segunda-feira, 10 de março de 2014

RESENHA: Onde a Lua Não Está

“O pior nessa doença não são as coisas em que ela me faz acreditar, ou que me obriga a fazer. Não é o controle que ela tem sobre mim, nem mesmo o controle que ela permite que outras pessoas tenham.
O pior de tudo é que me tornei egoísta.
A doença mental volta as pessoas para dentro. É o que eu acho. Deixa-as para sempre presas pela dor de nossa própria mente, da mesma forma que a dor de uma perna quebrada ou um polegar cortado prenderá sua atenção, segurando-o tão firmemente que parece que sua perna boa ou seu polegar bom deixaram de existir.
Estou preso a olhar para dentro.” (
FILER, 2014, p. 241).
 
***
 
Em Onde a Lua Não Está conhecemos Matthew no fatídico dia em que seu irmão mais velho falece, infortúnio ocorrido na sua infância e que acaba por moldar toda a sua adolescência e juventude.  A obra acompanha Matthew e sua família no ápice da dor e vemos com o impacto da morte os afetou, sobretudo no que diz respeito ao protagonista, que vive dia após dia, além da perda em si, a dor da culpa e o do arrependimento pelo acontecido. Assombrado continuamente por esses fantasmas, pouco a pouco ele começa a viver no limite entre a lucidez e a insanidade.
  
A primeira coisa que me chamou a atenção em Onde a Lua Não Está foi sua narrativa propositalmente confusa. Narrado em primeira pessoa por um protagonista nitidamente instável, não é de se estranhar que ele misture diversos períodos entre o presente e o passado, muitas vezes emendando um episódio no outro, de modo que ao se distrair por um parágrafo você pode se perder em todo o capítulo. Apesar de ser uma colcha de retalho, tal estrutura narrativa não afeta a compreensão da estória, mas, infelizmente, torna a leitura um pouco cansativa e até mesmo enfadonha em alguns momentos.
 
Mesmo contando com elementos bastante originais, devo admitir que a obra como um todo me pareceu um tanto vazia. Creio que o material que o autor tinha em mãos renderia um conto — provavelmente um excelente conto —, mas ao optar por escrever um livro sem conseguir desenvolver tramas paralelas, a estória se mostrou simples e linear, não justificando suas quase trezentas páginas. Na verdade, esta era uma verdadeira sinuca de bico, pois o protagonista-narrador acabava por limitar o espectro da estória, não sendo viável a inclusão de outros conflitos. Mas da forma como ficou, fiquei com a nítida impressão de “ser enrolado”.
 
Nathan Filer é enfermeiro da área de saúde mental e sua experiência certamente imprimiu um alto grau de verossimilhança ao livro. Todavia, talvez este tenha sido justamente o calcanhar de Aquiles da obra: investiu-se tanto em criar uma estória real, que a ficção parece ter ficado em segundo plano. De toda forma, o livro de estréia certamente demonstra o talento do autor, que indubitavelmente apresentará um texto mais maduro em seu próximo trabalho.
 
Para quem tiver interesse, o livro deu origem a um curta metragem de animação, que pode ser assistido no site da Carambolas Films.
 
Título: Onde a Lua Não Está (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Nathan Filer
Tradutora: Ryta Vinagre
N.º de páginas: 271
Editora: Rocco

9 comentários:

Lise Orsi disse...

Oi Alê,

eu fiquei bem interessada no começo da resenha, mas ao saber dessa confusão de narrativa temporal, já desisti. Não curto não quando isso ocorre. Eu algo que me incomoda demais.

Fico triste também em saber que o autor não conseguiu desenvolver melhor seus aspectos orginais.

liliescreve.blogspot.com

Marco Antonio Marco Antonio Sousa da Silva disse...

Olá Alexandre,

Essa é a primeira resenha que leio desse livro e me deixou bem curioso, gosto de histórias assim, também gostei da capa....boa dica....abraços.

devoradordeletras.blogspot.com.br

Nardonio disse...

Realmente, Alê, o autor tinha uma ótima premissa em mãos, mas foi uma pena que ele não soube extrair tudo o que poderia e deveria. Confesso que tenho um certo receio de narrativas com essa estrutura meio confusa. Mesmo com todos esses problemas listados por você, fiquei curioso pra ler.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Já tinha ficado curiosa por esse livro quando vi a sinopse no Skoob, e agora fiquei ainda mais. Mas saber que o enredo é um tanto enrolado me faz pensar que teria que estar com a mente bem limpa para lê-lo. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Poison Girl disse...

Esse ano eu já li livros cheios de sofrimento de mais, se eu continuar vou acabar ficando depressiva, pois a perda e a dor dos personagens é como se fosse minha, ler é sempre intenso para mim, faz parte de mim. Apenas por este motivo eu não leria o Onde a Lua Não Está. O enredo parece muito interessante.

http://worldbehindmywall.fanzoom.net/

Lais Cavalcante disse...

Eu gostei desse livro só pela capa. Achei bem diferente, e a sinopse dele me deixou curiosa ao extremo para lê-lo.

Laura Zardo disse...

Adoro este tipo de livro, bem triste e confuso, bem minha cara, hahaha. Além de ter ficado encantada com essa capa, eu sou assim, sempre que vejo uma capa e ela me vê e rola aquele clima, eu sei que não podemos escapar, demore o tempo que for, um dia nossos caminhos vão se cruzar e isso serve para este livro. =D

Desbravadores de Livros disse...

Gostei bastante de sua resenha, Alê, só senti um pouco de falta sobre a descrição da história em si.
Você focou tanto em dar sua opinião, falou superficialmente do personagem, mas a história em si eu não sei exatamente do que se trata. (Será que tenho que ler de novo pra entender?). O primeiro parágrafo descreve a obra completa, achei resumido. Mas, enfim... Não culpo sua descrição. Talvez seja o livro que não tem muitas opções para ser descrito mesmo. Tem livros que nos deixam sem saber o que falar, para não cometermos spoilers srsrs.
Adorei teus comentários e tuas metáforas utilizadas, é bem produtivo ler uma resenha assim.
Ah, eu notei um errinho lá em cima, acho que de digitação mesmo. Onde deveria estar "e como o impacto da morte os afetou", lê-se "e com o impacto da morte os afetou". Se tiver certo, está faltando alguma coisa, pois deixou a frase sem sentido.
Não sou chata, é só uma questão de observação, caso tenha interesse em consertar :D

M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso Top Comentarista

Michelli Santos Prado disse...

Olá Alê, tudo bem??
Este livro desde seu lançamento não havia me chamado a atenção (devido sua sinopse), e depois de conferir sua resenha me desanimei ainda mais, pois confesso que historias assim sempre me desanimam, pois estou acostuma a ler a noite e algo que canse a mente, são leituras que realmente não me estimulam muito.

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