domingo, 29 de março de 2015

RESENHA: Mar da Tranquilidade

“Nem sei se cheguei a ir longe naquela noite – provavelmente não - antes de ficar ofegante e sentir meus pulmões doerem e meu estômago se contorcer e eu vomitar bem onde estava. E foi incrível. Catártico e construtivo e destrutivo e perfeito. Então eu me sentei no chão e chorei – aquele choro feio em que você tenta inspirar tudo de uma vez e faz um som horrível quando o ar passa raspando na garganta. Então me levantei e fui para casa.” (MILLAY, p. 47, 2014)

À primeira vista, “Mar da Tranquilidade” me pareceu mais do mesmo: dois adolescentes problemáticos que encontram refúgio um no outro e que eventualmente se envolvem em um relacionamento amoroso. Mas minha impressão mudou assim que li algumas resenhas ressaltando a profundidade da história. Dei uma chance e não me arrependo.

Nastya Kashnikov passou por um trauma que a privou do que mais amava fazer. Ela é apenas uma adolescente, mas sente que morreu, pois sabe que nunca será a pessoa que poderia ter sido. Ela não suporta ouvir os comentários sobre o que lhe aconteceu, assim, lhe parece melhor criar uma persona de quem as pessoas possam falar sem saber do que falam. É por isso que ela se muda para outra cidade onde ninguém sabe quem ela é, o que lhe aconteceu e porque ela já não fala. E é na nova escola que algo conduz Nastya para Josh Bennett, um menino que parece ter um campo de força ao seu redor, já que ninguém chega perto ou fala com ele. A diferença é que a tragédia de Josh todos conhecem. A semelhança é que ambos querem ficar sozinhos e ficam muito bem sozinhos juntos.

Há tempos me convenci que um bom livro se faz muito mais pela execução do autor do que pela originalidade da premissa e “Mar da Tranquilidade” é um bom exemplo disso. Alternando entre duas narrativas em primeira pessoa – Nastya e Josh – a autora nos coloca dentro da mente desses adolescentes traumatizados que, cada um a seu modo, só quer ser deixado em paz por acreditar que quanto mais longe dos outros, menor a probabilidade de se machucarem ou de causarem sofrimento a quem os ama. Funciona porque tanto Nastya como Josh soam verossímeis. São adolescentes que soam como adolescentes, que estão irritados e só querem se fechar em si mesmos. Embora tenha me incomodado que as duas vozes narrativas soassem muito parecidas, perdoei essa falha porque logo fui cativada pelos personagens e, principalmente, por seus defeitos.

A história avança a passos lentos, mas sem por isso parecer arrastada. Se você espera um envolvimento romântico, talvez até tenha essa impressão já que Josh e Nastya demoram a se envolver assim, mas se o que você espera é o desenvolvimento de dois personagens e do sentimento que os une, perceberá que a história avança a cada página e que, enquanto eles se familiarizam um com o outro, nós nos familiarizamos também. Gostei muito que esse não foi um relacionamento instantâneo, principalmente porque isso não faria o menor sentido. No início temos dois adolescentes que querem se afastar de tudo e de todos, mas que de alguma forma se sentem atraídos um para o outro. Amor é a última coisa em suas mentes, mas eles sentem que é bom estarem apenas no mesmo lugar sem que nem ao menos se falem. É aos poucos que eles desenvolvem uma dinâmica que, eventualmente, desperta sentimentos mais profundos. Soa verdadeiro e é por isso que “Mar da Tranquilidade” funciona.

A autora também não tem pressa em esclarecer o que aconteceu aos dois personagens no passado e os fez do jeito que são agora, de forma que o trauma se torna secundário para o leitor. Ambos só querem sobreviver a um novo dia e conforme passamos a nos importar com eles, é só o que queremos ver. O que importa é o que irá acontecer no futuro e não o que já aconteceu. É por isso que as revelações, embora simples, não decepcionam. A aquela altura, já entendemos o que os episódios significam para os personagens, de forma que seus dramas não soam exagerados porque compreendemos o sofrimento que os acompanha. Em seus lugares, poderíamos não sentir o mesmo que eles, mas sabemos porque sentem e é isso que nos toca.

E se a premissa pode facilmente ser considerada batida, isso nada tem a ver com a caracterização dos personagens, mesmo os coadjuvantes. Nesse sentido, Drew – o único amigo de Josh - foi um dos que mais gostei de acompanhar. O cara bonito que sai com todas as meninas, que tem uma reputação, mas que no fundo não quer tanto assim ser esse cara é apenas uma das maneiras que a autora encontra de reverter estereótipos. Outra abordagem que me agradou muito foi a do rapaz responsável pelo ataque a Nastya. A humanidade com que a autora tratou o criminoso que estragou a vida da protagonista foi uma grata surpresa nas últimas páginas.

“Mar da Tranquilidade” não é uma história de pessoas felizes ou uma história de final feliz. É uma história de personagens humanos que faz com que o leitor torça para que eles encontrem uma maneira de serem felizes.

Título: Mar da Tranquilidade (exemplar cedido pela editora)
Autora: Katja Millay
Nº de páginas:367
Editora: Arqueiro

22 comentários:

Atributos de Verão disse...

Amei a resenha. A premissa, apesar de ser batida [como você mesma disse,], tem o potencial para prender o leitor. Sempre ouvi falar super bem do livro e nutro grandes expectativas quanto sua leitura. [Nota: Só depois de algum tempo percebi que o sorvete derretido formava dois rostos haha ]

Abraços,
Rodolfo
Atributos de Verão

Anelise santana disse...

Primeiro: eu demorei muito, mas muito tempo pra perceber que o sorvete derretido da capa formava dois rostos, assim como diz o comentário aqui em cima. Pois é, não estou sozinha hahaha
Realmente, à primeira vista eu não me interessei pela estória, a premissa não ajudou e a capa muito menos. Mas é pra isso que nós procuramos outras opiniões, então tenho que dizer que a resenha me fez criar um certo interesse pela estória. O mais importante e que me fez mudar de ideia foi ler aí que não é uma estória como as outras, e que os personagens adolescentes realmente se parecem com adolescentes e têm pensamentos de adolescentes. Odeio aquelas estórias em que o tal adolescente uma hora tem mentalidade de adulto de 30 anos e em segundos fica inseguro como se tivesse 16, acho meio irreal. Outro ponto foi o relacionamento dos personagens, que aparentemente é desenvolvido na estória, e não forçado dali cinco capítulos.
Gostei muito da resenha e espero poder ler o livro logo.

Juh Bernardo disse...

Oiie,
Não conhecia o livro, mas adorei a dica.
Sua resenha ficou ótima!!

Beijos,
Juh
http://umminutoumlivro.blogspot.com.br/

Kamila Villarreal disse...

Olá!

Já tinha visto esse livro no instagram da Arqueiro, mas não sabia que era tão bom assim! Me interessei e já vou anotar na minha lista!

resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

Netinho Alves disse...

Ooiiiiêê, gostei bastante da capa desse livro, mas parece quefoi a unica coisa que
m atraiu rsrsrsr, não fiquei tão confiante em compra ele, pois achei meio sem sal, mas eu tô quase mudando de ideia, rsrsrs
abçs

Passa Por lá: http://ospapa-livros.blogspot.com.br/

Rafaela. disse...

Oi, Mari!

Tenho lido resenhas bem positivas sobre "Mar da Tranquilidade" e acabei ficando curiosa.
Adorei saber que tudo acontece de forma gradual, sem pressa e ainda assim surpreende. Espero ler em breve!

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Ju Goulart disse...

Oi Mari, concordo que um livro bom se dá mais pelo desenvolvimento e condução do autor do que pela premissa em si. Eu já li tantas resenhas sobre esse livro que acabei ficando curiosa para ler, coisa que não acontecia quando a obra foi lançada.
Tenho ficado um pouco cansada de livros adolescentes exatamente porque eles não parecem o que deveriam ser. Se neste livro são críveis, já é um passo e tanto.
Já tenho o livro em ebook, então pretendo ler em breve.

Beijos

Elis Culceag disse...

Oi Mari!!
Esse foi um dos melhores livros que li no ano passado, a história me tocou fundo pela humanidade dos personagens, é realmente lindo e também recomendo!
Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

Gabriela CZ disse...

Li opiniões bastante divergentes sobre esse livro, Mari. Mas seus comentários sobre os personagens me deixou curiosa. Vou considerar. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Chamando Um Leitor disse...

Gostei muito da resenha, Mari. Você escreve muito bem e faz um ótimo trabalho. Eu estou entrando em uma fase de querer ler mais livros que tratem de assuntos que façam realmente a gente pensar. Pelo visto, a autora soube realmente montar um perfil que deixe os leitores preso a trama.
Abraços :)
http://www.chamandoumleitor.blogspot.com.br/

Caverna Literária disse...

A premissa me lembrou bastante "Meu inverno em zerolândia". Os dois personagens com suas próprias tragédias, querendo paz e encontrando essa paz justamente um no outro. Mas pelo visto esse livro é mais pesado, o trauma deles deve arrastar até mesmo o leitor pra dentro das páginas. Adorei a resenha, você ressaltou bem toda a profundidade da obra!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem resenha nova no blog de "Ponte de Cristal", vem conferir!

Vanessa Vieira disse...

Parabéns pela resenha Mariana! Estou ansiosa para ler Mar da Tranquilidade! Beijo!

www.newsnessa.com

RUDYNALVA disse...

Mari!
choque de realidade, é assim que considero esse livro.
Tenso e carregado de sentimentos que nos arrebatam a crueldade imposta pela vida.
A capa é um atrativo a parte... dualidade e a possibilidade de observarmos de vários ângulos, várias figuras, fenomenal.
“A verdadeira páscoa está no exemplo de entrega que Jesus nos deixou”. (Jader Amadi)
Semaninha esplendorosa com o verdadeiro sentido da Páscoa!
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Nana ~* disse...

Oi Mari,
Até gostei da premissa,apesar de batida, fiquei bem curiosa e essa capa é uma das minhas favoritas.
Espero ler esse em breve!

P.S.: Sempre indico Eleanor & Park da Rainbow, fica a dica hahaha

bjs
Nana - Obsession Valley

Iris Pereira disse...

Oi,
Esse livro é surpreendente! Amei o lado humano dos personagens, ele entrou para lista dos meus favoritos!
Bjs!
Viciados Pela Leitura

Guilherme disse...

Oi!
Tenho bastante vontade de ler o livro, acho a capa linda e a sinopse bem interessante. Gostei da resenha!.
Beijos
http://leituraforadeserie.blogspot.com.br/

Teca Machado disse...

Mari, Mar de Tranquilidade é um livro que quero ler faz tempo já.
Só vejo elogios e gente falando que ele sai do lugar comum do gênero, assim como você disse.
Só aumentou ainda mais a minha curiosidade.
Detesto livros que se arrastam, mas se você disse que mesmo demorando a acontecer ele não é assim, confio na sua palavra, hehe.
Essa capa é maravilhosa, né?

Beijooos

www.casosacasoselivros.com

Markus Andrez disse...

Oi, Mari! Que capa linda.
Adorei sua resenha, principalmente aquele finalzinho.

Beijo
mundoemcartas.blogspot.com

David Andrade disse...

Oi Mari!
Sempre vejo muitas resenhas positivas desse livro, e desde o lançamento que tenho uma vontade imensa de ler. Parece emotivo e emocionante do jeito que eu gosto. Não estou muito no clima de drama ultimamente, mas esse em particular eu abriria exceção se tivesse dinheiro pra comprar. Assim que der, vou sim querer me aventurar na historia. Os personagens me parecem muito cativantes *-* Além disso, gosto de obras que retratem a realidade. Dão mais vivacidade ao enredo. Não ligo mais pra final feliz, até porque já está meio batido. Leitor gosta de surpresa, sempre <3

Abraços
David Andrade
http://www.olimpicoliterario.com/

Estante Diagonal disse...

Oi Mari ando vendo muitos elogios em volta do livro, por tudo que li sei que é exatamente o tipo de trama que eu amo e me envolve totalmente! Estou louca para conhecer a fundo a história de Nastya!

Beijos,
Joi Cardoso
Estante Diagonal

Ana Carolina disse...

Já escutei falar desse livro e sempre escutei falar bem, confesso que estou muito interessada nele e gostei da sua resenha ela me deixou mais curiosa. bjus http://luxuosoestilo.blogspot.com.br/

Karol disse...

Oi, Mari! Como vai?
A cada resenha que leio, fico mais curiosa para ler Mar da Tranquilidade. E primeiramente ter o livro, porque senão fica difícil. Gosto muito de histórias mais reais, "cruas", verdadeiras, por assim dizer, então adorei o fato de o livro não ser feliz com personagens felizes e um final feliz - e isso não quer dizer que eu não gosto de finais felizes e histórias fofas e felizes, etc., etc. Acho muito importante o desenvolvimento das personagens e parece que a autora o fez com maestria; personagens secundários, principalmente, preenchem a história, e das características para cada uma das personagens é algo trabalhoso e admirável! Estou cada vez mais louca pela leitura. Socorro. E, gente, esta sua frase merece um prêmio: Há tempos me convenci que um bom livro se faz muito mais pela execução do autor do que pela originalidade da premissa... CLAP, CLAP, CLAP, CLAP, CLAP, CLAP...
Beijinhos,
Karol.
www.heykarol.com

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