sábado, 13 de dezembro de 2014

RESENHA: Por Onde Você Anda?

“O que aconteceu com ele? Por que desapareceu? Não houve nenhum sinal de violência. Seus cartões de crédito não foram utilizados. Seu carro estava na garagem perto do apartamento. Ninguém com sua descrição física apareceu no necrotério, embora, no começo, minha mãe e meu pai tenham sido chamados algumas vezes para olhar o corpo de um ou outro jovem sem documentos que fora retirado do rio ou morto em algum acidente.” (CLARK, 2014, p. 12).

***

Mack desapareceu há dez anos e ninguém sabe o que aconteceu com ele. Diversas possibilidades foram cogitadas pela família, desde sequestro a perda de memória. Para a polícia, o desaparecimento de Mack é voluntário, visto que este liga todos os anos durante o dia das mães, de modo que não há razão para investigar. Carolyn, irmã de Mack, já não aguenta mais viver neste mundo de incerteza, e decide que chegou a hora de encontrá-lo. Entretanto, suas investigações acabam fazendo com o que o irmão se torne o principal suspeito do sequestro de uma jovem.

Embora a premissa seja interessante e o desfecho tenha mostrado toda a criatividade da autora, creio que faltou habilidade na hora de executar uma ideia que tinha tudo para dar certo, mas que não deu. 

O primeiro problema é a constante alteração de pontos de vista, recurso este que, quando usado corretamente, mantém o leitor preso a leitura. Entretanto, ao picotar a narrativa entre mais de dez pontos de vistas, alguns narrados em primeira pessoa outros em terceira, o leitor não consegue se conectar com nenhum personagem. Além disso, o ritmo da estória também é afetado, afinal, mostrar o que acontecia com todos os núcleos da estória em todos os momentos, a tornou, inevitavelmente, mais lenta. 

Além disso, os diálogos da autora não me agradaram, pois pareceram extremamente artificiais e até mesmo mecânicos. Independentemente de quem era o personagem, de sua personalidade ou do contexto da cena, o diálogo tinha sempre o mesmo tom, não conseguindo refletir a identidade de seu interlocutor. 

O núcleo policial da estória tampouco me convenceu. Os detetives encarregados, além de não possuírem carisma, simplesmente não convencem no papel, nem na condução da investigação. Mesmo que nos agradecimentos do livro a autora mencione a consultoria prestada por policiais aposentados, minha impressão era de que Clark não tinha o necessário conhecimento sobre o procedimento investigativo, tampouco de seu aspecto legal. 

Catheryn é uma das personagens mais incoerentes que encontrei na ficção policial. Após dez anos do sumiço do irmão, ela simplesmente decide que aquela era hora de encontrá-lo, custasse o que custasse, sem apresentar uma motivação convincente para isso. Minha indignação atingiu o ápice quando ela, ao ser intimada para fornecer determinado documento à polícia, liga para o advogado para confirmar se está é a melhor opção, sendo que ela mesma é formada em direito, trabalhou com assessora de juiz e inclusive chegou a se apresentar como uma “advogada das boas”. Convenhamos que não é preciso ser um "advogado dos bons" para saber que, ao ser intimado, a única opção é obedecer a ordem judicial.  

Apesar dos pesares, os capítulos curtos tornam a leitura dinâmica e a ideia central do livro é realmente interessante, sendo que o final é surpreendente. Então, se você deseja uma leitura descompromissada, Por onde você anda? talvez seja uma boa opção. 

Título: Por Onde Você Anda? (exemplar cedido pela editora)
Autora: Mary Higgins Clark
N.º de páginas: 351
Editora: Record 

6 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

A premissa realmente é muito interessante, Alê. Mas é triste saber de tantos estragos. Me parece um exagero de pontos de vista, e com diálogos artificiais ainda não dá. Acho que não encaro essa. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

thayna ta disse...

Nossa, me lembrou demais Não conte a ninguém- Harlan Coben.
Com o sumiço e essas probabilidades de sequestro.
Uma pena ter faltado um pouco de habilidade nas ideias do autor. E também diálogos que não lhe agradou.
KKKKKKKK, dez anos após o desaparecimento e quer procurar? Que louca.
Fiquei na dúvida de ler, mas talvez qualquer dia mais pra frente eu compre.
Abraços Alê,
ThayQ.
http://leituras-insanas.blogspot.com.br

Jéssica Soares disse...

Oi, Alê! Tudo bem? Poxa, a sinopse parece ser muito bacana, é uma pena que a autora não soube desenvolver bem a sua trama. Eu, particularmente, gosto muito da alternância entre pontos de vista em uma narrativa, mas a presença de muitos deles juntamente com a mudança de primeira para terceira pessoa pode realmente afetar o ritmo, o que pode ser um problema.
Ah, realmente, é um cúmulo uma personagem ser advogada e não saber como se comportar com relação a intimação, isso é muito sem noção! Não sei se estou mais animada para conferir o livro, caso surja a oportunidade posso até conferi-lo, mas não terei tantas expectativas.
Jéssica - http://lereincrivel.blogspot.com.br/

Nardonio disse...

Nossa! Fazer uma trama dividindo a narrativa com muitos pontos de vistas é complicado demais. Se o autor consegue dar uma sequência nos acontecimentos, ainda vai, mas, quando ele descrevem as mesmas cenas, a coisa não rola. Só digo que também achei essa incoerência da personagem fora da realidade. Enfim, não sei se o leria não.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Sarah Costa disse...

Oie,
Eu acho que a irmã do homem desaparecido é meio maluca, pois só foi procurar o irmão depois de uma década, todo mundo sabe que a policia é lenta nas suas investigações, inclusive em alguns livros isso acontece.
A premissa do livro não me agradou muito. Agora estou um pouco em dúvida se leio o livro ou não.
A capa é linda demaissss <3

Vitória Pantielly disse...

Alê :}

Não gosto quando um autor monta uma ótima história, mas deixa a desejar nos personagens, acabo desanimando com a leitura. Detetives são um problema mesmo, ou eles são "os detetives" ou simplesmente não nos convence, e é uma pena que a autora tenha pecado nesse quesito!
O que me deixou curiosa foi o motivo do desaparecimento, mas não sei se daria uma chance pro livro .. Acabei desanimando!!
Bjs

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