sábado, 20 de agosto de 2016

RESENHA: Heróis Urbanos

“Começar de novo. É conseguir respirar que nem gente após dias de nariz entupido. (...) Todos os membros do corpo se agitam, os pelinhos mais escondidos vibram, cada célula pulsa com a nova chance que recebeu. Ah, começar de novo. Ver que pode chegar longe. Pensar em voz alta: agora vai! Tu pensa que pode voar até cair, de cara no chão. E se dar conta que nada muda. Nada nunca muda.” (“Da gravidade e outras leis”, Emiliano Urbim, p. 155)

Me interessei imediatamente pela premissa de “Heróis Urbanos”: pessoas comuns que se revelam heróis apenas por encontrarem maneiras de sobreviver a situações do cotidiano. Além disso, por se tratar de uma antologia escrita por diversos autores (dos quais, confesso, só conhecia três) minha expectativa estava em ver os mais diversos olhares em relação ao tema.

Em “Volnei”, o conto que abre a antologia, uma mulher fala sobre a traição de seu marido ao mesmo tempo em que relembra uma série de assassinatos cometidos contra meninos de 12 a 15 anos. Por ser a narradora uma mulher da favela, Raphael Montes dá a ela uma voz narrativa que se esforça ao extremo para se aproximar da linguagem coloquial, usando palavras e expressões como “mermo”, “casquela” e “sirial quiller”, sem se preocupar com conjugação adequada e outras exigências do texto escrito. De certa forma a estratégia faz sentido, mas o autor exagerou na dose, fazendo com que um texto curto (menos de 30 páginas) soe incômodo o tempo inteiro. A verdade é que quando algo causa estranheza dentro da narrativa, o leitor se descola da leitura, e é isso que acontece com “Volnei” que causa estranheza o tempo inteiro, não permitido uma verdadeira conexão com a obra, já que o texto chama mais atenção do que o conteúdo. Além disso, outra coisa me incomodou, repetindo um dos problemas que eu tive ao ler “Dias Perfeitos”, também do autor. Ao tentar surpreender ao máximo, o desfecho acabou sendo previsível desde o começo. Talvez seja porque eu já tenha lido um conto que adotava uma estratégia parecida, mas o fato é que para mim a identidade do “sirial quiller” era óbvia e as atitudes da narradora exatamente o que se esperava dela.

Em “Material Escolar”, Luisa Geisler apresenta a minha personagem favorita da antologia. A jovem e esperta Carolina, bolsista do ensino médio que, para conseguir um dinheiro extra, acaba desenvolvendo um esquema de venda de provas, trabalhos e afins. “Material Escolar” apresenta exatamente o que eu esperava de “Heróis Urbanos”: personagens que estão fazendo algo errado, mas que, de certa forma, admiramos por sua esperteza e seus recursos. A narrativa intercala entrevistas da própria Carolina com relatos de seus colegas e boatos de fonte anônima, deixando o leitor curioso para saber o que é verdade e o que não é, cogitar até onde Carolina é capaz de ir com suas falcatruas, além de se perguntar onde aquela investigação toda vai dar (e já que o tema da antologia é o cotidiano, nada mais adequado que um conto assim terminar com uma injustiça).

Rubem Fonseca, por sua vez, traz em “Passeio Diurno” o senso de justiça de uma criança. Por contar com menos de 10 páginas a história não chega a ter muitos desdobramentos, mas consegue desenhar a personalidade de seu protagonista.

Já Letícia Wierzchowski é responsável por “Seu amor de volta em três dias”, o conto mais inusitado da antologia no qual um jovem desempregado tem a ideia de virar pai de santo para conseguir dinheiro. E já que os orixás não conseguirão nada para os seus clientes, cabe a ele encontrar métodos terrenos para cumprir o que o “Pai Léo” promete. Em geral, sempre tive experiências positivas com as obras da autora e, por isso mesmo, confesso que o conto me deixou com um gostinho de “esperava mais”.

“Da gravidade e outras leis” é o conto que encerra a antologia e foi um dos meus favoritos. A história é narrada através de um diário no qual um adolescente deslocado no colégio fala sobre as suas tentativas de se reinventar diante do promissor início de um novo ano letivo. Mas seus dramas adolescentes ganham um toque dramático extra quando sua prima de 18 anos vem morar com ele e com a mãe e logo revela ter tendências suicidas. Emiliano Urbim brinca com as expectativas do leitor e é eficiente em conduzi-lo e tirar seu chão quando o conto termina.

A antologia conta ainda com “Besouro Azul entre o bem e o mal”, de Cecilia Giannetti e “A História Lacrimogênica de Jamile”, de Natércia Pontes.

De um modo geral, “Heróis Urbanos” apresenta personagens extremamente humanos que nada mais são do que sobreviventes. Uma premissa sempre interessante que poderia render até outros volumes.

Vale ainda um destaque para as ilustrações de Rascal que complementam a edição ao final de cada conto.

Título: Heróis Urbanos (exemplar cedido pela editora)
Autor: Rubem Fonseca [org.]
N° de páginas: 184
Editora: Rocco

18 comentários:

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Aprecio antologias e acabo curtindo mais alguns contos do que outros, como foi o seu caso. Bem, conheço a escrita do Raphael Montes e gostei muito do seu aclamado Dias Perfeitos, porém tive algumas controvérsias quanto ao livro O Vilarejo e entendo perfeitamente o seu ponto de vista. Beijo!

www.newsnessa.com

Nessa disse...

Oie
Adoro livros de contos, e este tem uma premissa interessante. Fiquei curiosa para ver as ilustraçãoes.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Débora Castequini disse...

Olá Mari!
Adorei a proposta do livro, diferente das outras coletâneas de contos que circulam por aí. Gosto dessa pegada um pouco mais realista, e a ideia de transformar pessoas comuns em heróis foi linda! Espero que de fato eles possam continuar com esse projeto e expandir a coleção para outros volumes também. Já conhecia o Raphael e o Rubem, estou ansiosa para conhecer um pouco mais dos outros autores.

Um beijo!
Débora
http://amorlivronico.blogspot.com.br/

Gabriela CZ disse...

Estava mesmo curiosa a respeito desse livro, Mari. Acho que é normal gostarmos mais de alguns contos que de outros, e de qualquer modo me parece uma leitura que vale a pena. Espero poder conferir. Ótima resenha.

Beijos!

Sil disse...

Olá, Mari.
Não sou muito fã de livros de contos. Eu começo a me envolver com a história e ela termina. Mas achei o tema muito interessante. Essas pessoas citadas poderiam ser qualquer uma que conhecemos. Então mesmo não gostando de contos, eu leria ele.

Blog Prefácio

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Eu até curto contos, mas não sei se leria esse... Gostei somente da premissa de alguns.
Beijos
Balaio de Babados

Márcia Saltão disse...

Olá!
Gosto de contos, apesar de não ter o costume de ler muitos livros desse gênero. Mas gostei muito da sua resenha e fiquei curiosa pela leitura da obra. Se tiver oportunidade, vou ler sim. Obrigada pela dica. Beijos.

Maria Fernanda Pinheiro disse...

Gosto de contos, especialmente antologias, confesso que também conheço poucos autores dessa obra, mas que não diminuem meu interesse. O enredo é mesmo conquistador, o conto que menos me interessei foi Volnei, mesmo que tenha um assunto bacana, mas esse tanto de linguagem coloquial com certeza ira me incomodar. O tema de Material Escolar também é bacana, e parece ter sido bem desenvolvido, confesso que já tive ideias de vender apostilas respondidas do ano anterior, mas não passou de uma ideia, até porque é algo bem inusitado. Quero ler esse livro, não sabia dele antes da resenha

Josiane disse...

Não sou fã de contos, ainda mais um livro escrito por vários autores

Cristiane Dornelas disse...

Já li livro do Raphael Montes e gostei. É o único que já tive algum contato aí desses autores. Gosto de livros nesse estilo, com mais de uma história, contos e etc. E achei interessante também a ideia dele, de pessoas comuns que se revelam heróis. Dá uma curiosidade de ver porque isso, o que fizeram. Acho que iria gostar de ler, tem umas histórias que parecem bem feitas, talvez outras que nem tanto, mas pelo menos muda bastante e dá para ver mais de uma. É uma dica legal para conhecer outros autores.

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari!

O livro realmente tem uma premissa interessante, gosto de ler sobre heróis comuns e adoro contos. Não conhecia a obra, mas adorei a dica!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Jessica Salgado disse...

Olá, Mari!
Adorei a resenha. Achei interessante a premissa de alguns contos, mas confesso que esse não seria um livro que me empolgaria pra ler.
Concordo com a sua colocação sobre o "exagero" em Volnei, uma das coisas que mais me incomodam é quando exageram em gírias, me soa bastante falso.

Beijos
Jéssica
Reviewing

Adriana Holanda Tavares disse...

Mari, sou mega fã de antologia de contos, porque somos bombardeados com uma série de contos que se entrelaçam exatamente pelo tema ou fundo de cena. Nesse caso fico triste que você não tenha gostado muito de alguns dos contos e eu concordo com você no ponto que fala sobre a linguagem ficar demasiada coloquial que chega a deixar a gente incomodado. Eu odeio quando isso acontece. Fica meio forçoso, podendo ser feito de outra maneira, mas o autor prefere manter o exageirismo!

Andrea Barbosa disse...

Oi tudo bem..
Muito boa a resenha,nunca fui de ler contos e esse parece ter uns bem interessantes,principalmente por se tratar da verdadeira realidade da vida ,do nosso dia a dia,mas infelizmente nao é um livro que eu leria ,as historia nao me pegaram ,ainda mais por ter alguns contos que vc mesma nao curtiu,entao fica pra quem gosta.
Um abraço e muito sucesso :)

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Interessei-me pelo conto do Fonseca, apesar de curto, pois gosto bastante do autor, e também pelo conto Material Escolar, que parece muito bem desenvolvido.
Daria uma chance para a obra por causa dos dois textos.

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Naiara Fidelis Da Silva disse...

Eu também gostei bastante da premissa do livro, com certeza eu leria mesmo com os pontos negativos.
Eu gosto de contos, porém nunca li nenhum que falasse sobre hérois.

Ingrid Moitinho disse...

Não sou muito fã de contos, infelizmente :( mas apesar disso, o livro me pareceu ser bem interessante, fiquei até curiosa. Recentemente eu li um livro de contos e infelizmente a maioria me desagradou, sempre tem aquele que falta algo..

Ana I. J. Mercury disse...

Mari, amei a resenha, confesso pra você que não conhecia o livro, mas achei a ideia superbacana, fiquei bem intrigada e curiosa pra conhecer a luta de sobrevivência de cada personagem!
O Raphael Montes só li O Vilarejo e gostei bastante, e saber que ele faz parte dessa antologia já ganhou pontos comigo.
Vou querer ler com certeza!
bjs

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