://sete-viidas.blogspot.com

Gabriela Silva disse...

Todo mundo fala super bem dos livros dessa autora, eu tenho muita vontade de ler, eles parecem ser bem interessantes!
Mil Beijos! ♥
http://pensamentosdeumageminiana.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Ale =)

Confesso que não consigo me sentir cativada, pela escrita da Jane Austen. Já tentei ler vários livros dela, mas comigo não funciona, infelizmente =(

Ótima resenha ^^

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary



Camila Monteiro disse...

Gostei muito da sua última frase. Foi realista é sincera. É realmente o que penso dessa autora. Gosto das histórias, mas falta algo.... Esse livro não li e não sei se colocaria na milha estante.
De qualquer forma, adorei sua resenha! Bjs.

Ju M disse...

Acho que você não ter gostado tanto dessa obra, apesar de gostar muito da autora reflete um pouco da versatilidade, da genialidade do autor. Não li para saber opinar, estou me baseando na sua resenha. Mas acho que quando o autor usar sempre o mesmo molde para seus livros, pode até ser uma receita de sucesso, mas é ser um pouco limitado né? Os mesmos cenários, o mesmo drama de sempre (amor proibido, sei lá), os personagens com a mesma característica...Mas também acho uma chatice esse negócio de heroína sonsa, sem personalidade, dá nos nervos. Também acho isso chato nas mocinhas, reage minha filha, vai ficar sofrendo esperando alguém te salvar? Gosto de personagens de atitude.

Letícia Souza disse...

Oie
Como ainda não li nada da Jane não tenho como comparar esse livro a outras obras dela mas se você não conseguiu se habituar com a história certamente eu também não conseguiria,tenho horror a personagens sem voz ativa,que até se torna ofuscada.Mas pelo menos você conseguiu cumprir sua meta de ler um livro dela esse ano.

Nardonio disse...

Por mais que a gente goste de uma autora, fica complicado apreciar uma trama em que a protagonista tem todos esses defeitos elencados por você. Uma pena que esse livro não tenha te agradado, mas isso é normal, pois, por mais fã que possamos ser de um determinado autor, sempre terá, no mínimo, uma obra que não irá nos agradar.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Ana disse...

Gostei muito da sua resenha, nunca li esse livro, mas acabei ficando interessada. <3 http://luxuosoestilo.blogspot.com.br/

Anelise santana disse...

Eu ainda estou fazendo minha primeira leitura de um livro da autora, então não tenho como comprar ou fazer uma análise crítica como a sua que já fã dela.
As personagens da Jane são tão aclamadas por terem personalidades a frente de sua época e, pelo que percebi da resenha, a Fanny também tem um pouco disso. Quer dizer, há uma certa veracidade na personagem; você não simpatizou com ela, não viu carisma, justamente porque ninguém gosta de uma pessoa irritante, moralista, introspectiva... Quem sabe tenha sido esse o objetivo da autora com essa personagem, mostrar o pior lado de uma pessoa, o quanto uma pessoa com esse tipo de personalidade pode não agradar.
Só um palpite...
De qualquer forma, pretendo fazer a leitura do livro para poder ter mais certeza sobre o que pensar da obra.

Ler para Divertir disse...

Sabe Alê, gostei da sua coragem, falou tudo que penso mais nunca tive a coragem para falar, pois amo os livros da Jane Austen. Mas mesmo assim não chego a dizer que não gostei de Mansfield Park, pois sembre bebo cada uma das palavras de Austen e para mim cada um dos seus livros publicados são preciosos, inclusive este. Mas a autora pecou muito aqui e não foi só na construção da Fanny.
Abraços,
Gisela
@lerparadivertir
Ler para Divertir

Milena Nones disse...

Olá! Que pena que você não gostou tanto assim da protagonista. Confesso que esse livro eu ainda não li, mas amo as obras da Jane Austen!

Beijo
albumdeleitura.blogspot.com.br

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