terça-feira, 15 de dezembro de 2015

RESENHA: Norte e Sul

"— [...]. A senhorita me olha como se pensasse que meu amor pode contaminá-la. Você não pode evitar isso. E, ainda que pudesse, não tenho como limpá-la dessa contaminação. E não faria isso, ainda que pudesse. Jamais amei qualquer mulher antes. Minha vida sempre foi muito ocupada, meus pensamentos sempre absorvidos em outras coisas. Amo agora e continuarei amando.” (GASKELL, 2015, p, 347)

***

Norte e Sul foi uma das obras de Elizabeth Gaskell publicada na forma de folhetim, na revista Household Words, a convite de seu editor, ninguém mais ninguém menos que Charles Dickens. Além de sua obra ser aclamada pela crítica literária, muitos estudiosos a colocam ao lado de grandes nomes da literatura, como o próprio Dickens e as irmãs Brontë. 

A jovem Margaret, após anos morando em Londres com sua tia e prima, retorna a Helstone, onde seus pais residem. Logo após sua chegada, descobre que seu pai, pároco do pequeno vilarejo, deseja abandonar o ministério eclesiástico e tornar-se professor. É assim que a família de Margaret se muda para Milton-North, a fim de começar uma nova vida longe de todos os seus conhecidos. 

O ponto alto do livro é ver a dicotomia entre o norte e o sul da Inglaterra. O sul, uma região bucólica e aristocrática. Já o norte, uma região industrializada e miserável. Mas Gaskell consegue destacar não apenas as diferenças mais gritantes, mas também aquelas mais sutis, como a forma de pensamento, os modos e costumes de cada região. 

Tendo como pano de fundo a Revolução Industrial, a crítica social de Gaskell é cristalina. O embate entre capital e mão-de-obra se faz presente do início ao fim da obra, fazendo o leitor refletir sobre as desigualdades entre as classes sociais, bem como sobre as condições de trabalho e a busca incessante pelo lucro. 

Temos como protagonistas Margaret, uma moça que se vê em situações difíceis, mas faz de tudo por sua família, não se deixando abater em nenhum momento; e John, um empresário, que através de seu trabalho duro, se tornou um dos maiores fabricantes da cidade. É interessante ver como cada um deles é, de certa forma, a personificação do norte e do sul, ambos se orgulham de suas cidades de origem ao mesmo tempo em que olham para a região do outro com desdém. 

Apesar de terem personalidades fortes e opiniões firmes, o casal não me convenceu, pois me pareceu faltar química. A contracapa do livro diz que o romance deles poderia evocar no leitor a lembrança de Lizzy e Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito, porém, não poderia discordar mais de tal afirmação. Enquanto neste casal o envolvimento é paulatino, e aos poucos vencem seus preconceitos e percebem que foram feitos um para o outro, em Norte e Sul vemos dois personagens que não combinam, então um deles se apaixona perdidamente enquanto o outro permanece indiferente, para no final ficarem juntos repentinamente. Não vi uma progressão, não vi os personagens aos poucos baixarem a guarda, se conhecerem, entenderem suas razões e motivos, dando origem a compreensão mútua, a aceitação e por fim ao amor. Tudo me pareceu muito abrupto. 

A narrativa de Gaskell é um tanto rebuscada, mas de fácil entendimento. Entretanto, me pareceu que em alguns momentos a autora exagerou nas descrições, enquanto em outros perdeu a objetividade. Minha maior crítica diz respeito a constante descrição da personalidade dos personagens. Sou da opinião que o leitor tem que entender o caráter dos personagens através de sua conduta e de seu discurso. Trata-se da clássica regra “show, don’t tell” (mostre, não diga). 

Mesmo não tendo atingido todas as minhas expectativas, Norte e Sul tem valor histórico inegável, pois nos mostra uma realidade que desconhecemos e os questionamentos suscitados por Gaskell sobre a interdependência entre capital e  mão-de-obra ainda são válidos. 

Título: Norte e Sul (exemplar cedido pela editora)
Autora: Elizabeth Gaskell
N.º de páginas: 744
Editora: Martin Claret

24 comentários:

Menina da livraria disse...

Será que é pouca página?? Aí mds! Fiquei meio receosa pela grossura do livro e o fato de você descrever a autora como detalhista em algumas partes e não objetiva em outras. Não gosto desse tipo de escrita, e ler tanto dessa forma não deve ter agradável. Porém eu gostei mt da resenha! E a capa me cativou, apesar da simplicidade.
Blog Menina da Livraria


Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Alê!
Acredita que outro dia que fui descobrir essa obra? Somente porque foi adaptada em formato de série.
Eu tinha um interesse para ler, mas essa quantidade de página e pelo que você falou da autora, me faz repensar.
Termino meu comentário dizendo que nenhum casal chegará aos pés de Lizzy e Mr. Darcy u.u
Beijos
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Alessandra Fernandes disse...

Alê, leituras como estas não costumam me agradar, e depois que pude ver tantos pontos negativos na trama; casal sem química, leitura de difícil compreensão, e a autora ter dado mais destaque em algumas partes, já são grandes motivos para me desanimar e tive a certeza disso. Mas amei a resenha.
Bjs!

Inês Gabriela A. disse...

Olá,
Orgulho e Preconceito é meu livro favorito, então ver uma comparação o envolvendo sempre desperta curiosidade. Em minha singela opinião, o romance presente no livro é um dos mais complexos e mais bem construídos que já tive a oportunidade de conhecer, envolve mais que indiferença e uma reconciliação no final. Ainda mais se o casal em questão não tem química, uma vez que os protagonistas de Orgulho e Preconceito a possuem para dar e vender. Enfim, gostei da resenha.
Beijos.
Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

Thalita Branco disse...

Olá Alê!
Sou suspeita para falar pois a obra está entre meus livros favoritos. Existe também a mini série da BBC que é linda <3
Gostei muito da resenha, só discordo da parte da quimica. Para mim ela existe. Margaret é extremamente orgulhosa e só quando cai em desgraça na visão do John é que passa a perceber sutilmente o quanto estava enganada. Adoro a dualidade dos dois e a forma como no fim vão se entendendo. Para mim o problema maior é a comparação com Orgulho e Preconceito feita pela editora. Por mais que exista o romance são romances diferentes e a comparação cria uma expectativa errada :(
Bjs

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Rebeca B. disse...

Olá, eu não conhecia esse livro, acredita? rs
Adorei sua resenha, bem sincera. Fiquei curiosa para ler o livro.

Ah, tem sorteio de livro no meu blog, vem participar!
http://goo.gl/i03FzM

Ju Goulart disse...

Oi Alê, concordo inteiramente com você sobre a necessidade de o leitor perceber por si só o caráter dos personagens, sem que ninguém o descreva. Muitas vezes, essa descrição fica até fora da imagem que se faz do personagem e, para mim, essa contradição é a pior de todas.
Não conhecia nada sobre o livro, nem sobre a autora, e achei interessante apesar das ressalvas.

Beijos

Gabriela CZ disse...

Confesso que não conhecia esse livro e nem a autora, Alê. Mas fiquei curiosa. Fazendo um balanço dos seus comentários negativos e positivos, acho que leria pelas críticas sociais. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Ycaro Brito disse...

Oi, Alê. Mais uma boa novidade para a minha estante. Norte e Sul me chamou bastante a atenção, principalmente por a Inglaterra representar o seu cenário, mas, destacando, os dois pontos da Inglaterra, o norte e o sul. A autora conseguiu nos mostrar os detalhes de cada parte do país, dos personagens e relacioná-los com a narrativa em geral e a Revolução Industrial. Perfeito!

Diane disse...

Oi...
Achei o livro bem legal, porém esse excesso de descrição dos personagens devem incomodar bastante.
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Silviane Casemiro disse...

Oi! Eu não conhecia essa obra mas alguns comentários na sua resenha acabaram não me despertando curiosidade para ler. Acho meio chatinho quando casais não tem quimica mesmo que esse nao seja o foco principal.

Beijos
SIL ~ Estilhaçando Livros

RUDYNALVA disse...

Alê!
Interessante poder conhecer um pouco mais sobre as histórias das regiões dentro de um mesmo país e como são totalmente desiguais.
Um pouco parecida com nossa realidade aqui no BRasil.
Gostei de saber que mesmo com as personagens sendo descrita com minúcia, sem deixar muito para nossa imaginação, acredito que seja uma ótima leitura.
“Olho por olho, e o mundo acabará cego.” (Mahatma Gandhi)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Patrini Viero disse...

Acho interessante um pano de fundo histórico e ao mesmo tempo social para o enredo, acredito que isso torne-o ainda mais rico e abrangente no que se refere a sua relação com o mundo e com o que acontece nele. A Revolução Industrial é um assunto de extrema importância, e fiquei contente em ver o modo como a autora destaca até mesmo as características mais sutis do lugar em que tudo ocorre, deixando a crítica velada e ao mesmo tempo compreensível. Concordo contigo com relação aos personagens, realmente o abrupto não me convence no que se refere ao amor, o casal precisa adaptar-se e compreender-se mutuamente, e o leitor precisa acompanhar esse amadurecimento.

Milena Bueno disse...

Livros que por trás tem um contexto histórico que consequentemente contribuem para os fatos da história é incrível, eu particularmente me interesso muito por livros desse gênero. Muito interessante!

http://olhesky.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Alê =)

Não conhecia o livro e nem a autora, mas gosto muito de narrativas que tem com plano de fundo fatos históricos e os pontos que você citou em sua resenha me deixaram bem curiosa para ler Norte e Sul.
Dica anotada ;)

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Carla A. disse...

Gosto de livros que tem a presença forte do contexto histórico. E concordo com você em duas coisas: não gosto nem de romances que não evoluem aos poucos e simplesmente acontecem e nem de descrições demasiadas a respeito da personalidade dos personagens. Quando eles são bem construídos, o leitor consegue entender sozinho.

Beijos, Entre Aspas

Alice Duarte disse...

Oiieee

Nesse momento deixo a dica pra próxima, porque eu ando tao cansada que livros descritivos demais fazem a minha atenção voar pra bem longe da história, entao certamente não é a leitura indicada pra mim no momento. Porém, quem sabe, futuramente e com mais calma eu até me arrisque a ler. De qualquer forma obrigada pela resenha

Beijokas

naprateleiradealice.blogspot.com.ar

Sil disse...

Olá, Alê.
Eu ainda não conhecia esse livro. E apesar de ser recomendado por grandes nomes da literatura, eu não me interessei em ler ele. Primeiro porque não gosto do período em que o livro se passa. História é a matéria em que sempre fui horrível, e a Revolução Industrial me trás más recordações que prefiro não comentar hehe. E também não gostei desse negocio sobre o casal. Quando faz referencia a alguma coisa, tem que estar lá na história hehe.

Blog Prefácio

Nana Barcellos disse...

Oi Alê,
Ah tive que comentar aqui porque esse livro ainda está na minha lista de desejados. Amei a minissérie.
Gostei das suas ressalvas e pretendo lê-lo sem expectativas, já que a série deixou bem grande.

Nana - Obsession Valley

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!
Tudo bem?

Fico feliz de ler sua resenha e perceber as ressalvas do livro. Imagino as diferenças e decidirei se pegarei para ler mais para frente. Até porque é sempre interessante ler um clássico da literatura.

Para ser sincera, estou querendo ler Júlio Verne há muito tempo e ainda não tive a oportunidade então pretendo me obrigar a lê-lo no próximo ano de qualquer forma! Hahahaha
Essa é minha primeira meta de 2016! xD

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Gus disse...

Não conhecia, e mesmo parecendo otimo, não me chamou a atenção. Apesar de gostar de clássicos, esse não quero ler. Eu curto um no estilo mais Shakespeare e Jane Austen :D

www.cidadedosleitores.blogspot.com

Samira Hammoud disse...

744 páginas? Eita, geralmente não costumo ler livros muito compridos, as histórias acabam me cansando, mas essa história parece fascinante, eu leria se tivesse a oportunidade!!

suzana cariri disse...

Oi!
Gosto muito dos livro onde podemos ver um contexto historia, essa obra da Elizabeth Gaskell me interessou bastante nesse sentido, mas achei que a historia dos personagens acaba ficando em segundo plano e essa leitura muito descritiva acaba fazendo o livro mais cansativo para mim !!

Amanda Ferreira disse...

Olha aí uma temática pela qual me interessei, acho que isso é por causa do meu curso de graduação. Gosto de ver essas diferenças sociais, as mudanças que a sociedade sofreu ao longo dos anos. Gosto muito de livros que trazem como pano de fundo a sociedade como era antigamente. Acho que esse livro vai entrar para a minha 'listinha' de livros para ler em 2016 :)

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