sexta-feira, 11 de setembro de 2015

RESENHA: Feliz Ano Velho

“Você já imaginou uma mãe de cinco crianças ter a sua casa invadida por soldados armados com metralhadoras, levarem seu marido sem nenhuma explicação e desaparecerem com ele? Já imaginou essa mãe também ser presa no dia seguinte, com sua filha de quinze anos, sem nenhuma explicação? Ser torturada psicologicamente e depois ser solta sem nenhuma acusação? Já imaginou essa mãe, depois, pedir explicações aos militares e eles afirmarem que ela nunca fora presa e que seu marido também não estava preso? [...]. É duro, né? Nem Kafka teria pensado em tamanho absurdo.” (PAIVA, 2015, p. 37/38)

***

Feliz Ano Velho é um dos poucos livros obrigatórios que tive que ler no ensino médio que realmente gostei. Tanto a estória de Marcelo, quanto sua narrativa, são extremamente envolventes, e desde aquela época desejava reler a obra.

Em dezembro de 1979, quando tinha 20 anos, Marcelo mergulhou de cabeça em um lago com pouca profundidade. Como resultado, fraturou uma vértebra e ficou tetraplégico. Em Feliz Ano Velho, ele relata sua jornada após o acidente, e também conta episódios de sua vida. 

Marcelo é absolutamente honesto e compartilha de tudo com o leitor: a impaciência com a recuperação, sua adaptação a nova realidade, a comoção gerada entre familiares e amigos, a vida de estudante de Engenharia Agrícola, as aspirações musicais, as muitas namoradas e seu relacionamento com seu pai. 

O pai de Marcelo, Rubens Paiva, foi deputado federal e teve seu mandado cassado após o Golpe Militar. Em 1971, a casa do político foi invadida por militares que o prenderam, assim como a sua esposa e filha mais velha. Marcelo, na época uma criança com onze anos, assistiu a tudo sem entender o que estava acontecendo. E foi assim que cresceu, pois o governo negou que Rubens tivesse sido detido, e a família somente recebeu a confirmação de sua morte em 2014, em função dos trabalhos da Comissão da Verdade. 

Apesar de crescer sem o pai e sofrer o grave acidente que lhe roubou parte dos movimentos, Marcelo não se faz de vítima, nem de derrotado. Apesar de declarar que não escreveu o livro com a intenção de inspirar seus leitores, é impossível ler Feliz Ano Velho e não sentir uma injeção de ânimo. É impossível ler Feliz Ano Velho e não se sentir grato por viver em uma democracia. 

Porém, deixo claro que o desaparecimento de Rubens Paiva está longe de ser o cerne da obra. Marcelo intercala sua jornada de recuperação com inúmeros episódios de sua infância e juventude, incluindo os trágicos eventos que ocorreram em 1971.  

A narrativa do autor é peculiar. Fiquei com a impressão que Marcelo sentou em frente à máquina de escrever e colocou todos os pensamentos e sentimentos no papel, sem papas na língua e sem censura. O mais impressionante é que Marcelo é autêntico, e se revela ao leitor com todas as suas qualidades e defeitos, sem se importar com o julgamento alheio. E esta característica faz com que a narrativa seja extremamente fluída, de modo que o leitor não vê as páginas avançarem. 

Mesmo tendo sido publicada originalmente em 1982, a obra permanece mais atual do que nunca. Seja por mostrar ao leitor que vale a pena viver e lutar pela vida, seja por nos lembrar de um episódio vergonhoso da história da nossa nação. Muito mais que um livro de entretenimento, Feliz Ano Velho é uma biografia emocionante e impactante, que consegue ser, ao mesmo tempo, uma lição de vida e uma aula de história. 

O autor lançou recentemente Ainda Estou Aqui (resenha em breve), livro de memórias em que se aprofunda na estória de sua família.

Título: Feliz Ano Velho (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Marcelo Rubens Paiva
N.º de páginas: 270
Editora: Alfaguara

12 comentários:

RUDYNALVA disse...

Alê!
Esse livro me deu um estímulo muito grande quando soube que poderia ir para cadeira de rodas.
Gosto da forma como o autor foi direto e mostrou todo seu sofrimento, acabou me fortalecendo e me obrigando a tomar atitudes que prolongue minha ida para as cadeiras...
“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”(Antoine de Saint-Exupéry)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Guilherme Dias disse...

Hey!
Uau, o livro parece ser bem forte e muito bom, com certeza vai entrar para a minha lista de desejados =)
Abraços!
http://desbravando-o-infinito.blogspot.com.br/

Gabriela CZ disse...

Meu pai já falou algumas vezes sobre esse livro, o que sempre me fez ter vontade de lê-lo. E seus comentários reforçou meu interesse, Alê. Parece mesmo ser bem impactante. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Ana Clara disse...

Oi Alê!

Eu adoro biografias, adoro mesmo, mas em contrapartida não sou muito fã de História (pensa no tanto que apanhava dessa matéria no Ensino Médio e quadruplica isso aí). Ao mesmo tempo em que quero conhecer a história do Marcelo, principalmente após o acidente, fico pensando se não ficaria entediada demais quando ele começasse a se aprofundar nos acontecimentos de 1971. Ainda não sei, estou bem dividida em relação a esse livro. HUAEHUAEHAE

Beijo!
http://www.roendolivros.com/

Diane disse...

Olá ...
Adorei a sua resenha !!!
Gosto bastante de biografias e essa parece ser bem interessante , tanto pelo contexto histórico como pela experiência do personagem . A espontaneidade é um ponto bastante positivo porque assim podemos compreender melhor os pensamentos de Marcelo .
Você me deixou ansiosa para ler .
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Resenhando Sonhos disse...

Ainda não li esse livro, mas tenho bastante curiosidade, principalmente pelo fato, como você mesmo mencionou, que parece bem espontâneo.

Muito boa a resenha.
Beeijo
http://resenhandosonhos.com

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Alê.
Conhecia o título do livro, mas não sabia o enredo abordado e menos ainda desse aspecto real da obra. Ambos apenas contribuíram para criar um interesse em mim sobre a obra. Pretendo conferir.
Excelente dica.

Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de setembro. Serão dois vencedores.

Dan Igor disse...

Nossa, o livro parece ser super forte e emocionante, uma história de vida bem pesada, que mexe muito com o leitor. O autor parece interagir com quem está lendo, se sentindo a vontade sobre o que está falando, o que é ótimo em livros biográficos.
Abraços :)

Jéssica Soares disse...

Oi, Alê! Tudo bem? Lembro que tive de ler um capítulo de "Feliz Ano Velho" no ensino médio também e, mesmo que tenha sido algo bem curto, foi uma leitura muito interessante! Ainda não tive a oportunidade de ler o livro completo, mas é algo que pretendo fazer. Lembro que fiquei bem impactada e nos tempos que estamos vivendo, com pessoas ainda pedindo intervenção militar e me levando a crer que não ficaram acordados durante a aula de História, um livro desses faria toda a diferença!
Jéssica - http://lereincrivel.blogspot.com.br/

Markus Andrez disse...

Oii! Tudo bem?
E eu que nem conhecia esse livro ? :O
Gostei da sua resenha.
Deve ser uma leitura até legal!
Abraço
mundoemcartas.blogspot.com.br

Ycaro Brito disse...

Alê, agora eu entendo o porquê de várias opiniões divergentes sobre o livro Feliz Ano Velho, a sua obrigação no ensino médio, com certeza resultou em uma divisão de opiniões. Eu tenho curiosidade para a leitura do livro, até porque não foi uma obrigação minha, e tirar minhas próprias conclusões. Fico feliz que tenha sido envolvente para você.

Gus disse...

Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas parece ser ótimo e reflexivo, daqueles que te fazem repensar seus atos :)

www.cidadedosleitores.blogspot.com

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