quarta-feira, 27 de novembro de 2013

RESENHA: Todo Dia

“É muito difícil ter uma noção verdadeira do que é a vida quando se está num único corpo. Você fica tão preso a quem você é. Mas quando quem você é muda todos os dias, você fica mais próximo da universalidade. Mesmo dos detalhes triviais. (...) Você aprende o verdadeiro valor de um dia, porque todos os dias são diferentes. (...) Ao enxergar o mundo de tantos ângulos, percebo melhor a dimensão dele.” (LEVITHAN, pag. 93, 2013)

Existem livros que são pura diversão e fazem o tempo passar voando. Outros que fazem você refletir e se emocionar. Outros que instigam você a ler de uma vez só para absorver por completo a história, mas, por outro lado, querer prolongá-la pelo máximo de tempo possível. E de vez em quando surgem livros que conseguem ser tudo isso ao mesmo tempo. Um desses (poucos) livros é “Todo Dia”.

A. tem uma existência peculiar. A cada dia ele acorda em um corpo diferente. Cada um de seus dias é um dia na vida de outra pessoa. Outro rosto, outros amigos, outra família, outra rotina. Aos dezesseis anos, ele está acostumado e já aprendeu a lidar com isso. Ele sabe, por exemplo, que nessas poucas 24 horas em que assume a vida de outra pessoa deve tomar cuidado para não tomar decisões que afetarão demais a essa vida. Assim, A. se esforça ao máximo para permanecer neutro. Mas tudo muda quando ele se apaixona por Rhiannon.

Uma das primeiras coisas que me chamou atenção em “Todo Dia” é que este é um livro de mil histórias das quais nunca saberemos o final. Como acompanhamos A. em sua jornada, a cada novo capítulo somos apresentados a uma vida nova, e ao fim do mesmo nos despedimos dela, sem jamais saber o que acontece depois. O admirável é que David Levithan cria histórias tão ricas e personagens tão verdadeiros que consegue fazer com que nos importemos com eles mesmo que nem cheguemos a conhece-los de verdade. Queremos saber o que vai acontecer no futuro, mas não podemos, porque A. não pode. Então, assim como ele, seguimos adiante e aprendemos a deixá-los para trás.

A. é um personagem adorável, dotado de uma moral inabalável e profundamente cativante. Alguém que não tem experiências próprias, mas que conhece todas as situações imagináveis que alguém de 16 anos possa viver e, mesmo que tenha só esta idade, parece um sábio de 90 anos, porque já viu de tudo.

Com isso, Levithan nos faz refletir sobre as mais diversas situações e maneiras de encarar a vida e faz de “Todo Dia” um livro profundo e amplo porque consegue abordar muitos assuntos.

Com uma narrativa simples, mas bela – em dois anos de blog eu nunca marquei tantos quotes durante uma leitura – o autor acerta na mescla entre o engraçado e o romântico, o quotidiano e o filosófico, e faz cada comentário do seu protagonista transbordar de sentimentos que soam tão verdadeiros que os sentimos com ele.

Aos poucos, nos apegamos a A. e torcemos por sua felicidade, mesmo sabendo que ela é quase inatingível. Nunca em um livro eu me peguei torcendo tanto por algo tão incerto e que eu sabia que não poderia acontecer. O romance de A. e Rhiannon é lindo e constitui o cerne da história - sendo o responsável pela guinada na existência do protagonista - mas para mim o ponto alto de “Todo Dia” é maneira como A. encara o mundo, as pessoas e como se sente em relação a tudo que tem sem que jamais possa ter de verdade, sabendo que sua existência será sempre um vazio porque ninguém sabe que ele está ali. Que ele é alguém para quem cada boa noite significa adeus.

Você consegue imaginar uma vida assim? Uma vida em que a cada dia você está em um lugar diferente, sendo alguém diferente e sabendo que jamais voltará a ter contato com alguém que foi seu irmão ou seu melhor amigo?

Com uma proposta originalíssima, David Levithan cria um livro capaz de fazer o leitor sorrir e se emocionar, refletindo e se divertindo ao mesmo tempo. Profundo, singelo, doce, melancólico e intenso: isto é “Todo Dia”

Título: Todo Dia
Autor: David Levithan
Nº de páginas: 277
Editora: Galera Record

9 comentários:

Julia G disse...

Aix, toda resenha que leio desse livro me deixa com ainda mais vontade de lê-lo. Adoro histórias com propostas ousadas, e essa parece ser incrível - e complicada.
Acho que não dá nem para imaginar muito uma situação com essa. Só mesmo lendo o livro para saber.

Beijos

DreehLeal disse...

Eu já sou apaixonada por esse livro mesmo sem nunca tê-lo lido!
A originalidade da história é fantástica! Em um momento onde os enredos começam a se repetir, alguns autores realmente tem mostrado uma criatividade incrível.
Adorei os pontos do livro que você ressaltou, e quando ler espero poder marcar tantos quotes assim! Eu comecei a sentir essa necessidade a pouco tempo, mas sou péssima para isso haha

Beeijos, Dreeh.
Blog Mais que Livros

Adriana disse...

É realmente uma leitura maravilhosa! Quando li tive as mesmas sensações que voce teve, queria muito saber sobre a vida de cada hospedeiro de A depois que ele saia de seus corpos. Achei brilhante a maneira com o autor conduziu a historia e realmente, tem muitos quotes maravilhosos durante a narrativa que me faziam parar e refletir. Sem dúvida nenhuma foi o melhor livro do ano que li até o momento, uma leitura simples, mas intensa e imensamente encantadora! Amei sua resenha! :)
Adriana

Michelli Santos Prado disse...

Oi Mari!!
Já tinha ficado bem interessada quando o livro foi lançado pelo fato dessa viajem do tempo. Li com bastante atenção a tua resenha e quero quando puder comprar este livro e matar minha curiosidade, por que fiquei bem interessada no livro. Espero poder ler em breve!!

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

A cada resenha tenho mais vontade de ler Todo Dia. Mas a sua foi a cereja do bolo, Mari. Preciso arranjar esse livro logo.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Vinícius D. Costa disse...

Que resenha apaixonada, hein? Eu quase já amo o livro por tudo o que você disse. Todo Dia parece ser mesmo uma experiência completa, e a capa meio vintage, anos 1960 me chama muito a atenção. Vou ver se compro nesta Black Friday!
Abraço!
www.livroserabiscos.com

Samuka Rodrigues disse...

Não fiquei muito a fim desse livro não, a história não me atrai tanto. Mesmo sendo considerado tão bom - levando em conta o gênero literário -, simplesmente não é o meu tipo. Além de que me disseram que o final é meio estranho, mas não entendi muito bem, gostaria de saber o que houve...

Rafa C. disse...

Ah, eu adorei esse livro. A cada resenha que eu via a minha curiosidade aumentava, até que não aguentei e li. Não me arrependi nem um pouco, é uma história linda que nos faz refletir por dias, rs. Adorei sua frase "Profundo, singelo, doce, melancólico e intenso: isto é “Todo Dia”" definiu o livro em umas poucas palavras, muito bem escolhidas por sinal.

Beijos, Rafa

Nardonio disse...

Esse livro é impressionante. É um dos poucos que até hoje, só tenho lido resenhas positivas. Acabou agradando a gregos e troianos. No início, achei super estranho que o protagonista não tivesse um "corpo" físico. Depois embarquei na ideia do autor, e vi tudo o que ele queria nos passar. Também achei de uma originalidade sem tamanho. Ponto para o David Levithan.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

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