domingo, 30 de novembro de 2014

RESENHA: Androides sonham com ovelhas elétricas?

“Caminhando na direção da caixa de empatia, ela rapidamente se sentou e de novo pressionou o par de manetes. Ficou envolvida quase instantaneamente. Rick permaneceu ali segurando o receptor de vidfone, consciente da partida mental de sua esposa. Consciente de sua própria solidão.” (DICK, 2014, pag.170)

Quando comecei a me interessar por ficção cientifica me foram recomendados dois livros como sendo os essenciais do gênero: “As Crônicas Marcianas”, de Ray Bradbury (o mesmo do ótimo “Fahrenheit 451”) e “Androides sonham com ovelhas elétricas?” O fato do título ser uma pergunta já é um indicativo que a intenção do autor é fazer o leitor pensar em busca de conclusões.

Depois da Guerra Mundial Terminus, quem pode emigrou para colônias interplanetárias (em especial para Marte), quem não pode, ou por alguma razão não quis, vive em um lugar tecnologicamente avançado porém solitário, coberto pela Poeira (a principal responsável pela eliminação esmagadora da vida animal e vegetal do planeta). Nesse cenário, Rick Deckard é um caçador de recompensas e sua função é aposentar androides. Quando lhe é dada a missão de aposentar seis novos modelos de “andys” (cujas características se assemelham de maneira impressionante às humanas) Rick aceita pois assim, quem sabe, poderá comprar sua tão sonhada ovelha genuína para substituir o animal elétrico que tem de estimação. Mas no processo, Rick pode se ver contestando suas próprias convicções.

Nas primeiras linhas, Philip K.Dick já deixa claro que seus personagens vivem uma realidade em que sentimentos podem ser regulados e pré-definidos eletronicamente o que faz com que nada seja essencialmente real. Esse, por si só, já seria um cenário assustador, mas o autor insere isso em um mundo desolador no qual a maioria dos lugares está desabitada. Em que prédios inteiros têm um único apartamento ocupado e o resto, como diria outro grande escritor, é silêncio. Apresentar essa Terra ao leitor, fazê-lo acreditar que tudo que conhecemos deixou de existir, é o grande mérito do autor nas primeiras páginas.

Nesse panorama em que a vida é escassa, conhecemos três tipos de seres: os humanos Normais (cujo maior representante é Dick), os Especiais (seres que sofreram alterações biológicas devido à Poeira – em especial JR Isidore) e os Androides (cuja principal diferença dos humanos é a incapacidade de sentir empatia). Cada qual com os seus questionamentos e aspirações. Para um Normal como Rick, por exemplo, comprar uma ovelha genuína é um sonho (já que é sinal de status possuir um animal de verdade em um mundo no qual a vida é tão preciosa). Já os Androides, que longe de serem meros seres robóticos, são altamente inteligentes e se parecem com humanos a ponto de só poderem ser diferenciados através de testes.

A meu ver, mais interessante que a história em si é o mundo que Philip K.Dick cria. A necessidade de convívio que esses personagens exalam, as dúvidas sobre o que é real, confiável e correto e o que não é, são passíveis de identificação, mas foram transpostas para um mundo que mais se assemelha a um vácuo. A razão pela qual acho o cenário todo mais interessante que seus habitantes é que os personagens me pareceram ter como função ilustrar os questionamentos propostos. Que eles foram criados para os questionamentos ao invés de os questionamentos partirem deles. Talvez isso seja uma ferramenta de que o Philip K. Dick se vale para ressaltar que nesse mundo a vida é mecânica e gelada (e que satisfação, raiva e até mesmo paz não são sentidos de verdade, já que podem ser atingidos ao se escolher uma opção em um sintetizador). Compreendo que em um gênero como a ficção científica isso pode ser intencional, mas senti que me afastou da leitura.

A exemplo do que me refiro, o relacionamento de Rick e Iran, sua esposa, foi uma das coisas que me pareceram pouco exploradas. Iran parece existir mais para abordar o fanatismo religioso (fazendo um interessante paralelo com o vício em drogas) e para mostrar que mesmo com os sintetizadores males como a depressão ainda existem, do que para ser responsável por ações que tenham algum impacto na trama. É funcional, mas não empolga. Se pensar no histórico que tenho com a literatura policial, pode-se dizer que ainda estou engatinhando no mundo da ficção cientifica, então talvez seja por isso que tenha sentido uma certa dificuldade em me conectar com os personagens, mas não posso negar que aconteceu.

Em 1982, “Androides sonham com ovelhas elétricas?” ganhou uma adaptação dirigida por Ridley Scott sob o título de “Blade Runner”. O filme, que se tornou um dos maiores clássicos do cinema de ficção cientifica, conta com Harrison Ford no papel principal e foi indicado a diversos prêmios, inclusive dois Oscars. Lançado meses após a morte de K.Dick, “Blade Runner” parece ser um valioso adendo ao livro que o originou, mesmo que dê um tratamento diferente à história. Algo que pretendo conferir em breve.

Nessa edição da editora Aleph, o romance vem acompanhado de materiais extras que ilustram a importância que a obra adquiriu, em especial após o sucesso do filme. Uma carta escrita pelo autor aos produtores revelando sua satisfação com o resultado que pareciam prestes a alcançar ao levar sua obra para o cinema; sua última entrevista; e um posfácio escrito pelo tradutor da edição e conhecedor da obra de Philip K. Dick, fazendo comentários e comparações entre as duas versões da história de Rick Deckard. Todos materiais muito válidos.

Certa vez ouvi alguém dizer que era uma pena que a ficção científica “pura” tivesse perdido seu espaço já que é um gênero fascinante. Concordo. Os grandes clássicos do gênero têm em comum o fato de serem inteligentes, reflexivos e empolgantes. Para mim, “Androides sonham com ovelhas elétricas?” tem as duas primeiras características e é mais do que eficiente em transportar o leitor para um mundo rico em possibilidades. Gostei muito da idéia geral, mas teria gostado ainda mais se o autor tivesse ido mais a fundo com os personagens. Certamente me deixou na expectativa para conferir outros livros do autor.

Título: Andróides sonham com ovelhas elétricas? (exemplar cedido pela editora)
Autor: Philip K. Dick
N.º de páginas: 269
Editora: Aleph

9 comentários:

Thales Soares disse...

Nossa, sou muito doido pra ler esse livro, só tenho vontade já pelo titulo.

http://criativare-leitura.blogspot.com.br/

Vitória Pantielly disse...

Oii Mari !
Sua resenha foi super cativante, eu adorei!
Infelizmente não sou fã de ficção científica, e esse tipo de livro me deixa entediada, é difícil eu iniciar a leitura e chegar no final!
Bem, já meu noivo ama, ele já leu o livro e fala que é realmente ótimo :)
Bjs

Ingrid Moitinho disse...

Não conhecia esse autor, e olha que eu gosto muito de ficção cientifica.
Gostei muito da sua resenha, o livro parece ser bem interessante, acredito que vou gostar. Só teve uma coisa que não gostei, foi essa capa. :l

Lais Cavalcante disse...

Eu não sou muito adepta a ficção científica porque não tive boas experiências com livros assim, mas do jeito que você falou, me deu muita vontade de pesquisar um pouco mais sobre ele. Sua resenha foi muito persuasiva e cativante, parabéns!

Nardonio disse...

Não conhecia esse livro até um dia desses. E acho que foi você que comentou em algum vídeo. Adoro ficção científica, mas també estou engatinhando no gênero. Vou tentar lê-lo e assistir a adaptação também pra fazer aquela velha comparação.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Desbravadores de Livros disse...

O fato de poder admoestar sentimentos é um dos pontos que mais me chamou a atenção na obra. Foi resenhado o livro lá no Blog. Achei excelente e o autor está na lista dos favoritos já. Acredito que você irá gostar dos próximos dele mais do que esse.

­­Silviane Casemiro disse...

Oi, Mari.
Gostei muito do plot desse livro, mas não posso deixar de admitir que em alguns pontos da resenha minha cabeça deu um nó; Mas isso não foi algo que me tirou o interesse da leitura. Acredito que o único problema é que eu não leio muitos títulos de ficção-cientifica, então posso acabar achando a leitura um pouco chata/cansativa. Mas é um grande desafio, acho que vou colocar na minha lista de interesses para 2015.

Beijos.
Blog Cantar Em Verso

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Tomei conhecimento desse livro de ver você dizendo que queria lê-lo, Mari. E o título realmente desperta uma grande curiosidade. Todavia, seus comentários sobre a história e as reflexões me deixam ainda mais curiosa. Mesmo que os personagens não sejam tão envolventes. Realmente preciso ler. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Adriana disse...

Por não ser fã de ficção científica, não tinha tomado conhecimento desse livro ainda, mas achei sua resenha empolgante, e fiquei muito tentada a "tentar" ler, e quem sabe descobrir que eu gosto sim do gênero, só não tinha lido o livro certo ainda né...Parabéns pela resenha, eu gostei bastante!

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