quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

RESENHA: As Virgens Suicidas

“O Sr. Lisbon se tornou o médium através do qual vislumbrávamos os espíritos das meninas. Nós as enxergávamos nos problemas que causavam a ele: olhos vermelhos e inchados que mal se abriam para ver as filhas definhando; os sapatos arranhados de tanto subir escadas que sempre continham a ameaça de levá-lo até outro corpo inerte; a tez amarelada e pálida morrendo com elas por empatia; e o olhar perdido de um homem que se dera conta de que aquela morte toda seria a sua única vida.” (EUGENIDES, pag. 149, 2013)

No período de um ano, todas as irmãs Lisbon cometem suicídio. Os pais não sabiam que havia algo errado com suas cinco belas meninas até que Cecília - a mais nova, de apenas 13 anos – se atira da janela do quarto. Vivendo na década de 70, superprotegidas e sob uma criação que limita suas atividades à escola, igreja e casa, as outras quatro passam a viver com a repercussão da morte da irmã e eventualmente se vêem presas em confinamento. Se antes meninos, festas e roupas que mostrassem o contorno de seus corpos já eram proibidos, agora até mesmo a escola e suas músicas favoritas deixam de fazer parte de seu tedioso cotidiano. Aos poucos, Lux, Bonnie, Mary e Therese (esta última, a mais velha, de apenas 17 anos) vão definhando até que um ano após a primeira tentativa de suicídio de Cecília, encontram o mesmo destino da irmã.

A sinopse deixa claro que “As Virgens Suicidas” é uma história impactante. O que não se pode imaginar é o quão sensível e delicada é a maneira que Jeffrey Eugenides encontra de contá-la.

Todas as escolhas do autor são pensadas a fim de fazer com que este seja um belo livro, apesar de sua trama chocante, mas sem por isso descaracterizá-la. Estamos diante de uma história triste, mas não a lemos com tristeza, porque Eugenides consegue extrair a beleza das coisas mais banais.

Uma dessas escolhas é momento em que a história é contada e quem a conta. Narrada na primeira pessoa do plural por um grupo de meninos vizinho da família Lisbon e apaixonado pelas meninas, a história é contada décadas depois quando estes meninos já são homens, mas ainda tem o trágico evento presente em suas vidas. O autor poderia ter escolhido inúmeros narradores que transformariam a sua história em inúmeros livros diferentes, mesmo que os acontecimentos permanecessem idênticos. Sua opção deu à história um olhar distante e melancólico e até mesmo belo ao invés de triste e pesado. O primeiro parágrafo do livro já releva o destino das irmãs de forma que o choque é um só e depois se perde. Já sabemos que elas irão se matar de forma que não lemos angustiados. Outra vantagem que este narrador traz diz respeito ao interesse dos meninos pelas irmãs, que poderia ser assustador e obsessivo se não o conhecemos por eles mesmos. É do amor dos meninos por elas que vem parte da beleza de “As Virgens Suicidas” porque, para eles, tudo que envolvia as meninas Lisbon era tão fascinante que mesmo as coisas mais banais e cotidianas se tornavam igualmente fascinantes. Nesse contexto, coisas pequenas adquirem uma importância gigantesca.

Por se tratar de uma narração de eventos passados há décadas, o livro apresenta pouquíssimos diálogos, sendo composto essencialmente por narração e capítulos longos (cinco no total). Também por esta razão a narrativa é entrecortada, seguindo o fluxo das lembranças e não dos acontecimentos.

Como todo bom narrador testemunha, os meninos pouco nos relevam sobre eles mesmos. O que importa são as meninas. O interessante é que elas também permanecem uma incógnita. O leitor pode tirar suas conclusões, tanto quanto os meninos podiam, mas a áurea de mistério se mantém visto que não se tem acessos aos pensamentos ou mesmo às palavras delas, que acabam sendo tão poucas.

Também chama atenção na trama o quanto as pessoas tentam se enganar ao se deparar com situações que preferiam que não existissem e o quanto certos eventos podem marcar profundamente mesmo que aqueles que não são diretamente atingidos por eles.

“As Virgens Suicidas” prova que o torna um livro bom é maneira como sua história é contada e no caso de uma história como esta é preciso delicadeza para transformá-la em um livro lindo e inesquecível. Jeffrey Eugenides mostrou ter essa habilidade de sobra.

Em 1999, a diretora Sofia Coppola fez sua estréia no cinema com “As Virgens Suicidas” em um filme fiel ao livro de Jeffrey Eugenides tanto pela trama quanto pela sensibilidade em contar a história das irmãs Lisbon.

Título: As Virgens Suicidas (exemplar cedido pela Editora Companhia das Letras)
Autor: Jeffrey Eugenides
Nº de páginas: 231
Editora: Companhia das Letras

13 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Conhecia pelo título mas não pelo enredo. Parece bem impactante, fiquei com vontade de ler. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Monique Químbely disse...

Ótima resenha!
Eu com certeza leria esse livro; o plot dele é muito legal. O que mata é essa capa. Não gosto dela o.O
Bjss
sete-viidas.blogspot.com

Luara Cardoso disse...

Vou ler esse livro essa semana. Estou ansiosa e ao mesmo tempo receosa de lê-lo. Não sei se é um livro para o meu momento, mas isso me deixa ainda com mais vontade de saber o que eu vou achar, sabe? :)

Um beijo,
Luara - Estante Vertical

Mirelle Marques disse...

Parece bem impactante mesmo e diferente das minhas leituras. Gostei muito! Já entrou na minha listinha de 2014!!

Beijinhos

blog-belavida.blogspot.com.br

Brubs. disse...

Sou louca por esse livro e a cada opinião que vejo só aumenta minha vontade
Beijokas, Brubs
Livros de Cabeceira
@IWannaRuffles

Helana O'hara disse...

Oie.
Nunca li o livro. Mas o filme é meio cult e assisti. É um ótimo filme e realmente dizem que ele ficou muito fiel a obra do autor.


Beijinhos
www.intheskyblog.blogspot.com.br

Thaís M. disse...

Fiquei curiosa para ler!! Já tinha ouvido outras resenhas sobre o livro, mas essa foi a melhor. Quero conseguir um exemplar desse para ler! E que capa chocante ein?
Beijoss

Adriana disse...

Realmente parece uma historia forte. Mas pelo que entendi, não ficamos angustiados porque já sabemos de antemão sobre os suicídios então a leitura não se torna carregada. Eu não sabia que tinha um filme do livro, vou procura-lo também, quero ler o livro e ver o filme! Ótima resenha! :)

Fabiola Melo disse...

É a primeira vez que vejo falar sobre esse livro e me interessei bastante. Provavelmente irei
ver o filme também, a sinopse me chamou muito atenção ainda mais por ser uma história "pesada" e com uma boa reflexão.
Parabéns pelo blog e adorei a resenha!

Luana Almeida disse...

Gostei dessa capa. Transmite bem a delicadeza que você falou na resenha, mas sem deixar de ser impactante como a história.
Eu assisti esse filme, mas não sabia que era inspirado em um livro. Gostei! Acho que vou procurar ler.

Rossana Batista disse...

Ainda não li nenhum livro do Jeffrey, mas gostei bastante da resenha, fez com que eu me sentisse com vontade de conhecer essa drama, essa história tocante.
Espero poder ler em breve.

Roberta Moraes disse...

Nossa, um livro de apenas cinco capítulos? Não vai dar nem para respirar! rsrsrs
Faz um tempinho já que venho querendo ler esse livro, espero que para mim ele também seja inesquecível!

Nardonio disse...

Não sabia que esse livro tinha ganhado uma adaptação pro Cinema. Legal saber que o filme foi fiel ao livro.
A história me parece ser bem densa mesmo, mas o autor acertou em cheio em colocar um narrador observador. Dar uma quebrada na tensão forte das cenas.
Fiquei bem curioso pra ler.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

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