segunda-feira, 27 de outubro de 2014

RESENHA: O Pintassilgo

“Mas às vezes, inesperadamente, a dor me atingia em ondas que me deixavam sem ar; e, quando as ondas recuavam, eu me via olhando para os destroços repulsivos de um naufrágio, iluminados por uma luz tão lucida, tão deprimente e tão vazia que eu mal conseguia lembrar que o mundo algum dia chegara a ser algo que não morte.” (TARTT, 2014, p. 84).

***

Sucesso de público e vendas, aclamado por escritores e críticos, e laureado com o Pulitzer de literatura. O Pintassilgo foi um dos livros mais comentados do ano passado, acumulando os mais diversos elogios e conferindo a Donna Tartt o título de uma das cem pessoas mais influentes do mundo da revista TIME.

Theo Decker é um dos sobreviventes de um ataque terrorista ao Metropolitan Museum of Art, que ceifa a vida de sua mãe. Theo sofre apenas pequenas lesões, e enquanto luta para sair do meio dos escombros e dos corpos das vítimas, decide levar consigo o quadro “O Pintassilgo” de Carel Fabritius. A partir da morte da mãe, todo o seu destino será reescrito, desde as tribulações da adolescência até as responsabilidades da vida adulta. 

Inicialmente, a narrativa se mostrou bastante arrastada. Tal característica apenas é superada quando a parte introdutória do livro termina, e a premissa passa a ser realmente explorada. A partir de então, a leitura assume contornos mais fluídos, sobretudo pelo próprio laço que o leitor rapidamente desenvolve com Theo. 

Além de um protagonista cativante, o envolvimento com a obra se dá pela curiosidade do leitor sobre os acontecimentos que virão a seguir. Acrescente-se a isto que a gama de assuntos abordados no livro é extensa, e o luto é apenas o primeiro (e mais óbvio) deles. O grande diferencial é que Donna Tartt não se propôs a escrever sobre tais temas, mas sim a criar uma estória em que o leitor percebe-se como eles se relacionam, gerando momentos de reflexão. Fazia tempo que não me envolvia tanto com um livro, a ponto de refletir sobre ele enquanto estava ocupado com as tarefas do dia a dia, chegando até mesmo a sonhar com a obra. 

Por conta de O Pintassilgo, Donna Tartt foi comparada a grandes nomes da literatura, em especial com Charles Dickens (influência esta reconhecida pela própria autora), e certamente entendo o porquê. Li apenas um livro de Dickens, mas já foi o suficiente para perceber o cuidado do autor em não “mastigar” todos os acontecimentos, deixando a cargo do leitor interpretar as informações que estão nas entrelinhas. Nesse sentido, Tartt conseguiu mostrar inúmeras facetas da trama e dos personagens utilizando-se do mesmo recurso de Dickens. 

Como o livro é narrado por Theo e cobre um período de aproximadamente doze anos, e sendo a jornada da protagonista o cerne da obra, é evidente que o livro terá altos e baixos. Afinal, a vida real também é assim, contendo acontecimentos interessantíssimos e outros monótonos. Considerando esta “montanha russa”, creio que se o livro fosse um pouco mais conciso não haveria tempo do leitor perceber estes momentos de declínio. 

Creio ser um fato pacífico que O Pintassilgo é uma obra de difícil classificação. Afinal, o cerne da estória é a atribulada vida de Theo, da adolescência a vida adulta, então, em alguns momentos destaca-se o drama e o romance, em outros o suspense e até mesmo o thriller. Igualmente chama atenção o fato de que o livro é quase que totalmente imprevisível, surpreendendo os leitores em diversas ocasiões. 

Theo é um dos melhores protagonistas que vi nos últimos tempos, pois foi delineado com profundidade incomparável. Temos um personagem em luto, em um período já conturbado da vida, que perde tudo o que lhe é familiar. Sua vida como conhecia passa a desvanecer a cada dia, e lhe é imposta a árdua tarefa de se adaptar. Creio que o ponto alto do livro são os relacionamentos travados por Theo com os mais diferentes tipos de pessoas e como eles determinam ou influenciam a evolução do protagonista. 

Entretanto, preciso dizer que O Pintassilgo é um livro que demanda maturidade do leitor. E não apenas maturidade para entender todas as suas complexas camadas, mas sobretudo para apreciar a obra em toda a sua magnitude. Por isso mesmo, este é um livro que certamente pretendo reler.

O saldo final é positivo e sinto-me obrigado a concordar com Stephen King: este de fato é um livro raro. O Pintassilgo foi uma leitura impactante e envolvente, que faz o leitor refletir a todo instante e que surpreende por sua profundidade. Ainda assim, cheguei ao final com um gostinho de “esperava mais”. Afinal, foram tantos os elogios que aguardei por aquele “que a mais” durante o decorrer da leitura e que acabei não encontrando. 

Encerro dizendo que seria muito fácil escrever um tratado sobre este livro, pois material para a análise é o que não falta. Mas seria impossível prosseguir sem correr o risco de spoilers, então encerro a resenha por aqui, ainda que com a ciência de que não fiz jus ao livro. 

Título: O Pintassilgo (exemplar cedido pela editora)
Autora: Donna Tartt
N.º de páginas: 719
Editora: Companhia das Letras

20 comentários:

Nardonio disse...

As credenciais desse livro são mesmo de respeito, hein?!?! Prêmio Pulitzer de Literatura, queridinho de críticos e escritores, entre eles Stephen King, não tem propaganda melhor.
E o bom é que ele não é superestimado, ele merece tudo isso mesmo. O que achei interessante é ver que o protagonista parece ser de verdade. Que sua vida está diante dos nossos olhos sem cortes, pois não vemos apenas as cenas com mais ações, mas também a parte mais monótona de sua vida.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Ø Väzïø ñä Flø® disse...

Começo dizendo que não conhecia o livro citado..Mas realmente é de impressionar um curriculum assim. De início não acharei que gostaria, afinal, leitura arrastada sempre me faz ficar com o pé atrás. Mas no decorrer da sua resenha, percebi o porque do começo monótono. Porque é real..é a vida como ela é. Um personagem como todos nós, com dias bons, outros ruins, outros agitados e outros, marasmo.
Talvez esteja aí o grande diferencial. Não li nada de Dickens para poder comparar, então não posso comentar.
Mas é um livro que lerei.
Beijo

Camila Tebet disse...

Uau, se eu já estava com vontade de ler o livro antes da resenha, agora mal posso esperar! Os comentários positivos (e o Pulitzer, é claro!) me fazem ter a certeza de que a obra será uma das próximas leituras. Só estou esperando terminar a faculdade para degustar e me dedicar ao livro.

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Só fui tomar conhecimento desse livro quando foi lançado aqui no Brasil, e apesar de ter gostado da premissa queria ler algumas opiniões antes de acrescentar definitivamente à lista. Fiquei bastante intrigada, Alê. Seus comentários sobre os altos e baixos do livro bem como da vida do protagonista serviram para aguçar minha curiosidade. Vou querer ler sim. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Alê!
Em dias que os livros de fantasia tem dominado o mercado, ver um livro reflexivo e com carga emocional profunda é simplesmente maravilhoso!
Não tive oportunidade de ler ainda, entretanto, sei que me embriagaria com a leitura porque amo livro que tem uma abordagem mais psicológica das personagens e nos traz reflexão para vida pessoal.
Dá para sentir por sua resenha o quanto o livro foi importante para você.
Tenha uma semana de sucesso!
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Bárbara Prince disse...

Só tenho ouvido críticas positivas com relação a esse livro, e o que todos dizem é que realmente ele é único. Fico muito curiosa, principalmente por causa do seu elogio à construção do protagonista. E, é claro, é sempre interessante quando a trama de um livro não permite falar muito na resenha - geralmente, são histórias surpreendentes! Tomara que eu possa ler em breve. :)
www.blogsemserifa.com

Jessica Lisboa disse...

Livro grandinho hein, bom nunca li nada dessa autora. Sua obra pareceu ter uma narrativa muito boa, fiquei curiosa com a personagem da trama, a capa e outro fator que me chamou atenção. Espero eu possa o ler pois gostei bastante.

Girlene Viey disse...

Esta obra me deixou bastante curiosa! Ja ouvi falar mais ainda não
li nenhum resenha ! Achei a historia bastante interessante, fiquei
com certo interesse de conhece-la mais fundo. A capa e bem simples
mais numero de pagina e bastante animado EU ACHO hahaha!

Milena Soares disse...

Nossa o livro parece excelente hem, prêmio Pulitzer de literatura num é pra qualquer um não e Stephen King falando que é um livro raro, fiquei super curiosa pra conferi isso tudo que estão dizendo!

Edna Dias disse...

719 páginas?
Um livrão hein!!
Bem, eu gostei da sua resenha, achei um pouco longa e fiquei esperando que vc falasse mais do Theo, mas eu entendi que o livro é tão intenso e profundo que o que vc escreveu foi quase um relato poético... e adorei!
Fiquei imaginando como Theo continuou vivendo após a perda pelo atentado.
Quero e lerei este livro com certeza!

Thállyta Silva disse...

Drama, romance, suspense e thriller em diversos momentos de um mesmo livro? Este livro parece ser muito bom, ainda mais por nos fazer refletir sobre os temas abordados. Imagino o que o personagem deve ter passado para se adaptar, após as perdas familiares.. Com certeza estará em minha lista de leitura!

Loly Fonseca disse...

Sem duvida nenhuma parece ser aquele tipo de livro muito bem construído e escrito... Acho que uma história que se passa ao longo de 12 anos realmente deve apresentar cenas enfadonhas e praticamente desnecessárias, mas também aquelas que te instigam profundamente... Ainda não consegui ter uma opinião formada acerca da história tratada nesse livro... Não sei se lerei ou não e, caso aconteça, se irei apreciar ou não a leitura, mas sem duvida nenhuma esse livro já inicia um degrau a frente devido aos inúmeros elogios recebidos... Vou procurar saber ainda mais sobre esse livro... Quem sabe eu leia mais pra frente...
Kisses =*

Daiane Santos disse...

uau... esse livro me parece interesante e intrigante .... otima resenha!
www.batomnacapa.blogspot.com.br

Adriana disse...

Parece realmente uma excelente leitura, e fico muito feliz por voce não ter se aprofundado mais, evitando expoilers! E mesmo sendo tão extensa e me parecendo ser um pouco arrastada em algumas partes, a leitura me parece quase obrigatória pra quem gosta de um bom livro! Já vou colocar na minha "pequena" lista de livros desejados!

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Alê.
Fiquei feliz em ler a sua resenha. Um dos livros mais lidos, dos escritores mais conhecidos e eu não tinha conhecimento da obra ainda.
Gostei em saber que o livro requer uma certa maturidade para a leitura. Gosto de obras que envolvam a complexidade e que exercitam a mente.
Vou querer ler, sem dúvidas.

Liza Mikaelly disse...

Realmente não conhecia o livro mas também só estou tendo um certo conhecimento da autora Donna Tartt agora. Fiquei bastante surpreendida pela historia. E de já ter ganhado alguns prêmios também me impressiona bastante. A capa é bonita mas tem uma coisa que não me sai da cabeça: 719 paginas?! Meu Deus! quanto tempo demorou para ler? Deve ter demorado um tempinho né? Eu demoraria no minimo se estiver gostando do livro uma semana ou duas dependendo do tempo disponível. Emfim ótima resenha. Beijos <3

Tamires Fernanda disse...

É mesmo muito difícil falar de um livro que tanto gostamos ou que ele é muito bom. Mas temos vc para nos trazer resenhas maravilhosas como essa...^^

Abçs :)

blogsemserifa.com disse...

Estava curiosa sobre esse livro (mas com um pouco de preguiça de ler, admito), e adorei a resenha! Livros muito comentados sempre correm esse risco de não serem tão impressionantes assim, né? De qualquer modo, obrigada por não dar spoilers! Quem sabe uma hora dessas tento a leitura.

Sandra Letícia Santos Gonçalves disse...

Quero realmente ler este livro, e após a leitura da resenha está vontade só aumentou.

Eduardo neves lima disse...

Eu li. E, no final, fiquei com mesma vontade do autor da resenha para ler de novo... algum dia depois no futuro. Me apeguei aos personagens depois de vários meses de leitura (quase desisti de ler a obra em várias oportunidades, mas na reta final empolguei).

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