quarta-feira, 23 de março de 2016

RESENHA: Viagem ao Redor da Garrafa

“Em determinado momento daquele verão, Fitzgerald disse a Laura: ‘A bebida aumenta o sentir. Quando bebo, minhas emoções crescem, e eu as ponho no conto. Só que logo fica difícil manter o equilíbrio entre razão e emoção. As histórias que escrevo quando sóbrio são estúpidas – como aquela da vidente. Foi tudo muito ponderado, e não sentido.’ ” (LAING, p. 87, 2016)

Ao analisarmos a literatura mundial, é fácil constatar que alguns dos seus maiores nomes sofreram com vício em álcool e drogas. Pode-se até dizer que todos os verdadeiramente grandes, aqueles que realmente deixaram sua marca na literatura, sofreram de ao menos um desses males, sem excluir outros como a depressão, tendo alguns chegado ao suicídio. Isso sempre me fascinou de alguma forma. Por que essas mentes tão geniais eram também tão frágeis? Até que ponto as escoras dos vícios contribuíram para a produção dos textos que tanto nos encantam e onde estas produções poderiam ter chegado se esses autores não tivessem esses problemas? Por outro lado, elas teriam existido? Teriam o mesmo vigor, exerceriam o mesmo fascínio? Afinal, o alcoolismo e o vício eram parte do que esses homens brilhantes eram. Era parte de suas personalidades. Talvez a mesma necessidade que os empurrava em direção a bebida era o combustível para as situações que exprimiam em seus textos. Como eu disse, o tema sempre me fascinou e é sobre ele que trata “Viagem ao redor da garrafa: um ensaio sobre escritores e a bebida”.

Mistura de biografia com relato de viagem e estudos literários, “Viagem ao redor da garrafa” foi concebido pela jornalista Olivia Laing que nos conta sua viagem pelos Estados Unidos em busca dos lugares onde seis grandes escritores viveram seus dias: F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, Raymond Carver, John Cheever e John Barryman. Em comum todos tinham o alcoolismo, alguns chegaram até a serem amigos (como Fitzgerald e Hemingway, Carver e Cheever). São estes seis o tema do livro, mas vale dizer que muitos outros poderiam ter entrado na lista, como Raymond Chandler, Truman Capote, Jack London, Patricia Highsmith, Oscar Wilde e ainda haveria espaço para outros.

Com um texto fluido, que transita entre todos os autores ao mesmo tempo, Laing conta com naturalidade sobre a vida desses escritores, apresentando o que eu chamaria de seis mini biografias a fim de revelar partes dessas vidas e da relação que tinham com a bebida. Além disso, também faz comentários acerca de alguns textos específicos como “Um Bonde Chamado Desejo”, “Gata em Teto de Zinco Quente” (as peças mais famosas de Williams), “Suave é a Noite” (considerada a obra mais pessoal de Fitzgerald), “O Nadador” (conto de Cheever), entre outros, de forma que podemos ver a influência do álcool como temática literária desses autores. Tudo isso se mescla aos comentários a respeito da própria viagem de Laing (que, por sua vez, também tem experiências familiares com alcoolismo, sendo sua mãe uma alcoólatra) e a explicações científicas e neuronais sobre a maneira como o álcool age no cérebro.

É claro que o intuito do livro não é encontrar uma resposta definitiva sobre porque esses autores bebiam e qual a relação do álcool com sua produção literária. Isso nem seria possível. Mas nos deixa um pouco mais perto de entender o que passava por essas grandes mentes e o que está por trás dos textos que tanto nos encantam.

No começo do livro, a autora cita um ensaio escrito por Lewis Hyde em que comenta: “Quatro dos seis americanos que venceram o Prêmio Nobel de Literatura eram alcoólatras. Cerca de metade de nossos escritores alcoólatras acabou por dar fim à própria vida.” Certamente nos faz pensar.

Por tratar de homens geniais, mas focar em suas fragilidades, “Viagem ao redor da garrafa” é por vezes um livro fascinante, mas por outras também torna-se pesado e talvez até um tanto deprimente. De qualquer forma, é uma leitura válida para quem (assim como eu) se interessa pelo tema.

Não acho que seja necessário estar bêbado para se produzir grandes textos e para ser criativo (o próprio Stephen King, hoje um alcoólatra em recuperação, diz que isso é bobagem), mas acredito que essa necessidade, esse impulso era parte do que esses homens eram. A necessidade de beber lhes era tão inerente quanto a de criar histórias e as colocar no papel. Por que, nunca saberemos. Ficam os textos.

Título: Viagem ao redor da garrafa: um ensaio sobre escritores e a bebida (exemplar cedido pela editora)
Autora: Olivia Laing
Tradução: Hugo Langone
N° de páginas: 318
Editora: Anfiteatro


27 comentários:

Diane disse...

Oie...
Não conhecia esse livro, mas, achei bastante interessante, mesmo não concordando que a bebida ajuda na escrita de boas histórias.
Mas, enfim... Gostei do enredo e me bateu aquela vontade de o comprar.
Bjão

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

RUDYNALVA disse...

Mari!
É realmente uma questão a ser analisada.
E digo mais... pode ser ampliada, porque além dos escritores, os artistas de uma forma geral, incluem-se na categoria dos vícios.
Será que é por que não sabem lidar com o sucesso?
“Faça desta Páscoa, a tua Páscoa. Faça desta ressurreição, tua ressurreição. Nunca se entregue, pois é somente a cada adversidade que poderemos vislumbrar uma nova oportunidade.” (Ivan Teorilang)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
TOP Comentarista de março com 4 livros 3 ganhadores, participem!

Vanessa Sueroz disse...

Oie,
não conhecia o livro e confesso que pela capa não não leria nem a sinopse. Achei a história bacana, mas fiquei na dúvida se iria gostar tanto da leitura

bjos
http://blog.vanessasueroz.com.br

Vinicius Correa disse...

Um livro diferente, mas valido. A questão proposta é muito interessante, afinal, não é tão incomum ver casos de artistas ou qualquer outra pessoa mais famosa, que se envolveram com o uso de alcool e drogas. É um tema deprimente, mas curioso também.

Abraços,

Blog Decidindo-se \o/

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Um livro bem diferente do que estamos acostumados. Apesar de não fazer muito meu estilo, eu acho que leria.
Beijos
Balaio de Babados
Participe do sorteio Mês das Mulheres em Dobro
Porcelana - Financiamento Coletivo

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Por mais que tenha adorado sua resenha, devo dizer que não fiquei interessado em ler o livro. A premissa não chamou minha atenção, sabe? :/

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Gabriela CZ disse...

Vi esse livro lá no Skoob mas acabei nem lendo a sinopse. Falha minha, pois achei a premissa super interessante, Mari. Várias vezes me pego pensando nessa questão de como grandes mentes, não só da literatura mas da música, artistas plásticos e cênicos e até da ciência e filosofia, tinham/tem vício em álcool e/ou drogas. O que bate de frente com as pessoas "comuns" que tem esses vícios. Realmente creio que não exista uma explicação lógica para isso. Vou dar uma olhada nesse livro. Ótima resenha.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Outro dia estava pensando exatamente sobre a mesma coisa. E não é apenas na literatura, em outras artes os gênios muitas vezes também se viciam em diversos tipos de drogas.
Quanto ao livro, achei a premissa fascinante. Essa mistura de estudo literário, viagem e desbravar autores a partir do alcoolismo é genial. Só não leria a obra agora porque dos autores mencionados no livro só conheço o Hemingway.
Ótima resenha.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

Teca Machado disse...

Mari, quando comecei a ler a resenha, pensei "hum... Esse livro não me chama a atenção", mas aí continuei e pensei "eu quero ler esse livro agora".
Adorei o fato de ser seis mini biografias, me interesso principalmente por Fitzgerald e Hemingway.
Isso de beber (ou mesmo usar drogas) para se criar também acho que é desnecessário. Mentes geniais conseguem criar sem efeito de algo. Mas vamos ser sinceras e assumir que muitos dos gênios da arte e da música usam e abusam disso, né?

Beijoooos

www.casosacasoselivros.com

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Não conhecia o livro, mas só de ler a sua resenha já percebi que é o tipo de leitura que vai me agradar. Gosto de biografias e como passei por problemas de alcoolismo em casa, e sei a barra que é tanto para pessoa como para a família.
Dica anotada!

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Theresa Cavalcanti disse...

Parece bem interessante, mas não sei se irei ler.

Theresa Cavalcanti disse...

Parece bem interessante, mas não sei se irei ler.

Vida de Leitor disse...

Oi Mari, suas resenhas são as melhores. Gostei de saber, nunca li algo de gênero mas esse me chamou a atenção. Vou procurar mais sobre os autores pra ler algo deles também.

Beijos,
Natália

www.doprefacioaoepilogo.blogspot.com

Minhas Impressões disse...

Olá, Mari.
Achei fascinante a ideia da autora em analisar a vida dos autores partindo de algo em comum: o alcoolismo.
Desses citados, só conheço a fundo a obra do Carver e um pouco do Fitzgerald, mesmo assim, é um livro que eu leria.
Abraços.

Caverna Literária disse...

Mari, que demais esse livro! Sempre me passou pela cabeça também o porquê de todas essas grandes mentes terem se suicidado ou entrado no mundo de drogas e álcool. Imagino que nenhuma teoria ou livro vá chegar perto do real motivo, mas dá pra compreender um pouco melhor, assim como o livro do Renato Russo chamado Só por hoje e para sempre, já ouviu falar? É um livro muito bom, do jeito que esse parece ser também. Fiquei muito curiosa em ler!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem resenha nova no blog de "Se eu morrer antes de você", vem conferir!

suzana cariri disse...

Oi!
Ainda não conhecia esse livro, nem todos os grandes autores que o livro trás mas achei uma obra bem interessante me deixando curiosa para ler e parece que a Olivia Laing fez um excelente trabalho nesse livro !!

Blog Friendzone disse...

Esse é o tipo de livro que me atrai, parece uma leitura excelente e que faz nós (leitores) se contorcer por horas em devaneios, e é isso que procuramos nos livros: Devaneios para nossa vida. Não há coisa melhor que tirar algo de uma leitura e aplicar em nossa vida.
http://blogfriendzone.blogspot.com.br/

Sil disse...

Olá, Mari.
Esse é o tipo de livro que eu não leria por preferir ler ficção. Mas é um tema bem interessante mesmo. Eu já havia parado para pensar nisso. Será que ainda seriam os mesmos sem o vício? E não é só na literatura que isso acontece, vide os ótimos cantores que morrer por causa do vício.

Blog Prefácio

Jessica Andrade disse...

Oi Mari,
É uma tema interessante, mas infelizmente não faz muito o meu estilo.
Não conhecia a obra e nem o autor mas fico feliz que tenha gostado.
Bjs
Diário dos Livros

Leandro de Lira disse...

Oi, Mari!
Interessante essa análise. Nunca havia parado para pensar neste detalhe. Vejo que este livro deve ser bem pesado como até você citou. Não sei se o leria. Acho que o que muito mais me interessa é ler as principais obras de cada autor.
Inclusive pretendo fazer isso ainda este ano.
Em suma, adorei conhecer o livro e a resenha está maravilhosa (como sempre).
Abraço!

"Palavras ao Vento..."
www.leandro-de-lira.blogspot.com

Sarah Fernandes disse...

Olá! Adorei sua reseha, ficou ótima, mas o livro não me despertou atenção, não faz muito meu estilo, então acho que não leria ^^

Beijos
http://resenhaatual.blogspot.com.br/

Sozinha Na Biblioteca disse...

Oi Mari! Que interessante esse livro, o tema me chamou muita a atenção, nunca tinha pensado muito sobre isso mas é realmente muito comum grandes escritores serem alcoólatras. O Bukowski também seria um ótimo exemplo. Fiquei bastante interessada pelo livro, com certeza já quero na minha estante!

Beijos

Sozinha Na Biblioteca

Mari disse...

Muito interessante o tema do livro e a maneira como ele é abordado. Realmente, vários dos grandes nomes da literatura bebiam muito, né? Gostei da ideia. Não sei se é meu tipo de leitura, mas achei interessante.
Beijos
Mari
www.pequenosretalhos.com

Carolina Garcia disse...

Olá, Mari!

Eu achei sua resenha muito boa mesmo.
Mas devo confessar que não gosto do Capote e não tenho interesse algum por sua vida. xD
Tirando ele, a lista de autores que descreveu com problemas alcoólicos é realmente fascinante.
Não dá para de fato descobrir uma conexão real e - devido a problemas familiares - eu abomino bebidas alcoólicas, mas é notável que grandes gênios têm algum distúrbio que os tornam o que são/foram.

Acho que a bebida foi um meio que encontraram de expiar os problemas por alguns instantes ou pode ter sido outra coisa também. Mas acho que o álcool não foi o problema de fato, acredito que tudo já estava neles e o álcool foi apenas uma rota de fuga para encarar o que não conseguiam sóbrios.

Mas isso também é apenas a opinião de uma reles leitora. Nunca saberemos de fato como outra pessoa pensa. Até porque não temos esse poder ainda. ;)

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Cris Setúbal disse...

Eu ainda não conhecia esse livro e achei a premissa bem interessante, e apesar disso, não é um livro que pretendo ler, ele não faz muito o meu estilo. Beijo!

Jess Sena disse...

Oi, tudo bem?
Vendo a capa não imaginava sobre o que se tratava.
Gostei da premissa e adicionei a minha lista no skoob.

Bj
@saymybook
saymybook.blogspot.com

Gabrielle Batista disse...

Eu simplesmente amei a resenha do livro.
Sempre gostei de obras que permitem o leitor conhecer personalidades que de alguma forma, influenciaram em nossas vidas.
A ideia de poder entender um pouco da mentalidade desses autores tão renomados, é INCRÍVEL!!!

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