domingo, 25 de março de 2018

RESENHA: O mundo pós-aniversário

Depois de uma leitura impactante como “Precisamos Falar Sobre o Kevin” é difícil não confiar em Lionel Shriver para executar qualquer premissa. Em “O mundo pós-aniversário” ela pega uma pergunta que, ocasionalmente, todos nos fazemos e a transforma não em uma, mas em duas tramas interessantíssimas.

Irina, casada com Lawrence, é uma ilustradora de livros infantis. Sua editora, June, casada com Ramsey, há anos sugere que as duas saiam jantar com os maridos. Quando elas finalmente conseguem encontrar uma data na qual os quatro estejam livres, a data coincide com o aniversário de Ramsey e dá início a uma tradição que perdura por anos: no aniversário de Ramsey, o quarteto sai para jantar. Mas, eventualmente, June se separa de Ramsey e rompe relações profissionais com Irina, de forma que o quarteto se reduz a um trio. Até que em um determinado ano, Lawrence está em viagem e o jantar se resume a Irina e Ramsey. Ao estar sozinha com este homem charmoso com quem ela nunca teve muita afinidade, surge uma vontade incontrolável de beijá-lo e é no breve momento que antecede o beijo que sua vida encontra uma bifurcação: beijá-lo e trair Lawrence, ou manter-se fiel ao marido?

Tenho por regra fugir de histórias envolvendo triângulos amorosos, mas também tenho por regra acreditar que a maneira como uma história é contada vale mais do os fatos que ela conta (e, claro, os personagens valem mais do que tudo). E é isso que torna o livro de Shriver tão genial. Não temos uma história e sim duas histórias que surgem a partir da bifurcação na vida de Irina.

A última cena do primeiro capítulo deixa a nossa protagonista a segundos de beijar Ramsey. A partir disso, a narrativa se desdobra em duas: teremos dois “segundo capítulo”, dois “terceiro capítulo”, dois “quarto capítulo”, e assim por diante, porque teremos duas histórias. Em uma, Irina beija Ramsey, na outra, não. Assim, Shriver leva o “e se?” ao extremo e explora as duas possibilidades. Se ela beijasse Ramsey, o que se seguiria seria isso. Se ela não beijasse, seria aquilo.

É incrível como a autora conduz as histórias. Se tratam dos mesmos personagens e muitos dos mesmos eventos (os mesmos torneios, as mesmas premiações, os mesmos programas de tv, os mesmos jantares), mas vividos de maneiras diferentes por causa daquele beijo que em uma realidade aconteceu e na outra não. Dessa forma, às vezes uma mesma frase é dita com conotações completamente diferentes, em outras, algo que Irina diz para Lawrence, por exemplo, é dito por ele para ela na outra realidade. Até mesmo o tempo que leva para moer os grãos de café e preparar uma torrada no café da manhã acaba sendo um evento totalmente diferente após o “beijo”. Assim, “O mundo pós-aniversário” é composto de pequenos momentos que o tornam genial.

“A ideia é que a gente não tem apenas um destino. As crianças, cada vez mais novas, são pressionadas a decidir o que querem fazer na vida, como se tudo dependesse de uma única decisão. Mas, seja qual for a direção tomada, haverá altos e baixos. A gente lida com uma série de compensações e não com um rumo perfeito, comparados ao qual todos os outros seriam uma porcaria. (...) Há vantagens e desvantagens variáveis em cada um desses dois futuros que rivalizam entre si. (...) Em ambos, tudo dá certo, na verdade. Está tudo certo.” (SHRIVER, 2009, p. 398)

É admirável como as duas histórias são totalmente plausíveis. Como as angústias de Irina são completamente diferentes nas duas histórias, mas funcionam da mesma forma. Tanto que não é o objetivo da autora eleger uma versão como sendo verdadeira e a outra imaginação/conjectura/sonho/realidade paralela ou qualquer coisa desse tipo. São duas possibilidades, igualmente admissíveis, que mostram que não é se manter fiel ao marido ou, por outro lado, se entregar a uma paixão intensa que fará Irina feliz ou infeliz. As duas situações trarão alegrias e tristezas e, em alguns momentos, a farão desejar não ter agido como agiu. São escolhas e consequências.

Outro ponto que vale ser destacado é que as histórias são tão densas que quando estamos lendo uma esquecemos totalmente da outra. Por isso não há razão para confundir o leitor sobre em que “mundo” ele está, mesmo que as duas versões usem da mesma voz narrativa (onisciente, com foco em Irina). O que também prova que um bom autor não precisa daquela - atualmente tão banalizada - troca de narrador protagonista para apresentar ao leitor outra perspectiva dos mesmos acontecimentos, ou lançar uma continuação da história para fazer o mesmo.

Sem medo do desafio, a autora desenvolve a história ao longo de cinco anos, de forma que podemos ver as consequências a longo prazo da escolha de Irina. O desfecho foi mais ou menos como eu previa desde o início, mas eu jamais poderia ter imaginado o caminho que Shriver trilharia até lá. Não é que o livro seja surpreendente, mas é que ele é tão verossímil que, da mesma forma que é impossível prever os desdobramentos da vida, é impossível prever os de “O mundo pós-aniversário”.

Nesta minha segunda experiência com Lionel Shriver, constatei que ela é um daqueles poucos escritores que não tem um gênero definido. “Kevin” é um thriller psicológico como poucos, perverso das piores formas, daqueles para quem realmente tem estomago. “O mundo pós-aniversário” é um drama com foco na vida amorosa da protagonista. Cada um intenso a seu modo. Suas premissas habilmente exploradas ao máximo. Bons personagens, excelentes conflitos. Sem dúvida uma autora que pretendo conferir todos os livros.

Título: O mundo pós-aniversário
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 542
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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18 comentários:

Daiane Araújo disse...

Oi, Mari.

É intrigante e instigante a maneira que a autora resolveu criar a história, tendo como destaque as possíveis probabilidades do o "se".

Bem como a análise da personagem, diante de suas decisões e consequências.

Não sei se esse tipo de leitura funcionaria comigo, pois ao meu ver, a narrativa pode se tornar arrastada...

Vanessa Vieira disse...

Gostei da resenha Mari. Assim como você, não sou fã de triângulos amorosos, mas achei a trama desse complexa e bem interessante. Beijo!

www.newsnessa.com

Gabriela CZ disse...

Fiquei intrigada, Mari. Mais do que a premissa, a execução da trama parece brilhante e envolvente. Fiquei curiosa e quero conferir. Ótima resenha.

Beijos!

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, eu nunca li nada da autora e também não gosto de triângulos, mas confesso que fiquei bem interessada com essa história, que parece tão real e tão possível, fiquei curiosa!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Catarina Pinheiro disse...

Oi Mari!
Não li o "Precisamos falar sobre Kevin" mas vi o filme e se for tão bom, com certeza vou esperar uma super trama do livro. Achei muito interessante os gêneros totalmente diferentes, e como o autor consegue fazer bem os dois tipos. Com certeza deve ser um excelente escritor!
Bjs

Espiral de Livros disse...

Oi Mari,

Nossa, a forma como essa história é contada parece ser totalmente diferente. Como nunca li nada parecido, difícil dizer se gostaria ou não, mas realmente a questão do triângulo amoroso me incomoda muito e acabo por deixar essas leituras passarem.
De qualquer forma, obrigada pela indicação.
Resenha ótima!

Beijos
http://espiraldelivros.blogspot.com/

Mrs. Margot disse...

Pela capa do livro diria que era um thriller, na verdade pela história e pela sua resenha tão detalhada acho que não iria gostar muito dessa história, mas ainda bem que você gostou =)

MRS. MARGOT

Diane disse...

Olá...
Ainda não conhecia a obra em questão, mas, adorei seus comentários sobre a obra! Achei a premissa muito legal e pelos seus comentários a obra possui vários elementos que me atraem em uma leitura... Espero poder ler em breve <3
Valeu pela dica!
Bjo

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Caverna Literária disse...

Oi, Mari!

De início, fiquei com um pé atrás ao ver como a história possui um triângulo amoroso e que se estende por basicamente o livro inteiro, mas achei super legal a ideia da historia em desenvolver as duas possibilidades, onde ela segue suas vontades e onde prefere se manter fiel ao marido. Fiquei curiosa pra saber o caminho de ambos os acontecimentos!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br

RUDYNALVA disse...

Mari!
Ideia interessante da autora em trazer duas histórias dentro de um livro. Se beijar, acontece tal coisa, se não beijar, acontece outra.
Tambpem fujo dos triêngulos amorosos, mas como falou, depende do contexto que será usado e pelo jeito, aqui foi bem empregado.
“Jamais sofra antecipadamente. Pense positivo. Acredite nos seus sonhos. Nunca desista de lutar. A vida é generosa para aqueles que acreditam nela.” (Vitoria Cirilo)
cheirinhos
Rudy
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Tamires Marins disse...

Oi, Mari

Nossa, não conhecia o livro, mas achei interessantíssimo essa abordagem feita sobre o "e se". Já li um livro no estilo, Três Vezes Nós, e foi uma experiência muito bacana. Vou anotar a dica para não esquecer! :D

Beijo
- Tami
http://www.meuepilogo.com

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Eu não conhecia esse livro da Lionel, mas fiquei super interessada, principalmente como ela desenvolve a história, nesses "e se?"
Beijos
Balaio de Babados

suzana cariri disse...

Oi!
Acho muito interessante esse conceito de penas escolhas que mundão totalmente sua vida, seu caminho, por isso gosto muito quando temos livros que exploram esse tema, principalmente por ela inicialmente trazer uma especie de triangulo amoro, o que também me deixou com receio no começo da resenha, mas ao trazer mais detalhes essa historia foi me chamando cada vez mais atenção, quero muito ler !!

Sil disse...

Olá, Mari.
Você acabou de fazer minha lista aumentar. Não conhecia esse livro ainda, mas adorei essa ideia de seguir as duas linhas a partir de um e se. Quantas vezes não pensamos isso em alguma história e aqui isso realmente foi possível. É claro que vou querer ler.

Prefácio

Camila Faria disse...

Que interessante Mari. Eu costumo fugir de livros com essa temática de romance e triângulo amoroso, mas não me parece ser o caso desse livro. Me lembrou um filme chamado Sliding Doors, que tem uma premissa parecida (acompanha os acontecimentos na vida da protagonista, sendo que na primeira versão ela pega o trem e na segunda versão ela perde o trem). Vou deixar o link para você dar uma olhada: http://www.imdb.com/title/tt0120148/

Um beijo!
Não Me Mande Flores

Adriana Holanda Tavares disse...

Realmente, Lionel Shriver é uma autora que tem uma audácia ao escrever seus livros, uma coisa que a torna única. Sua resenha despertou curiosidade para ler esse livro, parabéns!

Responder

Ana I. J. Mercury disse...

Oi Mari,
nossa, adorei sua resenha, fiquei com muita vontade de ler o livro, agora!
Não é o meu gênero preferido e que costumo ler, mas pelo que você disse, me empolguei, além de ser uma história beeeem diferente e original mesmo!
Anotado aqui!
bjs

Carolina Santos disse...

Esse livro realmente conseguiu chamar a minha atenção de varias formas possiveis menos pela capa. Amo um bom romance carregado de um bom drama coisa que nesse livro tem de sobra. Concerteza quero ler esse livro e espero ansiosa pelas tretas que vão rolar

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