quarta-feira, 26 de julho de 2017

RESENHA: O Sorriso da Hiena

“O mal é um estado natural do ser humano, que nasce sem a noção de certo e errado, sem consciência moral, agindo para saciar suas necessidades, movido apenas por seus instintos selvagens. Em um mundo onde o mal nasce com a gente, todos fariam qualquer coisa, sem apego à moralidade, para não sucumbir.” (ÁVILA, 2017, p.204)

Há pouco tempo escrevi uma coluna falando sobre como a minha motivação de ler um livro é a expectativa de encontrar uma trama original protagonizada por bons personagens e conduzida por uma boa narrativa, e sobre como pouco me importa se o livro em questão foi escrito por homem, mulher, autor nacional ou internacional. Na ocasião, citei, como exemplo, “O Sorriso da Hiena”, livro de estreia de Gustavo Ávila que estava prestes a ser lançado pela Verus, após ter sido publicado de maneira independente pelo autor, e que apresentava uma premissa bastante atraente. Após finalizar a leitura, fico feliz em responder afirmativamente a pergunta daquela coluna: o livro merece sim espaço e sem dúvidas pode abrir caminho para outros autores do gênero.

William é um psicólogo infantil que há tempos finalizou seu doutorado frustrado por não poder fazer mais pelas crianças, além de elaborar teorias que não poderiam ser testadas. Até que ele é contatado por David com uma proposta que o fará avaliar tudo que acredita ser certo ou errado. Seria um episódio violento e traumático de infância responsável por transformar essas crianças em adultos violentos? Para saber isso, David planeja assassinar cinco famílias, deixando que apenas o filho de 8 anos sobreviva, da mesma maneira que aconteceu com ele na infância. A William cabe acompanhar o desenvolvimento dessas cinco crianças e, assim, contribuir para o desenvolvimento de muitas outras no futuro. Ao detetive Arthur Veiga cabe solucionar essa série de assassinatos.

A primeira coisa que me fisgou em “Sorriso da Hiena” foi o dilema moral a que William é submetido: independente de ele aceitar, ou não, conduzir o estudo que David propõe, as crianças ainda assim passarão pelo trauma de perder os pais, pois nada impedirá David de cumprir seu objetivo. Então, por um lado, o pensamento é: “Se não posso impedir que o mal aconteça, posso fazer algo de bom com ele.” Por outro, o que compactuar com essa série de crimes diz sobre William, tanto como psicólogo quanto como homem? E independente de qual seja a decisão que ele tome, como ele irá conviver com ela, sabendo que ou faz parte desses traumas, ou privou o mundo acadêmico de um estudo que poderia ser revelador? Isso é o que torna a trama de Gustavo original: colocar o protagonista em uma situação em que não existe escapatória, já que o certo é errado e o errado também é certo.

A trama é apresentada por três ângulos, todos narrados em terceira pessoa: de um lado temos William, seu dilema, seu trabalho com os pacientes e os relacionamentos com a noiva e o melhor amigo; do outro temos David, seus crimes e argumentos; e, por fim, temos Arhur, o detetive que sofre de Síndrome de Asperger e que é encarregado de investigar os casos. Os três personagens trazem elementos interessantes para a trama e é fácil perceber que, caso quisesse, Gustavo poderia ter explorado ainda mais a fundo os dois últimos. Eu, particularmente, teria adorado adentrar ainda mais a alma perversa de David e acredito que Arthur renderia uma ótima série de livros, já que a síndrome faz com que ele tenha uma visão peculiar das cenas e dos envolvidos em um crime, além de proporcionar um desenvolvimento pessoal promissor. Nos três núcleos, a trama se sustenta bem, de forma que se torna até difícil apontar quem é o protagonista da história já que cada um é responsável por uma ponta: David é a maldade, Arthur é a justiça e William é o dilema.

Talvez uma das armadilhas mais fáceis de se cair ao escrever um suspense policial, em especial para um autor estreante, sejam as reviravoltas a todo instante e os cliffhangers desnecessários. Mas esse é um pecado que Gustavo não comete, conduzindo sua trama com um ritmo envolvente e um suspense que, ao invés e fazer joguinhos com o leitor, se mantém fiel à situação principal e busca um crescente sempre no mesmo rumo, ao invés de tentar dar voltas que causariam um impacto momentâneo, mas sem real função dentro da trama.

Outro ponto positivo são os diálogos, que soam naturais sem forçar uma linguagem coloquial que arranharia os ouvidos do leitor, destoando da narrativa (outro deslize comumente cometido por autores iniciantes).

Mas, como nem tudo são flores (aliás, flores têm um papel macabro dentro da trama) há algumas atitudes de William que não me convenceram e que só não me incomodaram mais porque não tiveram grandes repercussões na história. Ainda assim, os deslizes são perdoáveis porque eu até acredito que o psicólogo poderia ter tomado tais atitudes, apenas não me convence a maneira como  isso se deu. 

Sempre fico feliz quando vejo novos autores despontando no cenário nacional e, amante da literatura policial como sou, fico ainda mais feliz quando se trata de um autor do gênero, tão carente de bons representantes por aqui. “O Sorriso da Hiena” agrada por apresentar a típica investigação policial e, mais ainda, por presentear o leitor com um interessante dilema moral. Seus personagens cumprem sua função na trama e ainda deixam o leitor querendo conhece-los um pouquinho mais. O texto faz dele uma leitura rápida e envolvente. Trama, personagens e narrativa. Gustavo Ávila consegue entregar satisfatoriamente a trinca para o seu leitor. Uma estreia segura de um autor promissor.

Título: O Sorriso da Hiena
Autor: Gustavo Ávila
N° de páginas: 266
Editora: Verus
Exemplar cedido pela editora 

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17 comentários:

Elidiane Ferreira disse...

Oi, Mari!
Esse livro está sendo bem comentado, e fico feliz por ser um livro nacional! O livro não faz muito meu gênero, mas quero muito ter a oportunidade de lê-lo e conhecer esses personagens! :)
Resenha incrível!

Beijos!
Eli - Leitura Entre Amigas
http://www.leituraentreamigas.com.br/

Naiara Fidelis Da Silva disse...

Não tenho nem o que falar deste livro.

Quero ler logo, faz tempo que estou de olho nele, mas eu estava esperando ser lançado pela editora e abaixar um pouco o preço.

Amo livros neste gênero e a premissa me chamou a atenção logo na primeira vez que li.

Lana Silva disse...

Já quero me preparar psicologicamente para ler este livro, e quero analisa-lo de um anglo mais altruísta vamos dizer assim, sou estudante de graduação em psicologia, e entendo perfeitamente das questões de teorias proposta, mas que não podem ser testada, e isto foge totalmente do código de ética, enfim, quero muito saber como o autor desenvolvera esta trama, e qual será seu desfecho. Espero encontrar uma ótima construção, com amarrações plausíveis.

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http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Eu gostei muito desse livro, mas assim como você tem algumas coisas que me incomodaram e por isso não dei nota máxima no Skoob. No geral, eu achei uma história diferente e interessante.
Beijos
Balaio de Babados
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Monyque Evelyn disse...

Olá, tudo bem? Lindo blog, já estou seguindo.
Ainda não conhecia este livro, parece ser bem interessante.

http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

Teca Machado disse...

Oi, Mari!
Já vi muita gente falando bem desse livro, mas é realmente a primeira resenha que leio dele.
E me interessou muito!
Fiquei beeeeeem curiosa com a história, com todo esse dilema moral, toda essa questão do trauma.
Bom ver que os pontos negativos nem são tão negativos assim e não chegam a influenciar uma história muito boa.
E se tem algo que eu não tenho é preconceito contra o autor: Pode ser homem, mulher, brasileiro, americano, inglês, norueguês, o que seja.
:D

Beijooos

www.casosacasoselivros.com
www.livrosdateca.com

Gabriela CZ disse...

Que livro, Mari! Estava com certa curiosidade sobre ele e até tive vontade de ir no evento de lançamento que teve aqui, mas tive um compromisso no mesmo dia. Enfim, a premissa é genial e pelo visto a trama está a altura. Bom saber que temos um novo autor de romances policiais que se equipara aos grandes nomes internacionais. Quero ler. Ótima resenha.

Beijos!

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Gostei bastante da resenha, acho super interessante a proposta do livro, e fiquei bem curiosa para ler essa obra tão comentada do Gustavo Ávila!
Bjoss

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, tudo bem? Só leio críticas positivas do livro e fico feliz que o autor não tenha caído nas habituais armadilhas. O livro já está na minha lista (enorme) de leituras rs

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Sora Seishin disse...

Oi Mari!
Que interessante a história desse livro!
Eu também gosto de livros policiais, fiquei com vontade de ler.

Beijos,
Sora | Meu Jardim de Livros

Victor N. Souza disse...

Oi Mari!

Está é a segunda resenha que leio do livro, e confesso que em comparação da primeira a sua foi bem mais completa, porque despertou em mim o desejo pelo título e a curiosidade sobre o passado da vida de David e sobre a vida do psicologo infantil, William. Estou meio eclético com os gêneros literários, mas acredito que esse poderia sim ser um dos meus preferidos de 2017. Assim que eu tiver oportunidade vou lê-lo com certeza.

PARABÉNS pela resenha, está ótima!

Grande abraço,
www.cafeidilico.com

Márcia Saltão disse...

Oi, tudo bem?
É a primeira resenha que leio desse livro, apesar de já conhecer o mesmo. Gostaria de ler, pois é um gênero que muito eu gosto. Apesar desses pontos não tão positivos, que você citou, quero ler e poder tirar minhas próprias conclusões. Adorei a capa!
Ótima resenha, como sempre.
Beijos.

RUDYNALVA disse...

Mari!
Gosto dos livros no estilo, onde podemos confrontar determinados comportamentos do que é ou não ético, principalmente relacionado a pesquisas ‘científicas’ que poderão possibilitar comportamentos futuros sobre determinado assunto e posicionamento.
Se os protagonistas são cativantes e bem estruturados pelo autor, fica ainda melhor de fazer a leitura.
Bom final de semana!
“Ciência é conhecimento organizado. Sabedoria é vida organizada.” (Immanuel Kant)
Cheirinhos
Rudy
TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Monique Vivendo Sentimentos disse...

Estou ouvindo coisas muito bacanas sobre essa história, parece ser bem interessante. E essa capa, é muito bonita!

www.vivendosentimentos.com.br

Ana I. J. Mercury disse...

Oi Mari!
Que resenha linda e empolgante!
Olha, confesso, não gosto tanto de romances policiais, mas esse, parece realmente incrível.
Além dessas perspectiva sobre os três personagens. Achei muito original e bacana. Fiquei curiosa pra saber o que acontecerá e como o autor os intercalam.
bjss

Aline Bronkhorst disse...

Oi Mari!
Eu estou em busca de autores nacionais que eu goste e vou dizer que a tarefa anda bastante difícil. Ainda não conhecia o trabalho do Gustava Ávila e ele definitivamente vai pra lista de leituras. Espero que eu goste!
Beijos

http://www.booksimpressions.com.br/

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Eu gostei muito da sua resenha!! Já tinha visto esse livro, mas com a falta de tempo eu não consegui nem ler a sinopse.
Achei a história muito interessante e o dilema moral mais ainda, como citou acima.
Já vou adicionar na minha lista de desejados! ;)

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

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