sexta-feira, 4 de março de 2016

RESENHA: Paris é uma Festa

“Quando a primavera chegava, mesmo que se tratasse de uma falsa primavera, nossos problemas desapareciam, exceto o de saber onde se poderia ser mais feliz. A única coisa capaz de nos estragar um dia eram as pessoas, mas, se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera.” (HEMINGWAY, 2012, p.63) 

“Paris é uma festa” ficou anos parado na minha estante, mas bastou uma página para que eu me arrependesse de ter esperado tanto tempo para lê-lo.

O livro apresenta as memórias de Hemingway a respeito do tempo em que viveu em Paris, na década de 20. Na época, o autor (hoje considerado um dos maiores escritores americanos de todos os tempos, vencedor de prêmios como Pulitzer e Nobel) tinha apenas vinte e poucos anos e ensaiava seus primeiros textos. Havia deixado o jornalismo para se dedicar à literatura, mas ainda não se encorajava a escrever romances. Seus contos despertavam pouco interesse e raros eram publicados. Como resultado, o dinheiro estava sempre curto. Ainda assim, Hemingway era feliz. Estava apaixonado por sua esposa, conhecia gente interessante e morava em uma cidade linda.

É possível sentir em cada página o carinho de Hemingway por esse tempo já distante de sua vida. Como o livro foi escrito na década de 50, fica perceptível a saudade com que o autor lembra da rotina que vivia, dos lugares que frequentava (entre eles a famosa livraria Shakespeare and Company, ponto de encontro de escritores que anos depois se tornariam pilares da literatura mundial) e das pessoas que conhecia andando a esmo, entrando em um café aqui, em um bar ali e que, eventualmente, se tornavam amigos. Entre elas, James Joyce, Gertrude Stein, Ezra Pound, Ford Madox Ford e, claro, Scott Fitzgerald (que na época começava a ser reconhecido pela crítica – embora não pelo público – por “O Grande Gatsby”). Este último ganha um capítulo à parte no qual Hemingway fala sobre a convivência com o amigo, deixa clara sua admiração ao colega escritor, e discorre um pouco a respeito do complicado relacionamento de Scott e Zelda. Foi nessa época também que Hemingway passou a ler nomes como Simenon, Tolstói e Dostoiévski (revelando apreço pela obra dos primeiros, nem tanto pela do último).

Havia dias em que Hemingway não tinha dinheiro ao menos para almoçar e não devia ser menos frustrante não ter quase ninguém interessado em seus textos, mas apesar das dificuldades, fica claro que aqueles eram tempos leves e felizes. Tempos em que ele ainda não enfrentava problemas como alcoolismo e depressão.

“Paris é uma festa” é diferente de qualquer coisa que eu já li de Hemingway. No prefácio, o próprio autor diz que se o leitor preferir pode considerar este um trabalho de ficção já que, de qualquer forma, não foi possível incluir tudo o que foi vivido naquele tempo. A verdade é que dificilmente “Paris é uma festa” soa como uma autobiografia, mas o caráter pessoal do que é narrado também o impede – apesar do comentário do autor – de parecer um romance. Os capítulos curtos e a temática cotidiana remetem a crônicas. A narrativa de Hemingway continua direta e objetiva, mas dessa vez repleta de carinho pelo que está sendo contado. Por isso tudo, é difícil classificar esse livro (tão difícil quanto seria não se apaixonar por ele).

O triste é saber que foi durante a revisão destas memórias - em meio a lembranças felizes de um tempo em que a vida lhe dava tão pouco, mas parecia satisfazer-lhe, com um talento absurdo transbordando em cada linha - que Hemingway se suicidou. O livro foi revisado por sua viúva e publicado postumamente.

Para mim, este é um dos mais adoráveis livros de Ernest Hemingway. Nunca fui à Paris, mas sua visão da cidade a faz certamente parecer uma festa.

Título: Paris é uma festa
Autor: Ernest Hemingway
N° de páginas: 236
Editora: Bertrand Brasil

27 comentários:

Carol Hermanas disse...

Gostei da resenha.Amo histórias que contam como eles se interessam pela vida,sacas?: ahahahah :)


Amei tudo sua resenha,rs.

beeijão :)
http://carolhermanas.blogspot.com.br/

Postando Trechos disse...

Tenho esse livro aqui em casa em uma versão TÃÃÃÃÃÃO antiga! Ainda não li, mas tenho curiosidade. Quando minha rinite deixar, eu leio, porque ele é bem velhinho. kkkkk

Beijos,
Postando Trechos

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Li apenas um livro do autor, O Velho e o Mar, e me apaixonei.
Essa obra parece ser incrível, principalmente porque mistura literatura com as memórias de um escritor tão consagrado. Perceber a felicidade mesmo em meio a dificuldade deve ser mágico.
Quero ler a obra.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

Minhas Impressões disse...

Olá, Mari.
Quando ia à biblioteca, eu sempre era atraída pelo título desse livro, no entanto, sempre achava que não era o momento de lê-lo. Acho que hoje em dia já estou mais preparada para a experiência.
O que me atraiu no livro é esse caráter mais biográfico e fictício.
Uma pena que o autor tenha morrido do jeito que morreu.
Abraços.

Gabriela CZ disse...

Li alguns quotes desse livro que fizeram ele ser uma das obras de Hemingway que mais quero ler, Mari. (E confesso que uma menção na série Forever também contribuiu.) Mas seus comentários elevaram isso a um outro nível, realmente preciso ler. Só não sabia que o autor tinha se suicidado durante a revisão deste, que triste. Enfim, ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Dan Igor disse...

Desse autor já tentei ler O Velho e o Mar, mas não consegui porque a história não me conquistou, mas deu pra perceber que a narração do autor era mesmo objetiva. Acho que, com esse livro, posso me cativar mais com a escrita do autor! Abraços.

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!

Adorei sua resenha! Ficou linda e tocante.
Eu até criei vontade para ler Hemingway que confesso foi algo que nunca tive antes.

Darei uma checada nesse livro assim que possível. :)

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

RUDYNALVA disse...

Mari!
Imagino toda emoção vivida por ele durante aquela época e retratada fielmente no livro.
Deve mesmo ser uma grande obra para ser lida.
“Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão.” (Jean-Paul Sartre)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
TOP Comentarista de março com 4 livros 3 ganhadores, participem!

Erika Rodrigues disse...

Oi Mari!
Só de ler o quote que você selecionou já fiquei com vontade de ler esse livro. Sua resenha me lembrou muito Meia Noite em Paris do Woody Allen em que o personagem principal é transportado para Paris dos anos 20.
Gostei bastante da resenha e apesar de nunca ter lido nada do autor acho que vou começar por esse.
Beijos
http://numrelicario.blogspot.com.br/

Theresa Cavalcanti disse...

Nunca tinha visto esse livro, mas ele parece ser muito bom. E ainda Paris!!!

Leandro de Lira disse...

Oi, Mari!
Você me deixou realmente interessado neste livro. Nunca li nada do autor, mas este livro em especial me passou um charme de inicio que não sei explicar.
Parece ser uma leitura gostosa, despreocupada e bastante cativante. Já quero imediatamente fazer a leitura.
Parabéns pela resenha!
Abraço!

"Palavras ao Vento..."
www.leandro-de-lira.blogspot.com

Sil disse...

Olá, Mari.
Não conhecia o autor ainda. Geralmente não me interesso por livros assim, mas a história dele me pareceu ser fascinante. Fiquei aqui imaginando os encontros dele com os outros autores. É um livro que deixo anotado aqui para uma possível leitura.

Blog Prefácio

Camila Monteiro disse...

Não me dei muito bem com esse escritor. Tentei duas vezes e meio que fiquei com o pé atrás. Não digo que jamais lerei outra obra dele, mas por enquanto vou deixar Hemingway longe da minha estante por uns dias hahahahaha

>> Vida Complicada <<

Não Vivo Sem Livros disse...

Que resenha maravilhosa, me deixou com uma curiosidade enorme!
Mas nunca li nada do autor e não sei se vou gostar.

Beijos.
Blog Não Vivo Sem Livros

Déborah Q disse...

Sou fã do Hemingway e já vai pra lista kkk
Amei a resenha <3

❥Blog:Gordices Literárias

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Confesso que, até ler sua resenha, eu não tinha o mínimo de interesse em ler Hemingway. Sua resenha me convenceu a dar uma chance, nem que seja só pra esse livro.
Beijos
Balaio de Babados
Participe do sorteio do livro Marianas | Participe do sorteio Mês das Mulheres em Dobro
Porcelana - Financiamento Coletivo

Plinio Lucas disse...

Ei, Mari!
Esse livro me pareceu muito interessante. Sua resenha me deixou curioso. rs
Nunca li nada de Hemingway, e poderia facilmente começar por esse.

Até mais,
http://entreserieselivros.blogspot.com.br/

Diane disse...

Oie...
Já li um livro do Hemingway e gostei muito (O Velho e o Mar) , acho impressionante a forma que ele escreve e conduz suas histórias.
Quero muito ler "Paris é uma festa", e com certeza estará dentre minhas leituras de 2016!
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Caverna Literária disse...

Não sabia que ele tinha se suicidado :( é como o Renato Russo, quando tudo tava entrando em ordem, acabou sendo o fim dele. Com certeza assim que tiver oportunidade vou ler esse livro rico!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem resenha nova no blog de "Uma razão para respirar", vem conferir!

Sozinha Na Biblioteca disse...

Tenho vontade de ler esse livro desde que eu assisti ao filme 'Meia-noite em Paris', mas ainda não tive coragem. Já li dois livros do Hemingway e gostei bastante da escrita do autor. Acho que sua resenha era o empurrãozinho que faltava pra que eu decidisse ler o "Paris é uma festa" logo!

Beijos

http://sozinhanabiblioteca.blogspot.com.br/

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Não conhecia o livro, mas ao ler sua resenha me senti conectada a história. Adoro livros com esse toque de melancolia esse "que" de realidade. São tristes, sim são, mas nos fazem lembrar de como é estar vivo.

Dica anotada!

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Gabrielle Batista disse...

Após ter lido a resenha, eu realmente pensei "NECESSITO ENCONTRAR ESSE LIVRO", logo de cara!!!
Paris, apesar de estar enfrentando alguns problemas atualmente, possui uma cultura que faz eu amar a cada dia mais esse país.
Triste saber que ao final de tudo, Hemingway morre. :( :( :(

Teca Machado disse...

Mari, todo mundo fala tanto desse livro que eu quero muito ler.
Fiquei interessada em saber que foram tempos leves e felizes, mesmo que difíceis.
Paris no século 20 é algo que eu sempre amei (Aumentou mais ainda o amor depois de Meia Noite em Paris, hehe).
Vou anotar na lista.

Beijooos

www.casosacasoselivros.com

Michelle disse...

Momento confessional: nunca li nada do Hemingway (vergonha 1) e esse livro está parado na estante há anos (vergonha 2). Preciso dar um jeito nisso! Hahaha. E adorei a citação. Identificação total na parte em que ele diz que a única coisa capaz de estragar um dia são as pessoas.
bjo

Cris Setúbal disse...

Ainda não conhecia esse livro, mas lendo sua resenha fiquei completamente interessada. Esse parece ser aquele tipo de livro único, singelo, apesar de ter caratér de biografia, que nos toca completamente. Já adicionei na lista, espero gostar. Beijo :)

Jess Sena disse...

Oi :D
Uau, a sinopse já me ganhou!
Não li nada do autor, na verdade, fui conhecer aqui no seu blog! Já anotei o conto que você citou, agora vou acrescentar esse livro.
Gosto de livros objetivos e capítulos curtos sempre me ajudam nas leituras :D
Bj


@saymybook
saymybook.blogspot.com

suzana cariri disse...

Oi!
Ainda não conhecia o Hemingway, mas fiquei interessada nesse livro, achei bem interessante esses pontos de encontro em paris onde poderíamos ver grandes escritos e se tiver oportunidade quero ler !!

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